Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sábado, outubro 27, 2012

WALDEMAR BONADIO BERTOLUCCI

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 27 de outubro de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/


ENTREVISTADO: WALDEMAR BONADIO BERTOLUCCI
Waldemar Bonadio Bertolucci é nascido a 7 de julho de 1940 em uma fazenda pertencente ao município de Vera Cruz entre as cidades de Marília e Garça. Filho de Antonio Bertolucci e Rosa Bonadio Bertolucci, o casal teve ainda os filhos Oswaldo e Maria Rosa. Seus pais trabalhavam na fazenda de propriedade de Dartiu Xavier da Silveira. A fazenda, com uns 70 alqueires, ficava a uns 12 quilômetros de Vera Cruz, o avô de Waldemar, Domingos Antonio Bonadio era o administrador, Antonio, pai de Waldemar era fiscal da fazenda. A principal cultura era a de café.


Em que ano você saiu da fazenda?


Saí em 1951, quando foi vendida a fazenda, eu tinha 11 anos. Aos oito anos eu já tinha entrado na escola que se situava na fazenda vizinha onde estudei até o terceiro ano primário. Mudamos para Vera Cruz em 1952. Era uma cidade pequena, hoje muita gente mora em Vera Cruz e trabalha em Marília. Ficamos até o mês de junho, mudamos para Tupã, onde concluí o quarto ano primário. Meu pai foi trabalhar com meu avô Giuseppe Bertolucci que tinha um sítio junto com seus irmãos. Eu permaneci na cidade de Tupã. Com 13 anos fui trabalhar na Fábrica de Guaraná Iara, que além de guaraná fabricava quinado, conhaque, engarrafava cachaça fabricada na Fazenda Coqueirão. Iam buscar aguardente com caminhão, enchiam as cartolas de madeira e traziam. O engarrafamento das bebidas, inclusive o guaraná era manual. Com uma concha já com o volume pré-determinado, um funil, colocava garrafa por garrafa o xarope que o químico tinha trabalhado a noite toda fabricando. Tinha uma máquina que completava com água e gás carbônico. Existia um pedal que era para tampar, era uma tampinha de lata com cortiça pelo lado interno. Colocava-se a garrafa em uma base, puxava uma alavanca ela encostava onde deveria receber a água, outra alavanca enchia de água e gás, pisava no pedal e tampava a garrafa.


Às vezes estourava alguma garrafa?


Estourava, usávamos óculos de proteção e um avental de borracha.


Você tinha quantos anos?


Tinha 13 anos. Hoje é proibido trabalhar com essa idade,


Você acha que começar a trabalhar tão novo prejudicou a sua vida de alguma forma?


De jeito nenhum!Acho que só ajudou. Aprendi a ter disciplina e conheci as dificuldades que a vida nos oferece.


O horário de entrada qual era?


Em torno de sete ou sete e meia da manhã. Tinha uma hora para almoço, ia almoçar em casa. Às vezes tinha que ajudar a carregar o caminhão, o guaraná tinha 24 unidades de meia garrafa, a caçulinha eram 72 unidades, 36 em pé e 36 encaixadas com a tampa da garrafa voltada para baixo, eram todas em caias de madeira. A maioria dos que trabalhavam na fábrica tinham a minha faixa etária. Éramos de 12 a 15 funcionários. O sobrenome do proprietário era Proteti. Não cheguei a ficar um ano nessa fábrica. Fui trabalhar em um bar que ficava no mercado velho de Tupã, ali ajudava a vender servir balcão e fazer sorvete. A massa do sorvete era batida a mão. Todo sorvete de massa que era feito lá era bom. Sorvete de creme, coco queimado, coco branco. Às vezes eu torrava o coco ralado em uma frigideira para fazer o coco queimado. Quando acabava de tirar a massa do tambor ficava uma beiradinha grudada que não sai na pá. Colocava a vasilha embaixo da torneira, com a água escorrendo pelo lado externo, a massa derretia e ficava um líquido gelado. Eu colocava em um copo e tomava. Os donos eram dois japoneses. De lá, aos 15 anos fui para Dracena, situada a 125 quilômetros de Tupã. Fui morar com meus tios Natal e Maria Bertolucci.


Qual foi seu primeiro emprego em Dracena?


Fui trabalhar no consultório do médico Dr. Gumercindo Correa de Almeida Moraes Júnior, meu tio trabalhava no posto de saúde, ele que me indicou hoje é uma atividade exercida praticamente pela classe feminina. Ele era clinico geral, aparecia todo tipo de doentes, muitos vindos do Mato Grosso. Eu fazia a limpeza do consultório, esterilizava instrumentos. As fichas dos pacientes eram preenchidas pelo médico. Não havia consulta marcada, ele ia atendendo por ordem de chegada. Iniciava às 8 horas da manhã e ia até o ultimo paciente. Naquela época havia muito panarício uma infecção aguda (provocada por uma bactéria estafilococo ou estreptococo) de um dedo da mão ou do pé. O paciente era tratado no próprio consultório, era ministrada a anestesia Sinalgan, eu ajudava a segurar o braço da pessoa. Aprendi a aplicar a anestesia. Aprendi a aplicar injeção aplicando no próprio médico quando ele estava gripado.


Qual é o segredo para aplicar injeção sem colocar o paciente em risco?


Primeiro é ter todo o material esterilizado. Segundo é não pegar a veia, você aplica, puxa um pouquinho o êmbolo, se não vier sangue pode injetar. Caso vier sangue, empurra a agulha ou puxa um pouco. Permaneci nesse consultório aproximadamente um ano. Fui trabalhar na Casa Jaraguá, uma rede de loja de tecidos localizada em frente a rodoviária de Dracena. Hoje é um jardim. A rodoviária era redonda com dois postos de gasolina, cheia de barzinhos, bazar. Entrei como pacoteiro, fazia pacotes. Quando chegava um ônibus pegava impressos da loja e panfletava junto aos passageiros Se o cliente se interessasse eu levava para a loja. Com isso o gerente da Lojas Riachuelo, de tecidos também, acabou me chamando para trabalhar com eles. Fui trabalhar na Riachuelo, como pacoteiro mesmo. O povo de Mato Grosso, logo na divisa do estado, vinha fazer compra em Dracena. Não fiquei por muito tempo na Riachuelo, eu tinha um amigo que era alfaiate, a sua mulher também costurava, eram recém-casados, tinham uma filhinha. Eu sempre ia visitá-los. Esse meu amigo acabou me convencendo a trabalhar como alfaiate, ele afirmava que era uma profissão com futuro. Nessa época meu pai tinha ido passear em Dracena, achei que aprendendo a trabalhar como alfaiate poderia trabalhar também à noite, sábado, domingo. Eu queria ser alguém na vida, ter uma casa minha. Queria ganhar dinheiro, mas estava difícil ganhar. Isso foi em 1954 ou 1955. Comecei costurando camisa, ainda não cortava. Paletó eu pregava entretela, caseava. Antigamente era tudo feito a mão, hoje é feito por máquinas. Na época a maquina de costura Pfaff era considerada a melhor para o uso dos alfaiates.


Você exerceu o ofício de alfaiate por muito tempo?


Eu tinha um tio, Vergílio Bertolucci, que morava em Andirá, no Paraná, ele era taxista, fui morar com ele. Um primo do meu pai, João, conhecido como Nico, tinha um armazém de secos e molhados em uma fazenda, fui trabalhar com ele. Passei a morar na fazenda na casa do Nico. Vendia muito, só de um fazendeiro atendíamos as famílias de 10 fazendas. Era tudo vendido com vale. (Anotação do valor da compra em um vale). No final de mês o fazendeiro mandava o dinheiro. Os vales variavam de350 a 400 cruzeiros. Do dia primeiro ao dia 10 cada dia as famílias de uma fazenda faziam suas compras. Não tínhamos condições de atender mais de uma fazenda por dia. Eram fazendas de café com colônia de 40, 50, 60 casas. Vendíamos apenas comestíveis, uma época passamos a vender também botinas. Meu primo Nico tinha um caminhãozinho Chevrolet 1951, com ele fazíamos as entregas das compras. Eu aprendi a dirigir nessa época. Um dia descemos em uma tulha para carregar feijão, carregamos, o cunhado do meu primo ficou com receio de que a caminhonete quebrasse achou melhor que depois o Nico a fosse buscar. Eu subi, dei partida e subi de ré até o topo, em seguida a conduzi até o armazém. Eu tinha uns 15 anos. Outro meu primo, que tomava conta da fazenda tinha um caminhão Chevrolet ano 1947. Câmbio seco. A partida era dada no pé. Tem que dar uma acelerada e pisar na embreagem para mudar a marcha.


No armazém vendia cerveja?


Vendia, não havia energia elétrica nem geladeira, a cerveja ficava no chão em cima do piso de cimento. Acho que se tivesse gelada o pessoal não tomaria já tinham se acostumado com a cerveja nessa temperatura. Pedro Coalho era um italiano que às vezes vinha a cavalo, parava no armazém, tomava duas cervejas e ia embora. Falei com meu tio Vergilio e com meu primo Nico que estava pensando em mudar para a cidade, trabalhar e estudar. Fui trabalhar em Andirá, em um posto com a bandeira Texaco, Era de propriedade de Ari Neves, tinha gasolina e óleo diesel, tinha lavador, troca de óleo e um restaurante que era arrendado. Eu atendia no caixa. O frentista também lavava caminhões, nessas ocasiões eu também atendia nas bombas. A bomba era elétrica, às vezes faltava energia tinha que servir combustível girando uma manivela. Naquela época no Paraná havia um trânsito muito grande de caminhões. O posto ficava na estrada existente até hoje, ligava Bandeirantes a Cambará. Hoje é asfaltada, na época era de terra. Quando chovia ninguém andava, tinha que esperar parar a chuva, duas horas depois o trânsito andava de novo. Uma vez choveu quase durante um mês inteiro. Tinha mais de 200 caminhões parados em Bandeirantes.


Colocavam correntes em pneus?


Nem com correntes os caminhões andavam. A terra grudava como uma cola, mesmo andando a pé ela vai grudando no sapato e não sai. As casas na época tinham uma lamina de ferro em um quadradinho de madeira para raspar o pé. Caminhão com corrente ia acumulando o barro e pegava na carroceria em cima. Jeep que era a condução mais utilizada no barro, com tração nas quatro rodas, o barro grudava na roda, pegava na lataria e travava. Se forçasse fundia o motor. O dinheiro dos motoristas desses caminhões ia acabando, para não estragar comeram os frios que um caminhão transportava e tinha também ficado encalhado. Começaram a cortar eucalipto que existia em uma fazenda, na beira da estrada e colocaram na estrada para saírem primeiro os que tinham mais urgência. Quando a estrada ficou enxuta, a bomba do posto não vencia abastecer tantos veículos. Iam ao restaurante para se alimentarem, cobertos de barro da cabeça aos pés. Isso foi de 1955 para 1956.


O dono do posto delegava a administração para você?


Delegava porque era uma pessoa muito doente, quase não aparecia lá, sua esposa que as vezes vinha. Eu depositava o dinheiro do movimento, telefonava para a Texaco em Ourinhos para pedir combustível. Os dois frentistas não sabiam dirigir, eu que colocava os caminhões no lavador. Certa ocasião o proprietário do posto estava internado em um hospital, sua esposa me pediu que eu fosse até Ourinhos buscar a sua filha que estava saindo de férias de um colégio interno. Embarquei em um trem misto, carga e passageiros, e fui até Ourinhos. Fui com o dinheiro para pagar o colégio, as contas da menina na cidade, quitanda, bazar. Vim com ela de trem até Andirá, lá seu avô estava esperando com uma charretinha para levar a neta. Em janeiro de 1957 voltei para Tupã. Meu tio tinha vendido o sítio e tinha comprado um armazém e um cinema em Arco-Íris, então distrito de Tupã.


Você veio trabalhar no armazém ou no cinema?


Nos dois! O cinema chamava-se Cine Arco-Íris, os filmes eram projetados aos sábados e domingos. Era um cinema com paredes de tábua, com janelas dos dois lados, o piso era plano. Existia um palco onde se realizavam bailes, colocavam-se as cadeiras de um lado e eram realizados bailes, carnaval.


Quem projetava os filmes?


Eu! Quando meu tio comprou o cinema já funcionava, Moacir Passador, esse é o seu nome civil, está vivo até hoje, ele era o maquinista, ou seja, quem projetava os filmes, sua família morava em Tupã, ele ia se mudar, fui para ficar no seu lugar. Eu ajudava meu tio no armazém durante o dia e aos sábados e domingos passava os filmes. A sessão começava as 20h00min horas. A máquina era de 16 milímetros.


Era uma máquina só?


Era apenas uma máquina, na hora de trocar o rolo de filme fazia-se um intervalo. Um filme comum, de uma hora e meia, eram dois rolos. Acendia as luzes, tirava um rolo colocava outro, passava a fita. Os filmes eram mandados de Botucatu. Semestralmente eles mandavam uma seleção de filmes, desenhos, documentários, seriados. Os seriados eram passados aos domingos. O filme que mais deu trabalho foi um que quebrou a fita quatorze vezes durante a projeção. O nome desse filme eu guardei: “O Monstro da Lagoa Negra”


 

Como era colado?


A fita tem uns quadrinhos que são tracionados pelos dentes de um carretel da máquina, dobrava-se onde quebrou, emendava, passava durex. Dobrava para cortar na medida certinha.


Quantas pessoas freqüentavam o cinema em cada sessão?


Uma centena de pessoas, ou um pouco mais. O pessoal era todo conhecido. Quando quebrava a fita faziam barulho, batiam o pé. As cadeiras eram comuns, tinha apenas uma ripa pregada unindo seis ou oito cadeiras, para o pessoal não tirar a cadeira do lugar. Permaneci lá até o final de 1957. Meu tio acabou vendendo o cinema para o ex-dono. Permaneci passando filmes para ele por uns dois meses. Eu disse ao meu tio que achava que o movimento comercial no armazém já não precisava do meu serviço. Tinha um viajante que vinha vender mercadorias para o meu tio no armazém, ele era de Tupã, era uma loja que trabalhava também no atacado, vendia armas, munições, ferragens. Vendia de tudo. Meu tio vendia só secos e molhados. O viajante disse-me: “Se você quer ir vá á Casa Dias que eu indico seu nome”. Trabalhei na Casa Dias por mais ou menos um ano. Em Marília ia abrir uma filial das Lojas Coteninga de tecidos, me chamaram, dois amigos iam para Marília para inaugurar a loja. Fui, fiquei morando no Hotel Nove de Julho, na Rua Prudente de Moraes, em frente ao Cine São Luiz. Inauguramos a loja em Marília fomos inaugurar a loja de Garça, peguei uma gripe, fiquei uma semana muito ruim. O movimento da loja após uns três meses caiu muito, já não estava me compensando ficar lá. Voltei para Tupã, um amigo me disse que na Lojas Riachuelo estava precisando de vendedor. Na segunda feira estava descendo a avenida entrei na Coteninga, os colegas brincaram comigo, acharam que eu estava de férias antes de completar um ano. Eu disse que estava indo para a Riachuelo. O gerente me convidou, acabei ficando na Coteninga. Até que um dia resolvi comprar uma caminhonete Ford 1933 e mascatear. A porta era como a da DKW abria ao contrário, chamada de “porta suicida”. Foi a primeira caminhonete que saiu com bomba de gasolina até então era o tanque era por gravidade. Motor 4 cilindros em linha. Passei a vender sardinha fresca. O trem trazia de Santos para Tupã, chegava as quatro horas da manhã em Tupã. O trem descarregava se não fosse buscar ficava na plataforma. Tinha um senhor que era o representante daqueles carrinhos de mão que vendiam na rua, Tupã tinha bastante disso. O senhor que mandava vir o peixe chamava Antonio Valverde, ele mandava vir de 10 a 15 quilos para cada peixeiro e para mim vinha uma caixa de madeira com 50 quilos. O gelo ficava dois a três dias na caixa e não derretia. Todo dia eu pegava 50 quilos e ia vender nos bairros vizinhos: Arco-Íris, Queiroz. Só que além do peixe eu pegava com o atacadista no mercado: repolho, tomate, batata. Saia para a zona rural, e por incrível que pareça o pessoal não tinha esses produtos plantados. Cuidavam de café, plantavam amendoim, mas não plantavam o que consumiam. O que eu vendia de sardinha para japonês! Em Queiroz tinha muitos arrendatários que plantavam amendoim, eu chegava já vinha uma japonesa querendo cinco quilos de sardinha, outra queria três quilos. Eu usava aquela balancinha de mão, com pratinho. A caminhonete quebrava muito, dava muita despesa. Vendi a caminhonete para uma fábrica de colchões, só que fiquei com ela até parar de vir peixe. Tinha mandado um telegrama para Santos suspendendo o envio, mas até certo tempo ele continuava a vir. Até receber o telegrama, cancelar o pedido demorava uns quatro ou cinco dias. Quando não veio mais peixe, entreguei a caminhonete. Em 1960 ia ter censo no IBGE, o pai da Wilma, Tedeskini Scalise, que eu nem pensava que um dia iria ser meu sogro, era o agente regional do IBGE em Tupã. Ele estava arregimentando pessoas para serem delegados censitários. Eu o conhecia porque o cinema usava um selo para ser colocado nas entradas, era o IBGE que vendia. Conversamos, ele me contratou, junto com outros que iriam para outras localidades sob a sua responsabilidade. Fiz um curso de uma semana e fui mandado para Monte Castelo, beirando o Rio Paraná. Naquela época residiam lá oito mil e poucos habitantes não chegavam a nove mil. Assim que cheguei a Monte Castelo, procurei o responsável pelo serviço de alto falante, não existia rádio na cidade, e anunciei que estava contratando pessoas para fazer o censo. Geralmente eram professores que tinham interesse. Dividi o município em setores, dei um setor para cada um, entreguei o material para trabalharem, dei um curso rápido informando o que deveria ser feito. Permaneci lá uns quatro meses. Aqueles professores iam a cavalo pelo meio da invernada, até uma casinha lá nos confins, tudo para realizar um censo bem feito.


A população maior era rural ou urbana?


Era rural. Acabei de fazer o censo, preparei todo material, mapas.


A saúde e a educação eram problemas graves da população?


A saúde sempre foi um grande problema, já foi pior. A educação era melhor, havia mais disciplina, mais respeito. Os professores eram mais respeitados e melhor remunerados.


Após terminar o censo qual foi sua próxima atividade?


Foi na época em que Jânio Quadros foi eleito. Voltei para Tupã, trabalhei algum tempo na loja de um português. Eu tinha um amigo chamado José Pereira França Filho, o Cazuza, pernambucano, ainda muito novo veio para São Paulo, trabalhou como peão em fazenda. Naquela época trabalhar em um banco era um emprego muito valorizado. O Banco Econômico da Bahia estava precisando de funcionário, por indicação do Cazuza, que era cortejado pelos bancos em função do seu elevado patrimônio, ele tinha 34 fazendas, fui apresentado ao gerente. Cumpri as formalidades necessárias e comecei a trabalhar a 1 de outubro de 1961. Minha primeira função foi ser caixa. Naquela época eram dois guichês, com uma gaveta só para dois caixas. Quando entrei tinha um caixa trabalhando, é amigo meu até hoje, chama-se Jayme Zampieri. Usávamos maquinas Burroughs, elétrica, quando faltava energia colocava manivela e continuava trabalhando. Por dois anos trabalhamos com caixa juntos. Fiquei no banco até 2002, foram 41 anos trabalhando no banco. Trabalhei no caixa, no conta corrente, lançando fichas de clientes, tinha uma ficha amarela com várias colunas onde lançava, depois veio uma maquina grande, tinha uma fita que era picotada, soltava um diário grande, carbonado, em três vias. tive que fazer um curso para trabalhar com ela. Quando chegou o computador eu estava afastado prestando serviço no Sindicato dos Bancários de Tupã, onde fui tesoureiro e vice-presidente. Fui suplente de Juiz Classista em Adamantina e Presidente Prudente.


Nesse meio tempo você estudou?


Fiz o curso de madureza, hoje chamado de supletivo.


Quando você conheceu sua esposa Wilma Scalise Bertolucci?


Eu a conheci na época em que estava com o cinema em Arco-Íris. Eu vinha comprar selos no IBGE com o pai dela, ela trabalhava no CPP, Centro do Professorado Paulista, situado ao lado. Às vezes ela vinha conversar com o pai dela logo voltava. Casamos em Tupã. Temos dois filhos: Welton e Fabrizio.


Como começou a sua paixão por avião?


Eu sempre gostei de avião, em Dracena tinha um amigo, Ângelo Sanches, que tinha avião. Em 1966 eu já estava no banco em Tupã, a prefeitura tinha construído um aeroporto novo e o aeroclube de Tupã estava fechado. Tupã tem uma pista boa, asfaltada, com 1530 metros e 35 metros de largura, balizamento e iluminação. Para dar um número maior de associados e reabrir o aeroclube, preenchi uma ficha. Fui procurado por João Marin Berbel, meu amigo, já tinha pertencido ao aeroclube antigo. Nosso instrutor era Manuel Nunes Feijó, de Marília. Comecei a voar em um P-56, motor de 90 HP, Paulistinha fabricado em Botucatu.


Qual foi a altura máxima que você já voou?


Com o Paulistinha foi 4;000 pés se não me engano. São aproximadamente 1.200 metros. Um pé são 33 centímetros.


Quantas horas de vôo você tem?


Tenho entre 800 a 1.000 horas de vôo.


Já teve pane alguma vez?


Só simulada, pane normal eu nunca tive. Uma manobra que eu fazia é o chamado “oito preguiçoso” Fiz vôos rasantes sobre o chamado Rio Feio. Voava com meu irmão, ele levava diversos pára-quedas pequenos, com um boneco, passávamos sobre o rio ele lançava os pára-quedas pequenos para o pessoal que estava pescando no rio. Tem um fotógrafo em Tupã que tirava muitas fotografias na cidade, Na época da construção do CEAGESP a cada quinze ou vinte dias tirávamos uma foto, acompanhamos a sua construção. Ele sentava no banco de trás, eu tirava uma porta do avião, eu ia com o nariz do avião para cima da torre, quando ele me dizia: “-Já” eu tirava o avião para o lado esquerdo e ele pelo espaço onde deveria ter a porta fotografava.


Como se deu a sua vinda à Piracicaba?


Após me aposentar continuei trabalhando por vários anos no banco. O Banco Econômico passou a ser BBV, cujos donos eram espanhóis. Em 2002 foi vendido para o Bradesco. Eles me ofereceram a oportunidade de continuar trabalhando ou se quisesse poderia sair. Eu e outro colega saímos do banco. A minha esposa Wilma se aposentou da escola onde trabalhava. Nossos filhos estavam morando em Piracicaba, decidimos mudar para cá.


Qual a diferença entre Piracicaba e Tupã?


Morei em Tupã quase 50 anos, é uma cidade bem menor do que Piracicaba. Atualmente tenho um circulo de amizades em Piracicaba, além de fazer pequenas tarefas junto aos filhos tenho lido muito.








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