Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, maio 22, 2011

SYLVIO ARZOLA

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 21 de maio de 2011
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.teleresponde.com.br/

ENTREVISTADO: SYLVIO ARZOLA
O Prof. Dr. Sylvio Arzolla graduou-se em 1953 pela Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz. Em 1957 conseguiu uma bolsa de estudos por dois anos na cadeira de Química Biológica. Em 1959 foi convidado para ser professor na cadeira de Química Agrícola. Mais tarde com a formação de novo departamento, Sylvio Arzolla passou para o Departamento de Solos, Geologia e Fertilizantes onde permaneceu até 1989. Publicou livros didáticos, apostilas e trabalhos dentro da sua área de atuação. Participou de mais de uma dezena de cursos de pós-graduação, além de inúmeros congressos, seminários, no Brasil e no exterior, laureado com diversos prêmios. Dotado de grande amor ás artes, Sylvio Arzola participou de muitas oficinas literárias, publicou um grande número de poesias, recebendo diversos prêmios nessa modalidade de expressão. Filiado a diversas entidades literárias de Piracicaba teve seu talento reconhecido por elas, recebendo prêmios e títulos das mesmas. A sua ascendência italiana parece estar presente quando Sylvio põe-se a cantar, como fez por 30 anos em diversos corais sacros ou as tradicionais serestas, juntamente com nomes consagrados da nossa cidade, entre eles Cobrinha, Zezé Adamoli, Toninho Marchini, Bolão. Sylvio Arzolla foi um dos responsáveis técnicos pelo desmembramento da área que integrava a Chácara Nazareth e transformou-se no Bairro Jaraguá. Entre suas lembranças permanece a imagem de infância, quando ruas como a da Boa Morte, Rosário, e muitas outras que hoje integram a zona central da cidade eram ruas de terra, sem calçamento. Lembranças do bonde que ia á Agronomia, á Paulista ou á Vila Rezende. Teve participação ativa na Igreja dos Frades, onde conheceu inúmeros freis que tiveram presença marcante junto à comunidade religiosa. Foi Congregado Mariano, sua esposa pertenceu a Congregação Filhas de Maria, na época instituições fortes da igreja católica. Meticuloso, detalhista, está muito bem inteirado dos fatos atuais. Habilidoso, mostra as barras de ferro que soldou há pouco tempo. Criativo, transforma em poesia fatos corriqueiros. Nascido em Piracicaba a 5 de janeiro de 1924, é filho dos imigrantes italianos Rocco Antonio Arzolla, natural de Nápoles e Ida Dal Pozzo Arzolla nascida em Treviso que imigraram para o Brasil onde se conheceram.
O pai do senhor estabeleceu-se em Piracicaba com qual atividade?
Ele montou uma loja e oficina de fabricação de calçados na Rua Boa Morte esquina com a Rua Ipiranga, em frente onde atualmente há a Padaria Do Lar, atualmente há um sobrado construído no local. Foi ali que eu nasci, o mais novo de sete irmãos: Rafaela, Afonso, Emilia, Lila, José e Antonio.
Onde o senhor estudou suas primeiras letras?
Fiz o primeiro ano de grupo no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, os outros anos eu estudei na Escola Normal (atual Sud Mennucci), o ginásio estudei no Externato São José, aonde mais tarde veio a se instalar a Faculdade de Odontologia, na Rua D.Pedro II esquina com Alferes José Caetano, o colégio estudei na Escola Normal, por dois anos estudei de manhã fazendo o curso normal e a tarde, fazendo também o curso científico. Eu e um colega estudamos e nos preparamos para o exame de ingresso á Escola de Agronomia.
Em que ano o senhor ingressou na ESALQ?
Passei a fazer o curso de agronomia em 1949, formei-me em 1953. Por uns dois a três anos trabalhei na medição de terras, sítios. Em 1957 ganhei uma bolsa para trabalhar na cadeira de química biológica e paralelamente na química agrícola, com o professor Malavolta e professor Tuffi Coury. Em 1959 fui convidado para dar aulas, como professor assistente, no curso de Química Agrícola. Fiz o doutorado e passeia dar aulas, pela manhã teóricas e a tarde praticas, e realizava trabalhos de pesquisa que nesse período de tempo totalizou cerca de 40 trabalhos. Permaneci na ESALQ até 1989.
O loteamento do local onde hoje existe o bairro Jaraguá teve a sua colaboração técnica?
Isso foi na década de 40, eu era mocinho, junto com um engenheiro civil fizemos o loteamento dessa área pertencente á Chacara Nazareth, era um trecho delimitado pela Avenida Madre Maria Teodoro, Rua Santos, Avenida Nove de Julho e Ribeirão do Enxofre, onde atualmente existe a Avenida Abel Pereira. Onde hoje é a Avenida Dr. Paulo de Moraes, no sentido da Rua do Rosário em direção ao Rio Piracicaba, era área ocupada pelas plantações da Chácara Nazareth. Nessa década, a Rua do Rosário acima da linha do trem da Companhia Paulista era constituída por algumas casas esparsas. Em função desse trabalho conheci Dona Jane Conceição, uma senhora de estatura pequena, muito ágil. Cheguei a fazer um trabalho com adubação envolvendo a ESALQ e o famoso café existente na Chácara Nazareth. O bairro Jaraguá é composto em sua maior parte por terra roxa.
Em sua infância o senhor morava onde?
Morei na Rua Boa Morte, na esquina com a Rua Riachuelo havia a Farmácia Neves, em seguida vinha a casa de Romeu Simionato e a nossa casa onde anexo havia o comércio do meu pai, ali eram produzidos calçados, botas, foi lá que aprendi a costurar calçados, meu pai tinha sete funcionários nesse local. Ao lado, meu irmão Antonio abriu uma loja onde vendia os mais diversos produtos, papelaria, geladeira, arame farpado, tinha de tudo! Construiu ainda um barracão existente até hoje na Rua do Rosário entre as ruas José Ferraz de Carvalho e Gomes Carneiro. Participei da construção desse barracão, administrando a obra e fazendo a instalação elétrica e hidráulica. Era um deposito da loja e ali funcionava também uma engarrafadora de bebidas, mantida pelo meu irmão Antonio, como não havia água encanada assentei uma bomba no poço, já tínhamos energia elétrica na época. As ruas eram de terra, inclusive a própria Rua Boa Morte, onde a água era encanada. Aos 15 anos eu já consertava chuveiro elétrico.
O bonde transitava pela Rua Boa Morte, e as crianças brincavam na rua, não era perigoso?
Havia perigo, mas foram raros os acidentes ocorridos com crianças. Lembro-me de um acidente quando o bonde parou, um carro que vinha pela rua atropelou uma criança que foi atravessar a rua.
Qual eram as diversões mais comuns das crianças na época?
Além das tradicionais, como esconde-esconde, “pais”, tínhamos carrinhos feitos de madeira, inclusive os eixos e rodas, que costumávamos engraxar para rodar melhor, as crianças menores andavam de calças curtas. O curioso é que na época tínhamos a “roupa de domingo” e a outra para o dia a dia.
A família do senhor freqüentava mais qual igreja?
Freqüentávamos a Igreja Sagrado Coração de Jesus, conhecida como Igreja dos Frades. Não íamos quase á catedral, que na época da minha infância era o prédio antigo. Vi a construção da catedral nova, desde o alicerce. Entre as delicias da época tínhamos pastéis, os três locais mais famosos eram no Mercado Municipal, na Rua Governador Pedro de Toledo ao lado do Grupo Barão, e na Rua Prudente de Moraes, esquina com a praça, onde hoje há um banco, lá havia a Sorveteria Paris que além dos famosos sorvetes servia um delicioso pastel.
Em que ano o senhor se casou?
Foi em outubro de 1962, o casamento foi celebrado na Igreja São Judas Tadeu. Conheci a minha esposa, Dalva Maria Franco Arzolla, quando eu cantava no coral da Igreja dos Frades, onde cantei como tenor por trinta anos. Eu tive como regente Rossini Dutra, seu pai Benedito Dutra foi meu professor de musica no Externato São José. Elias de Mello Ayres foi meu professor na Escola Normal. Logo que casamos fomos morar em uma casa de propriedade do artista plástico Pacheco Ferraz. Era uma casa muito ampla, tinha um porão muito grande, uma das salas eu usava para estudar, nela abriguei telas pintadas por Pacheco Ferraz que sabendo do espaço vazio deixou sob minha guarda algumas de suas obras.
O senhor conheceu o músico Erotides de Campos?
Foi meu professor! De química! Era um bom professor de química, embora tenha vindo á Piracicaba para lecionar música, ele tocava violino, ele residiu na Rua Gomes Carneiro entre a Rua Boa Morte e Alferes José Caetano, a família dele morava próximo. Erotides tinha uma tristeza, foi convidado para dar aula de musica em Piracicaba, por injunções políticas foi preterido, tendo que se conformar em lecionar química.
Em 1932 ocorreu a Revolução Constitucionalista o senhor viu a saída dos voluntários?
Embora fosse um menino de oito anos, vi os voluntários partirem da Estação da Paulista.
Como foi para o senhor o período da Segunda Guerra Mundial?
A Segunda Guerra foi de 1939 a 1945, apesar de alguns estrangeiros terem tido alguns problemas nós não passamos por isso, mesmo meus pais sendo de origem italiana. Embora tivéssemos rádio em casa era proibido ligar. Em minha vida nunca vi meus pais falarem em italiano, minha mãe gostava da língua portuguesa, achava a língua mais bonita do mundo! O que eu aprendi de italiano foi em função de cantar musicas italianas.
O senhor chegou a freqüentar o Teatro Santo Estevão?
Freqüentei! Desde os meus 15 anos! Assisti a uma peça com um ator de sobrenome Machado, ligado á família que mais tarde foi proprietária da TV Record, esse artista cantou uma musica que memorizei tanto a musica como a letra e por anos a cantei, conservando até hoje.
Como era o Teatro Santo Estevão?
Era muito bonito! Meu tio José Mazzari, italiano, realizou pinturas internas no Teatro Santo Estevão e no Teatro São José. Um dos seus filhos formou-se em medicina e foi médico na Usina Monte Alegre. Passavam filmes no Teatro Santo Estevão. Onde foi o Shopping Ziliat tinha um cinema, lá eu assistia filmes com Tom Mix.
O senhor conheceu o seresteiro José Benedito Adamoli?
Foi meu colega de grupo, ginásio e escola normal. Cantamos serestas juntos.
O senhor freqüentava muito a Igreja dos Frades?
Fui presidente da Congregação Mariana que tinha por objetivo auxiliar as pessoas necessitadas. Nas cerimônias religiosas éramos identificados pelo uso de uma fita azul, usada como colar tendo em sua extremidade anterior uma medalha. Minha esposa Dalva Maria pertenceu a Congregação das Filhas de Maria, que se identificavam com uma fita vermelha usada em forma de colar e um véu sobre cabeça. Fiz uma relação dos frades que conheci na Igreja dos Frades, o primeiro Guardião que conheci foi o Frei Vital, ao todo conheci 52 frades que passaram pela Igreja dos Frades. Tinha a liberdade de freqüentar a parte interna do convento dos frades.
Abaixo uma das inúmeras poesias de Sylvio Arzolla

Canaviais

É manhã,
O sol surge no horizonte
E os cortadores de cana
Já se encontram no batente

A cana que foi plantada
Com esmero e carinho
Hoje, adulta é cortada
E levada ao moinho

Homens, mulheres, crianças,
Munidos com seu facão,
Vão cortando toda a cana
E amontoando-a no chão,

Vida dura e maltratada,
- É próprio da profissão,
Faça sol ou faça chuva,
É preciso ganhar o pão!

JOSÉ BENEDITO ADAMOLI

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 14 de maio de 2011
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
http://blognassif.blogspot.com/
                       
ENTREVISTADO: JOSÉ BENEDITO ADAMOLI
José Benedito Adamoli nasceu em 6 de agosto de 1921, na Rua Ipiranga esquina com a Rua Benjamin Constant, em Piracicaba. É o filho caçula dos 11 filhos do casal Emilio Adamoli e Genoveva Penatti Adamoli: Maria, Pedro, Carlos, Emilio Reinaldo, João Egidio (Joca), Umberto Luiz, Osvaldo, Mauro Rodolfo, Mirtes, Carolina Francisca e José Benedito. Foi professor de matemática, lecionou por cinco anos na Escola Industrial em Piracicaba. Do alto das suas quase nove décadas de vida entre outras receitas para bem viver está a moderação de hábitos e costumes, é um seresteiro por excelência, afinado no violão e na voz, mantém o fôlego e o tom, impressionando a platéia com sua interpretação natural que invade o ambiente. Artista plástico, conserva suas telas em seu ambiente doméstico. Da varanda da sua casa pode ver do outro lado da rua a casa que foi do seu irmão Joca Adamoli, um dos mais renomados artistas plásticos piracicabanos, com obras em museus do mundo afora. Emílio Adamoli, seu pai, foi o pioneiro na construção de barcos em Piracicaba, até então era comum o uso de rústica canoas ou embarcações fabricadas fora da nossa cidade. A empresa da família por décadas extraiu areia do Rio Piracicaba, utilizada nas construções de edificações. Conversar com José Benedito Adamoli é fazer uma viagem ao passado recente, época com hábitos e costumes muito diferentes dos atuais.
Onde o senhor estudou as primeiras letras?
Foi no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, lembro-me do professor Salustiano Cruz, da Dona Branca Leite, da Da. Virgínia. O ginásio eu estudei no Externato São José, situado no prédio onde depois funcionou a Faculdade de Odontologia de Piracicaba. Estudei dois anos de curso científico na Escola Normal ( mais tarde denominada Sud Mennucci), onde estudei mais dois anos e formei-me professor.
Em sua infância o senhor tinha alguma outra atividade além de estudar?
A partir dos 10 a 12 anos passei a ajudar o meu pai, realizando pequenas tarefas, como ir comprar alguma tinta, pregos, eram pequenas necessidades imediatas. Naquele tempo era muito comum “ir dar recados” á alguém, os telefones eram raros. Nossa família adquiriu o telefone de número 398, fazia parte dos primeiros quarenta aparelhos instalados em Piracicaba.
Quem construía os famosos barcos Adamoli?

Além do meu pai todos os meus irmãos trabalharam na fabricação de barcos, mais tarde, ao se tornaram adultos alguns se identificaram mais com outras atividades, o Joca começou a trabalhar em pintura, um irmão foi trabalhar com calçados, outro tornou-se mecânico.
Quais eram as madeiras mais utilizadas nas confecções dos barcos?
Eram o Ximbó e o Cedro. As toras eram cortadas nas serrarias do Cobra, do Paschoal Guerrini, mais tarde passaram a vir já serradas. Toda essa madeira vinha do Paraná, eram descarregadas, permaneciam secando por quatro a cinco meses. Após a secagem eram aplainadas, com elas eram feitos os barcos, após prontos recebiam um tratamento com óleo de linhaça e eram pintados com uma tinta cuja formulação o meu pai preparava. Os barcos fabricados por nós estavam presentes nos mais diversos recantos do território brasileiro.
Quais eram as dimensões mais comuns dos barcos?
Havia o de 5 metros e 20 centímetros, o de 6 metros e 80 centímetros e o de 7 metros, a largura era de 1 metro e 10 centímetros na boca, embaixo 80 centímetros. A altura da tábua era de 40 centímetros. Comportava de 5 a 6 pessoas. Deslizava muito bem, tinha mais peso que o barco de alumínio, o motor encontrava mais resistência no barco de madeira do que no de alumínio, isso permitia maior aderência á água para deslizar suavemente. Fazer um barco é uma verdadeira arte. Na época em que esse maravilhoso Rio Piracicaba tinha peixes como dourado, piracaju, piapara, jau, mandi, eram peixes de excelente qualidade. Até 1949 a 1950 pescava-se em abundancia no Rio Piracicaba, escolhia-se o peixe por espécie e tamanho, não se comercializava peixe, quando meu pai voltava da pescaria no Rio Piracicaba distribuía peixe com nossos vizinhos.
Como era a Rua Benjamin Constant no tempo da sua infância?
Era calçada com pedregulho, começava na Rua Regente Feijó e ia até onde hoje é o início da Avenida São Paulo. A estrada que ia para Tietê era de terra, foi construída com carroças tracionadas por burros, eram de 150 a 200 carrocinhas trabalhando. O que era muito curioso é que o primeiro burro puxava a carroça e os demais seguiam atrás, cada um tracionando uma carroça, praticamente um carroceiro dominava todas as carrocinhas. O que uma máquina faz hoje em duas horas na época não se fazia em um ano. A Rua do Rosário era a menos movimentada, passava uma carroça por hora! Passando a carregadeira de boi já existia a rua aberta, mas havia uma ou outra casa construída.
Onde hoje é a Avenida Armando Salles de Oliveira corria a céu aberto o Itapeva, o senhor nadou no Itapeva?

Nadei muito! Nadava o dia todo, a água era cristalina, a nascente era lá para os lados da Paulista, Piracicaba ia buscar água na nascente denominada Olho da Nhá Rita. Não havia filtro na estação de água íamos buscar água lá. Tinha uma guarita da Estrada de Ferro Sorocabana, a prefeitura fez um patamar com um cano de água saindo da nascente, era tudo muito bem arrumado.
O senhor conheceu Chico Carretel?
O Chico foi muito amigo meu, no inicio ele tinha uma olaria, que vendeu para a família Bená, depois ele foi proprietário de uma serraria na Avenida Paulo de Moraes, em frente ao Bar Soltini, de propriedade de uma família com 14 filhos. O Chico ganhou o apelido de Chico Carretel por ter sido sócio do “Ieié Gobett” em uma fábrica de carretel de madeira.
Próxima á residência da família do senhor havia uma fábrica de bebidas?
Era a fábrica de bebidas Orlando, quando eu nasci já existia essa fábrica, além da famosa gengibirra faziam capilé, maçãzinha, itubaina, fernet, Meu pai contava que por um período de tempo um químico alemão trabalhou junto com Vicente Orlando.
Por que o pai do senhor iniciou a fabricação de barcos em Piracicaba?
Ele gostava de pescar, naquele tempo havia canoas, constituídas por um tronco de árvore aberto no meio, lavrava-se a tora de madeira com machadinha, enxó, furava-se com ferro quente, ia cavoucando, demorava um “século” para fazer uma canoa! Meu pai fez uma canoa redonda, era feita de sarrafinhos, lembro-me que ele colocou o nome de “Ipiranga” nessa canoa. Mais tarde ele colocou uma bolina na canoa, dava mais estabilidade. Em seguida meu pai construiu um barco com fundo chato, chamava-se “Vinte e Nove de Novembro”, data em que ele lançou o barco no Rio Piracicaba. Logo em seguida ele passou a fabricar barcos, a princípio para Piracicaba, logo passaram a levar barcos para os mais diversos lugares.
Pedro Adamoli, o irmão mais velho do senhor, conhecia muito sobre fabricação de barcos?
Era um gênio criativo! Fabricou lanchas que foram adquiridas por clientes de Santos, Rio de Janeiro, ele trabalhou um período em construção naval no Rio de Janeiro, uma das suas especialidades eram lanchas de competição. Prestou serviços para a família Borges que tinha uma concessionária dos motores Johnson em São Paulo. A Mesbla de São Paulo adquiriu muitos barcos fabricados por nós em Piracicaba. Fizemos mais 30 catraias para a Sociedade Judaica de São Paulo. Fizemos uma 10 balsas de transporte pesado para a CESP Companhia Energética de São Paulo. Meu pai foi ampliando a área das nossas oficinas, adquirindo propriedades vizinhas. O transporte dessas embarcações era feito por carretas especiais, o Expresso Piracicabano do Gianetti, tinha umas carretas especiais para esse fim. Fazíamos até lanchas luxuosas com todas as acomodações que a tecnologia da época permitia como cama, fogão e outros recursos.
O senhor sempre gostou de música?
Aos 15 anos eu já tocava violão e fazia seresta! Meu irmão Osvaldo gostava muito de seresta, naquela época era necessário tirar alvará na delegacia de policia para o menor de idade tocar em uma seresta, os guardas de rua chamados de “grilo” apitavam a noite toda. Junto com o meu irmão e a turma da Rua do Porto íamos tocar por tudo quanto era lugar da cidade! Sempre a pé! As moças deixavam na janela um licorzinho para a gente tomar. A moça para quem era feita a serenata não saia na janela, para sinalizar que estava acordada acendia a luz.
E os pais da moça?
Ficavam dentro de casa, roncando! Á moça homenageada não se permitia o direito de sair e agradecer, apenas no dia seguinte se encontrasse com o seresteiro ela então poderia falar a respeito da serenata feita em sua homenagem. As serenatas eram feitas aos sábados e domingos.
O senhor freqüentava cinema?
Geralmente ás quarta feiras íamos ao Cine São José, lembro-me de ter assistido Tom Mix, Flash Gordon No Planeta Marte, eram seriados. Uma curiosidade daquela época é que havia muitos homens que não carregavam crianças, era uma função delegada ás mulheres.
O senhor tinha algum outro tipo de diversão?
Nós íamos pescar, geralmente de barco, para levar a embarcação até o Rio Piracicaba usávamos uma carroça de tração animal. Nadei por 15 anos no Rio Piracicaba, faz 60 anos que tenho rancho na barranca do Rio Piracicaba. Lembro-me que em uma ocasião pescamos 13 peixes pintados, por não ter para quem dar o excesso de peixe devolvemos mais da metade ao próprio rio. Lembro-me das festinhas que existiam em frente á catedral, no centro ao lado do antigo coreto havia um lago com peixinhos vermelhos, as crianças paravam, olhavam e respeitavam, sem sequer tocar na água. Havia festas também junto a Igreja Bom Jesus, ao lado da Igreja dos Frades, onde hoje é Assistência Social Mariana, em frente a Igreja dos Frades havia um cercado onde o pessoal que vinha do sítio deixava as carroças. Lembro-me de que no Largo São Benedito havia uma carroça com quatro rodas, puxada por cavalos, o condutor era um negro que usava fraque e cartola, funcionava como hoje funciona um taxi. Contratava-se a ida até o local onde se desejava ir. Os Fornazari tiveram carros e cavalos desse tipo na Rua Floriano Peixoto, onde hoje é a Mausa. Na frente tinha um pasto onde os cavalos ficavam soltos, tinha a garagem onde guardavam os respectivos carros de tração animal. O Libório tinha um carro desses com dois cavalos, até então o quem falecia era conduzido carregado pelas mãos dos acompanhantes até o Cemitério da Saudade. Imagine subir a Rua Moraes Barros do centro até o cemitério! Isso tudo feito vestindo terno! Era obrigatório o uso do terno! O chão era de terra. O primeiro carro fúnebre adquirido pelo Libório foi construído pelo meu irmão Pedro, no inicio houve certa resistência em deixar de levar o caixão carregado pelas mãos dos acompanhantes. Onde hoje é o Estádio Barão de Serra Negra era um bosque com árvores frondosas.
O senhor chegou a ver hansenianos em Piracicaba?
Conheci muitos deles, andavam a cavalo, portando um bastonete com uma latinha na ponta, permaneciam montados no cavalo e esticavam o bastonete de tal forma que as pessoas davam moedas como esmola sem tocar no portador da doença.
O senhor jogou futebol?

Joguei pelo Cruzeiro de Piracicaba durante 14 anos, era lateral direito, joguei um pouco pelo União Monte Alegre, também no Samambaia que ficava junto ao São João da Montanha na Escola de Agronomia. O Cruzeiro ficava na Rua Floriano Peixoto. Onde hoje é o Colégio Dom Bosco era o Independente, onde é o SENAI era o Sorocabana Futebol Clube.
Como eram os bailes em sua juventude?
Ia aos bailes no Clube Cristóvão Colombo, situado no andar superior de uma edificação na Rua São José esquina com a Rua Governador.
Outra atividade da família Adamoli qual era?
O meu pai por gostar muito de pescar construiu o barco para o seu lazer, o meu irmão Osvaldo também gostava muito de pesca, um grande companheiro de pescas era o Cri-Cri, um cachorro preto de pelo liso, ficava na ponta do barco, quando ele percebia qualquer movimentação de que haveria pescaria ele já se movimentava, era o primeiro a subir no barco! Uns pescadores retiravam areia usando canoa, para encher uma carroça de areia levava um dia inteiro, entre eles havia o Sebastião, Tutu, Norca, Zé Meo, Lazinho Cabeça, Araponga. Fizeram a proposta para meu pai construir um barco grande e juntos formariam uma sociedade para extração de areia do Rio Piracicaba. Meu pai concordou, fez um barco onde cabiam duas carroças de areia, cerca de mil quilos. O negócio deu certo, meu pai fez mais alguns barcos, até fazer uma draga. Meu irmão Pedro colocou motor, bomba de sucção, encanamentos, no fim conseguiu fazer a extração de areia: extraia pela draga, caia no barco e despejava no barranco. Assim nasceu a empresa, que mais tarde até guindaste teve, também construído pelo Pedro, tinha um barco grande com seis caixas, cada caixa comportava um metro de areia, o guindaste tirava a caixa cheia e esvaziava no barranco. Chegamos a ter 80 funcionários só para carregar areia de forma manual, com a pá.
Como era transportada a areia da margem do rio até o comprador?

Com carroça puxada por três burros. A nossa chácara ficava onde hoje é o SESC, meu pai tinha comprado um alqueire de terras, ali era a cocheira dos animais. Eram 15 carroças e 96 burros só para puxar areia, subiam a Rua Moraes Barros. Havia muitos carroceiros que adquiriam areia que nós extraiamos e revendiam pela cidade.


LUIZ ANTONIO DE SIQUEIRA (LUIZÃO)

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 7 de maio de 2011
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
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ENTREVISTADO: LUIZ ANTONIO DE SIQUEIRA (LUIZÃO)
Ele nadou no Rio Piracicaba, desceu pelas águas do rio desde a conhecida popularmente como Ponte do Mirante até onde mais tarde veio a ser o Bela Vista Nauti Clube, cerca de 10 quilômetros de extensão. Fazia o trajeto da volta também. Viu muita boiada passar pela Rua Luiz de Queiroz e Rua Tiradentes. Tornou-se um talentoso técnico de som e imagem, criou um sistema revolucionário de registro de sessões em Câmaras Municipais, implantadas em 89 cidades do Brasil. Luizão é um modelo do piracicabano típico em sua essência: criativo, humilde, sincero e sempre com muita boa vontade em ajudar o próximo, em qualquer circunstância. Nascido em Piracicaba em 10 de novembro de 1954, Luiz Antonio de Siqueira é filho de Benedito Luiz de Siqueira e Elza Therezinha Soave de Siqueira, ele eletricista e ela dona de casa. O casal teve os filhos: João, Luiz, Benedito, Adriana, Sérgio.

Em que bairro de Piracicaba você nasceu?

Nasci na Rua Prudente de Moraes, 314, centro de Piracicaba. Na época a boiada era conduzida pelas ruas da cidade, entre elas pela Rua Tiradentes, ou Rua Luiz de Queiroz. Eu tinha de sete a oito anos, uma parte da Rua Luiz de Queiroz era de chão de terra, outra parte já tinha sido calçada com paralelepípedo. Onde hoje é o jardim na Rua Luiz de Queiroz havia um campo de futebol, a imensa figueira que domina boa parte da praça era uma planta muito jovem. Nesse terreno por diversas vezes foram encontrados fragmentos de utensílios indígenas, resquícios deixados pelos antigos ocupantes do local. Logo abaixo a Rua do Porto era toda de terra, habitada por pessoas que viviam da pesca. Não havia o requinte que existe hoje, era um local bem simples. Meu pai e seus amigos ficavam na Rua do Porto conversando, sentados junto ao chão.

Seu avô era um celebre pescador?

Meu avô Augusto Gomes da Silva era conhecido como “Gusto Poita”. Os barcos usavam uma poita (ancora) de ferro para estacionar, ele gira em torno do seu eixo sem sair do lugar. Ele era o único pescador que usava grandes varas de metro, ficava dentro da água, com a água batendo pelo pescoço, e permanecia com o seu corpo imóvel, sem sair do local. Ao pescar o peixe ele tirava-o do anzol colocando em um saco de pano imerso na água, ao sair do rio os peixes ainda estavam vivos. Meu avô tinha uma grande habilidade nos pés, de tal forma que praticamente travava os pés sobre o leito do rio, eu ainda menino muitas vezes ficava nas águas do Rio Piracicaba agarrado ao meu avô, que não se movia do lugar.
Era comum criança nadar no Rio Piracicaba?
Nós éramos jovens e nadávamos no Rio Piracicaba, lembro-me dos companheiros, entre eles o Foca, o Dito Polenta. Nadando íamos até o Bela Vista Nauti Clube, nunca medimos a distância, mas eu imagino que seja superior a 12 quilômetros. Fazíamos isso brincando! Descíamos pelo meio das águas do rio e subíamos pelas pontas, nas pontas não existe correnteza.
Não havia medo do famoso “Poção”?

O Poço é uma lenda! O que existe de fato é o rodopio das águas que bate nas pedras. Quando diziam que as pessoas morriam naquele local, geralmente tratava-se de pessoas que não tinham conhecimento do rio. No rio ao nadar você dá duas ou três braçadas para subir uma. Quando nos cansávamos, soltávamos o corpo e íamos á beira do rio, onde permanecíamos por algum tempo. Descansávamos e depois continuávamos subindo o rio. Com o Foca nadei dos 14 anos até quando foram encerradas as atividades do Clube de Regatas de Piracicaba.

E as famosas catraias?

Esse era o nosso hobby favorito, até hoje sonho em um dia poder adquirir uma catraia! Era a paixão da minha vida. Trata-se de um barco tipo bolha, com dois remos, pedaleira fixa, o banco onde o remador senta-se também é fixo. Era fabricado no próprio Clube Regatas com madeira marítima. Tínhamos barcos para 12 remadores, 15 remadores. Colocávamos o que na intimidade chamávamos de “anão”, uma pessoa de estatura pequena que ficava na ponta do barco dando a rota de direção que deveríamos remar, uma vez que remávamos dando as costas para frente do barco. Essa é a posição para tracionar os remos de forma correta. O nosso rio não tinha pedra, tinha peixe! O nosso problema era não bater em peixe grande! Ou até mesmo um cardume! Por ser um barco de velocidade, trabalhando sob muita pressão ele tem uma guia muito grande embaixo, no casco, movimentava também a guia de cima, que chamamos de leme, tinha que conhecer o funcionamento do barco. O rio era calmo, cheio de peixe. Muitas vezes minha mãe decidia fazer um cuscuz de peixe, eu tinha uma camiseta velha, apanhava-a, descia até a Rua do Porto, em frente à Fábrica Boyes havia o escoamento da água utilizada na indústria. A água passava por uma comporta, atravessava sob o leito da rua, movimentava o mecanismo da fábrica, sem jogar óleo ou algum tipo de poluente no rio, dizia-se “- Suba a comporta mais dois graus!” e aumentava-se a velocidade das máquinas. Essa água dava a volta dentro da fábrica toda e saia em uma espécie de funil encostado onde hoje existe a ponte pênsil. Naquele local ficavam peixes do tipo “guaru”, resíduos inócuos, como pó de pano saiam ali, isso atraia pequenos peixinhos. Com a camiseta em forma de coador apanhava uma grande quantidade deles e trazia-os vivos. Em casa minha mãe preparava e adicionava ao cuscuz! Comemos por muitos anos peixes do Rio Piracicaba.

Os peixes eram abundante no Rio Piracicaba?

Muitos pescadores jogavam uma rede para pescar, pegavam grande quantidade de peixes, geralmente não eram vendidas, as pessoas ficavam no barranco com bacias, os pescadores davam os peixes. O hobby era pescar: corumbataí, pintado. O cascudo tem um tipo de um fio nas suas costas, que deve ser tirado para eliminar o gosto de terra que irá permanecer se isso não for feito. Preparávamos e comíamos peixes na barranca do Rio Piracicaba, sem problemas ou abusos contra a natureza. Era um paraíso!
Isso foi antes de ser desviada água para o Sistema Cantareira?

Exatamente. Fui nascido e criado a dois quarteirões da Rua do Porto, freqüentava o Clube de Regatas onde meu pai era sócio há muito tempo, eu tinha ao meu dispor a piscina do Regatas e o Rio Piracicaba.

Havia enchentes do Rio Piracicaba?

Tenho lembrança de muito pouca enchente. Na verdade a avenida invadiu o Rio Piracicaba! A avenida era bem mais estreita, o Rio Piracicaba sempre esteve lá! Há muitos anos o vereador Juan Sebastianes já advertia que esse rio dali a algum tempo estaria morto, porque a base do rio é a mata ciliar e ninguém estava prestando a atenção nisso. A mata protege, alimenta o ciclo de vida aquático, qualquer pessoa leiga no assunto sabe que controlar a vazão do rio a bel prazer irá trazer prejuízos enormes a vida do rio. Essa conscientização deve existir desde o simples ato de um cidadão lavar um automóvel em via pública!
Você já atravessou o Rio Piracicaba andando sobre as pedras?

Já! E posso dizer que fiz isso chorando de tristeza! Imagine que eu ia até a ponte Irmãos Rebouças, mais conhecida como Ponte do Mirante, com uma bóia feita de câmara de trator, sentava nessa bóia e descia, pelas cataratas do Mirante, a altura da água não permitia que a bóia batesse nas pedras, a força da água impulsionava a bóia, não tinha como bater nas pedras. Se você fizer uma coisa dessas hoje irá morrer cortado pelas pedras! O volume de água é muito menor. Em casa em um dos quartos havia três camas onde eu e meus irmãos Beninho e João dormíamos. Não ouvíamos ruídos de carros, ás cinco horas da manhã acordávamos com o ruído das garrafinhas de leite batendo entre si, era o leiteiro chegando e deixando á porta da casa o litro de leite da família, muitas vezes deixando até mesmo o troco em dinheiro se o valor deixado fosse maior, isso quando não era retirado um pequeno vale de papel já pré-adquirido. Quando o Rio Piracicaba estava o que chamávamos de “bravo” ouvíamos o seu barulho a noite inteira, isso na Rua Prudente de Moraes, 314, a três quadras do rio! Era a coisa mais gostosa dormir com aquele ruído. O rio que nós conhecemos em tempos de enchentes é o rio que existia antigamente. O calor era abrandado pelo ar fresco que vinha do Rio Piracicaba. Ás vezes de madrugada tinha que se cobrir! Hoje a poucos metros do mesmo local, o trafego de veículos é tão intenso que apenas no período da 1 á 5 horas da madrugada temos um pouco do silêncio existente há algumas décadas.
No Mirante há um canal de água que vai até o local onde funcionava o Engenho Central, você chegou a nadar nesse canal?

Ninguém podia nadar ali, a água passa com muita velocidade, ficava muito próximo dos equipamentos do Engenho Central, funcionava como um funil para onde a água escorria. Um pedaço de pau de uma cerca que por acaso entrasse naquele canal poderia ficar preso em suas margens, sob a água, formando uma armadilha terrível. Havia uma fiscalização intensa naquele canal, existia um senhor que fiscalizava e cultivava algumas plantas no local. Nós entravamos pelo Mirante, antes do chamado Véu da Noiva há um bico por onde sai água com pressão, descíamos por ali, chamávamos aquela pequena corredeira de água de “Xixi do Noivo”. Havia umas pedras, descíamos por detrás delas com muito cuidado, era comum usarmos chinelos do tipo “alpargatas”, com sola de corda, para não machucar o pé, como por exemplo, ao pisar em algum peixe, como o mandi. Uma ferrada de mandi é muito dolorida.

Na Rua do Porto havia muitas olarias, vocês caminhavam por lá?

Não passávamos por ali. Tínhamos o limite do rio, conhecíamos os lugares perigosos do rio. Andávamos pela Rua do Porto até um determinado limite, não caminhávamos na direção dessas olarias que ficavam mais distantes. Meu pai determinava até que local podíamos ir, e ninguém mais se interessava pelo que tinha além. A nossa visão concentrava-se na Rua Prudente de Morais, Rio Piracicaba e Clube Regatas. Não tínhamos curiosidade de caminhar pelas margens, queríamos nadar no rio. O barranco do rio era todo formado por ranchos de pescadores. Onde hoje existe o bairro Nova Piracicaba era formada por área cultivada, pasto ou mato.

Como era um rancho típico de beira de rio?

Era um local onde as pessoas iam pescar, geralmente mantinham um bote no local, tinham seu fogão de lenha, uma casa muito rústica, poço de água, pescavam, preparavam o peixe, tomavam uma pinguinha, batiam papo com os amigos, davam-se boas risadas, os assuntos eram apenas coisas boas, depois ia cada um para a sua casa. Cada rancho tinha um dono, o que eu freqüentava era de propriedade do Seu Carlito. Ele morava na Rua Prudente de Moraes, 312, trabalhava no conserto de radiadores de automóveis. O hobby dele era o rancho, com seu Fordinho 1929 me levava com seus filhos, íamos até o rancho com esse carrinho, descíamos pela Rua Vergueiro, seguíamos pela Estrada do Bongue, passando ao lado das pedreiras existentes ali. Lembro-me bem do “Morro Tira Saia”, isso porque o Fordinho não tinha força para subir ao chegar lá, descíamos, ajudávamos a empurrar o pequeno veículo, assim que atingia o alto do morro subíamos e continuávamos o passeio, isso acontecia principalmente se tivesse havido chuva.

Como era a relação das crianças com os adultos?

Os adultos eram muito reservados, a conversa de pescador era entre eles, se meu pai estivesse em uma roda de adultos conversando nós não nos aproximávamos. Era assunto de adulto, assim como existia assunto só entre as mulheres.

Você pulava do famoso trampolim existente ao lado do Clube Regatas?

Saltei inúmeras vezes! Era um trampolim com duas pranchas, alto, tinha que saber pular, porque o rio não era tão fundo, quando caia na água tinha que saber virar o corpo para deslizar na água. O pessoal dizia que onde era chamado de “Poço” o rio tinha seis metros de profundidade, a profundidade do rio mais adiante gira em torno de três a quatro metros. Sob as suas águas não se enxerga nada. Nadávamos com a cabeça fora da água, olhando para frente.

Luiz, você exerceu diversas atividades profissionais, mas uma área sempre o atraiu?

Sou apaixonado por som e imagem. Trabalhei com Xilmar Ulisses em seu programa “Gosto não se discute” na Rádio Educadora, meu tio Sérgio José era técnico da Rádio Educadora, foi lá que aprendi a trabalhar com equipamento de som. Mais tarde fui convidado pelo Xilmar Ulisses e pelo Jamil Neto para trabalhar na parte técnica da Rádio FM Municipal, na época funcionava junto ao Semae, em frente ao Cemitério da Saudade. Às seis horas da manhã eu abria a rádio, tocava o Hino Nacional, o bispo Dom Eduardo Koaik fazia a oração e eu permanecia trabalhando na parte técnica até a uma hora da tarde. De lá eu saia e ia trabalhar no Focus Studio, do Fredinho Kraide, situado no ultimo andar do prédio Planalsucar na Rua Treze de Maio esquina com a Rua Santo Antonio. Eu trabalhava na parte técnica, fazia edição e filmagem, época da chamada “edição seca”. Usávamos equipamentos próprios de televisão, o Fred era um profissional muito exigente, trabalhava com uma máquina fotográfica Hasselblad, era um dos melhores estúdios da região. Fazíamos todos os trabalhos com som e imagem, na época já produziamos “book” em estúdio, a lendária modelo “Lu Borelli” foi uma das fotografadas pelo Focus Studio.

Na sua trajetória profissional surgiu o seu trabalho na Câmara Municipal, com a sua criação da Ata Eletrônica, implantada em muitas cidades do Brasil?

Fui convidado pelo vereador Bonassi para trabalhar com a implantação do sistema de imagem na Câmara Municipal, até então as atas era todas manuscritas. Com dois aparelhos de televisão Philco Hitachi desenvolvi o projeto, criei a TV Câmara e a Ata Eletrônica, criei o Arquivo Vivo da Câmara Municipal, Não existia nada disso. Uma ata normal era escrita em setenta folhas, ela passou a ser resumida em horários e datas e referências curtas. Isso revolucionou o registro dos trabalhos na Câmara Municipal. Outras câmaras foram conhecendo e se interessando.

Você instalou esse sistema pioneiro de Piracicaba em quantas localidades?

Instalei até hoje em 89 câmaras municipais do Brasil todo. Esta na WWW.ataeletronica.com.br as referencias com relação a esse trabalho. Em todas as câmaras desenvolvi o projeto, implantei, dei treinamento e autonomia para que essas instituições prosseguissem com seus próprios recursos.

Com isso você viajou muito pelo país?

Cheguei a viajar de 3 a 4 mil quilômetros por semana. Para se ter uma idéia, implantei a Ata Eletrônica até em Manaus!


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