Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sábado, agosto 25, 2012

JOÃO CARLOS TEIXEIRA GONÇALVES

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 25 de julho de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/

ENTREVISTADO: JOÃO CARLOS TEIXEIRA GONÇALVES
Professor universitário leciona marketing e propaganda na UNIMEP, jornalista, profissional de marketing, promotor de eventos, assessor empresarial e político, João Carlos Teixeira Gonçalves vivenciou e participou de grandes eventos culturais e artísticos ocorridos nas ultimas décadas em Piracicaba. Carlinhos Gonçalves como é popularmente conhecido, transitou pelas diversas mídias da nossa cidade, em períodos de grande efervescência cultural, onde as mudanças ocorridas no planeta refletiam em nossa cidade. Pode-se dizer que foi um período único e memorável, um divisor de águas no aspecto de hábitos e costumes. João Carlos é piracicabano, nascido a 24 de outubro de 1951, casado com a jornalista Eliana de Fátima Caro Gonçalves, que administra o Sebo 33 situado na Avenida 31 de Março, 812. Tiveram duas filhas, Vanessa e Ohana. fez seus primeiros estudos no Grupo Escolar Moraes Barros, sua primeira professora foi Ângela Maria Consolmagno. Morou junto a Escola Industrial (Escola Técnica Estadual “Cel. Fernando Febeliano da Costa) onde ocorriam os maiores jogos de basquete do interior do estado, as grandes estrelas do baquete nacional Maria Helena, Heleninha eram de Piracicaba. Em frente a escola havia o popular bar do Seu Moretti, era ponto de parada do bonde.
Você lembra-se de uma história envolvendo um professor e o bonde?
Diz a lenda, que o Professor Zocante, pessoa de estatura avantajada, quase dois metros de altura e forte como um touro, pilotando uma motocicleta possante, ao que dizem uma Harley Davidson, chocou-se contra o bonde descarrilando-o. A linha do bonde é diferente da linha de trem, a superfície de contato é menor, a roda do bonde descarrila mais facilmente.
Onde foi o seu primeiro emprego?
Com sete a oito anos, comecei trabalhar no armazém de Romeu Meira Barros, situado na Rua Alferes José Caetano entre a Rua Monsenhor Rosa e Rua Regente Feijó. Ele foi um dos primeiros proprietários em Piracicaba da lendária motocicleta Vespa. Ele era janista “roxo”, fazia campanha política para Jânio Quadros, colocava várias crianças na Vespa, cada uma com uma vassoura na mão. A vassoura era o símbolo adotado por Jânio. Romeu teve também a famosa Lambreta, as entregas do armazém eram feitas por essas motocicletas. Trabalhei por alguns anos nesse armazém. Decidi estudar na Escola Indústrial, isso foi em 1968, montamos o Grêmio Estudantil da Escola Indústrial. Um dia fui levar material do Grêmio Estudantil para ser publicado no “O Diário”. Entrei, foi paixão a primeira vista, conheci a clicheria, o funcionamento do jornal, conheci seu proprietário, Cecílio Elias Neto. A partir de então não saí mais de dentro de “O Diário”. Nesse mesmo período fui levar uma nota para ser divulgada pela Rádio Educadora de Piracicaba, lá conheci Pantaleão Perillo Júnior, que tinha vindo da Rádio Tupi, tinha sido uma das primeiras vozes a falar na televisão brasileira. Na Educadora também estava Roberto de Moraes Sarmento. Junto com Fausto Guilherme Longo montamos o programa “Postal Sonoro do Brasil” criado por Moraes Sarmento, por duas horas enfocávamos regiões do Brasil. Os tipos de música de cada região. No primeiro ano Moraes Sarmento juntamente conosco apresentava o programa. Foi ele que nos ensinou a fazer o roteiro, apresentação e toda produção de um programa de rádio. Após esse período ele saiu e deixou Fausto e eu apresentando o programa. Permancemos por mais de três anos na rádio.
Nesssa época onde funcionava “O Diário”?
Ficava na Rua Prudente de Moraes, no local onde hoje é o banco HSBC. Ao lado existia em um sobrado o escritório do famoso advogado Dr. Cunha, onde muitos profissionais foram seus assistentes. No outro lado do prédio de “O Diário” ficava a residência e consultório do Dr. Samuel de Castro Neves. Na época de “O Diário” um fato que nos marcou, foi um menino que lá chegou e em pouco tempo tornou-se o redator chefe de “O Diário”, era Evaldo Vicente. Mais tarde esse menino passou a ter o seu próprio jornal, “A Tribunade Piracicaba” que depois passou a se chamar Tribuna Piracicabana. Evaldo é um dos patrimônios que ajudaram a fazer a imprensa piracicabana.
Quais foram suas primeiras atividades no “O Diário” ?
Iniciei trabalhando na revisão, começava as 22 horas e ia até o fechamento do jornal, 3, 4, 4 horas e 30 minutos. Fatos que aconteciam as 2 horas da manhã, no outro dia eram notícias publicadas. Isso no tempo do linotipo e da clicheria, gravava-se em zinco. (Clichê nada mais é de que um carimbo muito usado no ramo gráfico. Ele pode ser confeccionado nos seguintes materiais: Zinco, com espessura 1.5mm ou 3mm, Nylon, Cyrel, Silicone dependendo de como for a impressão). Com chumbo eram feitas as letras, no zinco as fotografias. Tempo de José Maria Ferreira, Padre José Maria de Almeida, Alceu Marozzi Righetto, Adolpho Queiroz, Carlos Colonnezzi que é um grande produtor de televisão, produziu Silvia Popovic, Globo Reporter, Araken Martins, Zago, Edicel Clemente, Carlos Moraes Júnior, Manoel Sampaio Mattos (Mané Cambito) ele tocou no conjunto “Os Cambitos”. Os grandes políticos freqüentavam “O Diário”. Ali conheci todos aqueles que de certa forma influenciaram politicamente os destinos de Piracicaba. “O Diário” foi um celeiro intelectual, por ali passavam os intelectuais e políticos da cidade. João Chiarini conheci quando eu era ainda menino, ajudei-o a fazer a mudança dos seus livros, demoramos uma semana. Ele mudou da Rua Regente Feijó esquina com a Rua Alferes e foi para a Rua Santo Antonio esquina com a Rua Voluntários de Piracicaba, onde hoje há um edifício. Transportamos os livros em uma carriola, lotando duas garagens e prateleiras até no banheiro. Não tinha onde colocar livros, mais tarde ele foi acomodando em seu devido lugar. Conheci no “O Diário” o grande presidente do XV de Piracicaba. Romeu Ítalo Rípoli, assim como o Comendador Humberto D`Abronzo que era concunhado de Romeu Meira Barros.
Suas atividades nos meios de comunicação começaram com o Grêmio Estudantil?
O Grêmio foi o ponto de partida para mim e para Arari Sanches Correia, hoje ele tem uma clínica de fisioterapia no Vale do Paraíba. Eramos empreendedores, ele foi presidente e eu diretor social, depois fomos diretores do Clube Cistóvão Colombo. Alguns anos mais tarde montamos uma empresa, a Aracar Produções Artísticas, foi a primeira empresa a trazer o circuito universitário para o interior paulista. Marcos Lázaro foi o empresário que lançou grandes artistas brasileiros, quando ele pensou em criar o circuito universitário fomos trabalhar com Marcos Lázaro. Arari e eu fomos à São Paulo, apenas com nossa determinação, sem recursos.financeiros. Marcos Lázaro deu sua autorização para trabalhar com o circuito universitário, que era uma forma de trazer os grandes artistas para o interior do estado, espetáculos que o interior nunca tinha visto. Trouxemos á Piracicaba espetáculos só vistos em grandes centros, eram apresentados no Teatro São Jose, vinculado ao Clube Coronel Barbosa. O diretor social era Mário Monteiro Terra,sempre foi muito receptivo às nossas iniciativas, ele tinha entre suas atividades a de cronista social, foi Secretário de Turismo. Outra pessoa que foi fundamental nesse processo de trazer grandes artistas e espetáculos á Piracicaba é o Fagundinho, Luiz Antonio Lopes Fagundes, também conhecido como “Touché”, ele foi Secretário do Turismo, sempre teve uma visão aberta ao crescimento de Piracicaba.
Você trouxe nome e espetáculos famosos.
Trouxemos Tom Zé, Dzi Croquettes, Rita Lee, Toquinho e Vinicius, Maria Creuza, Gal Costa, Taiguara, Elis Regina, Secos e Molhados, Pepita Rodrigues e Dolabela, Martinho da Vila através do Mario Terra que tinha a coluna “Quem é Quem”. Ele fazia um baile no final do ano, eu era produtor e estava junto com o Mário, trouxemos Pedrinho Mattar ao piano, Sandra Brea cantando e dançando, Miele contando piadas, cantando e dançando. Fizemos o show no Teatro São José, estavam presentes 2.500 pessoas, o início do show seria no domingo as 19 horas e 30 minutos, eles não tinham chegado, e nem telefonado, não existia telefone celular na época. Cecílio Elias Neto perguntou-me: “Você tem certeza de que contratou esse show?” As 20 horas e 45 minutos chegaram Miele e Pedrinho Mattar. A Sandra Brea chegou a 21 horas e 30 minutos. O Tatão Galdino era produtor de arte do MASP, eu trabalhei com ele, produzíndo shows domingo a tarde, no vão do MASP, lembro-me de alguns artistas como Jorge Mautner, Made in Brazil, Joelho de Porco, David Gordon, Taiguara. Através do Tatão Galdino é que conheci Ney Matogrosso, ambos dividiam um apartamento. Trouxemos peças como Jesus Cristo SuperStar, Hair, eram peças de sucesso na Broadway, foram espetáculos revolucionários. Fui diretor de teatro do Teatro Universitário ´ Luiz de Queiroz´ (TULQ). Fernando Muralha era diretor de teatro do TULQ, quando ele saiu o grande diretor de novelas da Globo, Silvio de Abreu dirigiu uma peça de teatro no TULQ em Piracicaba. “Metamorfose” de Kafka foi dirigida por Francisco Ferreira, irmão de José Maria Ferreira. Trazíamos esses artistas à Piracicaba, geralmente quando terminava o show íamos jantar, conversar, a própria Gal Costa depois do show levamos para conhecer a Rua do Porto, o Bar do Tanaka, ela adorou. Ronaldo Ciambroni é um autor, diretor e ator foi premio de teatro infantil, quando vinha a Piracicaba ficava na minha casa. Eu trouxe várias peças infantis para o Teatro São José. Alceu Righetto foi o primeiro secretário da Ação Cultural de Piracicaba, correu pedaço por pedaço do Teatro Municipal, para concluir o teatro, eu o acompanhei, fui seu braço direito conheço cada palmo daquele teatro.
Você era um agitador cultural?
Era! A Galeria Colombo foi criada por mim. Um dia disse ao presidente do clube, Domingos Cristofoletti, como o nome do clube era Clube Cultural e Recreativo Cristóvão Colombo, se tinha apenas a parte recreativa. Eu era Diretor Cultural do Cristóvão, criei uma biblioteca onde recebia mais de 30 best sellers por semana, além dos clássicos que fui adquirindo e incorporando, transformando-a em uma excelente biblioteca. No porão do clube, na Rua Governador Pedro de Toledo havia uma sauna, a sede campestre já estava sendo construída, Dividimos a sauna pela metade, contratei um arquiteto, fizemos uma grande reforma, transformando aquele espaço em galeria de arte. Através de uma conexão com o médico Humberto Consentino, que residia no Rio de Janeiro, conseguimos trazer grandes nomes da arte plástica do Brasil, muitas exposições deitas aqui eram noticiadas no Rio de Janeiro. Grandes nomes de Piracicaba como Ermelindo Nardin, Joca Adamoli, Irmãos Dutra, Olavo Ferreira, Manoel Rodrigues Lourenço, Roberto Wagner, além de muitos outros artistas expuseram suas obras ali. Criei o Cine Colombo, fui á São Paulo e comprei o telão móvel logo que foi lançado. Fazíamos projeção de filmes uma vez por semana. O telão era acoplado a um carrinho com o projetor. A frequencia de pessoas era muito significativa.
Você viu o Salão de Humor de Piracicaba ser criado?
Sou testemunha do nascimento do Salão de Humor, ele nasceu no “O Diário” em conversa entre Adolpho Queiroz, Carlos Colonnesi, com a idéia do Cera (Antonio Roberto Cera), o pessoal queria montar um salão de história em quadrinhos. Juntamente com Alceu Marozzi Righetto decdiram montar o Salão de Humor, o primeiro foi montado nas instalações vazias do Banco Português.
Além de professor você exerce outras atividades?
Dou assessoria a várias empresas de transportes, metalúrgicas. Trabalhei muitos anos assessorando políticos, prefeitos da região de Piracicaba.
Você é uma versão cabocla de Duda Mendonça?
Não sei dizer, posso apenas afirmar que se for não incluo rinhas de galo e nunca tive mensalão, atualmente não atuo nessa área. Fui o primeiro assessor de marketing de Piracicaba. O Boscariol foi asessor de imprensa na Prefeitura. Comecei na Prefeitura com João Hermann Netto. Depois espalhei pela região toda a promoção da imagem do prefeito na mídia da capital. Não se restringia a uma assessoria de imprensa. Era o marketing político Trabalhei em Santa Bárbara D`Oeste, Rio das Pedras, Charqueada.
É um trabalho difícil?
É complexo, só quem faz sabe como agir, tem que conhecer o pensamento do prefeito, da população, qual é a forma de agir da mesma, o que a Camara dos Vereadores irá falar a respeito do assunto. Assessoria não é apenas acompanhar o político, ajudar a cumprimentar as pessoas. Hoje trabalho com empresas, tenho que saber o que o dono da empresa pensa, quais os canones (regras) da empresa, hoje já existe até disciplina estudando essas regras de empresas, chama-se Cultura Organizacional.
As empresas estão mais preocupadas em criar e manter uma imagem pública?
Muitas ainda não, as multinacionais já trazem essa cultura do seu país de origem. Existe algumas empresas de capital nacional que trabalham sua imagem. A empresa de médio porte está começando a exercer esse trabalho. Ela não é só tomadora da comunidade, tem que trazer algo de volta para a comunidade. É a contrapártida. Essa ajuda pode ser de várias formas e não pode passar desapercebida. Ela pode ajudar no meio ambiente, ou patrocinando uma orquestra sinfônica, orquestra de câmara, um grupo de teatro, são fomas que ajudam a comunidade a se desenvolver.
Um fato muito comum nos Estados Unidos são as grandes somas doadas ou deixadas em herança para universidades, fundações, instituições beneficentes. Isso ocorre no Brasil?
Ja vi coisas assim mas muito pouco, é da nossa cultura. Já vi até fatos inversos, da pessoa deixar algo em benefício a uma instituição e terceiros ligados a família depois dizerem que ele estava fora da sua razão quando doou aquilo. Nos Estados Unidos a pessoa deixa em testamento fundos por exemplo, para o Instituto de Pesquisa do Cancer.
Como anda a cultura em Piracicaba?
Estou vendo muitos mesmos, sempre. Deveriam surgirem outros, movimentos culturais, intelectuais. O SESC, SENAC, SESI ajudam a fomentar a cultura. Do que Piracicaba já teve o que existe hoje é muito pouco. Atualmente o individualismo prevalece. Em “O Diário” criei o Prêmio Sérgio Cardoso para os atores de teatro que se destacavam naquele ano. Esse prêmio durou quatro anos, depois acabou. Por dois anos fiz o concurso “A Mais Bela Voz Estudantil”, para revelar cantores.
O que foi o Jardim da Cerveja?
Foi a maior casa show do interior paulista. Uma das maiores casas show do Brasil. O gerente era Cláudio de Brito, tinha a experiência de ter administrado grandes casas show de São Paulo. Pelos próximos 20 anos acredito que Piracicaba não irá ver uma casa com essa mesma estrutura. Tinha a capacidade para 2.000 pessoas. Onde hoje é o CLQ-Objetivo era o Jardim da Cerveja. Tinha dois salões, o salão de baixo era frequentado por casais, dentro do salão havia barricas nas laterais, como se fossem quiosques, com mesas, as mesas eram nas barrica de cerveja, no centro havia mesas também. Havia um palco enorme, uma loja de souvenirs alusivos ao Jardim da Cerveja, vendiam bonecas e bonecos de 30 centímetros, caracterizados como alemães. Canecas á semelhança de um bagaço de cana de açucar, cinzeiros. Havia um marketing muito bem feito. Todos os funcionários, garçonetes, garçons, caracterizados com trajes tipicos da Alemanha. Como conjunto quem inaugurou o Jardim da Cerveja foi “Os Cambitos”: Manoel Carlos Sampaio Mattos,o Mané, Abdo Germano Maluf, Artur Rebocho e José Roberto Rebello. Para dar suporte a banda foram contratados músicos de alto nível. Usberti era um deles, tocava saxofone. João Francisco de Mattos tocava xilofone, piano. Traziam grandes sucessos para se apresentarem no Jardim da Cerveja. Havia show até de patinadores profissionais. Sérgio Reis no auge do sucesso com “Coração de Papel” veio se apresentar. Grandes bandas se apresentaram no Jardim da Cerveja. O salão de cima era para os mais jovens, o casal ia com os filhos, se os filhos não quizessem ficar naquele ambiente mais clássico, iam para esse salão de cima onde tocavam os conjuntos mais modernos. Anexo ao prédio,na esquina com a Avenida Independência, havia uma casa muito bonita, essa casa era uma época o Chick-Inn, montaram no andar superior uma boate chamada Barbarella, baseada no filme com esse nome, estrelado pela Jane Fonda. Era uma boate com nível de São Paulo.
O Jardim da Cerveja teve algum concorrete?
Depois do Jardim da Cerveja criou-se o Jequibau, ficava ao lado do Clube 13 de Maio, era de propiedade de Pedro Fúlvio Morganti, sobrinho de Lino Morganti, proprietário da Usina Monte Alegre. O Pedro Fúlvio criou o Jequibau para concorrer com o Jardim da Cerveja. Ele trouxe do Jardim da Cerveja o Cláudio de Brito. Foi uma casa que trouxe a Banda do Canecão, Chris Montez, Ronald Golias. Todo fim de semana tinha um artista de renome nacional ou internacional. Era frequentado pela elite de Piracicaba. Quando Pedro Fúlvio vendeu passou a ser Zimbaloo.
Qual é o motivo de ter cessado esses shows?
O que posso dizer é que foram épocas em que Piracicaba tinha uma vida noturna equivalente a da capital, guardada as devidas proporções. Francisco Ferreira em seu livro “Noites de Pira”, narra que tinha conjuntos musicais fervilhando em Piracicaba. No Jequibau vinha os Brazões, Papel Carbono, Fry Bananass que tinha entre seus integrantes o arquiteto Celso que se radicou em Piracicaba.
Como surgiram as gincanas em Piracicaba?
A Rádio Difusora de Piracicaba, “A Emissora das Grandes Realizações”, criou essas gincanas, em uma época abençoada pelos deuses. A gingana era feita passando uma lista com várias tarefas, que teriam que ser cumpridas pelas equipes. Por exemplo: trazer um corvo, iam todos ao matadouro buscar um corvo. Trazer uma caixa de fósforo de papel de 1962 com a estampa do Hilton Hotel. A equipe vencedora ganhava bons prêmios, tinha até automóvel como prêmio. Começava de manhã e durava o dia todo, era uma correria em Piracicaba. Comecei com a Eky-Pé-Chato, o Peru era o chefão da equipe. Fui para a Equype-Lanka quem tomava conta era o Seu Ito Marcon. Paulo Markun veio depois para trabalhar no jornal de João Hermann. As gincanas acabaram, essas equipes transformaram-se em escolas de samba. Décio Picinini vinha participar do carnaval em Piracicaba, saíamos juntos na escola de samba, eu tocava caxeta, agogô. Ele fazia parte do jurado do Programa Silvio Santos. Quando alguém daquele grupo nosso falece o Décio vem a Piracicaba. Quando fui Secretário de Turismo em Santa Bárbara D`Oeste, o prefeito era Hermínio Romano e seu braço direito era Maurício Cardoso, que escrevia Mini-Notas, promovi o primeiro carnaval com decoração de rua naquela cidade, que teve um jurado profissional.
Você participou da Banda do Bule?
Fui um dos fundadores da Banda do Bule. Embaixo da Rádio Difusora tinha um bar de propriedade do Balancini, chamava-se Café do Bule. Ali nos reuníamos, com Alceu Marozzi Righetto, Idico Peligrinotti, Paulinho que trabalhava na Secretaria do Turismo, Leopoldo que esculpia em pedaços de tábua, e outras pessoas que passavam por lá. Pelo fato de trabalhar a noite toda no “O Diário” frequentávamos muito o Café do Bule.
Se voce estivese morando em uma capital, estaria possivelmente comandando alguma estrutura de grande porte?
Acredito que se morase no Rio de Janeiro ou São Paulo, seria quase um fato natural estar inserido no meio cultural dessas cidade. Mesmo morando em Piracicaba, que é o lugar que amo, conseguia ter conexões com pessoas de grande visibilidade nacional. Recebi diversos convites para ir trabalhar em Ssão Paulo, eu era arrimo de família, não tinha coragem de deixar meus pais que já estavam com idade avançada.
Você tem um hobby?
Sou filatelista, numismata. Além de trabalhar com livros, gosto de livros. Tenho um livro sobre relações públicas. Publicado. Estou elaborando outros dois.



























EGÍDIO MAURO FILHO

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 18 de agosto de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/


ENTREVISTADO: EGÍDIO MAURO FILHO
Egídio Mauro Filho é piracicabano, nascido a 23 de novembro de 1955, filho único de Egídio Mauro e Olga Pinto Fonseca Mauro. Seu pai foi o que na época denominava-se Guarda Livros e o “braço-direito” de um dos grandes nomes da indústria açucareira brasileira, o senhor Pedro Ometto. Por 40 anos Egídio Mauro trabalhou na Usina Costa Pinto, ajudando a construir o complexo industrial Cosan. (Joint Venture formada entre Cosan e Shell, a Raízen é uma empresa brasileira responsável pela produção de mais de 2.2 bilhões de litros de etanol por ano). A professora Olga, mãe de Egídio Mauro Filho, lecionou no Porto João Alfredo. (Em homenagem ao senador João Alfredo Corrêa de Oliveira, autor do projeto da Lei Áurea, Em 1945, João Alfredo ganhou um novo nome, por determinação do CNG – Conselho Nacional de Geografia: Artemis). O casal comprou um sítio em Porto João Alfredo, em 1955. A propriedade produz cana-de-açúcar por 55 anos, é fornecedora da Cosan.
Você é um apaixonado pelo Rio Piracicaba?
Além da paixão pelo Rio Piracicaba, tenho um vínculo muito grande com Artemis, o meu pai comprou o nosso sítio no ano em que nasci, considero-me nascido e criado lá. O mundo foi nos ensinando que o uso múltiplo da água é benéfico á natureza, á saúde, á população. A água permite ser usada como meio de transporte, como forma de turismo e lazer. Através dela gera-se energia. A água permite inúmeras possibilidades de uso.
Seus estudos foram feitos em quais estabelecimentos?
Os três anos primários, eu estudei no Grupo Escolar Prudente de Moraes. Os 13 anos seguintes estudei no Colégio Dom Bosco, até concluir o científico. Mamãe cedinho ia dar aula em Artemis, ia de jardineira, como era denominado o ônibus da época, nós tínhamos uma casa na Rua Regente Feijó. Dessa casa é que eu ia para a escola. Eu gostava muito de futebol de salão, joguei bastante no Colégio Dom Bosco. Muitos padres jogavam futebol, entre eles o Pe. Bordignhon (Luiz Ignácio Bordignhon Fernandes) eu sou da turma do Gatãozinho, Serelepe, Mandi, João Pauli. Como legado dos padres salesianos ficou uma educação que preservamos para o resto da vida.
Você fez cursinho para prestar o vestibular?
Fiz um pouco no CLQ e fiz no Objetivo em São Paulo. Eu tinha conquistado o recorde brasileiro de levantamento de peso pelo Clube de Regatas de Piracicaba, na época foram 100 quilos de arranco e 135 quilos de arremesso, isso foi em 1975. A disputa foi em São Paulo, no Clube Pinheiros. O Clube de Regatas desfiliou-se da Federação Paulista de Levantamento de Peso, eu fui convidado a treinar no Clube Pinheiros custeando os meus estudos no Curso Objetivo, no prédio da Gazeta na Avenida Paulista. Eu morava na casa de um parente em Santana, ia de metrô ao cursinho, e a noite ia ao Clube Pinheiros treinar. Aumentei o recorde para 105 quilos no arranco. Entrei na Faculdade de Agronomia em Espírito Santo do Pinhal, com isso interrompi o treinamento de levantamento de peso. Em 1980 me formei como engenheiro agrônomo. Trabalhei na Usina Costa Pinto, como estagiário, depois como agrônomo. Permaneci lá de 1977 a 1984.
Você é casado?
Sou, conheci a minha esposa na casa de uma tia dela em Piracicaba, ambos tínhamos 17 anos. Eu tinha muita amizade com o pai dela, pescávamos juntos, mas não aconteceu de ele a apresentar para mim. Seu nome é Marisa Modesto de Paula Mauro, ela cursou Ciências Domésticas na ESALQ. Casamos em 1981 na Matriz da Vila Rezende, o celebrante foi o então padre, hoje monsenhor Jorge, um corintiano roxo. O casamento foi no dia em que o Corinthians jogava, ele estava com tanta pressa em assistir o jogo que nem juramento eu fiz. Após 30 anos de casado ele abençoou o nosso casamento, foi quando ele me fez fazer o juramento.
Vocês têm filhos?
Temos quatro filhos: Tatiana formada em Comércio Exterior, Karina que é veterinária, Egídio Mauro Neto agrônomo, Caroline Modesto de Paula Mauro agrônoma também.
Como você fazia para ir até Espírito Santo do Pinhal?
Morávamos em quatro na República Piracicaba: eu, Marcos Trevelin filho do Dr. Trevelin da ESALQ, Alberto Saliba filho do Dr. Wahibo Saliba e Ernani Dias Gonzaga sobrinho do Sinhô. Eu ia com uma Veraneio ano 1973, que tenho até hoje. Era rosê metálico, hoje é azul. Andei 600.000 quilômetros com ela a gasolina, depois retifiquei o motor, em 1979 o Consentino retificou o motor, passou a álcool andei mais 400.000 quilômetros. Em 1997 passei o motor para diesel.
Você tocou na fanfarra do Dom Bosco?
Eu tocava bumbo, tínhamos um uniforme muito bonito. Aprendemos a ter civismo.
Você freqüentava cinema?
Freqüentava cinema, tinha aulas de judô com os irmãos Mubaraki, que tinham a academia em cima do Cine Polyteama.
O que você acha da pratica de esportes, de uma forma geral?
É imprescindível para todos os jovens. O jovem que pratica esportes tem uma herança fantástica no seu rumo de vida. É um complemento da educação. No esporte se aprende muito, inclusive a respeitar o próximo. Atualmente ando muito â cavalo e caminho bastante. Por 30 anos fiz romaria de Piracicaba até o Cristo na Fazenda Barreiro Rico, são 65 quilômetros e 11 horas de trajeto.
Você é um apaixonado pelo campo?
Eu gosto demais, sou muito apaixonado. Faz 32 anos que estou lá, meus filhos foram criados no sítio.
Existe uma ponte de ferro, tradicional em Artemis, é verídico o fato de aviadores passarem sob ela?
Kazuo (Mário) Myazaki, Tito Botene passaram.
Qual é o simbolismo da ponte de ferro para Artemis?
É um marco, ela foi construída na época em que se cogitava em levar a estrada de ferro além da estação de Artemis, passando por Anhembi indo até Botucatu. Ela foi dimensionada para trafego pesado. Foi construída em 1917 com tecnologia e material inglês. Artemis é banhada pelo Rio Piracicaba, a distância entre margens varia de 80 a 100 metros. A profundidade onde era a balsa da usina chega a ser de 4 metros. A média é de 1 metro e meio de calado. Artemis quando se chamava Porto João Alfredo, foi um terminal de cargas. Tínhamos a integração de transporte ferroviário, fluvial e terrestre. Havia uma pequena estação para passageiros e depois a própria ferrovia fazia um trajeto em forma de pêra e passava na beira do rio, onde havia um barracão para armazenar carvão, madeira de lei, café. Eram embarcados para Santos.
Se uma pessoa subir em um barco de passeio em Piracicaba até onde pode chegar navegando?
Sai do centro de Piracicaba, através das eclusas já existentes via centro-oeste irá até São Simão, em Goiás. Até Pereira Barreto se navega pelo Tietê. Lá a CESP construiu um canal de 9 quilômetros de extensão ligando o Tietê a um rio denominado São José dos Dourados. represado tendo Três Lagoas de um lado e Jupiá de outro lado. Esse canal artificial ligou a hidrovia do Tiete ao rio São José dos Dourados, subindo o Rio Paranaíba até São Simão em Goiás. Há uma teoria que afirma que o Rio Tietê é um rio que nasce e morre dentro do Estado de São Paulo. O Rio Piracicaba nasce em Minas, corta o estado e desemboca no Paraná. Na minha concepção deveria se chamar Hidrovia do Piracicaba e não Hidrovia do Tietê-Paraná. O Tietê desemboca no Rio Piracicaba em Santa Maria, acima um pouco de Barra Bonita.
Você já foi até a nascente do Rio Piracicaba?
Cheguei bem perto. Ele nasce em Minas depois é formado pelo Rio Atibaia e Jaguari, em Americana, onde passa a ser denominado Piracicaba. É um rio federalizado, corta dois estados da federação. Por isso qualquer tipo de estudo, de impacto ambiental a ser feito nessa hidrovia como a barragem de Santa Maria, tem que ser feito através do (EIA / RIMA) Estudo de Impacto Ambiental Relatório de Impacto Ambiental em âmbito federal junto a Secretaria de Meio Ambiente Federal. O Rio nasce em Minas, cruza São Paulo e desemboca no Paraná. Desde que feito um estudo de impacto ambiental e para seguir esse estudo tem que haver medidas mitigadoras para esse processo, são aquelas destinadas a prevenir impactos negativos ou reduzir sua magnitude. Se derrubar uma peroba centenária em contrapartida deve ser plantada 100, 200, de acordo com o estudo. Não dá para parar um progresso por causa de uma peroba, certa espécie de rã, que estão lá. Cria-se outro habitat com facilidade. Temos técnicas super avançadas, técnicos de competência reconhecida no mundo todo, que muitas vezes ficam cerceados por haver certo xiitismo (situação em que o indivíduo tem opiniões, posições e atitudes extremamente radicais) por parte do Meio Ambiente em cima dessas leis.
Há um “engessamento” feito por pessoas despreparadas?
Tenho um grande sentimento, obtido em grandes audiências públicas, de que essas pessoas não participam de nada, no decorrer de todo o processo não fez sequer uma descida de barco, não conhece nada, e às vezes vem colocar certos empecilhos absurdos. Sem embasamento técnico nenhum. Sente o prazer de contestar, ganhar poder, projeção.
Navegando você saiu de Piracicaba e foi até qual lugar?
Saímos de Piracicaba e fomos até São Simão, em Goiás. Foram 1.1000 quilômetros, 11 dias de viagem, isso foi na comitiva com José Luiz Guidotti, fomos em 11 barcos de recreio, com motor de propulsão de 25 cavalos, seis metros de comprimento, bordas altas por causa da represa, largura de 1 metro e 20 centímetros a 1 metro e sessenta centímetros. Dormíamos em barracas e fomos acomodados por todas as prefeituras, a CESP Companhia Energética de São Paulo nos deu apoio. Fizemos um reconhecimento do Vale dos Rios Tietê, Piracicaba e consequentemente do Rio Paraná.
Como está a mata ciliar desses rios?
Saindo do Município de Piracicaba, você não se vê mata ciliar. Está tudo tomado por plantação de cana de açúcar até São Simão.
Isso é legal?
É um costume que existia, da Constituição de 1988 para cá é que começou a se dar ênfase a determinados recuos de 80, 100 metros. Está sendo obrigado a fazer a reposição, em determinados estados é obrigatório a reposição de 20% das matas naturais. Houve um desmatamento desordenado na ocasião em que foi feita a represa de Barra Bonita, a cota 453 (altura com relação ao mar) é o topo da barragem de Barra Bonita. Quando começou a encher começou um desmatamento para não ficarem os galhos no meio da água. Em muitos lugares tem muitos tocos, como no Tanquã por exemplo. Fecharam as comportas, encheram e não deu tempo de fazerem a limpeza que deveria ser feita. Hoje é feito um estudo para que haja a compensação do que vai se perder é disponibilizada uma verba grande para que essas medida sejam mitigadas da melhor forma possível. Se for sumir uma peroba, um jequitibá, será recuperado em uma área livre de qualquer inundação. A própria fauna é tratada com cuidados especiais.
Quais são os peixes típicos do Rio Piracicaba?
Sem querer ser bairrista, o Rio Piracicaba é o rio mais piscoso do mundo. Chega a ter 25 a 30 espécies de peixes, com grande volume. Não é um rio poluído. O maior poluídor do Rio Piracicaba é o esgoto urbano da Grande Campinas. Esporadicamente temos casos isolados de estouro de algum tanque, há dois anos em Limeira houve um acidente com um tanque de tratamento de uma indústria que trabalha com bijuterias. Através do Ribeirão do Tatu caiu muito metal pesado no Rio Piracicaba, veio parar em Artemis e foi uma desgraça. Isso é um fato isolado que foi controlado.
O esgoto urbano de Campinas não é tratado?
Dizem que tratam, mas vimos os problemas ocorridos na SANASA, investimentos errôneos, cassação de prefeito. Desmandos, mal uso do dinheiro público. Há 10 anos tivemos uma reunião do consórcio PCJ Piracicaba, Capivari, Jundiaí composto por 68 cidades.
Você faz parte de alguma associação?
Sou representante da região de Artemis, da Associação dos Moradores de Artemis. Estou na comissão que cuida dos passos dessa nova obra de Santa Maria.
Essa obra afinal será mesmo realizada?
Com certeza. Hoje temos a figura do empreendedor que não existia há 12 anos. A CESP não tinha interesse em transporte. Ela produzia represas, barragens para gerar energia.
Você tem idéia da relação custo e benefício da navegação fluvial de carga?
É uma relação extremamente favorável para a economia. Um comboio no Tietê/Paraná é composto por um empurrador com dois motores fabricados pela Mercedes Benz, Scania, motores grandes, empurra quatro barcaças totalizando a mesma quantidade transportada por 178 carretas de 30 toneladas cada uma, são 7.500 toneladas. Dois motores empurram o que 178 motores transportariam. Você tira 178 caminhões das pistas, cada caminhão tem 30 pneus, economiza combustível, mão de obra, pedágio. A relação custo/benefício é excelente. Isso para produtos de baixo valor agregado. Você não irá transportar porcelana chinesa em barcaças.
Por que o país desperdiça tanto dinheiro?
É um absurdo! O lobby rodoviário, o investimento exclusivo na indústria automobilística, gera um desconforto com relação a nossas autoridades nesse sentido. O mundo inteiro opera hidrovia, ferrovia, inclusive transporte marítimo.
Você vê a possibilidade do governo cobrar pedágio em vias fluviais?
Acredito que não. Não existe manutenção, as eclusas depois de feitas sofrem apenas a ação das águas. Pode ser que exista um lobby do próprio governo, das montadoras de veículos, das empresas de transporte. Hoje entendemos que o transporte rodoviário entrou em colapso. Uma carreta que sai de Piracicaba com vergalhões, com destino ao Rio de Janeiro, não tem carga no seu retorno. Ela vem em cima do trem até São Paulo, onde carrega farpas de papelão para trazer à Klabin em Piracicaba. Do Rio de Janeiro vem em cima do trem, não paga pedágio, não gasta combustível, nem desgasta pneu. O motorista vem descansando em cima. O transporte rodoviário a longa distância é totalmente inviável por rodovia. Jamais podemos fazer o que fazemos, mandar de Paulínia para Cáceres um caminhão de óleo diesel, são 3.000 quilômetros de percurso. Sendo que esse óleo pode ser enviado por hidrovia. Um comboio leva o equivalente a 173 caminhões. Não justifica vir de Araçatuba para buscar 13 toneladas de óleo diesel. Artemis deverá ter um duto de liquefeitos que está previsto pela Transpetro. Há a possibilidade de através de duto levar produtos liquefeitos de Paulínia até Artemis.
Isso não é apenas um sonho?
Isso é um projeto que já existe. O resto do mundo opera assim.
Há governantes que se dizem preocupados com chamado custo Brasil. Essa seria uma das frentes a ser trabalhadas?
Ninguém fala nada a respeito. O lobby rodoviário tem que entender, e já está entendendo, que o transporte de ponta é muito mais rentável do que o de longa distância. Não se justifica transportar soja através de 3.000 quilômetros por rodovia. Se não for ferrovia, hidrovia ou marítima é inviável. A empresa de transporte pode operar as pontas. Nossas hidrovias têm 2.400 quilômetros já navegáveis, pode se chegar até Foz do Iguaçu. Pode ser carregado um comboio aqui em Artemis e ir até Itaipu, com o equivalente a 170 carretas de óleo diesel, por exemplo. Através de barcaças até Cáceres se transporta sem dificuldade nenhuma. Não cai um pingo de óleo na água, não há poluição. Na década de 50 quando foi feita a represa de Barra Bonita, soltaram tantos alevinos que hoje é necessário colocar o tucunaré para realizar o equilíbrio natural das espécies. Há determinadas épocas que existem muitos peixes por metro cúbico de água.
Qual peixe é o rei do Rio Piracicaba?
Há pouco tempo era a tilápia. Houve uma pesca desenfreada por parte de pescadores profissionais, havia mais de 400 pescadores, chegaram a tirar até 100 toneladas de tilápia por dia do Rio Piracicaba. Havia três frigoríficos operando, iam para a Bahia, para Florianópolis, de onde traziam camarão. Hoje persiste o curimbatá, a piava, muita piapara, pacu, mandi, muito dourado, muito pintado. A própria represa de Barra Bonita quando fez o reservatório inundou 14.000 alqueires de terras, na quota 453, que é o topo de barragem. O dourado de Piracicaba é um peixe de costa larga, gorduroso, não se exercita para poder pegar isca. A alimentação é tão abundante que ele come muito fácil.
A idéia é tornar Artemis navegável?
Artemis já foi um terminal de cargas no passado próximo, 50 a 60 anos passados. Não precisou naquela época de Ciência e Tecnologia, IPT, Secretaria de Estado de Transporte. A vocação do Rio Piracicaba até Artemis era navegável, lógico que em pequena escala, de calado baixo. Empresas férreas mantinham depósitos lá. Hoje houve um aprimoramento técnico, os motores não são mais a vapor. Num futuro próximo poderão ser movidos por energia solar. Artemis deve atualizar o que já existia. O bicho homem acabou com as ferrovias, não temos calado suficiente para as barcaças tem que ser feita uma barragem em Santa Maria, o calado ideal para essas barcaças é de 2 metros e 80 centímetros. O comboio sai daqui e vai até São Simão ou até Foz do Iguaçu sem problema nenhum.
Essa barragem de Santa Maria é cantada e decantada há muitos anos.
Até então não existiam as figuras do empreendedor nem do investidor. Hoje já mudou. Dilma Rousseff foi até Araçatuba recentemente, em outubro do ano passado, onde estive presente, e ela fez o que não tinha acontecido desde a década de 50, quem fez as seis barragens existentes foi a CESP, foi o povo do Estado de São Paulo. A Dilma fez o investimento de 900 milhões em Araçatuba e o Governador Alkimin pôs mais 600 milhões, gerando recursos para a barragem de Santa Maria, com conseqüência em um terminal de cargas em Artemis. Não se trata de 50 quilômetros de Artemis até Santa Maria, que hoje não é navegável, estaremos trazendo 2.400 quilômetros para dentro do mercado consumidor. Já fizemos uma viagem com calcário até Hernandárias no Paraguai, um país que faz todo seu transporte de cargas por rodovia, passando pelo Brasil. Paranaguá chega a ter 60 quilômetros de fila de caminhões na espera para descarregar no porto. Precisamos aplicar em Artemis um pouco da técnica que existe e vimos no Mississipi, no Tennessee. Estive por três vezes naquela região para conhecer com profundidade o EIA/RIMA, como foi feito. Os rios Tennessee e Mississipi banham oito estados da federação. Fizemos aqui Relatório Ambiental Preliminar – RAP 1 e 2. Esses estudos geraram 11.000 páginas. Estivemos na sede do Tennessee Valley Authority (TVA), O EIA/RIMA do Tennessee e do Mississipi tem 180 páginas! Dá para ler e dá para fazer. Tivemos a oportunidade de conhecer uma tribo Cherokee, antes era um vale tão fundo que nem corvo chegava. Quando se inundou foi criada uma réplica de toda a tribo que os índios tinham, em nível de vertedouro, que nunca irá ser inundada. Em fins de semana passam barcos com 600, 800 a 1.000 turistas. Os índios comercializam todos seus produtos típicos, alimentos, cobram muito bem para posarem em fotos com turistas. Tornaram-se ricos, andam de helicópteros, caminhonetes. Esse é o desenvolvimento sustentável.
Algo semelhante pode acontecer na nossa região?
No mínimo serão gerados 100.000 empregos indiretos. O turismo será fantástico. Cria-se um lago. Artemis terá uma marina natural. A proposta é de colocar mais 4 metros acima da cota de Barra Bonita que teria cota 453, e nas imediações do Tanquã cota 457 tendo 2 metros e meio a 3 metros de calado que precisa em Artemis.
Você fez várias viagens com técnicos da CESP e do IPT?
Fiz 56 viagens de barco com esses técnicos durante oito anos. Acompanhado de autoridades, barcos da CESP, helicóptero. Não foram medidos esforços, tudo foi esmiuçado. Sabemos onde está o jacaré do papo amarelo. A piava da casca dura. A perobeira centenária. No Rio Piracicaba tem muito peixe chamado cascudo, mandi. O que está acabando é o mandi branquinho, o mandi chorão, tinha muito, hoje está em extinção, o pato biguá, esse pato preto, tem predileção pelo mandizinho. Os recursos existentes hoje são maiores do há alguns anos. Temos a ESALQ, o CENA, a UNESP de Jaboticabal, existem catedráticos em piscicultura. Tive a oportunidade de estar na França, no Vale do Rhône, fomos de barco de Lion até Marselha, são 800 quilômetros, conhecendo todas as eclusas. Lá foram abolidas as chamadas escadas de peixe, foram transformadas para fazerem campeonatos de caiaque. Ha irrigação de videiras com águas retiradas do Rhône. Foi dada uma concessão para a Companhia Nacional do Rhône usar por 100 anos. Nós temos em Piracicaba órgãos altamente qualificados para estar repovoando a área que irá ser degradada. Inseminando uma fêmea e colocando em cativeiro, colocam-se milhares de alevinos no lago. Onde será a barragem o Rio Piracicaba terá 1200 metros de largura. Empresas particulares têm interesse em aproveitar a energia que será gerada.






BENEDITO AUGUSTO DE MOURA

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 11 de agosto de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
ENTREVISTADO: BENEDITO AUGUSTO DE MOURA
O professor e engenheiro agrônomo diplomado pela ESALQ- USP é uma entidade cultural. Fluente em diversos idiomas, leitor de obras em suas línguas de origem, obstinado, não se acanha em apenas ser colaborador com artigos, ele também publica seu próprio jornal desde 1991, a Gazeta Regional. Seu amor a cultura transcende valores mensuráveis. Têm inúmeros títulos, obtidos dentro e fora do país. Deu aulas de aperfeiçoamento de línguas para mestres de primeira grandeza. Benedito é possuidor de um currículo invejável, não só pela riqueza do seu conteúdo, mas pela sua diversidade de atuação. A amplitude do seu envolvimento em atividades das mais diversas possíveis, como voluntário em entidades filantrópicas, ativista cultural, a complexidade de suas atuações envolve ser professor acadêmico, Presidente da Liga das Escolas de Samba de Piracicaba, Diretor da Unidos Futebol Clube. Criou passeios de barcos, a PiraPesca, Já participou de filmes educativos. Membro fundador do Centro de Documentação, Cultura e Política Negra de Piracicaba. O seu extenso currículo é coroado pela qualidade dos sábios: a humildade. Nascido No município de Tietê na Fazenda Capuavinha a 18 de junho de 1942, sendo registrado em cartório como nascido a 18 de julho de 1942. Filho de Bento Augusto de Moura e Luiza da Silva Moura. Seu pai exerceu diversas atividades, foi lavrador, agrimensor. Grande parte das propriedades mais antigas da região foram medidas por ele. Ele trabalhava como empreiteiro, a pessoa adquiria uma propriedade no mato, ele limpava a área, construía umas casas e entregava pronto ao proprietário. Seu Bento participou de muitas comemorações de entrega de boiadas a fazendas, quando o fazendeiro roçava uma área e a diversão do pessoal era montar em burros xucros, cavalos, bois. O rodeio da época era uma diversão muito diferente dos existentes hoje. No Horto de Tupi, o pai de Benedito Moura realizou o plantio de muitas árvores. Uma importante contribuição do seu pai foi ajudar o Estado a descobrir a localização regional das minas de calcário na região de Piracicaba, Tietê, ele conhecia isso tudo. Acompanhou um engenheiro designado pelo Estado indicando as áreas mais ricas em calcário. Seu Bento chegou a ser convidado a explorar calcário para ser utilizado na construção de Brasília. Não aceitou por achar que era uma tarefa imprópria a sua idade que já tinha avançado através dos tempos, era um homem nascido em 1894. Sua esposa nasceu em 1910. Os pais de Benedito moraram muitos anos com a família no Bairrinho, onde seu pai cresceu, a sua mãe cresceu na região de Manduca Coelho.
Qual é descendência do seu pai?
Ele era descendente de índios, falava fluentemente tupi-guarani. Tinha dois primos da mesma descendência, eu ainda menino os escutava conversando em tupi-guarani, mas não entendia nada. Ele me dizia: “Se avô foi pego a laço!” A minha avó paterna, Maria Luiza de Jesus, era descendente de europeu com negro. Meu avô paterno chamava-se Augusto Basílio da Cruz. O meu bisavô Belarmino (nome adaptado ao português) veio do norte da Áustria, sul da Alemanha, foi um grande proprietário de terras na região de Cabriúva, próximo a Itu. Uma mostra da sua importância é que minha avó apesar de ser filha de europeu e negro foi aluna do colégio aristocrático de Itu. Isso significa que meu bisavô deveria ter muita importância e muito dinheiro.
Na sua formação genética há diversas origens?
Tenho ascendentes índios, negros e europeus.
Além do senhor quantos filhos o seu pai teve?
Meu pai contraiu núpcias duas vezes, com sua primeira esposa teve quase 10 filhos, dos quais estão vivas apenas duas filhas, após ficar viúvo casou-se com a minha mãe com quem teve mais quase 10 filhos dos quais restam 4 irmãos. Sou o antepenúltimo dos filhos, abaixo de mim tem uma irmã e um irmão. Sou o único filho nascido em Tietê, quando meu pai foi administrar a fazenda de um compadre seu. Voltamos à Piracicaba e fomos morar na esquina da Rua Dr. Edgar Conceição com Rua Benjamin Constant, onde hoje existe a Padaria Apolônio. Dois quarteirões acima havia uma área muito grande pertencente ao meu avô materno Jeremias Correia da Silva casado com Luiza Borba, ele foi um dos primeiros, senão o primeiro, a fabricar doces artesanais. Um pouco mais abaixo na época era em grande parte plantação de algodão, nas imediações mais tarde foi construído o Cine Paulistinha. Até hoje existem muitas pessoas em Piracicaba que eram fregueses do meu avô.
Quais tipos de doces ele produzia?
Eram doces caseiros: goiaba, mamão, marmelo, abacaxi. Eu devia ter uns 10 anos. Quando ele ia entregar os doces para as clientes dele no centro de Piracicaba, ele mandava minha mãe, minhas tias, a cortarem doces e pequenos pedaços e dizia: “ Põe tal quantidade desses pequenos doces, irei encontrar crianças que não tem como comprar doces”. Ele então dava um pedacinho de doce para a criança não passar vontade. Era conhecido no centro da cidade como padrinho. Ele andava o centro todo. Uma das suas freguesas era a família Rodella. Antonio Francisco Rodella estudou comigo na agronomia, sua mãe era cliente do meu avô.

O senhor reside em uma propriedade que foi adquirida pelo seu pai?
Meu avô materno vendeu a área de terras que possuía e doou a cada filho aquilo a que tinham direito. O meu pai com aquele dinheiro adquiriu o terreno onde construiu a casa onde moro atualmente. Cresci na Avenida São Paulo, quando ainda era uma estrada de terra. Passava boiada, era estrada de carroça, carro de boi, vi tudo isso aqui na atual Avenida São Paulo. Na frente da minha casa corria esgoto a céu aberto. Em frente a minha casa era a colônia de casas de uma fazenda, a Fazenda do Ditoca. Na esquina de cima, perto do Posto São Luiz, havia a caixa de água que fornecia água para a fazenda, brinquei dentro dessa caixa d água quando era criança, já não tinha mais água, ele estava vendendo a fazenda. Já não havia mais lavoura, estava uma área meio abandonada. Onde está o Posto São Luiz (em frente ao Bradesco da Avenida São Paulo), era um campinho de futebol, o Bortoleto adquiriu aquela área e construiu o posto. Assisti a abertura da Avenida 23 de Maio, quando os tratores iniciam os trabalhos. Foi uma contenda muito grande entre a família Furlan, proprietária da área, e o então prefeito Luciano Guidotti, lembram-me muito bem quando Luciano Guidotti veio conversar com o Orlando Furlan. Na Avenida São Paulo com a Avenida 23 de Maio era a Chácara do Furlan, ia até a Rua Benjamin Constant. Jardim Esplanada, toda essa área era do Furlan. Luciano Guidotti desapropriou dando origem ao Jardim Esplanada, ali havia um campo de futebol onde joguei bola.
Você era bom de bola?
Quem me conheceu dizia que eu era um bom jogador de futebol, jogava como meia direita. Inclusive treinei no XV de Novembro, não permaneci porque não queria ser profissional de futebol, naquela época não dava dinheiro. Joguei no “Leão da Montanha” na época de Coutinho. Conheci Coutinho antes de ele ir jogar no Santos Futebol Clube. Assim como assisti Waldemar Blatkauskas jogando basquete.
Onde o senhor reside, Avenida São Paulo é Paulista ou Paulicéia?
Nós que crescemos na Paulicéia a divisa entre Paulicéia e Paulista chama-se Rua Benjamin Constant. No sentido centro-bairro, do lado direito é Paulista. Lado esquerdo é Paulicéia.
O Supermercados Brasil divulgou sua loja número 3, ao lado do Posto São Luiz, onde hoje há uma fábrica de salgados, como sendo a unidade Paulista, isso consta em diversos anúncios veiculados na época.
Posso dizer que por onde ando e perguntam-me de onde sou respondo: “-Sou da Paulicéia!” faço questão de frisar. Quando vim morar aqui a cidade terminava na Rua Ingá. Daí para cima era mato. Tinha a igrejinha da Paulicéia. Eu ia à missa lá.
E o Bairro da Coréia onde era?
O nome Coréia apareceu aqui na Paulicéia. Exatamente onde moro. Aqui era a Coréia. O nome Paulicéia já existia há muito tempo antes. Em 1950 existia a Guerra da Coréia, e no bairro da Paulicéia havia muita briga, muita facada, muito crime, muitos tiros, era violentíssimo. Principalmente para quem não morava no bairro. Quem não era do bairro não passava do antigo pontilhão da Paulista, hoje nem tem mais esse pontilhão, foi retirado da Rua Benjamin Constant logo acima da Avenida Dr. Paulo de Moraes.
Por que a Coréia era violenta?
Veio muita gente de fora de Piracicaba para trabalhar na lavoura da cana de açúcar, naquela época trabalhavam cortando cana até as cinco horas da tarde. Eles vinham receber o pagamento após as seis horas da tarde do sábado. Embriagavam-se com aguardente nos botecos existentes no bairro e saia muitas brigas. Por motivos banais. Na Rua Dona Ilidia Bachi havia um arnmazém do Cassieri, já falecido, na esquina de cima havia o armazém da família Ercolin, na Rua Dona Hilda esquina com Rua Fernando Lopes. Eram os armazéns que forneciam alimentaçao para os cortadores de cana, ali é que acertavam as contas. Existiam duas famílias no bairro que deixo de mencionar seus nomes em respeito a seus descentes, mas ambas viviam brigando entre si. Sábado a tarde e no dimingo eram brigas constantes, com o uso de arma branca principalmente. A polícia não vinha na Paulicéia. Tanto que na Paulicéia existia uma pequena cadeia, ficava na esquina da Avenida São Paulo com a Rua Dona Hilda. A polícia vinha de caminhão com 10, 12 a 15 soldados. Um soldado ou dois não andavam na Paulicéia. Apanhavam. A autoridade policial aqui era João Marcelino, ele era o inspetor de quarteirão na época. Meu pai, Bentinho de Moura que era muito respeitado na Paulicéia. Foi assim que surgiu o nome Coréia, diziam: “A Paulicéia é uma Coréia”. Veio para cá o Cabo Trevisan, ele montou a cadeiinha, a polícia permaneceu aqui. Foi assim que a Paulicéia começou a ser apaziguada. Esses fatos aconteceram há mais de meio século.
O que aconteceu com o nome Coréia?
Denominaram Coréia um pedaço de bairro um pouco mais acima, cujos moradores não gostam de divulgar o bairro por essa denominação. É uma denominação pejorativa para quem mora ali. Se você perguntar onde é a Coréia irão dizer que é ali em cima. O povo quer que ali seja denomnado de Nova Paulicéia.
A estrada para Tietê era esse mesmo traçado?
Era. Quando você chega no antigo Posto Menegatti, à direite há a Avenida Laranjal, ela recebeu esse nome porque ali corria o ônibus que ia para a cidade de Laranjal Paulista. Existiam duas estradas, uma ia para Tietê e outra ia para Laranjal.
Você conheceu uma árvore enorme que havia logo na saída de Piracicaba?
Conheci. Era um jequitibá. Não vou dizer extamente onde ficava por não saber quem colocou fogo na árvore. Sei muito bem onde essa árvore estava. Estudei no Grupo João Conceição, ao lado da Igreja dos Frades. Fiz o curso primário lá, quando chegava o Dia da Àrvore, era feita uma caminhada até a Paulicèia para conhecer o jequitibá da Paulicéia. Lembro-me que a professora dizia: “- Essa àrvore tem a idade do descobrimento do Brasil”. Tinha mais de 400 anos, era uma àrvore monsturosa. Como essa árvore era reprsentativa, diz a história que quem doou essa àrea inclusive cercou o acesso a mesma. Um dia alguém colocou fogo nas raízes do jequbá.As especulações a respeito de quem cometeu o ato crimnoso são inumeras, porém nunca apuradas. Eu chgei a ver o jequitibá queimando. A Avenida São Paulo após a Rua Ingá já era estrada.
Aonde era o posto de gasolina mais próximo?
Era o posto de gasolina Cantagalo, na Rua do Rosário.Onde está o depósito de areia escritorios e garagem do Bonato, era prporpriedade da Compamnhia Paulista de Estada de Ferro, ocupado por essa empresa. Ali começava a carregadeira de boi da Cia. Paulista. Quando pequeno ia assistir o embarque e desembarque de boi, começava ali e vinha até a Rua do Rosáriio, onde hoje há um portão e de ferro e um muro impedindo o aceso ao local. Da Avenida Nove de Julho até a Rua do Rosário era para realizar carga e descarga de boi. A Avenida São Paulo era uma estrada de carroça. Como era a Avenida João Conceição.
Conheceu o Rancho Alegre?
Eu estive no lugar quando havia festa. Era um lugar muito bonito. Da Rua Antonio Bacchi já enxergava o Rancho Alegre, bonito. Era uma chácara muito bonita, lá tinha festas, batizados, casamentos. A Rua Ingá assim denominada por ter pés de ingá era a entrada para o Matão hoje Jardim São Paulo. O Itapuã não existia, foi o Pedro Habechian que loteou. Um história curiosa é que no final da Rua Ingá, denominado então Matão, ali morava um professor chamado João, ele descia a pé a Rua Ingá, a Avenida São Paulo e ia dar aulas. Na Paulicéia só havia um carro, que era do Seu Bento Batatinha. Ele tinha um carrinho que funcionava como taxi na Paulicéia, Onibus nem existia no bairro. Tinha muitas carroças. A Avenida São paulo era chamada de estrada de carroças. Onde hoje é a Femaq, toda aquela região era plantação de eucalipto. Orlando Furlan era de Rio das Pedras, onde tinha um engenho de pinga, na Fazenda Pinheirinho. Ele tinha uma visão comercial muito grande, viu aquele mundo de eucalipto e resolveu comprar. O povo admirou-se, imaginava o que aquele homem iria fazer com tanto eucalipto. Era a época em que não existia botijão de gás. Só ricos tinham fogão a gás. Os pobres tinham que sair para pegar lenha. Onde era a chacara em que ele morava, ele instlou uma máquina de cortar eucalipto e um machado mecânico para rachar a lenha, com isso ganharam muito dinheiro. A mulherada não precisava esperar os maridos buscarem paus no meio do mato. Havia um trânsito enorme de carroças que levavam as lenhas produzidas pelo Furlan. Depois que a Paulicéia se acalmou, começou a crescer. Perto do Posto São Jorge houve uma época um posto da Guarda Noturna. Nesses últimos sessenta anos só morei fora da Pulicéia quando trabalhei como agronomo no Paraná, Santa Catarina. A Rua do Rosário terminava na Estação da Paulista. Quem morava na Paulista, acima da estação, só tinha um jeito de ir para o centro, tinha que passar o pontlhão sob a Rua Benjamin, que tinha duas mãos de direção.
Quem subia a Madre Maria Teodoro, ou na época Estrada do Enxofre, como fazia para chegar a Rua do Comércio ou Rua Governador Pedro de Toledo?
Eu só conheço a existência da Rua Benjamin Constant para chegar na Rua do Comércio. conheço a passagem para quem vinha do Anhembi tinha que passar pela Rua Benjamin. Era a única rua que atravesava os trilhos. Os ônibus que iam para Anhembi, Botucatu tinham ponto no Largo São Benedito subiam pela Rua Benjamin Constant. Frequentávamos as missas na Igreja dos Frades, a Avenida São Paulo era barro, lavávamos os pés bem na entrada da Rua Benjamin Constant, onde havia um chafariz, ao lado havia um barbeiro chamado Colina. Calçavamos umas sandálias com sola de borracha de pneu, quem as fazia era um sapateiro chamado Pantaleão. Resolveram asfaltar a Avenida São paulo, como não podia haver transito nesse período, foi assim que nasceu a Avenida João Conceição , que está no Bairro Verde. Do lado do Morlet era a Chácara do Razera, fui buscar muito leite na Chacara do Razera. O bairro da Paulista sempre foi mais chique que o Bairro da Paulicéia. Quando acontecia um crime na Paulista publicavam como se tivesse ocorrido na Paulicéia. Eu tenho orgulho da Paulicéia.
Aqui tinha duas atividades muito conhecidas: futebol e escola de samba?
A escola de samba que ficou famosa aqui foi a que eu fui presidente: “A Imperatriz do Samba”. Fui o primeiro presidente da União das Escolas de Samba de Piracicaba, quando havia 11 escolas de samba em Piracicaba.
Você estudou no Grupo Escolar Dr. João Conceição
Exatamente funcionava ao lado da Igreja do Frades. Lembro-me das professoras Domitila e Verza Filetti. Quando terminei o curso primário fui trabalhar com meu pai na roça, no Bairrinho, plantar milho, feijão. Fiquei até aos 14 anos. Fui estudar no SENAI de onde sai como ajustador mecânico. Fui trabalhar na Mepir, na Rua Riachuelo. Após fazer o SENAI fiquei mais cinco anos trabalhando na Mepir. Sai de lá fui ser vendedor de passagens na rodoviária de Piracicaba. Fui o primeiro funcionário da Viação Monte Alegre, que fazia a linha Piracicaba a Rio das Pedras. Fui fazer o Curso Normal no Instituto Marta Watts. Quando estava terminando o curso, tinha uma moça cuja família me considerava bastante inteligente, a mãe dessa moça disse minha filha vai prestar vestibular, você não quer estudar junto com ela, eu pago o cursinho para você. Naquela época ou você fazia vestibular na agronomia ou odontologia. O exame era feito pela própria ESALQ. Isso foi em 1968. Passei. Entrei na agronomia, foi lá que descobri com o professor Arzola todos os pedidos feitos pelo meu pai, de analise das pedras do Bairrinho, que era calcário.Fui aluno de Guido Ranzani, do Moacir Camponês através de quem fui fazer estágio na Amazônia. Tive como professor Salvador de Toledo Pizza, do Malavolta, Salim Simão. Nakano. Em 1975 me formei. Sai da Esalq empregado. Fui trabalhar na Cooperativa Central Agropecuária do Paraná, em Curitiba. Por motivos familiares voltei para o Bairrinho, fui ser produtor de cana. Iniciei a plantação de soja na região. Passei a ser comerciante de soja. A minha esposa é agrônoma, fazia receitas aplicando soja. Fui criando um mercado.
Em que ano você se casou?
Sou casado com a engenheira agrônoma Ana Lúcia Bottosso de Moura em 18 de fevereiro de 1978 na Igreja Bom Jesus, nos conhecemos na ESALQ. Temos dois filhos e uma filha: Lucas, Bento, Carolina.
Como surgiu a Gazeta Regional?
Gosto muito de ler, leio de tudo Meu pai dizia “- Se você quer saber sobre alguma coisa tem que saber ler, porque alguém já escreveu sobre o que você quer aprender”. Fui diretor de imprensa do Calq. Em novembro de 1991 saiu a primeira edição de “O Regional”, havia um professor da Unimep, descobri que ele tinha inventado em fazer um jornal chamado Gazeta do Bairro Alto. Tirei Gazeta e deixei só Regional. Passou algum tempo encontrei-me com ele e fiquei sabendo que ele tinha abandonado a idéia. Com isso voltei ao nome original “Gazeta Regional”. Começamos semanalmente, fiz uma reestruturação, já cheguei a ter tiragem de 10.000 exemplares. Normalmente a tiragem é de 4.000 exemplares.






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