Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sábado, março 06, 2010

JORGE RASERA

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 6 de março de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.tribunatp.com.br/
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http://blognassif.blogspot.com/



                                           JORGE RASERA E SUA ESP Da. MARIA JOSÉ
ENTREVISTADO: JORGE RASERA
A Rua do Rosário, na sua continuação após a Avenida Dr. Paulo de Moraes conserva forte tradição do passado. Por muito tempo foi corredor de passagem para quem se dirigia á zona rural. Derradeiro posto para se fazerem as compras. Duas máquinas de beneficiar arroz a do Barbosa e Grella e a do José Grella funcionavam ainda na base do benefício em troca de parte do produto. As lojas de sapatos, tecidos, bares onde se tomavam refeições rápidas, armazéns como o de propriedade de Vitório Fornazier. Os moradores da zona rural além de se abastecerem de alimentos adquiriam peças de vestiário, armarinhos, freqüentavam o barbeiro e acima de tudo era ali que se informavam das ultimas novidades. Os ônibus, então chamados de jardineiras, faziam ponto na Praça Takaki. O bairro era uma grande família, onde todos se conheciam, riam e choravam juntos, dependendo da ocasião. Religiosos, dividiam a freqüência entre a Igreja dos Frades e a Igreja São José. Gostavam muito de acertar os relógios com o som do apito do trem da Companhia Paulista que partia na hora exata. Uma profunda mistura de raças, a Paulista tem entre seus moradores descendentes de italianos, espanhóis, portugueses, árabes, suíços, alemães e provavelmente concentre o maior número de imigrantes japoneses de Piracicaba. É o único bairro da cidade cuja praça principal chama-se Praça Takaki. Hoje descaracterizada por um enorme reservatório de água em seu canteiro central. Um mastodonte de gosto duvidoso. Muitos cresceram no bairro vendo Jorge Rasera andando com sua inseparável bicicleta. Inicialmente em conjunto com seu irmão Pedro Rasera, possuía uma loja de tecidos e armarinhos, na Rua do Rosário, do lado direito, entre a Avenida Edgar Conceição e Avenida do Café. Ali Jorge se estabeleceu ainda bem moço, permaneceu por longos anos até mudar para o quarteirão seguinte. Provavelmente seja o comerciante mais antigo do bairro, embora a família siga com as atividades, o olho comercial de Jorge segue de perto o movimento. Filho de Pedro Rasera e Rosa Trevisam Raseira, Jorge nasceu no dia 12 de abril de 1931.
Onde você nasceu?
Nasci em Piracicaba, em uma chácara situada onde hoje é o Jardim Elite, meu pai tinha gado de leite nessa propriedade. Éramos oito irmãos, cinco homens e três mulheres. Na época aquela região era formada por chácaras, havia apenas uma entrada para entrar no saibreiro, era pela rua D.Pedro II. Quem ia para o bairro Dois Córregos subia pela Rua Moraes Barros. Da Rua Benjamin Constant até chegar nas chácaras lá em cima era tudo fechado, não havia caminho.

Quem trazia o leite para ser vendido na cidade?

Meu pai, meu irmão, eu mesmo. Trazíamos com um carrinho, a venda era feita para o próprio consumidor.

Você lembra-se do tempo em que o leite era transportado em um litro comum, tampado com um sabugo de milho envolto em palha de milho?

Lembro-me sim! Depois vieram os laticínios Ideal e Piracicabano.

Quando freqüentou a Escola de Comércio?

Eu tinha uns vinte anos de idade quando freqüentei a Escola do professor Zanin. Nessa época passei a ser proprietário de loja. Era um salãozinho pequeno que meu pai deu para mim e para meu irmão Pedro tocarmos nosso comércio. Depois nós aumentamos nessa época eu era solteiro ainda.

Como foi essa mudança para o ramo de tecidos e armarinhos?

Quem montou essa loja para mim foi o Toninho Sallum. Com um empregado da loja dele, pegou um pouco de cada mercadoria que ele tinha, e abriu a lojinha lá. Isso foi em 1951. Na época a Rua do Rosário era uma rua com duas mãos de direção, os veículos subiam e desciam por ela. Até que um dia na Avenida do Café com a Rua do Rosário um caminhão carregado de areia matou uma menina. Após aquele dia a Rua do Rosário passou a ser mão única.

O comerciante, já falecido, Alcides Saipp, também tinha um estabelecimento comercial na época?

Começamos a trabalhar na mesma época. O estabelecimento dele era na Rua do Rosário esquina com a Avenida Dr. Edgar Conceição.

Como conheceu sua esposa?

Naquele tempo era habito entre os jovens quadrar o jardim, foi assim que a conheci Maria José Barbelli Rasera. Casamos em 1957, na igreja da Vila Rezende, o celebrante foi Monsenhor Martinho Salgot.
Ela trabalhava onde?

Ela trabalhou na Fábrica Boyes, desde os 14 anos de idade até casar-se, ela é nascida em 29 de outubro de 1934, filha de Salvador Barbelli e Vitória Volpato. Meu sogro Salvador trabalhava no Engenho Central.

Era habito levar o almoço para seu pai, Maria José?

Eu ia levar o almoço para ele, ia buscar leite na cocheira. Havia aqueles montes de açúcar escuro, pegávamos aqueles pelotes para comer. Uma vez por ano havia um churrasco lá na Santa Rosa. Foi um tempo muito gostoso. A Boyes deu emprego á muita gente na cidade. Eu trabalhava na fiação, trabalhei um ano como aprendiz, depois passei a contramestre da seção. O horário era feito de forma alternada. Uma semana entrava ás 5 horas da manhã e saia á uma hora e trinta minutos da tarde. Na outra semana entrava a uma hora e trinta minutos da tarde e saia ás 10 horas da noite. A produção basicamente era de sacaria para ser utilizada em usina de açúcar. Uma das coisas que guardo é fruto de uma semente de abacate que meu pai trouxe do Engenho Central e que produz abacate até hoje! É um abacate muito gostoso.

Jorge, no tempo em você abriu a loja havia uma relação de confiança muito grande entre comerciante e freguês?

Vendia fiado para todo mundo e recebia de todos. Vendi muito tecido. Os clientes compravam de peça inteira.

Quando você montou a loja as construções existentes no bairro eram poucas e esparsas?

Quando cheguei ao bairro já existia o primeiro sobrado da paulista, que permanece até hoje, na Rua do Rosário, 2547. Ali havia também uma bomba para abastecimento de gasolina, que ficava junto ao meio fio, a bandeira era Texaco. O proprietário era José Nassif.

Jorge, você conheceu o Nhoca?

Nhoca era muito conhecido! O nome dele era José Vicente, era cego de um olho. Benzia todo mundo, pessoas, animais, cavalos! Vinha gente de longe para ser benta por ele. A mulher dele era Dona Idalina. Eram pais de dois filhos.

O Manoel Castilho era morador do bairro quando você mudou-se para cá?

Ele já morava na Paulista. Ele fazia sapato, colocava meia sola, era um sapateiro muito habilidoso. Onde é hoje a Igreja Assembléia de Deus existiam duas casas, foi o Nino Ferreiro quem vendeu para a construção da igreja. Mais a frente morava uma senhora italiana a Dona Lucrecia. Onde foi a Alvarco existia uma casinha no fundo.

Onde hoje é a loja Capital o que era antes?

Antes da Antonieta adquirir a propriedade e construir a Boutique Antonieta, era um imóvel de propriedade de Crispim Durrer, um terreno com muitos pés de banana. A casa onde mora Benedito Baglione foi construída por Alcides Fornazier. Estudei com Valdemar Fornazier no Zanin. O bonde tinha como ponto final em frente a Padaria Cruzeiro, quase em frente onde hoje é o Toninho Lubrificantes. Quando o bonde vinha no sentido do bairro para o centro, isso á noite, víamos o farol aceso que se aproximava, eu e o Valdemar corríamos bastante para poder pegar o bonde em frente a Estação da Paulista., e assim ir para a escola. Corríamos o máximo que conseguíamos e pegávamos o bonde correndo. Onde hoje é o posto Petrobras, na esquina da Avenida Dr. Paulo de Moraes com Rua do Rosário, tinha o bar da Dita Pé Grande, quando voltamos da aula parávamos ali, onde tomávamos uma cerveja caracu com pão.

Quando você veio morar na Paulista, em 1948 havia água encanada?

Não existia! A água era tirada de poço. A água era puxada do poço com uma corrente de ferro, de vez em quando quebrava, tinha que ficar pescando a corrente no poço. O fogão era a lenha.

A Avenida Dona Jane Conceição terminava onde?

O fim dela era onde hoje é a Rua Campinas. Dali em frente era plantação de cana de açúcar. A Avenida Madre Maria Teodora era a rua com mais movimento, depois havia apenas algumas casinhas dispersas. Era tudo propriedade da família Conceição.

Na esquina da Avenida Da. Jane Conceição com a Rua do Rosário, onde hoje existe uma farmácia Drogal existia o que?

Era uma sapataria! Onde hoje estão os bancos do Brasil e Itaú havia duas casinhas.

Qual era seu esporte preferido?

Eu tinha um timinho de futebol, União paulista, todo domingo jogávamos.

Onde era a sede do time?

Em cima do caminhão! O Pitão era o treinador.

Em que posição você jogava?

Não tinha posição determinada, já usávamos chuteira. Íamos jogar em muitos lugares.

Você gostava de passear quando era jovem?

Eu saia passear todas as noites.

Como era a história do Porunga?

Porunga era nosso amigo, um vira lata pequeno. Eu tinha uma cestinha, escrevia um bilhete fazendo o pedido que queria e ele ia até o açougue. A vantagem é que pelo fato de ele ser pequeno, entrava entre as pernas dos clientes e era o primeiro a ser atendido pelo açougueiro. A cestinha não era amarrada e sim presa por ele entre os dentes. Ninguém conseguia tirar essa cesta dele. Ele trazia o pedido que estava escrito no papel. O mais interessante é que ele nunca mexeu na carne, o açougueiro era o Rubens Zillio. Infelizmente o Porunga um dia morreu atropelado por um carro na esquina da Rua Sud Mennucci com a Avenida Dona Jane Conceição.

Na esquina da Rua do Rosário com a Avenida Dona Jane Conceição, onde hoje existe uma diversidade de lojas era um terreno vazio, que era usado para lazer?

Ali se apresentavam circos, eram instalados parques de diversões, e até comícios políticos foram feitos nesse local. Um dos circos que esteve aqui foi um grande cliente meu de fitas de tecido. Era fita número 5, o palhaço enchia a boca de fita e ia tirando, pareia que não ia terminar mais, a molecada vibrava. Ali onde hoje é a caixa d`água na Praça Takaki passava um caminho de terra que ia até perto da estação. Existia a carregadeira de boi, hoje uma área fechada ao público, ao lado do Restaurante Frios Paulista, os bois eram conduzidos pelas ruas, fechavam-se os portões das casas para evitar que eles entrassem. Um dia um boi escapou na hora da saída do pessoal da missa, esse boi desceu a Rua Alferes José Caetano causando uma grande polvorosa.

Lembra-se da Chácara Nazareth quando ainda não tinha sido loteada?

Lembro-me sim. Eu tinha uma namorada que morava lá embaixo, próximo a sede. Eu tinha que levá-la até lá, á noite, no meio daquele bosque escuro, era uma caminhada memorável.

O senhor fuma?

Eu fumava cigarros industrializados e cigarro de fumo de corda. Fiz uma bateria de exames médicos, após isso passei a fumar só cigarro de fumo de corda. O fumo da nossa região, o fumo do Bairrinho é um fumo fino, o fumo Arapiraca é um fumo mais grosso. É interessante observar que hoje a palha de milho em que é enrolado o fumo é mais cara do que o próprio fumo.
 
 
 

                                                    JORGE RASERA CORTANDO FUMO DE CORDA PARA FAZER SEU CIGARRO DE PALHA DE MILHO
Você tinha uma bicicleta?

Andei muito de bicicleta, tinha uma de marca Philips, preta, eu a comprei quando ainda era mocinho. Todo domingo aos o almoço ia andar de bicicleta, ia lá para o Taquaral.

Você acompanhava os jogos do XV de Novembro?

Fiz muitas viagens acompanhando os jogos do XV. Uma delas foi marcante. Fui á São Paulo assistir a um jogo do XV contra o Paulista de Jundiaí. O XV perdeu o jogo. Eu e o falecido Alcides Saipp conseguimos uma carona para voltar á Piracicaba, era uma pessoa que estava de caminhonete. Não marquei o tempo que levamos para chegar, mas acho que ele fez o percurso em uma hora de viagem. Foi uma viagem de terror! O motorista estava revoltado com a derrota do XV. Quando chegamos á Piracicaba, e descemos do veículo demos graças a Deus.

O Milton Novello foi um personagem folclórico da Paulista?

Ele era mecânico, tinha uma grande facilidade para divertir-se e divertir os outros. Criava situações cômicas, como arrancar minhoca do solo com eletricidade. Havia um farmacêutico no bairro, que sofria de deficiência auditiva, o Milton arrumou uma boneca grande, embrulhou em um xale, pediu ao farmacêutico que medisse a temperatura da “criança”, que estava toda embrulhada. Após uma demorada aferição, o farmacêutico deu o diagnóstico: “Não tem febre nenhuma!”. Para espanto e horror do farmacêutico Miltinho jogou a “criança” no chão, deixando aparecer que se tratava apenas de uma boneca! Na feira livre havia um japonês muito zeloso com suas frutas, e ficava bastante contrariado quando alguém as apertava para testar a maciez. O Miltinho que tinha amputado parte de um dedo resolveu fazer uma brincadeira. Vendo um mamão muito bonito, apenas encostou a ponta do dedo amputado na fruta, dando a entender que tinha enfiado parte do dedo no mamão. Chamou o japonês e disse-lhe: “Esse mamão está bem mole né!” Furioso o proprietário usou todo o seu vocabulário de impropérios, até o Miltinho mostrar que a fruta estava intacta. Outro da família Novello era o Zico Novello, ele conseguia matar (desligar) o motor de um caminhão apenas encostando os dedos no contato elétrico de alta voltagem.

MATERIAL NECESSÁRIO PARA "PITAR" UM CIGARRO DE CORDA









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