Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, maio 22, 2011

SYLVIO ARZOLA

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 21 de maio de 2011
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.teleresponde.com.br/

ENTREVISTADO: SYLVIO ARZOLA
O Prof. Dr. Sylvio Arzolla graduou-se em 1953 pela Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz. Em 1957 conseguiu uma bolsa de estudos por dois anos na cadeira de Química Biológica. Em 1959 foi convidado para ser professor na cadeira de Química Agrícola. Mais tarde com a formação de novo departamento, Sylvio Arzolla passou para o Departamento de Solos, Geologia e Fertilizantes onde permaneceu até 1989. Publicou livros didáticos, apostilas e trabalhos dentro da sua área de atuação. Participou de mais de uma dezena de cursos de pós-graduação, além de inúmeros congressos, seminários, no Brasil e no exterior, laureado com diversos prêmios. Dotado de grande amor ás artes, Sylvio Arzola participou de muitas oficinas literárias, publicou um grande número de poesias, recebendo diversos prêmios nessa modalidade de expressão. Filiado a diversas entidades literárias de Piracicaba teve seu talento reconhecido por elas, recebendo prêmios e títulos das mesmas. A sua ascendência italiana parece estar presente quando Sylvio põe-se a cantar, como fez por 30 anos em diversos corais sacros ou as tradicionais serestas, juntamente com nomes consagrados da nossa cidade, entre eles Cobrinha, Zezé Adamoli, Toninho Marchini, Bolão. Sylvio Arzolla foi um dos responsáveis técnicos pelo desmembramento da área que integrava a Chácara Nazareth e transformou-se no Bairro Jaraguá. Entre suas lembranças permanece a imagem de infância, quando ruas como a da Boa Morte, Rosário, e muitas outras que hoje integram a zona central da cidade eram ruas de terra, sem calçamento. Lembranças do bonde que ia á Agronomia, á Paulista ou á Vila Rezende. Teve participação ativa na Igreja dos Frades, onde conheceu inúmeros freis que tiveram presença marcante junto à comunidade religiosa. Foi Congregado Mariano, sua esposa pertenceu a Congregação Filhas de Maria, na época instituições fortes da igreja católica. Meticuloso, detalhista, está muito bem inteirado dos fatos atuais. Habilidoso, mostra as barras de ferro que soldou há pouco tempo. Criativo, transforma em poesia fatos corriqueiros. Nascido em Piracicaba a 5 de janeiro de 1924, é filho dos imigrantes italianos Rocco Antonio Arzolla, natural de Nápoles e Ida Dal Pozzo Arzolla nascida em Treviso que imigraram para o Brasil onde se conheceram.
O pai do senhor estabeleceu-se em Piracicaba com qual atividade?
Ele montou uma loja e oficina de fabricação de calçados na Rua Boa Morte esquina com a Rua Ipiranga, em frente onde atualmente há a Padaria Do Lar, atualmente há um sobrado construído no local. Foi ali que eu nasci, o mais novo de sete irmãos: Rafaela, Afonso, Emilia, Lila, José e Antonio.
Onde o senhor estudou suas primeiras letras?
Fiz o primeiro ano de grupo no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, os outros anos eu estudei na Escola Normal (atual Sud Mennucci), o ginásio estudei no Externato São José, aonde mais tarde veio a se instalar a Faculdade de Odontologia, na Rua D.Pedro II esquina com Alferes José Caetano, o colégio estudei na Escola Normal, por dois anos estudei de manhã fazendo o curso normal e a tarde, fazendo também o curso científico. Eu e um colega estudamos e nos preparamos para o exame de ingresso á Escola de Agronomia.
Em que ano o senhor ingressou na ESALQ?
Passei a fazer o curso de agronomia em 1949, formei-me em 1953. Por uns dois a três anos trabalhei na medição de terras, sítios. Em 1957 ganhei uma bolsa para trabalhar na cadeira de química biológica e paralelamente na química agrícola, com o professor Malavolta e professor Tuffi Coury. Em 1959 fui convidado para dar aulas, como professor assistente, no curso de Química Agrícola. Fiz o doutorado e passeia dar aulas, pela manhã teóricas e a tarde praticas, e realizava trabalhos de pesquisa que nesse período de tempo totalizou cerca de 40 trabalhos. Permaneci na ESALQ até 1989.
O loteamento do local onde hoje existe o bairro Jaraguá teve a sua colaboração técnica?
Isso foi na década de 40, eu era mocinho, junto com um engenheiro civil fizemos o loteamento dessa área pertencente á Chacara Nazareth, era um trecho delimitado pela Avenida Madre Maria Teodoro, Rua Santos, Avenida Nove de Julho e Ribeirão do Enxofre, onde atualmente existe a Avenida Abel Pereira. Onde hoje é a Avenida Dr. Paulo de Moraes, no sentido da Rua do Rosário em direção ao Rio Piracicaba, era área ocupada pelas plantações da Chácara Nazareth. Nessa década, a Rua do Rosário acima da linha do trem da Companhia Paulista era constituída por algumas casas esparsas. Em função desse trabalho conheci Dona Jane Conceição, uma senhora de estatura pequena, muito ágil. Cheguei a fazer um trabalho com adubação envolvendo a ESALQ e o famoso café existente na Chácara Nazareth. O bairro Jaraguá é composto em sua maior parte por terra roxa.
Em sua infância o senhor morava onde?
Morei na Rua Boa Morte, na esquina com a Rua Riachuelo havia a Farmácia Neves, em seguida vinha a casa de Romeu Simionato e a nossa casa onde anexo havia o comércio do meu pai, ali eram produzidos calçados, botas, foi lá que aprendi a costurar calçados, meu pai tinha sete funcionários nesse local. Ao lado, meu irmão Antonio abriu uma loja onde vendia os mais diversos produtos, papelaria, geladeira, arame farpado, tinha de tudo! Construiu ainda um barracão existente até hoje na Rua do Rosário entre as ruas José Ferraz de Carvalho e Gomes Carneiro. Participei da construção desse barracão, administrando a obra e fazendo a instalação elétrica e hidráulica. Era um deposito da loja e ali funcionava também uma engarrafadora de bebidas, mantida pelo meu irmão Antonio, como não havia água encanada assentei uma bomba no poço, já tínhamos energia elétrica na época. As ruas eram de terra, inclusive a própria Rua Boa Morte, onde a água era encanada. Aos 15 anos eu já consertava chuveiro elétrico.
O bonde transitava pela Rua Boa Morte, e as crianças brincavam na rua, não era perigoso?
Havia perigo, mas foram raros os acidentes ocorridos com crianças. Lembro-me de um acidente quando o bonde parou, um carro que vinha pela rua atropelou uma criança que foi atravessar a rua.
Qual eram as diversões mais comuns das crianças na época?
Além das tradicionais, como esconde-esconde, “pais”, tínhamos carrinhos feitos de madeira, inclusive os eixos e rodas, que costumávamos engraxar para rodar melhor, as crianças menores andavam de calças curtas. O curioso é que na época tínhamos a “roupa de domingo” e a outra para o dia a dia.
A família do senhor freqüentava mais qual igreja?
Freqüentávamos a Igreja Sagrado Coração de Jesus, conhecida como Igreja dos Frades. Não íamos quase á catedral, que na época da minha infância era o prédio antigo. Vi a construção da catedral nova, desde o alicerce. Entre as delicias da época tínhamos pastéis, os três locais mais famosos eram no Mercado Municipal, na Rua Governador Pedro de Toledo ao lado do Grupo Barão, e na Rua Prudente de Moraes, esquina com a praça, onde hoje há um banco, lá havia a Sorveteria Paris que além dos famosos sorvetes servia um delicioso pastel.
Em que ano o senhor se casou?
Foi em outubro de 1962, o casamento foi celebrado na Igreja São Judas Tadeu. Conheci a minha esposa, Dalva Maria Franco Arzolla, quando eu cantava no coral da Igreja dos Frades, onde cantei como tenor por trinta anos. Eu tive como regente Rossini Dutra, seu pai Benedito Dutra foi meu professor de musica no Externato São José. Elias de Mello Ayres foi meu professor na Escola Normal. Logo que casamos fomos morar em uma casa de propriedade do artista plástico Pacheco Ferraz. Era uma casa muito ampla, tinha um porão muito grande, uma das salas eu usava para estudar, nela abriguei telas pintadas por Pacheco Ferraz que sabendo do espaço vazio deixou sob minha guarda algumas de suas obras.
O senhor conheceu o músico Erotides de Campos?
Foi meu professor! De química! Era um bom professor de química, embora tenha vindo á Piracicaba para lecionar música, ele tocava violino, ele residiu na Rua Gomes Carneiro entre a Rua Boa Morte e Alferes José Caetano, a família dele morava próximo. Erotides tinha uma tristeza, foi convidado para dar aula de musica em Piracicaba, por injunções políticas foi preterido, tendo que se conformar em lecionar química.
Em 1932 ocorreu a Revolução Constitucionalista o senhor viu a saída dos voluntários?
Embora fosse um menino de oito anos, vi os voluntários partirem da Estação da Paulista.
Como foi para o senhor o período da Segunda Guerra Mundial?
A Segunda Guerra foi de 1939 a 1945, apesar de alguns estrangeiros terem tido alguns problemas nós não passamos por isso, mesmo meus pais sendo de origem italiana. Embora tivéssemos rádio em casa era proibido ligar. Em minha vida nunca vi meus pais falarem em italiano, minha mãe gostava da língua portuguesa, achava a língua mais bonita do mundo! O que eu aprendi de italiano foi em função de cantar musicas italianas.
O senhor chegou a freqüentar o Teatro Santo Estevão?
Freqüentei! Desde os meus 15 anos! Assisti a uma peça com um ator de sobrenome Machado, ligado á família que mais tarde foi proprietária da TV Record, esse artista cantou uma musica que memorizei tanto a musica como a letra e por anos a cantei, conservando até hoje.
Como era o Teatro Santo Estevão?
Era muito bonito! Meu tio José Mazzari, italiano, realizou pinturas internas no Teatro Santo Estevão e no Teatro São José. Um dos seus filhos formou-se em medicina e foi médico na Usina Monte Alegre. Passavam filmes no Teatro Santo Estevão. Onde foi o Shopping Ziliat tinha um cinema, lá eu assistia filmes com Tom Mix.
O senhor conheceu o seresteiro José Benedito Adamoli?
Foi meu colega de grupo, ginásio e escola normal. Cantamos serestas juntos.
O senhor freqüentava muito a Igreja dos Frades?
Fui presidente da Congregação Mariana que tinha por objetivo auxiliar as pessoas necessitadas. Nas cerimônias religiosas éramos identificados pelo uso de uma fita azul, usada como colar tendo em sua extremidade anterior uma medalha. Minha esposa Dalva Maria pertenceu a Congregação das Filhas de Maria, que se identificavam com uma fita vermelha usada em forma de colar e um véu sobre cabeça. Fiz uma relação dos frades que conheci na Igreja dos Frades, o primeiro Guardião que conheci foi o Frei Vital, ao todo conheci 52 frades que passaram pela Igreja dos Frades. Tinha a liberdade de freqüentar a parte interna do convento dos frades.
Abaixo uma das inúmeras poesias de Sylvio Arzolla

Canaviais

É manhã,
O sol surge no horizonte
E os cortadores de cana
Já se encontram no batente

A cana que foi plantada
Com esmero e carinho
Hoje, adulta é cortada
E levada ao moinho

Homens, mulheres, crianças,
Munidos com seu facão,
Vão cortando toda a cana
E amontoando-a no chão,

Vida dura e maltratada,
- É próprio da profissão,
Faça sol ou faça chuva,
É preciso ganhar o pão!

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