Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, junho 16, 2013

ALAIDES PUPPIN RUSCHEL

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 15de JUNHO DE 2013.
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/


ENTREVISTADA: ALAIDES PUPPIN RUSCHEL




A artista plástica Alaídes Puppin Ruschel é a representação gritante do potencial do ser humano e em especial do Brasil. Com sólida formação acadêmica em área totalmente diversa, mais uma vez ela prova que os gênios não se limitam, alimentam-se do saber, seja qual for sua origem. Durante décadas atuou em pesquisas científicas. Quando encerrou sua atuação profissional, quase por acaso, se é que existe acaso, descobriu ser exímia escultora, com composições de vanguarda, obras inovadoras, formas coerentes e arrojadas. Peças de volume respeitável, compostas por materiais diversos se interligando em perfeita harmonia, Alayde, seu nome artístico, sem nunca antes ter tido contato com esculturas, aos 60 anos iniciou uma carreira de artista plástica gloriosa, fundamentada em rigor científico e extrema sensibilidade. Alayde não é apenas uma artística plástica a mais no mercado, nem uma senhora da sociedade que ocupa seu tempo ocioso com figuras imaginárias. Ela é o verdadeiro exemplo da energia que cada ser humano tem em seu interior. Premiada e homenageada, em Piracicaba, no exterior, infelizmente ela segue a trilha determinada pela sina dos que fazem arte com vocação: o verdadeiro valor do artista só é reconhecido de fato após deixar de existir fisicamente. Seja por falta de conhecimento das obras do artista, por ego envaidecido de terceiros, por fatores culturais, interesses comerciais, grandes nomes vão para a vala comum até que algum estudioso resgata seu valor e o coloca em seu merecido lugar. É então declarada a temporada de caça a obras do artista, alcançando às vezes cifras inimagináveis. São incensados no altar da fama e glória.
Filha de Santos Puppin Neto e Emília Bressan Puppin, nasceu a 12 de dezembro de 1931, no distrito de Araguaia, pertencente ao município de Alfredo Chaves, no estado do Espírito Santo. São seus irmãos Luiz Puppin Neto e Edson Puppin. Seu pai era agricultor, com a crise do café ele enfrentou uma derrocada, que o levou a trabalhar na cidade de Cachoeiro de Itapemirim onde passou a ser vendedor de títulos de capitalização, profissão que o levou a morar em Itajubá, no sul de Minas Gerais.


Que idade a senhora tinha quando a família transferiu-se para Itajubá?


O curso primário eu fiz em Cachoeiro do Itapemirim, no Grupo Escolar Graça Guardia, em Itajubá fiz o ginásio e o científico. Meu pai incentivava-nos a estudar. Éramos pessoas simples, sem grandes recursos que permitisse ir estudar longe de casa. Eu tinha uma amiga, Elenita Sobral do Nascimento, cujo pai, Augusto, era militar, e ele a levou até a escola de agronomia onde até hoje ela é professora, situada próxima a 47 quilômetros do Rio de Janeiro, distrito de Campo Grande, era a Escola Nacional de Agronomia. Ela iniciou na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, depois foi transferida para esse local, um campus construído pelo paulista Fernando Costa.


Em que ano a senhora prestou o vestibular?


Foi e 1951 e formei-me em 1955 como engenheira agrônoma.


Na época não era comum mulher estudar agronomia.


Era raro. Naquela época houve um “boon” dentro da universidade porque uma escola da Colômbia fechou, muitos colombianos vieram para cá, éramos três alunas, eu, a Elenita e outra aluna isso no meio de outros 55 alunos do sexo masculino. Moramos em um alojamento que tinha sido construído naquela época, dentro da própria escola. Os rapazes, todos moravam nos alojamentos antigos, mas as meninas não tinham alojamento próprio, então foi feito um alojamento feminino, enquanto isso nós moramos a dois quilômetros da escola, o Ministério da Agricultura tinha muitas casas onde residiam seus funcionários. Íamos à escola de carona, desde aquela época aprendi que a carona é uma das coisas politicamente correta de ajudar as pessoas. De manhã vinha um carro e nos pegava, morávamos em sete moças nessa casa. À tarde esse carro nos trazia, se quiséssemos vir almoçar em casa tínhamos que conseguir uma carona. Embora na escola houvesse um refeitório maravilhoso.


Ao formar-se em que local a senhora foi trabalhar?


O único jeito era trabalhar no Ministério da Agricultura. Lá existia o Instituto de Ecologia, era antigo, tinha vindo da Praia Vermelha. Fui trabalhar com microbiologia do solo, tinha uma alemã chamada Johanna Döbereiner (Johanna Liesbeth Kubelka Döbereiner), no tempo da guerra ela refugiou-se no Brasil, mas ela tinha feito cursos semelhantes a agronomia, ela tinha estudado com um francês muito importante no estudo de microbiologia do solo. Ela trouxe todas as práticas que eram feitas no laboratório, fomos indicados a trabalhar e conhecer bacterias que fixavam nitrogênio do ar. Nós respiramos o nitrogênio existente no ar, assim como oxigênio, carbono. Mas nós só usamos o oxigênio. O nitrogênio que está no ar tem a fórmula N2, ele passa pelo nosso organismo e não faz nada. Existem umas bactérias que são responsáveis por tudo isso que você vê de natureza. Essas bactérias pegam esse nitrogêncio e transformam em amônia, que é um produto que toda planta precisa ter para se formar a proteina, que é oxigênio, nitrogênio e hidrogênio. Toda a fotosintese é dependente desse nitrogênio que é assimilado do solo. Essas bactérias são as mais importantes para a formação de toda a natureza.


Isso significa que bactéria não são só prejudiciais?


Posso lhe dar uma aula sobre os benefícios realizados pelas bactérias. Ela está no seu corpo, estômago, intestino, são as bactérias e fungos existentes em nosso corpo que fazem com que ele funcione e absorva tudo que é bom. Quem destroi o lixo? São as bactérias, os fungos, os microrganismos. São os seres mais poderosos e benéficos para o homem e para a natureza toda.


O homem tem consciencia disso?


Nós que estudamos isso sim, mas eu tenho a certeza de que a maioria dos seres humanos não sabe disso. É ilógica a pecha que dão aos microorganismos como destruidores. O nosso pão, só fermenta e se transforma em pão por causa de um fungo.


Como a senhora vê a industrialização dos alimentos, a existência de produtos enlatados, por exemplo?


Acho isso até certo ponto bom. Pessoas que não estão convivendo na natureza podem ter certo tipo de alimento. Só me revolto quando vejo quem vai levar todos os dias alimento aos quinze milhões de habitantes que moram em São Paulo. Quem? É o fruto do trabalho do homem que está no campo que vai chegar através de algo que é uma rodovia, onde milhares de pessoas estão trabalhando para trazer isso para cá. O homem não pensa. Como por exemplo, quando destruiu toda a via férrea no Brasil, o que ele fez de prejudicial ao nosso país. Hoje gastamos tanto combustível para transportar tudo, estamos poluindo a natureza. Eu vivi essa época, nós já tínhamos as estradas de ferro, mas começamos a importar o petróleo dos Estados Unidos. O solo do Brasil central é um solo paupérrimo e tem deficiência só de um elemento: o zinco. A EMBRAPA se expandiu através de Brasília, alguém que veio do exterior, fazendo pesquisas no solo descobriu que tinha que colocar zinco. A agricultura se expandiu, agora temos a melhor agricultura do mundo.


O Brasil tem petróleo?


Tem e muito! Sabemos que na Amazônia há muito petróleo.


No Nordeste pode haver muito petróleo?


Acho que pode ser que tenha. O petróleo é fruto das grandes florestas que haviam em um passado muito remoto, sucumbiram, os microorganismos produziram o petróleo que é a decomposição de toda matéria orgânica. Aquilo que foi enterrado. A nossa capacidade de trabalho é muito grande, um exemplo disso é a EMBRAPA.


O fato do Brasil mais do que duplicou a sua população em um curto espaço de tempo é um fator positivo?


Acho que só seria positivo se a população tivesse condições de receber uma educação perfeita. Atualmente está se tentando fazer isso, o governo tem oferecido escolas boas como SESC, SENAI, ETEC, está tentando melhorar o ensino primário, mas não consegue melhorar o salário dos professores. Se esse processo evoluir como é feito pelo americano, aonde as crianças vão para a escola onde permanecem oito horas por dia, as crianças recebem uma alimentação adequada, muito boa, praticam esportes. No Brasil só se pensa que o aluno vai para a escola para estudar. Ler. O professor não tem nem a capacidade de fazer isso porque ele não tem instrumentos. Enquanto não isso não existir no Brasil no sentido de que ela evolua sem ser pela televisão, que só traz coisas erradas. Eu tenho pena da juventude atual.


Há estatísticas que apontam que a maior fonte de lazer da população brasileira é a televisão.


As mensagens que são passadas através das novelas são criticas. Tudo é uma negação. A mensagem que eles estão passando agora, meninas com 12 anos apresentando uma sensualidade fora do normal. Não é uma questão de moralismo, é definição do que é certo e do que é errado. O certo é não ser desse jeito. Eu assisto a novelas da TV Globo, ela tenta passar uma coisa de arte, os atores são bons, os diretores também são mais ou menos bons, quem escreve uma novela é que deturpa as coisas. O pensamento do homem em chamar a mídia dentro das casas.


Na opinião da senhora os autores de uma novela a deturpam?


Deturpam! Impõem um pensamento negativo.


Em seu ponto de vista há interesses externos de que o Brasil não avance em seu progresso?


No passado, tempo de D.Pedro II, os europeus vieram para o Brasil, fizeram várias coisas boas, mas também levaram muitas riquezas do Brasil. Quando vou à Europa e vejo lugares com aquele ouro todo, fico pensando: “Meu Deus! Veio lá da minha terra!”. Consegui através do estudo, melhorar muito meu entendimento do mundo. Meu pai gostava de ler, comprava jornais, líamos, quando eu perguntava algo, porque determinada coisa estava acontecendo ele dizia: “– Minha filha leia sempre nas entrelinhas!” Se você ler um jornal você tira suas conclusões, A imprensa deveria ser sucinta, dando a mensagem correta e final.


A senhora acessa a internet?


Através do Google consegui acessar dois PowerPoint muito interessante. O local da ciência também me instruiu bastante. As noticias veiculadas pelo meio eletrônico é só no sentido negativo.


Qual é a opinião da senhora sobre a construção dos estádios para a Copa de Futebol?


Me lembro do dia em que foi aprovado que a Copa viria para o Brasil, o Lula fazendo aquela festa toda. Eu pensei: “-Será que essa pessoa não esta sabendo o que está acontecendo no Brasil?” E agora está acontecendo! Dinheiro jogado fora! Algumas pessoas irão frequentar aqueles estádios, algumas vezes, vão ficar felizes ou infelizes. Esse dinheiro poderia ser canalizado para pesquisa de alta tecnologia.


O Brasil tem fontes de pesquisas?


Eu acho que tem, mas tudo direcionado para ganhar dinheiro. O pesquisador tem que ser protegido, através do seu trabalho é que tudo evolui. Até a política pode evoluir.


Há interesse político em evoluir?


Diante agora da competição com outros núcleos na Europa, Estados Unidos, eu acho que deveria haver um interesse.


A senhora aposentou-se em que ano?


Aposentei-me em 1994, na EMBRAPA. Trabalhei 38 anos como agronoma, hoje os grandes agricultores estão apoiados na EMBRAPA. A EMBRAPA foi criada no Rio de Janeiro, nessa ocasião eu trabalhava no Instituto de Ecologia, houve um grande movimento da EMBRAPA ser fundada dentro do Ministério da Agricultura, muitos pesquisadores americanos chegaram ao Brasil e viram que nós tinhamos uma agricultura o ano inteiro, issso abriu os olhos dos brasileiros, tinha um instituto que trabalhava com a cana-de-açucar ha trinta anos no Ministério da Agricultura, em Campos. Eles viram o potencial que existia no Brasil para tudo. Fundou-se a EMBRAPA em 26 de abril de 1973, o banco de germoplasma, todas as sementes do Brasil, ia ser em Piracicaba, meu marido Renato Ruschel foi convidado para ser o presidente. Éramos colegas de turma e casamo-nos em maio de 1957 no quilômetro 47 da Via Dutra, Estrada Velha Rio-São Paulo, a igreja era dentro do anfiteatro da universidade. Tivemos quatro filhos: Regina Celi, Ricardo Henrique, Rosane e Roberto.


A senhora chegou a fazer cursos fora do Brasil?


Fiz o meu Master of Science nos Estados Unidos, na Purdue University Soil Science. Quando fomos já tínhamos quatro filhos, sendo que o mais novo tinha sete anos. Permanecemos lá por dois anos e pouco. Meu marido fez PhD. Quando voltei fiz doutoramento na ESALQ. Ai fui trabalhar no CENA, onde permaneci por 10 anos., trabalhava com microbiologia. Voltei para a EMBRAPA onde permaneci por mais 10 anos. Tive projeto durante doze anos, eu ia à Viena representar o CENA.


Em que ano a senhora mudou-se para Piracicaba?


Foi em 1971, tinha ocorrido a queda do Comurba, não havia quase edifícios na cidade.




 
 

Quando a arte passou a ser uma atividade para a senhora?


Começou quando eu estava para me aposentar em Goiás. Eu gostava muito de Goiânia, tenho muitas saudades de lá. Construímos uma casa em Caldas Novas, havia umas freiras que tinham uma espécie de mini hotel, no período em que estávamos construindo ficávamos hospedados lá. Eram dominicanas, fizemos uma amizade maravilhosa, nos fins de semana ou feriados nós íamos lá. Após a conclusão da nossa casa íamos fazer as refeições no mini hotel das freiras. Um dia uma das freiras me disse “-Alaides, queria que você levasse esse santo para a Irmã Letícia consertar!”. Ficava no centro de Goiânia, onde moravam essas freiras dominicanas. Levei esse Cristo para essa freira consertar, estava todo quebrado. Quando cheguei lá não encontrei a freira, mas deixei o Cristo lá. Na outra semana fui lá e peguei o Cristo, coloquei no meu colo, abri o embrulho, vi que era tão lindo! Mas era tão lindo! Até hoje tenho aquela imagem na minha cabeça. Pensei: “-Vou aprender a fazer isso!”. Falei com a freira de Goiânia, pedi que me apresentasse à Irmã Letícia. Em um sábado falei com ela: “-Eu queria aprender a fazer esculturas, pinturas”. Ela disse-me; “-Toma esse pedaço de barro e faça alguma coisa para que veja como você faz. Na semana seguinte levei um rosto de boneca que eu queria dar de presente para a minha neta. Ela pegou, olhou, falou assim: “-Alaides, não está bom! Você vai melhorar!”. Tive mais duas aulas com ela, ai soube que lá perto tinha um escultor que era filho do presidente do Lions que nós pertencíamos. Falei com esse rapaz se ele podia me ensinar a fazer esculturas maiores, ele me ensinou por três aulas. Aprendi a fazer esculturas grandes. Ele “queimou” a minha primeira peça. Trouxe essa peça para cá, soube que vinha uma pessoa de Campinas à Piracicaba para fazer na fundição a queima das peças dela. Fiquei lá uns quatro a cinco meses. Fui fazendo as minhas peças, fui crescendo, via as peças do pessoal que vinha do exterior e produzia esculturas. Assim fui evoluindo. Sozinha. O prateado das escultura é uma liga de alumínio com sílica, nunca fica escuro. Algumas peças são só em alumínio. Eu faço a minha peça na argila, quando a queimo vira cerâmica. É o mesmo principio de fazer tijolo, pega-se o barro, põem no forno e queima. Eu levo para a fundição a cerâmica ou só no barro mesmo. Eles tiram o molde e fazem o que eu quero.




Isso aqui em Piracicaba?


È a Fundiarte, a melhor fundição da América do Sul. Vem pessoas de todo lugar para fundir suas peças ali. Esse negócio de fundir em uma só peça prateado com dourado fui eu que comecei. Na minha tecnologia eu uso o buraco, chamo de “buraco vazio”, eu pintei o buraco com tinta automotiva. Com isso dei uma nova estrutura na minha obra. Eu uso a linha helicoidal. Há escultores que realizam obras sem nenhum vazio. O meu primeiro trabalho está em nosso museu no Lar dos Velhinhos, eu o levei para a Europa, ele foi apresentado lá. Fui assistir a abertura da mostra, em Roma, tinha muita gente em volta da minha obra e não tinha gente em volta da obra de ninguém. Sabe por que? Porque tinha essa tecnologia: bronze e alumínio. Todos que estavam lá eram artistas plásticos da cidade que queriam ver a artista que tinha feito aquela obra. Isso foi em 1975. Eu fiz isso porque o Luiz da Fundiarte me ajudou a fazer, aqui em Piracicaba! Lá eu ganhei o primeiro prêmio. Tenho obra que ganhou medalha de bronze em São Paulo., no Salão Paulista de Belas Artes. Tenho vários prêmios, até medalha de ouro.








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