Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sábado, julho 10, 2010

Clélia Del Tedesco Saipp

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 10 de julho de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/

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http://www.teleresponde.com.br/

ENTREVISTADO: Clélia Del Tedesco Saipp
 A rápida evolução tecnológica em que vivemos afeta diretamente nossos hábitos e costumes. Nas décadas de 50, 60, era comum um menino sair pelas calçadas, quando existissem, rodando com a mão um pneu velho, ou ainda um aro de metal ou borracha era conduzido por um longo arame, ou ferro fino de construção, em forma de “U” tendo às vezes até um cabo de madeira, era o famoso “arquinho” e se mostrava indispensável para que mais rapidamente a criança pudesse ir fazer os mandados da mãe Um cabo de vassoura transformava-se em um cavalinho de pau. Com caixinhas de fósforos vazias e uma linha de costura fazia-se o telefone. O papagaio que depois passou a se chamar pipa é uma brincadeira que necessita condições climáticas de ventos constantes, próprias do mês de agosto. O bodoque que passou a se chamar estilingue era feito com uma forquilha de madeira, as melhores eram de pé-de-goiaba, um par de tiras de câmara de ar de bicicleta, de 25 centímetros de comprimento e um centímetro de largura e um pedaço de couro que unia as duas tiras de borracha. Era usado para atirar pedras com muita força. O jogo da bolinha de gude aparecia num determinado período do ano e depois de alguns meses cessava a brincadeira. Havia a perna de pau, o pião de madeira. O carrinho de rolimã ou carrinho de rolamentos era feito artesanalmente usando madeira e rolamentos.
Carrinho  de rolimã

Fazer uma bola de pano era uma arte. As meninas tinham poucas variações de brinquedos, em geral brincavam de bonecas que podiam ser feitas de pano recheadas com retalhos, peteca feita de palha de milho, brincavam de fazer guisadinhos, com comidas feitas em latinhas de goiabada, marmelada, massa de tomate e sardinha, havia as cirandas ou brincadeiras de roda. Em 1961, quando o então presidente recém-empossado Jânio Quadros proibiu o lança-perfume, foram produzidas bisnagas em plástico no mesmo formato das proibidas, bastava colocar água e apertar, foi uma febre no país inteiro. Muita criança de famílias mais abastadas perdeu o sono até ganhar o pequeno projetor movido à manivela, cujos filmes eram feitos de papel-manteiga desenhados com duas imagens e duas opções de movimento. Chamava-se Cine Barlan. Carrinhos feitos de folha de lata eram importados e caros. Os brinquedos de lata prensada foram fabricados até a década de 60. Inicialmente chamada como matéria plástica, na década de 60 o brinquedo plástico tomou grande impulso. Piracicaba tinha alguns templos de consumo infantil, entre outros, a Loja da Lua, Ao Cardinali Presentes, Casa Portuguesa, Casa dos Presentes. Clélia Del Tedesco Saipp e Alcides Saipp são nomes extremamente populares no Bairro da Paulista. Foram padrinhos de muitos casamentos e batizados de clientes que se tornaram amigos, afilhados e compadres.



Da. Clélia, a senhora nasceu em que dia?

Nasci em 9 de julho de 1932, meu marido as vezes brincava dizendo que pelo fato de ter nascido nessa data eu era uma “revolucionária”. Sou natural de Mococa, fiz o primário e o curso normal em Monte Santo de Minas, meus pais José Del Tedesco e Elza Di Conti Del Tedesco tinham um depósito de queijos, compravam em Minas e traziam para Mococa. De lá mudamos para Londrina, após uns dois anos mudamos para Bela Vista do Paraíso, também no Paraná, de onde viemos para Piracicaba.
                                                      A jovem Clélia
Onde a família estabeleceu residência em Piracicaba?

Tínhamos um armazém na Rua Benjamin Constant, 2333. O Alcides tinha um bar bem em frente, onde hoje há um posto de gasolina, na esquina da Avenida João Conceição com Rua Benjamin Constant. O Alcides Saipp, meu marido, nasceu em Rio Claro, no dia 23 de dezembro de 1923, seus pais eram Lucia Saipp e Antonio Saipp. Na época a Avenida João Conceição era de terra, quase em frente a nossa casa havia uma fabrica de barcos de madeira.

A família da senhora mudou-se para a Rua do Rosário esquina com a Avenida Dr. João Conceição?

O meu pai construiu a casa existente até hoje, há inclusive um salão comercial anexo a casa. Havia poucas casas nas imediações, lembro-me dos vizinhos, Jorge Razera, Pedro Razera, João Sabino Barbosa, sua esposa Dona Vitalina, Isidoro Lopes, Rosa Canaan Nassif, muito amiga da minha mãe e com cuja filha Georgina, eu ia quadrar o jardim no centro. Descíamos a pé pela Rua Alferes José Caetano visitava a sua irmã Josefa e íamos até a praça, assistíamos a um filme no Cinema São José, no Broadway, quadrávamos o jardim e voltávamos para casa. Tudo a pé. Quando havia um filme muito concorrido o bonde ia lotado. Ao lado da nossa casa há uma rua particular que dá acesso a um conjunto de casas, ainda era fechada com cerca de arame quando aconteceu um fato que guardo na lembrança até hoje. Ainda era tudo terra, um dia vi um carro fúnebre entrando pela rua particular, comentei o fato com a minha mãe, ele disse-me que a Dona Teresa estava grávida e havia falecido. Era muito cedo, estava frio, resolvi levar um café fresco, ao chegar à casa o corpo estava na sala sendo velado na sala, os filhos dela, conforme iam acordando iam pedindo: “-Mãe! Quero leite!’ ou “-Mãe me dá o café!”. Ela tinha passado mal a noite, faleceu de madrugada, era costume naquela época velar os mortos em suas próprias casas. Nunca me esqueci desse episódio.

As ruas do bairro já eram pavimentadas?

A Rua do Rosário era mão dupla, terra vermelha, o movimento dos caminhões que subiam e desciam por ela, levantavam uma poeira triste. Minha mãe cultivava uma horta no quintal da sua casa.
Alcides Saipp

 

Quando a senhora casou-se?

Casamos em 24 de maio 1953, o Alcides trabalhava como serralheiro com seus irmãos Hélio e José. Uma loja de utilidades domésticas e presentes que existia na Rua Governador, próxima a Avenida Dr. Paulo de Moraes havia sido fechada. Foi quando eu disse ao Alcides que podíamos tentar estabelecer uma loja nesse ramo, já que não havia nas proximidades uma loja que substituísse a que havia sido mudada para o Largo São Benedito. O Alcides passou a procurar um local para abrir a loja, foi quando meus pais ofereceram o salão anexo a casa deles, que estava vazio. Assim começamos ali o nosso estabelecimento comercial. Por volta de 1962 construímos o prédio onde até hoje funciona a nossa loja. Foi o segundo sobrado construído no Bairro da Paulista. A Casa Portuguesa, que ficava no centro, era umas das grandes lojas do ramo, muito conhecida, que infelizmente encerrou suas atividades em conseqüência da queda do Edifício Luiz de Queiroz, o Comurba, quando vários membros da família do proprietário, o Seu Francisco, foram fatalmente atingidos. A loja Ao Cardinali, outra grande expressão do comércio piracicabano, sofreu um incêndio.

A clientela da sua loja é muito fiel?

Às vezes vou até lá, só para me distrair, de vez em quando chega e pergunta se a loja ainda pertence a nossa família. A pessoa então relata que vinha quando era criança ainda, vinha para comprar brinquedo, e que agora está comprando brinquedo para seus filhos.

Seu Alcides tinha algum hobby?

Ele gostava muito de assistir uma partida de futebol do XV de Novembro, ia também até um campo de bocha muito famoso que existia na Avenida Edgar Conceição, entre a Rua da Palma e a Rua Campinas.

A senhora tem quantos filhos?

São três filhos, Wilney, Marilney, Adilney. Sendo que o Adilney embora também tenha feito curso superior decidiu dar continuidade ao comércio que nós fundamos. O sobrenome Saipp é de origem alemã.

A loja tinha muitos clientes que moravam na zona rural?

Tinha muitos, quando havia casamento eles vinham de caminhão, os noivos vinham na cabine e os padrinhos e demais convidados na carroceria do caminhão, que vinha bem cheia. Iam até a Igreja dos Frades, onde a cerimônia era celebrada, na volta paravam em frente à loja, desciam e compravam os presentes para os noivos. Os convidados pediam: “-Pare na Casa dos Presentes para comprar presente para a noiva!”. Era aquele alvoroço! Embrulhar os presentes que era o detalhe, nós comprávamos folhas de papel pardo e papel de seda, como o papel de seda era muito caro, era colocada apenas a metade da folha, ou seja, o presente era embrulhando com o papel pardo, ficando apenas uma dobrinha de papel de seda. Na época fazia muito sucesso o licoreiro, que era composto por uma garrafinha, uma bandejinha e seis cálices pequenos. Um convidado da festa vinha e comprava, depois vinha outro, mais outro, com isso a noiva ganhava muitos licoreiros, eles achavam bonito, compravam o que gostavam, para dar aos noivos. Embrulhávamos os presentes e eles seguiam para a festa, convidados e presentes iam embora, no caminhão. Os padrinhos davam jogo de panelas em alumínio, pratos, jogo de jantar, ou um faqueirinho. Era comum que os padrinhos pagassem as bebidas.

A senhora e Seu Alcides foram padrinhos de muitos casamentos?

Fomos sim, de muitos casamentos e de alguns de batizados. Na Semana Santa e no mês de agosto não havia casamentos. Havia certa superstição com relação ao mês de agosto, diziam “agosto mês do desgosto”, com isso não se casava nesse mês. Era comum a venda de manteigueiras, a manteiga vinha embalada em papel ou caixinha de papelão. Bem mais tarde surgiram as travessas da marca Pyrex, vendia-se muito esses produtos. Hoje já vem em embalagem própria para consumo e armazenamento. Nós vendíamos bacias enormes, próprias para banho, não havia água encanada no bairro. Nós tínhamos um poço, com uma bomba, a água era armazenada em um reservatório e de lá distribuída para a casa. Poucos tinham esse recurso, a maioria tomava banho de bacia. O maior sacrifício quando vendíamos uma bacia dessas, era embrulhar. O cliente tinha vergonha de sair com ela sem embrulhar. Usávamos jornais para embrulhar as bacias. Mesmo outras mercadorias eram embrulhadas em jornais, não havia sacolas plásticas. As pessoas traziam de casa sua própria sacola. Uma panela de alumínio, meia dúzia de pratos, era tudo embrulhado em jornal. Os brinquedos eram levados em sua própria caixa, não havia nada de sacola não.

O que as crianças gostavam de ganhar?

Gostavam de ganhar bolas, carrinhos, bonecas. Chegamos a vender bonecas e cavalinhos de papelão.

Cine Barlan, projetor de imagens movido a manivela

A senhora viajava de trem?

Nós íamos á São Paulo de trem para fazer compras na Rua 25 de Março. Levantávamos de madrugada, embarcávamos no trem logo cedo, o Alcides ia com uma mala e eu ia com outra. Levávamos um lanche de casa, não se consumia em restaurantes, água mineral não era comum consumir-se, se estivesse com sede pedia um copo de água no local onde estávamos fazendo compras. Abria-se a torneira e tomava um copo de água. Era isso que existia. Fazíamos as compras, no final da tarde íamos a pé até a Estação da Luz, tomávamos o trem de volta á Piracicaba e aqui chegávamos ás 10 horas da noite. Da estação até a nossa casa também vínhamos a pé, com as malas. Foi assim que começamos, a vida era dura naquela época. Até hoje, algumas vezes quando meu filho vai fazer compras em São Paulo eu o acompanho, ando bastante a pé percorrendo diversos fornecedores. Qualquer lugar para onde você for para conhecer tem que ir a pé, isso se aplica até em viagens turísticas.

A senhora acha que hoje a população se alimenta melhor?

Há sem dúvida uma maior quantidade de alimentos disponíveis, porém a qualidade é inferior á de algumas décadas. Muito pior. Naquela época obtinha-se o necessário com muito sacrifício, mas era tudo natural. Na horta que a minha mãe plantava, em seu quintal, não se usava adubo ou veneno. Plantava-se tomate, milho, criava-se galinha, porcos. A criação de porcos em fundo de quintal deixou de ser permitida, até então quase todo mundo criava um porquinho, que era tratado com restos de comida e milho, não havia ração e a enorme quantidade de produtos químicos utilizados para a sua fabricação. Atualmente as frutas têm um visual mais bonito, porém são menos saudáveis.

O comerciante tem sua parcela de psicólogo?

Eu via e ouvia muita coisa. Opinião diferente entre algumas noras e sogras era muito comum existir. A sogra vinha e falava a respeito de um objeto, suas utilidades e propriedades. A nora em outra ocasião vinha com outra opinião a respeito. Eu escutava apenas, eles tinham que viverem a própria vida e eu a minha. Quem está no comércio não pode tomar partido em opiniões diferentes dentro de uma família. O Alcides gostava muito de conversar com os vizinhos, ele não ficava muito na loja, era mais eu que permanecia. Quando chegava a noite, nós dois sentávamos e ele então comentava: “-Soube que fulano está doente!” ou “Fiquei sabendo que cicrano mudou para tal lugar!”. Hoje sinto falta dessas nossas conversas. Dia 15 de setembro fará 10 anos que ele faleceu.

Como foi ter que abrir a loja no meio da noite para atender ao pedido de um pai?

Naquela época meia-noite já era tarde, tocou a campainha de casa, Alcides saiu no terraço de casa, era o guarda noturno dizendo que estava com um pai, cujo filho estava com febre, durante o dia ele tinha passado com a mãe e visto um carrinho de folha de lata, era um jipinho. Meu marido abriu a loja para eles entrarem, foi quando o homem disse que estava sem dinheiro. O Alcides deu-lhe o carrinho para que pagasse quando pudesse. Não faz muito tempo veio à criança da época, hoje um senhor, dizendo que seu pai sempre lhe contava a história do carrinho.







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