Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

segunda-feira, janeiro 03, 2011

ADILSON BENEDITO MALUF

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 01 de janeiro de 2011
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/

ENTREVISTADO: ADILSON BENEDITO MALUF
Adilson Benedito Maluf foi prefeito de Piracicaba de 31 de janeiro de 1973 a 31 de janeiro de 1977, eleito pela segunda vez assumiu o cargo de 01 de fevereiro de 1983 até 1989. Em 7 de abril de 1993 tomou posse como deputado federal. Em 1973 fez viagem aos EUA com o objetivo de trazer investimentos para Piracicaba, nesse mesmo ano esteve em viagem oficial para intercâmbio cultural com Sung-Nan, Coréia do Sul, cidade irmã de Piracicaba. No ano de 1985 realizou viagem oficial à China, a convite do governo chinês, como representante da cidade de Piracicaba, para conhecer o regime político. Em 1993 esteve em missão oficial, como membro da Comitiva de Parlamentares Brasileiros em visita ao Líbano, a convite do Presidente da Assembléia Nacional da República do Líbano. Foi presidente do E.C. XV de Novembro de Piracicaba. No seu governo em 06 de setembro de 1973 foi instituída a Unidade Industrial Leste UNILESTE. Como prefeito Adilson Maluf criou condições para que empresas de grande porte como Caterpillar e Philips viessem a instalarem-se em Piracicaba. Um bom número de outras empresas seguiu-se a estas. Com isso Piracicaba abriu novas perspectivas de trabalho, diversificou seu parque industrial, ganhou maior estabilidade financeira. Suas inúmeras escolas formaram mão de obra especializada, a vida da provinciana cidade passou a ser oxigenada, formando uma sólida base para a próxima etapa desenvolvimentista. Foi nesse período que Piracicaba criou o seu Shopping Center, reflexo de que a sociedade estava mudando seus hábitos. Avaliar com precisão o quanto significou á Piracicaba as medidas da administração de Adilson Maluf é uma tarefa que cabe a História realizar, mas pelo curto espaço de tempo decorrido, percebe-se que a direção dada naquela época foi acertada. Adilson Benedito Maluf nasceu em Piracicaba, no dia 27 de junho de 1944, são seus pais Hide (Santo) Maluf e Olinda Issa Maluf.
Como surgiu o Benedito que compõe o seu nome?
Minha mãe era muito católica, ela teve seis filhos: Myriam, Hadir, Antonio de Pádua (Califa), Marileide, Adilson e Hide Júnior. A cada um ela deu um nome composto, sempre acompanhado do nome de um santo, quando eu estava para nascer ela dirigia-se a igreja de São Benedito para rezar, São Benedito dava risada para ela, como na época não havia meios para saber se o bebe era menino ou menina, ela determinou que fosse Benedito ou Benedita.
É possível ver o riso de São Benedito?
Eu vejo também! São sinais. (Adilson deixa transparecer sua fé robusta).
Seus pais nasceram em que localidades?
Meu pai nasceu no Líbano, fui conhecer a casa em que ele viveu, estavam demolindo quando cheguei, trouxe uma pequena pedra da parede que guardo comigo até hoje. Minha mãe nasceu no Bairro Chinês, que ficava na esquina da Rua do Rosário com a Rua Prudente de Moraes, para o tamanho de Piracicaba na época, as proximidades do Grupo Moraes Barros, da Igreja São Benedito, era um bairro, e era assim denominado.
Onde ocorreu o seu nascimento?
Foi na Rua do Rosário, 620 em parto realizado pela Dona Mariquinha, só depois que a Santa Casa abriu uma maternidade.
O seu pai tinha qual atividade?
Ele tinha a maior loja de materiais de construção que existia na época, chamava-se Depósito de Madeiras Maluf, ficava na Rua Prudente de Moraes, 1104, os prédios existem até hoje.
Em que escola foi feito os seus primeiros estudos?
Estudei no Grupo Escolar Moraes Barros, a minha primeira professora foi Dona Irene Gatti Bergamin, um fato me marcou bastante, em uma festa de comemoração ao dia Primeiro de Maio, as escolas foram conclamadas a participarem, eu representava o Trabalho, fui caracterizado como trabalhador, meu pai mandou fazer um martelo de madeira, que eu levava em uma das mãos. Brincávamos muito no Grupo Escolar Moraes Barros, em volta do mesmo, nos jardins que existem até hoje, éramos em muitos amigos, entre eles, Chiquinho Botene, Henrique, Procópio, Candinho, Candão, éramos vizinhos.
Muito popular entre as crianças de então, Bento Chulé foi seu conhecido?
Onde foi o bar do Bento Chulé foi construída a nossa casa! Na esquina formada pela Rua Voluntários de Piracicaba com a Rua do Rosário, uma casa que já foi ocupada pela CETESB e hoje abriga atividades comerciais. Foi a primeira casa em Piracicaba que teve um banheiro privativo, uma suíte, assim como o azulejo da cozinha até o teto, o projeto da residência é do renomado arquiteto Andreas Kerecz, europeu de origem judaica, refugiado de guerra. .
Qual era o encanto que o bar do Bento Chulé exercia sobre a criançada?
Eu ia comprar paçoquinha, lembro-me até hoje daquele sabor. Ele era um senhor de cabelos brancos, todos o tratavam por Bento Chulé, com a concordância dele. Na Rua Prudente de Moraes entre a Rua Tiradentes e a Rosário havia a sorveteria do Castilho, no meio dessa quadra tinha a sorveteria do Seu Zé, um sorvete muito gostoso, custava cinqüenta centavos da unidade monetária da época. Íamos á matinê do Cine São José, todos os domingos a tarde, já era uma sessão especial para a nossa idade, com os astros Tom Mix, Roy Rogers. Não existiam bermudas, os menores usavam calças curtas sempre desejando usar calças compridas o mais rápido possível. As bolas de meias eram costuradas pelas nossas mães, o nosso campo eram as ruas vizinhas as nossas casas. A Rua do Rosário era calçada até o cruzamento com a Rua Voluntários de Piracicaba, dali em diante era terra, eu vi calçando aquele trecho. Havia o “Girdão”, nome dado ao primeiro ônibus “cara chata” que Piracicaba ganhou, de propriedade do Sr. Luiz Marchiori. Fazia o ponto atrás da catedral, na esquina da Rua Boa Morte com a XV de Novembro, ele concorria com o bonde, percorria a mesma linha para a Vila Rezende. Eu ganhava “cincão” (cinco unidades monetárias da época) de semanada dada pelo meu pai, com 2,50 ia á matinê do São José, sorvete eram 50 centavos, pagava a passagem de 50 centavos e passeava de Girdão, ia até a Vila Rezende e voltava. Quando tínhamos uma bola de verdade íamos jogar na Escola Agrícola.
Como era o atleta Adilson no campo de futebol?
Eu era um jogador ruim! Meu pai dava a bola, o uniforme do primeiro e segundo times, e de vez em quando mandava os meus tios, sócios dele, levarem a garotada para jogar na Agronomia. Eu jogava no segundo time, na ponta esquerda, posição que não fazia nada, mas jogava! O técnico era o Mé. O time era o São João da Montanha Futebol Clube.
Em que escola você fez o ginásio?
Tanto o ginásio como o colégio estudei no Colégio Dom Bosco, tendo como primeiro diretor o Padre Pedro Baron. Na semana passada (segunda quinzena de dezembro de 2010) o Padre Guedes me ligou convidando para assistir a missa em comemoração aos seus 50 anos de sacerdócio, aceitei em ser o coroinha da missa, tive que recordar a seqüência em que as galhetas de água e vinho deveriam ser ofertadas, ao tocar o sino eu voltei a minha infância, as lembranças do colégio e dos meus colegas vieram nitidamente.
No período em que realizou seus estudos no Dom Bosco como era o uniforme?
A cor era caqui, tanto para a camisa como para a calça. Dependendo da idade a calça era curta ou comprida. A camisa tinha lapelas nos ombros. Quando passávamos em frente ao Sud Mennucci os alunos ao nos avistarem com aquele uniforme já gritavam: “- Correio!” pela semelhança com o uniforme dos carteiros. Não era permitido fumar nos 100 metros próximos ao colégio. As datas cívicas eram celebradas com festejos. Toquei tarola na fanfarra do Dom Bosco. O dia 24 de maio é celebrado como Dia de Nossa Senhora Auxiliadora data em que eram realizados belos desfiles do Colégio Dom Bosco pelas ruas centrais da cidade. Participei de concursos de fanfarras que havia no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. O uniforme era composto por camisa e calça brancas, com punhos azuis.
Algum esporte despertou seu interesse?
Joguei razoavelmente basquete. Havia um time, “Água Seca Basquetebol Clube”, comandado pelo Dr. Duvilio Ometto, que tinha um filho com a nossa idade, assim como Dona Nida, Armando Dedini, tinham filhos na mesma faixa etária. Dr. Duvilio fundou o time, contratou o Paulinho, irmão do Pecente como nosso técnico. Assim aprendemos a jogar basquete. O brasão do uniforme foi desenhado por mim, no centro iam as iniciais “ASBC”, as cores eram azul, branco e vermelho. Havia diversos times de basquete na cidade que realizavam disputas: Água Seca, Dom Bosco, Moraes Barros, Colégio Piracicabano, e outros.
Algum outro esporte despertou a sua atenção?
Conquistei a “Taça Severino Galdi” de futebol de botão! Foi uma época de ouro desse esporte, naquela época os botões eram de celulóide, de paletós, havia o botão de dois chutes, eram botões de dois planos. O meu time era o quadro do Vasco da Gama, melhor time carioca na época. Havia muito cuidado no armazenamento e transporte das peças do jogo. Hoje garotos da mesma faixa etária estão divertindo-se com Jet Ski e outras modernidades.
Em sua juventude você participava de outras formas de lazer?
Freqüentava as brincadeiras dançantes do Clube Coronel Barbosa, que foi onde conheci a minha esposa Rosa Maria Bologna Maluf, começamos a namorar em 1968, casamos em 1972.
A sua decisão em estudar engenharia civil surgiu como?
O meu pai costumava ir á Santos, acompanhado da família toda, ficávamos hospedados no Hotel Avenida Palace de propriedade de Eugenio Rigatto mais conhecido como “Seu Tola”, piracicabano. Um dos automóveis que usamos nessas viagens foi um Kaiser. Quando eu tinha seis ou sete anos de idade construía na areia da praia castelos, caminho com palitos de sorvetes fazia pontes, tudo isso nas areias da Praia do Gonzaga. Aos 10 anos de idade eu andava muito a pé pela cidade, quando via alguma obra gostava de entrar, conhecer. Acompanhei a construção da enorme casa situada na esquina da Rua São José com Rua do Rosário, que mais tarde funcionou como meu gabinete na função de prefeito municipal. Atualmente ela é ocupada pela Uniodonto.
Em que escola o senhor formou-se em engenharia?
Cursei na Escola de Engenharia de Taubaté, em 1964 quando eu estava indo fazer a minha matricula os tanques do exército estavam ao longo da estrada, eu não sabia bem o que estava acontecendo. Montamos uma república a RAU, República Árabe Unida, só tinha descendente de árabes, além de mim, morava lá meu irmão Hadir, Juca Abdalla, Ferez Kairalla, tinha um judeu também Moisés Resemberg. Na época quase ninguém tinha automóvel, no pátio da minha escola entre alunos e professores não passava de 10 o número de carros estacionados. Eu tinha um fusca bege, zero quilômetro que o meu pai tinha me dado.
Em que ano o senhor formou-se?
Foi em 1969, voltei a Piracicaba conhecendo engenharia civil, fiz estágio por três anos com um grande arquiteto, Manoel Carlos Carvalho.
O senhor já tinha planos para o futuro?
Eu sabia que após me formar iria voltar a Piracicaba, o meu pai me ajudaria a montar uma construtora, iria ser prefeito de Piracicaba, um sonho de infância, do tempo em que ainda usava calças curtas. Eu falava para todo mundo que iria ser prefeito da nossa cidade. Desde a infância, em todas as campanhas políticas que apareciam a minha família participava e eu estava entre eles. Minha família era ademarista.
O senhor chegou a conhecer Adhemar de Barros?
Conheci! Era um homem bem gordo, mas muito simpático. Meu tio Abrahão era o presidente do PSP local, quando ele vinha hospedava-se na casa dele.
Após montar a sua construtora qual foi a primeira obra executada por ela?
O meu foco era executar projetos, lembro-me que a prefeitura de Piracicaba abriu uma concorrência para construir umas pontes, grupos escolares, o prefeito era Cássio Padovani, entrei nessa concorrência, havia a necessidade de um currículo de obras realizadas, contratei um engenheiro que havia se formado dois anos antes, ganhei a concorrência para construir três pontes e duas escolas, superando uma conhecida empresa local. A demora em homologar o resultado acabou fazendo com que junto com o meu pai fossemos até o gabinete do prefeito em busca de uma noticia sobre o andamento do processo. Recebidos pelo Cássio Paschoal Padovani, sentado em uma cadeira com forro de palhinha, ainda no prédio que já foi derrubado, o Dr. Pedro Negri era chefe de gabinete, ao sentar diante do Cássio disse-lhe: “-Senhor Prefeito, daqui a dois anos o senhor irá passar essa cadeira para mim!”. Fizemos a reunião, sai com a incumbência de construir duas pontes e uma escola.
O senhor tinha tecnologia para construir pontes?
De posse do contrato e do projeto fui procurar Estevan Madaraz, que havia sido meu professor de pontes na faculdade. Por duas horas ele explicou o que deveria ser feito, após realizar parte da obra, consultei o Dr. Carlos Moraes de Toledo, o Carlão da Equipav, que aprovou a qualidade do trabalho que eu estava fazendo. A partir daí, junto com meus irmãos, realizamos muitas obras, dentro e fora de Piracicaba.
A sua eleição para prefeito como ocorreu?
Piracicaba estava passando por um período de sucessivas mudanças de prefeitos, por questões políticas ou motivo de saúde, até mesmo de morte, dos ocupantes do cargo. Foi feita uma reunião no Clube Ítalo Brasileiro, onde foi formado o chamado “Grupo dos 100” eram pessoas bem intencionadas, alguns colegas me incentivaram a participar dessa reunião. Lá me coloquei a disposição para ser candidato a prefeito, fui votado, mas perdi a indicação para João Fleury. O deputado Francisco Antonio Coelho era do MDB, ele me procurou para que eu me filiasse ao seu partido, até então eu desconhecia a necessidade de ser filiado a algum partido político. Cada partido tinha que apresentar três candidatos pelo MDB era Bentão, Jorge Angeli, o terceiro fui eu. A ARENA tinha o João Guidotti que acumulou o lugar de dois candidatos e o João Fleury. A soma dos votos dos candidatos do MDB foi superior, e a minha votação entre os três foi a maior, com isso fui eleito prefeito de Piracicaba. Em 7 de outubro de 1972 eu me casei na capela do Colégio Dom Bosco, no dia 1 de fevereiro de 1973 tomei posse como prefeito.
A mudança da sede administrativa da prefeitura foi realização do seu governo?
O projeto e a construção do Centro Cívico, do Parque da Rua do Porto, são de minha autoria, dei expediente dois dias no prédio novo e passei o mandato para o prefeito que me sucedeu.
Como o senhor analisa a sua atuação na prefeitura de Piracicaba?
Mudei um pouco a economia de Piracicaba, de totalmente agrícola, com suas indústrias de base totalmente voltadas á agricultura, particularmente para o setor sucroalcooleiro, diversifiquei o parque industrial, trouxe as indústrias Caterpillar, Philips, sendo que esta empresa por contencioso com o governo federal mudou-se para Manaus, e em seu lugar veio a General Motors. Em seguida muitas empresas estabeleceram-se em Piracicaba. Com isso chegaram muitas pessoas com novas idéias. Piracicaba passou a ser menos provinciana, embora eu ainda a considere como provinciana. Tivemos a oportunidade de mudar um pouco, e deu certo, com isso Piracicaba tornou-se mais rica. Os metalúrgicos da nossa cidade foram os maiores agraciados, essas empresas estrangeiras trouxeram benefícios que as empresas brasileiras não proporcionavam, por falta de conhecimento, por conservadorismo ou ainda por falta de exigência da parte dos sindicatos. Atualmente Piracicaba é uma cidade agradável, que oferece boa qualidade de vida, com abastecimento de água em todos os domicílios. Ela tem seus problemas, como existe no mundo todo.
Como foi a reação das indústrias locais com relação a vinda de outras indústrias?
Até eu assumir a prefeitura havia um mito de que em Piracicaba só existiam as Indústrias Dedini e que outras empresas não se estabeleciam aqui por que o Dedini não deixava. Dr. Duvilio Ometto, presidente das Indústrias Dedini me ajudou a trazer a Caterpillar para a nossa cidade. Ofereci um almoço para Bill Norman, presidente internacional da Caterpillar, realizado na casa da minha mãe. Entre os convidados estava o Dr. Duvilio Ometto que atestou as boas condições que Piracicaba oferecia para a implantação de uma indústria do porte da Caterpillar. A área onde está situada a Caterpillar foi negociada com o então proprietário, José Adolpho da Silva Gordo, em uma reunião ocorrida na casa do Dr. Nelson Meirelles. Inicialmente a área escolhida era entre as estradas de Limeira e Rio Claro, próxima onde esta sendo instalada a Hyundai.
Como surgiu a idéia de trazer a Caterpillar a Piracicaba?
Ouvi alguém dizer que ela estava estudando a região para transferir-se de Santo Amaro para o interior, tanto Americana como Limeira eram duas cidades bem cotadas, com a idéia fixa de seus diretores de origem norte americana residirem em Campinas. Marquei uma reunião com o presidente da Caterpillar e fui até São Paulo onde expus os recursos que Piracicaba oferecia inclusive a escola que eles desejavam para os filhos, mantida pelo Instituto Educacional Piracicabano, seu diretor, Richard Senn teve importante participação na decisão da Caterpillar vir á Piracicaba, sem demérito para todos aqueles que se empenharam nessa tarefa.

Arquivo do blog