Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, dezembro 30, 2012

MÁRIO (MARITO) ANTONIO CAVICCHIOLI

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 29 de dezembro de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/

ENTREVISTADO: MÁRIO (MARITO) ANTONIO CAVICCHIOLI
Mário Antonio Cavicchioli nasceu a 18 de agosto de 1949 em Mombuca, é filho de Mário Maria Cavicchioli e Isabel Gomes de Andrade Cavicchioli, que tiveram ainda uma filha: Ana Maria Cavicchioli. Iniciou o curso primário em Mombuca. Quando tinha nove anos seus pais mudaram-se para Rio das Pedras, Mário completou seu estudo no Grupo Escolar Barão de Serra Negra e mais tarde fez o ginásio na E E Prof. Manoel da Costa Neves, conhecida por Macone. O científico estudou em Piracicaba no Instituto de Educação "Sud Mennucci". Estudou Letras na Unimep, especializando-se em Literatura Portuguesa e Inglesa.


Nesse período em que você estudava, também trabalhava?


Essa história de que menor de idade não pode trabalhar é pura conversa. Trabalho desde nove anos de idade. Meu primo era tintureiro em Rio das Pedras, eu passava pelas ruas recolhendo as roupas para ele lavar, principalmente ternos. O horário escolar era sagrado, estudava à tarde e pela manhã trabalhava, saia com um saco branco, esses de farinha de trigo, voltava cheio de ternos para meu primo Dengo Salmazi lavar. Meu pai era funcionário da prefeitura municipal de Rio das Pedras. Ele veio de Mombuca com o intuito de tomar conta da banda de Rio das Pedras, a convite do prefeito Álvaro Biancchin. A família Cavicchioli é constituída por muitos músicos. Por 26 anos meu pai foi maestro da Corporação Musical Santa Cecília, em Rio das Pedras, o maestro anterior era o Zico Gaiola.


Quando eram feitos os ensaios da banda?


Durante o dia meu pai trabalhava na prefeitura e a noite era feitos os ensaios, os primeiros ensaios foram fetos na nossa casa.


Após trabalhar na tinturaria qual foi seu próximo emprego?


As doze anos passei a trabalhar na farmácia do Mário Gobatto e da Dona Lúcia localizada na Rua Prudente de Moraes, onde permaneci por uns cinco ou seis anos. Fazia de tudo: limpeza aplicava injeção. Naquele tempo não havia pronto socorro na cidade, vinham pessoas que trabalhavam na roça com cortes produzidos por “folhão” de cortar cana. O Mário Gobatto é quem fazia as suturas, muitas vezes o Gorga, único médico existente na cidade estava ausente. Eu ajudava. Eu fazia aplicações de injeções em domicílio para pessoas idosas ou que não podiam ir até a farmácia. Com 18 anos ingressei como contínuo no Unibanco, situado no imóvel onde hoje funciona a “Farmácia do Pio”. Nessa época comecei a fazer faculdade na parte da manhã, voltava ao meio dia, trabalhava no Unibanco, quando estava fazendo o segundo ano de faculdade por um período lecionei inglês na Escola de Contabilidade Domingos Justolin, em Rio das Pedras. Ao concluir a faculdade fui para Londres, fazer um curso de especialização em inglês, eu tinha 24 anos, já tinha saído do banco.


De quanto tempo foi a sua permanência em Londres?


Fiz um curo por três meses, voltei a Rio das Pedras quando Antonio Airton Zepelini foi eleito prefeito. Por um ano trabalhei com ele. Essas palmeiras que existem na entrada da cidade foram plantadas quando Rio das Pedras comemorou 80 anos como município. Fui o mentor da idéia, foram plantadas 80 palmeiras, cada uma representando um ano da cidade. Fui ao Dierberger em Limeira, com o caminhão da prefeitura, comprei as mudas e inclusive ajudei a plantá-las. Meu próximo emprego foi na Indústria Romi, em Santa Bárbara D`Oeste, como conhecia a lingua inglesa trabalhei no departamento de importação e exportação da Romi. Fui indicado pelo Antonio Carlos Angolini, que já era funcionário da empresa. O gerente era Aderbal Martins, com laços famíliares em Rio das Pedras, Mombuca. Após um ano, mudei-me para São paulo, ingressei na aviação.


Em qual empresa aérea foi o seu primeiro emprego?


Fui trabalhar do departamento de reservas da Varig onde permaneci trbalhando por seis anos. Em 1976 eu já trabalhava com computador, eram equipamentos enormes, a CPU era do tamanho de uma geladeira, produzidos pela IBM. Eu queria cursar a faculdade de arquitetura, cheguei a fazer cursinho preparatório, mas não consegui ingressar em uma faculdade pública. Fiz só o curso de projeto de arquitetura. Tenho o diploma de arquiteto projetista. O primeiro lugar que morei em São Paulo foi próximo ao Viaduto Maria Paula, ali morava um pessoal de Rio das Pedras, após seis meses fui morar em um apartamento no Paraíso, na Praça Oswaldo Cruz, one morei por nove anos, nessa época minha irmã lecionava e morávamos juntos. Depois mudei-me para a Rua Bela Cintra onde até hoje mantenho meu apartamento. Permaneci em São Paulo por mais de trinta anos.


Você trabalhou em outras companhias de aviação?


Fui trabalhar na Royal Air Maroc, transferi meu período de trabalho na Varig para a noite. Das nove da manhã até as seis da tarde trabalhava na Royal Air Maroc, das sete da noite até a uma hora da manhã trabalhava na Varig. Após uns quatro ou cinco anos a Air Maroc encerrou suas atividades no Brasil, seu escritório ficava no Edifício Itália, fui um súdito do Rei Hassan, meu patrão era o rei, dono da Royal Air Maroc.Naquele tempo as comunicações eram por telex, as mensagens vinham com a assinatura do rei do Marrocos.


Com o encerramento das atividades da Air Maroc, qual foi seu próximo emprego?


Ingressei na Ladeco – Linea Aerea del Cobre, chilena, onde trabalhei por nove anos. A Royal Maroc voltou, me chamaram, trabalhei mais um tempo, a companhia fechou novamente. Fui trabalhar na Canadian Airlines, após algum tempo ela foi vendida para a Air Canada onde me aposentei em 2005.


Por ser funcionário da empresa você tinha alguns privilégios para viajar?


Eu tinha muitas facilidades. Para mim era mais barato passar um fim de semana em Nova Iorque do que vir para Rio das Pedras. Não pagava taxa de embarque, transito para o aeroporto tinha de graça, eu tinha um amigo que morava em Nova Iorque, ele ia me buscar no aeroporto e eu me hospedava na casa dele. Em um ano chegei a ir 14 vezes só para Nova Iorque. Conheci muitos países. Para o Chile fui muitas vezes pelo fato de trabalhar em uma companhia chilena. O fato de ter viajado muito, para os mais diveros países, proporcionpu-me conhecimentos para hoje ser Guia Acompanhante de Viagens Internacionais, dou assessoria aos grupos de passageiros que viajam para o exterior.


Há pessoas que resistem em viajar em grupo por imaginarem que estarão presas a uma programação, sem liberdade individual?


A agência com a qual trabalho, a Século XXI, só para Europa tem mais de 600 programações. O passageiro tem a liberdade de fazer o que quizer. A parte terrestre é feita por onibus, basta o passageiro comparecer no local e hora combinados. Ha passageiros que viajam só para fazer compras, adquire o que deseja para seu próprio uso. Muitos deixam de ver locais históricos, artísticos, como Louvre, Palácio de Versailles, Vaticano, para se dedicarem a compras.


A denominada “Nova Classe Média” está viajando mais?


Pura verdade! As viagens estão muito facilitadas, o preço da passagem de avião, os pacotes turísticos estão muito mais em conta do que ha 10 anos. É mais barato ficar 12 dias na Europa do que uma semana no nordeste brasileiro.


O brasileiro comete gafes em viagens internacionais?


Já vi muita coisa. Aqui mesmo no Brasil, povos de outras origens comentem gafes. Certa vez, eu trabalhava na Royal Maroc, tinha ao lado um colega de trabalho, o Tuzzi, o passageiro chegou com a mala, deu-me o passaporte, precisava pesar a mala na balança ao lado, eu disse-lhe: “- Por favor, primeiro na balança.” Ao invés de só pesar a mala ele subiu na balança com a mala. Era comum o passageiro despachar a mala com o passaporte dentro, na hora do check-in necessita-se do passaporte.


Qual é o seu conselho para quem tem medo de voar?


Basta pensar quantos aviões decolam por segundo no mundo e quantos acidentes aéreos acontecem. É o meio de transporte mais seguro. Em 1998 somei a quantidade de horas que já tinha voado, eram mais de 500 horas.


Há uma ocidentaliação do mundo?


Creio que sim. A interação das civilizações é intensa pela internet, pelas pessoas que viajam, que migram. Há países que ainda são radicais em manter sua cultura. Acredito que a a maioria dos países tem muitas coisas em comum. Em muitos países há mulheres jovens uzando calças compridas, roupas de grife, mesmo em países de cultura mais fechada. Jeans, tenis e camiseta são utilizados em muitos países. O povo europeu tem um certo requinte para se vestir, particularmente o italiano. Motorista de onibus na Itália trabalha com paletó e gravata, parece um executivo. No Canada, a temperatura sendo de 15 graus centigrados é considerada quente, andam de bermudas, inclusive os policiais.


Com relação a alimentação, há complicações?


Os hoteis para os quais levo os turistas, já tem uma estrutura para receber turistas do mundo inteiro, inclusive brasileiros. Só não irão encontrar arroz e feijão. Alguns reclamam que em Paris não tem papaya no café da manhã, é a mesma coisa que ir à Bahia e querer comer damasco no café da manhã. Outros reclamam que o pão europeu é seco. É o pão da Europa. Inclusive existe churrascarias brasileiras na Europa. Em Portugal existe a churrascaria Fogo de Chão.


O Can-Can é mesmo fascinante?


A única casa que mostra o Can-Can é o Moulin Rouge. É uma casa de show enorme com apresentações inesquecíveis. É um espetáculo maravilhoso.


Mário, além dessa atividade em turismo, você é artista plástico.


A arte é um costume em nossa família, quando ainda morávamos em Mombuca, tinhamos olaria, o meu tio Antonio Otávio Cavicchioli, conhecido como Neca, sempre foi um artista, trabalhava com argila, barro, fazia potes, figuras humanas, aninais. Fui aprendendo com ele a técnica, o dom pela arte. Outrs familiares dedicavam-se a musica. Fomos acumulando. Meu pai achava as vezes uma pedra na estrada dizia: “´Olha que bonita essa pedra! Põe lá para enfeitar!”Ou trazia uma planta, uma coisa diferente isso foi criando nosso ambiente. Os alemães dão muito valor para os detalhes em uma decoração natural, ele pega um galho torto, enfeita, coloca na casa, fica bonito, Fui adaptando isso na minha casa. Os lampiões que tenho aqui, comecei trazendo um , outro, depois alguns amigos sabendo que eu gostava me davam de presente, uma amiga, Eliana, que também é artista plástica assim como o seu marido, outro dia me trouxe uns 10 ou 12 lampiões. Todo Natal ponho velas em todos eles e acendo para Jesus.


Como surgiu o presépio que você montou em Santa Bárbara D`Oeste?


Foi fruto de uma oficina de arte que realizo, As primeiras vezes que eu fiz foi em São Paulo, na Fundação Bradesco, na Cidade de Deus. Foi meio por acaso, eu estava acompanhando a palestra de um amigo, quando a pessoa responsável pelo departamento de cultura estava desesperada, procurando alguém para fazer uma oficina de arte para o natal. Apontado pelo meu amigo, mostrei meu curriculo, o que poderia fazer. Por dois anos seguidos fiz essa oficina de arte na Fundação Bradesco. No primeiro ano fizemos uma árvore de natal com cinco metros de altura só com material reciclado, com lixo. A TV Futura foi lá para mostrar o processo de transformação. Isso foi em 2006. Através do Antonio Angolini a Fundação Romi ficou sabendo do meu trabalho. Fiz em Santa Babara o mesmo proceso de trabalhar com material descartado. Neste ano me chamaram e eu propus o presépio. A gruta do presépio é feita de papelão. O Menino Jesus é uma boneca, adquirida em um brechó, transformei, fiz a caracterização, algumas pessoas ajudaram na pré-montagem, a parte artística eu elaborei. O presépio é em tamanho natural, está instalado no espaço onde era o saguão da bilheteria da estação de trem em Santa Bárbara D`Oeste, deve ter entre 40 a 50 metros quadrados. estará em exposição até dia 6 de janeiro de 2013. Fica em frente a Romi, onde foi a antiga Estação da Companhia Paulista de Estrada de Ferro. O presépio pode ser visitado a qualquer hora do dia ou da noite, sete dias por semana, é um espaço público, aberto.











O sentimento de Natal está muito distorcido, celebrando mais Papai Noel do que o nascimento do Menino Jesus?


Infelizmente! Virou comércio. Antigamente colocava-se anjinho dependurado na árvore de natal, hoje colocam até bruxinhas. É uma forma de disvirtuar a essência. Comemorar o natal sem lembrar-se do Menino Jesus é comemorar um aniversário sem lembrar-se do aniversariante. Fazer um bolo, colocar a velinha, cantar o parabéns e não lembrar-se do aniversariante. É uma data instituida pelo cristianismo para celebrar o nascimento de Jesus. Fizeram do Papai Noel o maior vendedor do mundo, a origem, Santa Claus tinha outra finalidade. O correspondente ao Papai Noel italiano é uma bruxa, chamada Befana. A festa maior na Itália é dia 6 de janeiro. O Natal é comemorado dia 25, mas a grande festa com entrega de presentes é no Dia de Reis. Eles dizem às crianças: “ -Se você for bonzinho, no Dia de Reis a Befana vem entregar presente para você! Se for uma criança má, a Befana vem fazer caretas e puxar a sua perna.”














sexta-feira, dezembro 14, 2012

CECÍLIO ELIAS NETTO

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 15 de dezembro de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/



ENTREVISTADO: CECÍLIO ELIAS NETTO


Adorado por muitos e questionado por alguns, ninguém fica indiferente aos brilhantes textos de Cecílio Elias Neto, advogado, bacharel em filosofia, escritor, jornalista e historiador na acepção da palavra. Cecílio vivenciou a história de Piracicaba por décadas. Em muitas ocasiões conviveu com os personagens centrais da história recente da nossa cidade, sendo ele algumas vezes o próprio protagonista. Seus pais Tuffi Elias e Amélia Abrahão Elias, piracicabanos, filhos de sírios-libaneses, com ascendentes gregos e turcos, tiveram nove filhos sendo que dois faleceram antes do nascimento de Cecílio Elias Netto em Piracicaba a 24 de junho de 1940.
Em que local da cidade o senhor nasceu?
Costumo dizer que nasci bem no umbigo de Piracicaba, na esquina da catedral, ali onde mais tarde por alguns anos funcionou a lanchonete Daytona. A edificação foi demolida e hoje no local se abriga o Banco Santander Nessa esquina meu pai tinha o Café Imperial. Meu tio Elias Cecílio era dentista formado pela antiga Faculdade de Odontologia e Farmácia de Piracicaba. Meu pai já estava cursando essa faculdade, enquanto estudava trabalhava como marceneiro e carpinteiro, nessa atividade ele perdeu um dedo em uma serra, com isso o futuro dentista encerrou seus estudos e passou a ser comerciante, foi proprietário do Café Imperial durante a guerra, até 1945. Depois eles se mudaram para a Rua São José, quase em frente ao Cine Broadway, onde ele criou a Tufiniquim. Ali também se iniciou uma tragédia que abateu sobre a nossa família, foi quando a minha irmãzinha, Carolina, de apenas dois anos, faleceu atropelada por um caminhão. Meu pai tinha ido até a prefeitura que ficava na esquina da Rua Alferes José Caetano com a Rua São José, ninguém percebeu que a pequena Carolina, muito apegada a ele o seguiu, ao atravessar a rua o caminhão a atropelou. Com a gritaria toda, meu pai correu para ver o que estava acontecendo e viu sua filha embaixo do caminhão. Foi um fato que mudou o curso da vida da nossa família. Nessa época eu tinha seis anos. Meus pais ficaram acamados de quatro a seis meses, em profunda depressão. Minha irmã Marlene tinha 16 anos, começou a lecionar piano, devemos a ela a nossa manutenção. Jorge Maluf, pai da Ivone Maluf, tinha um armazém em frente ao Broadway, ele necessitava de caixas de papelão, garrafas vazias. Para ajudar a minha irmã, eu com apenas seis anos, batia de porta em porta, junto aos vizinhos, recolhendo esse material e levava ao Jorge Maluf. Com 10 anos fui trabalhar como recepcionista do consultório médico do meu primo Alarico Coury.
Porque alguns o chamavam de Toninho?
Quando nasci a alegria da família foi muito grande. Fui batizado no mesmo dia, um domingo, deram-me o nome de Antonio João Pedro. Até hoje consta no batistério da igreja católica, assim como consta Cecílio Elias Netto, que já adulto mandei acrescentar, esse sempre foi o meu nome no registro civil. Descobri que me chamava Cecílio quando tinha 10 anos. Iniciei meus estudos no Externato São José, foi lá que conheci um grande amigo, Jayme Antonio Cardoso, hoje morando em Curitiba. Quando entrei no curso primário já estava praticamente alfabetizado, meus pais e irmãos gostavam muito de ler. Minha turma foi a última masculina do Externato São José. Foi quando veio o Colégio Dom Bosco, as meninas foram para o Colégio Assunção, os meninos para o Dom Bosco. O último semestre conclui no Moraes Barros.
Lembra-se da sua primeira professora?
Lembro-me, foi Romilda Casali, por quem eu tinha grande admiração. Ela morava perto de casa, eu apanhava flor para levar até a sua mesa. Quando lancei um livro, apareceu uma moça dando-me uma maçã e dizendo: “Minha mãe mandou-me entregar essa maçã, ela disse que o senhor irá lembra-se dela”. Na hora me lembrei: ”- Dona Romilda!”. Todos os dias ela me dava uma maçã, tinha conhecimento de que a minha família passava por dificuldades até para se alimentar. Voltávamos juntos do externato, fazíamos o mesmo caminho, Ela deveria ter uns dezoito anos. No Colégio Dom Bosco conclui o ginásio e o científico. Sempre tive prazer em estudar. Talvez para ajudar a minha família, alguns professores me indicavam ás mães dos meus coleguinhas, para que eu os acompanhasse nas tarefas de casa. Aos doze anos comecei a fazer reforço de aulas para os meus colegas. Aos dezesseis anos já dava aulas particulares. Meu grande sonho era de ser diplomata para ser escritor.
Quando se deu o ingresso no jornal?

Desde criança tive paixão por escrever. Recordo-me que com sete ou oito anos ia ao Cine São José, levava um caderninho, sentava na primeira fila de cadeiras, anotava as rimas dos filmes musicais. Anotava: “Coração rimando com paixão, querida-vida.” O professor Leandro Guerrini me ajudava muito na biblioteca indicando livros. Minha paixão era escrever. Aos quinze anos escrevi meu primeiro livro, “Estela Estrela”, tenho o original até hoje. Naquela época o jornalismo era a grande escola literária. Ao ser aceito em um jornal era como ganhar um prêmio. Meus professores começaram a mandar meus artigos e composições de escola para os jornais. Com 13 a 14 anos já tinha publicações minhas em jornal. Uma vez João Chiarini me levou até o Dr. Losso, dizendo: “Esse menino quer trabalhar em jornal, o pai dele não quer.”
Porque seu pai não queria que seguisse a carreira de jornalismo?
Ele achava que era coisa de boêmio, era uma profissão estigmatizada. Meus pais tinham o sonho de que eu fizesse o curso de medicina. Entrei no Jornal de Piracicaba como “ouvinte”, na verdade era falante, lia os textos para o revisor que era Samuel Pfromm Netto; Comecei no jornalismo como auxiliar de revisão no Jornal de Piracicaba. “O Diário” realizou um concurso tendo como tema seu aniversário. Resolvi participar. Gostava de escrever de madrugada, no último dia timidamente entreguei meu trabalho. Sempre fui tímido. Recebi um telefonema, tinha sido vencedor do concurso. Eufórico, fiquei sabendo que Leandro Guerrini, Guilherme Vitti e eu tínhamos sido os vencedores. Dr. Losso era um dos juízes, quando fui receber a premiação ele disse aos meus pais: “Por justiça o prêmio era dele, mas não podíamos deixar de premiar os ilustres Leandro e Guilherme”.fiquei entre lisonjeado e indignado. Aquilo me animou muito, fui falar com o Sebastião Ferraz, de “O Diário”: “-Quero começar, posso vir aqui? O Ferraz chamou Izidoro Polacow que além de trabalhar no Banco do Brasil era redator-chefe de “O Diário”. Ele usava gravatinha borboleta, tinha uma figura imponente. Era muito competente. O Ferraz disse-lhe: “Esse menino quer aprender jornalismo, está em suas mãos”. Fui conduzido até uma mesa onde estavam diversos jornais como a Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Diário de São Paulo, Folha da Manhã, Diário da Noite. Aquela altura me sentia um David Nasser. O Polacow traz uma tesoura dizendo: “- Agora você lê os jornais e recorte a notícia que achar interessante. ”Disse-me ainda: “ Quem não sabe ler jornal não sabe fazer jornal”. Fiquei louco da vida, tinha me tornado “recorter”!
Existiam alguns temas preferenciais?
Eu tinha curiosidade por tudo: futebol, esporte, política. Getúlio Vargas tinha falecido. Comecei a me interessar por política naquela época, em 1954. O Polacow selecionava as notícias que eu recortava. Fiz isso por uma semana. A seguir me colocaram como ouvinte do Osvaldo de Andrade, o maior revisor que conheci. Após algum tempo me passaram para a seção de polícia, eu ia até o plantão policial, o delegado era Dr. Zenon. Na verdade ia buscar o B.O. e entregava ao redator. Um dia o Ferraz me pediu para escrever um artigo em comemoração ao aniversário de Edson Rontani. Embora já tivesse artigos publicados, esse foi o primeiro a pedido do diretor do jornal. Passei a redigir artigos. Houve um escândalo em Piracicaba, envolvendo menores com pessoas influentes. Escrevi um artigo, contei o fato sem citar nomes, o título eu me inspirei em Shakespeare: “Tempestade em Uma Noite de Verão”. Foi um grande escândalo na cidade, todo o mundo sabia, mas ninguém falava. Animei-me e escrevi outro, esse passou pela mão do Ferraz antes de ser publicado. Ele então me disse: “- Quando você quiser escrever o que bem entender tenha o seu próprio jornal, aqui quem manda sou eu”. Isso tinha acontecido com David Nasser, ele foi reclamar com Chateaubriand que tinha sido censurado e recebeu a mesma resposta. Ali comecei a aprender que a censura começa dentro do jornal. Coloquei como objetivo ter meu próprio jornal. Nessa época eu namorava a Mariana, mãe dos meus filhos. A irmã dela. A Odila, era casada com Wilson Guidotti, filho do Luciano Guidotti. Com os comendadores da cidade, Luciano inventou a criação de um jornal. “A Folha de Piracicaba”. Eles me convidaram para ir para “A Folha” ajudar a montar a equipe, viria um diretor novo. Diziam como se fosse um jornal com o que havia de extraordinário, moderno. Eu estava muito comprometido com “O Diário” e muito comprometido com o Ferraz, que se tornou um grande amigo. Eu era o filho que o Ferraz não teve. Eu disse ao Ferraz: “Vou me casar, estou noivo, fui convidado para ir para “A Folha”, vou dizer à família da moça que não vou trabalhar no jornal ligado a eles?”.
O salário em “O Diário” era compensador?
Ganhava mixaria. Trabalhei por dois anos em “O Diário” sem ganhar nada. Era um favor que os jornais faziam em deixar alguém entrar na redação. Como se fosse o Liceu de Artes e Ofícios. Você ia aprender uma profissão. Não havia a profissão de jornalista. Todo o mundo tinha outra atividade. Eu dava aulas particulares, criei um cursinho.
Como foi seu ingresso na faculdade?
Permaneci por um ano em São Paulo fazendo cursinho, no “Cursinho Nove de Julho” para prestar vestibular em medicina. Não freqüentava muito as aulas, minha paixão era a literatura, eu não saia da biblioteca, ficava no “Estadão” onde via Thales de Andrade, conversava com pessoas que eram amigos do meu pai. Nessa época comecei a escrever meu primeiro romance: “Um Eunuco para Ester” Pensava que não tinha sentido estudar medicina. Nesse período comecei a estudar línguas. Vim à Piracicaba de onde saí para prestar vestibular de medicina. Sai de casa, meus pais rezando o terço, pedindo em meu favor. Na viagem de Piracicaba à São Paulo, comecei a sentir uma angústia, onde é a Bosch, em Campinas, havia um posto de gasolina o ônibus fazia uma parada. Decidi fazer o curso de direito. Tirei a mala do ônibus, esperei uma carona, fui direto para a Faculdade de Direito da PUC. Os exames já estavam marcados, o prazo para inscrição já tinha sido encerrados. Naquele tempo cada faculdade fazia o seu vestibular. O vestibular seria no dia seguinte. Acomodei-me como pude em uma pensão. Fiz o vestibular, com provas escritas e orais. A Ivone Matiazzo era uma amiga da família que estava fazendo também o vestibular. Eu pedi que não contasse â minha família que estava prestando vestibular para o curso de direito. Em determinado dia, estava prestando exame oral de latim, vi a Ivone pela janela, desesperada, fazendo sinais com a mão. Sai exausto do exame oral, a Ivone me deu a notícia: “Seu pai e sua mãe estão ai na porta!”. Meu pai tinha ido fazer um exame médico em Campinas, encontrou-se com meu tio, pai de João Hermann Netto. O meu tio tinha me visto entrar na faculdade, eu não o vi. O meu nome na família era Toninho. Ao ver meu pai ele disse-lhe: “ Então o Toninho está fazendo direito aqui, que bom !” . Meu pai disse-lhe: “Não! Ele está em São Paulo fazendo vestibular para medicina!”.Na hora em que sai da sala e vi os dois, vi que meu pai estava branco, lívido. Ele disse-me: “Prefiro um filho sapateiro a um filho advogado!” Disse-lhe que a partir daquele dia iria dispensar a ajuda financeira que recebia dele. E fiz o curso. Ele já tinha tentado me boicotar em jornalismo, tinha pedido ao Ferraz para me dizer que eu não tinha vocação. Em 1959 entrei na PUC em Campinas, viajava todos os dias.
A formatura foi em Campinas?

A minha turma foi expulsa da PUC por causa do “Partidão”. Fui filiado ao Partido Comunista, o Monsenhor Salim, nos chamou e disse: “- Os senhores estão convidados a se retirarem da universidade”. Estava cursando o quarto ano. Não havia transferências de faculdades na época, conseguimos em São José dos Campos e Bauru. Optei por Bauru. ”O Diário” queria que eu voltasse, remunerando-me mais. Foi quando em 1961 surgiu “A Folha”. Falei com o Ferraz, que na sua previsão achava que “A Folha” não daria certo, mas como envolvia família ele disse-me que poderia voltar ao “O Diário” quando quisesse. Fui para “A Folha”. Vi que não havia organização, as máquinas adquiridas eram impróprias para um jornal. O diretor era de Leme, nunca tinha dirigido um jornal. Para se ter uma idéia as páginas eram impressas uma a uma. “O Diário” já era rotoplana. O Luciano queria o título em vermelho. Tinham que primeiro imprimir em vermelho o título, deixava secar, limpava a máquina. Começava a imprimir as quatro horas da tarde e terminava as sete horas da manhã. O diretor, Valdemar Arruda, foi mandado embora. O Luiz Tomazzi, grande jornalista de Piracicaba, que trabalhou na Folha de São Paulo, no jornal Ultima Hora, era um consultor dos comendadores proprietários de “A Folha”: Humberto D`Abronzzo, Romano, Luciano Guidotti, João Guidotti, Ometto, eram 33 acionistas. Era para ter sido o melhor jornal, só que os equipamentos adquiridos eram ineficientes.
Qual era o objetivo desse grupo em ter um jornal?
O Dr. Losso e o Ferraz romperam com o Luciano, no último ano do mandato dele, isso em 1955, o Luciano tinha indicado o Aldrovandi para ser seu sucessor. O Aldrovandi era metodista, Dom Ernesto não admitia que Piracicaba tivesse um prefeito protestante. Começou uma guerra na cidade, foi quando Salgot candidatou-se com apoio da igreja, do Dr. Losso e de “O Diário”. O Aldrovandi renunciou. O Luciano achou que o empresariado deveria montar um jornal. Contrataram o Valdemar Arruda que foi infeliz na aquisição dos equipamentos. Eles pagariam o necessário para ter o melhor equipamento possível. Eu tinha 20 anos, fiquei cuidando da redação a espera do novo diretor. Telefonaram-me chamando para ir até a agencia do Guidotti, ao chegar deparei com todos os proprietários de “A Folha”. O Thomazzi disse-me que iria apresentar o novo diretor. Era eu. Ele disse-me que me havia indicado por me achar preparado para dirigir o jornal. Aceitei. “A Folha” situava-se na Rua Regente Feijó esquina com a Rua Benjamin Constant. Eu, em um partido comunista e dirigindo o jornal dos comendadores. Fiquei com “A Folha” até 1967, acabei me tornando proprietário dela. Ela estava deficitária, fizeram-me a proposta para que eu assumisse o prejuízo ou os lucros. Montei uma equipe escolhida por mim, fizemos um tremendo trabalho, em seis meses conseguimos levantar a empresa. “A Folha” chegou a tirar 3.500 exemplares, naquela época era uma tiragem muito significativa. O Gustavo Alvim escreveu um livro sobre “A Folha”, ela foi o jornal mais revolucionário de Piracicaba, de 1961 a 1967. Fui processado pela Lei de Segurança Nacional. Era o único jornal de oposição. Ganhei do Dr. Cera como presente de casamento, 100 ações da Folha. Quando a coisa começou a ferver o D`Abronzo deu-me as suas ações de presente. O Luciano, antes de tomar posse quis me dar suas ações, eu não aceitei. Disse ao Wilson, que não podia aceitar. Se o seu pai quisesse me dar um litro de whisky ou uma gravata eu aceitaria. Se eu aceitasse as ações do prefeito eleito, Luciano Guidotti, eu estaria comprometido. Eu não tenho nenhuma vocação para administração. Quem entrou em crise foi “O Diário”, eu nunca perdi o vinculo com o Ferraz. Fechei a Folha, as máquinas estavam sucateadas. Com Sebastião Ferraz, Lazaro Pinto Sampaio e Domingos Aldrovandi adquirimos as ações dos antigos proprietários de “O Diário”. Eu cuidaria da redação, o Ferraz da administração, o Lázaro da parte financeira e o Aldrovandi era nosso relações públicas, ele era deputado. Fizemos uma revolução em “O Diário”. Após dois ou três meses só se falava em “O Diário”. Fizemos uma reforma gráfica completa. Regionalizamos, não era mais “O Diário de Piracicaba”, mas sim “O Diário”. Levei minha equipe de redatores, uma equipe muito boa, o Geraldo Nunes estava lá. Um sábado fui chamado pelo Ferraz para ir ao “O Diário”, ao chegar, encontrei-o de chapéu de palha, sapato de camurça, todo esportivo. Entrei, ele estava com uma chave na mão. Disse-me: “Toma, é a minha chave”. Perguntei-lhe o que tinha acontecido. Ele estava saindo da cidade, arrebatado por uma paixão alucinada. Jogou tudo para o ar. Todo o esquema montado para a empresa foi desmontado. A administração passou para mim que não entendo nada a respeito. Diante da confusão formada o Lázaro decidiu desligar-se do jornal. Ficamos eu e o Aldrovandi. Passei a cuidar da redação, da parte financeira, comercial e administrativa. Isso foi em 1970. Fomos vencendo, Decidi comprar o off-set, o primeiro do Estado de São Paulo. Fomos os primeiros a comprar e o segundo a instalar, Bauru comprou a vista, instalaram umas duas semanas antes do que nós. Nenhum dos grandes jornais tinha off-set. Lembro-me que estava com financiamento de 150 mil dólares, o Delfin Neto entrou e fez a maxidesvalorização, dormi devendo 150 mil dólares acordei devendo 300 mil dólares. Passava o pente no cabelo, caia cabelo. Lutamos muito e fomos conseguindo vencer. Meu pai adoeceu, se afastou da sua empresa, assumi as pendências da Comercial Tuffi Elias. Fui agüentando até que veio a minha prisão. Os processos não paravam. Tinha tido diversas detenções. A minha primeira condenação foi de um ano e nove meses, a segunda foi de seis ou sete meses.
Essas prisões eram fundamentas em que?

Na Lei de Imprensa. Fiquei com prisão domiciliar. Na cadeia fiquei em Campinas, no exército.
Sua postura de independência jornalística teve um custo muito alto?

Foi sempre muito alto e a vida toda. Tem uma frase de Millor Fernandes que diz: “Jornal é oposição, o resto é balcão de anúncios”. Se você não for um crítico do poder para que serve o jornal?
O episódio do “Mar de Lama” foi difícil para “O Diário”?
O Luciano Guidotti era meu padrinho de casamento, tinha laços familiares com eles, tive que fazer oposição a eles. O João Hermann era meu primo. O “Mar de Lama” tem um detalhe que muitos não se lembram, não fui eu que fiz. Entrei para o jornalismo pensando em ser escritor, em 1979 tive uma crise pessoal muito séria. Tirei umas férias, fui com a Mariana para o Rio de Janeiro, assisti a uma peça que escolhi aleatoriamente, chamava-se Layout. Na metade da peça me deu um ataque, pensei: “-Desgraçados, quem deu autorização para vocês contarem a minha vida?” Era a minha vida que estava ali na peça, a pessoa se autodestruindo. Ele fazia publicidade, mas não fazia o que queria que era escrever, ele estava se matando. Junto com a minha mulher tomei a decisão: “Vou voltar, vender “O Diário” e começar vida nova. Fiz isso e fui embora para São Paulo. Doei “O Diário” à pessoas que trabalhavam comigo, sem contudo formalizar, ele continuava em meu nome. As pessoas que assumiram “O Diário” juntamente com o Dr. Losso fizeram o “O Mar de Lama”.
No seu conceito a pessoa deve seguir a vocação embora tenha que trabalhar em outra atividade para suprir suas necessidades?

Depende da força da vocação e da necessidade. Questiono muito o aspecto da necessidade. É muito mais fácil viver do que sobreviver. Para sobreviver você tem que ter o carro do ano, o último modelo de celular, tem que ter isso, mais aquilo. Fazer parte desse clube, daquele outro. Ganhar dinheiro sem parar e gastar sem parar. Hoje a minha necessidade é de sossego, paz, ficar lendo. Todo mundo tem necessidades, depende de estabelecer uma escala. O que realmente tem importância e o que não tem. Eu queria ser escritor.
Como foi o episódio da faixa em frente a Comercial Tuffi Elias?

O Diário” estava em uma campanha contra a poluição de faixas existentes no centro da cidade. Liquidação disso, daquilo. Meu pai tinha a sua loja, eu disse-lhe: “ Pai, por favor, tire essa faixa, estou fazendo essa campanha, vai ficar chato, daqui a pouco terei que publicar”. Ele dava risada. Um dia peguei o Henrique Spavieri,e disse-lhe: “- Vai lá em frente a Comercial Tuffi Elias, tire uma foto da faixa, vamos publicar na primeira página. Poluição visual”
Qual foi a reação do seu pai?
Disse: “- Meu filho é macho!”.
E a sua busca por novas tecnologias de impressão e mídia como surgiram?
“O Diário” foi pioneiro na tecnologia de impressão em off-set. Atualmente tenho o jornal eletrônico “ A Província”, que está no ar a uns seis ou sete anos. Ninguém acreditava nesse meio de comunicação. O jornal impresso tem que se reciclar completamente. Hoje notícia em jornal não tem mais sentido. Se morrer o presidente da república agora o jornal irá dar a notícia amanhã? A televisão já está atrasada.
Como o senhor vê o futuro do jornal tradicional?

É difícil prever alguma coisa, no meu entender, o jornal só sobrevive se for investigativo, jornal de opinião, ou jornal que tenha grandes nomes de orientação pública, interprete, traduza os fatos. Quem esta fazendo esse jornalismo e está indo muito bem é a Carta Capital. Piauí é uma novidade, uma mostra do futuro. As grandes revistas no mundo todo estão passando para meios eletrônicos.
Faz sentido uma revista viver de notícias de escândalos?

Não suporto uma postura dessas. Não sei quem é pior, se o público que lê ou quem a publica.
As novas gerações informam-se de uma nova forma?

Não lêem jornais, revistas, querem informações rápidas. Os livros eletrônicos é o futuro. Olho a minha biblioteca e penso: “Coitada!”. A Enciclopédia Britânica é via meio eletrônico.
Sua convivência com as mais diversas ferramentas de comunicação permite dizer que o romantismo nessa área acabou?

Entra o lado emotivo, saudoso. Acho que esse é realmente o admirável mundo novo. Estamos vivendo momento de poeira no ar, ela não abaixou ainda. Muita coisa terá que ser regulamentada. Mas é irreversível. O primeiro livro escrevi em uma máquina de escrever, com um enorme pacote, tomei o ônibus, fui á São Paulo, entreguei para a editora, após um mês estava revisado, ela mandou-me pelo correio, fiz uma nova revisão, levei novamente à São Paulo. Foram de 4 a 5 meses para ser editado. Hoje mando um livro meu em seis segundos para a editora. Nunca tivemos a oportunidade de termos tantas informações como agora. Mas que informação? Um fato real, foi quando pediram a um garoto para fazer a biografia de Beethoven. Ele acessou a internet, e respondeu: “É o cachorro famoso...”. Se você não tem conhecimento a tecnologia não serve para nada. As universidades estão preparando a ciência de acordo com quem financia. O cientista não tem liberdade para fazer o que quer, necessita do financiador, Financiam o que interessa ao mercado. As escolas estão preparando mão-de-obra. Não estão preparando cidadão. Não estão formando. Não deveriam mais falar em educação, deveriam falar “ensino formal”. Educação é outra coisa. Universidade para todos não é correto, é para quem tem talento. Para quem tem vocação. Tenho cinco filhos, três fizeram universidade, dois não quiseram fazer, têm talento para outra coisa. Universidade não é só graduação, é pesquisa, extensão.
O que é necessário para ser um bom jornalista?

Tem que ter vocação, não adianta ter talento. Você pode ter um grande talento, ser espetacular, mas se não tiver vocação, não vai. Vocação exige de você tudo, como a medicina.
Quantos livros o senhor publicou até hoje?
Vinte. Tenho mais uns cinco prontos para publicar. O Dicionário Caipiracicabano conforme disse um amigo, dei um tiro em um mosquito e acertei um elefante. Foi escrito sem qualquer pretensão. Era complementação da Província, já está indo para a sexta edição. Foram vendidos mais de 40.000 exemplares. Ainda vendo 100 a 110 exemplares por mês só na Livraria Nobel. Não costumo reler o que escrevi, tenho dois livros que considero obras primas: “Isto é Meu Corpo” e “Miserere Mei, Amor”.














sexta-feira, dezembro 07, 2012

MONSENHOR LUIZ GONZAGA JULIANI

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 9 de dezembro de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/




                                                                                                                                  Foto by J.U..Nassif

ENTREVISTADO: MONSENHOR LUIZ GONZAGA JULIANI
Monsenhor Luiz Gonzaga Juliani nasceu em Capivari, a 2 de junho de 1927, filho de Thomaz Juliani e Maria Maschietto Juliani. Seu pai cuidava do sítio situado a uns quatro quilômetros de Capivari de propriedade do seu avô, Miguel Juliani e da sua avó Luiza Armelim Juliani pais de seis filhos, sendo que um deles era filho adotivo. Miguel Juliani, irmão mais velho também se ordenou padre claretiano. Ainda menino, Luiz Gonzaga permanecia a maior parte do tempo na casa de seu avô, em Capivari. Fez a primeira comunhão, foi coroinha na Igreja Matriz São João Batista. O curso primário e o curso preparatório para ingressar no ginásio foram realizados em Capivari na Escola Municipal Augusto Castanho, sua primeira professora foi Dona Judith.


Após fazer o curso preparatório qual foi a etapa seguinte dos estudos do senhor?


Fui fazer o chamado Seminário Menor da Imaculada Conceição de Campinas, diocesano. Aos 13 anos ingressei no seminário.


O que o senhor sentiu ao deixar sua casa e ingressar no seminário?


Fui coroinha, ajudava na igreja, meu irmão mais velho já era padre, incentivado pelos padres da paróquia, meu ingresso no seminário deu-se com naturalidade. Sem dúvidas que sentia saudades de casa, a vida no seminário era de dedicação total. Aos finais de ano tinha férias para passar junto a família. No seminário encontrei colegas, muito trabalho, e com isso acabei me acostumando.


Havia a prática de futebol?


Joguei futebol, geralmente como goleiro.


No seminário menor eram realizados quais cursos?


Eram feitos o ginásio e o colegial. Naquele tempo o estudante do seminário menor não era dispensado de servir o Tiro de Guerra. Tive que fazer o Tiro de Guerra com cursos voltados a ir combater na guerra isso foi em 1945. Estudava, fazia o Tiro de Guerra e Exército juntos. O Brasil estava em guerra, novos contingentes estavam sendo preparados. Os que se encontravam na frente de batalha voltariam e nós íamos ser mandados à frente de combate. Morávamos no seminário em Campinas, no bairro Cambuí e íamos para o quartel, na saída para São Paulo. Sexta feira a noite íamos a um treinamento no mato onde permanecíamos até domingo.


Como religioso qual era seu sentimento em ter que enfrentar uma guerra?


Estávamos sendo preparados para isso.


Havia um conflito de quem passava o dia estudando para amar o próximo e a noite tinha treinamento para matar o próximo?


Éramos muito jovens, estávamos mais preocupados com nossos estudos, nossa vocação. Sequer imaginávamos em combater de fato. Alguns seminaristas mais adiantados e padres já estavam na guerra como capelães. Em 1945 formei-me como atirador. No ano seguinte entrei para o seminário maior onde estudei filosofia e teologia em São Pulo, no bairro Ipiranga. Lá permaneci estudando por sete anos: três de filosofia e quatro de teologia. Fazia apostolado, o Ipiranga era um bairro considerado pobre, ensinávamos catecismo para as crianças de bairros carentes. Assim íamos treinando o exercício de catequese com as crianças da Vila Nair, Vila Gumercindo, Vila Carioca.


Em que ano o senhor ordenou-se padre?


Foi a 8 de dezembro de 1952, na Catedral de Piracicaba pelo primeiro bispo de Piracicaba, Dom Ernesto de Paula No próximo dia 8 de dezembro completarei 60 anos de sacerdócio. Trabalhei com todos os bispos que estiveram em nossa cidade. Após ser ordenado, fiquei um tempo auxiliando monsenhor Rosa (Monsenhor Manoel Francisco Rosa). Santa Bárbara D`Oeste era uma paróquia só, estava crescendo muito, o padre Francisco Michele que estava lá já estava meio cansado, o bispo disse-me que eu iria auxiliá-lo, permaneci lá até o final do ano, quando houve a festa do padroeiro. Trabalhamos em dobro, a paróquia estava crescendo bastante, era uma paróquia só. Trabalhamos muito. O bispo estava providenciando a fundação do seminário menor em Piracicaba, o padre Francisco Michele estava recuperado, ele veio embora eu fiquei sozinho na Paróquia de Santa Bárbara. A primeira construção que administrei foi a construção da Casa Paroquial, até então não existia. Ao concluir as obras da casa paroquial, só faltava a pintura, o bispo mandou-me de volta para o seminário e também ser coadjutor da Igreja Imaculada Conceição, na Vila Rezende. O pároco era monsenhor Romário Pazzianoto. Lá funcionava o seminário, o movimento era muito grande, lecionei quando iniciou em 25 de março de 1954. No início tínhamos uns doze seminaristas, quando deixei o seminário tinha 83 seminaristas residentes. Ficava onde hoje funciona o Centro Pastoral, na esquina. No seminário fui professor, diretor espiritual, reitor, sempre ajudando na paróquia. A Vila Rezende tinha uma única paróquia, era muito grande. Tinha muitas capelas na área rural.


Qual era o meio de transporte utilizado pelo senhor na época?


Usava muito o bonde.


O senhor pagava o bonde ou tinha alguma cortesia?


Naturalmente que pagava. Eu era capelão das Irmãs de Jesus Crucificado, do Dispensário dos Pobres, antigamente elas ficavam na Rua Tiradentes, em uma casa velha, depois foram para o prédio que fica na Rua do Rosário, hoje propriedade da Renovação Carismática; Logo pela manhã, cedinho, eu ia rezar a missa para as irmãs; Depois voltava e ficava na paróquia ajudando o padre, atendendo os fiéis.


Até que ano o senhor permaneceu na Paróquia da Vila Rezende?


Em 1957 o pároco estava cansado, afastou-se e eu fiquei cuidando da paróquia da Vila Rezende. Permaneci lá até 1963. Em 1958 passei a ser reitor do seminário, permaneci por cinco anos e meio como reitor. Coordenei a construção do seminário novo do Bairro Nova Suiça. Foi uma correria danada para levantar aquele prédio. Eu usava uma caminhonete 1946, andava mais no céu do que na terra! Aprendi a dirigir devagarzinho. Era o famoso “queixo-duro”. (sem direção hidráulica).


Quanto tempo demorou a construção do seminário?


Uns dois anos e meio. Não tínhamos recursos, precisei falar com o bispo para realizar um empréstimo na Caixa Econômica Estadual (depois Nossa Caixa Nosso Banco). Foi um belo “nos acuda” para conseguir o empréstimo, na época era aplicada a Tabela Price (A aplicação da Tabela Price impõe excessiva onerosidade). A Caixa Econômica tinha um prédio com 14 andares em São Paulo, o processo tinha que andar nos 14 andares para conseguir o emprestimo.Uma vez por semana ou mais, eu pegava o onibus das 9 horas, chegava ao meio dia, se não atrazasse, Ao meio dia tomva um lanche e ficava na Caixa Econômica até as seis horas da tarde. Empurrando o processo para ver se andava. Adhemar de Barros era o governador, foi um período em que alguns funcionários assinavam o ponto e iam embora. Ensineio-os a trabalhar! Eu cheguei a dizer: “Viajo quase oito horas entre vir e voltar de Piraicaba a São Paulo, e o senhor aqui a assinar o ponto e ir embora! Não senhor! Não sai daqui enquanto não assinar!”


Como o bispo via o seu trabalho?


Dom Aniger Francisco Maria Melillo era o bispo diocesano. Ele via que eu estava trabalhando na construção do seminário, na pastoral vocacional como reitor e ainda cuidava de duas capelas rurais: Tanquinho e Usina Costa Pinto além da quase paróquia da Usina Monte Alegre. Infelizmente quando venderam a usina deram a capela também. (Seu interior é decorado com afrescos pintado por Alfredo Volpi ). Foi uma injustiça muito grande o fato da capela ter sido vendida. Onde foi construído o seminário anteriormente havia apenas uma casa, que era utilizada no período de férias dos alunos que estudavam no seminário da Vila Rezende. Era uma região rural, sem energia elétrica, era utilizado lampião, não havia agua encanada como é hoje, ela era puxada de um córrego que passava perto, com um motor a gasolina trazia água para o seminário. Para providenciar a luz elétrica fui até a empresa responsável, era a Light, ficava em Campinas, São Paulo. Tive também uma ajuda de Dom Ernesto de Paula, que nessa época tinha renunciado e estava em São Paulo. A eletrificação rural deve-se a diocese e ao seminário. Naquele tempo além de não ter eletricidade na área rural, ela estava racionada nas indústrias, elas paravam as cinco horas da tarde. Imagine como foi difícil conseguir a eletrificação rural. Dom Ernesto tinha consagrado a chacara a São José, tudo foi conseguido com muito poder da oração. O dinheiro destinado a construção tive que gastar para levar a luz até o seminário. Os vizinhos ajudaram muito. A eletrificação rural não foi levada pela prefeitura, foi o seminário que levou. Isso foi em 1962. O tronco que fornecia energia era do seminário da diocese. Os políticos me procuraravam, a prefeitura não tinha licença para levar energia elétrica aos sítios. Na ocasião eu assinei como responsável junto a empresa de energia elétrica. A diocese estava sem bispo, depois que Dom Aniger foi eleito. A prefeitura precisava da minha autorização para levar a luz aos sítios por onde passava a rede. Quando pedi ajuda para levar a energia tive muita dificuldade, depois muitos queriam partilhar da energia. Fiz um contrato com a prefeitura, na condição de que colocassem telefone automático, pedi uma estrada para entrar no seminário, tinha que dar uma volta enorme, em dias de chuva era muito difícil chegar ao seminário. O vizinho da frente, cujo terreno foi cedido para a entrada ao seminário, era o Dito Gica, pai do Frei Tito. Coloquei no contrato que a preeitura deveria zelar pela conservação da estrada. A água resolvi montando uma estação de tratamento de água. O Dr. Serra fez o projeto para nós. Puxava água do córrego, mandei fazer dois tanques com capacidade para 10.000 litros cada um, coloquei filtro e tinha que fazer tratamento. Nos últimos anos a prefeitura ligou a água da cidade.


Para ir a esses locais como o senhor fazia?


Ia de onibus, quando chovia ficava na estrada, era tudo terra.


Em que ano o senhor assumiu a Paróquia São José?


Foi no dia primeiro de janeiro de 1964. Aqui era como um sítio, subia da barroca vaca, cabrito, as cabras tinham uma predileção pelas toalhas da igreja, que na época era composta pelas paredes e cobertura. Porta de madeira de construção com cadeado. Cada vez que dava uma ventania arrancava a porta. Era tudo terra, inclusive ao redor da igreja. O mato crescia bastante, a terra é roxa, de boa qualidade, só que não precisava mandar cortar, as cabras e vacas comiam tudo.


Foi o bispo que pediu para que o senhor assumise a paróquia?


Ele que pediu o sacrifício de assumir mais esse desafio.


Ao chegar aqui, ver o estado das coisas, qual foi a sua reação?


Eu estava acostumado a trabalhar, em Santa Bárbara trabalhei bastante, não havia casa paroquial, morava no asilo de idosos. A escola no tempo do seminario foi muito boa para aprender a viver na pobreza como em uma situação melhor. Quando vim para Igreeja São José não tinha um lugar para morar. Fiquei seis meses na casa do padre Jorge. Aluguei uma casa na Rua Sud Mennucci esquina com Avenida Dr. Edgar Conceição, onde permaneci por quatro anos e meio. Nesse período, no início eu tinha uma Kombi, velha, caindo aos pedaços.


Como era a religiosidade do povo do bairro?


A população frequentava a Igreja dos Frades. Após instalar aqui a devoção a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, incluindo a instalação de um quadro vindo da Espanha, começou a haver uma mudança de comportamento dos paroquianos. Esse quadro foi instalado em setembro de 1964. Com a devoção a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, aumentou a frequencia de fiéis. O povo da paróquia é muito bom, muito religioso. Logo que assumi a Paróquia de São José, o Comurba caiu, em 6 de novembro de 1964, da maioria dos que faleceram 47 eram da paróquia, tive que socorrer as famílias dando-lhes conforto espiritual e providenciando alimentos, muitos tinham perdido o provedor do seu sustento. Foi feita uma cooérativa, todo o mundo ajudou, da paróquia, da cidade. Foi triste, trabalhoso e preocupante.


O senhor realizou muitas ações para atrair fiéis, inclusive apreentando um programa em uma emissora de rádio?


Até hoje mantenho a participação na programação da Rádio Difusora. O CESAC - Centro Social de Assistência e Cultura foi uma forma de enfrentar a pobreza que era muito grande. Antigamente onde é a Vila Cristina era mais conhecido como Risca-Faca, uma enorme pobreza, casas feitas de tábua. Para aquele povo todo tinha apenas um bico de luz e uma torneira de água, a prefeitura tentou instalar um poço artesiano, não deu certo, deixaram a torneira para fornecer água ao povo daquela região.


No alto da Avenida Raposo Tavares existe uma cruz que é vista de longe.


É um marco em homenagem as missões realizadas pelos missionários redentoristas, eu os trouxe para dar uma mexida em toda a paróquia. Sozinho eu não estava dando conta, a paróquia tinha se tornado muito grande. Além da Igreja São José eu tinha 26 a 27 capelas. A paróquia ia até o Rio Tietê, vizinho a Anhembi. Era quase uma mini diocese. Consgui que os missionários redentoristas realizassem um trabalho muito bom por três meses. O encerramento das missões foi com essa cruz, que eu pedi no Dedini. Foi uma cruz tão pesada que os homens que subiram com ela no morro tiveram dificuldade em caregá-la. Foi instalada em 19 de março de 1979. Dia de São José. Todo ano, como penitência na via sacra vamos até lá. Nunca medi a distância, deve ser de uns dois quilômetros, tem uma subida bem acentuada. Para evangelizar o povo, consegui com os missionários estigmatinos que a cada ano eles ficassem uma semana em cada capela. A capela situada no Barreiro Rico era muito longe, pertencia ao municipio de Anhembi, a divisão da diocese não era por municipio e sim por acidente geográfico. Pedimos a Santa Sé que estabelecesse o limite por municipio, o que foi autorizado. Essa capela passou para a diocese de Botucatu, isso depois de eu ter assistido por mais de vinte anos aquela localidade, a estrada era de terra.


O senhor esteve com o Papa?


Estive com o Papa João Paulo II várias vezes. Em uma dessas ocasiões concelebrei a missa com ele em sua capela particular. Toda quarta feira o Papa dá audiência pública. Em algumas dessas ocasiões pude comprimentá-lo. No jubileu, 50 anos de sacerdócio, em 2002, viajei para Roma e também estive com o Papa. Ele me acolheu, abençoou.


Como ele o chamava?


Dizia: “ Brasiliano! Brasiliano!”; sempre dava um terço como presente. Com Bento XVI estive apenas próximo dele, na Itália.


O senhor está completando 60 anos de sacerdócio, como é denominado esse marco histórico?


É o Jubileu de Diamante. A comemoração maior foi no Jubileu de Ouro, com uma semana vocacional, chamando os jovens para a vocação sacerdotal. Agora teremos o Tríduo vocacional preparatório do Jubileu,nos dias 5,6 e 7 na nossa matriz. São tres dias preparatórios vocacional. Dia 8 de dezembro de 2012 será a festa de Jubileu de Diamante, com missa festiva, as 10 horas da manhã. O bispo estará presente, assim como os padres da diocese os amigos e familiares.










domingo, dezembro 02, 2012

Ana Marly de Oliveira Jacobino

Escrevi uma carta para agraciar a coluna em que João Umberto Nassif me presenteia toda semana, através da Tribuna Piracicabana (eu, uma ávida leitora). Está no anexo e gostaria muito que vocês a publicassem. Obrigada!
Ana Marly de Oliveira Jacobino



Carta para João Umberto Nassif



Ler é uma fonte de prazer! Boas leituras, então, abrem portas para o discernimento, além de... nos fazer viajar na máquina do tempo da nossa memória. Fui convidada a prefaciar o livro de uma escritora, eu, a conheci num momento inusitado, enquanto, descascava maçãs para um evento solidário. Ela, ali quieta, e, eu, ao seu lado descascando caixas de maçãs. Silêncio! Perguntei o seu nome. Ela me responde em castelhano. Para que, a conversa fluísse, questiono se nasceu na Argentina. Delicada me conta que é nicaragüense. Confesso para ela a minha grande admiração por um poeta da sua terra Ernesto Cardenal Martinez, pela sua participação junto à resistência à ditadura feroz de Somoza. Conversa vem, conversa vai ... o mundo literário nos envolvendo... declaro amor a outros poetas da sua terra... Ruben Dario, leitor de Machado de Assis, a quem Dario conheceu pessoalmente, e, por conseqüência, escreveu um lindo poema-homenagem ao nosso Bruxo do Cosme Velho. Enfim, conto de como, muito jovem tomei uma forte admiração pelo “Movimento Revolucionário da Nicarágua”. A coragem dos seus membros de lutar contra uma ditadura sangrenta explorava o meu ideal juvenil.

Bem! Abri o boneco do seu livro... impactante! Não parei de ler! Ali estava a história moderna da Nicarágua, desde a ocupação britânica até as ditaduras que mancharam o seu solo, com o sangue do seu povo, marcado a ferro e fogo e catástrofes... as mortes aumentaram com o terremoto de 1970... Eu tinha uma preciosidade diante dos meus olhos... um livro pronto para tornar-se um filme cinematográfico. E, a escritora, agora, uma grande amiga foi personagem de toda essa história.

Na Tribuna de 01 de Dezembro de 2012 (sábado) encontro um pouco desta história escrita por João Umberto Nassif, e, como ele foi feliz ao contá-la. Detalhes preciosos da vida de uma mulher de coragem, abraçada a causa solidária do seu povo, massacrado por ditadores... “Lágrimas e Risos”, o seu livro foi marcado na sua coluna com competência de quem sabe a importância da história da América Latina forjada por Golpes e Ditaduras ferozes, alimentadas muitas vezes pelas mãos da CIA (Serviço Secreto Americano). Parabéns, João Umberto pela sua entrevista com Minia de Los Angeles Reyes Ramires, a nossa Angelita, uma heroína de carne e osso... nos dando a honra de residir aqui na nossa Piracicaba! Parabéns, a Tribuna Piracicabana por publicar a cada semana as histórias desses heróis da modernidade, que vivem tão perto de nós. Parabéns, João Nassif e Tribuna por estes valiosos resgates históricos!





ANGELA REYES

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 01 de dezembro de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/


ENTREVISTADA : ANGELA REYES
Minia de Los Angeles Reyes Ramirez sempre foi conhecida como Ângela ou Angelita. Uma forma carinhosa de tratá-la bem como mais prática do que a chamar pelo seu nome civil completo. Angela Reyes escreveu a obra “Lágrimas e Risos”, um livro que prende a atenção do leitor do começo ao fim. O que aparenta ficção foi parte da sua realidade. Com habilidade descreve fatos, lugares e pessoas algumas vezes preservando a identidade com a simples troca de nome ou localização. Angela Reyes foi interna em um colégio de freiras até sua mocidade, quando desafiou conceitos ultraconservadores, enraizados na sociedade de então. Foi combatente na linha de frente contra o regime ditatorial de Anastasio (Tacho) Somoza García presidente do seu país, Nicaraguá. Uma luta sangrenta, onde Angela prestou serviços voluntários na Cruz Vermelha Internacional. Foi colaboradora ativa do grupo contrário a Somoza. Considerada de grande importância para a guerrilha que lutou e depôs o regime de Somoza. Nascida a 2 de agosto de 1938 em Acoiapa (município) , no departamnto (esatado) de Chontales na Nicaragua. Filha de João Dolores Reyes e Gregoriana Ramirez. João Dolores Reyes contraiu o seu primeiro matimônio com Gregoriana, tiveram quatorze filhos, sendo que cinco faleceram logo ao nascer, permanecendo oito filhos homens e Angêla a única filha. Sua mãe morreu de parto. Seu pai se casou novamente, sem que tivesse nascido nenhum filho desse matrimônio. João Dolores Reyes casou-se pela terceira vez, tornando-se pai de mais dois filhos. Em seu quarto matrimônio teve mais quatro filhos, totalizando vivos, 15 filhos.







Qual era a atividade do pai da senhora?


Ele tinha fazenda de gado de corte. Era tudo muito rústico, onde morávamos não havia energia elétrica, não tinha água potável, não tinham estradas. Eram vários municípios do departamento de Chontales, isso há 74 anos. Era uma vida muito tranqüila, os habitantes eram parentes ou amigos. Havia muita paz, são lembranças lindas, na minha infância tomava-se banho no rio, meu pai armazenava água em alguns tonéis, dali pegávamos água para tomar banho. Era tudo muito simples. A comida tinha como matéria prima o milho e o leite. As receitas caseiras além desses dois ingredientes incluíam arroz e feijão. Éramos uma comunidade onde havia ajuda mútua, éramos solidários. Na última vez em que estive na minha terra natal senti muita tristeza, o chamado progresso, civilização, acabou com tudo isto faz tempo. Foram construídas estradas, vieram muitas pessoas de outras localidades que passaram a tratar os nativos da terra como inferiores.









A senhora estudou onde?


Eu vivia no povoado, viajava para a fazenda nas férias. Minha mãe faleceu quando eu tinha 3 anos. Tive uma infância solitária, minha grande amiga era a Idália, que mais tarde foi morar nos Estados Unidos. A mãe dela era costureira, sempre nós duas estávamos embaixo da mesa onde ela cortava o tecido, com os pedacinhos fazíamos vestidinhos para as bonecas. O Lago Nicarágua (ou Lago Cocibolca ou ainda Mar Dulce) é um lago com uma área de 8.624 km² da Nicarágua. É o maior lago da América Central e o segundo maior da América Latina, um pouco menor que o Titicaca. Para ir da minha cidade até Granada não existiam estradas, a travessia era feita em um barco enorme, meu pai levava o gado no barco para vender em Granada; quando eu era pequen ia cm meu pai. A travessia era linda. Eu me enamorei da lua, da água, do vento, da natureza. Aquels noites iluminadas só pela lua Eram barcos a vapor que dixavam uma esteira na água onde passavam, Quando completei 10 a11 anos meu pai internou-me em um colégio de freiras da ordem salesiana, filhas de Maria Auxiliadora, na cidade de Granada, uma cidade muito linda, turística existente na Nicarágua. Foi fundada pelos espanhóis. Ali vivi por oito anos, saí com dezoito anos.


Qual foi a sensação da senhora logo que foi para o colégio interno?


Chorei e vi meu pai com as lagrimas escorrendo em seu rosto. Sou grata ao meu pai por ele ter me levado a esse colégio, ali eu estava protegida, as freiras deram-me uma boa educação. O internato era muito rígido. Usávamos um uniforme de manga comprida, A blusa era branca e a saia era azul. Havia uma golinha e um lacinho azul. Havia o uniforme de gala, sempre azul. Era mais elegante, de outro tecido,usávamos uma boina, para a festa da pátria, para desfilar. No dia da diretora encenávamos peças de teatro, eu adorava o teatro. A formação nesse colégio era integral. Além das matérias básicas como matemática, geografia, gramática, história, ciências naturais. Uma vez ao ano nos mandava a lavanderia, e não existia máquina de lavar roupas. Naquela época a intenção era formar uma mulher completa para que no futuro fosse uma perfeita mulher do seu lar. Formar a futura dona de casa.


Quantas internas havia naquela época?


Havia três grupos eu estive nos três. Quando entrei fiquei nos grupo das pequenas, todas com no máximo 11 a 12 anos. Depois passei ao grupo das que tinham meninas de 12 a 15,16 anos. Passei ao grupo das que faziam o colegial.


Dormiam todas juntas?


Cada grupo, tinha seu dormitório, dormíamos com mosqueteiros, camisolas de dormir cumpridos, não podíamos comunicar-nos com a companheira ao lado. No dormitório era proibido falar. Uma freira, assistente do grupo, caminhava entre as internas calculava até que todas estavam dormindo, Ela então fechava uma cortina, onde ficava seus aposentos.


Como era o banho?


Era uma fila enorme para tomar banhos. Cada grupo tinha seu lugar de banho, vestidas com uma camisola com mangas. Havia uma chave central para abrir a água, a freira abria a água, tínhamos que estarmos prontas para molhar-nos. Ela então fechava a chave um pouco, para esfregarmo-nos. Depois abria para enxaguar e aquilo era muito rápido. No internato tudo era comandado com toque de sino. E com horário. As vezes acontecia de sairmos ser ter tido tempo de molhar a camisola.


Não tiravam a camisola para banhar-se?


Não! Não! Tínhamos uma bata para sair dali, a porta onde ficava o chuveiro individual não podia ser trancada. Não havia nem tranca. Era a mentalidade da época. Íamos a missa todos os dias, acordávamos as cinco e meia da manhã, As seis e meia estávamos assistindo. a missa. Depois da missa íamos tomar café. O café era composto por leite, com u pouquinho de feijão fritos;. Na Nicarágua se come. de manhã. Havia pessoas que comiam arroz e feijão pela manhã. Quando vim morar no Brasil, no inicio sentia falta do feijão no café da manhã; tínhamos ainda uma banana e dois pães, que não eram grandes,. Algumas meninas cujos pais residiam próximos em suas visitas levavam manteiga, geléia. Passei oito natais sem presentes, sem festas. Havia a missa com cantos, corais, nós íamos a missa da meia noite, depois íamos jantar, onda Havia uma comida típica da Nicarágua, o nacatamal. É de origen indígena, com farinha de milho, diferente da processada no Brasil.


Ao sair do internato qual foi sua próxima atividade?


Sai com o curso colegial completo. Fui para a mina terra, meu pai era super-ciumento., não podía sair a rua, não tinha amigas e muito menos amigos; ele dizia que não existía amizades entre homens e mulheres.

Atuamente o que a senhora pensa a respeito?
Acho que existe! Acho que o amigo homem para mulher é melhor do que a amizade entre duas mulheres, porque não há competição. Meu pai não permitiu que eu freqüentasse uma universidade. A universidade estava na capital, era frequentada também por elementos do sexo masculino; Ele dizia que eu estava preparada para casar-me. Ser doce para meu marido. E para ter filhos; Interiormente eu era rebelde. A cultura da época era o chefe da família jamais ser contestado; minha ilusão era estudar jornalismo na universidade. Ou literatura. Eu disse-lhe que queria ser independente, ele montou-me uma lojinha voltada a mulheres. Eu mão me sentia realizada como pessoa Ele quis me casar por duas vezes com filhos de amigos do mesmo partido político: conservadores. Nas últimas férias eu estava na capital, na casa de umas amigas da minha madrasta, conheci um jovem que estava na casa de cima. Eu gostava de chineses, sua cultura, quadros, pinturas. Chamava-se Ramon Lai. Apaixonamos-nos, tivemos que lutar muito para romper as barreiras existentes na época, dede a aceitação do meu pai até cenas descritas em meu livro “Lágrimas e Risos”. Em de janeiro de 1959 casamo-nos. Ramon Lai faleceu em 28 de novembro de 1996. Tivemos cinco filhos: Ramon que mora no Rio Grande do Sul. Dulce Maria que mora em Miami. Andrés formado pela Esalq e mora comigo em Piracicaba. Meying e Lucien.










Quantos livros a senhora já escreveu?


Na Nicarágua publicar um livro tem um custo muito alto. Porém escrevi muitos artigos para jornais, fiz muito crítica contra a ditadura de Somoza.


A senhora participou da revolução que depôs Somoza?


Participei, nunca matei, nunca peguei em armas. Escondi muita gente procurada. Fui militante de esquerda.Meu marido não se metia em política.


Como ocorreu a vinda da senhora ao Brasil?


Meu filho mais velho, Ramon havia concluído o colegial. Todos os meus filhos tinham sentimento revolucionário como a mamãe. Eu tinha medo que o meu filho fosse para as montanhas com os guerrilheiros. Também a guarda repressora da ditadura obrigava a lutar com eles. Eu estava como se diz no Brasil: “Se parar o bicho come, se correr o bicho pega”. Uma das minhas filhas treinou na guerrilha. Eu era membro da Cruz Vermelha, dava apoio logístico. O primeiro movimento revolucionário começou em 1964. Era um movimento de muita conversa e atentados onde nada acontecia a Somoza. O forte da guerra iniciou em 1977 para triunfar em 1979.


Em que ano a senhora chegou ao Brasil?


Foi em 2001. Quando o governo revolucionário venceu, principiou a alfabetização do povo. Meu filho Andrés esteve ensinando na selva. E Dulce Maria também. Ele não podia sair do país se não constasse que ele havia alfabetizado. Andrés veio estudar na Esalq em Piracicaba.


Quanto tempo a senhora foi militante?


Sempre.









Qual foi a ação mais arriscada que a senhora vivenciou?


Estávamos preparando na capital, Manágua para combate. Estávamos formando centros de pronto socorro. Preparávamos em bairros, esses centros. Tínhamos códigos para telegrafo e para bater na porta de outro militante. Com firmeza, Angelita mostra a seqüência de golpes com os nós dos dedos. Trocávamos esses códigos de um dia para outro. Uma noite chegou um companheiro e me disse: “-Companheira, a senhora pode levar uma caixa de medicamentos ao Bairro Lomalinda?”. Respondi que sim, era só colocar no porta malas do carro. Havia barreiras com guardas que vistoriavam os veículos. Chamei uma amiga, sempre com código, Não podíamos viajar a noite porque havia toque de recolher. Na manhã seguinte, umas oito horas da manhã, saímos, quando chegamos ao centro cívico onde se situavam diversos ministérios, estavam os militares. Com aspectos de quem passou a noite em claro. Eu sempre carregava no porta-luvas, cigarros, fósforos, balas, bolachas, doces. E uma garrafa térmica com café.
Quando chegamos ali disse “Oh muchacho! ( Oi moço!). como vocês estão?” Um deles disse: “Aqui estamos a noite toda, não vieram nos render, ou seja fazer a troca da guarda, Estamos com fome”. Disse-lhes: “Não se preocupem! Tenho bolachas, querem um cafezinho!?” Desci do carro e os servi. Olharam o porta luvas, viram a bolacha se alegraram.Dei-lhes cigarros. Disseram-me: “A senhora vai abrir o porta malas!” Respondi: “-Claro, mas toma antes o cafezinho, fuma o cigarrinho!” assim se passou, eles não pediram para que eu abrisse o porta malas. Se abrisse iriam ver muitos produtos médicos e sabiam para onde iriam. Perguntaram para onde eu estava indo, respondi que ia para Lomalinda, levar pãeszinhos torrados para onde estavam as crianças. Quando cheguei, bati no portão, uma voz me perguntou seu eu trazia tortilhas, disse-lhe que não, estava levando pão torrado. Entramos, sentamos, conversamos, Alguém disse vamos tirar os produtos médicos do automóvel. Eram munições e armas! Eu poderia ter sido morta no carro. Sempre Deus me protegeu.










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