Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

quarta-feira, outubro 12, 2011

ANTONIO JOSÉ QUARTAROLO (TONY JOSÉ)

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/

ENTREVISTADO: ANTONIO JOSÉ QUARTAROLO (TONY JOSÉ)
A voz marcante é a própria identidade de Tony José. Ele é tido como um dos monstros sagrados do rádio esportivo brasileiro. De origem humilde, com sua determinação atingiu um patamar de fama e glória, sem, contudo perder a humildade, preserva suas amizades. Nascido em 29 de março de 1953, filho de Aléssio Quartarolo e Arlinda Todeschini Quartarolo, natural do bairro Barreirinho, pertencente á hoje cidade de Saltinho, na época era um distrito de Piracicaba. Seu avô tinha um sítio logo após o famoso Bairrinho, célebre pelos fumos “de corda”. Filho mais velho do casal, são seus irmãos: Maria Bernadete, Luiz Carlos Quartarolo, Camilo Irineu Quartarolo, Aparecida Quartarolo, Aléssio Quartarolo e Fernando Quartarolo. Quando era muito jovem ainda, sua família se mudou do Bairrinho para o local denominado Glebas Califórnia, região onde havia muitas chácaras, mais tarde uma parte dessa região deu origem ao Bairro Jupíá O menino Antonio estudou em uma escola que hoje não existe mais, ficava no Bairro dos Marins, próxima ao Córrego dos Marins, junto a uma olaria. A escola não oferecia estudos até o quarto ano primário, era necessário freqüentar outra escola, Antonio José estudou na Escola Francisca Elisa da Silva, situada nas esquinas da Rua XV de Novembro com a Rua Antonio Correia Barbosa.
No Barreirinho qual era atividade principal dos seus pais?
Eles trabalhavam na produção de fumo de corda, eu ainda muito novo ajudava, na época não havia a proibição de criança trabalhar, considero que essa lei que proíbe o trabalho da criança está equivocada, caso a criança queira ela deve trabalhar. Como se dizia antigamente: “Serviço de criança é pouco, mas quem perde é louco!” Com 6 a 7 anos comecei a ir para a roça. Não havia outra opção. Eu tinha prazer em ajudar o meu pai, a “virar cambito” fazer corda de fumo. Essa onda de criança não poder trabalhar é um cuidado exacerbado. A criança deve trabalhar de acordo com sua capacidade física, com 14 anos eu carregava saco de 60 quilos, com isso desenvolvi minha musculatura. Como se dizia na época “peguei no guatambu”, puxei enxada, fiz tudo isso sem problema nenhum. O que mais me incomodava era a mesmice de sempre, Piracicaba era pequena demais. Não havia a facilidade de sair daqui como existe hoje.
Na área cultivada pelo seu pai nas Glebas Califórnia, o que mais se plantava?
Meu pai sempre foi interessado em buscar novidades, ele conheceu um japonês que lhe passou determinadas técnicas para o plantio de mamão. Ele plantou mil pés de mamão na chácara, eu o ajudei. Depois ele arrendou um terreno que ficava no alto da pedreira situada na Estrada do Bongue. Era um local com uma vista muito bonita, mas terrível para trabalhar, a inclinação do terreno era muito acentuada. Para o mamão era ótimo: a geada não pegava, o arejamento era fantástico, um terreno pedregoso, justamente o que o mamão queria. Para plantar o mamão tinha que fazer a cova, cercar com pedras, colocar pó de serragem, jogar as sementes e o pé de mamão nascia e crescia. Quando ocorria uma geada ela derrubava as folhas e o mamão amadurecia muito rápido, gerando grande oferta no mercado e caindo muito o preço pago ao produtor.
Como era feita a trajetória da sua casa no Bairro dos Marins até a escola onde você estudava?
Ia a pé! Descia pela Estrada dos Marins, passava pela Cerâmica Piracicabana, nas proximidades de onde hoje é o Carrefour, passava pela Chácara do Morato, a Rua do Porto não fazia a trajetória que faz hoje, era bem mais curta, só existia o caminho á beira do Rio Piracicaba, era tudo terra batida. Passei a usar sapato aos doze ou treze anos, até então ia descalço mesmo. No alto das Glebas Califórnia existia a chamada Chácara do Limão, próxima a Chácara Espéria, onde era mato hoje é um condomínio. Do outro lado tinha a Chácara Nazareth que era do Pacheco Chaves, hoje é loteamento residencial. Não existia o Bairro Nova Piracicaba, era tudo plantação de cana.
Esse trajeto diário ás margens do Rio Piracicaba não era um convite á banhar-se no mesmo?
Não! Minha mãe colocava tanto terror á respeito que eu não me arriscava. Nadei um pouco no Ribeirão dos Marins, escondido, ia para casa todo molhado, no caminho esperava secar. Meu pai tinha carroça, com roda de madeira e aro de ferro, só mais tarde é que passou a ter um carrinho com pneu, um conforto danado. Com a carroça lotada de mamão, íamos ao Mercado Municipal, a ida era feita a partir das quatro horas da manhã.
Eu ficava tomando conta do carrinho com os mamões enquanto meu pai ia negociar com os compradores. No Moratinho, perto da Ponte do Morato, muitas vezes o caminho enchia de água, na época das chuvas, a água batia na barriga do animal, nós torcíamos para que a ponte estivesse ainda ali, pois só dava para ver as laterais da ponte. Subíamos pela Rua Rangel Pestana, ás quatro e meia, cinco horas da manhã, a carroça lotada de mamões, meu pai pulava, ia conduzindo a pé o animal.
A sua família mudou-se para outro local?
Viemos morar perto da antiga revenda de automóveis Colina, na Rua Silva Jardim com a Rua Campos Salles, tínhamos comprado um terreno ali, construímos uma casa e mudamos. Só que o meu pai teve dificuldade em conseguir um emprego, até que ele resolveu fazer feira, arrendamos uma área de quase um quarteirão nos fundos de uma agencia Volkswagen, a Vepira, não tínhamos equipamentos, por 15 dias meu pai e eu cavoucamos aquilo tudo, transformando em canteiros de horta o que era um pasto, isso foi em 1966. Nós molhávamos o pasto e usávamos o enxadão. Meu pai tinha conhecimento técnico para produzir rabanete com 15 dias de plantio, alface com um mês. Aos domingos ficávamos até as duas horas, duas horas e meia da tarde, porque as pessoas iam buscar verduras frescas. A família toda trabalhava nessa horta, preparava-se a verdura para vender no dia seguinte. Com o tempo meu pai passou a ter um armazém na feira, permaneci na feira até os meus18 a 19 anos.
Em que locais eram realizadas as feiras?
Na terça-feira no Largo Santa Cruz, quarta-feira na Vila Rezende, quinta-feira na Paulista, sexta-feira na Rua Riachuelo atrás da Santa Casa, aos sábados era em um terreno onde jogaram as lajes do antigo Comurba, onde mais tarde foi construído o Hipermercado Jumbo Eletroradiobrás e a feira mudou para uma rua ao lado, domingo era atrás da Estação da Paulista e na Vila Rezende perto do Clube Atlético Piracicabano.
Quais veículos vocês utilizavam para levar as mercadorias a serem vendidas na feira?
Inicialmente tínhamos uma Kombi, quando virou armazém tínhamos duas Kombis e um caminhão Ford 36, mais tarde trocamos esse caminhão por um Chevrolet 1957, o famoso “Marta Rocha”, depois adquirimos um caminhão Chevrolet Brasil. Eu aprendi a dirigir em um Ford 1929, o marcador de combustível era um nível, igual ao nível de pedreiro. Essa maravilha era do Fernando Cardinali, eu trabalhei para ele na feira por um período de um ano e pouco. Minha função era vender óleo comestível, vinha em um tambor, colocava-se uma bomba manual e realizava a venda conforme o pedido do cliente: um litro, meio litro. O vasilhame era trazido pelo próprio cliente. Lembro-me que levava um tambor de 200 litros por 50 metros feira a dentro, o comentário geral era: “Esse garoto é muito forte!”. Na realidade tudo se resume na forma como você conduz o tambor, basta colocá-lo de quina no chão, dar dois pequenos impulsos e o próprio conteúdo impulsiona o tambor. Basta controlar o tambor de quina, com os dedos, o próprio tambor se movimenta. Na época foi lançado um produto novo no mercado, o Cardinali vendia sete pedaços por uma unidade monetária da época (1 cruzeiro), era o sabão Ypê, pelo fato de ser amarelo o pessoal dizia que era feito de fubá.
Você fez o Tiro de Guerra?
Na minha época era obrigatório, hoje infelizmente não é. Servi aqui na Paulista, na Avenida Dr. Paulo de Moraes, servi com o Waltencir, o comandante era o Guatura. Acho que todos deveriam servir o exército, inclusive as mulheres. No exército se aprende a ter amor a Pátria, o exército prepara o individuo para a vida. Entra moleque e sai um homem, em qualquer parte do mundo sem disciplina não se chega a lugar nenhum.
Você prosseguiu seus estudos onde?
Fui estudar na Escola Industrial, na época estavam construindo o segundo prédio. Fiz os cursos de torno, fresa. Eu queria fazer o curso de medicina, mas não era possível, tinha que trabalhar. Surgiu a vontade de buscar algo que trouxesse resultados mais rápidos. Eu tinha facilidade em ler textos, interpretando-os. Apareceu um amigo, João Barreto, que era locutor oficial da estação rodoviária “nova” e que precisava de alguém que o substituísse aos sábados e domingos á tarde. Fui para lá e passei a anunciar as partidas de ônibus. Apareceu um japonês, DuarteYamanaka, criamos coragem e fomos falar com Francisco Silva Caldeira que tinha adquirido a Voz Agrícola do Brasil, na Rua Moraes Barros 1191. O Caldeira me aprovou, dizendo: “-Eu não tenho nem verba e nem horário! Se você quiser a partir das 16 horas pode vir para cá e ler os textos comerciais”. Na época não eram gravados, quem programava as musicas era o Cesar Floriano que um ou dois anos depois saiu da rádio. O programa seguinte era apresentado pelo Paulo Roberto, irmão do Jayme Luiz, que tinha saído da rádio, foi trabalhar em São Carlos. O Paulo Roberto deu seqüência ao programa que na época era coqueluche em Piracicaba, chamava “Show das Cinco”. Tinha a participação do ouvinte pelo telefone no ar, era novidade e tinha grande audiência. O Antonio Carlos Pedrassi saiu da rádio, era um locutor com uma característica interessante, normalmente era gago, ao entrar no ar passava a ser um locutor normal. O Caldeira me ofereceu o horário dele e o salário possível da época. O meu sonho sempre foi de comer no restaurante Brasserie, eu passava pela porta, mas nunca tive dinheiro para entrar. Ao receber o meu primeiro salário na Voz Agrícola fui comer um filé á parmegiana na Brasserie! Depois fiquei “duro” pelo mês todo! Mas feliz por ter comido o parmegiana na Brasserie. Ai apareceu o Marcio Terra que tinha um programa das 18 ás 19 horas, o Panorama Esportivo, ele me puxou para o esporte, quem escrevia o programa era o Rubens Righetto, alguns meses depois o Righeto saiu da rádio, eu passei a fazer o programa com o Márcio e alguma coisa também no programa Jornada Esportiva. Disse ao Márcio que meu irmão tinha concluído o curso de datilografia, poderia escrever os textos do programa, assim Luiz Carlos Quartarolo passou a ser redator da Voz Agrícola. Ele fez com grande competência, conhece e gosta de futebol. Fiquei um bom tempo na Voz Agrícola, nessa época chegou por lá Tarcísio Chiarinelli, também apareceu um indivíduo com um gravador enorme nas costas, era o Rogério Aquiles. Naquela época estavam lá: Dinival Tibério, Márcio Terra, Osvaldo Onofre. Eu tinha 18 a 19 anos, vi que aquilo não oferecia melhores perspectivas financeiras. Fui trabalhar como gerente de cine, foto e som da recém inaugurada Jumbo Eletroradiobrás. Em seis meses percebi que não era o que eu queria. Fui trabalhar com Silvio Gonçalves Motta que era atacadista da São Paulo Alpargatas, passei a viajar pelo estado todo. Vendi muitas alpargatas, congas, havaianas, calças e camisas USTOP. Casei-me com Maria Nilcéia Spada, em 24 de dezembro de 1976, na Matriz da Catedral. Na época o carro chefe de vendas era o Ki-Chute, um calçado que utilizava derivado de petróleo, com a crise mundial nesse setor a demanda era maior do que a produção, com jeans acontecia a mesma coisa. Tinha que cobrir cotas vendendo havaiana e conga cujo valor agregado era bem menor. Decidi ir á São Paulo em busca de algo melhor, minha esposa permaneceu em Piracicaba. O Carlinhos Libardi era gerente do Messias que tinha comprado um depósito da Skol que havia falido, ficava na Vila Mariana, na Rua Tutóia. O Carlinhos disse-me: “ – Só preciso de você aqui na parte da manhã, você circula a Avenida Paulista e a Rua Brigadeiro Luiz Antonio, tira os pedidos, faz as notas e depois está liberado”. Ele ainda me ofereceu um aposento no próprio depósito, onde coloquei uma cama e passei a dormir no depósito de cerveja. Comecei a visitar todas as rádios de São Paulo. O que me ajudou é que em Piracicaba eu já havia trabalhado na Voz Agrícola, na Rádio Educadora.
Qual foi a primeira rádio em São Paulo em que você começou a trabalhar?
Certo dia fui a Rádio Gazeta, o Roberto Petri estava começando a comandar a equipe, entrou no lugar do Peruzzi que tinha saído. Ele precisava de alguém para ficar no lugar do Rui de Moura, lá encontrei Athayde Teruel que era de Santa Bárbara D`Oeste e já havia trabalhado em Piracicaba, isso deu uma certa empatia, foi ele quem me apresentou ao Roberto Petri. Athayde disse-lhe: “Esse é o cara que você precisa!”. Marcamos um teste para quinta feira. Eram 15 pessoas para uma vaga. Tinha um candidato do Mato Grosso, experiente, com um vozeirão. Outro de Jaú era fantástico. Mas deu certo, acabei sendo contratado. O Petri foi muito decente, disse-me que naquele mês e no mês seguinte ele só dispunha de metade da verba considerada o piso da categoria. Fiquei. No terceiro mês ele me deu mais do que o dobro de aumento. Na Rádio Gazeta fiquei de 1976 até 1982. O Petri saiu e o Flavio Araujo entrou no seu lugar, Darci Reis era o chefe na Rádio Bandeirantes, me chamou oferecendo um excelente salário, a Gazeta cobriu a oferta. O Darci Reis me chamou novamente, dobrando o meu salário. Em 18 de maio de 1983 fui á Bandeirantes onde permaneci até 1998. Quando o Darci Reis faleceu o Fiori Gigliotti assumiu a equipe, foi um grande chefe e amigo. Com o Eder Luis montamos uma equipe esportiva em FM, inicialmente para a Band FM, de lá fomos para a Transamérica, fiquei com o Eder até 2003. Dei uma parada, passei a fazer gravações de audiovisuais, apresentações de festas, comerciais, mestre de cerimônias, cheguei a fazer três formaturas no mesmo dia. Uma das cerimônias que fiz foi muito marcante, me contrataram para apresentar a cerimônia de ordenação de um padre. A duração foi de umas quatro horas, segui um script. João Thomaz, um amigo, é pai de uma menina portadora de Síndrome de Dow, ela sempre se motivou muito ao ouvir musica clássica, colocada em uma escola de ballet, hoje ela é a única portadora de Síndrome de Dow que realiza todos os movimentos de ballet, ela se apresenta no mundo todo. Na sua formatura fui convidado a narrar a sua apresentação.
Quando você retornou ao rádio?
O Deputado Roberto Moraes, em 2008 me convidou para ajudá-lo na apresentação de futebol aos fins de semana na Rádio Onda Livre, onde permaneci até maio deste ano, quando a Rádio Capital me chamou. Atualmente faço um programa diário das 20:00 ás 21:00 horas e faço futebol quarta, quinta, sábado e domingo. Em 1979 eu trabalhava na Gazeta aos finais de semana e a convite de José Roberto Soave vim para trabalhar na Difusora FM, que foi a primeira FM da cidade, eu e Olívio Pizzani já falecido, éramos as vozes oficiais da Difusora FM. Na Difusora AM eu fazia a parte policial. Quem faz futebol consegue improvisar no rádio. Quando um homem de rádio vai a campo, ele irá narrar geralmente mais de 90 minutos, o locutor tem que narrar tudo que está vendo, isso facilita o trabalho em festas, comerciais. Trabalhei em campo com o Faustão, quando ele fazia a Jovem Pan e depois a Globo, sendo que ele também trabalhava no Jornal O Estado de São Paulo. Naquela época não havia os recursos técnicos de hoje, no intervalo quando todo mundo ia comer um lanche ele ia ao orelhão passar matéria para a redação do jornal.
Você só se dedicou á área esportiva dentro do rádio?
A área esportiva me descortinou o Brasil e o mundo. Estive na América do Norte, Europa, Ásia. Em alguns países permaneci por mais de um mês, a trabalho. Consegui com o rádio ajudar alguns amigos: levei meu irmão Luis Carlos Quartarolo, foi trabalhar como plantão da Gazeta, logo depois foi o Roberto de Moraes, que voltou por ter deixado a noiva aqui, levei Tarcísio Chiarinelli, que depois voltou á Piracicaba, levei de Jaú o Luiz Carlos Bonzanini que também está de volta em Piracicaba.



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