Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, agosto 17, 2008

LUIZ DA SILVA

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
Rádio Educadora de Piracicaba AM 1060 Khertz
Sábado das 10horas ás 11 horas da Manhã
Transmissão ao vivo pela internet : http://www.educadora1060.com.br/

A Tribuna Piracicabana
http://www.tribunatp.com.br/

Entrevista 1: Publicada: Ás Terças-Feiras na Tribuna Piracicabana

Entrevista 2: Publicada no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

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Entrevistado: Luiz da Silva

DATA: (12 agosto 2008)


São vários atributos que formam uma pessoa de sucesso. Escolher o que vai fazer da sua vida, amar essa função e nunca, jamais, desistir dela. Muita dedicação e humildade. Uma determinante para chegar cada vez mais longe é procurar se superar cada vez mais. Traçar uma meta baseando-se em ultrapassar os próprios limites. Dessa maneira, quando menos esperar, chegará mais alto. Luiz da Silva é um exemplo de fé, persistência, humildade, e determinação. Muitas pessoas têm com a mãe de Luiz, Dona. Emília uma dívida impagável. Só aqueles que freqüentaram o seio dessa família podem avaliar a importância anônima e avessa á qualquer tipo de divulgação sobre as inúmeras pessoas e famílias que foram beneficiados pela Dona Emília, mãe de Luiz, Nilza e José. Essa educação sólida, embasada em valores morais e espirituais é que ainda faz com que o ser humano acredite ser dono de qualidades, fraternidade, solidariedade, que muitos consideram ultrapassados, em nome de um materialismo avassalador. Luiz da Silva nasceu em 31 de março de 1934, na cidade de Piracicaba. Filho de Emília Vieira e Silva e João Silva. São seus irmãos Nilza Silva e José Maria da Silva.
Luiz o senhor nasceu em uma casa construída pelo seu pai e seu avô?
Eles eram construtores, e no período de 1932 a mão de obra era paga em material. Foi assim que construíram a casa. Meu pai era carpinteiro. Minha mãe nasceu em 4 de julho de 1908, meus vós, seus pais, vieram de Portugal. Somos primos dos videntes de Fátima: Lucia, Jacinta e Francisco. Meu avô veio de Portugal, ele tinha um primo que o aguardava em Batatais. Quando ele chegou á Santos, o encarregado dos imigrantes e falou com meu avô que ele iria trabalhar em uma fazenda de café em São Pedro. Foi muito difícil para ele.
Como ele mudou-se para Piracicaba?
Depois de um tempo, com o auxílio dos frades capuchinhos, eles moraram em uma casa em frente á Igreja dos Frades. Ele então pediu que vendessem propriedades que ele tinha em Portugal. Foi quando ele adquiriu a casa onde passaram a residir. Na época onde é a garagem da Prefeitura na Avenida Dr. Paulo de Moraes era tudo pasto! Aonde hoje é o Toninho Lubrificantes funcionava uma empresa de descaroçamento de algodão. Nós brincávamos na esquina da Rua Joaquim André com José Pinto de Almeida, onde era um terreno descampado. Havia uma casinha, naquele quarteirão, onde morava Dona Carula e Seu Francisco, eles tinham cinco ou seis filhos. Houve uma época em que houve uma febre muito violenta, morreram quatro filhos deles em uma semana! Tod dia saía um caixão da casa deles, com um filho morto. O único que não morreu era um dos filhos que na ocasião encontrava-se na casas dos tios em São Paulo. Depois desa situação minha mãe presenciou uma fumaceira danada naquela casa. Ela foi até lá ver o que estava acontecendo. Tinham aconselhado o casal a queimarem tudo que eles tinham para não transmitir a doença. E eles estavam queimando tudo! Tudo que existia dentro da casa! Foi nessa época em que a minha mãe acolheu o casal. Eles permaneceram morando e uma dependência que tínhamos anexa á nossa casa.
A Dona Emília estava sempre pronta para ajudar a quem necessitasse?
Ela acudiu “meio-mundo” aqui em Piracicaba! Parentes e não parentes! Quanta gente morou em casa!
Seus primeiros estudos foram feitos onde?
Foram feitos no Externato São José, no prédio aonde depois veio a funcionar a Escola de Odontologia, na rua D.Pedro I. Era uma escola excelente! Nesse período, em 1940, faleceu o meu pai. As freiras fizeram questão que nós três continuássemos alunos do externato, oferecendo uma bolsa de estudos integral para nós três, que até então éramos alunos que regulares, inclusive pagando regularmente as mensalidades. Assim completamos o quarto ano primário no Externato São José. Nessa ocasião mudamos para o Bairro Monte Alegre. Eu vinha a pé do Monte Alegre até o Externato São José. O Dr. Lino Morganti e Dona Odila quando me viam na estrada me colocava no carro deles. Eu ia de carro! Quando tinha ônibus, o Dr. Lino deu-me passagens para utilizar os ônibus todos os dias. Ele deu ordem aos motoristas, para quando me vissem dessem carona, tanto para ir como para vir. Teve uma ocasião em que peguei carona na garupa de um burrico, foi difícil agüentar as gozações que meus parentes e amigos fizeram! (risos). Para vir á escola saía de lá ás 10 horas da manhã, para chegar á escola ás 12 horas. As aulas acabava ás 16 horas e 30 minutos, conforme a disposição física chegava ao Monte Alegre ás 18 ou 18 horas e trinta minutos.
De lá o senhor foi estudar onde?
Fui estudar na Escola de Comércio do Professor Zanin, meu irmão já estava estudando lá, onde se formou. Eu permaneci por dois anos lá. Eu era coroinha na Igreja dos Frades e tinha um colega coroinha também o Mário Perin, que se tornou sacerdote. Eu fui para o seminário onde permaneci até o primeiro ano de teologia. Fui para Rio Claro, de Rio Claro para o seminário de Ribeirão Preto, onde permaneci por muito tempo. Quando saí do seminário me senti sem opção de trabalho. Meu irmão conhecia a oficina radio técnica do Lillo, que era mariano, na Igreja dos Frades, e estava estabelecido na Rua Benjamin Constant. Carregava baterias para os rádios de sítio. Ele saiu para atender clientes e me deixou lá. Havia rádios ás pencas para consertar. Eu substituí a válvula de um deles e deixei funcionando. Quando ele voltou disse-lhe: “-Lillo, não sei podia fazer isso, esse rádio aqui tinha a válvula queimada e eu troquei.” Ele me olhou espantado e perguntou se eu entendia de rádio. Eu contei á ele porque era rádio técnico. No seminário, quando mudamos para Ribeirão Preto, todas as noites queimavam os fusíveis e ficava aquela escuridão danada. Eu disse ao Padre Modesto: “-Posso examinar o que está acontecendo?”. Ele disse-me “-Está á sua disposição!”. Comecei a olhar o que acontecia: Queimavam-se os fusíveis. Mas por quê? Subi no forro. Estava tudo em ordem, não tinha nada de especial. Eu estava no quarto ano de ginásio, estava estudando ciências, passei a freqüentar a biblioteca, á procurar causas. A biblioteca do seminário tinha coisas á beça. Tudo que dizia respeito á eletricidade eu devorei! Subi novamente no forro para examinar qual era a causa. Disse ao Padre Modesto: “-Quando fizeram a parte nova do seminário, alguém ligou os fios da parte nova na parte já existente!”. Ele disse-me: “-O que vamos fazer? ” Disse-lhe: “Se o senhor comprar os fios eu coloco-o lá!”. Ele comprou, acho que 600 metros de fio. Era um seminário imenso. Tive que esticar aqueles fios. Toda quarta-feira á tarde os seminaristas iam jogar futebol, era quando eu subia no forro para trabalhar, colocar roldanas, chaves, esticar os fios. Como o serviço era feito só as quartas-feiras á tarde, demorou meses para que eu concluísse. Pus as chaves, os fusíveis, separei a fiação da parte nova com relação á parte velha. Nunca mais deu pane!
Qual foi a reação dos padres?
O Padre Modesto como prêmio me deu o curso do Instituto Monitor. Em prazo de três tempos eu dei conta daquele material, e eu estava formado por correspondência como técnico. Quando fui trabalhar com o Lillo eu já era formado!
Quais eram os maiores problema que aconteciam com os rádios na época?
Queima de válvula, transformador, bobinas, receptores, o grande problema eram as baratas que entravam nos rádios e causavam esses danos. A primeira providencia era remover a barata. Limpar tudo e trocar o componente danificado.
Na casa do senhor tinha rádio?
Um dos primeiros rádios que apareceu em Piracicaba, foi na minha casa. Nós morávamos na Rua Ipiranga, e eu me lembro como vinha gente para ouvir rádio em casa! A tardezinha vinha muita gente para ouvir a Rádio Nacional, Tupy, novelas, programa de auditório, noticiário, Hebe Camargo, ficavam lá até as dez ou onze horas da noite. Meu pai era músico, tocava qualquer tipo de instrumento. Eu não toco nenhum instrumento. Mas participei de muitos corais, aprendi a cantar!
Quanto tempo o senhor permaneceu com o Lillo?
Alguns meses apenas. Eu estava querendo entrar em uma empresa de maior porte.
Quantos idiomas o senhor fala?
Latim, grego, espanhol, inglês, italiano, francês. Já falei correntemente, hoje por falta de uso já não falo com a mesma habilidade. Sempre tive uma memória bastante eficiente. Sempre escrevia tudo que o professor falava. O pessoal percebeu que eu escrevia tudo que o professor falava, queriam meu caderno! Acabava a aula, na hora de estudo, meu caderno passeava. Na hora de escrever eu dominava a matéria. Bastava escrever para gravar a matéria.
O senhor chegou a fazer taquigrafia?
Tentei! Mas descobri que escrevia mais rápido se usasse a minha forma natural de escrever.
O senhor foi trabalhar na Romi?
Entrei na Romi á 16 outubro de 1958. Permaneci lá por quarenta anos.
O senhor participou do projeto da Romi-Isetta?
Não participei! Eu trabalhava na divisão de fabricação de tornos. (N.J. Fabricado durante cinco anos em Santa Bárbara d`Oeste pelas Indústrias Romi S.A., o primeiro automóvel fabricado em série no Brasil teve seu lançamento oficial em 5 de setembro de 1956.)
O senhor foi trabalhar na fábrica da Romi em Santo André?
Eu já estava no topo da faixa salarial em Santa Bárbara d`Oeste. Meu salário não progredia. Vi no jornal o anuncio de Curso de Controle de Qualidade que estava sendo ministrado em São Paulo pelo período de um mês. Era um curso caro. Falei com a minha esposa, concordamos em investir as nossas economias nesse curso. Ao chegar a Romi, falei com o meu chefe, Amauri, comuniquei que iria fazer o curso em São Paulo. Ficaria um mês fora de empresa e depois retornaria. Logo depois ele anunciou que eu iria fazer o curso e que a Romi iria pagar o curso! O curso era á noite, eu estava em São Paulo, passava durante o dia na fábrica de Santo André. A principio eu ficava apenas disponível na fábrica, logo tomei a iniciativa de participar das atividades da empresa, por minha própria vontade. Ao terminar o mês, eles simplesmente não permitiram que eu retornasse á Santa Bárbara. Arrumaram uma casa para que eu morasse com a minha família. Passei a fazer um curso de engenharia que existia na época. Passava dia e noite na fábrica, inclusive aos sábados e domingos. Teve uma ocasião em que tínhamos o compromisso de entregar se não me engano 50 tornos para o México. Passamos dia e noite trabalhando. Lembro-me que teve um dia em que dormi por uma hora deitado em cima de uma mesa! Conseguimos cumprir o nosso compromisso! Eu tive alguns dias de folga depois!
Luiz, o senhor tinha um computador de sua propriedade, lembra-se da marca?
Era um TK-75. Com fita cassete, utilizava um gravador de som comum, era ligado em uma televisão normal. Isso foi em Santo André. Olhando o computador, pensei que poderia ser útil na fábrica. Em Santa Bárbara d`Oeste havia os equipamentos IBM. Levei para a fábrica de Santo André. Tínhamos que mandar informações para Santa Bárbara. Comecei a realizar os registros no TK-75. Após 500 registros acabava a capacidade! Fui dar treinamento na nossa unidade de Joinville. Á noite ia para a biblioteca que tinha um material fabuloso sobre informática. Eu estava preocupado com o limite do TK-75. Eu mexi no cerne do programa, usando a linguagem assembler, foram mudados alguns trechos do programa. De 500 registros passamos a ter uma capacidade muito maior. Ele abriu, expandiu. Quando chegou aos cinco mil registros aquilo era lento! Estudei á valer o equipamento. Para entrar quarenta itens a coitada da máquina ficava perdida. Calculei em quanto tempo a moça levava para digitar com cada registro. Era cerca de dois minutos. Usei esse tempo para aliviar o computador. No dia seguinte ao terminar de digitar, a moça ao terminar de digitar me chamou dizendo: “-Luiz, aconteceu alguma coisa errada aqui!”. A informação estava pronta! O engenheiro Enzo quando chegou, viu aquilo, na semana seguinte recebi um computador IBM completinho, com impressora e tudo! Era o que havia de melhor na época, um XT.
O senhor teve uma moto, com a qual ia até o seu trabalho em Santa Bárbara?
Era uma Jawa-Monark de 125cc. Não havia capacete, nem blusão de proteção.
O senhor treinou muitos profissionais na área técnica?
Eu tive a satisfação de formar mais de 3.500 alunos dentro da fábrica. Chegou aos ouvidos do Senai, que passou a oferecer certificados a esses alunos, isso dentro da fábrica. Saiam mecânicos abalizados!







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TEATRO MUCIPAL DR. LOSSO NETTO PIRACICABA

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
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A Tribuna Piracicabana
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Entrevista 1: Publicada: Ás Terças-Feiras na Tribuna Piracicabana

Entrevista 2: Publicada no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
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Entrevistado: OLÍVIO NAZARENO ALLEONI

DATA: (09/AGOSTO/2008)


Olívio Nazareno Alleoni é médico, nascido em Piracicaba, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba. Em seu livro “Uma Fresta Para o Passado”, trata da presença Italiana em Piracicaba. Escreveu o livro “Cururu Em Piracicaba”. Realizou uma obra de fôlego, abordando o período de 1906 á 2006 em sua obra “Lar dos Velhinhos de Piracicaba”. Reunindo informações, pesquisando, garimpando, agora lança mais uma obra: “Teatro Dr. Losso Netto – Três Décadas de Cultura”. São 30 anos de informações que atestam não só o período da construção física do prédio, mas também de contrastes e mudanças de costumes da própria população. O período que antecede a construção do “Teatro Dr. Losso Netto”, época do velho Teatro Santo Estevão, é descrito de forma clara. Detalhes da derrubada do palco sagrado, onde pisaram artistas de renome. O projeto original do “Teatro Dr. Losso Netto” tinha a dimensão de um administrador que sempre pensou de forma maiúscula, falecido repentinamente. Esse projeto, na época ainda em construção, foi amputado, mudado, transformado, mas passou a existir um espaço para que a arte milenar do teatro se apresentasse á Piracicaba.
O primeiro livro que o senhor escreveu “Uma Fresta Para o Passado” chegou a atingir localidades bem distantes de Piracicaba?
Apesar de ser um livro escrito sobre Piracicaba, nada mais é do que uma mostra do que aconteceu em todo o Brasil com os imigrantes italianos. Muito pouco diferiu aqui com outros locais. Isso cria uma memória, não com o empenho de fazer revanchismo, mas com o empenho de mostrar o que os imigrantes passaram. Esse livro abrange até o período da Primeira Guerra Mundial. Era para ser dada continuidade em um segundo livro. Surgiu a necessidade de escrever sobre Sebastião da Silva Bueno, o Nhô Serra. Cururueiro extremamente importante. Observamos o cururu em toda essa região que abrange Piracicaba, São Pedro, Capivari, Tietê, indo até Pirapora, avançando por Sorocaba até Barra Bonita. Esses livros tiveram uma repercussão tão boa, que me senti extremamente honrado quando o Dr. Jairo Ribeiro de Mattos, Presidente do Lar dos Velhinhos, me convidou para escrever sobre os 100 anos do Lar dos Velhinhos de Piracicaba. Foi um desafio grande, fiz questão de revirar todos os papéis, fazer todos os levantamentos possíveis. É um livro que foi feito em quatro cores, os direitos foram doados ao Lar dos Velhinhos, que é uma entidade que necessita de ajuda. Esse livro encontra-se á venda no Lar dos Velhinhos e a renda é inteiramente voltada em benefício do Lar dos Velhinhos. Quem puder adquiri-lo estará contribuindo para gerar renda para o Lar dos Velhinhos. O livro tem mais de quatrocentas fotos. Tive mais uma surpresa esse ano quando fui solicitado para escrever sobre o Teatro Municipal de Piracicaba. Foi um livro escrito falando de uma entidade e de uma grande personagem. O Teatro Municipal de Piraicaba leva o nome de Teatro Municipal Dr. Losso Netto, que dedicou a sua vida ao jornalismo, á defesa dos direitos humanos. Inclusive, em um tempo em que não se falava muito sobre condições ambientais, nas décadas de 50, 60, ele se atirou de corpo e alma em uma luta contra alguns fatos que degradavam o meio ambiente. Se ele venceu, ou deixou de vencer juridicamente essa contenda, ele conseguiu com que notificações extremamente grandes fossem executadas em Piracicaba, salvaguardando o meio ambiente. Dr. Losso assumiu o Jornal de Piracicaba na década de 40 juntamente com seus irmãos, permanecendo nessa luta até a década de 85, quando ocorreu o seu falecimento. Ironicamente digo nesse livro que Dr. Losso Neto empunhou da caneta e utilizou-a para fazer Piracicaba crescer. Usando-a inclusive como espada para combates em defesa de direitos individuais e direitos coletivos. Toda a população e toda pessoa merece respeito.
O local onde foi construído o teatro o que era anteriormente?
Esse local, na década de 50 era um pasto. Nesse pasto passava o Riacho Itapeva, tinha uma bica um pouco á direita chamada Olho de Nhá Rita.
O Olho de Nhá Rita é a nascente do Itapeva?
Não. O Riacho Itapeva continua mais acima. O Riacho Itapeva é formado pelo Olho de Nhá Rita, por uma outra bica de água que nascia e descia do Seminário São Fidelis. E ainda por uma terceira bica d água menor, que nascia mais acima, na direção da Avenida 31 de Março e formavam o Riacho Itapeva.
Esse pasto era de propriedade pública?
Esse pasto era de propriedade particular. Muito apreciado pelos moleques, que gostavam de nadar em um dois poços de água. O poção onde nadavam os maiores e o poçinho onde os menores também nadavam. Uma parte dessa área pertencia aos Frades Capuchinhos, isso em 1900 aproximadamente. Depois passou a ser propriedade das freiras. Esse terreno foi desapropriado no tempo do prefeito Guidotti e lá veio a ser erigido o teatro. O Teatro Municipal começa a sua história de uma maneira irônica e tormentosa.
Onde eram levadas ao público as peças antes da construção do Teatro Dr. Losso Netto?
Anteriormente havia o Teatro Santo Estevão. Ele foi construído por volta de 1870 na região central de Piracicaba. Nas proximidades do local onde hoje está o monumento aos combatentes de 1932. Ele abrangia aquela área do jardim. Tinha vinte metros de frente por trinta de profundidade. Atrás havia um pequeno sanitário, externo. Em 1850 já havia sido construído um barracão, Arcanjo Dutra que solicitou a construção do barracão, com o intuito de se criar um teatro. Era uma construção extremamente rústica. Em 1890 passou por uma reforma. E na década de 10 passou por outra reforma. Quando foi transformado o prédio em uma construção feita por tijolos é ainda discutível.
Até quando o Teatro Santo Estevão permaneceu?
Permaneceu até 1953. Teve sua fase áurea com apresentações com Procópio Ferreira, Lyson Gaster, e outros artistas. Ele começou a cair em certo ostracismo. Nas décadas de 30, 40, foi decrescendo. Na década de 40 caiu um grande teatro em Campinas matando duzentas pessoas e ferindo mais quatrocentas. Segundo dizem isso criou certa neurose com relação aos edifícios velhos. Havia o temor de que alguns edifícios viessem a ruírem e provocassem acidentes de grandes proporções. Essa preocupação parece que se estendeu até Piracicaba, foi formada uma comissão, e essa comissão optou pela derrubada do Teatro Santo Estevão. Essa é uma das histórias. A derrubada do Teatro Santo Estevão é bastante prolixa. Existem outros fatos, outras teorias. Existem algumas hipóteses relatadas como prováveis, mas nada há de concreto. Nesse período em que foi derrubado o Teatro Santo Estevão, fato ocorrido em 1953. Não houve outro teatro em Piracicaba á disposição da população. Havia o Teatro São José, quando menciono á disposição da população me refiro á preços módicos. A acústica deixa há desejar um pouco, mas ele nunca deixou de funcionar, mas sempre a preços que fugiam ao acesso popular. O cine Broadway poderia eventualmente ser utilizado como teatro. Assim como o Dispensário dos Pobres foi um local muito utilizado como teatro amador de Piracicaba. Havia uma série de ambientes religiosos onde eram utilizados como teatro. A acessibilidade para peças mais severas, com maior contexto, foi distanciada do povo. A Prefeitura Municipal tentou comprar o Teatro São José por duas ou três vezes, sem que conseguisse realizar a negociação. Piracicaba ficou sem um local onde pudessem ser apresentadas peças teatrais. Enquanto isso Campinas continuava crescendo, outros centros desenvolvendo-se e infelizmente Piracicaba delegada a um segundo plano. Essas motivações permaneceram até a década de 60, quando tomou posse o Prefeito Luciano Guidotti. A fase de 1964 trouxe uma série de modificações na distribuição monetária aos municípios. Isso permitiu que em 1965 os municípios se vissem recebendo um excesso de dinheiro. Foi um tempo de “folias”. Muitos prefeitos não sabiam o que fazer com os recursos. Criavam fontes luminosas, chafarizes, jardins. Graças ao tino administrativo do Sr. Luciano Guidotti, foi nessa fase que se pensou em criar um estádio municipal, foram construídas as duas pontes, e se lançou o Teatro Municipal. Se por um lado Luciano Guidotti tinha um tino administrativo extremamente bom, por outro lado ele tinha certa mania de realizar grandes obras. O Teatro Municipal quando foi começado a erigir era um teatro de primeira linha. Bastam imaginar que ele tinha palcos totalmente móveis com mecanismos hidráulicos, escapes laterais. Aonde se situava o Cine Grande Otelo era nada mais do que o poço de orquestra! Havia condições de trazer peças de grande envergadura, óperas. Se tivesse saído um teatro dessa magnitude nós teríamos um teatro de primeira linha até hoje. Os valores envolvidos nesse projeto eram bem significativos. Nessa época Luciano Guidotti, após um jantar sofreu um infarto que lhe tirou a vida. Com isso o teatro foi relegado á um segundo plano. Na metas de outros governantes que sucederam á Luciano havia outras metas mais importantes a serem atingidas.
Quantas pessoas cabem hoje no teatro?
Na sala principal comporta 670 a 680 pessoas na sala principal. Mais 120 pessoas na sala Dois. Além disso, existe uma área na recepção do teatro onde cabem 500 a 600 pessoas.
A inauguração do teatro foi feita com a presença na platéia dos trabalhadores que o construíram?
Exatamente! As ações governamentais das décadas de 70 e 80 eram ações com alto timbre socialistas, onde se tentava privilegiar de maneira intensa as pessoas que tivessem as menores condições possíveis. Nessa filosofia, quando o teatro foi inaugurado, os trabalhadores braçais, foram chamados para assistirem ao show de Ivan Lins. A peça que deveria ter sido utilizada era de Gianfrancesco Guarnieri “Eles não usam Black-tie”. Que é também uma peça de cunho político.
O principal papel do teatro e suas apresentações é instigar o público a raciocinar?
É obrigar a pessoa a ver não só aquilo a que ela está acostumada, como também a ver outras verdades. Que eu também não sei se são sadias ou não. Cabe á própria população decidir.
O senhor foi muito feliz em colocar fotos de cartazes de alguns dos principais espetáculos encenados no Teatro Municipal.
Esses cartazes me causaram muita angustia. Eu tinha á disposição de 400 a 500 cartazes, de peças que foram levadas no Teatro Dr. Losso Neto. Isso é uma pequena mostra do que foi apresentado. A movimentação foi muito maior. Por ano foram apresentadas aproximadamente 100 peças grandes. Sem contar as peças do teatro amador na sala Dois. Se contabilizarmos ao todo duzentas peças por ano, são 6.000 nesses trinta anos!
Optei em colocar alguns cartazes, com um resumo básico do texto, para situar o leitor com relação ao cartaz em destaque. De 500 escolher 50 cartazes foi difícil. Senti-me um pouco arbitrário em discriminar esses cartazes, mas oportunamente espero trazer ao público a totalidade desses valores.
Qual foi o critério que o senhor usou para selecionar esses cartazes?
O critério está embasado em parte nas próprias modificações que o teatro causou na sociedade. Fui ver as peças mais significativas dentro das modificações sociais, culturais na sociedade.
Qual é a importância do teatro em uma cidade como Piracicaba?
Em minha opinião, o teatro é sempre uma alfinetada existencial! Quando o ator incorpora a personagem ele consegue transmitir sua mensagem com uma veracidade arrasadora. O público, a cada momento, dentro do seu estado de espírito, irá incorporar alguma coisa, que o ator está tentando veicular. Não se discute o que o teatro traz para uma pequena, média ou grande cidade. Desde que se tenha um público sensível á uma discussão interna pelo que o teatro está transmitindo ele já causou um impacto existencial. Se ele criou uma discussão interna, já provocou uma modificação.





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Os rábulas de D. João VI

Os rábulas de D. João VI
Penas, beca, capelo, perucas e rapé
Roberto Paraiso Rocha*
Nestas comemorações do centenário da chegada de D. João VI ao Brasil e no mês em que se celebra o Dia dos Advogados (11 de agosto) – é bom recordar aqueles que, em l808, arribaram nestas plagas com o nosso então Príncipe Regente. Para começo de conversa, a maioria deles – como acontecia com os desta Colônia - não era de advogados, mas de simples rábulas.
Não no sentido comum atual de "advogado de limitada cultura e chicaneiro" (Houais), mas designando aqueles que, na Colônia, no Império e no início da República, exerciam a profissão sem possuírem o diploma de bacharel.
Era uma classe de "práticos do Direito", também denominados de "provisionados" – pois exerciam funções advocatícias graças a uma "carta de provisão", que lhes permitia atuar em um determinado processo judicial. Somente em 1985 foram proibidas novas inscrições destes "provisionados" na Ordem dos Advogados.
Para os brasileiros, naquela época, era muito difícil formar-se em direito, já que teriam de procurar as academias portuguesas, especialmente a famosa Faculdade de Coimbra. Assim, somente os mais abonados tinham condições financeiras para isso. Sem dúvida, foi graças à presença da Corte Portuguesa no Brasil que se criaram, em Olinda e S. Paulo (1827), os primeiros cursos jurídicos e foi nelas que se forjaram as mentes da maioria dos estadistas do Império e do início da República.
Imagem - Mas a figura daqueles rábulas e advogados era muito diferente daquela que agora ostentam os jovens causídicos, hoje quase todos sem barba, cabelos curtos, vestindo elegantes ternos pretos, gravatas vistosas, camisas de panos finos e de mangas compridas, com belas abotoaduras. E alguns fumando elegantes cigarrilhas.
Naqueles tempos d’El Rei, os causídicos eram, em geral, gordos senhores, usando sapatilhas com grandes fivelas, escrevendo com penas de aves e obrigados ao uso de becas, capelo e perucas. E todos habituados ao uso do rapé.
Penas – A redação das peças processuais era feita à tinta, com o uso de penas de aves, procurando-se sempre a mais bela caligrafia – sob pena (perdão pelo trocadilho) de não serem lidas pelos juízes e, assim, certamente indeferidas. Mal poderiam eles imaginar a revolução que viria com a máquina de escrever e jamais poderiam sonhar com a maravilha da digitação em computadores!
Becas – De uso obrigatório nos recintos forenses, era um "traje talar", de cor preta - uma espécie de batina, vestida por cima dos trajes comuns. Como se pode imaginar, um tremendo incômodo neste nosso clima tropical. Por isso, muitos as colocavam sobre o corpo quase nu, correndo o risco das ventanias e acidentes que revelassem a verdade sob os fatos...
Hoje, o uso da beca está restrito ao ambiente dos Tribunais, com um figurino mais simplificado e sempre colocada sobre os ternos (vestidos ou terninhos femininos) ainda geralmente exigidos aos advogados.
Capelo – Com a firme esperança de que o corretor automático de textos de meu computador - ou o revisor da revista - não tenham "corrigido" a palavra para cabelo... – devemos lembrar que se trata de uma espécie de chapéu, de formato alto e circular, usado na cabeça ou trazido nas mãos. Hoje, somente usado nos Tribunais, pelos magistrados, em cerimônias solenes.
Perucas – Como ainda hoje na Câmara dos Lordes da Inglaterra e em alguns países de tradição britânica, as perucas eram de uso habitual. E sem falar nas perucas comuns, de uso não raro pelos causídicos de pouca proteção capilar superior...
Rapé – "Tabaco em pó, para cheirar" (Aurélio), foi vício que nasceu e morreu com o regime imperial. Dele, não escapavam os bacharéis... Nos versos humorísticos e maliciosos de Luiz Gama – ex-escravo e poeta de valor – aqui transcritos com alguma licença poética – todos tomavam o rapé
... Toma "quem inda é calouro,
Que o tomar não é desdouro
...............................................
Toma a velha, a moça toma,
Toma a negra, toma a branca,
Toma o rico, toma o pobre
Tendo a venta sempre franca.
..............................................
Toma o rude lavrador,
Toma o sábio professor.
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Secretário e bedéis,
Veteranos, bacharéis..."
*
- Hoje, transformaram-se os hábitos, alterou-se o perfil dos advogados, a mulher conquistou seu merecido espaço, mudaram-se os trajes, mas esperamos que não se tenha perdido o ideal da busca pelo aperfeiçoamento intelectual, moral e ético de todos – rábulas ou sábios!
_______________
*Procurador do Estado do Rio de Janeiro aposentado. Professor Titular da Faculdade de Direito - UERJ aposentado




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