Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sexta-feira, abril 17, 2009


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS JOÃO UMBERTO NASSIF Jornalista e Radialista joaonassif@gmail.com
Sábado, 17 de abril de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
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ENTREVISTADA: OZAIDE TRIMER

A forma pausada de se expressar, com um português impecável, revela o seu grau de cultura. Objetiva nas respostas, embora saiba relevar até o tolerável o que nem sempre a agrada. Pode-se dizer que Ozaide Trimer é constituída de uma personalidade forjada não só pela genética como pelos seus desafios, que os vencendo de uma forma arrojada, externa um pouco do infinito limite da capacidade humana. Filha de Alfredo Trimer, nascido em 13 de setembro de 1913 e Paschoa Graviol Trimer nascida em 4 de abril de 1915, ambos já falecidos, Ozaide partilha com os irmãos Orivaldo, Oveida, Odila, Oraide e Odacir Alfredo a epopéia de uma família a quem o trabalho sempre foi uma constante e a dignidade e honra considerados como valores sagrados. Onde hoje se situa o Carrefour foi anteriormente uma área denominada Chácara Morato. É possível ver acima dos muros do estacionamento, parte de uma casa de construção centenária. Era a sede da fazenda. Uma construção ao lado era a casa onde Alfredo Trimer e sua família, moravam e cuidavam da propriedade. As lembranças de Ozaide ajudam a recompor esse importante marco da cidade de Piracicaba.
Seu pai é brasileiro?
Meu pai nasceu no Brasil, na cidade de Nova Odessa, um local onde moravam muitos russos e letos. Minha mãe nasceu no município de Santa Bárbara D`Oeste, seus pais vieram da Itália, da região de Treviso. Meu avô paterno imigrou para o Brasil antes da revolução ocorrida na Rússia. Por muitos anos ele trabalhou na Estrada de Ferro Sorocabana.
Quando seu pai e sua mãe conheceram-se?
Minha mãe estava ajudando a minha tia, lavando roupas em um córrego. Meu pai e meu tio Rodolfo Arnaldo, passaram pelo ribeirão com uma carroça carregada de toras de madeira. Por algum motivo essas toras caíram no ribeirão e sujaram a água. Minha mãe comentou com a minha tia: “-Nossa, que dois moços bonitos!”. Em uma festa no Município de Santa Bárbara, na localidade muito conhecida, denominada Santo Antonio do Sapezeiro, meu pai e minha mãe estavam presentes. Essa festa foi em um mês de outubro. Houve resistência por parte da família da minha mãe contra esse casamento, por motivos diversos, a religião, o fato de meu pai ser descendente de russos. Minha mãe enfrentou tudo e casou-se com ele.
A primeira atividade do seu pai foi na lavoura?
Meu pai era muito trabalhador, era apontado como uma pessoa extremamente dedicada ao trabalho. Ele casou-se com 25 anos de idade. No início ele ia pelos sítios comercializando miudezas, era o que na época denominavam de frangueiros, pessoas que comercializam mercadorias tendo como base a permuta de produtos industrializados por produtos agrícolas. O termo frangueiro era uma denominação dada a todos que realizavam essa atividade por trabalharem com um carrinho de tração animal e na parte inferior do carrinho, já no lado externo, havia uma espécie de gaiola, onde as aves, frutos da negociação, eram transportadas vivas. Ele exerceu essa atividade por uns três anos. Quando o Marcelino Angolin encerrou as suas atividades no tradicional armazém situado em Caiubi, transferiu esse armazém para o meu pai. Nessa ocasião meu pai deixou de fazer o comércio como frangueiro e fixou-se no armazém. Por questões administrativas, especialmente a venda a crédito com elevada inadimplência, meu pai acabou perdendo tudo. Saímos de Caiubi com a roupa do corpo e os pertences da casa. Na época eu tinha doze anos de idade. Fomos para a Fazenda Cachoeira, ao lado do lugar hoje denominado Colinas de Piracicaba. O proprietário da fazenda era Dr. José Freitas. Permanecemos lá por 4 anos. Mudamos para uma fazenda do Dr. Virgilio Fagundes, bem na frente onde passava o trenzinho que ia para Ártemis. Plantávamos cana e cereais. O sítio onde morávamos chamava-se Canadá. Um dia meu pai encontrou-se com o Francisco Lima, que foi um vizinho nosso na Fazenda Cachoeira. O Francisco Lima disse que estava morando na Chácara Morato, e que eles estavam precisando de mais pessoas para trabalhar.

Isso foi em que ano?
Foi em 1960, quando então viemos trabalhar na Chácara Morato. Na época da Dona Cenira Conceição Morato Leme, ela era casada com o Dr. Celso Leme. Moramos por um período de 18 anos na Chácara Morato. Dona Cenira teve os filhos Dona Madelana, Dona. Cidinha, Dona. Cecília, Dona Martha e Francisco. O caminho para vir para a cidade era pelo pasto da Chácara Nazareth ou pela Rua do Porto.

Apesar da denominação de chácara qual era a área compreendida pela propriedade?
Eram 50 alqueires. Fazia divisa com Chácara Nazareth. Onde hoje é o bairro Castelinho era um pasto enorme da Chácara Nazareth. Uma coisa curiosa é que a ponte existente lá sempre foi conhecida como Ponte Francisco Morato. Um dia tive uma surpresa muito grande ao ver que essa ponte havia recebido uma nova denominação. Dr. Morato foi um homem muito influente, a cidade de São Paulo tem rua, uma ponte muito importante com o seu nome. Há até uma cidade, em sua homenagem, que é Francisco Morato.
Na Chácara do Morato havia na entrada muito bonita?
Era uma alameda formada por árvores. Ainda resta uma árvore muito bonita, situada nas imediações do Carrefour. Acho que é a árvore mais bonita da cidade. Na época da construção do supermercado, fiquei sabendo que um senhor do Bongue permaneceu embaixo dessa árvore por dias, para que não cortassem essa árvore.
A casa onde a sua família morou ainda existe?
Ela foi desmanchada quando foi vendida uma parte da área para o supermercado. A Dona Cenira era uma defensora da preservação das coisas antigas.
Uma das curiosidades existentes na época era uma sirene manual?
Era! Na passagem de ano ficávamos acordados, meu pai ia lá e tocava por um bom tempo a sirene.
Em que ano sua família mudou-se da Chácara Morato?
Saímos em 1977. Quando eu estava na chácara trabalhei na roça por muito tempo. Fiz o colegial e a universidade. Tenho o curso superior de Processamento de Dados. Cheguei a fazer estágio na Cipatel, Companhia Telefônica de Piracicaba, empresa antecessora da Telesp em Piracicaba. Permaneci por um ano lá. Em 15 de setembro de 1977 fui contratada para trabalhar como auxiliar de secretaria no Colégio Piracicabano. O Reitor era o Dr. Richard Edward Senn. Depois entrou o Professor Elias Boaventura.
Por quanto tempo você permaneceu no Instituto Piracicabano?
Por 21 anos. Em 1987 fui nomeada Secretária Chefe.
Qual era a sua função nesse cargo?
Era cuidar da parte legal, principalmente junto a Delegacia de Ensino.
Você deu um salto tão grande na sua vida!
Graças a Deus! Quando entrei era a menorzinha de todas, com o salário mais baixo. Cuidava do Arquivo. Só que sempre fui muito curiosa. Quando eu descia para ajudar as meninas, queria saber o porquê o histórico era feito daquela forma. Lá dentro eu dei um salto muito grande. Nós saímos dos históricos feitos manualmente para o feito pelo computador. Trabalhava com o Centro de Processamento de Dados que atende a universidade e ao colégio. Tinha um analista que trabalhava com o computador de grande porte e eu desenhava o formato em que deveria ser o histórico, a ficha individual, toda a documentação do aluno. Deu um trabalho muito grande para fazer. O analista de sistema queria saber o porquê de cada dado ser colocado de determinada forma. Ocorre que existe uma legislação a respeito e que tem que ser obedecida de forma rigorosa. Sair de um sistema totalmente manual, escrito a tinta, onde não podia ter erro. Quando eu cheguei era utilizada a caneta tinteiro. Para a correção de algum erro foram sendo inventadas formas de apagar os possíveis erros cometidos. Misturavam a água com água sanitária, até chegarem a uma combinação ideal das duas substâncias, de tal forma que o erro era apagado. Só que não podia ser escrito em cima no mesmo dia, tinha que esperar uma semana para secar bem e depois podia escrever sem problema nenhum. Aquilo era um segredo das meninas da secretaria!
Você realizou um trabalho de integração de arquivo de alunos?
Para cada curso que um aluno realizava havia uma pasta independente, consegui unificar tudo em uma pasta só. O período de trabalho era de oito horas. Nos finais de ano o período de trabalho se estendia para 12, 13, 14 horas. Depois que assumi o cargo de Secretaria Geral eu fazia o cerimonial de formatura. Havia um programa, um protocolo bastante rígido.
Você teve câncer?
Tive na mama direita. Tirei um nódulo aqui em Piracicaba. Passei a fazer tratamento na Unicamp, fiz mastectomia total, usando a técnica do Dr. José Aristodemus Pinotti, o médico faz a transposição do tecido da barriga para o seio, no mesmo dia. Eu ia para Campinas fazer radioterapia e quimioterapia. Fiquei por seis meses, afastada do trabalho. Após esse período voltei a trabalhar, isso foi em 1987.
Você aposentou-se quando?
Em 1998. No último dia em trabalhei lá fizeram uma festa com muitas flores e presentes.
Você passou a buscar novas atividades?
Eu acalentava um sonho desde criança: viajar. Sempre tive uma vida bastante regrada, a minha remuneração era dentro de um orçamento modesto. Minha amiga Mercedes Vecchini convidou-me para ir para Rodeio, em Santa Catarina, porque os tiroleses participam de uma festa existente lá. Eu disse-lhe que não gostava de rodeio. Ela então me disse que esse era o nome da cidade! Fiquei sabendo que ela tinha viajado anteriormente para Austrália e Nova Zelândia. Fiquei curiosa em saber como ela tinha realizado essas viagens. Foi então que ela me disse que fazia parte da Friendship Force Internacional (Força da Amizade Internacional) e foi contando como funciona. É uma Organização Não-governamental que tem por objetivo promover amizade entre os povos através de intercâmbios, onde os visitantes são hospedados em casas particulares durante uma semana, participando da vida e cultura local. Ela disse-me que havia vaga para a Alemanha e Hungria. Era isso que eu queria! Nesse meio tempo veio para o Brasil um grupo de americanos. E eu acabei hospedando uma senhora do Estado de Nova Iorque, Miss Mayblin. Ela ficou em casa.
Em que língua vocês se entenderam?
Eu usava mais os gestos para fazer me entender! A Friendship tem esse lema: não é obrigatório o uso do inglês. O mais importante é a linguagem do coração. Saber receber, acolher, a pessoa fica uma semana na sua casa. Existe uma programação pré-estabelecida.
A Miss Mayblin ao chegar a Piracicaba desceu onde?
Foi no Jornal de Piracicaba. Sempre a Dra. Antonieta Rosalina da Cunha Losso Pedroso tem o costume de oferecer o café da manhã aos membros do Friendship quando chegam a Piracicaba. Inclusive ela participa da Friendship Force Internacional. De lá trouxe Miss Mayblin para a minha casa. O lema desses intercâmbios não é de cunho turístico, e sim de amizade entre os povos, e através dessa amizade chegar a um mundo de paz.
Ela achou a comida muito diferente?
Existe uma orientação para não procurar oferecer alimentos com as características da terra do visitante, e sim o que nós temos aqui.
Qual é a impressão que o estrangeiro tem da cidade de Piracicaba?
Eles acham lindo! O Rio de Piracicaba, a Rua do Porto, adoram comer pastel no Mercado Municipal. Vamos com eles na Agronomia. Uma americana que conheceu a Unimep ficou fascinada, achou própria de um país muito avançado.
E o caldo de cana faz sucesso?
Aqueles que levamos para visitar o Lar dos Velhinhos acham lindo demais, muito avançado. Houve o caso de uma americana, portadora de diabetes, que na volta do passeio ao Lar dos Velhinhos, já na Avenida Beira Rio, paramos em um trailer que fazia garapa, ela com diabetes e tudo tomou nem quantos copos! Essa se chamava Jim, com 81 anos de idade. A Mercedes estava hospedando uma outra americana. Nos as levamos para comer pastel na Rua do Porto, elas tinha uma adoração por pastel. As duas sentaram e passaram a ficar olhando o Rio Piracicaba por um longo tempo.
E caipirinha?
Eles tomam e gostam. Sempre fazemos um almoço na Rua do Porto, acompanhada de peixe.
E a reação deles no Mercado com relação a frutas como é?
Principalmente os americanos, eles ficam doidos por mamão, que denominam de papaia.
Quantos países você conhece?
Fui para a Alemanha duas vezes, Hungria uma vez, fui duas vezes aos Estados Unidos, para a Costa Rica fui duas vezes, para o Canadá, África do Sul, no México fomos a um restaurante no 47º andar, é um restaurante giratório. Percebe-se que está girando pelos edifícios que estão á vista. Fomos á viagens dos sonhos nas Montanhas Rochosas no Canadá. Fui para Itália. Estive em Cuba, eu adorei. Não cheguei a ver Fidel Castro. Em agosto do ano passado fomos á Terra Santa, começamos a viagem pelo Egito, Frei Augusto foi nosso guia espiritual.
Você foi ao muro das lamentações?
Fui! Coloquei o papelzinho no muro! Conheci a entrada do Monte Sinai.
Precisa ser rico para fazer essas viagens?
Não! É preciso apenas pagar uma taxa, ficamos hospedados em casas de família. Essas viagens não têm nada de luxo. Eu sou caipira, me orgulho de ser caipira, trabalhei na roça, não recebi herança nenhuma. Cortei cana, carreguei até lenha em caminhão. Ia descarregar lá nas olarias da Água Branca. Hoje conheço o mundo.





PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS JOÃO UMBERTO NASSIF Jornalista e Radialista joaonassif@gmail.com
Sábado, 08 de abril de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
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ENTREVISTADO: AMADEU GOMES DOMINGUES





Em um prédio situado na esquina da Rua XV de Novembro e Rua do Rosário, uma faixa dependurada, com os dizeres “Vende-se”, parece uma página a ser virada na história recente de Piracicaba. Ao lado do “Dispensário dos Pobres” também conhecido como “Pensionato das Freiras”, onde dezenas de moças pensionistas, ali viveram durante o período de seus estudos em cursos universitários de Piracicaba. Por muitas décadas um estabelecimento comercial, de proporções físicas diminutas, foi para muitos o local que atendeu as urgências de complementos culinários e domésticos para as referidas pensionistas. Ao lado esquerdo do armazém, o Condomínio Vargas abrigava um grande número de “repúblicas” de estudantes. Profissionais de elevada competência, espalhados nos mais distantes rincões, quando ainda estudantes residiram ali, estabeleceram animados diálogos regados á deliciosa cerveja servida “no ponto”, no Bar da Rosário. Mais do que ingerir o líquido, havia a companhia de amigos, companheiros de jornada, muitos sonhando com o futuro, traçando planos. Aquele armazém além de servir gêneros próprios da sua atividade é uma fábrica de sonhos e de esperança. Em cada detalhe, parece que o tempo foi congelado. O ladrilho hidráulico, hoje bastante raro, a geladeira revestida de fórmica de um tom avermelhado, como era a moda da época. O que destoa do ambiente é a presença do proprietário que transmite uma energia simpática e autoritária, de alguém que foi talhado para atuar nesse ramo de atividade. Amadeu Gomes Domingues, aos 69 anos de idade, nasceu em 28 de novembro de 1939 é o proprietário desse armazém desde 9 de fevereiro de 1982.
Como o senhor passou a ser comerciante?
O meu trabalho anterior era na Itelpa. Uma indústria que fabrica telas para a indústria de papel. Trabalhei lá por 22 anos. Comecei a trabalhar em fevereiro de 1958, quando a Itelpa situava-se na Rua Moraes Barros esquina com a Avenida Armando Salles de Oliveira. Em 1969 ela transferiu-se para a localidade onde está situada até hoje, na rodovia que vai de Piracicaba á Tupi. Eu comecei a trabalhar na Itelpa quando tinha 18 anos de idade e sai com 40 anos. Antes eu trabalhei em uma indústria situada na Vila Rezende, era uma tecelagem de seda, chamava-se Suceda, trabalhei lá no período de 1955 até 1957, comecei a trabalhar lá com 14 anos de idade. Eu trabalhava no setor de estamparia, estampávamos o tecido. Na época eu morava no local denominado Morro do Enxofre, na Rua da Colônia, 132.
Como se chamavam seus pais?
Meu pai chamava-se Ricardo Gomes Domingues e a minha mãe Josefa Anhão Rando Gomes. Ambos vieram da Espanha, papai com 18 anos e mamãe com 11 anos de idade. Conheceram-se aqui na região de Piracicaba, naquela época havia as fazendas de café. A propaganda feita na Europa incentivou a vinda de muitos espanhóis para o Brasil. Meus pais desembarcaram em Santos, depois rumaram para São Paulo, onde ficaram na Hospedaria dos Imigrantes. Lá eram estabelecidos os contatos com emissários de fazendeiros, onde de forma fantasiosa arregimentavam os novos colonos, que na verdade vinham para substituir a mão de obra escrava dos negros libertos recentemente. Meus pais moraram no Bairro da Floresta, depois se casaram e se mudaram para Santa Maria da Serra. Isso já foi em uma fase em que tinham superado as imensas dificuldades sofridas pela família, desde a chegada ao Brasil. Mais tarde voltaram para Piracicaba e passaram a morar na Rua da Colônia. Meus pais tiveram oito filhos: Ricardo, Amadeu, Mercedes, Nelson, Maria, José, Josefa.
Onde ficava a primeira empresa em que o senhor trabalhou?
A Suceda ficava em frente ao Dedini. Para ir trabalhar tinha que pegar o primeiro bonde. Ás cinco e meia da manhã desciam os três bondes: o da Vila Rezende era o primeiro que descia, o segundo era o da Agronomia e o terceiro era o da Paulista. A garagem dos bondes era na Avenida Dr. Paulo de Moraes, próxima ao antigo Corpo de Bombeiros. Eu tinha que pegar o primeiro bonde para não pagar duas passagens. E se perdesse o primeiro bonde, teria que esperar o bonde voltar da Vila Rezende. Ou ir a pé do centro até a Suceda. Entrava ás sete horas da manhã e saia ás cinco horas da tarde, com intervalo de duas horas para o almoço. Naquele tempo levávamos a marmita. Eu trabalhava na estamparia. O tecido era estampado á mão, quadro a quadro. Um tecido com cinco cores usava cinco quadros como, por exemplo: branco, verde, preto, vermelho, amarelo. Os desenhos eram sobrepostos. Esticava-se o tecido em uma mesa com uns trinta metros de comprimento, almofadada, essa peça era colocada sobre a mesa, poderia ser popeline, seda. Ficava uma moça de cada lado com os quadros, e iam passando-se os quadros na seqüência. Tinha estampas que levavam duas cores, outras levavam quatro. Dali ia para uma máquina chamada vaporizador para fixar essa tinta no tecido. Em seguida ia para a lavanderia e para a embalagem.
Como o senhor ingressou na Itelpa?
Eu completei 18 anos, e nessa época a Suceda estava em declínio. Eu tinha um tio que trabalhava na Itelpa e me indicou para trabalhar lá. Entrei em 1958, já em 1961 eu tinha passado de ajudante a tecelão e fazia urdições, que é o começo da tela, do tecido. Na época o tecido era feito em bronze ou em aço inox também. Por volta de 1968 a 1970 essa tela passou a ser feita em fio sintético. O bronze era muito caro e dava muito problema. A matriz da Itelpa ficava na Alemanha. Em 1961 a Itelpa comprou uma empresa em Buenos Aires. Éramos cinco pessoas de Piracicaba que fomos para ensinar o pessoal de Buenos Aires a trabalhar com os teares. Permaneci lá por três anos.
Na época o senhor era solteiro?
Era. Tinha 22 anos. Tive contato com a cultura argentina. A cada seis meses eu tinha direito a uma viagem para o Brasil, onde permanecia por 15 dias. Realizei essas viagens de avião, com exceção de uma que fui de navio para Buenos Aires, para levar uma máquina.
Buenos Aires traz lembranças de bons vinhos, carnes?
Já se passaram quarenta e poucos anos. Mas lembro-me de que éramos muito bem servidos com carnes, pão, massas. Mesmo porque a nossa alimentação era feita exclusivamente em restaurantes, pagos pela empresa. Eu não era muito ligado a esporte, tinha vindo do interior, não tinha muito conhecimento de esportes. Nessa época Pelé estava muito em evidencia. Coutinho que era de Piracicaba, também estava em evidencia. Os argentinos tinham muita curiosidade em saber sobre Pelé. Eu não tinha muitos subsídios para poder responder a todas as questões que me faziam. Procurava sempre me informar para matar a curiosidade deles. Um dos diretores da empresa argentina era muito esportista. Coincidiu que o Santos foi fazer uma excursão por lá, levando Pelé, Coutinho. Fomos assistir a uma partida no campo do River Plate, que fica em Nuñes, um bairro muito bonito de Buenos Aires, e o Santos ganhou de 8X2. Só Pelé marcou 5 gols, Coutinho marcou mais 2. No outro dia na fábrica, os argentinos nos aclamavam. Eu cheguei a ser sócio do Racing Club. Nós estávamos hospedados no Lafayette Hotel na Calle Constitucion, um dos diretores do hotel nos tornou sócios do Racing, o que nos dava uma série de vantagens, como piscina, a dançar o tango, que foi uma das coisas que não consegui aprender a dançar com perfeição. O tango bem dançado é difícil!
Como as moças argentinas o viam?
Não sei se era pelo fato de estarmos trabalhando em uma empresa como a nossa, e desfrutarmos de uma boa condição de vida, tínhamos facilidade em conquistarmos as moças argentinas. Só que na época era um país muito distante. Hoje com o avanço dos meios de transportes tornou-se um país de mais fácil acesso. Na época usávamos a Varig, Alitália, Lufftansa, para voar.
O senhor chegou a manter um namoro firme com alguma argentina?
Quase cheguei a casar! Namorei a moça por cerca de um ano. Freqüentei a casa da moça. Ela morava bem próxima á fábrica onde trabalhávamos.
O senhor ia almoçar aos domingos na casa dela?
Fui algumas vezes. Era servido churrasco, o argentino come muita carne. Eu me dava muito bem com o pai da moça, ele trazia um vinho, é um habito deles, oferecer o melhor vinho ao visitante. Só que no fim não deu certo. Ela era muito apegada á família dela, eu sou muito apegado a minha família. Fui muito claro com ela, disse-lhe que se nós chegássemos a casar e vir embora para o Brasil, seria muito difícil ela ver a família dela. Isso se tornou um empecilho para que continuássemos nosso relacionamento.
O senhor casou-se no Brasil?
Casei-me em 21 de janeiro de 1967 com Regina Passarelli Gomes na Igreja do Bom Jesus, tendo Monsenhor Martinho Salgot como celebrante. A festa foi na casa dela, fizemos um “empalizado”nós fomos cortar bambu na fazenda do pai dela em Santa Maria da Serra, fizemos o empalizado, com o encerado cobrindo, choveu muito naquela noite, mas deu uma bela de uma festa. Isso foi na Rua Bom Jesus, 1417.
O senhor chegou a voltar para a Argentina depois de casado?
Voltei para a Argentina, de carro, com a minha esposa grávida e um filho de três anos. Isso foi em 1973, no primeiro ano em que surgiram as férias de 30 dias na indústria. Eu tinha comprado um Fusca ano 1970, branco, 1200cc, e fomos para Buenos Aires. Levamos seis dias de viagem. Permanecemos um dia em Florianópolis, onde morava uma prima da minha esposa. Na Argentina ficamos por volta de vinte dias na casa de amigos que foram colegas na empresa.
O senhor permaneceu na Itelpa até que ano?
Até agosto de 1980. Foi quando fiz um acordo com a empresa, de empregado estável para empregado novo. Após 90 dias fui demitido. Meu último cargo foi de Inspetor de Qualidade da Divisão Telas. Recebi todos os meus direitos. Trabalhei por um período de um ano e meio na Cicobra, na Avenida Armando Salles.
Como o senhor entrou em um ramo totalmente diferente, que é esse em que o senhor trabalha hoje?
Eu tinha um cunhado que tinha um bar na Rua XV, e descobri que o antigo proprietário deste estabelecimento, o Sr. Antonio Granzotto estava querendo vender. O prédio era alugado, assim como eu também pago aluguel.
Qual foi o impacto que o senhor teve no primeiro dia já como proprietário?
Foi difícil! Eu não entendia nada! O antigo dono permaneceu por uns 15 dias me acompanhando. Comecei a pegar o jeito da coisa e segui até hoje.
Quando o senhor se estabeleceu aqui já existia o Dispensário dos Pobres?
Já! Na época em que entrei aqui o dispensário era bem atuante.
Existia também o pensionato para as moças?
Existia. O portão de acesso para as moças era fechado ás 11 horas da noite. Os pais deixavam as moças hospedadas aí com inteira segurança. Elas faziam as faculdades de odontologia ou agronomia, cada uma fazia o curso que havia escolhido. Era pensionato de moças. Namorado não entrava. Aqui ao nosso lado temos um conjunto de apartamentos chamado Conjunto Vargas, era república só de homens. Poderia até existir alguns que tivesse alguma namorada lá, mas no horário estabelecido pelo pensionato a moça tinha que se recolher.
De forma geral como era a rotina das moças que moravam no pensionato?
Elas viajavam no final de semana para as suas cidades de origem, e quando voltavam traziam alimentos congelados. Cada uma tinha o seu espaço nas geladeiras. Elas tinham que fazer a própria comida no pensionato. Ás vezes faltava alguma coisa. Elas vinham comprar aqui, por exemplo, um ovo. Outra vinha comprar uma cebola. Ou um tomate. Algumas perguntavam: “-Você vende um ovo só?”. Eu brincava, dizia que só não vendia metade porque não tinha onde cozinhar um ovo. Algumas fumavam, vinham buscar dois, três cigarros avulsos. O nome do estabelecimento é Bar da Rosário, antigamente era conhecido como “Jumbinho da Rosário” em uma alusão ao supermercado Jumbo. Era em uma época em que eu trabalhava com legumes, e diversos gêneros alimentícios.
Os rapazes se reuniam na frente do estabelecimento para tomar cerveja?
Isso era mais aos finais de semana, na sexta-feira, sábado. Naquele tempo havia umas oito mesas eles sentavam e ficavam a vontade. Havia algumas meninas que também vinha tomar cerveja. Era um número restrito de moças. Mas ficavam tomando uma cervejinha aos sábados á tarde ou na sexta-feira.
Uma pessoa muito famosa passava ás vezes por aqui?
O Sr. Eugenio Nardin, foi um grande amigo nosso. Ele era um artista muito importante. As portas da Catedral de Piracicaba foram feitas por ele. As cadeiras do altar também foram feitas por ele.
Uma figura folclórica freqüentava o estabelecimento?
O famoso Zé do Prato era nosso cliente. Ele foi casado com uma tia de uma sobrinha minha. Com isso criou-se uma amizade. O pessoal que freqüenta aqui são quase sempre os mesmos. Um que trabalhou por 22 anos na Boyes é o Oswaldo, mais conhecido como Pardal. Uma pessoa muito boa, muito conhecida. É uma pessoa muito inteligente.
Aqui é o ponto de informação da cidade?
Justamente! O que nós damos de informação! Perguntam onde é a delegacia, onde é o posto fiscal. A maioria pergunta onde é a Acipi, aonde vai “limpar” o nome. Procuram pela Guarda-Mirim.
As questões nacionais são resolvidas na mesa do Bar da Rosário?
Geralmente todos os bares têm as soluções mais perfeitas para os problemas que afligem a humanidade!
Nesse instante um freqüentador interrompe e solta a frase lapidar:
“O Bar do Amadeu é cultura!”. (Bar da Rosário ou Bar do Amadeu como é conhecido o estabelecimento pelos habitués).




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