Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, abril 28, 2013

SANTO PAVANELLI

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 27 de abril de 2013
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/




ENTREVISTADO: SANTO PAVANELLI

Santo Pavanelli nasceu a 12 de dezembro de 1933, no bairro rural Volta Grande, na Fazenda São Luiz, foi criado na Fazenda Olho D`Água. Filho de Fermino Pavanelli e Maria Oriani, lavradores, tiveram nove filhos: Luiz, Durvalino, Cesário, Guerino, Antonio, Henrique, Fermino, José e o caçula Santo. Em 1939 a família mudou-se para a Fazenda Olho D`Água, lá Santo foi matriculado na Escola Mista da Fazenda Olho D`Água onde sua primeira professora foi Dona Maria Pedreira de Lima. Nessa fazenda era cultivada fumo, batata, cebola, alho, feijão, arroz e milho, além de lavouras convencionais para tratamento de suínos como abóbora, mandioca. Seu pai foi radicalmente contra o plantio da cana de açúcar. A fazenda era de João Rodrigues de Moraes. Tinha 12 casas de colonos.


Como era uma casa de colono?


Eram dois quartos de barrotes, sala, cozinha com fogão a lenha, e chão batido. A cobertura nos quartos e sala eram feitas com telhas de barro e o resto era sapé. As camas tinham colchões feitos de palha de milho. Uma delícia.


Que idade o senhor tinha quando a sua família mudou-se para a cidade?


Quando nós viemos para a cidade de Piracicaba eu tinha 11 anos, foi em 1943. Fomos morar na Rua Cristiano Cleopath, 1440, era um bairro de ruas de terra, não me lembro se tinha esgoto ligado, água e luz tinham, o proprietário era Batista Rapetti, pagávamos aluguel. A casa era muito pobre. A área era de uns 10 metros de frente por uns quarenta metros da frente aos fundos. A casa tinha uns 60 metros quadrados. Ali meu pai fazia sua hortinha e tirava o sustento para a família. Os irmãos já tinham se encaminhado, o mais velho ficou na Fazenda Olho D`Água, alguns foram para São Paulo. apenas os três mais novos vieram com o meu pai: Firmino, José e eu. Meu primeiro emprego foi em uma fábrica de balas, a Atlante S/A, na época era onde hoje é a papelaria Kalunga, na Rua Governador Pedro de Toledo. Tratamos que me pagariam um salário de dois mil réis por hora, no final do mês pagaram só um. Eu empacotava balas. Nesse meio tempo meu pai adoeceu, eu não estava satisfeito com a empresa e sua forma de remuneração. Assumi a venda de bananas, fui trabalhar na rua vendendo bananas, ganhava mais do que trabalhando como empregado. Aos 14 anos perdi meu pai.


De onde vinham as bananas que o senhor vendia?


Quem fornecia era um atacadista de dentro do mercado municipal, Seu Pedro. Eu pegava de manhã, duas cestas de vime, cada cesta pesava de 10 a 12 quilos, para a minha idade era um peso brutal, mas eu era um menino forte. Vendia no Bairro Alto, na Paulicéia, na Paulista, andava pela cidade inteira. Cada dia eu fazia um bairro. Usava como calçado alpargatas. Com isso eu ganhava o dobro do que tinha tratado com o meu ex-patrão. Eu trabalhava de segunda feira a domingo. Começava a trabalhar entre três e meia e quatro e meia da manhã. Tinha que selecionar a banana, não existia tecnologia nenhuma, tinha que escolher. Às vezes eu não comprava do atacadista, comprava dos carroceiros que vinham dos bairros Dois Córregos ou da Pompéia. Era uma banana melhor e com preço menor. As bananas naquele tempo eram mais cheirosas, tinham mais aroma. Eu sentia na carroça que vinha vender de Pompéia, aquele cheiro da banana. Lotava as duas cestas e ás 6 horas já saia do mercado. A pé.


A que horas o senhor terminava de vender tudo?


Às vezes até as 10 horas da noite. Eu tinha um compromisso comigo mesmo: “Vender 100 dúzias de banana por dia! São 1.200 bananas” Isso foi uma meta que estabeleci para poder em 1951 comprar um caminhão. O meu sonho já era alto. Era buscar banana em Iguape. E fui. No dia 8 de janeiro de 1951 comprei o caminhão do meu querido e amado Luciano Guidotti que me vendeu fiado.


Por quanto tempo o senhor vendeu banana a pé na rua antes de adquirir o caminhão ?


Um pouco mais de oito anos. Nesse tempo não pude freqüentar escola e nem o campo do XV de Novembro que eu amava. Estamos falando de 1944 a 1951


Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente hoje jamais o senhor poderia fazer isso.


Eu estaria morto. Talvez eu voltasse para a Fazenda Olho D` Água se existissem todas essas leis de hoje..


O senhor fez muitas amizades vendendo bananas?


Fiz o pessoal gostar de bananas e a gostar de mim. As vezes eu percebia que certos fregueses compravam para me ajudar. Tinha um libanês na Rua Santa Cruz, Seu Zich, parecia ser um homem de posses, ele comprava duas a três vezes por semana, às vezes sua esposa até ficava brava, eu a ouvia dizendo: “ –Tem muita banana Zich!”. Ele comprava, eu percebia que era para me ajudar. Nunca usei despertador, nem minha mãe precisou me acordar, isso de segunda feira a domingo.


A que horas o senhor deixava de trabalhar aos domingos?


Às duas horas da tarde.


O senhor se alimentava onde durante o dia?


Comia o que dava para comer. Geralmente era pão com mortadela. Nunca tomei refrigerante nem álcool na minha vida. Era pão com mortadela e água. Bem mais tarde tive uma grande casa que vendia bebidas, a Serv Sempre, eram quase 2.000 metros quadrados.


Após oito anos vendendo bananas nas ruas o senhor tinha certa economia?


Tinha trinta e oito milhões, era assim denominado popularmente o dinheiro na época. O dinheiro que eu tinha dava para pagar metade do caminhão. Dei 30 milhões de entrada e fiquei devendo 30 milhões.


Onde o senhor guardou esse dinheiro todos esses anos?


Em casa, em uma latinha guardada no colchão. Ninguém imaginava que eu tinha esse dinheiro.


Que idade o senhor tinha quando adquiriu o caminhão?


Tinha perto de dezessete anos. Quando fui até a agência de veículos pertencente a Luciano Guidotti eu era um menino. Fui recebido pelo Sr. Vila Guidotti, filho do Seu Luciano Guidotti. Perguntou a minha idade, quando disse-lhe, ele me aconselhou a ir embora. O pai dele, de dentro do escritório ouviu e perguntou: “-Quem está aí?”. Ele então respondeu: “-É um moleque que quer comprar um caminhão!”. Luciano disse: “- Mande-o entrar aqui!”. Entrei, tremia. Luciano era um homem imponente, inteligente. Perguntou-me porque eu queria adquirir um caminhão, respondi. Ele então me disse: “- Além da entrada você terá que pagar 10 pagamentos de 3 milhões”. Disse-lhe: “- Eu pago!”. Ele chamou o filho e disse-lhe: “- Vila, pegue os trinta contos dele, e faça o restante em 20 pagamentos para ele”. Em 8 de janeiro de 1951 adquiri o meu primeiro caminhão. Era só o chassi do caminhão. Era um caminhão GMC 1951, zero quilômetro. Sobraram-me oito mil contos para fazer a carroceria que fiz na Paulista com o Chico Carretel. Paguei dois contos e duzentos. Quando peguei o primeiro caminhão disse ao Beija-Flor: “- Vá até o Scudeller!”. Mandei escrever no pára-choque dianteiro: “Viva o crédito!”. Essa mesma frase eu escrevi no segundo, terceiro e quarto caminhão. A frase ficou famosa. Era a gratidão por ter crédito e ser correto.


Qual era a capacidade de carga do caminhão?


Seis mil quilos. Como eu não tinha idade para dirigir contratei um motorista, um mulato cujo apelido era Beija-Flor. Eu o conhecia do Mercado Municipal. Fizemos a primeira viagem até Iguape, chegamos com um calor imenso, eu não conhecia nada, nem o caminho, ou até mesmo por onde começar a comprar. Em Iguape o Beija-Flor disse-me: “Esqueci de te avisar, eu só tomo água Prata!”. Disse-lhe: “ – Com o seu dinheiro pode tomar, eu tomo água de torneira!”. Fomos até a roça, carreguei as seis toneladas de banana e vim embora, levamos seis horas de viagem, era estrada de terra. Logo após voltarmos a Piracicaba, fui para São Paulo, trouxe meu irmão Henrique que se tornou meu sócio depois.


A diferença de preço da banana comprada lá era grande?




Lá era em torno de setenta por cento mais em conta do que aqui.


Chegando a Piracicaba, o que o senhor fez com um caminhão de banana?


Deixei as bananas no quintal da casa da minha mãe, na Rua José Pinto de Almeida, 251. Comprei um encerado e cobri, as bananas estavam ainda meio verdes. Fui vendendo com as cestas de vime. Deixei o caminhão estacionado na frente da casa da minha mãe, Sai vendendo as bananas que estavam mais maduras. Vendi seis toneladas de banana em três semanas. Minha mãe passou a atender os clientes de banana no portão da sua casa. Meu lucro foi tão grande que eu peguei o ônibus, fui até a Vila Prudente em São Paulo, onde meu irmão Henrique era marceneiro da Rádio Pioner, Disse-lhe: “-Vamos embora que você precisa tirar carta de motorista!”. Vou comprar outro caminhão. Ele relutou e veio. Em janeiro de 1952 compramos um caminhão GMC de oito toneladas. Eu estava pagando o primeiro caminhão com facilidade, paguei antecipadas as parcelas. Em onze meses quitei as parcelas velhas e dei uma entrada menor no segundo caminhão.


Qual foi a reação do Guidotti?


Recebi o melhor tratamento possível, inclusive do seu filho que anteriormente havia me atendido com certo receio.


Com dois caminhões, o quintal da casa da sua mãe funcionando como depósito de banana, qual foi o próximo passo?


Foi tirar o meu irmão Fermino, já falecido, que era contínuo do Banco Comércio e Indústria, mais tarde proprietário da Pavanelli Importadora, e comprar o terceiro caminhão. Nessa época eu já dirigia um caminhão, o Henrique dirigia o caminhão maior. Com o caminhão grande passamos a levar banana de Iguape para Curitiba. Curitiba era pequena, era chegar e descarregar. Curitiba tinha o tamanho de Piracicaba de hoje, um pouco menor, vendia muito na praça principal, chamava “Frutaria Coração da Cidade”, bem em frente à catedral, o proprietário era Ali Mustaf, ele sempre dizia: “Menino! Primeiro atende Ali! Se interessa compro caminhão sozinho! Não venda para o Elias da Praça Zacharias!”. Ele estava sempre rindo, usava um chapelão. Era uma frutaria linda. A banana também era descarregada na feira. O Fermino pegou outro caminhão de oito toneladas, já tínhamos pagado o primeiro e o segundo caminhão, demos entrada no terceiro e seguimos em frente. Chegamos a ir até Porto Alegre para entregar banana, de lá trazíamos cebola, negociadas por família de Piracicaba, Irmãos Ortega. Nessa altura a cana de açúcar tinha proliferado ninguém plantava cebola em Piracicaba. As cebolas vinham em réstias, iam amarrando, os Ortega carregavam, eles tinham muita prática no “amarramento” das réstias elas não deslizavam. Eu vendia na Rua Santa Rosa, tradicional região de atacado cerealista de São Paulo.


Vocês tinham funcionários?


Não! Nós mesmos trabalhávamos. Sem ajudante, sem “chapa” sem nada. Descarregávamos caixas de abacates, laranjas, cachos de bananas. Hoje ninguém faz nada sozinho mais.


Em média quantas bananas têm um cacho?


De setenta a oitenta e quatro bananas.


Quantos tipos de banana existem?


Nossa! Banana ouro, prata, nanica, figo, banana-da-terra. Nesse tempo tinha a São Thomé, a São Domingos. Para fritar tanto serve a banana figo como a terra. A que mais vendia era sempre a nanica, isso é assim até hoje. A banana maçã era recomendada para pessoas adoecidas. Era bem cara. A banana prata quase não existia. A banana São Domingos lamentavelmente desapareceu, ela tinha a casca roxa. Era um mel. Às vezes vinha um cacho, o preço era bem mais caro.


O senhor procurou informar-se o porquê do desaparecimento da banana São Domingos?


Sou muito curioso, alguns integrantes da ESALQ afirmaram que o motivo é a baixa produção do cacho dessa banana. Não chega a dar 40 bananas no cacho. É a explicação que tive de agrônomo.


Vocês estavam com três caminhões viajando?


Viajávamos de Iguape para Piracicaba, Curitiba e Porto Alegre, as estradas eram de terra. De Piracicaba à Curitiba íamos por Tietê, Tatui, Itapetininga, Capão Bonito, Guapiara, Apiaí, Pedra Preta, Bocaiuva e Curitiba. Dava 650 quilômetros, só montanha, terra e buraco. Ninguém ia, quando chovia encalhava. De lá para cá trazia madeira: pinho, imbuia, canela para a fábrica de urnas Sbrissa. Seu Augusto Perecin era meu grande freguês, assim como Malacarne Gemente, onde hoje é um grande estacionamento de veículos. Daqui a Porto Alegre a viagem durava três dias e precisava viajar bem duas meias noites.


Não era perigoso?


O maior perigo eram as estradas ruins. Só que havia uma solidariedade total entre os motoristas. Parava o caminhão para dormir, o primeiro que passasse perguntava: “- Precisa de alguma coisa paulista?”. Os caminhões eram a gasolina. Trabalhei assim até 1956. O Henrique continuou até 1960 o Fermino já veio para o Mercado com o armazém de secos e molhados. Diversificamos os produtos, carregávamos abacate em São Carlos, laranja pera em Limeira. Não tinha estradas. Estradas de ferro eram poucas e ruins, hoje não existe nenhuma. Eu nunca tive medo. Às vezes estava saturado o mercado de madeira em Piracicaba, eu ia de Curitiba até Guarapuava e carregava fósforo, na fábrica Pinheiro. Era uma carga que ninguém queria, a carga dava no máximo duas toneladas eles pagavam seis toneladas. No caminhão grande carregava quatro toneladas eles pagavam oito toneladas. Nem eu, nem meus irmãos fumávamos. Qualquer atrito ou choque faria explodir o caminhão. Em 1956 vendi minha parte aos meus irmãos e me casei em 22 de dezembro de 1956 com Maria Cleusa Asta Pavanelli. Começamos a namorar em 13 de outubro de 1951. Em meu último ano de solteiro morava com a minha família, mãe e irmãos, na Rua São José entre a Rua Governador Pedro de Toledo e a Rua Benjamin Constant. Quando casamos, Maria Cleusa e eu, fomos morar na Rua Governador Pedro de Toledo, 1429, coincidentemente em frente à fábrica que não me pagou o devido salário. Alugamos um sobrado da família Sabino, montei uma loja de materiais de construção na frente, a Casa Asta, e moramos nos fundos. Em 1962 construi em outro local e permaneci por mais 10 anos com a Casa Asta funcionando. Eu tinha três carroceiros só para fazer as entregas, eram o Teófilo, Egídio Razera e Diogão Perdido, este último tinha saído da cadeia, disse que precisava trabalhar, eu compraria uma carroça e um cavalo e iria descontando do seu trabalho. Ele trabalhou para mim por quatro anos. Nunca me deu um transtorno.


O senhor chegou a freqüentar algum clube?


Santo exibe a sua carteira de sócio da Sociedade Beneficente Treze de Maio de Piracicaba. E diz: ” Quando eu vendia banana com cesta, a minha atual esposa perguntou de qual clube eu era sócio, disse-lhe que era do Cristóvão Colombo, como não sei mentir, tratei de me associar imediatamente ao clube, na época ficava naquele sobradão em cima do Pastelão, o diretor Antonio Marossi disse-me que a minha carteira de associado ao clube na quinta feira estaria pronta . Para minha tristeza, ele me entregou a carteira, eu com as duas cestas de banana, foi quando ele me disse: “ Você não se toca menino? Aqui não entra bananeiro!”Se disser que não saí chorando eu minto. Hoje isso daria cadeia para ele. E adianta cadeia para alguém? A dor do meu peito quem tira? Ninguém! Desci a Rua Governador, virei na Rua Treze de Maio, gritei na porta do Clube: “ Bananeiro!”. Vendi cinco dúzias para o Seu Anastácio, era um negro de cabelos brancos, presidente do clube. Ele me convidou para entrar para o clube. Fiquei lá, não criei trauma, não há coisa na vida que lave um trauma mais do que uma lágrima. Os anos foram passando, é um clube tradicionalmente composto por negros, sou o único sócio branco. Sou sócio desde 1950.


Como o senhor é visto pelos demais sócios?


Como um irmão branco. Lá para ajudar a saúde do Parafuso, fiz muito cururu, pagando a rádio por minha conta. Outro artista que apoiei muito foi Joca Adamoli, um dos grandes pintores piracicabanos que não teve apóio nem mesmo de pessoas muito próximas dele. Ajudei muito o Jaraguá Futebol Clube, na construção da Igreja São José, na Paulista, Abel Pereira, Vitório Fornazier e José Nassif eram sempre consultados em qualquer iniciativa a ser tomada. Inclusive a pia batismal da Igreja São José eu e José Nassif que dividimos o seu custo.


Quando o senhor encerrou as atividades da Casa Asta?


Foi em 1978. Comercialmente era o momento de parar. Junto com meu irmão Henrique e dois filhos do meu irmão José, montamos o Serv Center, distribuidora de bebidas. Foi o maior centro de distribuição de bebidas da região.


Interessante o senhor não beber, mas comercializar o produto.


Realmente, às vezes algum cliente perguntava qual cerveja eu preferia beber. Respondia-lhe: “-Nenhuma!”. A pessoa então dizia: “Desculpe! O senhor é doente ou então o senhor é crente?” Dizia que tinha saúde perfeita e sou católico. No imaginário popular para não beber tem que ser crente ou doente! Simplesmente não vejo motivo para beber. Tenho três filhas, seis netos e agora dois bisnetos. Acho terrível fazer festa de aniversário de primeiro, segundo ano de vida de uma criança servindo bebida alcoólica. A festa não é da criança?


O senhor entrou para mais alguma instituição?


Ajudei a fundar a Casa do Bom Menino, com o meu irmão Henrique fizemos o Palmeirão que chegou a ter 1800 sócios. Em 1962 assumi o primeiro cargo de diretor do XV de Novembro, ainda no Estádio Roberto Gomes Pedrosa. A lei que permite o menor entrar sem pagar no estádio é praticamente minha. Para entrar no estádio o menor tinha que pagar, fui a Rádio Difusora e anunciei que no jogo XV e Corinthians todo menor de 12 anos acompanhado do pai poderia entrar sem pagar. O presidente da Federação Paulista de Futebol era João Mendonça Falcão, me processou. Ganhei a causa e se tornou lei. Isso foi em 1962. Em 1976 como vice-presidente fiquei vice-campeão paulista. Em 12 de junho dee 1967 ganhei a eleição para presidente do XV do Novembro, meu adversário era o Comendador Humberto D`Abronzo, a minha campanha chamava-se “O Tostão Contra o Milhão”, fui presidente até 1969.


O senhor conheceu grandes nomes de Piracicaba, como Newton de Mello.


Conheci e conversei muito com Newton de Mello que por razões políticas locais foi transferido de Piracicaba, de diretor do Sud Mennucci para professor em uma escolinha mista 40 quilômetros, além de Capivari, em uma fazenda, choveram mais de 40 dias e ele não podia sair de lá por causa das enchentes dos ribeirões. Só tinha a estrada de Ferro Sorocabana para vir para Piracicaba. Ele tocava violão, compôs o Hino de Piracicaba, quando passou a chuva veio para Piracicaba com a saudade que punge e mata. Ele de fato agrediu a esposa, não a matou, mas jamais fez essa composição no cárcere, isso é puro folclore. Hospedei o General Leônidas Cardoso em 1952, pai de Fernando Henrique Cardoso. Conheci Luiz Carlos Prestes, de quem eu era fã incondicional. Conheci Dr. Mário Schenberg. Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar exilados políticos.


O senhor é compositor?


Sou compositor profissional, com carteira da Ordem dos Músicos desde 1984. Tenho mais de 150 composições feitas e gravadas. São executadas em muitos lugares mais do que em Piracicaba. Sertão Querido, Terra Onde Nasci, Mulher da Minha Vida, são muito solicitadas. Quando Tião Carreiro, com 800 músicas gravadas, faleceu me desfiz de todo material musical que eu guardava. Tião Carreiro era meu amigo, compadre, todo mês esrtava aqui. Tião Carreiro amava o Rio Piracicaba. Ele fez oito músicas para Piracicaba. Erotides de Campos foi outro grande injustiçado ainda em vida.










NORBERT BRÜSCHKE

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 20 de abril de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
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ENTREVISTADO:NORBERT BRÜSCHKE


Norbert Brüschke (O nome correto tem um trema sobre o ü, quando chegou ao Brasil quem anotou o seu nome aboliu por vontade própria o trema originalmente existente).
Nascido a 27 de junho de 1932 em Eskisehir, Turquia. Filho único do engenheiro mecânico Willi Brüschke e Martha Brüschke. Casado com Eunice Brüschke são pais de Klaus, Marlies e Richard.


O senhor é filho de alemães, porém nasceu na Turquia?


Nasci na Turquia por força do trabalho do meu pai, como engenheiro ele estava naquele país para instalar os equipamentos fabricados pela empresa na qual ele trabalhava na Alemanha. Ele se especializou em instalar equipamentos fora do país, assim ele esteve na Tchecoslováquia, na Romenia, um dos seus grandes trabalhos foi na Turquia onde permaneceu por quatro anos.


Em qual empresa ele trabalhava?


Na Knorr Bremse, em alemão Bremse quer dizer freio. A especialidade deles era colocar freios nos trens. Acredito que todos os trens alemães estão equipados com sistema de frenagem da Knorr concorrente da Westinghouse americana.


Em que ano o pai do senhor foi prestar serviços na Turquia?


Foi em 1931, após um ano eu nasci, fui registrado em Istambul como alemão. Na Europa e na Ásia Menor a lei da nacionalidade sempre é definida pelo sangue do pai. A nacionalidade do pai é que determina a nacionalidade do filho. Há até uma passagem muito curiosa ocorrida com a minha esposa, Eunice Brüschke, estava em um estabelecimento bancário no Brasil, fazendo um cadastro, quando lhe perguntaram qual era a nacionalidade do seu marido ela afirmou: “Ele é alemão.”. Ao perguntarem-lhe em que cidade eu havia nascido, ela respondeu, foi quando lhe afirmaram: “Então ele é turco!”. Ficaram naquele impasse, ela afirmando que eu era alemão e a pessoa dizendo que eu era turco. Até que ela perdeu a paciência e disse-lhe: “Uma gata dá a cria de gatinhos em um forno de uma padaria, o que nasce é gata ou biscoito?”. Nesse momento a pessoa entendeu.


A esposa do senhor é brasileira?


Sim, nascida em São Paulo.


Com que idade o senhor saiu da Turquia?


Aos três anos de idade deixei a Turquia, permaneci até os cinco anos em Berlim, na Alemanha, onde meus pais tinham residência própria. Dentro de dois anos meu pai foi mandado para fazer o mesmo trabalho no Brasil.


Isso foi por volta de 1937?


Foi em torno de 1937 a 1938. Ele veio até o Brasil, fez o que tinha que fazer participar de uma concorrência pública da Companhia Paulista de Estadas de Ferro, nas oficinas de Rio Claro. Descemos do navio em Santos e fomos para Rio Claro, fomos morar na Terminada a concorrência, a experimentação, durou quase dois anos. Ele falava só alemão, na Companhia Paulista havia um tradutor. Quando tudo terminou, meu pai já tinha a passagem do navio em suas mãos, estourou a Segunda Guerra Mundial, isso foi em 1938. O navio cujo nome era Cap Arcona, e com o qual deveríamos ter voltado nunca chegou a Santos. Após a guerra eu soube que ele foi afundado no Mar do Norte. Lembro-me que estávamos hospedados no Hotel Aurora, na Rua Aurora, naquele tempo era chique. Era um hotel muito bonito, com um jardim em frente, permanecemos ali na indefinição se ele voltava ou não para a Alemanha. Ele queria voltar de avião, havia uma companhia aérea chamada Linee Aeree Transcontinentali Italiane, L.A.T.I. que tinha um voo até Recife, depois para Açores, Norte da África, Itália e Alemanha. Naquele tempo havia a famosa Blitzkrieg (termo alemão para guerra-relâmpago), achavam que dentro de duas semanas a guerra terminava e o meu pai retornaria. Esse era o pensamento da empresa. Até 1940 ele recebeia o salário dele normalmente via Banco do Brasil. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra, o salário que o meu pai recebia da Knorr foi interrompido, ele então teve que procurar um trabalho.


O fato de ele ser alemão e o Brasil estar em guerra com o a Alemanha trouxe-lhe aborrecimentos?


Não diretamente. Lógico, em São Paulo durante a guerra houve perseguição aos alemães, só que era focado mais nos alemães mais conhecidos, como o diretor da Deutsche Schule, Dr. Hoch, morreu na prisão, no Brasil. Essa escola foi transformada no famoso Colégio Visconde de Porto Seguro, escola que freqüentei do primeiro até o terceiro ano científico. Ficava na Praça Roosevelt em São Paulo, nós morávamos na Rua Dom José de Barros, entre a Rua Barão de Itapetininga e a Rua 7 de Abril. Não faz muito tempo passei pelo prédio onde morávamos, no quarto andar. O elevador era com porta pantográfica. Para ir à escola ia pela Rua Barão de Itapetininga até a Praça da República, subia a Avenida Ipiranga e ia até a Praça Roosevelt. Naquele tempo não existia praticamente nada do que existe hoje. Era uma praça abandonada onde brincávamos, um terreno baldio em frente a escola. A escola ficava na Rua Olinda, existente até hoje. Era uma escola bonita, o prédio existe até hoje. Dr. Hoch foi substituído por um interventor brasileiro, mais tarde substituído pelo Dr. Turelli que permaneceu por uns quarenta anos ou mais na função, foi o meu diretor durante todos os anos que lá estudei. Após muito tempo, já casado, com filho, um dia eu fui ao Colégio Visconde de Porto Seguro, já localizado no Morumbi, passei por ele que me cumprimentou: “- Oi Norberto! Como vai?”. Após 30 anos ele ainda recordava-se do meu nome.


Com a permanência no Brasil, o pai do senhor passou a trabalhar onde?


O primeiro emprego dele foi numa fabrica chamada Aliança, que faz fivelas, a primeira máquina de costura brasileira feita durante a Segunda Guerra cópia da máquina de costura Pfaff foi feita sob a responsabilidade do meu pai. O dono da fábrica de fivelas queria se lançar em um novo mercado, pegou todos os direitos da Pfaff alemã e fabricaram os protótipos, as primeiras máquinas. Sei que meu pai todo orgulhoso chegou até a costurar uma folha bem fininha de chumbo para mostrar a robustez da máquina em demonstração para as autoridades brasileiras. Eu tenho a impressão de que essa máquina não foi produzida em larga escala. Depois ele foi trabalhar em uma fábrica de prensas no bairro do Tatuapé.


Após estudar no Colégio Visconde de Porto Seguro qual foi a próxima etapa escolar do senhor?


Nessa época o ensino da língua alemã era proibido, só mais tarde, quando se mudou para o Morumbi, como sempre foi um colégio freqüentado pela colônia alemã, ele acabou fazendo um convênio com o governo alemão para poder lecionar a língua alemã e também que as aulas fossem ministradas em alemão. Para que os filhos dos profissionais alemães ao voltarem para a Alemanha tivessem o reconhecimento oficial do diploma dos cursos feitos no Brasil.


O senhor freqüentou algum cursinho para ingressar na faculdade?


Fiz o Curso Anglo-Latino, entrei na Escola Politécnica em oitavo lugar, isso foi em janeiro de 1951, fiz o curso de engenheiro mecânico e eletricista na época eram cursos juntos. Sou da turma em que se formou Mário Covas em 1955. Paulo Maluf se formou na Politécnica um ano antes de nós. Naquele tempo o Covas já era politicamente muito ativo, foi presidente do grêmio estudantil. Quando fazíamos greve era ele que estava a frente de tudo. Após 25 anos de formatura na Poli fizemos uma festa e nos encontramos, fomos com nossas esposas, ao sair de lá, minha esposa disse-me: “- Agora entendo o seu jeito de ser! Vocês na Poli tem a mesma mentalidade, a mesma forma de pensar”. Eu diria que o Mário Covas tinha uma mentalidade Politécnica, o ideal de construir um Brasil melhor. Éramos muito idealistas. Fui rotariano por 21 anos.


A religião professada pelos alemães, em sua maioria qual é?


Luteranos.


No Bairro do Campo Belo em São Paulo existe uma entidade freqüentada por alemães, qual é a finalidade?


Trata-se da Kolping Haus, é uma entidade com fins sociais da colônia alemã. Recentemente, ao comemorar 25 anos de formatura no Colégio Visconde de Porto Seguro almoçamos lá. Quando morávamos na Rua Dom José de Barros o clube que freqüentávamos era o atual Clube Pinheiros, na época era denominado Clube Alemão. Quando criança eu praticava natação, quando fiquei maior, junto com o meu pai jogava tênis, que foi o meu principal esporte depois.


Após formar-se como engenheiro na Politécnica o senhor foi trabalhar aonde?


Tive 12 ou 13 empregos diferentes. A cada 2 ou 3 anos eu mudava de emprego. O meu primeiro emprego foi na Indústrias de Parafusos Mapri onde permaneci por um ano e pouco. Dali fui para a Mercedes-Benz, onde também fiquei por um ano e pouco, lá trabalhei no controle de qualidade de recebimento de materiais. O controle de qualidade de entrada de produtos dos fornecedores da fábrica de São Bernardo de Campo passava pelo meu departamento. Isso foi em 1956. De lá fui para a Brastemp onde tive uma experiência muito linda: o meu pai estava trabalhando na Brastemp! Pude vê-lo trabalhando, foi um privilégio. Ele era daqueles engenheiros no qual tive que me espelhar, era um profissional que além de ter a teoria tinha a prática. No departamento de engenharia desenvolvia o ferramental para fazer uma geladeira, uma porta de geladeira era feito de chapas, através de prensas enormes de duas, três mil toneladas, eu vi meu pai ajustando aquelas ferramentas uma por uma. Ele tirava o paletó e punha a mão na graxa. Naquele tempo não saia de um emprego sem ter contrato já feito em outro. Havia uma demanda muito grande por profissionais.


Da Brastemp o senhor foi trabalhar em qual empresa?


Fui para a Fichet Schwartz Hautmont onde permaneci por 3 anos. Lá tínhamos a fábrica de esquadrias de alumínio, vigamento pesado que era a minha área, esquadrias de ferro e cofres. Vigamento com um metro, dois metros de altura, inclusive fazíamos pontes rolantes, a maior ponte que eu vi lá foi uma que levantava 250.000 quilos, feita para Furnas, para levantar o gerador. Fazíamos tanques enormes para a Petrobrás, com 10 metros de diâmetro por seis metros de altura. Na Fichet trabalhei três anos.


Qual foi a próxima empresa em que o senhor trabalhou?


Fui trabalhar na Willys Overland do Brasil , isso foi em 1960, ela só fabricava o Jeep e a Rural Willys. O meu teste de admissão foi uma peça do capô do Jeep. A pergunta que me foi feita é qual seria o ferramental que eu iria utilizar para fazer aquela peça. Eu tinha visto aquilo na Brastemp, só visto, mas eu sou curioso. Fiz o projeto da ferramenta, do fluxograma, de um processo de fabricação daquela peça e expliquei ao americano, eu falava inglês. Disse-lhe que me interessava muito em projetar ferramentas de corte e repuxo profundo. Permaneci por três anos na Willys. Após um ano um diretor de uma escola técnica procurando por um professor me contratou por indicação do meu chefe. Depois de um ano e meio ele reuniu a turma e disse: “- Nós vamos lançar um carro novo, diferente. È o Aero Willys, vamos trazer as ferramentas dos Estados Unidos e vamos lançar no Brasil. Fui chamado a ser o coordenador desse projeto na área de ferramentas de corte e repuxo. O que eu soube é que o Aero Willys antes de ser lançado, uma equipe de pilotos pegou um Aero-Willys americano, importado, e andaram pelo Brasil afora, tiveram que soldar a carroceria inúmeras vezes, o carro americano não era feito para estradas brasileiras. A nossa engenharia teve que reformular todo chassi, principalmente a suspensão. Era até engraçado, pegávamos os desenhos das peças para fazer as ferramentas, de repente tinha que suspender tudo, ia ser modificado tudo. O Aero Willys brasileiro, toda parte de chassi e suspensão é genuinamente brasileiro, por ter sido adaptado as condições das estradas brasileiras. Passado um ano, aquilo tudo estava funcionando, ele me chamou e disse: “- Agora vamos lançar o Dauphine.”. E 1800 ferramentas do Dauphine passaram pela minha mesa.


Qual é a origem do Dauphine?


Francesa. O projeto era da Renault. Fui indicado pelo meu chefe para coordenar o “Projeto Dauphine” para ser fabricado na Aero Willys do Brasil.


Da Willys o senhor foi trabalhar em que empresa?


Fui para a Siemens, para a área de transformadores. Ficava na Marginal Tietê, trabalhei lá por três anos. Fiz parte da área denominada preparação de produção. A área que tendo o desenho e especificações técnicas determina o processo de fabricação. Eu tinha um departamento com 25 funcionários, que emitia toda a documentação, peça por peça, para as máquinas correspondentes, cada operador de máquina recebia toda instrução de como fazer aquela peça. Tinha um pequeno grupo de cronometristas que determinava os tempos padrões. Naquele tempo se pagava até premio por produção.


Qual foi a próxima empresa que o senhor trabalhou?


Da Siemens fui para a Isopor. Naquele tempo era uma empresa particular, hoje é da BASF , empresa alemã. O isopor foi “inventado” por um amigo do meu pai, era um homem de uma versatilidade extrema, iniciou sua empresa fazendo lã de vidro para a Brastemp usar como isolante térmico das geladeiras. Ele fabricava a lã de vidro baseado em um processo alemão. O isopor foi inventado pela BASF na Alemanha. Ele vendeu a fábrica de lã de vidro e passou a fabricar isopor baseado na patente da BASF alemã. Trabalhei com ele por um ano. Quando eu estava na Siemens fiz um curso na Manegement Center do Brasil, localizado na Avenida Paulista, fui fazer um curso de programação, eu queria saber a diferença entre o computador e o bonde elétrico, naquela época o computador era novidade, isso foi por volta de 1963 a 1965, me ofereceram um curso de programação específico para cientistas, fiz o curso por curiosidade, fiz o curso de Planejamento e Controle de Produção, o PCP, um dia o diretor me chamou e perguntou se eu queria dar o curso de PCP, era a minha área na Siemens. Passei a dar aula de PCP. Eu já estava na Isopor quando ele lançou um curso de administração de empresas para pessoas que já tinham formação acadêmica, eu queria fazer esse curso, acabei fazendo o curso, sendo que nas aulas de PCP eu passava de aluno a professor. Um dia um aluno-colega me fez uma oferta salarial muito atraente, e assim fui trabalhar na Eucatex. Ali permaneci por 21 anos, foi meu último emprego.


Quem dirigia a empresa?


Roberto Maluf, irmão mais velho de Paulo Maluf. No dia em que fui admitido fui apresentado ao senhor Roberto Maluf. A administração ficava no bairro da Água Branca e a fábrica em Salto. Milton Monteiro, engenheiro e diretor da Eucatex, foi quem me contratou.


Eucatex é feito do que?


De fibra de madeira, de eucalipto, chama-se Eucatex por causa do eucalipto.


O senhor praticou remo?


Quando estava na Politécnica pratiquei Yole A8 no Rio Tietê. Foi feita uma competição entre o Clube de Regatas Tietê e o Espéria. Frequentei o Espéria, pegava o barco normal e ia passear pelo Rio Tietê, mergulhava no Rio Tietê. Como todo rio era cheio de barro, mas não era poluído. Naquele tempo pescava-se no Rio Tietê, em São Paulo. Eu não pescava. Atravessava o rio a nado para ir ao Clube de Regatas Tietê, pulava o muro e tomava banho na piscina do clube. Isso foi por volta de 1950.














domingo, abril 14, 2013

MONSENHOR JAMIL NASSIF ABIB

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 13 de abril de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/


                        ENTREVISTADO: MONSENHOR JAMIL NASSIF ABIB


Monsenhor Jamil Nassif Abib nasceu a 4 de março de 1940 em Canitar, Estado de São Paulo, que era denominada anteriormente como Fortuna, distrito do município de Chavantes. Canitar ficava na linha da Estrada de Ferro Sorocabana, entre Chavantes e Ourinhos. Filho primogênito de Tanus Abib, brasileiro, nascido em Lençois Paulista e Rosalina Nassif Abib, brasileira, nascida em Itapetininga, tiveram ainda os filhos: Jorge, Jalil e Jeanete.


Qual era a atividade profissional do pai do senhor?


Papai tinha uma casa de comércio, a semelhança de meu avô e meus tios. Meu avô, Miguel Abib, libanês, se estabeleceu nesse distrito de Canitar. Era casado com Nasha Abib Gandur Maluf, libanesa. Ambos tinham se casado no Líbano quando vieram para o Brasil já tinham uma filha, Lorice. Os registros de imigração normalmente registram a vinda dos espanhóis, italianos, portugueses.


Foi no período em que se divulgava mundo afora que no Brasil se achava ouro no meio da rua?


Há até uma história de um determinado imigrante que ao saber que no Brasil havia dinheiro na rua, desembarcando no porto de Santos, caminhando, viu uma cédula de dinheiro com valor significativo, trazida pelo vento, vendo aquela nota, chutou-a e disse à si mesmo: “ Ah! Vou começar a recolher dinheiro depois do almoço!”.


A imigração árabe foi distinta de outros povos?


Os árabes tiveram um tipo de imigração diferente, não vieram em blocos para trabalhar na agricultura. Eles vieram de forma independente, isso dificulta uma pesquisa sobre eles. Sei que minha avó e minha tia ficaram no Líbano quando meu avô veio para o Brasil, posteriormente elas vieram também. Os meus avôs tanto paterno como materno não foram mascates. Meu avô Miguel adquiriu uma fazenda, junto com meus tios, meu pai, trabalhavam ali, acredito que não ficaram por muito tempo com essa fazenda, também nunca descobri qual era a atividade agrícola ali praticada. Foi na época em que a terra não era cara, tinha havido a quebra do café de 1929. As fazendas foram desmembradas dos grandes cafezais. Junto com os filhos, meu avô estabeleceu uma casa de secos e molhados em Canitar. Em 1938 meu pai se casou, estabelecendo-se por conta própria. Ele fornecia para os colonos remanescentes das fazendas. Nessa época o café já não era o Ouro Verde. Aliás, Ouro Verde era o nome de um trem da Estrada de Ferro Sorocabana. Era o melhor trem da época. A região da média sorocabana desenvolveu-se ao redor da cultura do café. Meu pai montou essa loja porque ali no aglomerado urbano do distrito era onde ficavam os serviços, o pessoal vinha fazer compras ali nos finais de semana. Lembro-me que meu pai vendia e anotava em um livro, onde havia a página do interessado. Ele ia anotando, ao final do mês, quando as pessoas recebiam o salário, eles iam fazer o acerto no armazém. O armazém tinha de tudo, alimentos, roupas, tecidos, ferramentas. Ali havia um grupo escolar.


O senhor chegou a estudar nessa escola?


Foi onde estudei o primeiro ano, no Grupo Escolar de Canitar, a minha primeira professora foi Dona Maria José Fortes. Tinha uma igreja cuja padroeira era Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. O pároco vinha de Chavantes, a cuja paróquia Canitar pertencia, ou então algum padre de Ourinhos, distante oito quilômetros de Canitar.


O senhor foi batizado lá?


Fui batizado a 7 de setembro de 1940, com seis meses e três dias de vida, em Ourinhos. Fui batizado no dia em que meu primo fazia seu primeiro aniversário e meus pais comemoravam dois anos de casados. Naquela época os meios de transportes não eram tão fáceis como são hoje. Nós morávamos em Canitar, meu primo em Jacarezinho, onde morava a família da minha mãe. Acredito que o fluxo de pessoas era maior para Ourinhos do que para Chavantes.


O segundo ano escolar o senhor estudou em Canitar?


Fiz o segundo ano em Jacarezinho, distante uns 30 quilômetros de Canitar. Ia de trem até Ourinhos, de lá seguia de ônibus para Jacarezinho, apanhava o ônibus no pátio da Estação da Estrada de Ferro em Ourinhos. Eu ficava na casa dos meus avós maternos, minha avó chmava-se Labibe Nassar Sfeir e meu avô materno chamava-se Nassif Salomão Sfeir, também libaneses. Esse meu avô tinha uma fazenda em Jacarezinho e se estabeleceu com uma loja de secos e molhados.


Em que ano o senhor passou a estudar em Jacarezinho?




Em 1948 meus avós paternos já tinham vindo para Sorocaba, era um pólo de atração das pessoas que haviam perdido seu trabalho com a quebra do café. Sorocaba era chamada de “Manchester Paulista”, porque ela tinha indústrias. A mão de obra vinha com o objetivo de trabalhar nessas fábricas. A cidade inchou, é uma cidade de um passado rico, no passado do tropeirismo o foco era Sorocaba, onde havia feira de muares. Com o desenvolvimento da indústria e a febre amarela que abateu-se sobre a cidade no final do século XIX fez com que a cidade estagnasse, enquanto São Paulo crescia. As indústrias de Sorocaba tinham seus escritórios em São Paulo, o dinheiro corria em São Paulo. Lá era apenas o parque fabril. Sorocaba ficou marginalizada e começou a inchar em termos de população, apenas com a construção da Rodovia Castelo Branco, que deveria ser uma auto-estrada, Sorocaba-São Paulo, na sucessão do governo estadual mudou seu trajeto, passando entre Itu e Sorocaba, prolongando-se na direção do Oeste. Tanto que era chamada de Auto-Estrada do Oeste, depois é que colocaram o nome de Castelo Branco. A partir daí Sorocaba retomou seu desenvolvimento. A cidade mudou seu perfil. Meu avô estabeleceu-se em Sorocaba, passou a multiplicar seus estabelecimentos, de uma loja passou para duas, três, os filhos foram casando, montando sua própria loja. Logo meu pai seguiu a trilha, uns dois ou três anos depois meu pai veio para Sorocaba onde montou uma loja só de tecidos e miudezas. Devo muito a Jacarezinho, cresci e guardo boas recordações do tempo em que morei lá e das visitas que fazia em companhia da minha mãe para nossos familiares residentes naquela cidade. A minha primeira comunhão foi feita em Jacarezinho a 1 de janeiro de 1948.


O senhor foi coroinha?


Fui coroinha na igreja Nossa Senhora da Assunção, catedral de Jacarezinho, a família da minha mãe era muito religiosa, tinham um poder aquisitivo maior, estudaram em colégios internos de São Paulo. Meus avós maternos mantiveram seus filhos internos em São Paulo.


Ajudava as missas logo pela manhã?


Tinha que pular cedo, porque ganhávamos um cartãozinho que proporcionava um prêmio no final do mês, geralmente livros, doces. Havia sempre um prêmio para os mais assíduos. A batina do coroinha era vermelha com roquete branco.


Coroinhas estão sujeitos a cometerem gafes em publico, o senhor teve algum fato marcante?


O meu terror era pegar o turíbulo, tinha que mantê-lo alto, ajoelhávamos com o turíbulo, como era criança, às vezes a mão abaixava, o turíbulo batia no chão e derrubava as brasas. Aconteceu que uma vez derrubei as brasas em cima do tapete, a solução foi pisar em cima para acabar com a combustão. Esse fato deu-se em Sorocaba, eu estudava no Grupo Escolar Antonio Padilha. Sempre freqüentei igreja por conta da tradição da família da minha mãe.


Qual igreja o senhor freqüentava em Sorocaba?


Em um primeiro momento passei a freqüentar a capela do Seminário Diocesano, a Capela de São Carlos Borromeu, hoje é sede de paróquia. São Carlos Borromeu foi cardeal de Milão na época do Concílio de Trento. Eu freqüentava o seminário, inclusive estudava o catecismo, mesmo tendo feito a primeira comunhão continuei a estudar o catecismo. A preocupação com a educação religiosa continuou. Foi freqüentando o catecismo, junto das Irmãs da Divina Providência que cuidavam da parte de serviços do seminário que passei a alimentar essa idéia de entrar para o seminário.


Com que idade despertou a vocação do senhor para a vida religiosa?


Devia ter de 9 a 10 anos. Naquele tempo era assim, não se aceitava no seminário pessoas com mais idade. Fiz paralelamente meus estudos no terceiro e quarto ano primário, o curso preparatório, que era feito em escola particular, antes de fazer o exame para entrar para o ginásio. A professora era Dona Julica Bierrenbach, ela é da família do almirante-de-esquadra Júlio de Sá Bierrenbach. Fiz o prepraratório lá, era um grupo que se reunia no quintal da casa dela. As vezes na sala. Lembro-me de alguns dos alunos, entre eles Jaime Pinsky, hoje proprietário de uma editora, ele tinha um primo Antonio Kahn que também freqüentava as aulas, assim como Miriam Pavlovsky. Logo depois entrei para a primeira série no ginásio Ciências e Letras encostado na igreja do Mosteiro de São Bento, que tornou-se a igreja que passei a frequentar, continuando a ser coroinha, nessa altura meu pai mudou-se da primeira casa para uma casa mais central. Quando eu estava com uns 10 anos, o pessoal do seminário vizinho a nossa residência anterior, seu reitor que depois foi bispo de Bragança Paulista, Antonio Misiara, foram a casa dos meus pais para pedir a licença para que eu entrassse para o seminário. Encontraram oposição, mais do meu pai do que da minha mãe. Continuei insistindo, já no primeiro ano de ginásio, morando perto do Mosteiro de São Bento, fui aposentando a idéia de entrar no seminário. Quando eu ia começar a segunda série, um dia após o almoço, era no começo de março, meu pai questionou-me a queima-roupa: “- Esse negócio de você ir para o seminário, se for para ir, vamos já! Se não for já, não irá mais!”. Rapidamente pensei: “ Se eu for, posso sair, se eu não for não irei mais. Então eu vou!”. Na mesma hora ele me levou ao Seminário Diocesano, já tinha começado o ano letivo. O reitor me aceitou extraordináriamente. Comecei o ano escolar fora de época. Permaneci no seminário até 1958, fiz o ginásio e o correspondente ao colégio. Naquela época os cursos de seminário não eram reconhecidos pelo governo. Não tinhamos diploma, era coisa interna do seminário. Tinhamos visitas dos parentes apenas uma vez por mes, no domingo a tarde, mesmo quem como eu, morava em Sorocaba.


Como eram os dormitórios?


Eram três salões grandes, divididos por faixas etárias: pequenos, médios e grandes. Havia um diretor de disciplina que tinha um quartto no mesmo andar.


A que horas os seminaristas levantavam-se?


As cinco horas da manhã. Tinha meia hora para higiene pessoal. Banho era tabelado, tinha turmas para tomar banho, terça e quinta por exemplo, sempre banho frio, nem pensar em banho quente. Em Sorocaba punhamos batina na quarta série, usavamos permanentemente, era preta com uma faixa azul. Éramos os “embatinados”, até para jogar futebol jogava-se de batina, com chuteiras. Usava-se uma batina mais rota. A noite, quando íamos dormir, havia um horário de apagar a luz, quem tinha batina só podia tirá-la após apagarem-se as luzes. De manhã, ao bater o sinal para acordar, na cama mesmo o seminarista punha a camisa, puxava a batina e levantava-se de batina. A disciplina era muito rígida. Desciamos do dormitório e não podia mais subir durante o dia, a não ser que fosse horário de banho.


Não se tomava banho todos os dias?


Não, eram tabelados os dias, dois ou três dias por semana. A não ser quando tinha jogo de futebol. Essa disciplina rígida acaba levando a ter muito método, todos os colegas que deixaram o seminário, e os encontrei já adultos, comentavam: “- A melhor coisa que o seminário me ensinou foi disciplina!”.


Como era a piscina do seminário?


Nós íamos a piscina do Scarpa. Havia o Baixadão do Scarpa, onde existia uma associação esportiva, nós uságamos uma vez por semana a piscina deles. Desciamos em fila pelas ruas da cidade, os que tinham batinas e os que não tinham , era um espetáculo, imagine aquela turma, chegamos a ter 200 seminaristas, todos enfileirados. As vezes íamos a passeio em alguma chacara, o trajeto era feito a pé. Da mesma forma íamos para as celebrações na catedral.


O curso superior o senhor realizou aonde?


Em 1959 fui para o Seminário Maior em Aparecida do Norte, na época não havia seminários como temos hoje, pequenos seminários. Havia grandes seminários, para 200 alunos. Permaneci em Aparecida do Norte por três anos cursando filosofia. Em 1962 vim para São Paulo, no Bairro do Ipiranga, para fazer Teologia. Em 1964 o país vivia um período de radicalização ideológica que influenciou todos os setores da sociedade. A Igreja estava vivendo a experiência da Ação Católica, dividida por segmentos: Juventude Agrária Católica – JAC; Juventude Estudantil Católica – JEC; Juventude Independente Católica – JIC; Juventude Operária Católica - JOC; Juventude Universitária Católica – JUC. Ação Católica teve um desenvolvimento que vem vindo, isso vem amadurecendo e se desenvolvendo desde o Papa Pio XI, já no período da Segunda Guerra Mundial. Havia na Igreja uma fermentação ideológica muito forte. Estávamos em uma época de mudanças, para se dar um exemplo, em Aparecida fazia muito calor, os seminaristas fizeram um pedido ao reitor, que fosse possível usar batina branca, atraia menos calor. Aconteceu o impensável, o reitor disse que podíamos tirar a batina. Ninguém jamais tinha pensado nisso. Passamos a usar batina só em cerimônias. Quando passamos a estudar Teologia em São Paulo, voltamos a usar batina todos os dias de manhã, a tarde e á noite. Conheci Frei Beto, que me contou em 1963 que iria entrar para o seminário no ano seguinte, ele era estudante católico, do movimento JEC.


No período de movimentação ideológica houve transferências de seminaristas?


Houve, inclusive eu e o Padre José Maria de Almeida que foi vigário da catedral de Piracicaba fomos para junto dos Claretianos em Curitiba, freqüentando regularmente até terminar o curso. Dom Aniger, Bispo de Piracicaba, foi até Curitiba, nos procurou e nos animou a vir para Piracicaba. Em 1964 vim pela primeira vez para Piracicaba, aqui passou a ser a minha diocese. Fui ordenado sacerdote na Catedral de Piracicaba no dia 09 de janeiro de 1966. Fui para Rio Claro, onde permaneci por três anos, fui como ajudante do pároco, com a incumbência de fundar uma nova paróquia, a de Bom Jesus, que foi fundada em 1966, fui o primeiro pároco do Bom Jesus, no inicio de 1969 fui transferido para Santa Maria da Serra, regularizei o meu curso de filosofia, me inscrevi para fazer tese em história na faculdade de Rio Claro. Acabei sendo aceito como historiógrafo em caráter precário do Museu Paulista. Quem estava lá na época era um piracicabano, Mário Neme.


O senhor é acadêmico de diversas instituições. Pode citá-las?


Sou acadêmico do Instituto Histórico de São Paulo, do Paraná, de Santa Catarina, Sorocaba e Piracicaba, da Academia Piracicabana de Letras.


O senhor estava seguindo uma carreira universitária?


No período em que permaneci em Santa Maria da Serra, pelo fato da paróquia ser assistida aos finais de semana, aproveitei o tempo útil para trabalhar no Museu do Ipiranga, pertencente a USP. Eu estava agregando créditos para pós-graduação na USP, fiz até exame de qualificação. Tive que interromper para prestar assistência a minha mãe que estava muito doente e acabou falecendo. Dom Aniger me transferiu de Santa Maria da serra para a Paróquia de São Dimas, em Piracicaba. A minha decisão é ser padre e não a de fazer carreira universitária. Após dois anos na Paróquia de São Dimas, fui removido para Rio Claro como Vigário Episcopal, foi em 1975, tinha um trabalho de coordenação da área que compreendia Cascalho, Cordeirópolis, Santa Gertrudes, Rio Claro toda, Ipeúna, Corumbataí, Analândia, além da minha paróquia de São João Batista. Cheguei a cuidar de cinco paróquias ao mesmo tempo. Permaneci em Rio Claro por 31 anos. Em 2006 vim como pároco da Igreja de Santo Antonio, Catedral de Piracicaba.










MYLTON JOAO TOMAZINI

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 06 de abril de 2013
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/

                                     ENTREVISTADO: MYLTON JOAO TOMAZINI


Mylton João Tomazini nasceu em Elias Fausto a 21 de fevereiro de 1935, filho de Adolfo Tomazini e Ida Boscolo que tiveram ainda os filhos Luiz Tomazini, Valdemar Tomazini e Miltes Tomazini. Seus pais eram proprietários da Fecularia Brasil em Elias Fausto, uma cidade na época com uns 8.000 habitantes. Realizou o curso primário no Grupo Escolar “General Mascarenhas de Moraes”, sua primeira professora foi Dona Elza. O professor Opoty Camponês do Brasil foi muito importante na vida de Mylton, a sua didática era marcante.Após um curso preparatório, prestou um concurso e foi admitido em um ginásio estadual em Capivari.


Qual era a distância entre Elias Fausto e Capivari?


Eram 18 quilômetros que eu ia de trem pela Estrada de Ferro Sorocabana, tempo em que as locomotivas a vapor soltavam as fagulhas, era movida a lenha, mesmo com calor os vidros ficavam levantados. Eu ia às segundas feiras e voltava aos sábados, morava em pensão.


O senhor era ainda um menino, naquela época era um grande sinal de independência morar em uma pensão?


Sai de casa com 14 anos. Formei-me com 18, em seguida fui embora para São Paulo. Antigamente só se conseguia entrar em uma faculdade em São Paulo, não existiam tantas faculdades. Existiam os cursos intermediários: científico e clássico fiz o clássico na Escola Estadual Pucca, para entrar na faculdade de direito. No início morava em uma pensão na Rua Frederico Steidel. Um dos moradores era Walmor Chagas que estava no início de carreira ele dividia o quarto com dois artistas do Rio Grande do Sul: Rita e Guilherme. Logo depois ele se casou com Cacilda Becker. Ficamos amigos.


O senhor ingressou em qual faculdade?


Entrei no Mackenzie em 1956, me formei em 1960. Morava em república nas imediações da faculdade. Na Rua Maria Antonia já havia a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Dois anos antes de me formar em direito já era solicitador acadêmico e trabalhava no Banco da Lavoura, situado na Rua 24 de Maio, mais tarde passou a ser Banco Real. O banco construiu uma sede nova na Rua Boa Vista, fomos para lá, eu me formei e o banco me aproveitou como advogado. Passei a ser um dos quatro advogados do banco por uns 12 anos até o dia em que fui convidado para ser advogado do Grupo Erling Lorentzen pertencente ao genro do rei da Noruega, ele era proprietário da Companhia Brasileira de Gás – Gasbrás fiquei advogado do grupo.


Advogado de banco é uma atividade exaustiva?


Foi a maior escola que eu tive. Não só profissional como também pessoal. Quando entrei no banco morava na Bela Vista, trabalhava do meio dia às seis horas da tarde estudava a noite no colégio e pela manhã fazia cursinho para vestibular. Fazia esse trajeto a pé. São Paulo sempre foi glamoroso. A Avenida Paulista é exuberante.


Por quanto tempo o senhor permaneceu trabalhando na Gasbrás?


Permaneci por uns quatro anos, a sede era no Rio de Janeiro, a filial de São Paulo ficava no Brás. Nessa época eu já era casado com a professora Célia Baldini. Conheci a minha esposa em um sábado a tarde, sentando-me casualmente ao lado dela no Cine República, que era um cinema muito grande e freqüentado pelos jovens, situava-se na Avenida Ipiranga. Marcamos um encontro, eu tinha dito que era Tomazini e ela disse-me que era Baldini, quando nos encontramos descobrimos que éramos da mesma cidade: Elias Fausto. Nesse ano meu irmão foi candidato a prefeito, tendo o tio dela como adversário. Meu irmão não foi eleito, foi pára São Paulo onde fez a carreira de magistrado. Eu fiquei com meu tio como prefeito. Casamo-nos na Paróquia de São José do Belém. Moramos na Rua Cajuru, próximo ao Largo de São José do Belém. Depois mudamos para o Campo Belo, no Brooklin. Moramos em São Paulo até 1975 aproximadamente. Conheci a Tecelagem Campo Belo em pleno funcionamento.


O senhor chegou a utilizar o bonde que passava pelo trecho que deu origem a Avenida Ibirapuera e a Avenida Vereador José Diniz?


Cheguei a utilizar o bonde, não sei por que foi extinto.


Qual foi outra empresa em que o senhor trabalhou em São Paulo, na área jurídica?


Fui trabalhar para um grupo de judeus oriundos da Alemanha que tinha um complexo têxtil, fui convidado para constituir, formar o departamento jurídico, era uma empresa com 700 a 800 funcionários, permaneci muito tempo trabalhando com eles, chegaram a ter 2.500 funcionários, era a Karibê Indústria e Comércio Ltda, um dos produtos fabricados era o Ban Lon Karibê. A empresa era tão conhecida que ao voltar de uma audiência deparei-me com Yolanda Costa e Silva, esposa do Presidente Costa e Silva, fazendo uma visita à Karibê, adquiriu vários vestidos, eles faziam vestidos muito bonitos, parados em frente a empresa havia uns quatro carros oficiais, com bandeirinha e tudo. Quando cheguei eu já tinha perdido a festa. Só que algo interessante aconteceu. Passou alguém em frente a empresa, viu aquele aparato, deve ter se dirigido à Rua Oriente, julgando ter presenciado alguma fiscalização muito rigorosa, já imaginando que a empresa poderia sofrer conseqüências imprevisíveis. Como importávamos e exportávamos em alta escala, trazíamos máquinas, equipamentos. Recebi um telefonema do representante da Alemanha perguntando o que estava acontecendo, se a empresa estava passando por dificuldades. Fiquei preocupado, levei à diretoria esse fato, chamei um especialista, ele fez uma bela análise do balanço da empresa, fiz um comentário e publicamos uma página inteira nos jornais “O Estado de São Paulo” e “Folha de São Paulo”. No dia seguinte os diretores estavam emocionados, receberam aplausos de muitos clientes, da colônia radicada no Brasil. Conseguimos reverter o quadro. Os proprietários eram quatro irmãos: Arthur, Leopoldo, Enrique e Gustavo e um cunhado, Josef.


Eles revolucionaram o mercado na época?


Foi uma época áurea, o produto Karibê era vendido com muita facilidade.


O senhor fazia muitas viagens para a empresa?


Viajava muito para o Rio de Janeiro, o governo federal era concentrado no Rio. Eu trabalhava com os projetos de desenvolvimento com incentivo governamental. No tempo do Delfim Neto.


Como era o Delfim Neto?


Extraordinário. Ele sentava-se a mesa conosco, rodeado por três ou quatro assessores, ele tinha uma mente privilegiada. Quando discutia em uma reunião com industriais ele mantinha cada um dos assessores especializado em um segmento. Não dava para contestar qualquer pretensão. Ele fechava o cerco.


O senhor viveu o período revolucionário em plena atividade profissional.


No dia da revolução de 1964 eu ainda era superintendente da Gásbras. Tínhamos receio de que os terroristas fizessem algum mal com os nossos reservatórios de gás. Na madrugada do dia 31 de março eu estava no DOPS, por coincidência tínhamos descoberto um desvio de botijões de gás feito por ladrões eventuais. Nunca tive nada com política, estava a trabalho.


Com que idade o senhor radicou-se em São Pedro?


Vim para cá com 41 anos, primeiro parei em Campinas, tinha mais de uma centena de mandados de segurança em andamento, tinha que administrá-los, isso demorou uns três anos.


Como iniciou o hotel?


A princípio foi uma brincadeira, por hobby, não tinha o que fazer.


Esse espírito hospitaleiro tem alguma raiz familiar?


Os meus pais me contam que os meus bisavós eram hoteleiros no Tirol, tinham uma hospedaria. Acho a hotelaria muito nobre, há uma carência de hotéis no Brasil. Minha atividade na hotelaria envolve a hospedagem do turista e a realização dos eventos. Hoje temos 18 salas de eventos com uma infra-estrutura que poucos hotéis no Estado de São Paulo têm.


Quantas mil pessoas o hotel pode abrigar simultaneamente?


Comporta 1200 pessoas. Há um hotel nosso que está sendo terminado ao lado com 75 apartamentos, já temos 125 apartamentos, além de contarmos com a colaboração do Hotel São João e do Hotel Avenida de Águas de São Pedro que faz parte do grupo.


A Copa trará algum reflexo?


Irá refletir se os hotéis credenciados forem acionados, irá haver muita procura de hotéis opcionais.


O senhor tem uma atividade de planejamento e não tão operacional?


Uso o meu espaço para criar, planejar. Temos uma equipe maravilhosa de funcionários. Pelo quarto ano estamos incluídos na lista das 100 melhores empresas para trabalhar em pesquisa feita pela revista Época.


Há empresários que centralizam muito as funções?


Nosso hotel é administrado por 15 pessoas, funcionários estabilizados, cada um em seu segmento: manutenção, jurídico, cozinha, restaurante, financeiro, vendas, manutenção, relações humanas.


O senhor é bom cozinheiro?


Não! Minha mulher é uma exímia cozinheira, por causa dela que o hotel cresceu. Crescemos pela qualidade da nossa comida. Desde os primórdios do nosso negócio ela orientava a cozinheira. Tivemos sorte em conhecer uma pessoa que é muito disciplinada, ela está conosco há 33 anos. Ela deixou de ser apenas funcionária, é integrante da nossa família. Essa mulher desenvolveu muito a parte de gastronomia.


Qual é a “Pièce de résistance”, o prato que se destaca na cozinha do hotel?


Arroz e feijão feito na panela de ferro em fogão de lenha. Por incrível que pareça o executivo não come arroz e feijão. Ele não tem essa chance. Quando vem para cá ele entra no arroz e feijão. Em São Paulo você jamais irá pedir arroz e feijão no Fazano. ( Ambiente altamente sofisticado com a cozinha é inspirada nos sabores das diversas regiões da Itália). O nosso trivial é arroz, feijão e carne de panela. Há também hoteleiro que tem vergonha de por arroz e feijão na mesa. Há uma grande empresa que seus executivos estavam no concorrente, um dia vieram conhecer o nosso hotel, não sabiam que tínhamos uma estrutura grande. Perguntaram se podiam almoçar, disse-lhes que seria um prazer, só que a comida não era a que eles estavam acostumados. Sentaram-se a mesa comigo, naquele dia foi servido arroz, feijão e bisteca. Eles comeram muito bem. Ao terminar disseram: “-É isso que precisamos! É disso que o pessoal está reclamando!”. Foram ver a sala, ganhamos um cliente pelo estomago, pela simplicidade, com nossos hábitos próprios, sem artificialismo.


A região é propícia para esse tipo de turismo?


São Pedro é uma cidade que tem um nome muito bonito.


O senhor recebe turistas estrangeiros?


Muitos. Hoje temos dois intérpretes dentro do hotel. Falam inglês, italiano, alemão e castelhano.


Qual é a reação mais expressiva dos turistas estrangeiros?


Ficam maravilhados com a fartura de alimentos. Na Europa isso não existe. No restaurante temos 50 metros quadrados só de alimentos. Para nós faz parte do nosso costume, para eles é motivo de espanto. O Brasil é o melhor país do mundo, posso afirmar com o conhecimento de bastantes lugares. Em lugar nenhum se come melhor do que no Brasil.


Para pessoas que seguem uma dieta especial há alimentos diferenciados?


Na própria mesa existe. Fornecemos alimentos para crianças de 2 anos até adultos com 90 anos.


Quantos anos têm o Hotel Fazenda Fonte Colina Verde?


São 33 anos, nascemos um pouco depois do Hotel São João.


Além da atividade hoteleira o senhor teve incursões em outras áreas?


Fui proprietário da Rádio Onda Livre, funcionava a 50 metros do hotel. Sempre imaginei que a rádio poderia ser uma alavanca para divulgar o turismo de São Pedro. (Atualmente a Rádio Onda Livre AM e FM estão baseadas na cidade de Piracicaba, pertencendo a outro grupo de empreendedores).


O senhor tem quantos filhos?


Três: Lísia, Sérgio e Eduardo. Temos uma nova rádio, a Rádio Pop, FM, situada na cidade de Charqueda.


O senhor edita um jornal interno?


Desde a fundação do hotel temos um jornal interno; “Jornal do Colina”, na coluna Mensagem do Presidente abordo assuntos variados. Normalmente acordo às cinco horas da manhã, ouço rádio, Jovem Pan, Eldorado, CBN através de rádio comum. As sete e pouco, tomo café e assisto o jornal matinal da TV Globo, desligo. Leio a Tribuna, o Jornal de Piracicaba, a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, entre uma leitura e outra sento com os meus assessores, rimos a vontade. Vivo o meu mundo e sou muito feliz dentro dele. Abro a porta, vejo os passarinhos, são mansos, ficam a dois metros de distância. Estou cercado de mato por todos os lados. À noite no Hotel Colina Verde é muito bonita, temos apresentações de teatro, shows. Contratamos artistas, temos um anfiteatro para 800 pessoas, com ar condicionado. Todos os humoristas mais famosos já estiveram aqui. José Vasconcelos antes de falecer se apresentou aqui. Há um apartamento especial para eles.


Qual foi o artista mais exigente que o senhor teve aqui?


Pedrinho Mattar. Era cheio de manias, quando morei no Campo Belo minha vizinha ao lado era irmã do Pedrinho, era professora de piano, o Pedrinho vivia com ela, da minha casa eu ouvia as apresentações dele ao piano. O saxofonista que toca no Programa do Jô Soares, o Derico, é filho dessa vizinha. Sobrinho do Pedrinho Mattar. Conheço o Derico desde quando ele tinha 3 anos, minha esposa estava fazendo o almoço ele vinha até a cozinha para visitá-la. O Derico é uma pessoa distintíssima, ele vem sempre se hospedar aqui. Ele foi amigo de infância dos meus filhos.








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