Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, agosto 07, 2011

LUIS CARLOS JUSTI

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS

JOÃO UMBERTO NASSIF

Jornalista e Radialista

joaonassif@gmail.com

Sábado 7 de agosto de 2011

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana

As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://blognassif.blogspot.com/

http://www.tribunatp.com.br/

http://www.teleresponde.com.br/

 
ENTREVISTADO: LUIS CARLOS JUSTI

Afirmar que música erudita é uma manifestação cultural da elite poderia soar de forma estranha na antiga U.R.S.S. fonte de inspiração para regimes socialistas implantados em muitos países. Antes de esfacelar-se, a poderosa União Soviética tinha até como peça de propaganda músicos exímios, orquestras de altíssimo nível, orgulho da população. Hoje há uma inércia contemplativa com a qual o Brasil convive diante de uma mídia voraz, que por incompetência ou absoluta visão distorcida de valores básicos educa grande massa da população conforme o tilintar da moeda fácil em seus caixas. O compromisso dos veículos de comunicação é de educar, a medida que esse principio básico é relevado, compromete não só a si mesmo como também o futuro de uma nação. Os exemplos são claros, as grandes potências investem muito na formação cultural do seu povo, em um regime democrático não se pode interferir na preferência cultural do individuo, mas é obrigação do Estado e dos veículos de comunicação arcar com suas responsabilidades. Um exemplo de iniciativa bem sucedida é o Quinteto Villa-Lobos conjunto musical brasileiro de sopros, fundado em 1962, com a proposta de divulgar a música de câmara brasileira. Atualmente é formado por Antonio Carrasqueira (flauta), Luis Carlos Justi (oboé), Paulo Sérgio Santos (clarineta), Philip Doyle (trompa) e Aloysio Fagerlande (fagote). São profissionais com profundos conhecimentos de música, que encantam as mais exigentes platéias dos inúmeros paises em que se apresentam, assim como executam concertos e realizam oficinas em comunidades carentes, com público de todas as faixas etárias. Um exemplo de que a musica erudita não é um privilégio de uma casta, e nem é necessário ter o ranço dos pseudo inteletuais para vivenciar a beleza da musica erudita. Luis Carlos Justi nasceu em.Piracicaba, a 26 de janeiro de 1955, é um dos cinco filhos de João Justi e Olga Rovina Justi. Seu pai era metalúrgico, trabalhou por muitos anos na MAUSA onde aposentou-se, sua mãe até se casar trabalhou na Fábrica de Tecidos Boyes. Cursou o Sud Mennucci, onde sua primeira professora foi Da. Terezinha Kraide. Da. Cléia Manfrinato foi sua professora de inglês, e mais tarde tornou-se sua sogra.

Luis Carlos você ingressou inicialmente em qual curso superior?

Comecei a fazer agronomia na Esalq, onde permaneci por dois anos e meio, até descobrir que o meu curso iria ser concluido em nove ou dez anos. Eu não me aprovava nas matérias, só estudava música. Ia para as aulas de cálculo que eram ministradas no prédio da engenharia, que tem um lago na frente, contemplando o maravilhoso lago eu ficava após o almoço fazendo exercícios de harmonia musical, para mais tarde entregar ao Maestro Ernst Mahle. Acabei por desistir de cursar agronomia.

Quando foi o seu primeiro contato com a Escola de Musica de Piracicaba?

Quem me levou para a escola de música foi meu irmão mais velho, o Paulo, que havia estudado como aluno interno no Seminário Diocesano, situado na antiga estrada para Botucatu, em Piracicaba, lá ele aprendeu a tocar piano. O seminário foi extinto, meu irmão foi estudar biologia em Rio Claro. Na época um dos jornais publicou que a escola de música estava oferecendo bolsas de estudo para trompete, trombone, contrabaixo, oboé, fagote. Me interessei em estudar trompete, eu não sabia o quera fagote, oboé. O Mahle então disse-me: “- Vamos experimentar o oboé, o trompete muitas vezes o aluno me abandona, vai tocar em carnaval, eu fico sem o musico para tocar na orquestra”. O Mahle foi o meu primeiro professor, me deu uma palheta, ensinou-me o básico, e eu comecei a tocar oboé. Me apaixonei! N aépoca eu tinha 15 anos. Flauta doce fui aprender posteriormente.

Quantos instrumentos você toca?

Na verdade só toco oboé. Estudei um pouco de piano com a Da. Cidinha Mahle.

Qual foi a reação do seu pai ao vê-lo tocando oboé?

Acho que meu pai ficou feliz ao ver que eu tinha descoberto alguma coisa que eu gostava apaixonadamente. A única reação negativa que ele teve nessa história da musica e da vida “normal” foi quando eu decidi sair da Esalq. Na sua visão ele não conseguia entender como uma pessoa poderia deixar uma escola publica de agronomia, considerada como futuro certo dos piracicabanos, para ir tocar oboé! Na época ele ficou muito bravo.

Você trabalhava na ocasião?

Até então eu só estudava, mas como meu pai não considerava a música como um estudo propriamente, ele disse: “-Aqui em casa quem não estuda trabalha!”. Ai eu tive que trabalhar. Felizmente o Mahle compreendendo essa situação disse-me: “-Então venha trabalhar na Escola de Musica!”. Isso foi decisivo para que eu continuasse estudando musica. Fui organizar a biblioteca da escola, aprendi a datilografar, posso afirmar que datilografo super rápido e super bem, herança daquela época. Aprendi a tocar flauta doce, passei a dar aulas de flauta doce. E auxiliava o Mahle em algumas coisas que ele necessitava, o que foi fundamental para o meu desenvolvimento. Uma série de atividades que aparentemente na época não pareciam ter muita importância mais tarde mostraram terem sidi esssenciais. A convivência com o Mahle mostrou-me que para mim ele é uma referencia que extrapola a musica, é uma refencia de vida. Conhece-se muito pouco do trabalho realizado pelo Mahle. As vezes ele faz um arranjo simples, para as crianças tocarem, a principio quem ouve comenta: “-Ele fez uma arranjo que usa corda solta, e as crianças estão juntas”. O pensamento do Mahle vai muito além daquela realização estritamente musical, ele esta colocando juntas crianças que tem que conviver, tem que ouvir. “-Agora você fala mais alto!, é o seu instrumento que está tocando” ou então “-Agora você se retrai tem que ouvir, porque é outro instrumento que está tocando”. É uma educação implicita nesse trabalho, é uma coisa absolutamente maravilhosa, até hoje não sei se alguém olhou para esse lado da importancia pedagogica, social, formadora de carater, de relacionamento, de educação global.

Se O Maestro Mahle estivesse realizando seu trabalho em algum centro maior, como São Paulo, Rio de Janeiro ou em alguma cidade do exterior, a visão a respeito seria outra?

Houve um período em que cheguei a perguntar ao Mahle e á Cidinha porque cargas d´agua vocês vieram á Piracicaba? Por que não foram para um centro maior? Em São com certeza haveriam mais pessoas que compreenderiam esse trabalho, inclusive a importancia do Mahle como compositor. Em Piracicaba o Mahle sempre foi criticado por determinadas pessoas, que dizem que ele faz composições de uma maneira muito hermética, que fugiam da compreensão das pessoas. Na verdade, quando você se aprofunda na música vê que o Mahle é um compositor tradicional no aspecto formal, harmonico da musica. O Mahle batia em uma muralha de incompreensão, derivada da ignorancia do mundo musical, que certamente deve ter provocado alguma diferença para ele. Pelo fato de ele ser uma pessoa muito consciente do que ele pretendia realizar, e por considerar que o destino dele estava ligado no trabaho na Escola de Musica de Piracicaba, na educação que ele de fato prpoporcionou, nas obras que ele realizou, ele não se abalou. Talvez se ele estivesse tido mais recnhecimento e maior incentivo do que teve em Piracicaba as coisas fossem diferentes. Mas foi aqui que ele fez isso, e graças a Deus por isso eu toco, e muitos outros assim o fazem.

No fundo o Mahle tomou a atitude correta?

Acredito quie sim. A Escola de Musica sempre foi uma escola privada, mas eu nunca paguei um centavo para estudar lá. Apesar de ser uma escola pequena comparada á outras, o numero de bons músicos, e músicos relevantes que sairam daqui e estão pelo Brasil e pelo mundo afora, é um número muito expressivo. Onde está o segredo de um trabalho de uma pessoa, de uma escola privada, com um numero menor de alunos, mas que forma proporcionalmente muito mais gente e muito boa, a ponto de estarem ai afora, em Campinas, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em outros países.ocupando cargos importantes. Isso é fruto do trabalho do Mahle, que na minha opininão é absolutamente indossiável do trabalho da Cidinha. O Mahle não existe sem a Cidinha, e vice-versa. O Mahle não seria e não teria feito tudo que fez sem a Cidinha. Ela é a viabilização do potencial humano, artistico, pedagogico, do Mahle, sendo ela própria uma pedagoga. Ha uma incompreensão da cidade com relação ao casal, a Cidinha sempre carregou o fardo da chata, ela carrega até hoje uma fama injusta da pessoa que impedia o Mahle de fazer certas coisas, e é exatamente o contrário, a Cidinha viabilizou o Mahle. Ela é uma pessoa determinada, que sabe onde pretende chegar e tira as pedras do caminho, amparadas pelo fato de que ela sim sempre teve consciencia do valor e da importancia do trabalho do Mahle. Tudo que foi realizado é fruto do trabalho dos dois, na verdade eles reunem duas pessoas em uma única de grandiosidade maior. É possível que com o passar do tempo as pessoas venham a entender.

Por quanto tempo você permaneceu na Escola de Musica de Piracicaba?

Sai daqui em 1976 para a Alemanha, de onde retornei em 1979. Em Piracicaba tinha a Dona Brigitte Folz que foi minha professora de alemão.

Você fala quantos idiomas?

Falo italiano, espanhol, inglês, alemão e francês por causa de Dona Levica Meirelles, esposa do Dr. Meirelles., Ela era uma pesoa que merece um destaque em Piracicaba, ela sabia francês muito mais do que eu sei portugues, ela era genial, era uma pessoa culta, bonisssima, não me lembro de nunca ter pago por uma aula dela. Li todos os grandes classicos francêses. Sei muito frances por conta dela, é a lingua que falo melhor. Dona Levica ocupa um lugar muito especial para mim.

Como você foi á Alemanha?

Pedi uma bolsa ao governo alemão, na segunda vez em que pedi, consegui com o DAAD. Isso foi em 1976. O governo brasileiro só atrapalhou. Fui para Hanover. Na Alemanha, por um período fiz regência, tinha a intenção de me tornar maestro. Posteriormente o oboé começou a me abosrver, e eu queria tocar muito bem. No seu intrumento você se realiza, você se expressa musicalmente, a regencia não é uma coisa direta,voce tem que levar as pessoas a fazerem a musica que você pensa. Isso para mim é um bloqueio, eu teria que deixar o oboé de lado. Com o oboé eu tenho muito prazer de me expressar. A regencia envolve outras qualidades, relações pessoais, muita psicologia, muita coisa que os regentes costumam não ter.

Quando você voltou da Alemanha?

Após três anos e meio, meu professor me aconselhou a permanecer ele acahava que eu tinha grandes possibilidades de integrar qualquer orquestra alemã. Um fato curioso, foi no inicio da constituição da Comunidade Européia, fizeram uma orquestra com convidados de vários paises, e tinha uma violinista, uma menina muito bonita, uma alemã, que eu estava de olho, e que eu sabia que tinha sido chamada para tocar violino na orquestra. Fui lá e implorei ao meu professor que me colocasse nessa orquestra. Ele me disse: “-Como vou colocar um brasileiro em uma orquestra da Comunidade Eurpéia?” Respondi: “-Me coloca como português!” Ele me colocou na orquestra, viajamos até Genebra, e outros lugares. Foi uma ótima experiencia musical. Com a menina não tive nenhum progresso. Posso dizer que toquei na orquestra da Comunidade Européia.

Voltando da Alemanha você radicou-se onde?

Vim á Piracicaba, achei até uma forma de mostrar a minha gratidão ao Mahle, quando tinha ido a Alemanha, eu não tinha nem instrumento, o Mahle foi quem me emprestou.

Com as economias que fiz com a bolsa dada pelo governoa alemão consegui comprar meu instrumento e pude devolver o qua havia emprestado. Em1980 permaneci em Piracicaba, e passei a ser professor de oboé na Unicamp, até 1985 fiz esse trabalho. Acontecia em Blumenau uns festivais de musica quem organizava era o Norton Morozowicz, Jose Botelho. Fazer musica de câmera com eles foi fantástico. Fiquei fascinado com aquilo. Eles me disseram que havia uma vaga na Orquestra Sinfônica Brasileira, no Rio de Janeiro, quem tocava com eles era o oboísta Paolo Nardi, que tinha voltado á Itália. Conversei com a minha esposa Lilia Manfrinato Justi, e decidimos ir ao Rio de Janeiro.

Atualmente quais atividades musicais você exerce?

Há seis anos sai de todas as orquestras das quais participava, sou professor universitário há muito tempo na UNIRIO e toco no Quinteto Villa Lobos, uma entidade que fará no próximo ano 50 anos de existência. Eu estou no Quinteto há 26 anos.


Arquivo do blog