Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sábado, março 14, 2009

Aparecida de Jesus Pino Camargo

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS JOÃO UMBERTO NASSIF Jornalista e Radialista joaonassif@gmail.com
Sábado, 07 de março de 2009.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/ http://blognassif.blogspot.com/ ENTREVISTADA: Aparecida de Jesus Pino Camargo

A mulher conquista cada dia mais o espaço que antes era um privilégio exclusivo dos homens. Se antes ela ficava com as tarefas domésticas, hoje ela já participa efetivamente nos mais diversos setores da sociedade. Com isso obtém a sua realização pessoal, beneficia a coletividade e põem por terra o paradigma de que lugar de mulher é na cozinha. Em Piracicaba temos muitos exemplos de mulheres ocupando cargos de toda natureza, e fazendo seu trabalho com distinção. A entrevista de hoje é com a presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piracicaba e Saltinho: Aparecida de Jesus Pino Camargo. Nascida em Piracicaba, no dia 17 de maio de 1956, é filha de Francisco Pino Rodrigues e Isabel Garcia Pino.
A senhora nasceu em que bairro?
Nasci no Bairro da Floresta. Estudei na Escola de Emergência do Bairro da Floresta, depois fui para escola do Monte Branco, onde havia a quarta série. Íamos todo dia a pé, a distancia era de quatro quilômetros na ida e quatro quilômetros na volta. Eu e um primo meu íamos juntos. As outras crianças não quiseram enfrentar a estrada. Era perigoso porque tinha vaca na estrada, tinha cana, capim molhado, nós chegávamos á escola molhados de orvalho quando era tempo de cerração. Entravamos as oito da manhã, mas saiamos de casa antes da sete horas. No Monte Branco tive como professora a Dona Therezinha. Na Floresta fui aluna da professora Maria José, Joana Sato, Luciana.
Ao retornar da escola para casa quais eram as atividades das crianças?
Não era como na cidade onde estão todas as casas agrupadas. Eram quatro irmãos que moravam perto e a criançada ia brincar com os primos. Brincadeiras como pular corda, bola, boneca de pano, queimada, brincar de balanço. Meus pais eram muito zelosos para que não brincássemos com pessoas que não fossem da nossa família. O pessoal era muito reservado, as crianças não iam até a casa de outras pessoas.
Quando os adultos conversavam as crianças também davam opiniões?
Os pais ou pessoas mais velhas nunca deixaram. A criança ouvia e ficava quieta. Geralmente era recomendado que a criança fosse fazer determinada tarefa ou lazer, para que saísse do ambiente onde os adultos conversavam. Na época havia políticos que de vez em quando visitavam os bairros. Lembro-me de um deles: Francisco Castillon Salgot. A reuniõ não era em minha casa, era em uma fazenda, onde todos os moradores se dirigiam para lá.
Tem mesmo floresta nesse bairro?
Muita. É um bairro cercado por serras. A propriedade pertencente ao meu pai existe até hoje. Quando eu era jovem, cultivávamos lavouras e hortaliças. Havia plantações de milho, arroz, vassoura, algodão. Plantávamos muita cebola e alho, além de vagem, abobrinha, pepino, produtos que eram cultivados o ano todo. A princípio vendíamos o que colhíamos no entreposto municipal, na época ficava no prédio do então Matadouro Municipal, hoje restaurado e utilizado para outros fins. As vendas realizadas ali foram transferidas para o Ceasa de Piracicaba.
Existia igreja perto?
A igreja da Floresta ficava a uns três quilômetros e a do Monte Branco a uns quatro quilômetros. Freqüentávamos a igreja da Floresta, mas eram poucos os eventos realizados. Uma festa por ano, na quaresma havia a via sacra, que era o período em que mais freqüentávamos a igreja. A igreja está vinculada a Paróquia São José de Piracicaba, cujo pároco Monsenhor Luiz Giuliani ia até lá. Frei Romário também ia celebrar as atividades religiosas. Uma vez por ano havia quermesse. Eu ia aos bailes, que eram realizados duas vezes por ano.
A senhora foi casada?
Casei-me em 1979, com Luiz de Camargo, ele possuía uma horta no bairro Nova Suíça.
Em 1991 fiquei viúva com uma criança de 10 anos de idade. Eu e meu filho continuamos trabalhando. Embora meu filho fosse ainda uma criança, o serviço leve ele ajudava a fazer. Na ocasião tínhamos a horta e a banca no varejão que ocorria na Vila Rezende, no Centro e na Avenida Raposo Tavares. Quando o meu marido faleceu, eu achei muito arriscado continuar com essa atividade, porque tudo é feito durante a madrugada, principalmente com uma criança de 10 anos. No início tive o auxilio de uma pessoa para dirigir a nossa kombi. Embora fosse habilitada não dirigia regularmente. Mediante a necessidade, passei a dirigir um automóvel e a vender cheiro verde, uma mercadoria que não tinha tanto volume como as demais. Fiz as entregas com o carro.
Como foi que a senhora conheceu o seu marido?
No trabalho. Conhecemo-nos no Ceasa. Casamos na Igreja dos Frades em 17 de novembro de 1979.
O contato da senhora com a roça vêm desde a infância?
Lembro-me que ainda muito pequena, minha mãe acompanhava o meu pai na roça e deixava-nos embaixo de uma árvore. Levava as marmitas, a espiriteira que era usada para esquentar o leite, os alimentos. Pela manhã, ao levantarmos era servido café, pão feito em casa ou bolinho de chuva doce ou salgado. O bolinho de chuva salgado é feito com ovo, sal, óleo, trigo, leite ou água, bate, põe fermento e frita.
O frangueiro era uma figura presente na vida rural?
Chamávamos esse comerciante de frangueiro porque ele fazia a barganha dos produtos. Ele levava todas as miudezas necessárias para uma casa. Desde tecido xadrez para fazer camisas, calças para a roça, linha, botão, macarrão, massa de tomate, produtos básicos. Até hoje não tem nenhuma venda, ou armazém, no Bairro da Floresta. Quando a minha mãe queria fazer uma roupinha pedia para o frangueiro: “-Traz um paninho assim.” Quem escolhia a nossa roupa era o frangueiro! Vestíamos aquilo que o frangueiro levava! Ele era o nosso estilista! Nós barganhávamos esse tecido por ovo, frango, os produtos que tínhamos no sítio. O frangueiro mais fiel que nós tivemos era o João Wolff, desde que nasci ele estava lá. Eu casei-me e ele continuou a ir. Ele por muitos anos percorreu aquelas estradas com seu carrinho de tração animal.
A vinda para a cidade era feita em ônibus?
Vínhamos de ônibus. Tinha que ir da Floresta até o Bairro Monte Branco com carrinho de tração animal. Lá deixávamos o carrinho e tomávamos o ônibus. Outra forma era combinar com alguém do bairro que tinha condução, geralmente era um caminhão que trazia todo mundo.
Quais eram as formas de diversão praticadas no sítio?
A energia elétrica passou a existir na minha casa só depois que eu casei. Antes eu conhecia a energia elétrica na casa dos parentes da cidade. A noite era utilizado o lampião, lamparina, rádio de pilha. Não havia televisão, geladeira. O alimento tinha que ser feito e consumido, não havia como armazenar. A única exceção era a carne suína que era conservada em latas de banha.
Uma iguaria muito apreciada é o chouriço, difícil de ser elaborado, e que exige muito cuidado na sua elaboração. A senhora sabe fazer essa iguaria?
Eu faço um chouriço muito bem feito. Coloco o sangue fresco, ovos, farinha de rosca ou arroz cozido, cheiro verde, bastante cebola refogada, toucinho feito com o couro da barriga do porco, sal, pimenta e um pouco de cravo e canela. Um prato que faço e as pessoas gostam é a galinha caipira com batata.
O fogão a lenha deixou saudades?
Gosto do fogão a lenha. O problema é fazer aquele fogão esquentar. Não pode ter pressa. Depois de quente é bom porque conserva, faz uma comida gostosa. O ferro de passar roupa era com brasa. Quem trabalhava na roça passava a roupa aos fins de semana. Sábado e domingo era para fazer a faxina pesada na casa e passar roupa. Lavava roupa na vertente. Usava sabão feito em casa.
A senhora continua residindo no sítio?
Moro ainda até hoje.
Como despertou essa vocação da senhora pelo sindicalismo?
Sinto que tenho um espírito de liderança. É uma característica natural. Quando meu marido faleceu fui convidada a fazer parte da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piracicaba e Saltinho. Nós já éramos sócios. Comecei como suplente. Isso foi em 1992 a 1993. De suplente fui para secretária, depois vice-presidente. Nunca fiz nada com muita pressa. Tudo aconteceu naturalmente. O presidente da época não ia mais continuar, formamos uma chapa, isso foi em 2003. Após 4 anos a mesma chapa concorreu de novo e ganhou.
Qual são os objetivos do sindicato?
Oferecemos facilidades de atendimento médico odontológico, jurídico e trabalhista para os associados. Defendemos os legítimos interesses á que a classe tem direito legal. O trabalho rural é classificado em três classes: o empregado assalariado, a agricultura familiar, onde em uma pequena propriedade o trabalho é exercido apenas pela família, e a propriedade maior onde há empregado registrado, quando o agricultor torna-se também patrão. O sindicato abrange as duas primeiras classes: o assalariado e aqueles que trabalham com agricultura familiar. Essas duas faixas geralmente têm dificuldades de acessar o ensino e complementar seus estudos, isso faz com que permaneçam no meio rural. Meu trabalho é ter profissionais competentes, cada um ocupando uma função importante, para que o sindicato possa oferecer o melhor possível ao associado.
O pequeno agricultor deve buscar alternativas de plantio?
Principalmente aqueles que praticam a agricultura familiar. Eles não possuem grandes recursos. Devem procurar diversificar, ter de tudo. Quando um produto está no final da colheita outro estará iniciando. Deve haver uma rotatividade de plantações, onde ele tenha sempre a disponibilidade de recursos. Se ele plantar só arroz para o inicio do ano, o resto do tempo ele irá ficar sem ter o que fazer. O sítio tem que ter rotatividade de cultura.
Existe alguma possibilidade do sindicato envolver-se mais com os alunos da Esalq, com o objetivo de melhorar o pequeno agricultor?
Nós nunca fomos procurados por eles. Caso haja interesse da parte deles estamos abertos para criarmos planos que beneficiem os associados. Existe a Casa do Agricultor, a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral – CATI, que apóiam o pequeno agricultor. Isso não impede que os alunos possam realizar trabalho de campo nas hortas, orientando os trabalhadores e eles também coletando informações, isso está disponível.
Comparando o tempo em que a senhora era menina e hoje, a variedade da fauna e flora sofreu mudanças?
No Bairro da Floresta, que ainda está rodeada de matas, existe seriema que vem na porta de casa. Na Nova Suíça existia codorna, nhambu. Hoje eu não vejo mais.
O homem do campo é uma pessoa de aparência simples, mas dono de uma sabedoria muito grande?
Muitas vezes uma pessoa de aparência humilde é dona de muita sabedoria. Na prática eles sabem mais do que pessoas que tiverem uma educação formal nas escolas. Hoje há um culto pelo computador, algumas pessoas julgam que ali irão obter qualquer tipo de informação necessária para a vida. Ao passo que uma pessoa que tem pouco acesso ás informações, muitas vezes não teve a oportunidade de estudar, ela quando ouve um conselho de uma pessoa, a pratica que essa pessoa realizou para obter um resultado, isso ficará gravado na memória de quem não tem acesso ás modernidades atuais. Fica gravado na memória. Ele analisa as poucas informações que recebe e as retém.
Hoje o pessoal da zona rural tem contato com televisão, computador?
Tem. A televisão teve influencia na zona rural. Hoje a primeira vista, pelas roupas, maneira de comportar-se não se vê muita diferença entre o pessoal da zona rural e da zona urbana. Ninguém mais sabe quem mora no sítio ou na cidade. Houve uma uniformização. Hoje há ensino completo do segundo grau, até o colegial. Todo mundo tem seu carro.
Quando a senhora entrou no cinema pela primeira vez?
Entrei quando eu já era casada para levar o meu filho assistir Os Trapalhões.
Qual é o seu lazer preferido?
Eu adoro mesmo é ir para a praia. A primeira vez que eu fui devia ter mais de quarenta anos de idade, fui para a Praia Grande. O mar me dá uma paz muito grande.
O sindicato recebeu visitas internacionais?
Recebemos de vários países. Da Alemanha, Inglaterra, França. Pelo fato da Cosan ser o maior grupo açucareiro de álcool, e a matriz é em Piracicaba, toda atenção volta-se para Piracicaba. Eles geralmente nos visitam em grupos grandes. Muitos nem conheciam cana de açúcar. Nunca tinham visto. Eles vêm para ver o processo, qual é a idoneidade da empresa, não ter trabalho escravo.
Os trabalhadores que vem de outra região para trabalhar no corte de cana em Piracicaba tem uma melhor condição de trabalho hoje?
Eles têm que serem transportados do local de alojamento para o local de trabalho em um ônibus em bom estado, tem um toldo com mesa, sanitário químico. Tem que ter um depósito com água fresca. Quando vem para Piracicaba já saem da região de origem registrados e com seguro de vida.
Essa mão de obra que vem de outros estados concorre com a mão de obra local?
Não concorre, porque o pessoal residente em Piracicaba já não se submete a esse tipo de trabalho. Fazem qualquer outra coisa, menos cortar cana.



Millôr Fernandes

"Acreditar que não acreditamos em nada é crer na crença do descrer".

Considerado "um dos poucos escritores universais que possuímos", na opinião do crítico Fausto Cunha, filho de Francisco Fernandes e de Maria Viola Fernandes, Millôr Fernandes nasceu no dia 16 de agosto de 1923 no Méier, subúrbio do Rio de Janeiro, com o nome de Milton Viola Fernandes. Só seria registrado no ano seguinte, tendo como data oficial de nascimento o dia 27 de maio de 1924. Sua certidão de nascimento, grafada à mão, fazia crer que seu nome era Millôr e não Milton. Seu pai, engenheiro emigrante da Espanha, morre em 1925, com apenas 36 anos. A família começa a passar por dificuldades e sua mãe passa horas em frente a uma máquina de costura para poder sustentar os 4 filhos. Apesar do aperto, o autor teve uma infância feliz, ao lado de 10 tios, 42 primos e primas e da avó italiana D. Concetta de Napole Viola.Estuda na Escola Ennes de Souza, de 1931 a 1935, por ele chamada de Universidade do Meyer, mas que na verdade era uma escola pública. Diz dever tudo o que sabe a sua professora, Isabel Mendes, depois diretora e hoje nome da escola. Se emociona ao falar sobre ela "...uma mulatinha magra e devotada, que me ensinou tudo que se deve aprender de um professor ou de uma escola: a gostar de estudar. Depois disso, pode-se ser autodidata. Escola, a não ser para campos técnicos/experimentais, é praticamente inútil".A chegada ao Brasil das histórias em quadrinhos, em 1934, faz de Millôr um leitor assíduo dessas publicações, em especial de Flash Gordon, de autoria de Alex Raymond, e, com isso, dar vazão à sua criatividade. Sob a influência de seu tio Antônio Viola, tem seu primeiro trabalho publicado em um órgão da imprensa — "O Jornal", do Rio de Janeiro, tendo recebido o pagamento de 10 mil reis por ele. Era o início do profissionalismo, adotado e defendido para sempre.
Em 1935, também com 36 anos, falece sua mãe, o que faz com que os irmãos Fernandes passem a levar uma vida dificílima. Essa coincidência de datas leva Millôr a escrever um conto, "Agonia", publicado na revista "Cigarra" em janeiro de 1947, onde afirmava: "Tenho dia e hora marcada para me ir e o acontecimento se dará por volta de 1959". A morte da mãe o leva a morar em Terra Nova, subúrbio próximo ao Méier, com o tio materno Francisco, sua mulher Maria e quatro filhos.Trabalha, em 1938, com o Dr. Luiz Gonzaga da Cruz Magalhães Pinto, entregando o remédio para os rins "Urokava" em farmácias e drogarias. Durou pouco esse emprego. Logo vai ser contínuo, repaginador, factótum, na pequena revista "O Cruzeiro", que nessa época tinha, além de Millôr, mais dois funcionários: um diretor e um paginador. A revista, anos depois, chegou a vender mais de 750.000 exemplares. Com o pseudônimo "Notlim" ganha um concurso de crônicas promovido pela revista "A Cigarra". Com isso, é promovido e passa a trabalhar no arquivo.O cancelamento de publicidade em quatro páginas de "A Cigarra" fez com que fosse chamado por Frederico Chateaubriand para preencher as páginas que ficaram em branco. Cria, então, o "Poste Escrito", onde assinava-se Vão Gôgo. O sucesso da seção faz com que ela passe a ser fixa. Com o mesmo pseudônimo, começa a escrever uma coluna no "Diário da Noite". Assume a direção de "A Cigarra", cargo que ocuparia por três anos. Dirigiu também "O Guri", revista em quadrinhos e "Detetive", que publicava contos policiais.Ciente da necessidade de se aprimorar, estuda no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro de 1938 a 1943.Em 1940, muda-se para o bairro da Lapa, centro da cidade, e passa a morar próximo a Alceu Pena, seu colega em "O Cruzeiro". Colabora na seção "As garotas do Alceu" como colorista e versejador.Autodidata, faz sua primeira tradução literária: "Dragon seed", romance da americana Pearl S. Buck, com o título "A estirpe do dragão", em 1942.No ano seguinte retorna, com Frederico Chateaubriand e Péricles, à revista "O Cruzeiro". Em dez anos, a tiragem foi um grande êxito editorial, passando de 11 mil para mais de 750 mil exemplares semanais.Em 1945, inicia a publicação de seus trabalhos na revista "O Cruzeiro", na seção "O Pif-Paf", sob o pseudônimo de Vão Gôgo e com desenhos de Péricles.No ano seguinte lança "Eva sem costela — Um livro em defesa do homem", sob o pseudônimo de Adão Júnior.Sua colaboração para "O Cruzeiro", em 1947, atinge a marca de dez seções por semana.Em 1948 viaja aos Estados Unidos, onde encontra-se com Walt Disney, Vinicius de Moraes, o cientista César Lates e a estrela Carmen Miranda. Casa-se com Wanda Rubino.Publica "Tempo e Contratempo", com o pseudônimo de Emmanuel Vão Gôgo, em 1949. Assina seu primeiro roteiro cinematográfico, "Modelo 19". O filme, lançado com o título "O amanhã será melhor", ganha cinco prêmios Governador do Estado de São Paulo. Millôr é agraciado com o de melhores diálogos.Em 1951, na companhia de Fernando Sabino, viaja de carro pelo Brasil, durante 45 dias. Lança a revista semanal "Voga", que teve apenas cinco números.Viaja pela Europa por quatro meses, em 1952."Uma mulher em três atos", sua primeira peça, estréia no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo (SP), em 1953.No ano seguinte, compra o imóvel que se tornaria famoso — "a cobertura do Millôr", no bairro de Ipanema, onde o escritor até hoje vive. Nasce seu filho Ivan.Em 1955, divide com o desenhista norte-americano Saul Steinberg o primeiro lugar da Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires, Argentina. Escreve “Do tamanho de um defunto”, que estreou no Teatro de Bolso (Rio) e, depois, adaptado pelo próprio autor para o cinema, tendo o filme o título de “Ladrão em noite de chuva”. Nesse ano escreve “Bonito como um deus”, que estréia no Teatro Maria Della Costa, em São Paulo (SP), e ainda “Um elefante no caos” e “Pigmaleoa”.Em 1956, Millôr passa a ilustrar todos os seus textos publicados na revista "O Cruzeiro".No ano de 1957, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro recebe exposição individual do biografado. Realiza a cenografia de “As guerras do alecrim e da manjerona”. Esse trabalho foi premiado pelo Serviço Nacional de Teatro no ano de 1958.Nesse ano, conclui a primeira tradução teatral: “Good people”, então intitulada “A fábula de Brooklin — Gente como nós”. Fez parte do grupo que "implantou" o frescobol no posto 9, Ipanema, Rio de Janeiro.Escreve o roteiro de “Marafa”, a partir do romance homônimo de Marques Rebello. Em 1959. No mesmo ano, apresenta na TV Itacolomi, de Belo Horizonte, a convite de Frederico Chateaubriand, uma série de programas intitulada “Universidade do Méier”, na qual desenhava enquanto fazia comentários. Posteriormente, o programa foi transferido para a TV Tupi do Rio de Janeiro, com o título de “Treze lições de um ignorante” e suspenso por ordem do governo Juscelino Kubitschek após uma crítica à primeira dama do país: Disse Millôr: "Dona Sarah Kubitschek chegou ontem ao Brasil depois de 5 meses de viagem à Europa e foi condecorada com a Ordem do Mérito do Trabalho." Nasce sua filha, Paula.Nos anos seguintes, já integrado à intelectualidade carioca, convive com Péricles, criador de "O Amigo da Onça", Nelson Rodrigues, David Nasser, Jean Manson, Alfredo Machado, Fernando Chateaubriand, Emil Farhat e Accioly Netto, entre outros.Em 1960, depois de resolvidos os problemas com a censura, estréia no Teatro da Praça, no Rio, ”Um elefante no caos”. O título original da peça era “Um elefante no caos ou Jornal do Brasil ou, sobretudo, Por que me ufano do meu país” rendeu a Millôr o prêmio de “Melhor Autor” da Comissão Municipal de Teatro. O filme “Amor para três”, com roteiro do biografado, baseado em “Divórcio para três”, de Victorien Sardou, é dirigido por Carlos Hugo Christensen. Millôr colaboraria com esse diretor em mais três filmes: “Esse Rio que eu amo”, 1962, Crônica da cidade amada”, 1965, e O menino e o vento, 1967.Expõe, em 1961, desenhos na Petit Galerie, no Rio. Viaja ao Egito e retorna antes do previsto, tendo em vista a renúncia do presidente Jânio Quadros. Trabalha por 7 dias no jornal "Tribuna da Imprensa", Rio, que mais tarde pertenceu a seu irmão Hélio Fernandes. Foi demitido por ter escrito um artigo sobre a corrupção na imprensa. Os editores, o poeta Mário Faustino e o jornalista Paulo Francis pediram também demissão em solidariedade.No ano seguinte, na edição de 10 de março de “O Cruzeiro”, “demite” Vão Gôgo e passa a assinar Millôr. A Amstutz & Herder Graphic Press, importante publicação de Zurique, dedica uma página de seu anuário ao autor. “Pigmaleoa” é apresentada, sob a direção de Adolfo Celi, no Teatro Rio.Em 1963, escreve a peça teatral “Flávia, cabeça, tronco e membros”. Viaja a Portugal e, durante sua ausência, a revista “O Cruzeiro” publica editorial no qual se isenta de responsabilidade pela publicação de “História do Paraíso”, que obteve repercussão negativa por parte dos leitores católicos da revista. Millôr deixa a revista e começa a trabalhar no jornal “Correio da Manhã”, lá ficando até o ano seguinte.A partir de 1964, e até 1974, colabora semanalmente no jornal Diário Popular, de Portugal. A página mereceria o seguinte comentário de um ministro de Salazar: "Este tem piada, pena que escreva tão mal o português". Lança a revista “Pif-Paf”, considerada o início da imprensa alternativa no Brasil. Foi fechada em seu oitavo número, por problemas financeiros.Volta à TV, em 1965, como apresentador na TV Record, ao lado de Luis Jatobá e Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), do “Jornal de Vanguarda”. “Liberdade liberdade” estréia no Teatro Opinião, no Rio, musical escrito em parceria com Flávio Rangel.Composta pelo biografado, a canção “O homem” é defendida no II Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record, por Nara Leão, em 1966. Monta, ao ar livre, no Largo do Boticário, Rio, só com atores negros, sua adaptação de “Memórias de um sargento de milícias”.Em 1968 atua, ao lado de Elizeth Cardoso e do Zimbo Trio, em “Do fundo do azul do mundo”, espetáculo musical de sua autoria. Passa a colaborar com a revista “Veja”.Na sua estréia, apresentou-se com o texto que abaixo reproduzimos parcialmente:
SUPERMERCADO MILLÔRANO I - N.º 1
(Autobiografia De Mim Mesmo À Maneira De Mim Próprio)
"E lá vou eu de novo, sem freio nem pára-quedas. Saiam da frente, ou debaixo que, se não estou radioativo, muito menos estou radiopassivo. Quando me sentei para escrever vinha tão cheio de idéias que só me saíam gêmeas, as palavras — reco-reco, tatibitate, ronronar, coré-coré, tom-tom, rema-rema, tintim-por-tintim. Fui obrigado a tomar uma pílula anticoncepcional. Agora estou bem, já não dói nada. Quem é que sou eu? Ah, que posso dizer? Como me espanta! Já não fazem Millôres como antigamente! Nasci pequeno e cresci aos poucos. Primeiro me fizeram os meios e, depois, as pontas. Só muito tarde cheguei aos extremos. Cabeça, tronco e membros, eis tudo. E não me revolto. Fiz três revoluções, todas perdidas. A primeira contra Deus, e ele me venceu com um sórdido milagre. A segunda com o destino, e ele me bateu, deixando-me só com seu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui.””... Dou um boi pra não entrar numa briga. Dou uma boiada pra sair dela....Aos quinze (anos) já era famoso em várias partes do mundo, todas elas no Brasil. Venho, em linha reta, de espanhóis e italianos. Dos espanhóis herdei a natural tentação do bravado, que já me levou a procurar colorir a vida com outras cores: céu feito de conhas de metal roxo e abóbora, mar todo vermelho, e mulheres azuis, verdes ciclames. Dos italianos que, tradicionalmente, dão para engraxates ou artistas, eu consegui conciliar as duas qualidades, emprestando um brilho novo ao humor nativo. Posso dizer que todo o País já riu de mim, embora poucos tenham rido do que é meu.””Sou um crente, pois creio firmemente na descrença. ...Creio que a terra é chata. Procuro não sê-lo. ...Tudo o que não sei sempre ignorei sozinho. Nunca ninguém me ensinou a pensar, a escrever ou a desenhar, coisa que se percebe facilmente, examinando qualquer dos meus trabalhos.””A esta altura da vida, além de descendente e vivo, sou, também, antepassado. É bem verdade que, como Adão e Eva, depois de comerem a maçã, não registraram a idéia, daí em diante qualquer imbecil se achou no direito de fazer o mesmo. Só posso dizer, em abono meu, que ao repetir o Senhor, eu me empreguei a fundo. Em suma: um humorista nato. Muita gente, eu sei, preferiria que eu fosse um humorista morto, mas isso virá a seu tempo. Eles não perdem por esperar.”·Ainda em 1968 escreve o texto do show “Momento 68”, promovido pela empresa Rhodia, que contou com a participação de Caetano Veloso, Walmor Chagas e Lennie Dale, entre outros.No ano seguinte, participa do grupo fundador de “O Pasquim”.Fernanda Montenegro estrela “Computa, computador, computa”, no Teatro Santa Rosa, no Rio, em 1972. Lança o livro “Esta é a verdadeira história do Paraíso” e também “Trinta anos de mim mesmo”, numa sessão de autógrafos denominada “Noite da contra-incultura”.Em 1975, faz exposição de 25 quadros “em branco, mas com significado”, na Galeria Grafitti, no Rio.No ano seguinte, escreve para Fernanda Montenegro a peça “É...”, que se tornou o grande sucesso teatral de Millôr ao ser encenada no Teatro Maison de France, no Rio.Em 1977, realiza nova exposição de seus trabalhos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.Adapta, no ano seguinte, para o formato de musical a peça “Deus lhe pague”, de Joracy Camargo, que contou com Bibi Ferreira na direção e com músicas de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. É homenageado pelo 5º Salão de Humor de Piracicaba (SP), mas “exige” que a honraria seja “para todos os humoristas na pessoa de Millôr Fernandes”. Em Brasília, para o Museu da Moeda, localizado no Banco Central do Brasil, produz quatro painéis que contam ahistória do dinheiro.Estréia no Teatro dos Quatro, Rio, a peça “Os órfãos de Jânio”, em 1980.Publica “Desenhos”, uma compilação de seus trabalhos gráficos, com textos de apresentação de Pietro Maria Bardi e Antônio Houaiss, em 1981.O ano de 1982 é de muito trabalho. O autor escreve e publica a peça “Duas tábuas e uma paixão”. Traduz a opereta “A viúva alegre”, de Franz Lear, apresentada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Tetê Medina monta “A eterna luta entre o homem e a mulher”, no Teatro Clara Nunes – Rio. Escreve a adaptação de “A chorus line”, encenado por Walter Clark. Estréia “Vidigal: Memórias de um sargento de milícias”. São dele, nessa peça, os cenários, figurinos e letras, musicadas por Carlos Lyra. Com Flávio Rangel, escreve e representa o espetáculo “O gesto, a festa, a mensagem”, na TV Record de São Paulo. Deixa a revista “Veja”.Em 1983, é homenageado pela Escola de Samba Acadêmicos do Sossego, de Niterói (RJ). Millôr não comparece ao desfile. Passa a colaborar com a revista “Istoé”.Lança “Poemas”, em 1984. Estréia o musical “O MPB4 e o dr. Çobral vão em busca do mal”.No ano seguinte, colabora com o Jornal do Brasil. Lança o “Diário da Nova República”. É montada a peça “Flávia, cabeça, tronco e membros” no Teatro Ginástico – Rio.Passa a usar o computador para escrever e desenhar, em 1986. Escreve, com Geraldo Carneiro e Gilvan Pereira, o roteiro do filme “O judeu”, dirigido por Jom Tob Azulay, baseado na vida de António José da Silva. Rodado em Portugal, só seria concluído em 1995.”L’anné 82 au Brésil: le regard critique de Millôr Fernandes” (O ano de 82 no Brasil: o olhar crítico de Millôr Fernandes), é o tema de tese de doutoramento de Françoise Duprat na Universidade de Toulouse-Le Mirail II, França, em 1987.No ano seguinte, lança “The cow went to the swamp / A vaca foi para o brejo”. Na Universidade de São Paulo (USP), Branca Granatic defende, na dissertação de mestrado, “Os recursos humorísticos de Millôr Fernandes”.Em 1990, nasce seu neto, Gabriel, filho de Ivan.Deixa a revista “Istoé” e o Jornal do Brasil, em 1992.No ano de 1994, lança “Millôr definitivo — A bíblia do caos”.Escreve a peça “Kaos”, Adapta para a Rede Globo “Memórias de um sargento de milícias”. A partir de um argumento de Walter Salles, escreve o roteiro “Últimos diálogos”, em 1995.Em 1996, passa a colaborar nos jornais “O Dia” (RJ), “O Estado de São Paulo” (SP) e “Correio Braziliense” (DF). Neste último, trabalharia somente até o fim do ano.Em 1998, em parceria com Geraldo Carneiro e Jom Tob Azulay, assina o roteiro de “Mátria”.No ano seguinte, começa a adaptar “Os três mosqueteiros”, de Dumas, para o formato de musical, trabalho que não chegou a ser concluído.Em 2000, escreve o roteiro de “Brasil! Outros 500 — Uma PoopÓpera”, que teve sua estréia no Teatro Municipal de São Paulo. O espetáculo contava com músicas de Toquinho e Paulo César Pinheiro e arranjos de Wagner Tiso. Deixa de colaborar com “O Estado de São Paulo” e “O Dia”. Passa a colaborar com coluna semanal na “Folha de São Paulo”. Lança o site “Millôr On Line” (http://www.millor.com.br) .No ano seguinte, deixa a “Folha de São Paulo” e volta ao “Jornal do Brasil”.Em 2002, publica “Crítica da razão impura ou O primado da ignorância”, em que analisa as obras “Brejal dos Guajas e outras histórias”, de José Sarney, e “Dependência e desenvolvimento na América Latina, de Fernando Henrique Cardoso. Deixa de colaborar, em novembro, com o “Jornal do Brasil”.Em 2003, ilustra “O menino”, volume de contos de João Uchoa Cavalcanti Netto, e faz cem desenhos para uma nova compilação das “Fábulas fabulosas”.Em 2004, lança pela Editora Record, “Apresentações”.Em meados de agosto de 2004 é anunciado seu retorno às folhas da revista semanal “Veja”, a partir de setembro daquele ano.Tempos atrás um jornal publicou que Millôr estava todo cheio de si por ter recebido, em sua casa, uma carta de um leitor com o seguinte endereçamento:"MillôrIpanema"É a glória!
Textos extraídos de livros do autor, da Internet, do CD "Em busca da Imperfeição", de 1999, produzido pela Neder & Associados e dos “Cadernos de Literatura Brasileira – Instituto Moreira Salles







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