Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

segunda-feira, março 09, 2009

MARIA HELENA CORAZZA


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS JOÃO UMBERTO NASSIF Jornalista e Radialista joaonassif@gmail.com
Sábado, 07 de março de 2009.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/ http://blognassif.blogspot.com/
ENTREVISTADA: MARIA HELENA CORAZZA


A escritora Maria Helena Vieira Aguiar Corazza é uma pessoa que contagia com sua disposição e simpatia a quem a conhece. Nascida em 12 de agosto de 1937, Maria Helena aparenta uma jovialidade e disposição muito acima da média. Preocupa-se com tudo e com todos. Observadora, sensível e detalhista, ela é uma escritora que se revelou aos poucos. Já há muito tempo escreve crônicas no Jornal de Piracicaba, que são lidas e comentadas entre os seus fiéis leitores. Mãe e esposa, ela assumiu seus compromissos domésticos e familiares com muita dedicação. Recentemente o seu perfil literário tem fluído de forma mais densa, transcrito em seus livros. Publicou “Este livro não é meu...” (poesias), lançado no CALQ em Piracicaba e na Livraria Teixeira em São Paulo em junho de 1974 e “Recados para Tina e outras crônicas”, maio de 1997. Participou de coletâneas e antologias: Em Tempo de Poesia..., com autores piracicabanos em 1980, do Poetismo Brasileiro de 1996 e 1997, Ecologia Brasileira 96 e Guia dos Escritores Brasileiros publicados pela Editora BNL. Participou das “Antologias de Poesias, Contos e Crônicas Scortecci” volumes III, IV, V e VI, Edição Comemorativa – 15 Anos e da 15a. Bienal Internacional do Livro de São Paulo também da mesma Editora. Participou de uma coletânea do Clube dos Escritores de Piracicaba, em setembro de 1996, recebendo deste Clube a Medalha Pedro Álvares Cabral da Sociedade Geográfica Brasileira em julho de 1997 e a láurea de “Academicus Praeclarus” em agosto de 2002. É membro da União Brasileira de Escritores (UBE) há vários anos e da Academia Piracicabana de Letras desde a sua instalação. Detentora de prêmios literários. Fala sobre o lançamento do quarto livro, em agosto ou setembro de 2009, “O Canto dos Querubins” que é referente ás suas crônicas escritas no Jornal de Piracicaba publicadas todos os sábados.
No dia 13 de março próximo, sexta-feira está lançando mais uma obra literária. Será ás 20:30 horas no Hall do Teatro Municipal. O livro “Sem Marido... E Agora?” é um manual de sobrevivência da mulher que ficou só.

A senhora casou-se ainda bem jovem?
Casei-me com 18 anos, meu filho mais velho já tem 51 anos de idade. Sou filha de Jorge Aguiar e Maria Aparecida Vieira Aguiar. Meu pai é da família Aguiar Jorge aqui de Piracicaba e minha mãe era caiçara. Sou sobrinha de Clarice Aguiar Jorge. (Uma grande escritora de crônicas, muito lidas pelos piracicabanos). Nasci á Rua Governador Pedro de Toledo, 162 em frente ao Yazigi, entre a Rua Prudente de Morais e Rua Treze de Maio. A nossa casa era daquelas casas gostosas, arejadas, na frente possuía três janelas de um lado e duas de outro. Quando eu tinha dois anos de idade minha família mudou-se para São Paulo, onde permaneci até casar-me. Embora tenha ficado esse período morando em São Paulo, não perdi o vinculo com Piracicaba. Meus avós paternos residiam aqui. Meu avô chamava-se José Jorge. É interessante observar que o nome do meu pai originalmente deveria ser Jorge Aguiar Jorge, ele aboliu o segundo Jorge do seu nome, passando a ser Jorge Aguiar. Com isso eu passei a levar sobrenome Aguiar. (N.J. A prática de denominar pessoas com nomes idênticos ao sobrenome não é usual na cultura brasileira, porém é utilizada em outras nações). Estudei no Colégio Sagrada Família das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. Formei-me em Piracicaba, no Colégio Assunção. Fui aluna de Benedito Dutra, de Mello Ayres. Tenho um irmão e uma irmã, a Maria Lucia Aguiar Passini que também escreve.
A origem da família Jorge é de qual país?
A origem é a Síria. Meu avô era de Damasco. A minha mãe era de Ubatuba, seus ascendentes eram portugueses, franceses.
Como a senhora conheceu o seu marido?
Foi em Piracicaba, em um baile da Escola de Agronomia Luiz de Queiroz, isso foi em 1953. Foi quando conheci Antonio Corazza Júnior. Casamos no Convento Nossa Senhora do Carmo em São Paulo foi em 7 de julho 1956. A lua de mel foi em Poços de Caldas no Hotel Quissisana. Permanecemos casados por 51 anos. No mês que vem, completará dois anos que fiquei sem o meu marido.
O que leva a senhora a escrever?
Não sei. Simplesmente eu faço. O livro “Sem Marido E Agora?” é um manual de sobrevivência da mulher que ficou só. É o meu terceiro livro. E já estou preparando para agosto ou setembro o lançamento do quarto livro, “O Canto dos Querubins” que é referente ás minhas crônicas escritas no Jornal de Piracicaba publicadas todos os sábados. A minha primeira crônica “Por e para Maria” foi publicada no Jornal de Piracicaba em 1962. Uma coisa é escrever e ler. Outra coisa é ser um escritor popular. Sou sócio-fundadora da Academia Piracicabana de Letras, junto com João Chiarini. A minha cadeira é a de Michel Quoist.
A senhora ensinou a muitos alunos a tocarem piano?
Estudei piano por oito anos. Dei aulas á muita criança aqui em Piracicaba. Tenho três netos que estão tendo aulas de piano. Fiquei por quarenta anos longe do piano, estou voltando a tocar agora. Gosto muito de Chopin.
A senhora é religiosa?
Muito! Sou católica. Sempre fui muito voltada para o meu marido e para a minha casa.
Houve um período em que a convivência das pessoas em clubes sociais era muito cultivada em Piracicaba?
Havia certo glamour. Os bailes do Clube de Campo, Cristóvão Colombo, Clube Coronel Barbosa. Sinto que a importância da pessoa arrumar-se antes de sair de casa mudou. Sempre sobra alguma coisa que envolve certo bom gosto, certa elegância. Um dia já é uma dádiva. Tem que valorizar isso. Não desperdiçar as coisas tão lindas que surgem em nossa vida. Não desperdice o por do sol, o amanhecer. É como cantar.
A senhora acompanha a rápida evolução da informática?
Não sou uma especialista! Mas utilizo bastante para minhas pesquisas, como forma de comunicação. Já me disseram para fazer um blog ou um site e colocar ali também as minhas atividades literárias. Mas não quero. Uma questão de opinião pessoal.
O livro “Sem Marido... E Agora?” que está sendo lançado teve sua origem como?
Os 51 anos de casamento fez com que a nossa vida sempre fosse “um com o outro e o outro com um”. Perdi meu marido em 10 de abril de 2007. É ainda muito recente. O livro é uma forma de prestar uma homenagem á ele. A idéia sobre a própria capa do livro surgiu de uma forma muito natural. O prefácio é de Carlos Moraes Júnior.
Em suas crônicas, há uma abordagem de contestação?
Por volta de 1980, eu colocava o título em uma crônica escrevendo: “Mãe solteira? E o pai solteiro?”. No dia das mães enquanto só havia adjetivos como lindinha, boazinha, eu escrevia: “Mãe esse traste ... Esse estorvo.”
A senhora é um pouco contestadora?
Não sei. Talvez. Vocês é que irão me classificar. Posso ter sido para a época. Hoje há quem já disse que sou conservadora. Acho que eu era “fora da fila”, o que tinha que ser dito eu falava. O mundo mudou tanto que a então contestação passou a ser classificada como conservadorismo. É difícil convencer de que a mulher não pode ficar cega, surda e muda. Ela tem que ter uma paciência enorme, não deve aborrecer-se. Quando eu tirei a carteira de motorista, em 1959, acho que fui uma das primeiras mulheres que dirigiam na cidade. Não era como hoje vemos. O professor que me deu aulas de direção foi o Seu Mônaco, em um carro Ford 1929. Não me sinto defasada com relação á época atual. Pessoas bem mais jovens, com uma visão ampla, um excelente nível cultural me cumprimentam pelos artigos que escrevo. Conheci o Parque Balneário em Santos, ficava em frente ao Hotel Atlântico.
A senhora chegou a tomar o famoso chá da tarde no Mappin em São Paulo?
O meu pai tinha duas lojas de calçados masculinos, um dos produtos em moda era o cromo alemão. Chamava-se Casa de Calçados Aguiar. Uma ficava na Rua Benjamin Constant e a outra na Rua José Bonifácio. Eu ia ao Mappin tomar lanche com as minhas amigas, cheguei a ir com o Antonio, meu marido. Era um lugar muito agradável, com docinhos deliciosos. Em Piracicaba meu pai foi proprietário da Casa de Calçados Marabá.
Por que o livro “Perdi Meu Marido...E Agora?” é um manual de sobrevivência?
Eu alcancei aquilo que eu acreditei que Deus podia me dar. Lutei até o ultimo momento.
Temos que viver um dia a cada vez. Nenhum momento a mais do que um dia em suas 24 horas. Não devemos sofrer além do que temos que sofrer. Não se deve sofrer até perder todas as suas forças. Existe um limite. Temos que administrar a dor, a perda, o sofrimento. Administramos tudo em nossa vida.
O livro “Recados Para Tina” como surgiu?
Eu tinha uma coluna no Jornal de Piracicaba chamada “Recados para Tina”. Uma funcionaria nossa disse-me que a sua irmã Tina lia sempre a minha coluna. Por motivo de viagem eu tinha deixado de publicar algumas crônicas. Quando retornei coloquei no cabeçalho: “Um pequeno recado para a Tina”. Logo passou a ser “Recados para a Tina”. Pegou. Consegui fazer um livro disso. Não se explica de onde vem a inspiração. Não gosto de parar de escrever um livro. Geralmente escrevo primeiro o título do livro. Hoje sou um pouco crítica com relação a alguns dos meus artigos escritos já á alguns anos. Percebo que mudei. Compactei meus pensamentos. Não há a necessidade de florear tanto as coisas. Hoje sou mais objetiva.
Escrever um livro é uma forma de terapia?
Não sei se é uma terapia ou uma colaboração. Acho que é uma missão. Em meu livro “Perdi Meu Marido...E Agora” a minha experiência pessoal contra a dor e a fraqueza eu estou revertendo em benefício de que as mulheres que perdem o marido sofram menos. A mulher que fica sozinha sofre muito. Sempre procurei manter uma postura, sem me mostrar desesperada, desnorteada. Procuro dominar-me para ter a minha vida de forma regular, construir alguma coisa. No dia seguinte ao falecimento do meu marido eu perguntei-me: “O que é que eu vou fazer da minha vida agora?”. Eu me arrumei e fui fazer uma visita á um filho meu. E fui trabalhar. Não dá para driblar ou mascara o luto, ele tem que ser enfrentado. A mudança é radical.
Até algumas décadas passadas, era costume usar um luto pesado?
A mulher pagava um alto preço. O negócio era sofrer. Não é assim. Temos que sair da dor. O horror estampado no rosto da viúva era fruto da sua decisão em não querer ajuda.
Não queria uma acompanhante á noite. Ela queria ficar com a dor dela até morrer. É a última coisa que uma mulher deve fazer.
A senhora acredita que venha a realizar palestras sobre o tema do livro ora lançado?
Pensei a respeito disso um dia desses. O livro aborda pontos importantes que orientam a forma como agir, como cuidar da aparência pessoal, dedicar-se á uma atividade que a pessoa goste de fazer, aproveitar melhor o tempo, manter a família unida na medida do possível, uma vez que a vida hoje absorve muito o tempo de todos. No total são 25 temas abordados. Fugir do mau humor é um dos pontos.
A senhora mantém alguma atividade física?
Eu pratico caminhada. Mesmo que seja em esteira. Tem que haver algum tipo de esporte, senão qualquer coisa provoca um abalo. Como é que uma mulher toda escangalhada vai encontrar um bom ambiente até mesmo na própria família? Chorando pelos cantos? Alguém pode ser uma redoma de feiúra, falta de coragem? O negócio é enfrentar!
E as datas especiais, são difíceis de agüentar?
Nada de choro. Para fazer uma festa de natal onde está todo mundo chorando é melhor que cada um fique em sua casa. A ultima coisa que pode acontecer é a pessoa assumir o papel de vítima. Devemos chutar uma situação dessas. Jamais se descabelar, isso não pode. Temos que administrar a situação. Tudo a vida tem que ser feito de forma disciplinada. A humanidade passa por um período de inversão de valores.
A forma com que os filhos dirigem-se aos pais é mais próxima hoje?
Eu tenho filhos que me chamam por “senhora” e netos que me dizem “você”. Hoje não é mais considerado ofensivo ser tratado como “você”.
A pessoa em uma situação dessas deve tomar algum remédio, antidepressivo?
Só se for louco! Calmante antes de tudo engorda. O negócio é enfrentar. Se a pessoa realmente tiver necessidade de remédio, deve seguir direitinho. Fazer o quem de fazer para dormir e para acordar. Vai engordar. Se não precisar é melhor. Um chá de erva-cidreira, um floral, é bem gostoso para quem gosta e quer fazer até que pode!
De onde vem essa raça toda da senhora?
Acho que vem do meu avô materno Pedro Lino Alves Vieira descobridor da broca do café. Ele é muito conhecido por quem trabalha com o café. Era caiçara, iam até as ilhas, Pariquera-Açu, Iguape. Mamãe está hoje com 95 anos. Ela lê tudo: revistas como a Veja, Época, Contigo.











Piracicaba era servida por duas empresas de estradas de ferro: a Sorocabana e a Paulista.
A Companhia de Estrada de Ferro Ituana foi criada para ligar São Paulo a Itu. Mais tarde ela passou a ser denominada E.F. Sorocabana.A Estação da E.F. Sorocabana, em Piracicaba, ficava em um prédio existente até hoje, situado ao lado do terminal de ônibus urbano.
A Companhia Paulista de Estradas de Ferro mais tarde seria denominada FEPASA – Ferrovia Paulista S/A, estatal. O trajeto até Piracicaba era feito saindo da Estação da Luz, os trens eram tracionados por máquina elétrica. A Cia. Paulista nos levava da Estação da Luz até Nova Odessa, onde acabava a alimentação elétrica. Em Nova Odessa saía a locomotiva elétrica e entrava a máquina diesel, que nos deixava em Piracicaba.Em meados da década de 1960, as “marias-fumaça” foram substituídas pelas “U-9-s”, diesel-elétrica produzida entre o final da década de 1950 e início da década de 1960 pela General Eletric, nos Estados Unidos. Alguns trens que vinham da Capital eram segmentados, com alguns carros sendo separados do entroncamento. As locomotivas elétricas “V-8” seguiam no entroncamento, enquanto os carros do ramal eram engatados na diesel-elétrica e seguiam viagem até Piracicaba.No retorno de Piracicaba era feito o contrário, os trens eram unificados em Nova Odessa e prosseguiam a viagem rumo a São Paulo. Quando a viagem era para o Interior havia necessidade de baldeação. Nos últimos anos do ramal eram feitas apenas baldeações e não mais a separação de carros.
Ramal de Piracicaba, trecho ferroviário operado entre 1917 e 1977 para o transporte de passageiros.



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