Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

MARIA CECILIA GRANER FESSEL E JOSÉ VICENTE POUSA FESSEL

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 19 de fevereiro de 2011
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADOS: MARIA CECILIA GRANER FESSEL E JOSÉ VICENTE POUSA FESSEL
Karl Graner, nascido em Thüringen em 1812, chegou ao Brasil em setembro de 1853. Um dos seus filhos, Heinrich Berthold Graner, que nasceu na Prússia e veio para o Brasil com os pais aos 10 anos, casou-se com uma imigrante suiça, Marianne Obriest Meyer, é o primeiro casamento registrado na Câmara Municipal de Piracicaba, uma vez que por questões religiosas não foi registrado na igreja católica, como de costume. Maria Cecília Graner Fessel é trineta de Heinrich Berthold Graner, nasceu em Piracicaba no dia 22 de junho de 1942. José Vicente Pousa Fessel nasceu em São Pedro em 14 de setembro de 1941. Ambos são primos, o pai de José Vicente é irmão da mãe de Maria Cecília. As brincadeiras e os folguedos de infância já tinham aproximado os primos, as tranças da menina Cecília eram o alvo predileto para o garoto José puxar e sair correndo. Por longos anos conviveram no ambiente familiar, e só se deram conta do amor que os envolvia quando a jovem Maria Cecília foi estudar em São José do Rio Preto. Com a concordância da Igreja Católica casaram-se na Catedral de Santo Antonio, em Piracicaba. Pais de dois filhos muito saudáveis: Paulo Afonso e Vitor, já são avós. Cecília foi professora na rede estadual de ensino, onde conquistou respeito e admiração de todos que a conheceram, por levar conhecimento técnico e científico, mas, sobretudo por exercer com extrema competência o papel de educadora. José Vicente por muitos anos foi professor na Faculdade de Direito da UNIMEP, tendo a satisfação de ver muitos de seus ex- alunos ocupando altos cargos no Brasil afora. Ainda criança Cecília foi assídua freqüentadora dos Cines Broadway e São José, o seu pai Max Graner era o gerente desses dois cinemas. Maria Cecília é acadêmica da Academia de Letras, Ciências e Artes da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo, é integrante do Grupo Oficina Literária de Piracicaba – GOLP, do Centro Literário de Piracicaba – CLIP. Sua irmã Nilda protagonizou uma das passagens que agora revelada ao grande público passa a ser parte do folclore piracicabano. Dotada de bela voz, Nilda era escolhida para interpretar a Verônica na procissão da Semana Santa. O canto fúnebre sempre foi um dos pontos altos da procissão, mas em determinado ano Nilda interpretou de uma forma tão expressiva que a multidão passou a chorar de forma compulsiva. O seu canto tocou fundo o coração daquelas pessoas, era um profundo lamento. Estranhamente algumas de suas amigas mais próximas, seguravam o riso em ocasião tão solene. Elas sabiam que boa parte daquele lamento de Nilda vinha de um amargo diálogo com o namorado! Era mesmo dor de paixão!
Onde a sua família morava quando a senhora nasceu?
Morávamos na Rua Prudente de Moraes, nas imediações da Igreja São Benedito, meu pai Max Graner por formação era contador, ele gostava de ler, era uma pessoa muito culta, foi gerente dos cines Broadway e São José por volta de 1946 a 1958. A minha mãe Otília Fessel Graner era de prendas domésticas. Tenho ascendência germânica por parte de meus pais. Além de Fessel e Graner a família Keller faz parte da nossa ascendência.
José Vicente qual é o nome dos seus pais?
Sou filho de Antonio Augusto Fessel e Albertina Fessel, meu pai era dentista na cidade de São Pedro e a minha mãe professora. Na época não era muito fácil ser filho de pai que era dentista, os recursos técnicos existentes não privilegiavam o tratamento absolutamente indolor, exigia certo grau de tolerância á dor por parte do paciente o que contribuía para que o tratamento dentário fosse motivo de ojeriza. A casa existe até hoje, fica na Rua Veríssimo Prado, a um quarteirão da igreja matriz. A minha mãe foi minha professora no Grupo Escolar Gustavo Teixeira. A ida de trem de Piracicaba á São Pedro demorava duas horas e meia de viagem. Com a idade de 10 a 11 anos eu vim para Piracicaba, permaneci hospedado por uns seis meses na casa dos meus tios, pais da Cecília. Logo depois a minha família mudou-se á Piracicaba, nessa época meu pai continuou trabalhando em São Pedro, como dentista, quando ele veio á Piracicaba já estava aposentado.
Vocês estudaram em que escolas?
Estudamos no Grupo Escolar Moraes Barros e no Instituto Sud Mennucci onde fizemos o Curso Científico na mesma época, mas nunca na mesma sala de aula.
A senhora era uma boa aluna?
Eu era aluna muito dedicada, estava geralmente com a melhor nota da turma, inclusive ingressei na faculdade classificada em primeiro lugar. Nessa época o José Vicente ainda não se dedicava tanto como eu nos estudos.
José Vicente, quais foram as suas atividades profissionais?
Trabalhei com Luiz Guidotti na sua indústria de refrigeração, situada á Rua Cristiano Cleophat, como técnico em contabilidade trabalhei na Helssa (Hellmeister e Sbrissa), fábrica de cadeiras. Quando me casei a Cecília disse: “-A minha família não admite gente sem diploma, você vai estudar!”. Fiz o curso de técnico em contabilidade, na Vila Rezende ao lado da Igreja Matriz da Vila Rezende, havia alguma ligação com a igreja, o prédio existe até hoje. Era popularmente chamada de “Escola do Carequinha”, não sei dizer exatamente o porquê era assim denominada. A Angelina Aquino era a diretora. Após concluir o curso, a minha esposa me apertou para entrar na faculdade. Ela sempre foi durona! Fiz o vestibular e para “desgosto” da Cecília passei em primeiro lugar! Iniciei o curso quando a Faculdade de Direito era no centro, conclui na primeira turma formada no Campus Taquaral. O reitor Richard Edward Senn a principio iria construir o campus da UNIMEP onde hoje se situa o Shopping Piracicaba, na ocasião houve a permuta pelo espaço onde está atualmente a UNIMEP, na Rodovia do Açúcar. Por 22 anos lecionei na UNIMEP. Fui professor na faculdade Anhanguera em Jundiaí, na UNIP de Campinas. Realizei-me sendo professor, valeu a pena.
Como advogado o senhor atuava em que área?
Atuei na área cível e na trabalhista. O advogado tem que estudar muito, eu achava que sabia tudo, quando resolvi fazer o mestrado vi que não sabia nada.
Há excesso de advogados no mercado?
Faz tempo que esse mercado está inflacionado e a tendência é de aumentar o número de profissionais. Quando fiz o curso em nossa região havia a UNIMEP e a PUC de Campinas, hoje muitas cidades vizinhas dispõem de cursos de direito. Havia faculdade com até oito classes de alunos no primeiro ano de direito, cada uma com 80 alunos. Atualmente deve haver mais escolas e mais alunos de direito.
Quais requisitos são necessários a um bom advogado?
(Pausa). Tem muita coisa! Em primeiro lugar, e isso deve haver em qualquer profissão, é a educação. Não confunda educação com instrução. A educação é adquirida ainda na própria família, a noção de que você é membro de uma comunidade, pertence a uma sociedade com regras que devem ser seguidas. O profissional deve ter conhecimento, isso sim se consegue através de estudo. A prática da profissão é essencial ao bacharel, ao sair da faculdade ele é carente de conhecimentos básicos da pratica da profissão.
A morosidade do andamento dos processos ocorre principalmente em função do que?
Ocorre principalmente porque o Poder Legislativo cria um grande número de leis que atrapalham a vida do cidadão. O Poder Legislativo não se preocupa em criar leis que sejam de interesse á população como um todo. Cada código de processo que aparece é mais uma possibilidade de recurso para aquele que perdeu o processo e não quer pagar a conta. A começar do próprio governo.
É um subterfúgio?
É um “sub todas as coisas”! Dona Cecília tem um dinheiro para receber do Governo do Estado que foi condenado pelo Poder Judiciário a pagar, não paga! Há um ano e meio a imprensa trouxe a notícia de que a “Lei do Calote” tinha sido aprovada pelo Congresso Nacional! O governo comprou a Companhia Paulista de Estrada de Ferro, só que até hoje não pagou! O precatório está lá! (Ordem da Justiça para que o agente público, Prefeitura, Governo Estadual ou Federal pague uma ação judicial que foi perdida). Chegou-se ao cumulo de um oficial de cartório civil, em Piracicaba, dizer que determinada lei que oferecia a gratuidade de registro do primeiro filho, naquele cartório “não pegou”!
Qual é a opinião do senhor com relação à grande quantidade de leis existentes?
Somos nós que escolhemos quem irá nos representar no Congresso Nacional!
Professora Cecília, como anda o nosso ensino?
Após a Revolução de 1964, tivemos um período de greves no ensino, na época em que Paulo Maluf foi governador. Depois ocorreu um período de euforia e liberdade, sob o meu ponto de vista e também de muitos professores com quem convivi houve uma liberalização excessiva, a tal ponto que o aluno passou a ser mais importante do que o professor, a palavra do aluno e a do professor passaram a ter o mesmo peso diante do diretor da escola. O professor perdeu o seu crédito! Isso foi fruto do período da Revolução. Depois piorou, o governo passou a baixar decretos que influíam diretamente na quantidade de alunos que o professor poderia reprovar. O diretor da escola era pressionado a atingir uma cota de aprovação de alunos.
Qual era o objetivo disso?
Aprovar o maior número de alunos possível!
Com qual finalidade?
Promover a ignorância! Para não haver contestação do que o governo fazia na época. Com a história de aprovar por decreto não permitia que se reprovasse o aluno. Lembro-me de uns rapazes, alunos do terceiro ano colegial que tinham banda, nunca vinham à aula, apareciam uma vez por mês, iam porque os pais obrigavam a irem, no final do ano ao fazerem as provas era evidente que não sabiam nada, deixávamos para a recuperação, após fazerem a recuperação continuavam não sabendo nada, o diretor da escola chamava cada professor e perguntava: “-A senhora tem certeza de que esse aluno deve ser reprovado? Ele não atingiu o mínimo possível para ser aprovado?”. Eu dizia: “Tenho vergonha de aprovar esse aluno! Ele não sabe nada, além de ser uma vergonha para mim é desrespeito para com os outros que se esforçaram para serem aprovados!”.
Isso não ocorre apenas no ensino publico. Já sofri esse tipo de pressão em uma escola particular. Esse tipo de coisa não pode existir na educação! A escola deve ser um lugar onde se transmite valores morais, sociais, cívicos. Atualmente isso não acontece.
Ao concluir o curso científico a senhora foi estudar onde?
Eu gostaria de ter feito o curso de medicina, infelizmente isso não foi possível. Eu tinha um irmão que morava em São José do Rio Preto, onde havia uma faculdade que oferecia diversos cursos, entre eles o de biologia, era a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto onde me formei em 1964.
Após a formatura onde a senhora passou a trabalhar?
Vim lecionar no Jorge Coury, em Piracicaba, o diretor era Arlindo Rufatto. Eu já tinha dado aula em um cursinho preparatório para ingressar na faculdade, dei aulas em uma escola de freiras, quando estava no ultimo ano da faculdade passei a dar aulas em uma escola estadual. Quando vim á Piracicaba já tinha alguma experiência com alunos. Lecionei na época em que entre outros estavam os professores: Conceição, Luizinho, Flordelis, Persão, Clemência. Seu Arlindo me respeitava muito porque sabia que eu mantinha a disciplina e ensinava. A escola Jorge Coury funcionava no prédio ao lado da Igreja dos Frades, na Rua Alferes. Em determinado dia Seu Arlindo anunciou que ganharíamos um prédio novo, onde haveria dois laboratórios sendo um de biologia e outro de física e química. Ele disse-me que eu deveria ir até o prédio e determinar como o laboratório deveria ser instalado. Fui até lá e indiquei onde deveriam ser colocadas as torneiras, Bico de Bunsen, e demais instalações. Ele me pediu uma relação de todos os materiais necessários para as aulas de laboratório. Fiz essa relação, quando o laboratório ficou pronto Seu Arlindo disse que aquele material iria ser comprado devagar. Acabamos comprando microscópios, vidraria. Seu Arlindo abriu as portas e deu dinheiro! A família do Dr. Jorge Coury também ajudava a escola, Dr. Raul Coury sempre foi muito atencioso com as necessidades da escola. Seu Arlindo Rufatto sempre me apoiou muito, e sempre confiou no meu trabalho. Teve uma ocasião em que alguma coisa foi feita errada e eu fiquei sem receber, meu salário não veio, isso no começo de vida me deixou apavorada, falei com Seu Arlindo, ele verificou e disse ter sido foi um engano da secretaria, pediu desculpas e pagou do próprio bolso, para quando viesse o salário eu devolvesse. A Clemência Pizzigatti agitava bastante no sentido de promover eventos, realizamos as exposições chamadas EMDA, Exposição de Material Didático de Alunos, juntamente com o professor Luizinho de geografia.
A senhora promovia viagens de cunho didático aos seus alunos?
Sempre gostei muito de proporcionar essas oportunidades aos meus alunos, no Jorge Coury fiz duas ou três excursões em conjunto com professores de outras áreas como a professora de história, a Eutimia, fomos visitar museu em São Paulo, o Planetário, quando lecionei no colégio Mello Moraes, fiz um curso onde se falou muito na Ilha do Cardoso, que era um centro de pesquisas, fiz uma visita com uma turma de professores, achei tão maravilhoso que decidi levar meus alunos. Lá tem o mar, o costão onde há certos tipos de animais, com a vegetação de duna, depois vem a vegetação intermediária, a seguir uma área com uma espécie de serradinho, em seguida vem a Mata Atlântica. É um local muito interessante para mostrar os tipos de vegetações ao longo da topografia local. Permanecíamos por três dias realizando estudos no local.
A senhora aposentou-se em que ano?
Foi em 1990.
Em que ano vocês se casaram?
Foi em 3 de janeiro de 1968, na Igreja Catedral, celebrado pelo Padre Carreta, que tinha batizado o José Vicente. Ele veio de São Pedro para celebrar o nosso casamento, o pároco da catedral concelebrou. O Maestro Ernest Mahle executou as músicas ao órgão.
A lua de mel foi onde?
Foi em Curitiba, viajamos com um carro DKW, ano de fabricação 1959, foi uma viagem muito tranqüila, não furou um pneu!
O senhor toca algum instrumento?
Recentemente fiquei sabendo que fui o primeiro aluno de flauta da Escola de Música de Piracicaba, iniciei os estudos quando tinha 14 anos, o Maestro Mahle foi o meu professor. Tanto eu como a minha esposa gostamos muito de música clássica. Cantei em alguns corais, sou baixo.
O senhor gostava de algum esporte?
Até os meus 14 anos não podia se falar de futebol na minha casa. Os meus tios, Otílio e João Pousa, irmãos da minha mãe, são fundadores do XV de Novembro. O mais velho dos irmãos, o Joaquim, não jogava, mas ia assistir às partidas trajando como de habito na época, paletó, gravata. No calor da partida foi dito algo ofensivo á um dos meus tios que jogava, o Joaquim tomou as dores, e do elegante traje pouco sobrou. Com isso futebol passou a ser visto como desgraça na família da minha mãe. Meus tios não deixaram de participar dos jogos do XV de Novembro. A minha avó materna foi residir na casa dos meus pais, com isso futebol era tabu. Aos 14 anos meu tio Joaquim voltou a morar em Piracicaba e passou a me levar aos jogos do XV. Freqüentei muito o campo da Rua Regente Feijó. Era muito gostoso estar ao lado do Professor Benedito de Andrade torcendo pelo XV de Novembro. Canarinho era goleiro, Pepino o beque, Biguá. De Sordi jogava no São Paulo, Mazzola jogava no Palmeiras.
Professora Cecília, a senhora tem algum livro publicado?
Tenho livros escritos, mas não publicados. Há um pronto sobre Maria Cecília Bonachella, com apresentação de Miriam Botelho, há alguma possibilidade de ser publicado. (No dia seguinte a entrevista chega a noticia de que o livro “Os pequenos Caminhos de Maria Cecília Bonachella” de Maria Cecília Graner Fessel,irá ser publicado com apoio do FAC, Fundo de Apoio a Cultura). Estou escrevendo o livro “Enredamentos”, titulo dado pelo meu marido, José Vicente. Nesse livro abordo o aspecto que mostra que não vivemos sozinhos no mundo, a gente se enreda com as pessoas. Tudo isso influi na nossa vida. Quantas pessoas passaram pela minha vida, deixaram algo para mim, assim como devo ter contribuído com alguma coisa para elas. Muitas vezes não vi mais a pessoa, mas ela participou da minha formação. Escrevo poesia daquilo que me toca como, por exemplo, versos de cunho social. Já fiz versos sobre os nordestinos, o resgate dos mineiros, os pescadores do Rio Piracicaba, cortadores de cana. Escrevo tendo como tema a natureza, os males que o homem provoca nela.

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