Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sábado, julho 20, 2013

DIRCE DE MATTOS ROSSI E JOÃO CARLOS ROSSI (PADARIA SÃO JOÃO)

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 20 de julho de 2013.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/


ENTREVISTADOS: DIRCE DE MATTOS ROSSI E JOÃO CARLOS ROSSI (PADARIA SÃO JOÃO)

                       DIRCE MATTOS ROSSI E SEU FILHO JOÃO CARLOS ROSSI
O tempo parece ter congelado a imagem dos prédios onde funcionou a Padaria São João e ao lado a residência do seu proprietário. O toldo que protegia do sol e da chuva, sanfonado, em metal, tão comum na época ainda permanece no mesmo lugar, como testemunha de milhares de pessoas que entraram e saíram daquele estabelecimento. Situado a Rua Alferes José Caetano, 2.167, a 50 metros da Avenida Dr. Paulo de Moraes, do lado direito de quem vai seguindo o sentido bairro-centro. Vizinha a duas quadras e meia , na Rua da Boa Morte existia a Padaria Jacareí, que permanece em atividade até hoje. Ambas atendiam públicos distintos. Acima da linha do trem da Companhia Paulista não havia nenhuma padaria, os moradores dessa área serviam-se da Padaria São João. O pão pré-fabricado, que é levado ao forno apenas para assar, é um produto relativamente recente. Os armazéns e alguns bares vendiam pães já prontos fornecidos pelas padarias da cidade. Com a instalação da padaria Suiça, na Praça Takaki, boa parte da clientela passou a se servir da mesma. Mais tarde a denominação dessa padaria passou a ser Padaria Takaki. Sendo que a então Padaria Suissa, já com nome modificado passou a funcionar em outro local, na Avenida Nove de Julho, 1068, no Bairro Jaraguá. Para contar um pouco da história da famosa Padaria São João, Dirce de Mattos Rossi e seu filho João Carlos Rossi,nascido em Piracicaba a 24 de janeiro de 1948, que por anos a fio trabalhou na fabricação e entrega de pães contam um pouco da história vivida por eles.


                                                          DIRCE MATTOS ROSSI
 

Dona Dirce a senhora nasceu quando?


Nasci a 24 de outubro de 1920, na Rua do Vergueiro em Piracicaba, meus pais são Manoel Cesar de Mattos e Amália Paschoalotto, tiveram dois filhos eu e meu irmão Orlando, já falecido. Quando eu tinha dois anos e sete meses de idade minha mãe faleceu. Meu pai casou em segundas núpcias com Norma Nardi, sendo que dessa união nasceram mais quatro filhos: Leni, Édni, Durval e Airton.


Qual era a atividade do pai da senhora?


Ele era padeiro, trabalhava na Padaria Aliança, situada na Rua Regente Feijó esquina com a Rua do Rosário. Um dos proprietários dessa padaria era Cássio Paschoal Padovani que mais tarde veio a ser prefeito de Piracicaba.


Com que idade a senhora começou a trabalhar?


Aos 14 anos de idade comecei a trabalhar na Fábrica Boyes, trabalhava na espuladeira, onde fazia a espula uma espécie de carretel comprido. Que em seguida era mandado para a tecelagem. Nessa época nossa família morava na Rua São José. Não fiquei por muito tempo na Boyes. De lá fui trabalhar em um barracão de laranjas onde hoje é a Mausa. O proprietário tinha o sobrenome Pires, nós encaixotávamos as laranjas para exportar. As laranjas eram escolhidas, uma a uma, embrulhava-as individualmente em um papel próprio, colocava na caixa e despachava. Éramos umas 15 moças fazendo essa atividade. Saí de lá para me casar com João Rossi em 23 de junho de 1938, o casamento foi na Igreja Bom Jesus. Após nos casarmos, fomos morar com a minha sogra, Rosa Cavallini. Ela morava em uma chácara que havia na Rua São João esquina com a Rua Dom Pedro. Passei a trabalhar só em casa. Fazia de tudo, até “roupa de ganho” (roupa de terceiros) eu lavei. Não tinha outra opção, nem uma máquina de costura eu tinha. Comecei a fazer flor para vender. Com o tempo adquiri uma máquina Singer, que está comigo há 71 anos, e passei a costurar vestidos.


Como vocês se conheceram?


Foi em um circo, na Rua São José, perto da linha do trem da Sorocabana, hoje extinta, que deu lugar para a Avenida Armando Salles de Oliveira. Lembro-me que havia um palhaço chamado Pastachutta. O João vinha em casa, o namoro naquela época era muito diferente do namoro atual. Ele pediu permissão ao meu pai, recebeu autorização e passamos a namorar.


Qual era a profissão do seu namorado, João Rossi?


Era padeiro, quando casamos, ele trabalhava na Padaria Santa Cruz, situada na Rua José Pinto de Almeida esquina com a Rua Moraes Barros. Na esquina oposta funcionava a Santa Casa de Misericórdia de Piracicaba, que depois de um bom tempo mudou-se para onde se encontra atualmente, na Avenida Independência.


O Seu João fazia que tipo de pão?


Fazia de tudo, filão, panhoca, As entregas eram feitas com carrinho de tração animal, o carrinho era composto por uma caixa de madeira, sendo internamente revestida com folha de zinco.


Quantos filhos a senhora teve?


Tivemos oito filhos: Maria Ivani, Marli Ivete, as gêmeas Neusa Maria e Rosa Maria, João, Túlio Manoel, Sueli e Lilian.


Depois de sair da casa da sogra da senhora em que bairro a senhora morou?


Moramos na Rua Floriano Peixoto, nas proximidades da Mausa, lá para cima, no sentido do colégio Dom Bosco era tudo mato.


A família da senhora usava muito o bonde para locomoverem-se?


Usava o pé! Ia andando mesmo! Depois mudamos para uma chácara na hoje Rua Santa Catarina, no bairro Piracicamirim. Era uma chácara grande, tinha vaca leiteira, eu tirava leite, tinha uma cabra, porcos, fazia manteiga, lingüiça, para consumo da família. Daquele lugar eu tenho saudades. Ali consegui juntar um dinheirinho e comprar um terreno na Travessa da Saudade, atrás do SEMAE. Fiz uma casa. Depois comprei mais dois terrenos. O dinheiro vinha principalmente da costura, eu ia de ônibus á Americana buscar pano, fazia camisa social para vender. Produzia as camisas em diversos tamanhos e saia vendendo. Vendia tudo. Tudo feito nessa maquininha de costura que mantenho até hoje.


A senhora costura bem?


Costurava, agora não costuro mais, só faço crochê.


Após morar na chácara no Piracicamirim qual foi a próxima atividade que a família exerceu?


Veio a Padaria São João, situada na Rua Alferes José Caetano, 2167. O prédio existe até hoje, ao lado há uma casa que era onde morávamos. Ali era alugado. Foi do Coelho, que tinha um bar na Rua Benjamin Constant e depois passou para o Pardi. Nós assumimos a padaria em 1958, nós a adquirimos dos irmãos José Silveira Campos e Benedito Silveira Campos, além de um terceiro sócio cujo nome não me recordo no momento.


                  FACHADA ATUAL (JULHO 2013) DO PRÉDIO ONDE FUNCIONOU A PADARIA SÃO JOÃO 

CASA ONDE RESIDIU A FAMÍLIA ROSSI QUANDO ERAM PROPRIETÁRIOS DA PADARIA SÃO JOÃO (FACHADA EM JULHO DE 2013). ESTA CASA FICA AO LADO DO PRÉDIO ONDE FOI A PADARIA
 

Seu João, quais eram os tipos de pães feitos pela padaria São João?


Eram muitos tipos de pães: a famosa bengala, filão grande, pão d água, sovado, aviãozinho, pão de ovos, o tradicional pão doce, que era feito com uma massa doce e depois punha uma espécie de melado de açúcar, passava com um pincel, polvilhava com açúcar cristal e voltava um pouquinho no forno, só para secar. Isso tudo no forno a lenha. Naquela época fazia-se bastante pão de torresmo. A massa ficava macia em função da banha pura que era colocada. A banha vinha de um fornecedor, um açougue situado no bairro Santa Terezinha, do Dirceu. Pão francês era muito raro ser feito.


Era a senhora que fazia os doces da padaria?


Fazia todo tipo de doces: cocada, pudim, bomba, tortinha, bolos.


Fazia bolo de noiva?


Dona Dirce diz: “- Quantos bolos de noiva eu fiz! O maior deles foi um com dezesseis formas, para o casamento da minha filha Lilian”. Nós fornecíamos pães para a Igreja dos Frades.


João, vocês vendiam para os fiéis que saiam da Igreja dos Frades?


Começávamos a trabalhar às sete horas da noite, o pessoal saia às oito horas da igreja, fazíamos o filãozinho, eles entravam na padaria e levavam o pão quente para casa. A produção começava umas seis e meia da noite e trabalhava até as seis horas da manhã. Trabalhávamos em quatro padeiros: eu, Rosalvo, Chiquito e outro que não me lembro o nome agora. O Suspiro também trabalhou lá. Nós “desmanchávamos” (usavam para fazer pão) uns des a onze sacos de farinha de trigo por dia.


Quantos carrinhos de tração animal eram utilizados para fazer a entrega de pães diariamente?


O Tito tinha uns quatro carrinhos, depois eu, meu pai e meu irmão também entregavamos pães. Trabalhei bastante tempo até a uma hora da manhã dentro da padaria, na produção, depois ia até o pasto buscar o cavalo, engatava no carrinho e ia entregar pães. Entregava na Vila Rezende, Bairro Alto, ia pela cidade toda.


Onde ficava o pasto dos cavalos?


Aqui no Morlet (Antiga metalúrgica entre a Avenida Dr. João Conceição, Rua da Glória e Avenida Dr. Paulo de Moraes), no meio do caminho tinha o bebedouro onde dava água para o cavalo, eles vinham sozinhos, a gente apenas os acompanhava, vinham sem mandar até a padaria, estavam acostumados. Engatava o carrinho e ia embora. Até a freguesia os cavalos já sabiam onde era, onde deveriam parar.


O senhor lembra-se do nome desses cavalos?


Lembro-me: Chaito, Rozil, Gaucho e Branco. Eram cavalos bonitos. Tinha quatro cavalos e três carrinhos. Meu pai fornecia para o bairro Paulicéia, a distância era menor, ele usava o cavalo todos os dias. Nós que fazíamos um percurso maior trocávamos, deixavamos sempre um descansando.


Os pães eram entregues nas casas dos consumidores?


Nas casas, nos bares, armazéns.


Nas casas os pães eram deixados aonde?


Dentro do relógio de força, na janela, alguns deixavam uns picuás (sacos de pano), nós deixávamos dentro. Outros deixavam uma cesta.


Esses pães não sumiam?


Naquele tempo não tinha ladrão, era muito difícil. Só estudantes é que às vezes tiravam. (há casos célebres). Você não via ninguém na rua, era um deserto só.


E no dia em que chovia?


Era difícil! Eu colocava um chapéu na cabeça e ia. Até hoje não me acostumei com guarda-chuva. Quando chovia tinha o lugar certo para deixar o pão, muitas vezes eu pulava o portão e levava a um lugar mais abrigado da chuva, geralmente uma janela, se fosse chuva de vento batia na janela para que o freguês pegasse o pão senão molhava tudo.


E para receber o dinheiro do pão que foi entregue?


Após um mês, eu pegava a bicicleta, era uma bicicleta Merk Suiça e ia receber, de casa em casa. Levava a conta certinha. Demorava de três a quatro dias para receber de todos os clientes, isso era feito durante o mês, não de uma só vez. Entregávamos pão pela cidade toda. Até dentro da ESALQ entregávamos pão. Em um dos locais em que entregávamos tinha um bezerro enorme, quando me via vinha em cima como um foguete. Era tudo escuro na madrugada.


Cachorro também assustava quem entregava pão?


Também. Nunca tomei mordida de cachorro grande ou bravo. A única vez que levei uma mordida foi de um cachorro pequeno que mordeu o meu pé, ele estava amarrado na casinha dele, eu fui receber pela entrega dos pães entregues no mês. Entrei sossegado, ele nunca tinha avançado em mim, naquele dia ele decidiu me morder.


A que horas vocês paravam de fazer entregas?


Eu vinha da Vila Rezende, parava na hora que apitava a Fábrica Boyes, ela apitava 4:50 e 5:00 horas da manhã. Essa hora eu estava em cima da ponte sobre o Rio Piracicaba, tinha feito os últimos fregueses nas casas do Engenho Central. Subia, pegava mais pão e fazia a clientela perto da Mausa. Chegava as sete horas da manhã em casa.


Quantas viagens por dia o senhor fazia entregando pães?


Fazia duas viagens.


Aproximadamente quantos pães iam a cada viagem?


Na primeira viagem levava umas 200 bengalas e filão, filãozinho como existe hoje não fazíamos. Em cima da tampa do carrinho tinha umas caixas de papelão que também iam lotadas de pães.


A Padaria Jacareí era concorrente?


Éramos amigos. O forno francês tem a pá comprida, às vezes a pá deles quebrava, eles emprestavam conosco. Quem fabricava essas pás era a Carpintaria Passini. Chegamos a emprestar carrinho com animal para a PANSA Padaria Nossa Senhora Aparecida. Cogitamos em comprar a Padaria Cruzeiro do Seu Berto Sachs. A Padaria Cruzeiro já existia no inicio da década de 40.


Qual foi a padaria mais antiga de Piracicaba?


Dizem que foi a “Padaria do Sol”, situada na Vila Rezende, em frente onde inicia a Avenida Manoel Conceição. Depois as mais antigas devem ser a “Central” e a “Jacareí”. A “Padaria Cruzeiro” deve ser dessa época. A “Padaria Bom Jesus” é muito antiga também, fica na Rua Moraes Barros. Quem montou a Padaria Jacareí era conhecido como Zequinha Bolacheiro, ele veio de Jacareí e deu o nome da cidade para a padaria, famosa por um tipo de bolacha até hoje fabricada lá. Quando ele chegou a Piracicaba começou a fazer bolacha igual a que era feita naquela cidade. A “Padaria Santa Cruz” também é bem antiga. Na Rua XV de Novembro, atrás da catedral, existia a “Padaria Di Giacomo”. Outras que marcaram época foram a “Inca” da Dona Augusta, a “Padaria Brasileira”, na Rua Alferes José Caetano, 701, que foi do Cardinalli. A “Vosso Pão” que ficava onde hoje é o Edifício Canadá.


Quanto tempo a família Rossi foi proprietária da Padaria São João?


Começamos em 1958 e fomos até 1975.


Na época de festas natalinas eram assados guisados como frangos,leitoas, perus?


Assávamos de tudo. Passava quase o natal inteiro dentro da padaria. A Igreja da Volta Grande fazia festas, lotávamos os dois fornos da padaria com frangos para serem assados. Particulares também levavam aves, leitoas para serem assados. O chão ficava todo cheio de gordura assim como as mesas. Tinha que lavar tudo. Dava um trabalhão, o salão onde ficavam os fornos era grande, tinha uns 15 metros de comprimento por uns 10 metros de largura. O terreno era grande, da Rua Alferes José Caetano quase atravessava até a Rua da Boa Morte.


Muitos vizinhos eram clientes da padaria e grandes amigos?


Sim, logo acima tinha o José Signoretti, sua esposa, Dona Irene Signoretti, o Pedro Cerignoni e sua esposa Dona Helena, Spironello, Fausto Motta, Silvio Motta. O Simionatto morava em frente a Estação da Paulista.O Olbrich era chefe da estação, seu neto Engenheiro Carlos Augusto Olbrich mora em frente a Estação da Paulista. Em frente a Igreja dos Frades tinha um cercadinho onde o pessoal que vinha do sítio deixava os cavalos. O Signoretti enrolava fumo, o Coelho que ficava na Rua Joaquim André tambem, asssim como o Angeli, pai do Cláudio.


Seu João o senhor chegou a frequentar o cineminha promovido pelos frades?


Ia sim . Pegava os “pontinhos” lá na igreja, no catecismo, e ia ao cinema. Havia quermessses, Dona Rosa Razera fazia um cuzcuz gostoso. Estudei ali no Grupo Escolar Dr. João Conceição, ao lado da Igreja dos Frades. Lembro-me do professor Pedro Negri. Lembro-me dos frades da época, Frei Liberato, Frei Benjamin, Frei Honório que era de Piraju, Frei Crispim.


Seu João, a venda de sorvete em carrinho começou em sua família?


Meu tio Orlando criou a “Sorveteria Douradinho”, foi a primeira sorveteria a vender sorvete em carrinhos, antes mesmo da Kibon. Ficava na Rua Prudente de Moraes entre a Avenida Armando Salles de Oliveira e a Rua José Pinto de Almeida. Ela foi vendida para o Pedro José Silveira Lara. Ele era proprietário da linha de onibus que ia para Anhumas. O Miguel Fernandes tinha a jardineira, marrom,Ford, que ia para Botucatu, era banco inteiro, cada banco tinha uma portinha. Miguel Fernandes foi dono do Bar Serenata, na Praça Takaki, esquina com a Avenida Dona Jane Conceição, onde hoje funciona uma farmácia. Antes ele teve um bar no sobrado em frente a Estação da Paulista, embaixo era o bar, em cima morava Augusto Amstaldem. O Hotel Paulista ficava na esquina da Rua Joaquim André com a Rua Boa Morte. Na esquina oposta, onde hoje há a Padaria Assagio era o Armazém do Coelho. O Del Nero tinha um depósito de bebidas em frente ao Lar Escola Maria Nossa Mãe, na Rua da Boa Morte. Um compdre nosso, Antonio Carvalho fazia os xaropes dos refrescos. O Andrade, da Bebidas Andrade, fazia uma garrafinha de refresco que vinha com uma bolinha de vidro como tampa, presa por uma presilha. Essa bolinha de vidro era descartável. O Andrade produzia o refrigerante “Abacatina” a base de abacate. Cerejinha só era feita em Santa Barbara D`Oeste.


A Padaria São João entregava pães na área rural?


Entregava na Àgua Branca, nas olarias existentes ali na época, no Tomazielo. O ônibus do Silveira levava nossos pães ao Monte Branco, entregava no Antonio Valério, no Ferezini que tinha venda no Pau Queimado, tempo em que a mortadela era cortada na faca, não era na máquina.


Seu João o senhor tem recordações da Estação da Paulista?


Quando éramos crianças brincávamos lá. Pegavamos a mala dos passageiros que chegavam e levavamos até os taxis que estavam em frente a estação, principalmente as mulheres nos davam algum trocado, saiamos contentes, íamos comprar doces.


A senhora acordava com o apito do trem?


Quando ia viajar, geralmente para Cillos com as crianças, eu chegava na estação o trem já estava de saída. Seu Ebanitz que era o chefe da estação, erguia a bandeira, parava e dizia: “ Dirce, mas você mora longe!”. Ele e a sua esposa Dona Dina , eram uns amores. Ele parava o trem para embarcarmos.






MAURICIO CARDOSO

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 13 de julho de 2013
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/


ENTREVISTADO: MAURICIO CARDOSO

Advogado formado pela PUC de Campinas, jornalista, escritor, professor, estudioso com profundos conhecimentos em Cabala, Mauricio Cardoso militou por décadas na imprensa piracicabana: em “O Diário”, “Jornal de Piracicaba” e “ A Tribuna Piracicabana”. Transitou nas mais diversas áreas do jornalismo, com maestria, sendo que sua coluna “Mini Notas” por muitos anos foi a coqueluche da cidade. Ao abrir o jornal o leitor ia imediatamente à seção, era a primeira a ser lida. Maurício conseguiu formular um noticiário abrangente, que despertava o interesse de todos os segmentos de leitores. Nascido a 21 de março de 1932 em Tatuí, na Rua Coronel Bento Pires, 212, coincidentemente na mesma rua em que nasceu a sua esposa e que ele não a conhecia, Jurema Ferraz Cardoso. Na ilha ártica de Spitsbergen, na Noruega, a quase 1.500 quilômetros do Polo Norte, estão armazenadas mais de meio milhão de sementes de todo o mundo. A "Arca de Noé botânica" é mantida pelo governo norueguês isso mostra como o tema Cabala é atual.


O nome Mauricio Cardoso pode ter origem no que chamam de “cristão-novo”?


Tenho a convicção de que sou “cristão-novo”. Dizem que “Cardoso” significa “Cheio de Espinhos”, e Mauricio vem de mouro.


O senhor começou a estudar em que escola?


No Grupo Escolar Florêncio de Abreu, lembro-me das professoras Dona Conceição e Dona Zenaide, mãe do Presidente do Supremo Tribunal Federal Dr. Celso de Mello, ele é tatuiano, O ginásio e Curso Normal. estudei no Barão de Sarui onde me formei professor. Por concurso do Estado ganhei uma cadeira no Mirante do Paranapanema. \para chegar lá eram 18 horas de viagem.


Antes de ir lecionar ao Mirante do Paranapanema o senhor protagonizou uma peça teatral?


Fiz uma peça teatral em Piracicaba, intitulada “Compra-se um Marido”. Sou um dos privilegiados em ter trabalhado e encenado no Teatro Santo Estevão. Era lindo demais. Tinha uma acústica perfeita, camarotes todos pintados em dourado, aquilo tudo era sensacional. Nessa peça que vim encenar fiquei conhecendo minha esposa, ele é filha do jornalista Sebastião Ferraz. No intervalo entre um ato e outro da peça, levávamos um conjunto para tocar, tirei-a para dançar e estamos dançando até hoje. O nosso casamento civil foi em Tatuí. O casamento religioso foi realizado na Matriz de Santo Antonio em Piracicaba. Eu gostava muito de teatro. Tinha ido de Tatuí morar em São Paulo, a minha dificuldade era conseguir dinheiro para me manter. Morava na Rua Javaés, no Bom Retiro. Era professor na Avenida Casper Libero no Instituto de Ciências e Letras Colégio Alfredo Pucca. Eu era professor coringa, faltava o professor de física nuclear lá ia o Mauricio. Eu soube que tinha uma escola de arte dramática que dava uma sopinha com pão a tarde. Essa sopinha com pão me levou até a Escola de Arte Dramática, ficava na Avenida Angélica, era de propriedade de Alfredo Mesquita do “Estadão”. Passei no exame. Um dos meus contemporâneos era o Francisco Cuoco. Eu era para ser um artista Global mesmo. Desisti de terminar a escola por que veio um teatrólogo italiano, Rogério Jacob que ia dar uns cursos gratuitamente no Conservatório de São Paulo, na Avenida São João. Inscrevi-me, os professores que compunham banca examinadora eram Sérgio Cardoso e Cacilda Becker. Tive o privilégio de ficar por cinco a des minutos com ambos em minha frente. Fizeram esse curso comigo Laura Cardoso e Flávio Migliaccio.


Por que o senhor deixou o teatro?


Porque era uma vida muito sacrificada, eu queria ter uma família, o teatro era visto de forma diferente da que é visto hoje, quando o indivíduo se identificava como ator era um demérito. As pessoas que atuavam de fato na profissão eram totalmente designadas para isso. Cheguei a ser convidado para fazer a ponta de um filme, mas recusei. Conheci Berta Zemel, Fran Carlos que era de Piracicaba, nomes dessa grandeza. Cheguei apresentar uma peça infantil no Teatro da Concórdia, muito interessante, eram só números. No Parque do Ibirapuera trabalhei em uma peça com Célia Camargo e Altair Lima. Depois eu vim fazer a peça em Piracicaba, conheci a minha esposa, fui lecionar no Mirante do Paranapanema, apareceu uma vaga, mandei um telegrama para ela que foi lecionar comigo lá.


O senhor foi morar em que local ao ir lecionar no Mirante do Paranapanema?


Fui morar em uma pensãozinha em Água da Saúde distante do Mirante do Paranapanema uns vinte ou trinta quilômetros. Depois arrumei um lugarzinho em Mirante do Paranapanema e lá fiquei. Tinha uma escola lá, comigo tinha mais uns quatro ou cinco professores. Eram uns 200 alunos, vinham de toda região, eram classes mistas.


Após se casar o senhor mudou-se para Piracicaba?


Inicialmente vim comissionado no Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes. A diretora era Luci Do Marco.


O museu recebia muitas visitas?


Principalmente as escolas visitavam muito o museu. Não faz parte da cultura popular freqüentar museus. Muitas pessoas doaram peças importantes, assim como algumas doavam algum objeto que para um museu fugia do contexto. Acabávamos aceitando a doação, que geralmente permanecia eternamente na reserva técnica do museu.


Qual é a origem dessa falta de importância que temos para com a história, muito diferente do britânico que preserva e valoriza suas tradições?


Acho que é da idade, do país e nossa. Não temos o habito de guardar esse tipo de memória. Toda noite eu guardo a minha memória familiar, rezo para noventa pessoas, pelo nome. Não é nenhuma reza especial, apenas uma seqüência. Rezo dentro de um contexto hebraico.


O senhor conheceu a sinagoga que existiu em Piracicaba?


No dia em que fiquei sabendo da existência dessa sinagoga em Piracicaba, fui até lá, na Rua Ipiranga. Havia no local apenas um terreno vazio, ela tinha sido demolida. Fui então falar com o Jaime Rosenthal, pegar alguns detalhes sobre esse fato. Faço essa minha reza para noventa e poucas pessoas, parentes, amigos. Tenho um clube em Tatuí, chama-se “Clube 17”. Éramos 17 jovens e fizemos o clube. O tempo foi passando, fizemos o “Clube 34”, composto por mais pessoas, senão com a morte dos integrantes terminaria o clube. Hoje temos apenas 17 vivos, os demais faleceram. É um clube fechado, onde não recebemos mais associados. São quase 50 anos de clube. Nos reunimos anualmente em um almoço, para relembrar as nossas passagens. Dia 13 de julho um dos “dezessetudos” irá dar um almoço em São Paulo, de Tatuí sairão duas vans para levar o pessoal para lá. Mensalmente dou uma palestra no Centro Espírita Manoel Girão.


Como professor em Piracicaba o senhor lecionou até que data?


Até uns 20 anos atrás, nas escolas “Alfredo Cardoso”, “Dario Brasil”. Tive experiências extraordinárias no ensino. Fui Secretário de Esportes no tempo do prefeito Luciano Guidotti. Começamos meio estremecidos, ele chegou até a publicar no Diário Oficial que eu era comunista. O Luciano Guidotti era formidável, uma criatura puríssima. Muito honesto. Uma vez ele nos disse que iria abrir uma avenida, que por sinal hoje tem o seu nome, em frente ao Cemitério Parque da Ressurreição. Ele disse na reunião: “- Se eu souber que alguém que participou desta reunião adquiriu algum terreno lá, suspendo a construção da avenida”. Tinha diversas autoridades presentes, inclusive vereadores. Luciano Guidotti era um tocador de obras, ele queria dar à Piracicaba um jeito de respirar.


O senhor era secretário quando houve a queda do Comurba?


Era sim. Afetou até o esporte na cidade. Onde hoje é o Estádio Municipal Barão de Serra Negra era um bosque, Luciano Guidotti foi quem construiu o estádio.


O senhor trabalhou no prédio onde funcionava a Prefeitura Municipal, na esquina da Rua São José com Rua Alferes José Caetano, que foi o palacete do Barão de Serra Negra, depois demolido e hoje é estacionamento de veículos. Aquela construção imponente trazia-lhe alguma sensação especial?


Era gostoso trabalhar ali. Energizante.


Como advogado o senhor atuou em que áreas do direito?


Fiz de tudo. Tem um caso em que o juiz me nomeou para ser advogado de defesa de um individuo que matou o seu vizinho, isso foi na Rua do Porto. Ele matou o vizinho porque o galo pertencente ao mesmo, ia até a sua mesa para se alimentar. Um dia o galo estava como de habito comendo sobre a mesa, ele simplesmente pegou um revolver e matou o vizinho.


Ele não matou o galo, matou o vizinho?


É a lição moral que tiro disso tudo. Havia formas de impedir o acesso da ave, com uma cerca ou qualquer outro tipo de providencia mais lógica. Fui até o presídio, conversei com o assassino, disse-lhe: “- Você matou uma pessoa por causa de um galo!”. Ele disse-me: “ O senhor já se imaginou, conviver todos os dias com um galo aborrecendo-lhe?”. Como eu gostava de fazer júri, fui ver o local dos fatos. Dirigi-me até a Rua do Porto, entrei na casa, a esposa do assassino estava lá, me apresentei como advogado do marido dela, disse-lhe que gostaria de conhecer a cozinha da casa. Ela me convidou para entrar. Sabe quem estava em cima da mesa da cozinha? O galo! Perguntei-lhe: “- Dona, esse é o galo que provocou a tragédia?”. Ela me respondeu: “-É o próprio!”. São lições que tive em minha vida. Existem casamentos que terminam porque o marido deixou a toalha de banho no meio da sala, ou porque o marido esqueceu o chinelo no meio do quarto. São coisas minúsculas, banais.


Isso não é a gota d’água que faltava para terminar uma relação desgastada?


É uma gota d’água, mas não justifica que seja suficiente para determinar o fim de um casamento. É dar muito valor para a gota d água. Para segurar um casamento pode jorrar água do copo e não terminar por causa de uma gota.


Quantos livros o senhor já escreveu?


Tenho três livros. “Dezessete das Pedras”, é a história do “Clube dos 17” que eu escrevi, foi uma experiência que eu queria fazer, nunca li um romance, a não ser um livro que li quando estava ainda na escola Barão de Surui, fui até a biblioteca e peguei um livro de romance, fino, o título era “A Beleza Dolorida de Getúlio Schelling”. Escrevi “ Sua Majestade O Pé Esquerdo” e um terceiro que está em processo de lançamento. Estou concluindo outro que é sobre a capacidade de harmonizar opostos. Esse é mais cabala. Estou rascunhando uma peça jurídica. Menciono que escutei um político dizendo: “Precisamos ouvir a voz da rua.”. Digo: “- Você tem que começar a ouvir na sua casa, a voz da sua empregada, do seu jardineiro, a voz do seu açougueiro, a voz da pessoa que limpa a rua, até chegar a ouvir a voz da sua consciência”. Não venha com essa maquiagem intelectual. Rua não fala.


O senhor escolheu esse romance ao acaso?


Ao acaso, eu gostava muito de ir á biblioteca, para ler livros mais pesados. Quando eu trabalhava na área de Direito tinha uma biblioteca de 4.000 livros.


Nesse período em que o senhor cursou Direito como era a sua rotina?


Ia e voltava todos os dias a Campinas. Saia daqui às seis horas da manhã, com uns colegas que tinham carro, ao meio dia entrava no museu, onde estava comissionado, ficava até as seis horas, ia para “O Diário” de onde saia a meia noite.


Qual era a atividade do senhor em “O Diário”?


Fazia a reportagem policial e tinha uma coluna chamada “Mini Notas”. Reportagem policial é uma barra, éramos uma trindade: eu, Rubens Lemaire de Moraes e o Tuca Barreiros, que também tinha a coluna “O Prato Do Dia”. Nós tres éramos inseparáveis. Fizemos uma denuncia contra um traficante, na época a maconha era a droga do momento, isso na decada de 60, um dia jogaram um carro contra nós três em plena Praça José Bonifácio. Escapamos de morrer por muito pouco.


Vocês eram repórteres investigativos?


Metidos a bestas! Fomos fazer batidas juntos com delegados. Ficamos em meio a tiroteio entre policiais e traficantes. Isso é um trabalho policial e não para jornalistas. Fui reporter policial por uns 10 anos. Mais marcante para mim foi na época em que houve um escandalo de drogas em Piracicaba. Dei uma entrevista para o jornal “O Estado de São Paulo”, que recebeu o título dado pelo entrevistador: “A Amesterdam Brasileira”. Essse reporter faleceu atropelado na Avenida São João em São Paulo.


Quer dizer que o cognome que Piracicaba ganhou de Amesterdam Brasileira é fruto de uma reportagem feita com o senhor?


Isso mesmo. Naquela época as coisas estavam feias. Eu tinha tido um aluno de 12 anos que ao ser descoberto fumando maconha suicidou-se. Aquilo repercurtiu muito, tive que tomar uma atitude. O jornal “Estadão” entrou em contato comigo. Ele veio até aqui, fez a matéria, um advogado do “Estadão”, Dr. Manoel Afonso Alceu, me telefonou pedindo que fosse á São Paulo. Disse-me: “ A sua entrevista está na minha mão, estou achando muito pesada, pode trazer-lhe consequencias”. Eu confirmei que deveria ser publicada, nessa época eu já era advogado.


Como surgiu “Mini Notas”?


Sei que surgiu como uma coisa muito gostosa. Tudo na vida é tempero. Fazer jornalismo é como fazer um bolo, uma feijoada. Se faltar algum ingrediente não fica bom. Se for fazer uma coluna tem que temperar com uma notícia curiosa, outra noticia desagradável: “Fulano separou-se da mulher, fulano está doente!”. Cicrano ganhou na loteria, nasceu o filho de tal pessoa, fulano foi viajar, foi enterrado ontem fulano de tal. Tem que fazer o tempero. Outro dia li no “Estadão” a coluna de uma jornalista, ela repetiu a mesma noticia por cinco vezes em sua matéria, perdi o interesse em ler a coluna dessa moça. “Mini Notas” não era uma coluna social, era um caldeirão de noticias. Segundo diziam-me as pessoas que liam, quando o jornal chegava, a primeira parte que liam era “Mini Notas”. Eu fazia pilulas de informação. Quem pesquisar em “Mini Notas” saberá fatos curiosos da época. ”Mini Notas” permaneceu sendo publicada por uns 20 anos: primeiro em “O Diário”, depois no Jornal de Piracicaba e mais tarde na Tribuna Piracicabana.


O senhor ganhou muito dinheiro publicando “Mini Notas” que foi coqueluche na cidade?


Não ganhei nada, Graças a Deus! Havia quem imaginava que eu ganhava muito dinheiro publicando “Mini Notas”.


O que é Cabala?


Para mim é um sistema de pensamento, que você aplica na existencia de Deus, na existencia do mundo, na sua vida, para voce comprar sorvete, para escrever alguma coisa, constituir uma empresa. Você que decide o que quer aplicar. Ela tem uma figura chave que se chama “Arvore da Vida”, que você aplica em tudo que irá fazer. Pela Árvore da Vida você começa a dscobrir que o saber é importante. Cabala, que soletrada em hebraico é QBLH, deriva da raiz Qibel e significa "receber". Basta eu saber? Não! É necessário entender e compreender o saber. Tem muita gente que sabe muito, mas não entende aquilo que sabe. Há outro tipo de pessoa que compreende aquilo que ela sabe, mas não sai disso. Não conhece, conhecer é aplicar. É importante que você saiba, compreenda e aplique. Há pessoas que são eruditas, mas não crescem na vida, na família, no casamento. Fica parada. Ela não sabe aplicar em sua casa tudo que ela vê.


Quando foi o início da Cabala?


Alguns estudiosos afirmam que ela vem do tempo de Noé, 3.000 anos antes de Cristo. “Arca” em hebraico quer dizer palavra. Noé colocou um casal de cada animal que ele tinha que preservar, dentro da arca, isso simbolicamente. Há estudos que afirmam que Noé montou um banco de espermatozóide na Arca. Ele queria preservar a semente.


Não teria que ser mantido congelado?


Na realidade a idéia passada é que se deve ter muito cuidado com a semente. Os estudos da Cabala levam você a ter preocupação com a palavra, para a Cabala letra é vida. Ela ensina que a letra é viva. Existe a letra masculina e feminina. Tudo na vida é casamento. Tudo na vida tem espermatozóide e ovo.


Na sua visão o que move o mundo, dinheiro ou sexo?


Eu acho que é o sexo. Já vi muito sexo fazer sumir o dinheiro! Você faz as coisas por que tem prazer.


O senhor foi candidato a algum cargo político?


Fui presidente de partido político o PR, Partido Republicano do Governador Laudo Natel. Fundamos o partido 45 dias antes das eleições. Escolhemos a dedo um quadro de candidatos a vereador. Conseguimos ser o partido majoritário em Piracicaba. Nenhum dos candidatos a vereador podia fazer campanha individual, quem fazia campanha de um fazia campanha de 40. O Rubens Braga foi um dos eleitos, inclusive como presidente da câmara municipal. Outro eleito foi Lázaro Pinto Sampaio. Elias Jorge foi vereador também. Waldemar Romano. Isso no tempo em que vereador não ganhava nada para trabalhar.







LUIZ ANTONIO ARTHUSO

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 06 de julho de 2013
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.teleresponde.com.br/


ENTREVISTADO: LUIZ ANTONIO ARTHUSO

Luiz Antonio Arthuso é nascido a 20 de abril de 1957 na cidade de Rio das Pedras. Filho de Antonio de Jesus Arthuso e de Ana Modesto Arthuso, é casado com Maria Luiza Packer Arthuso. Luiz Antonio e Maria Luiza tem dois filhos, Luiz Alexandre e Ana Luisa.


O senhor atualmente ocupa qual cargo na Receita Federal?


Eu tenho o cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil. O cargo de Delegado da Receita Federal é o cargo de chefe da unidade. A receita aqui tem o delegado, os chefes dos serviços, chefes das equipes, e os funcionários. Isso gera um pouco de confusão. O delegado de polícia tem esse cargo. O meu cargo é de auditor, como delegado exerço a função de auditor chefe, ou chefe da unidade. A receita federal tem duas carreiras, uma carreira de auditoria da receita e outra de analista.


Seus estudos iniciaram-se onde?


Fiz o curso primário em Rio das Pedras no Grupo Escolar Barão de Serra Negra, o ginásio estudei na E. E. "Prof. Manoel da Costa Neves" (MACONE).Em seguida fui estudar no Colégio Comercial Municipal Contador Waldomiro Domingos Justolin, depois fui para a Unimep onde estudei Economia de 1975 a 1978. Em 1989 voltei pra terminar a Facldade de Ciencias Contábeis. Em 1992 fiz o mestrado em Administração na Faculdade Metodista de São Paulo. Não havia o mestrado aqui naquela época. Ia uma vez por semana e voltava. Quando meu pai faleceu eu tinha onze anos, ele foi pedreiro, depois foi desenhista na prefeitura, ele auxiliava o Engº Civil Ciro Barbosa Ferraz. Minha mãe era do lar, lembro-me que ela e minha tia bordavam em casa. Nasci na Rua São Paulo, 43, é uma rua de apenas duas quadras. Em !957 quando nasci o Gramani era o prefeito, ele tinha feito tanto o encamento de água, o egotoe os paralelepipedos na rua.


Nessa época tinha trem em Rio das Pedras?


Quando o trem ia passar eles fechavam a porteira no centro da cidade. Aos sábados e domingos era comum ir ver a chegada do noturno as nove horas da noite, a coisa mais dificil era o trem da Sorocabana chegar no horário. Quando estavamos em Indaiatuba saiamos as seis horas da noite para chegar as nove horas da noite, era uma aventura, principalmente quando era a Maria Fumaça.


O senhor chegou a andar de trem?


Muito! Minha tia morava em Indaiatuba e praticamente todo mês íamos à Indaiatuba de trem. Isso foi no período em que eu tinha de seis a doze anos. O trem parou de correr em 1975 com o transporte de passageiros, depois tiraram o de cargas. A linha férrea só foi tirada em 1984.


A estrada para Piracicaba era essa mesma?


Essa que vem pela Rodovia Cornélio Pires teve a ligação com Rio das Pedras construida por volta de 1960 a 1961, asfaltada. A estrada de terra na realidade é essa que é a continuação da Avenida Rio das Pedras, saia onde é o Borsato, no Bom Retiro. É bem mais curta, praticamente a metade do caminho. A tendencia natural é que se faça uma grande avenida ligando Piracicaba a Rio das Pedras. Isso já foi discutido entre os prefeitos Machado e Galvão. Sentei a mesa para discutir isso com eles. Tem uma série de custos, despropriações, mas é uma questão de tempo. Hoje Piracicaba e Rio das Pedras estão praticamentes juntas. O Anel Viário onde está o Ceasa já é Rio das Pedras. O Ceasa está em Rio das Pedras. Quando se vai pela Unimep o Córrego da Batistada é a divisa do municipio.Quando eu era criança pescava no Tanque da Companhia, hoje não existe mais, era onde hoje tem a escola no Cambará. Um pouquinho para baixo era o tanque, eles aterraram ali. A Sorocabana fez o tanque ali, por gravidade levava até a estação, para encher as Maria Fumaças de água.


O senhor tinha alguma atividade profissional além dos estudos?


Aos treze anos comecei a trabalhar na fábrica de gaiolas do Paulo Pascon. Eu ia estudar no ginásio de manhã e a tarde fazia gaiolas. Parei de trabalhar na fábrica de gaiolas aos 16 anos. Fui trabalhar com o meu tio em uma ofina de marcenaria. Depois trabalhei uns quatro ou cinco meses na cerâmica que o Seu Augusto , Seu Olívio e Seu Euclides Barrichello tinham, eram três irmãos. Onde hoje é a seção de pintura da Painco era a Cerâmica Santa Rosina. Onde hoje há uma chaminé no Bom Jardim era a Cerâmica Barrichello. Fazia tijolos. Eu trabalhava no escritório, tirava notas, Depois fui trabalhar na Painco, comecei na escrituração fiscal, depois fui fazer a contabilidade da Painco. Fiquei na Painco de outubro de 1973 até maio de 1978. Em 1978 vim trabalhar em uma pesquisa da Unimep, acho que foi o primeiro passo na tributação. O estudo sobre a reforma tributária de 1.966. Trabalhei com Lineu Mafezzolli que é professor até hoje, com o Machado que foi prefeito, com o Barjas, Pedro Ramos, ficamos um ano trabalhando, acabou saindo um livro de finanças públicas pela Secretaria de Economia e Planejamento. Quando acabou a pesquisa voltei trabalhando junto com o Godoy, Perecim e o Geraldo Cillo. Devois fui trabalhar na Convem com o Toninho Abdalla. Eu ja tinha prestado um concurso como fiscal da previdência, tinha passado em 1980, em 1981 prestei o concurso da Receita, na época de Controlador de Arrecadação Federal. Quando entrei, no final de 1982, fui trabalhar em Limeira. Em Piracicaba trabalhei na agencia de outubro de 1984 a outubro de 1985. O chefe era o Altafim, antes dele era o Shirley Prado, o nome do prédio que ocupamos hoje é Shirley Prado, em homenagem a uma pessoa que todos gostavam.


Qual era a gaiola mais famosa?


Acho que era a fabricada pelo Angelo Cobra, para o curió.


Existemuitos macetes para confeccionar uma gaiola?


Existe os caminhos da arte de produzir gaiola. A parte que as pessoas menos entendem é como você consegue arquear a gaiola. A madeira é cortada, é cozida na água, ficava meio dia cozinhando na água, tinha que tomar muito cuidado com as fibras, tinha que ser fibras retas, após cozida era colocada em um molde onde era pregada e ficava uns 15 a 20 dias secando até adquirir aquela forma. Dava bastante trabalho. O processo de fabricação dessas gaiolas arqueadas, que a gente chama de cambota, demorava praticamente um mês. Eram produzidas em série, começava a a fazer, enquanto isso passava a fazer outros modelos. Eram vários modelos de gaiolas feitos ao mesmo tempo. Cada uma em um estágio. A madeira utilizada era o pinho, as vezes cedro. Eu brinco, que ele era um grande reciclador, praticamente desde quando eu trabalhei até quando ele morreu ele tinha o estoque de carreteis de madeira de fios que foram utilizados nessas torres de energia elétrica da região, ele foi adquirindo aquele carreteis e demontando, com isso ele tinha madeira a vontade para fazer gaiolas. E barata.


Piracicba foi famosa por fabricar gaiolas.


Foi muito famosa. Hoje não vemos mais isso, mas até uns 15 anos, as lojas do mercado de São Paulo exibiam cartazes dizendo “Gaiolas de Piracicaba”, acredito que algumas nem eram mais feitas em Piracicaba. Assim como a pamonha, a cachaça, era dada a origem como sendo de Piracicaba. Acho que produziamos umas 200 gaiolas por mês. As vezes apareciam alguns clientes conhecidos, dois dos quais me lembro eram o Oberdan Cattani que atuou como goleiro outro era o Nílton De Sordi. Foi o De Sordi que trouxe os pintassilgos da Venezuela para criar o canário vermelho, ele cruzava com as femeas do canário do reino gerando a cor vermelha. Eles apareciam lá, tinhamos a oportunidade de conversar com eles.


O cultivo da cana-de-açucar reduziu drásticamente o numero desses passaros nativos?


Eu acredito que hoje vemos um grande número de pássaros na cidade, mas para mim, o que acaba com os passarinhos não é a cana, mas a pulverização de inseticidas e dissecantes por meio de avião. A queima da cana também prejudica muito. O grande problema da cana é que ela tira o habitat, por exemplo na cultura do café a árvore é perene. Mesmo assim as aves acabaram migrando para os vales onde ficaram as árvores. A pulverização por avião é extremamente danosa para o meio ambiente, principalmente para os passaros.


O fato de trabalhar nessa idade trouxe algum prejuízo ao senhor?


Ao contrario, ali aprendi não só a trabalhar como também a dar valor para o dinheiro. O Paulo tocava na banda, incentivado por ele, pelo meu tio Adão Brandila, como eu não tinha dinheiro para estudar datilografia fui aprender música. Eu tocava clarineta e sax, a banda era composta por 28 a 35 componentes. Hoje ela chama “Banda Antenor Cortelazzi” , o Seu Antenor Cortelazzi era o grande incentivador da banda. Na época era chamada “Corporação Musical Santa Cecília”. Aquela sede que tem da banda foi construída pelo pessoal mais antigo, isso foi em 1966, 1967. Eu comecei a tocar na banda em 1971. Tocávamos dobrado, maxixe, valsa. Depois passamos a tocar em carnavais, tocamos na Sociedade Cultural Riopedrense, a partir de 1973 começaram a fazer os carnavais populares nas ruas. Depois toquei na Banda Municipal, a última vez acho que foi em 1987.


Seguia uma partitura ou tocava de ouvido?


Seguia a partitura. Estudei com Seu Antenor um ano e pouco. Lembro-me quando entrei na banda. O pessoal mais antigo que fazia parte, morreram quase todos.


Como era o uniforme?


Logo que eu entrei tinha um uniforme que era uma calça preta, camisa branca, gravata preta, jaqueta banca com cordões amarelos e um quepe vermelho. Tocávamos em toda a região. Música é arte, não é competição, não nos preocupávamos muito com prêmios. Sempre estávamos viajando, vinha para Piracicaba, ia para Santa Bárbara, Americana, Monte Mor, Tietê. Era muito comum aquela cidade em que nos apresentávamos depois ela vinha se apresentar em Rio das Pedras. No aniversário de uma cidade ou outra ficávamos rodando as cidades.


O senhor tocou no coreto que existia em Rio das Pedras?


Toquei quando a sede era onde é a atual concha acústica. O coreto ficava no meio e a praça circulava o coreto. Em 1971 quando comecei a tocar ainda havia o coreto. Foi reformado em 1974 ou 1975.


O senhor vinha muito à Piracicaba?


Comecei vir para Piracicaba quando comecei a estudar, vinha todos os dias para a faculdade, praticamente andava de carona, todo mundo me dava carona. Comento que adquiri um passe para trinta dias, após 4 anos ainda não havia consumido o talão de passes. Muitas vezes eu estava no ponto do ônibus o pessoal chamava. Outras vezes pegava carona na própria escola. Havia uma solidariedade muito maior do que existe hoje. A cidade era bem menor, todo mundo se conhecia. A cidade deveria ter uns 15 a 16 mil habitantes. Rio das Pedras começou a crescer primeiro com a crise forte do café, a geada que deu no Paraná em 1975, muita gente acabou constituído o bairro conhecido como Serra Pelada. Eu imagino que o pessoal do nordeste do Brasil começou a vir para Rio das Pedras em 1988 a 1989.


A Receita Federal mudou sua postura nas últimas décadas?


O que eu sempre comento é o seguinte, todo serviço público, assim como a nossa vida, passou a ser algo totalmente corrido, a demanda que a Receita tinha era muito pequena em relação a que nós temos hoje. O trabalho que nós temos para ser feito é maior e a quantidade de recursos humanos que nós temos é menor. Para você ter uma idéia a Receita tinha em 1968 quando ela foi criada juntando quatro departamentos, 12.000 auditores (fiscais) no Brasil. Hoje ela tem 10.000 auditores. Ela trouxe do IAA – Instituto do Açúcar e do Álcool incorporado em 1985 e da Previdência fusionada em 2007, mas mesmo assim estamos abaixo que tínhamos em 1968.


Isso se deve a informatização?


A informatização tem sua influencia, sempre digo que é algo absurdo, a ponto de ser citada nos livros do Bill Gates da Microsoft, pela grande quantidade de situações que ela tem informatizada. A quantidade de dados que a Receita tem é algo fenomenal.


O que o senhor diz a respeito do T-Rex, um supercomputador?


Na verdade há muito folclore. Existe sim todo um trabalho da Receita para trabalhar com o que chamamos de Inteligência Artificial. Isso para entender como determinado grupo, determinado setor, tende a trabalhar. Nós trabalhamos com gestão de risco, não dá para afirmar: fiscalizamos todo mundo. Temos 6,5 milhões de empresas no país. A receita é dividida da seguinte forma: são 10 regiões, que são 10 superintendências. Uma é o Estado de São Paulo. Outra é Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Distrito Federal. Outra pega Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima, Pará. Outra atinge Maranhão, Piauí, Ceará. A quarta região pega Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. A quinta região é Sergipe e Bahia, a sexta região é Minas Gerais, a sétima é Espírito Santo e Rio de Janeiro, a oitava é o Estado de São Paulo, a nona Paraná e Santa Catarina e a décima que é o Rio Grande do Sul. Dentro de cada superintendência há a divisão de delegacias, inspetorias e alfândegas. São Paulo que é a maior de todas tem 26 delegacias, quatro alfândegas e uma inspetoria. Piracicaba e uma dessas delegacias.


Piracicaba tem um porto seco?


Não existe mais, não havia movimento para levar isso em frente. Era uma concessão pública. Economicamente não era viável, acabou sendo encerrada. Temos alfândega em Viracopos, Santos, Cumbica e uma alfândega em São Paulo que distribui as coisas da cidade de São Paulo. Há uma inspetoria que é a fiscalização aduaneira na cidade de São Paulo. Cada delegacia tem subordinada a ela as agências. Têm aqui as agencias de: Americana, Capivari, Rio Claro e Tietê. Cada agência tem sob seu controle algumas cidades. Somando tudo temos sob a delegacia de Piracicaba 25 cidades. Em extensão territorial não é tão grande, mas em termos de valores é muito significativa. Hoje no Estado de São Paulo em termos de arrecadação somos a décima delegacia. Com a instalação do parque automotivo em Piracicaba devemos subir alguns passos no ranking da arrecadação. A delegacia de Piracicaba é maior do que a delegacia de muitas capitais de estados.


O maior contribuinte é a pessoa jurídica?


Hoje a pessoa física paga o que foi descontado do salário dela, quem acaba recolhendo isso é a pessoa jurídica. Dos seis milhões e meio de empresas existentes no Brasil, setenta por cento da arrecadação está concentrada em doze mil empresas. Esse é um foco que acompanhamos permanentemente. As demais trabalhamos com gestão de risco. Não significa que ela será abandonada, ela será olhada dentro dos desvios que podem ocorrer. Até porque uma grande parte das pequenas empresas, os tributos delas são substituições tributárias, quem pagou é a grande. Por exemplo, a indústria automobilística, quem pagou foi a fábrica, a concessionária paga muito pouco. Ela ira recolher impostos de serviços, mas não da venda do veículo novo.


Na opinião pessoal do senhor, não como delegado, mas como economista, o senhor não acha que há um conflito em uma empresa de pequeno porte arcar com tributos na mesma proporção de uma grande empresa?


Essa é a opinião minha não é da Receita. Temos que tomar certo cuidado para não estabelecer certa concorrência que se torna desleal. Quando se dá muito incentivo para quem está começando, estará criando um desequilíbrio para o outro que é maior. Em minha opinião, deveríamos ter uma legislação para aquele que é muito pequeno e uma só para todos os outros. Isso evitaria uma série de distorções e desvios. Nós temos uma legislação tributaria extremamente complexa. As empresas alegam que a carga tributária é muito alta, só que o que ela gasta para administrar a empresa em termos de tributo é um valor muito grande. A pergunta é: “ Por que não muda?” Porque politicamente fazendo algumas mudanças, chegamos na questão da divisão do bolo tributário, entre união, estados e municípios, principalmente entre a união e os estados, quando você mexe de um jeito sempre alguém irá perder alguma coisa. Esse alguém nunca é o Estado de São Paulo. A grande dificuldade em mexer na legislação tributária é que todos os outros estados querem tirar mais alguma coisa do Estado de São Paulo. Por mais que o Estado de São Paulo abra mão, isso acaba ocorrendo porque acabou concentrando a riqueza no Estado.


O americano tem taxação única?


O americano tem dois grandes impostos, o imposto de renda que é nacional, é muito mais alto, as pessoas físicas pagam muito mais lá, e tem o imposto de consumo, que varia de estado para estado, não é uma taxa fixa. Vai de 5 a oito ou oito e meio por cento. Sempre perguntam: “-É possível fazer isso?”. Digo: “- Estamos falando de uma cultura anglo-saxônica!”. Não estamos falando de uma cultura latina. Nos Estados Unidos se o individuo for pego com uma mercadoria sem nota ele será preso. Mesmo que seja uma pessoa física andando na rua. Eles fazem isso exemplarmente. Aqui a saída foi mudar o modelo, esse modelo foi ficando extremamente complicado, está na hora de se mexer nisso. A questão é ter condições políticas de passar algo compatível, quando se tenta fazer isso sempre tem algum estado querendo levar vantagem.





Arquivo do blog