Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, abril 28, 2013

NORBERT BRÜSCHKE

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 20 de abril de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
 





ENTREVISTADO:NORBERT BRÜSCHKE


Norbert Brüschke (O nome correto tem um trema sobre o ü, quando chegou ao Brasil quem anotou o seu nome aboliu por vontade própria o trema originalmente existente).
Nascido a 27 de junho de 1932 em Eskisehir, Turquia. Filho único do engenheiro mecânico Willi Brüschke e Martha Brüschke. Casado com Eunice Brüschke são pais de Klaus, Marlies e Richard.


O senhor é filho de alemães, porém nasceu na Turquia?


Nasci na Turquia por força do trabalho do meu pai, como engenheiro ele estava naquele país para instalar os equipamentos fabricados pela empresa na qual ele trabalhava na Alemanha. Ele se especializou em instalar equipamentos fora do país, assim ele esteve na Tchecoslováquia, na Romenia, um dos seus grandes trabalhos foi na Turquia onde permaneceu por quatro anos.


Em qual empresa ele trabalhava?


Na Knorr Bremse, em alemão Bremse quer dizer freio. A especialidade deles era colocar freios nos trens. Acredito que todos os trens alemães estão equipados com sistema de frenagem da Knorr concorrente da Westinghouse americana.


Em que ano o pai do senhor foi prestar serviços na Turquia?


Foi em 1931, após um ano eu nasci, fui registrado em Istambul como alemão. Na Europa e na Ásia Menor a lei da nacionalidade sempre é definida pelo sangue do pai. A nacionalidade do pai é que determina a nacionalidade do filho. Há até uma passagem muito curiosa ocorrida com a minha esposa, Eunice Brüschke, estava em um estabelecimento bancário no Brasil, fazendo um cadastro, quando lhe perguntaram qual era a nacionalidade do seu marido ela afirmou: “Ele é alemão.”. Ao perguntarem-lhe em que cidade eu havia nascido, ela respondeu, foi quando lhe afirmaram: “Então ele é turco!”. Ficaram naquele impasse, ela afirmando que eu era alemão e a pessoa dizendo que eu era turco. Até que ela perdeu a paciência e disse-lhe: “Uma gata dá a cria de gatinhos em um forno de uma padaria, o que nasce é gata ou biscoito?”. Nesse momento a pessoa entendeu.


A esposa do senhor é brasileira?


Sim, nascida em São Paulo.


Com que idade o senhor saiu da Turquia?


Aos três anos de idade deixei a Turquia, permaneci até os cinco anos em Berlim, na Alemanha, onde meus pais tinham residência própria. Dentro de dois anos meu pai foi mandado para fazer o mesmo trabalho no Brasil.


Isso foi por volta de 1937?


Foi em torno de 1937 a 1938. Ele veio até o Brasil, fez o que tinha que fazer participar de uma concorrência pública da Companhia Paulista de Estadas de Ferro, nas oficinas de Rio Claro. Descemos do navio em Santos e fomos para Rio Claro, fomos morar na Terminada a concorrência, a experimentação, durou quase dois anos. Ele falava só alemão, na Companhia Paulista havia um tradutor. Quando tudo terminou, meu pai já tinha a passagem do navio em suas mãos, estourou a Segunda Guerra Mundial, isso foi em 1938. O navio cujo nome era Cap Arcona, e com o qual deveríamos ter voltado nunca chegou a Santos. Após a guerra eu soube que ele foi afundado no Mar do Norte. Lembro-me que estávamos hospedados no Hotel Aurora, na Rua Aurora, naquele tempo era chique. Era um hotel muito bonito, com um jardim em frente, permanecemos ali na indefinição se ele voltava ou não para a Alemanha. Ele queria voltar de avião, havia uma companhia aérea chamada Linee Aeree Transcontinentali Italiane, L.A.T.I. que tinha um voo até Recife, depois para Açores, Norte da África, Itália e Alemanha. Naquele tempo havia a famosa Blitzkrieg (termo alemão para guerra-relâmpago), achavam que dentro de duas semanas a guerra terminava e o meu pai retornaria. Esse era o pensamento da empresa. Até 1940 ele recebeia o salário dele normalmente via Banco do Brasil. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra, o salário que o meu pai recebia da Knorr foi interrompido, ele então teve que procurar um trabalho.


O fato de ele ser alemão e o Brasil estar em guerra com o a Alemanha trouxe-lhe aborrecimentos?


Não diretamente. Lógico, em São Paulo durante a guerra houve perseguição aos alemães, só que era focado mais nos alemães mais conhecidos, como o diretor da Deutsche Schule, Dr. Hoch, morreu na prisão, no Brasil. Essa escola foi transformada no famoso Colégio Visconde de Porto Seguro, escola que freqüentei do primeiro até o terceiro ano científico. Ficava na Praça Roosevelt em São Paulo, nós morávamos na Rua Dom José de Barros, entre a Rua Barão de Itapetininga e a Rua 7 de Abril. Não faz muito tempo passei pelo prédio onde morávamos, no quarto andar. O elevador era com porta pantográfica. Para ir à escola ia pela Rua Barão de Itapetininga até a Praça da República, subia a Avenida Ipiranga e ia até a Praça Roosevelt. Naquele tempo não existia praticamente nada do que existe hoje. Era uma praça abandonada onde brincávamos, um terreno baldio em frente a escola. A escola ficava na Rua Olinda, existente até hoje. Era uma escola bonita, o prédio existe até hoje. Dr. Hoch foi substituído por um interventor brasileiro, mais tarde substituído pelo Dr. Turelli que permaneceu por uns quarenta anos ou mais na função, foi o meu diretor durante todos os anos que lá estudei. Após muito tempo, já casado, com filho, um dia eu fui ao Colégio Visconde de Porto Seguro, já localizado no Morumbi, passei por ele que me cumprimentou: “- Oi Norberto! Como vai?”. Após 30 anos ele ainda recordava-se do meu nome.


Com a permanência no Brasil, o pai do senhor passou a trabalhar onde?


O primeiro emprego dele foi numa fabrica chamada Aliança, que faz fivelas, a primeira máquina de costura brasileira feita durante a Segunda Guerra cópia da máquina de costura Pfaff foi feita sob a responsabilidade do meu pai. O dono da fábrica de fivelas queria se lançar em um novo mercado, pegou todos os direitos da Pfaff alemã e fabricaram os protótipos, as primeiras máquinas. Sei que meu pai todo orgulhoso chegou até a costurar uma folha bem fininha de chumbo para mostrar a robustez da máquina em demonstração para as autoridades brasileiras. Eu tenho a impressão de que essa máquina não foi produzida em larga escala. Depois ele foi trabalhar em uma fábrica de prensas no bairro do Tatuapé.


Após estudar no Colégio Visconde de Porto Seguro qual foi a próxima etapa escolar do senhor?


Nessa época o ensino da língua alemã era proibido, só mais tarde, quando se mudou para o Morumbi, como sempre foi um colégio freqüentado pela colônia alemã, ele acabou fazendo um convênio com o governo alemão para poder lecionar a língua alemã e também que as aulas fossem ministradas em alemão. Para que os filhos dos profissionais alemães ao voltarem para a Alemanha tivessem o reconhecimento oficial do diploma dos cursos feitos no Brasil.


O senhor freqüentou algum cursinho para ingressar na faculdade?


Fiz o Curso Anglo-Latino, entrei na Escola Politécnica em oitavo lugar, isso foi em janeiro de 1951, fiz o curso de engenheiro mecânico e eletricista na época eram cursos juntos. Sou da turma em que se formou Mário Covas em 1955. Paulo Maluf se formou na Politécnica um ano antes de nós. Naquele tempo o Covas já era politicamente muito ativo, foi presidente do grêmio estudantil. Quando fazíamos greve era ele que estava a frente de tudo. Após 25 anos de formatura na Poli fizemos uma festa e nos encontramos, fomos com nossas esposas, ao sair de lá, minha esposa disse-me: “- Agora entendo o seu jeito de ser! Vocês na Poli tem a mesma mentalidade, a mesma forma de pensar”. Eu diria que o Mário Covas tinha uma mentalidade Politécnica, o ideal de construir um Brasil melhor. Éramos muito idealistas. Fui rotariano por 21 anos.


A religião professada pelos alemães, em sua maioria qual é?


Luteranos.


No Bairro do Campo Belo em São Paulo existe uma entidade freqüentada por alemães, qual é a finalidade?


Trata-se da Kolping Haus, é uma entidade com fins sociais da colônia alemã. Recentemente, ao comemorar 25 anos de formatura no Colégio Visconde de Porto Seguro almoçamos lá. Quando morávamos na Rua Dom José de Barros o clube que freqüentávamos era o atual Clube Pinheiros, na época era denominado Clube Alemão. Quando criança eu praticava natação, quando fiquei maior, junto com o meu pai jogava tênis, que foi o meu principal esporte depois.


Após formar-se como engenheiro na Politécnica o senhor foi trabalhar aonde?


Tive 12 ou 13 empregos diferentes. A cada 2 ou 3 anos eu mudava de emprego. O meu primeiro emprego foi na Indústrias de Parafusos Mapri onde permaneci por um ano e pouco. Dali fui para a Mercedes-Benz, onde também fiquei por um ano e pouco, lá trabalhei no controle de qualidade de recebimento de materiais. O controle de qualidade de entrada de produtos dos fornecedores da fábrica de São Bernardo de Campo passava pelo meu departamento. Isso foi em 1956. De lá fui para a Brastemp onde tive uma experiência muito linda: o meu pai estava trabalhando na Brastemp! Pude vê-lo trabalhando, foi um privilégio. Ele era daqueles engenheiros no qual tive que me espelhar, era um profissional que além de ter a teoria tinha a prática. No departamento de engenharia desenvolvia o ferramental para fazer uma geladeira, uma porta de geladeira era feito de chapas, através de prensas enormes de duas, três mil toneladas, eu vi meu pai ajustando aquelas ferramentas uma por uma. Ele tirava o paletó e punha a mão na graxa. Naquele tempo não saia de um emprego sem ter contrato já feito em outro. Havia uma demanda muito grande por profissionais.


Da Brastemp o senhor foi trabalhar em qual empresa?


Fui para a Fichet Schwartz Hautmont onde permaneci por 3 anos. Lá tínhamos a fábrica de esquadrias de alumínio, vigamento pesado que era a minha área, esquadrias de ferro e cofres. Vigamento com um metro, dois metros de altura, inclusive fazíamos pontes rolantes, a maior ponte que eu vi lá foi uma que levantava 250.000 quilos, feita para Furnas, para levantar o gerador. Fazíamos tanques enormes para a Petrobrás, com 10 metros de diâmetro por seis metros de altura. Na Fichet trabalhei três anos.


Qual foi a próxima empresa em que o senhor trabalhou?


Fui trabalhar na Willys Overland do Brasil , isso foi em 1960, ela só fabricava o Jeep e a Rural Willys. O meu teste de admissão foi uma peça do capô do Jeep. A pergunta que me foi feita é qual seria o ferramental que eu iria utilizar para fazer aquela peça. Eu tinha visto aquilo na Brastemp, só visto, mas eu sou curioso. Fiz o projeto da ferramenta, do fluxograma, de um processo de fabricação daquela peça e expliquei ao americano, eu falava inglês. Disse-lhe que me interessava muito em projetar ferramentas de corte e repuxo profundo. Permaneci por três anos na Willys. Após um ano um diretor de uma escola técnica procurando por um professor me contratou por indicação do meu chefe. Depois de um ano e meio ele reuniu a turma e disse: “- Nós vamos lançar um carro novo, diferente. È o Aero Willys, vamos trazer as ferramentas dos Estados Unidos e vamos lançar no Brasil. Fui chamado a ser o coordenador desse projeto na área de ferramentas de corte e repuxo. O que eu soube é que o Aero Willys antes de ser lançado, uma equipe de pilotos pegou um Aero-Willys americano, importado, e andaram pelo Brasil afora, tiveram que soldar a carroceria inúmeras vezes, o carro americano não era feito para estradas brasileiras. A nossa engenharia teve que reformular todo chassi, principalmente a suspensão. Era até engraçado, pegávamos os desenhos das peças para fazer as ferramentas, de repente tinha que suspender tudo, ia ser modificado tudo. O Aero Willys brasileiro, toda parte de chassi e suspensão é genuinamente brasileiro, por ter sido adaptado as condições das estradas brasileiras. Passado um ano, aquilo tudo estava funcionando, ele me chamou e disse: “- Agora vamos lançar o Dauphine.”. E 1800 ferramentas do Dauphine passaram pela minha mesa.


Qual é a origem do Dauphine?


Francesa. O projeto era da Renault. Fui indicado pelo meu chefe para coordenar o “Projeto Dauphine” para ser fabricado na Aero Willys do Brasil.


Da Willys o senhor foi trabalhar em que empresa?


Fui para a Siemens, para a área de transformadores. Ficava na Marginal Tietê, trabalhei lá por três anos. Fiz parte da área denominada preparação de produção. A área que tendo o desenho e especificações técnicas determina o processo de fabricação. Eu tinha um departamento com 25 funcionários, que emitia toda a documentação, peça por peça, para as máquinas correspondentes, cada operador de máquina recebia toda instrução de como fazer aquela peça. Tinha um pequeno grupo de cronometristas que determinava os tempos padrões. Naquele tempo se pagava até premio por produção.


Qual foi a próxima empresa que o senhor trabalhou?


Da Siemens fui para a Isopor. Naquele tempo era uma empresa particular, hoje é da BASF , empresa alemã. O isopor foi “inventado” por um amigo do meu pai, era um homem de uma versatilidade extrema, iniciou sua empresa fazendo lã de vidro para a Brastemp usar como isolante térmico das geladeiras. Ele fabricava a lã de vidro baseado em um processo alemão. O isopor foi inventado pela BASF na Alemanha. Ele vendeu a fábrica de lã de vidro e passou a fabricar isopor baseado na patente da BASF alemã. Trabalhei com ele por um ano. Quando eu estava na Siemens fiz um curso na Manegement Center do Brasil, localizado na Avenida Paulista, fui fazer um curso de programação, eu queria saber a diferença entre o computador e o bonde elétrico, naquela época o computador era novidade, isso foi por volta de 1963 a 1965, me ofereceram um curso de programação específico para cientistas, fiz o curso por curiosidade, fiz o curso de Planejamento e Controle de Produção, o PCP, um dia o diretor me chamou e perguntou se eu queria dar o curso de PCP, era a minha área na Siemens. Passei a dar aula de PCP. Eu já estava na Isopor quando ele lançou um curso de administração de empresas para pessoas que já tinham formação acadêmica, eu queria fazer esse curso, acabei fazendo o curso, sendo que nas aulas de PCP eu passava de aluno a professor. Um dia um aluno-colega me fez uma oferta salarial muito atraente, e assim fui trabalhar na Eucatex. Ali permaneci por 21 anos, foi meu último emprego.


Quem dirigia a empresa?


Roberto Maluf, irmão mais velho de Paulo Maluf. No dia em que fui admitido fui apresentado ao senhor Roberto Maluf. A administração ficava no bairro da Água Branca e a fábrica em Salto. Milton Monteiro, engenheiro e diretor da Eucatex, foi quem me contratou.


Eucatex é feito do que?


De fibra de madeira, de eucalipto, chama-se Eucatex por causa do eucalipto.


O senhor praticou remo?


Quando estava na Politécnica pratiquei Yole A8 no Rio Tietê. Foi feita uma competição entre o Clube de Regatas Tietê e o Espéria. Frequentei o Espéria, pegava o barco normal e ia passear pelo Rio Tietê, mergulhava no Rio Tietê. Como todo rio era cheio de barro, mas não era poluído. Naquele tempo pescava-se no Rio Tietê, em São Paulo. Eu não pescava. Atravessava o rio a nado para ir ao Clube de Regatas Tietê, pulava o muro e tomava banho na piscina do clube. Isso foi por volta de 1950.














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