Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Bruno Fernandes Chamochumbi (Papai Noel)

JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 25 de dezembro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
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ENTREVISTADO: Bruno Fernandes Chamochumbi (Papai Noel)
Segundo Luís da Câmara Cascudo, folclorista brasileiro, Papai Noel chegou ao Brasil na década de 1920, importado junto com o cinema e o rádio. O Natal é comemorado em todo o mundo, é uma festa tão popular, que já atingiu países como o Japão e a China. Pode-se dizer que Natal é uma festa globalizada a data de 25 de dezembro é sem dúvida a maior manifestação vivida pelos habitantes do planeta. As inúmeras facetas dessa data fascinam qualquer pesquisador, uma gigantesca catarse, quando a humanidade torna-se mais fraterna, embalados por uma mídia envolvente muitos despertam o sentimento de solidariedade, o amor ao próximo pregado pelas diversas correntes religiosas. Para um grande número de pessoas o Natal é um momento de reflexão e de grande alegria. Em Piracicaba há cerca de uma década e meia, um garoto foi contagiado pelo espírito natalino, a sua vocação latente para tornar-se um ator foi despertada pela oportunidade de representar o seu primeiro papel, o do bom velhinho que povoa a imaginação de crianças e adultos. Bruno Chamochumbi incorporou e personalizou a figura de Papai Noel, o ator evoluiu, profissionalizou-se. O tradicional trenó deu lugar a um reluzente helicóptero, cruzando os ares e levando ás alturas as fantasias e sonhos de Natal. Bruno Fernandes Chamochumbi é piracicabano, nascido em 30 de setembro de 1982, filho de Juan Alberto Vera Chamochumbi e Maria Isabel Silveira Fernandes Chamochumbi.
Seu pai é natural de qual país?
Ele veio do Peru para estudar na ESALQ, onde se formou como agrônomo. A minha mãe nasceu em Piracicaba, o seu pai é Eduardo Fernandes Filho, que teve grande participação na vida social de Piracicaba, é um dos fundadores do Lions Clube em Piracicaba, participou da fundação do Clube de Campo de Piracicaba, da Acipi, do Clube de Regatas de Piracicaba, foi contador da Escola de Musica de Piracicaba, além de suas ligações com o comércio e indústria local.
Você estudou em quais escolas?
Fiz o primário no Grupo Escolar Moraes Barros e no Grupo Escolar Prudente de Moraes. Junto com a minha família morei dois anos em Santos, freqüentando escola daquela cidade. Fiz o ginásio e o colegial no COC Piracicaba. Sou graduado em publicidade pela UNIMEP.
A sua vocação para ator manifestou-se quando?
Na escola eu já participava do teatro, sempre fui muito extrovertido, tenho uma veia humorística, minha família teve diversas atividades artísticas, meu avô cantava tangos e boleros com o seresteiro Cobrinha, temos pessoas da família que são produtores culturais, gosto muito de musica, de teatro, cinema.
Qual foi o seu primeiro papel de relevo em uma peça de teatro?
Aos 11 anos atuei como o Grilo Falante em Pinóquio, na cidade de Santos, eu gostava muito de desenhar, pintar e nessa apresentação me descobri como ator.
O que é necessário para ser publicitário?
Amor, paixão, paciência, criatividade, uma boa formação cultural, há a necessidade de conhecer cores, formas, histórias, pessoas. Temos que ter menos preconceito, quando digo um preconceito menor é porque vejo a necessidade de desvencilhar todo dia de uma pré determinação, de um pré conceito. O publicitário tem que estar sempre pronto para o novo, conhecer novas pessoas, linguagens, trabalhos, novas cores, formas. O publicitário tem que estar disposto a fazer a diferença.
Há opiniões sobre o fato de o publicitário vender produtos e serviços sem que o consumidor tenha a necessidade dos mesmos?
Não acredito nisso, como publicitários temos um papel social, que começa a ser exercido a partir do momento em que vendo somente aquilo em que acredito. Somos figuras fundamentais para que um projeto possa dar certo. Não posso vender mensagens que desarmonizem o mundo, que traga preocupação ás pessoas ou que façam mal ao próximo. Alguns de fato praticam esse tipo de ação, eu não consigo. Necessito “comprar” a idéia daquilo que vou vender, acredito até que possa ser reflexo do meu trabalho com a Casa de Noel.
Quando surgiu a oportunidade de atuar como Papai Noel?
Aos 14 anos recebi uma tarefa dada pelo Luiz André Filho, diretor da escola Poli Brasil onde eu era aluno. Eu entrava em sua sala para bater papo, sempre tive muitas idéias, como todos nós temos só que eu externava meus pensamentos. Um determinado dia ele me mostrou uma roupa de Papai Noel e perguntou-me se eu queria usar para entregar folhetos da sua escola, na época chamada de Data Brasil. Adorei aquilo! Imediatamente despertou em mim um sentimento artístico. Passei a observar que as pessoas estavam gostando do meu trabalho, respondiam de forma positiva. Permaneci na Rua Governador Pedro de Toledo quase na esquina com a Rua XV de Novembro, em frente à Alfaiataria Excelsior, divertia-me muito com aquilo tudo, ria bastante. No primeiro dia coloquei uma barba importada da China, bem simples, no segundo dia falei com a Tereza, que trabalhava em nossa casa, com uma almofada da sala criamos uma barriga para o Papai Noel. Arrumei outra barba para colocar sobre o meu cabelo, a cada dia percebi que poderia melhorar o visual do Papai Noel, com pasta d`água tornei minhas sobrancelhas brancas. Tenho a pele muito morena, passei a pintá-la, afinal sou descendente de peruano e o Papai Noel é caracterizado como natural do Pólo Norte. Eu estava tão envolvido naquilo que a cada dia inventava alguma coisa. Fui convidado pelo Bingo Broadway para descer de um helicóptero no estádio do XV de Novembro, o Barão de Serra Negra. Achei aquilo o máximo! Até os doze anos eu acreditava em Papai Noel, minha mãe fazia questão de levar uma cartinha que endereçávamos á ele.
Atualmente algum jovem com 12 anos acredita em Papai Noel?
Não! Na minha época poderiam existir muitas crianças que com essa idade acreditava em Papai Noel. Não deixei de acreditar na existência dele, eu entendi que Papai Noel é uma figura que traz uma serie de situações que não são as comerciais. Papai Noel não traz presente físico, ele traz presentes afetivos. As crianças de hoje não realizam essa descoberta somente aos 12 anos, elas descobrem antes. A mídia de forma velada fica em cima delas afirmando que Papai Noel não existe. Há uma vulgarização da figura de Papai Noel ocupando desde capas de revistas masculinas até os mais diversos produtos que se possa pensar. Com isso sua imagem se banaliza. As crianças percebem mais cedo que o Papai Noel não é apenas aquele que traz os brinquedos que elas estão pedindo, e sim quem dará lugar para o sonho de um mundo melhor. É nisso que o Projeto Casa de Noel acredita, após 14 anos de trabalho.
Qual foi o passo seguinte na trajetória do ator Bruno apresentando o Papai Noel?
Após a descida de helicóptero ocorreu minha participação em evento no Edifício Canadá, no ano em que o prédio foi inteiramente decorado com luzes de natal. Eu me divertia, ria muito, cantava a música que era o tema de uma novela da época, o refrão era: “Cadê zazá, zazá, zazá?” Eu apresentava um Papai Noel diferente, que cantava, interagia com as pessoas, tinha brincadeiras, tinha atitude. Fui convidado a estudar em uma escola particular com bolsa de estudos. Os proprietários do Colégio COC de Piracicaba moravam no Edifício Canadá. No ano seguinte o Waldir, proprietário da loja Farrawi me convidou para ficar em sua loja vestido de Papai Noel, passei a fazer a animação do estabelecimento por duas a três horas, todas as noites. Aquilo me divertia muito. Eu queria decorar a entrada da loja com motivos alusivos ao Papai Noel, falei com a proprietária de uma indústria de móveis, uma amiga da nossa família, Dona Maria Helena Corazza e pedi emprestada uma poltrona vermelha, para que o Papai Noel se apresentasse melhor caracterizado. Ao mesmo tempo em que eu estava adorando, sentia-me incomodado por Papai Noel não ter um lugar totalmente seu, com árvores, tapetes, mais peças com conotação natalina. As crianças iam diariamente tirar fotos, formava uma fila para estar com Papai Noel. Levei o coral do Colégio COC para apresentar-se na loja. Eu queria a Casa de Papai Noel de Piracicaba.
Existe Casa de Papai Noel em outras localidades?
Tem em Gramado, em São Paulo. Hoje represento um Papai Noel que canta musicas de MPB, internacional, musica italiana (Nesse momento Bruno dá uma palhinha cantando um trecho da música Champagne, lembrando os tenores italianos). Apresento um Papai Noel que dança, é participativo. Essa é a grande diferença.
Você ensaia?
Ensaio com a maestrina Malu Canto e com o maestro Hermes Petrini. No ano 2000 eu já tinha 18 anos, estava no terceiro colegial, sonhava com a Casa de Papai Noel, para que cantasse, passeasse pela casa. Escrevi o projeto com a ajuda de uma tia residente no Rio de Janeiro, a Rê Fernandes, especialista em redação de projeto, especialista em cor. Após redigir o projeto me animei em desenvolvê-lo, comecei a fazer reuniões com os meus colegas de classe para convidá-los a trabalhar comigo. No meio do caminho fui apresentando o projeto a diversas pessoas. Um amigo viu o projeto, gostou, ele era proprietário de uma casa na Rua Governador, 619, que estava necessitando de uma reforma, a proposta do projeto era de que cada cantinho da casa tivesse a participação de um decorador, de um arquiteto. Alguém montando a casa como se fosse o lugar onde Papai Noel escolheu para morar, com a sala, sala de brinquedos, o quarto dele, o banheiro, a banheira, a jabuticabeira. Enfim uma casa completa, um lugar mágico que eu tinha imaginado. Começamos a trabalhar em 8 de setembro, no dia 2 de dezembro a Casa de Noel estava inaugurada, totalmente reformada por 54 profissionais de arquitetura, decoração e artes plásticas.
Como você conseguiu disponibilizar esse pessoal todo?
Não sei até hoje! Juntos eu e a Cristiane que estávamos mais disponíveis, além do Mauricio e o Juliano que colaboravam muito. Ficávamos o tempo todo ligando, fazendo os contatos, convidando, conseguimos trocar o piso da casa, reformar o jardim, instalar uma cozinha planejada, fizemos um milagre na casa. Comecei a me exercitar, a me vestir como Papai Noel, passeava pela casa, Papai Noel poderia estar com os mais diversos trajes, até mesmo um roupão.
Pode-se dizer que era um “Big Brother” ao vivo com Papai Noel?
Isso! Tanto que naquele ano já havia uma chamada para o Big Brother apresentado pela TV Globo, o mundo inteiro estava alerta com o Big Brother, só depois é que fomos descobrir a proposta do espetáculo apresentado pela televisão, parecida com a nossa, apresentar o Papai Noel de tal forma que em qualquer canto da casa saísse uma foto bonita.
Para você foi um empreendimento com bons resultados financeiros?
Não apenas deixamos de ganhar, como também investimos muito dinheiro. Como divulgação o evento foi um sucesso, com cobertura da TV Globo, mídia dos mais diversos locais, o Senac como parceiro contratou uma agencia de propaganda com assessoria de imprensa, houve uma grande aceitação por parte do público. Em 2001 decidimos mudar de endereço, fomos para a Società Italiana di Mutuo Soccorso. A idéia é de que os arquitetos executassem um trabalho dentro de um espaço de utilidade pública. Ao sair de lá, confesso que achei que não ser possível fazer nada, não iria dar tempo, era o mês de julho, a arquiteta Cristina Anselmo estava comigo, disse-lhe: “-Cristina, não vai dar não, é muita coisa!”. A diretoria da Societá estava reformando muitas coisas, portas e janelas, tinha refeito toda a hidráulica, uma parte da elétrica, tinha sido feita uma laje no palco, o piso anterior era de madeira, comprometido pelo cupim. Passei a noite toda sem dormir, no dia seguinte liguei para a arquiteta e disse-lhe: “- Cristina! Decidi! Vamos fazer!” Começamos a trabalhar, o marketing era intuitivo, simultaneamente tinha profissionais trabalhando em conjunto, quando vi estava coordenando um mega projeto, juntamente com o presidente da Societá Italiana que era o Marcos Guidotti. Passei muitas noites sem dormir, fiquei muito tempo dormindo na casa de uns amigos que moram ainda no Edifício São Francisco, ao lado da Societá. Fui movido pela pressão de executar um projeto de muito sucesso. Até a tinta com que foi pintada a fachada da Societá Italiana foi feita de maneira especial. Conseguimos cozinha, jardim, piso, fachada, iluminação, a Societá Italiana estava revitalizada. Nesse ano tivemos 12.000 pessoas visitando a Casa de Noel. Corais apresentando-se todas as noites. O evento começou a deslanchar, a imprensa regional passou a nos procurar. Em 2003 tivemos o patrocínio de duas empresas nacionais, a Claro e a Del Valle. O projeto passou a ser conhecido no Brasil todo. A Telefônica nos convidou para fazer um cartão telefônico.
A partir de 2003 houve um redirecionamento das atividades da Casa de Noel?
Percebemos que o foco passou a ser muito mais nas musicas que Papai Noel apresentava, nos shows, a partir de 2003 passamos a contratar profissionais que cuidassem mais da musica, do teatro, da parte cênica do nosso projeto. Começou a ser um sucesso, passamos a fazer shows em que Papai Noel cantava, seguindo um roteiro. A arquitetura e decoração deram a prioridade para dar espaço a uma parte cênica. Foi um sucesso, conseguimos muitas coisas boas, passamos a investir nos shows. Até 2005 os shows aconteciam exclusivamente na Societá. A partir de 2006 os shows passaram a sair da Societá, o SESC nos contratou, em 2007 começou o projeto “Canta Noel”, que é a chegada do Papai Noel de helicóptero na Rua do Porto. Surgiram outras manifestações, hoje a Casa de Noel não é mais um local, é um grupo de artistas que desenvolvem shows itinerantes de natal. A Casa de Noel é o coração de quem assiste. Desde o ano passado Papai Noel faz shows sobre as águas do Rio Piracicaba, em um barco iluminado. Estamos indo aos bairros, como Santa Terezinha, Vila Rezende. Abrimos o projeto.
Como é a relação do Bruno com o Papai Noel?
O Bruno hoje está com maior visibilidade, anteriormente havia a preocupação em não aparecer quem representava o papel do Papai Noel. Valorizei e continuo valorizando a imagem do Papai Noel como embaixador do nascimento de Jesus. Fortalecemos a idéia de que o projeto é organizado por um grupo de profissionais. A Mamãe Noel é uma atriz contratada.
O seu presente de natal é interpretar o Papai Noel?
Acho que o meu presente de natal até o fim da minha vida é o Papai Noel.
Como você vê a comemoração do nascimento de Jesus e a importância dada ao Papai Noel em uma mesma data?
Há quem diga que Papai Noel toma o lugar de importância que pertence a Jesus. A primeira coisa que o nosso projeto define é de que o valor do Natal fuja do aspecto comercial. A imagem da Casa de Noel é uma imagem não comercial. Ele não vem para trazer balas e pirulitos, sua função é trazer mensagens de paz, amor, alegria, renovação, vem para trazer a boa nova: “-Nasce Jesus Cristo!”, que é o símbolo máximo do natal. A Casa de Noel reconhece isso e acredita que essa divulgação seja importante, aumentar o número de pessoas que se lembrem de que o natal é o nascimento de Jesus. A origem do Papai Noel é de natureza cristã, originou do bispo São Nicolau. A imagem do Papai Noel é lúdica, é uma imagem que “cola” facilmente.
Você realizou um trabalho de pesquisa sobre a figura de Papai Noel?
Em 2000 quando abri a Casa de Noel estudei muito para estar habilitado a responder as perguntas que poderiam ocorrer principalmente às questões mais complexas que poderiam partir, sobretudo das crianças.



ENTREVISTADO: LUIZ NASCIMENTO

JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 17 de dezembro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: LUIZ NASCIMENTO
Sem qualquer parentesco com algum japonês ou descendente, Luiz Nascimento dedicou-se por cinco anos ao aprendizado da língua japonesa, até receber o certificado emitido no Japão, atestando a sua fluência no idioma da terra do sol nascente. Atualmente Luiz Nascimento dedica-se ao estudo do árabe. Autodidata, esse piracicabano é movido por desafios, entre seus feitos está o livro “Memórias Do Bairro Alto”, uma obra onde o autor relata muito do que viu e viveu no tradicional bairro piracicabano. O livro foi lançado em 2009 com grande sucesso. De fala mansa, jeito simples, funcionário público federal aposentado, prefere deixar seu automóvel na garagem e caminhar pela cidade, por alguns pontos onde passa a sua lembrança traz parte de sua história. Dos tempos em que ainda muito jovem trabalhou no Cine São José e no Cine Broadway. Lembranças do Clube Cristóvão Colombo que em seu inicio funcionou em acanhadas instalações no andar superior de um prédio existente até hoje, na esquina da Rua Governador Pedro de Toledo com Rua São José. Filho de Francisco Nascimento e Lucila Nascimento nasceu em 29 de março de 1932 Com o falecimento do seu pai, quando ele era ainda menino, deixou de ter uma vida de muito conforto e teve que trabalhar para colaborar nas despesas domésticas.
Qual era a profissão do seu pai?
Era viajante da Companhia de Cigarros Souza Cruz, ele nasceu no Estado do Rio de Janeiro, viajava por muitos estados brasileiros, sendo que em alguns mais afastados ele se fazia acompanhar de um segurança, seu trabalho era apenas realizar a venda, a entrega era feita por caminhão. Naquele tempo seu traje habitual era terno de linho branco, tínhamos um padrão de vida bastante elevado, meu pai e minha mãe saiam de Piracicaba e iam passear em São Paulo, entre outras diversões iam patinar no Parque da Aclimação. Estudei alguns anos na Escola Normal, hoje Sud Mennucci, fui transferido para o Grupo Alfredo Cardoso que na época localizava-se na esquina formada pela Rua Alfredo Guedes com a Rua São José.
Com que idade o senhor começou a trabalhar?
Aos 13 anos fui trabalhar na Casa Guidotti que vendia eletros domésticos, situada na Rua Governador Pedro de Toledo, entre a Rua Moraes Barros e a São José, seu proprietário era Luiz Guidotti, popularmente conhecido como Rei do Gatilho, pelas suas habilidades de exímio atirador com revólver.
Qual era o seu trabalho nessa empresa?
Fazia a limpeza, colocava acumuladores automotivos para receber novas cargas elétricas, havia um aparelho para recarregar as baterias, chamava-se “Tunga”. Carregava-se simultaneamente até oito acumuladores, era comum a loja receber muitas baterias de pessoas da zona rural, onde a energia elétrica não existia. Muitas vezes fui despachar baterias na Estação da Paulista, eram levadas por trem até seus proprietários que aguardavam a encomenda nas estações situadas junto à linha do trem. Eu saia da loja na Rua Governador, ia pela Rua Moraes Barros até o ponto do bonde da Paulista, levava a bateria ao lado do banco do bonde, descia no ponto em frente à Estação Paulista e a despachava, era muito comum essas baterias serem destinadas á pessoas residentes em Tupi, Caiubi, que retiravam as mesmas nas respectivas estações.
Qual foi o seu próximo emprego?
Fui trabalhar em uma loja situada na Rua Governador Pedro de Toledo, nas proximidades de onde hoje é a Ótica do Flavinho, chamava-se Casa Guerra, o proprietário era José Guerra, um senhor de origem portuguesa, de baixa estatura, sua esposa era uma senhora muito amável, eles eram proprietários de diversas casas que rendiam aluguel. Era uma loja de tecidos, armarinhos, ponchos que ficavam expostos nas portas de madeira. Dalí eu fui trabalhar na empresa J.B. Andrade, proprietária dos cines São José e Broadway, trabalhava no escritório, os ingressos eram selados sendo os selos adquiridos na coletoria federal que ficava na Rua Prudente de Moraes, onde hoje existem umas lojas de artigos esportivos o responsável pela venda dos selos chamava-se Batista Rigo Ao lado do Cine São José existia uma porta com uma escada que nos levava até o andar superior onde eram as acomodações da “geral” do cinema, caminhando por um longo corredor íamos até o local onde existiam três ou quatro salas. Eu pegava essas folhas de selos, prendia com tachinhas sobre um caixão de madeira, derretia a goma arábica, com um pincel espalhava a goma sobre a folha e deixava secar. Esse processo fazia com que o selo pudesse ser colado no ingresso. Passava uma esponja umedecida sobre a goma arábica que tinha sido aplicada no verso do selo e ia colando sobre os ingressos. A entrada adquirida era dada ao porteiro no acesso ao cinema, ele rasgava o ingresso e depositava em uma urna ao seu lado, após encerrar o movimento da bilheteria o gerente do cinema, o Pedro Sacconi, dirigia-se a um corredor externo onde incinerava as entradas contidas na urna. Outra tarefa que eu fazia era levar a programação do cinema para ser publicada no Jornal de Piracicaba e no “O Diário”. Os filmes a serem exibidos eram declarados em um documento que tinha que ser levado á delegacia de polícia para o delegado autorizar a exibição.
Existiam filmes proibidos?
Sim! Principalmente quando surgiram os filmes italianos. Hoje temos consciência de que não havia motivo para que proibissem esses filmes. As cenas tidas como apimentadas hoje são vistas sem que atraiam a menor atenção.
O senhor lembra-se de algum filme que foi motivo de clamor público?
Um filme proibido para menores de 18 anos gerou um alvoroço em frente ao cinema. Chamava-se “Veneno Lento”, em preto e branco, abordava doenças venéreas, assemelhava-se a um documentário. O filme “Feitiço da Cigana”, que passou na mesma época, seguia uma linha mais ousada, deu muito que falar em Piracicaba. Ao classificar um filme proibido para menores de 18 anos era o mesmo que provocar uma corrida ao cinema. Todo mundo queria assistir!
Quem eram os proprietários da empresa J.B Andrade?
Dois sócios vinham a Piracicaba, o Seu Cantidio, que era negro, vinha trajando um capote, descia do trem na Estação da Paulista, onde apanhava um taxi indo até o cinema, descia usando chapéu, fumando um charuto, tudo muito chique. O outro sócio quando vinha fazia o mesmo roteiro de visitas, indo até a cidade de Limeira, lá também eram proprietários de um cinema. Mais tarde a J. B. Andrade passou a ser denominada como Cinemas do Interior de São Paulo. Às vezes o filme que estava passando em Rio Claro deveria ser trazido para ser projetado em Piracicaba, pelas vias normais isso iria demorar muito, o cinema alugava um taxi e alguém ia até Rio Claro, Limeira para buscar o filme.
Como eram acondicionados os filmes?
Era seis ou sete rolos, cada um dentro de uma lata, no formato de uma lata de goiabada, porém maior, essas latas eram acondicionadas dentro de uma lata maior. Lázaro José Gorga, o Zinho, era um radio técnico muito competente, no cinema tinha o cargo de operador, que era quem projetava o filme no cinema, todos os dias, geralmente a partir das 14 horas, ele ia até o cinema, abria a cabine onde havia duas máquinas de projeção, tirava os filmes das embalagens, examinava, deixando tudo em ordem para á noite projetar o filme. Seu auxiliar era José Stengler. No Broadway José Mafezzoli era o operador, seu auxiliar era o Romeu.
O público que freqüentava o Broadway era diferente do público que freqüentava o São José?
O São José era um cinema mais popular, tinha a galeria que era chamada de “geral”. O Broadway era freqüentado mais pela elite da cidade. Ainda menino eu subi no forro do São José, onde pegava pombas, coruja.
O senhor permanecia quanto tempo trabalhando no cinema?
Entrava às oito horas, almoçava em casa, e às quatro horas o escritório era fechado, os funcionários tinham que ir até suas casas, se arrumarem para voltarem á noite. O gerente do Broadway era Max Graner. Durante o dia os gerentes trabalhavam juntos no escritório onde eu trabalhava. Eram preparadas as caixinhas para os bilheteiros, já com as moedas para voltar o troco, havia o controle no número de ingressos a ser vendido, para não ocorrer o excesso de lotação.
Como era a divulgação do filme no cinema?
As fotografias dos filmes eram expostas no saguão do cinema, tanto do filme em cartaz como os que viriam a ser projetados. Ás quinta-feira tinha a “sessão das moças” onde eram projetados dois filmes. Na quarta ou na sexta feira eram projetados três filmes: um romântico, o seriado e o terceiro era um filme de ação ou terror.
O cinema tinha a famosa figura do lanterninha.
Também fui lanterninha! No dia em que faltava o funcionário que tinha essa função eu desempenhava esse papel. Só faltava eu levar a minha cama ao cinema! Eu estava o tempo todo lá. Com o farolete eu indicava o lugar onde a pessoa poderia sentar-se. Ao entrar na sala de projeção a pessoa fica cega, só enxerga a tela. As matinês do Cine São José eram famosas, quando eram apagadas as luzes as crianças batiam o pé no chão, parecia que o cinema iria vir abaixo. Os vendedores de balas circulavam oferecendo bala de café, bala de coco, e um pequeno cone de papel com amendoim dentro.
E quando quebrava a fita do filme?
As luzes eram acesas de uma forma quase instantânea. O operador raspava as duas pontas do filme, passava acetona e juntava-as, estava feita a emenda, às vezes nesse processo eram pulados alguns quadros. A projeção de um filme era feita sempre com duas máquinas de projeção, para cada uma delas havia uma pequena janela, através da qual se projetava o filme. Uma porta deslizante de ferro permitia que ao abrir uma das janelas a outra era simultaneamente fechada. Isso proporcionava que os seis ou sete rolos de filme fossem projetados sem intervalos, ao terminar o rolo de filme de uma máquina era dado o inicio no rolo de filme de outra, movimentando-se essa janela na troca de máquinas, essa movimentação tornava-se imperceptível á quem estava assistindo o filme.
Ocorria às vezes a troca da seqüência de filmes?
Quando isso acontecia era uma tremenda gritaria no cinema.
Qual foi o seu próximo emprego?
Fui trabalhar na Agencia Municipal de Estatística que pertencia ao IBGE, o agente era o Walter Geraldi. Funcionava no prédio que foi a antiga casa do Barão de Serra Negra, derrubada deu lugar ao estacionamento da Câmara Municipal, na esquina da Rua Alferes José Caetano com Rua São José. Nesse palacete havia um enorme porão, com um pé direito alto, podia-se entrar sem ter que se curvar. Foi lá que encontramos um livro de ata da Prefeitura Municipal, fato mencionado em meu livro. Lembro-me que no fim do recenseamento de 1950 após passar a noite toda trabalhando, às seis horas da manhã fomos comemorar o fim dos trabalhos no Bar do Banhara, situado próximo á Igreja São Benedito. Foi nessa época que fui fazer o serviço militar no Tiro de Guerra, as instruções era no Largo da Sorocabana, às vezes o sargento nos conduzia a um descampado onde foi edificado o Colégio Dom Bosco. Em uma madrugada escura acabei caindo em um enorme buraco, era uma das muitas fundações que estavam sendo feitas para ser erguido o prédio do Dom Bosco.
Onde o senhor trabalhou depois de deixar a agencia de estatística?
Fui trabalhar no IAPETEC, Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Empregados no Transporte de Cargas, naquele tempo cada ramo de atividade tinha o seu instituto de previdência. Entrei no IAPETEC em 13 de dezembro de 1951 permanecendo até 31 de maio de 1954, desempenhei as mais diversas funções dentro da instituição, afirmo sem falsa modéstia, com bom desempenho. O agente chamava-se José de Moraes. Eu tinha prestado concurso para ingressar no IAPI, Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários, ele situava-se na Rua Governador quase esquina com Prudente de Moraes. Logo depois foi construído o prédio na Rua XV de Novembro, entre a Rua Boa Morte e a Governador Pedro de Toledo. Passei no concurso como escriturário datilógrafo, ingressei no dia 1 de junho de 1954 permanecendo até 24 de maio de 1982, quando me aposentei. Por 11 anos atendi ao público, era muito bem quisto pelos associados.
Como o senhor conheceu a sua esposa?
A minha esposa Madeleine Furlan Nascimento é bairro altense também! Morávamos próximos um do outro, ela trabalhava em uma oficina de alta costura, de certa forma já tínhamos notado um ao outro. A sua família era sócia do Clube Cristóvão Colombo, eu não era sócio, o Odilon Olivetto era meu amigo e conseguiu com que eu entrasse em um baile de carnaval, isso foi em 1952. A partir da segunda noite passamos a dançar. Em 8 de dezembro de 1955 o Monsenhor Martinho Salgot celebrou o nosso casamento realizado na Igreja Bom Jesus. Permanecemos casados até hoje.
Como surgiu o seu livro?
Há muito tempo senti o desejo de escrever sobre o bairro onde nasci, fui coletando e acumulando informações, fotos. Posso afirmar que 90% do conteúdo do livro é fruto da minha própria memória. A redação final do livro foi feita em dois anos e meio e menos seis quilos de peso que perdi nesse período.
Onde o senhor estudou a língua japonesa?
Foi no Clube Cultural e Recreativo Nipo-Brasileiro de Piracicaba, tive três professoras, sendo que recebi da professora Yeokiko Maeda o maior número de aulas.
Como surgiu a intenção de estudar japonês?
Sou uma pessoa que gosta de desafios!

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