Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sábado, maio 31, 2014

MARLY TERESINHA PEREIRA, LUCAS TEIXEIRA FRANCO DE MORAES, TXANA MASHA E TXANA DASU (CONTINUAÇÃO)


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 31 de maio de 2014.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/



ENTREVISTADOS: MARLY TERESINHA PEREIRA, LUCAS TEIXEIRA FRANCO DE MORAES, TXANA MASHA E TXANA DASU.

(CONTINUAÇÃO)

Txana Masha você tem filhos?

Eu me casei com dezenove anos, hoje tenho 33 anos, sou pai de três filhos, o mais velho com oito anos, duas meninas uma com cinco outra com dois anos.

Os pais acertam os casamentos dos seus filhos ou os filhos tem o direito de livre escolha?

Sempre há um elogio, quando o jovem é bom pescador, bom caçador, trabalhador, ativo em todas as coisas, é preferido à filha de um pajé.

É permitido ter mais de uma esposa?

Pode ter até três esposas, mas não de famílias diferentes, as três são irmãs. Não pode casar com moça de outra família.



Existe o risco de casamentos consangüíneos?

Somos formados por dois clãs: inu e ruá, que significa povo da onça e povo da anta. Como inu eu não posso casar com inani. Pode ocorrer de gerar pessoas deficientes por causa da consangüinidade. Isso é uma tradição fruto de conhecimentos e saberes ancestrais que permanecem até hoje.

Qual cargo você ocupa na aldeia?

Sou professor bilíngüe, ensino a língua indígena e o português.  Na fronteira temos ainda indígenas que vivem isolados.

Qual é a alimentação básica?

É a mandioca, milho de várias espécies, banana.

Vocês usam a bebida extraída da mandioca ou milho fermentado?

A bebida fermenta é ingerida por outro povo. Nós não consumimos álcool. Geralmente essas tribos utilizam o álcool em rituais de festas, alegrias.

Vocês têm energia elétrica?

Na aldeia de Txana Dasu tem. Na minha não, ela fica situada há quatro dias rio acima de barco.

Isso significa que não tem acesso a nenhuma tecnologia como telefone, televisão, computador?

Não temos. Não dispomos nem de gerador de energia. Sentimos falta pela dificuldade de comunicação.


O sepultamento é normal?

Sepultamos em uma cova, o falecido é velado um dia, uma noite e metade de um dia. O cadáver é sepultado envolto em uma rede de tecido, ou até mesmo em caixão de madeira, rústico.

Como é a relação de vocês com os brancos que tem terras nas divisas?

A relação hoje é de unificar. Às vezes sofremos algumas invasões, principalmente quando alguns vizinhos que já cultivaram toda a área que lhes pertence, estão sem caça, eles então adentram nosso território em busca da caça. Ou pescar em rio dentro de território indígena.  Mantemos o controle, para nós o supermercado é a floresta, os rios. Nós produzimos muita banana, pupunha, com essas e outras rendas adquirimos na cidade material que precisamos na tribo, agulhas, pregos, ferramentas, enfim produtos industrializados necessários à nossa sobrevivência.

Txana Masha você consegue ver o espírito da pessoa?

Consigo. Temos medicina que vai muito mais além. Sai desse mundo, vai para o mundo do astral e encontra o que está ao redor.

Como faço para manter contato com vocês?

Só se você usar a medicina que usamos, a Unixipan também conhecido como Ayahuasca[][] Santo Daime, Você pode beber aqui e podemos nos encontramos no astral. Em Piracicaba você pode se comunicar comigo ou com quem você mantém contato na tribo. Fazendo o ritual, no cantico que eu fizer, você e o povo indigena ao seu redor. Você se desloca no tempo e no espaço. Encanta-se e se desencanta, consegue entrar no astral, no meio do rio, dentro da terra.

Isso significa que você tem condições de saber o que aconteerá amanhã?

Sim, sabemos.


Qual é o indice de moléstias graves na tribo?

Para nós kuni kuî não existia doença. A doença é dos animais. A doença só é transmitida daquilo que comemos e bebemos. As medicinas já foram pessoas como nós, que não se transformaram, não se encarnaram.

Por exemplo, uma pessoa que tem problemas cardiacos, de onde pode ser a sua origem?

Vários tipos de animais têm doenças de coração, o coração da cotia, do gado, do porco, muitas vezes você come indiretamente esses alimentos através de lingüiças, salsichas. Nós temos as medicinas para isso. Para coração crescido.

Vocês têm uma farmácia na floresta?

Temos uma farmácia viva. Trazemos de pontos distantes da floresta e plantamos ao redor de onde estamos. Qualquer sintoma nós temos o remédio a nossa disposição. Tem toda uma consulta. As coisas têm um inicio um meio e um fim.  Nós vemos porque aquilo aconteceu e como tem que ser resolvido aquele problema.


Se eu for até a sua tribo você pode me receber?

Com certeza! Estamos de braços abertos para um ajudar ao outro. A nossa formação é para isso.

Quanto tempo eu preciso permanecer lá me tratando?

Vai depender do estado em que você se encontra. Irá sair de lá quando não sentir mais nada.

Você tem alguma experiência nesse sentido? Já curaram alguém?

Várias pessoas.

Vocês cobram alguma coisa?

Não cobramos nada, sabemos que vida não tem preço.

Há como tratar uma picada de cobra?

Claro! Para cada tipo de veneno tem uma pratica de medicina própria.


Integrante da mesa a Dra.Marly Teresinha Pereira pergunta a opinião do médico cirurgião Dr. Olivio Alleoni, também integrante da mesa e que participa das gravações, sobre sua forma de ver as plantas fitoterápicas?

Dr. Olívio responde que em sua opinião o fitoterapico está muito mal explorado.  A Universidade da Bahia talvez seja a única que tenha estudo e transmissões de conhecimento de fitoterapia.  Walter Accorsi, sua filha Walterly Accorsi sempre fizeram todo esforço nesse sentido, a Esalq ajuda dentro de todas as suas possibilidades, a fitoterapia provavelmente teria mais avanço se estivesse anexo aos seus laboratórios centros de pesquisas médicas para testes de drogas.  A alimentação adequada é um dos elementos da medicina preventiva. Em depoimento a Dra. Teresinha falou sobre uma doença grave, que a obrigou a passar por um processo cirúrgico e posteriormente a um tratamento bastante severo, que ela por opção própria substituiu por tratamento fitoterápico. O resultado foi a cura esperada, pois isso já faz cinco anos e não houve nova manifestação dessa doença grave.

O formando pela Esalq, que tem participação ativa na vinda dos índios a Piracicaba, Lucas Teixeira Franco de Moraes fez o comentário a seguir.

A alimentação é um estudo afeito a Esalq, e as doenças em sua maioria decorrentes da  má alimentação.  Sua atuação deve ser preventiva, evitar que a doença ocorra.

A impressão é que nenhuma indústria farmacêutica tem interesse em desenvolver a fitoterapia, por questões obvias. Vocês recebem a visita de estrangeiros na tribo?

Raramente nos visitam.

Nós estamos muito aquém da compreensão da natureza? O indígena tem uma compreensão maior do que o homem branco?

Cada povo é único.  Não existe povo sem cultura e nem cultura sem povo. Sabemos que a cultura é a vida de um povo. Cada povo entende qual é a melhor forma para si. Hoje o mundo está caótico, tem alguma coisa que é de grande importância para mim, mas para a sociedade ela perde até o valor. Considera como algo negativo. Temos um país muito rico em sua biodiversidade, mas falta isso ser explorado. O índio sempre foi sujeitado, sempre teve alguém que falou pelo índio.

O branco sempre viu o índio como objeto de curiosidade, quase como culturalmente inferior. Hoje percebemos que a espiritualidade do indígena está muito acima da do branco.

É o caso da medicina, enquanto o homem branco, para acreditar tem que levar a um laboratório fazer pesquisas, nós já sabemos que aquela medicina serve para aquilo. Levado da floresta para esses lugares de pesquisa eles agregam outras substâncias. Sabemos que uma coisa misturada com outra é uma química. Vai provocar outra reação. Ele controla a doença, mas prejudica outro órgão. O caso do diabetes ou outras doenças do sangue, a pessoa começa a comer em excesso, ganha peso, o que ela come não é um alimento natural, é um produto industrializado. Vai causando uma gordura artificial. O resultado é o diabetes e outros problemas que acometem o ser humano.

Vocês não comem doces?

Nós preservamos muito o doce. Não comemos todos os dias o doce, açúcar. Quando tiramos o caldo da cana e bebemos, imediatamente usamos uma planta que impeça o surgimento do diabetes. Protege e limpa o corpo da pessoa, física, espiritual e psicologicamente. Por isso temos muita saúde, quando aparece algum problema é porque a pessoa não cuidou bem da sua saúde. Para isso temos medicinas específicas para tratamento desse problema. Se a pessoa tem um problema de coração, lá ela terá uma dieta, onde irá comer esses tipos de alimentos 

Txana Masha passa a expor sobre a cura de um doente.

Temos vários exemplos, o meu sogro Vicente Saboia, da liderança tradicional, é um desses casos. Temos exemplos de pessoas com doenças graves que foram curadas.

Se eu simplesmente ingerir o Daime irá funcionar?

Tem que ter alguém para explicar, orientar, é uma das medicinas, que é um eixo de todos os conhecimentos. Um daimista é a pessoa mais sábia de um grupo. O daime é usado como remédio.  O Mestre Irineu (Raimundo Irineu Serra, fundador da doutrina religiosa do Santo Daime que usa como sacramento a bebida chamada ayahuasca, batizada por ele de Daime) quando teve contato com o Daime viu que era utilizada pelo indio, ele consagrou e recebeu dos astrais a doutrinação. Após Mestre Irineu vieram outros mestres.  Onde tem Daime tem cura,sabedoria e purificação. Só deve ser ingerido mediante a orientação de quem domina o conhecimento, senão como toda medicina utilizada sem orientação pode trazer consequências inesperadas. Tem doenças que só o médico pode curar, assim como tem doenças que só o pagé pode curar. Algumas doenças são enviadas por espíritos visiveis ou invisiveis.

Vocês usam alguns amuletos para proteção contra o mal?

São os colares com simbolos da floresta. Outra forma é pela dieta. Nós estamos aqui com um objetivo, que esses valores sejam reconhecidos pela sociedade.

O acadêmico Lucas Teixeira Franco de Moraes fala a respeito da Ayahuasca.

Ela é patrimonio cultural brasileiro, não é considerada droga, há vários estudos da USP sobre a Ayahuasca, o uso dela é controlado, não pode ser comercializado, só pode ser utilizado para fins religiosos. Existe uma legislação a respeito.

Dra. Marly Teresinha Pereira a senhora esteve na selva?

Estive por três anos na floresta, quando fui tomar o Daime foi interessante, outra pessoa  ingeriu, a primeira vez, colocaram uma certa quantia para que eu tomasse, quando foi recomendada uma quantia menor, com o passar do tempo continuei tomando já em uma quantidade um pouco maior. A Unicamp trouxe a ayahuasca da amazonia e fizeram todo um trabalho com dois grupos de mulheres em um estado psicológico bastante avançado, depressivo. Um grupo tratado com placebo e outro tratado com a ayahuasca, foi impressionante a rapidez que eles tiveram no comportamento delas comparando os dois grupos. A Unicamp já identificou qual é o principio que existe no chá, isso para eles já é claro. Funciona cientificamente. A lei brasileira é muito clara quanto a prescrição de medicamentos, é uma prerrogativa exclusiva do médico. O fato de ter um horto, no caso do branco, ele está impedido de prescrever um tratamento.  Boa parte do corpo médico é ainda reticente quanto ao tratatamento pela fitoterapia. Temos uma lei nacional, o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos já aprovada, deveria estar sendo implantada, todo posto de saúde é obrigado a ter as plantas medicinais para ofertar gratuitamente, e um médico com conhecimentos fitoterápicos também atendendo. Isso é lei. Temos uma resistencia muito grande, onde possivelmente o poder econômico cria uma barreira. A Fiocruz está trabalhando nisso, Glauco Villas-Boas é o responsável. Nós temos na Esalq alunos como o Lucas Teixeira Franco de Moraes que levam essa bandeira. Ha alguns anos na Esalq não se tocava nesse assunto. Hoje mudou o comportamento de muitos professores. O Dr. Walter Radamés Accorsi foi o pioneiro, depois surgiram vários professores trabalhando nessa linha. Já temos três médicos na cidade que estão se atentando para a questão do tratamento fitoterápico em doenças graves. Nossa idéia é montar junto com os médicos um posto de saúde municipal, já que a lei federal assim determina, para transformar esse local em um piloto. Temos o corpo médico. Buscamos o espaço fisico em algum posto de saúde. Estamos trazendo além do conhecimento indigena, o africano e o indiano. Juntar todas as correntes que trabalham com plantas medicinais.

Lucas como surgiu a idéia de promover a vinda do cacique e do pajé para transmitir os conhecimentos fitoterápicos?

Eu frequento o centro espitualista xamanico ancestral, situado em Juquitiba, na aldeia de Shiva. Consegui o contato deles através do Akaiê de descendência caramuru-tupinambá. A Aldeia de Shiva é um centro indigenista, tem um estudo da cultura indígena. O conhecimento tradicional dessas culturas vem sido perdido por pressões externas. O resgate dessas culturas tem muito a colaborar para os homens brancos, para os habitantes urbanos. É um conhecimento puro, ancestral. A essência é verdadeira. Esses índios sentem amor pelo que fazem, acreditam de fato. Não tem interesses externos nem ambições. São puros. Querem promover uma integração pacifica entre nós e eles. Por isso saem para divulgar a cultura deles. A Esalq é uma escola que trabalha com a terra, com o território brasileiro, com a produção alimentícia, tanto a ciência dos alimentos como com a parte de produção, economia, administração, biologia, são áreas que desenvolvem todos esses aspectos. Se a saúde do brasileiro for boa, através de uma alimentação correta, um bom ambiente, o ambiente urbano arborizado, com plantas dentro de casa, pássaros nas ruas, isso significa qualidade de vida para as pessoas. As pequenas culturas são muito importantes em uma alimentação saudável.  O acesso a esses alimentos acaba sendo dificultado às populações menos favorecidas. Hoje temos no Horto da Esalq 220 espécies do mundo inteiro. Temos capacidade de produzir esses produtos sem a necessidade de importá-los, como ocorre em parte atualmente. Há produtos com propriedades medicinais que são produzidos em outros países, e nós temos ainda aqueles originários do nosso país. Temos que aproveitar a oportunidade que os índios brasileiros nos oferecem de compartilhar seus conhecimentos sobre plantas nativas. Temos muito a aprender com eles, como viver de forma mais harmônica com a natureza.

 

sexta-feira, maio 23, 2014

MARLY TERESINHA PEREIRA, LUCAS TEIXEIRA FRANCO DE MORAES, TXANA MASHA E TXANA DASU.


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 24 de maio de 2014.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/



ENTREVISTADOS: MARLY TERESINHA PEREIRA, LUCAS TEIXEIRA FRANCO DE MORAES, TXANA MASHA E TXANA DASU.

Marly Teresinha Pereira, Lucas Teixeira Franco de Moraes, Txana Masha, Txana Dasu e sua esposa constituiram um encontro do conhecimento cientififico e do prático-espiritual da natureza. Uma aproximação importante entre culturas diferentes mas com os mesmos interesses. Conhecer suas relações com a natureza é uma das grandes buscas que o homem “civilizado” tem como meta. A tecnologia deu um enorme salto nas últimas décadas. A humanidade tomada por um encantamento onde tudo que é prático e com tecnologia de ponta torna-se objeto de aspiração e consumo, alem da parafernália tecnológica, a alimentação industrializada, tratamentos de saúde inovadores e medicamentos de refinado estudo químico faz parte da vida do homem da nossa época. É tido e sabido que a indústria farmacêutica é um dos negócios mais rentáveis sendo que algumas têm como acionistas grandes instituições financeiras. São conglomerados com enorme poder econômico e político, investem bilhões de dólares em pesquisas, contratam grades cientistas, possuem tecnologia de ponta, sempre a procura da cura para as doenças que afligem a humanidade. Todos conhecemos ou sabemos de casos de pacientes que buscaram a cura na medicina milenar, baseada na cura pelas plantas, transmitida de individuo à individuo ao correr dos séculos. Reunimos em torno de uma mesa a professora doutora Marly Teresinha Pereira que possui graduação em Engenharia Agronômica (1970) e mestrado em Economia Agrária (1990) pela Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" da Universidade de São Paulo e doutorado em Estudos das Sociedades Latino-americanas - área de Sociologia (2003), pela Universidad Artes y Ciéncias Sociales - ARCIS, de Santiago de Chile. É professora doutora do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da ESALQ-USP, desde maio de 1985. Gestora Estadual da RedeFito Mata Atlântica, do Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos - PNPMF, junto ao Núcleo de Gestão em Biodiversidade e Saúde NGBS, vinculado ao Centro de Produtos Naturais de Farmanguinhos/Fiocruz - Ministério da Saúde. Ocupou o cargo de Secretária Executiva do Conselho Estadual do Pronaf (2007-2009) e do Conselho Estadual de Desenvolvimento da Agricultura Familiar - CEDAF (2009- 2010) junto à Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Tem experiência na área de Sociologia e Extensão Rural, atuando principalmente nos seguintes temas: desenvolvimento rural sustentável e solidário, políticas públicas para agricultura familiar, territórios rurais, comunicação rural, organização rural, difusão de tecnologia, crédito rural, PRONAF. Integrando a mesa estavam o formando pela Esalq,  Lucas Teixeira Franco de Moraes, três indígenas de Tarauacá (Acre), sendo um estudante de medicinina alternativa, Txana Masha acompanhado de Txana Dasu que é lider de uma aldeia o qual trouxe sua esposa. Embora usando roupas normais do homem branco, estavam caracterizados com colares, cocares, pulseiras e pinturas na face. Cada um desses adereços tem um significado, que na cultura indígena é considerado sagrado.

 

 Txana Masha entre você e Txana Dasu qual dos dois tem um grau de importância maior dentro da aldeia?

Txana Dasu é lider de uma aldeia, e eu sou estudante de medicina alternativa, o pajé com seu conhecimento ancestral transmite-os. É ele quem me conduz até a floresta, onde mostra as éspécies de plantas, quais suas finalidades, como deve ser administrada, cultivada. O aprendizado é feito por tada a minha existência.   Nasci no Acre, no distrito de Tarauacá na fronteira com o Peru.

Quais recursos médicos existem lá?

Em terras indigenas há frequência de médicos tradionais, temos dois médicos indigenas que estão se formando em Cuba.

Qual motivo levou esses dois indigenas a estudarem medicina regular em Cuba?

Foi um projeto promovido pelo governo que os levou para lá. Foram oferecidas duas vagas aos indios que tivessem concluido o ensino de segundo grau. Uma vez por ano eles nos visitam, falam o idioma da nossa etnia, o huni kuî.

Txana Dasu você nasceu em que dia?

Nasci no dia 10 de agosto de 1986, de parto natural, na própria aldeia. O nome indigena da minha mãe é Daní, significa tudo que existe sobre a superfície da Terra. O nome do meu pai é Nuí cujo significado pode ser saudade, sentimento profundo. Por parte de mãe sou filho único, por parte de pai tenho cerca de 15 irmãos e irmãs, o meu pai teve várias esposas.

O homem assume a manutenção de todas as esposas e filhos?

Se ele teve uma esposa, ao deixá-la é costume que ela cuide de si e dos filhos. Ele irá criar uma nova família.

Você acredita em Deus?

Acredito. Eu acredito em um Deus que criou a Terra e o Céu e todo o Planeta. Não posso afirmar que Ele tenha forma humana. Ele está em todas as partes, na diversidade que ele criou. Nas plantas. Nos seres que tem vida. Se não existisse Deus não haveria vida. Deus está vivo em cada ser que vive. Nas pessoas, nas plantas, na terra, na água, nas pedras.

Esse é o motivo pelo qual os indígenas respeitam muito as plantas e os animais?

Na história do povo indígena, a medicina no passado era uma pessoa, ela passou por uma transformação que chamamos de morte. Ela passa do mundo material para o mundo invisível. Ocorre com a pessoa que tem uma preparação de espiritualidade mais avançada, ela se encarna como se fosse uma planta, tem o sentido de ouvir o que você está falando. O índio pega uma planta, fala que quer tirá-la para ajudá-lo no sentido em que ele está precisando. Na saúde ou no que ele possa receber. O índio pede à planta uma autorização para tirar dela a sua propriedade medicinal.

Estou observando que ao falar com alguém você olha diretamente nos olhos da pessoa. É uma característica sua?

Para nós significa uma firmeza e a verdade. Quando você tem uma verdade você tem que encarar as coisas com o olhar vivo. Você nunca deve falar e ficar olhando para outro lado, dessa forma nunca saberá o que de fato está acontecendo. Você tem que ter essa firmeza dentro de você. Não é você quem fala, é seu espírito que fala por você.

Você constituiu família?

Tenho esposa, chama-se Batani, somos casados há três anos. Não tenho filho ainda.

Você e sua esposa moram em que tipo de casa?

Moramos nós dois, em uma casa normal, de madeira e coberta com palha. Banho  nós tomamos no rio. Quando queremos comer algum tipo de carne vamos à floresta, caçar. Pescamos no rio.

Vocês cultuam os antepassados?

O índio já nasce com aquele espírito que já é próprio do seu avô ou avó, para que a cultura nunca se acabe. Uma pessoa que viveu, foi ótima, quando desencarna temos toda reverência, pelo que ele fez, pela sua bondade, e reverência a Deus para que ele possa estar em um plano astral em um mundo invisível, com uma espiritualidade mais elevada, que ele seja um protetor para aquela nação e um guia iluminado para que possa ajudar outras pessoas necessitadas.

Você está usando um cocar muito vistoso, qual é o significado dele?

Na minha língua é chamado de “maiti”. É um diploma muito sagrado para a nação indígena e símbolo mais importante dentro de uma tribo.

Você é a pessoa mais importante dentro da tribo?

Onde eu moro estou representando a espiritualidade como se fosse um padre ou um pastor. E aquela pessoa que está estudando o conhecimento da cultura, espiritualidade, medicina, história, divindade. Dentro desse estudo o que fortalece é você representar um líder espiritual, tendo um diploma desses como uma coroa de um líder.

Qual é a hierarquia dentro da tribo?

O cacique trabalha com a burocracia, é o político. O pajé é o doutor. É a pessoa que está trabalhando na cura, estudando a medicina. O cacique respeita o pajé. Tudo que o cacique vai fazer ele consulta o pajé se é uma atitude acertada ou não.

Há quanto tempo você recebeu esse cocar?

Há uns três anos. Demorei mais de 10 anos para recebê-lo. Aprendi com outro pajé. Minha mãe é pajé. É um dos raros casos de pajé feminino. Existem outros pajés onde você vai buscar a experiência, eles irão lhe ensinar.

Existe uma espécie de reserva quanto a passar todas as informações de um pajé mais experiente para um pajé menos experiente?

Tudo tem um segredo, ele ensina, mas tem um mistério que reserva só para si, é uma forma de proteção. Ele tem que analisar se aquele filho está preparado para receber aquele tipo de ensinamento. Há uma complexidade, uma seriedade muito grande.

Existe o pajé do bem e o pajé do mal?

A história diz que havia o pajé do bem e que se fosse provocada a sua ira ele praticava o mal. Existe outra linha de pensamento que ao encontrar uma pessoa que esteja fazendo o mal o pajé entrega para Deus. O pajé sempre deseja fazer o bem.

Você está com vários adereços, a gargantilha significa o que?

É uma estrela em formato de flor, representa a Mãe Terra, é aquela que brota e supre a necessidade de todos os filhos que estão em cima dela. Outro colar representa também a mãe terra e o meu nome como Beija-Flor e tem um beija-flor beijando a flor. É aquele que só toma néctar Divino de Deus.

Qual é a sua alimentação habitual?

É baseado em batata, banana, melancia, mamão, amendoim, caças, peixes.

Você come algum alimento industrializado?

Quando estou na cidade e não tenho outra opção procuro selecionar os menos industrializados.

Você já tomou um famoso refrigerante muito consumido pelos brancos?

Já tomei. Mas é raríssimo isso acontecer.

Qual seu alimento preferido?

Na aldeia é o mingau da banana. A banana grande tem que estar madura, minha mãe cozinha, pisa naturalmente, faz um mingau e tomamos.

E bebida?

A água! Não usamos bebida alcoólica. Só tem uma bebida que é da própria macaxeira mesmo (uma espécie de mandioca a macaxeira pode ser descascada mesmo crua). É utilizado em cerimônias, para a gente se fortalecer. Ele deixa leve e mais forte para fazer os trabalhos.

Como funciona e quando se dá um cerimonial?

O cerimonial é voltado mais à espiritualidade em busca de falar com os espíritos indígenas, principalmente os pajés desencarnados. Fazemos o cerimonial evocando todos os elementos da floresta, os espíritos encantados, espíritos da luz em reverência ao que você quer  fazer aquele cerimonial, por exemplo uma cura, uma libertação, e tudo tem uma preparação antes de ser realizada. Três dias antes da realização do cerimonial não se come carne vermelha, não pratica o sexo. Há toda uma consciência pura de coração, saúde, para que naquele cerimonial que vai envolver uma medicina poderosa, que leva ao plano astral onde você irá conhecer o presente, o passado e o futuro, faz com que traga sua própria força de vida para conhecer seu interior fortalecendo aquilo que você quer trabalhar. Tem os cânticos, batidos, tudo que existe em uma cerimônia voltada para a espiritualidade da própria tradição.

Esse cerimonial é aberto a presença do homem branco?

Tem alguns rituais que é aberto ao público. E tem rituais que só são permitidos para os que estão estudando, os iniciados.

Existe um processo determinando a passagem da criança para jovem e do jovem para adulto?

Tudo tem uma preparação. Quando era pré-adolescente existe um ritual para quando ele chegue na adolescência já com firmeza, para que não venha a fazer algo que prejudique a sua saúde, ou algo que mais tarde o leve a se arrepender de ter feito. Ele irá chegar a maturidade e irá sentir que foi bem cuidado, fez as coisas certinhas, para que atinja o seu objetivo de vida. Há rituais desde o nascimento até quando desencarna.

O que é feito com uma pessoa que não é desejada dentro do contexto da tribo?

Sabemos que cada pessoa tem sua conduta individual. Quando ele comete algo que seja fora do contexto, temos a facilidade de chamá-lo, fazemos um circulo em torno dele e conversamos, porque cometeu tal ato, qual é o sentido daquilo. Se está sendo importante para ele ou não está. Temos uma conversa para que ele possa compreender e não faça mais aquilo que é errado. Poderá prejudicar a nossa tradição e a própria imagem dos indígenas. Atualmente vemos muita descriminação com os indígenas. Se algo acontece no Centro-Oeste do pais, envolvendo indígenas, toda a etnia indígena é prejudicada. Por isso temos esse amor para com essa pessoa, para que não faça mais aquilo.

E se ele persistir no erro?

Deixamos claro que ele está conhecendo a lei indígena, no caso de continuar no erro ele irá conhecer a lei que os brancos impõem. Se for preso sentirá aquilo tudo muito pesado para ele, não cometerá mais o erro.

Vocês têm alguma lei que pune quem age de forma errada?

Temos, mas é totalmente voltada à espiritualidade. Se ele fez um erro, tem medicina que o fará compreender que aquilo que ele fez é errado. Bater ou expulsar é mais pesado para nós fazermos.

Vocês fazem o uso da Ayahuasca? (Ayahuasca[][] também chamada hoasca, daime, iagê ou mariri, é uma bebida produzida a partir de duas plantas amazônicas para fins rituais e utilizada na medicina tradicional dos povos da Amazônia).

Os pajés trazem essa medicina para nós. A Ayahuasca, o rapé, a Sananga e outras formas de medicina. A Sananga é um colírio indígena para os olhos. A pessoa que tem um problema de visão irá fazer com que a pessoa não precise usar óculos de grau, por exemplo. Tem muito índio que com 70 anos de vida ainda coloca linha no furo da agulha, sem óculos. É muito utilizada para prevenir e curar catarata. A Sananga é usada dentro de um ritual e por aquelas pessoas que vem utilizando a medicina indígena. (O rapé é utilizado para muitos fins. Os principais são as mazelas do corpo físico, como dor de cabeça, sinusite, nariz congestionado, até mesmo as mazelas do espírito. Assim quando se usa o rapé deve-se ter em mente que o que entra em você são as plantas da floresta e também espíritos de cura da floresta.).

Txana Mashã qual é a sua função dentro da tribo?

Sou professor, graduado em Letras, curso realizado no municipio de Tarauacá, represento uma aldeia com 17 famílias, composta por 90 pessoas, a minha área de pesquisa é voltada ao mundo espiritual. Passei por uma formação, uma dieta, hoje com 33 anos tenho 19 anos dedicados ao mundo espiritual. Eu nasci no dia 10 de abril de 1980. Minha mãe chama-se Sabiani, meu pai não é indigena, meu pai é cearense. Quem me criou foi minha mãe e meus irmãos mais velhos, tenho 12 irmãos, seis por parte de mãe e seis por parte de pai, tenho cinco irmãs, tres por parte de pai e duas por parte de mãe. O pajé renuunciou ao cargo e eu com 33 anos recebi esse tipo de trabalho. Rituais com Ayahuasca, o rapé, a Sananga. Aprender muito mais. Minha esposa chama-se Biruani.

Normalmente com que idade vocês se casam?

Depende do jovem. A partir de 15 anos, 20 anos.

(CONTINUA)

sábado, maio 17, 2014

KARIN IZABEL FITAS LOUREIRO – CECAN


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 17 de maio de 2014.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
 


ENTREVISTADA: KARIN  IZABEL FITAS LOUREIRO –
CECAN -CENTRO  DO CÂNCER DA SANTA CASA DE PIRACICABA ( INSTITUTO DE ONCOLOGIA CLÍNICA DE PIRACICABA)

 

Karin Izabel Fitas Loureiro nasceu na cidade de São Paulo a 27 de agosto de 1975, filha de Antonio Augusto Loureiro e Emília Fitas Loureiro. Foi aluna do Colégio Santana, fez magistério no Cefam- Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério formou-se em Tecnologia de Processamento de Dados pela Universidade de Guarulhos.

Em que ano você veio para Piracicaba?

Foi no ano de 2005, vim trabalhar no CECAN convidadda pelo Dr. André Moraes para trabalhar na parte de pesquisa clínica.

No que consiste essa pesquisa clínica?

São estudos para a administração de novos medicamentos. Todo medicamento existente no mercado já passou por estudos clinicos. Existe várias fases de estudo de uma droga nova, são fases: 1, 2, 3, 4 e 5. Normalmente fazemos estudos das fases 3 e 4. A maioria dessses estudos envolvem outros países, é um intercâmbio internacional. Geralmente um medicamento já em uso é comparado ao uso e resultados de um novo medicamento. Esses estudos são aprovados pela ANVISA Agência Nacional de Vigilância Sanitária, pelo Food and Drug Administration (FDA) norte-americano. O Estudo clínico ao mesmo tempo em que é feito no Brasil também se realiza em vários outros países. Há um trâmite regulatório imenso. Um exemplo, a paciente tem câncer de mama, já realizou um tratamento, é oferecida uma outra opção, se a paciente concorda, é feito um contato com uma central, normalmente fora do país, é dado um número aleiatório (randômico) a paciente, o medicamento vem por lote e numeração. Determinada pessoa que recebe esse número, será sempre o mesmo número no mundo todo. Todos os dados do paciente é informado a essa central, menos a identidade. Todos os exames, de sangue, imagem , são analisados no exterior.

Quantos centros de estudos nesses moldes existem no Brasil?

São muitos. Em Barretos, Jaú. Em São Paulo quase todas as faculdades tem esses centros de estudos.

Quantos pacientes o Cecan atende por mês?

Entre quimioterapia e radioterapia por mês são atendidos por volta de 600 pacientes.
 
Qual a faixa etária dos pacientes atendidos pelo Cecan?

A partir dos 18 anos de idade. Aqui só atendemos pacientes adultos.

A incidência maior de câncer no homem atinge qual parte do seu organismo?

A próstata. Na mulher a mama.

O câncer de próstata tem cura?

Pode ser curado, desde que se faça o tratamento, seja diagnosticado o quanto antes possível, através de exames regulares, assim como o câncer de mama. A mulher ao menos uma vez ao ano deve ir ao ginecologista, pode detectar logo no inicio um câncer de ovário ou de mama.

O Cecan atende aos pacientes da Santa Casa?

Atendemos todos os pacientes da Santa Casa, que necessitem do tratamento para câncer, isso envolve pacientes particulares, conveniados , pacientes do SUS.

A partir do diagnóstico positivo é feito o tratamento que no Cecan envolve quais procedimentos?

A confirmação da existência do câncer se dá através da biópsia. Os pacientes que chegam aqui já fizeram a biópsia. Eles então recebem a quimioterapia, que pode ser venosa ou oral. Ou é feita a radioterapia, que é na própria região afetada. Há pacientes que fazem ambos tratamentos. Muitas vezes é feita a quimioterapia, para diminuir o tamanho da área afetada e depois fazer a cirurgia. De acordo com o resultado da cirurgia o paciente pode retornar para continuar o tratamento.

Há quanto tempo você trabalha no Cecan?

Ha nove anos.

Nesse período você tem visto muitos pacientes com sobrevida?

Bastante! Depende do diagnóstico, depende da doença e o que interfere muito, é a vontade da pessoa de viver. Desde que estou aqui a cada dia aprendo mais, e fica evidente a importância da garra que o paciente tem em querer viver. Isso faz a diferença. E também o apoio da família. Cerca e 70% dos pacientes que atendemos é através do SUS. Muitos deles vem até aqui sem ninguém acompanhando-os. Muitos são com poucos recursos financeiros, tem habitos como tabagismo, fazem ingestão de alcool. Estão bem debilitados. Alguns  nunca se cuidaram da forma correta. Outros não tem noção da importância do mal que os acomete. Dizem “tenho aquela doença” não querem dizer o nome. Algumas famílias pedem que não seja dito ao paciente que ele está com câncer. Ele não sabe.

No seu ponto de vista você acha que o paciente tem que ter consciência da doença que têm?

Na minha opinião ele deve saber. Caso o paciente saiba que sua sobrevida é de três ou quatro meses ele irá tomar algumas atitudes que nunca teve coragem de tomar.


A sua função dentro do Cecan qual é?

Sou coordenadora de pesquisa clínica e gerente de Relações Humanas.


Quantos médicos atendem no Cecan?

São oito médicos.Na parte de quimioterapia temos 11 enfermeiros e técnicos. Na Radioterapia temos 6 técnicos. Dois dosemetristas e dois físico-médicos. São eles que fazem os cálculos de doses a serem ministradas nos pacientes.

O tratamento do câncer é de um custo elevado, como vocês mantém esse tratamento?

Recebemos através do SUS, dos convênios.

O Cecan tem uma boa imagem junto a população e a seus pacientes.

O Cecan recebe o paciente para tratamento, ele não vem até aqui para falecer. Temos que atende-lo com alegria, dar carinho, acolhimento ao paciente. Ele tem que se sentir bem aqui. Sem medo ou receio. Tentamos sempre fazer o tratamento confortável. Ele precisa disso. Como cuido do departamento de Relações Humanas procuro incentivar  o bom humor entre nosso pessoal. Implantamos entre os funcionários e pacientes um brechó, com a autorização dos responsáveis pelo Cecan. Em um sábado realizamos a venda simbólica dos bens que cada um voluntariamente deu. Com o resultado apurado na páscoa enfeitamos a clinica com motivos alusivos a data e conseguimos dar um chocolate para cada paciente,  isso é muito importante para ele: sentiu-se lembrado! No Natal fizemos um bingo. No dia das mães fizemos um evento, chamamos o pessoal da Mary Key que sempre nos apoia, fizemos a semana da beleza, todos voluntários. Enquanto a paciente estava esperando durante a quimioterapia, era feita a unha dela, uma maquiagem, uma massagem. Você sente pela expressão do rosto da paciente que ela está gostando. No ano passado fizemos um show junto com a Regina Gomes, falando da vida de Elis Regina. Foi realizado no Teatro da Unimep. Vieram vários músicos para acompanhá-la no show, um deles toca no conjunto do Roberto Carlos. No mês de junho, durante todo o mês realizo festas juninas, dentro da clínica. Fazemos umas barraquinhas, tudo é decorado como alusões a data, faço pipoca, chá de gengibre, tem paçoca. Fica o dia todo para o paciente comer. Eles adoram. Cria um clima diferenrente do cotidiano. Chegamos a dançar quadrilha com os pacientes. Vestimos um paciente de noivo, uma das médicas foi a noiva. É muito gratificante a reação deles. A alegria deles é enorme com o mínimo de atenção que recebam.

Existem pacientes que permanecem internos?

Não, eles vem e saem todos os dias. Aqui só realizam consultas e tratamento. Procedimentos cirurgicos são realizados dentro da Santa Casa.

Quando um paciente tem um câncer a família fica também doente?

Tem muitas famílias que ficam. Há pacientes que ficam com depressão. A psicologa faz o seu trabalho, muitas vezes tem que cuidar até da própria família do paciente. Para a mulher existe alguns momentos em que ela se abala muito, principalmente quando perde os cabelos. Para algumas é o momento mais difícil do tratamento. Mexe com a vaidade, com a auto estima feminina. Tem algumas voluntárias que vem ensinar a colocar o lenço, como fazer um visual diferente.

O homem é mais depressivo do que a mulher nesses casos?

Eles não demonstram tanto, não exteriorizam, mas na minha opinião são mais depressivos do que a mulher.

Você demonstra uma energia muito forte para trabalhar com essas situações, isso é uma característica pessoal sua?

Acredito que sim, e trabalhando aqui sinto mais motivação em ajudá-los. Existem muitas pessoas necessitando de ajuda, um pequeno gesto já é muito importante para eles que estão muito sensiveis. Tem o caso de um paciente que está fazendo radioterapia hoje, ele mora em uma determinada cidade próxima, o transporte da prefeitura da localidade passa na casa dele as quinze para quatro horas da manhã. Outro dia ele chegou antes das seis horas da manhã e o transporte veio buscá-lo só as sete horas da noite.

E a alimentação desse homem?

Alguns pacientes trazem algo para comer, outros não trazem nada. Simplesmente eles não têm nada para trazer para comer. Muitas vezes pedimos à Santa Casa, eles mandam, a título de caridade. As vezes o paciente passa mal, não em função do tratamento, mas sim porque estava sem comer nada. As próprias enfermeiras acabam comprando um suco, uma bolacha para dar ao paciente.

O Cecan é uma entidade terceirizada da Santa Casa?

Exatamente, mantemos um contrato com a Santa Casa.

O paciente residente em Piracicaba tem transporte que faz sua locomoção?

A prefeitura se encarrega disso. Nossa assistente social, Karina Vieira se encarrega de providenciar isso tudo. Alguns pacientes vem uma vez por mês, pegam o remédio e tomam em sua própria casa.

Há pacientes que persistem em manter habitos que prejudicam sua saúde?

Tem paciente que faz radioterapia, quimioterapia, acaba de realizar o procedimento de tratamento e vai para o lado exterior do prédio fumar pela traqueostomia. (Traqueostomia é um orifício artificial criado cirurgicamente através da frente de seu pescoço e em sua traquéia). A primeira vez que vi não acreditei naquilo. Infelizmente isso existe.

A incidência de câncer está cada vez maior?

Está. A meu ver o stress, a alimentação, a qualidade de vida, isso tudo contribui. O alto nível de consumismo impulsiona o ritmo de vida. O ser humano busca cada vez mais a aquisição de bens sem desfrutar plenamente o que já conquistou. As pessoas se auto impõem um ritmo de trabalho alucinante.


O tratamento realizado pelo Cecan em Piracicaba pode ser considerado equivalente aos procedimentos realizados nos grandes centros?

A tecnologia permite que o mesmo tratamento realizado em renomados hospitais de São Paulo sejam identicos aos procedimentos feitos pelo Cecan. O corpo clínico é altamente qualificado.

Na nossa região há muitos casos de câncer de pele?

Por muito tempo descuidou-se da proteção contra os raios solares. Atualmente a população está mais bem informada, cuida-se melhor. Usam protetores solares, bonés, chapéus. Hoje temos condições de diagnosticar a doença e tratá-la, antigamente a pessoa ia a óbito sem saber o motivo. Há um volume maior de informações, a medicina é mais acessível.

O Cecan pode ser acessado pela internet?

Estamos elaborando nosso site, acredito que até julho deverá estar disponível ao público.


Há uma pré-disposição para o Cecan informar melhor a população sobre o câncer, prevenções e tratamento, em particular em grupos que solicitem esse tipo de informação?

Acredito que sim, nós não temos uma estrutura voltada para esse tipo de trabalho, porém é passivel de estudo formarmos um polo que possa divulgar o mínimo necessário. Grande parte da população não tem a mínima noção do que é uma radioterapia. Um procedimento que geralmente é feito em apenas quinze minutos, por um período pré-determinado. Por exemplo, trinta aplicações uma a cada dia, em um período de trinta dias. São tratamentos dados em dosagem pré-calculadas e dispersos nos correr dos dias. A radioterapia é feita muito para aliviar a dor.


No seu ponto de vista, convivendo com tantos pacientes, você acredita que a pessoa que tem um espírito elevado, popularmente chamado de “alto-astral” é um bom caminho para combater o câncer?

Acredito muito nisso. Já vi muitos pacientes com garra vencerem a doença. Analisando casos percebo que pessoas rancorosas, que guardam mágoas, coincidentemente constituem um número maior de portador de câncer. O inverso também ocorre, pacientes com famílias esfaceladas, problemáticas, mas que mantém o espírito de solidariedade, de auxiliar ao próximo, vencem barreiras enormes.

Vocês fazem o transpante de medula?

Temos profissionais habilitados para isso, mas nessse caso encaminhamos o paciente para São Paulo ou outras regiões que realizem esse procedimento.

Há como clubes de serviços, entidades beneficentes contribuirem com o Cecan?

Pelo fato de atendermos a população nas faixas de A até Z, os voluntários podem contribuirem com o que quiserem. Sempre haverá alguma coisa em possam ajudar. Hoje por exemplo, ganhei duas caixas grandes de bolacha. Vou embalar em pequenas porções e dar aos pacientes. Geralmente os doadores são pesssoas anonimas, familias de pacientes que são tratados aqui, os Doutores da Alegria nos ajudam sempre, estão presentes em todos eventos que realizamos.

Como é a história dos Super Herois?

Pessoas com roupas de super herois iniciaram o seu trabalho na luta contra o câncer infantil, viram que funciona, decidiram fazer visitas para adultos. Você não tem noção da reação dos pacientes. Toda sexta-feira eles vem até aqui, normalmente 10 horas da manhã. Os pacientes ficam fascinados. Até mesmo os mais idosos. É uma animação enorme. Os pacientes adoram. É um momento de descontração, o paciente esquece que está em tratamento. Tem quimioterapia que demora seis a sete horas, com o paciente sentado na poltrona, se você fizer um bingo das 9 horas da manhã até o meio dia o paciente não percebe o tempo passar. Alguns acabam o tratamento e permanecem jogando. Outro não é o dia de ele vir ele vem para participar do bingo. A carência deles é enorme. Na minha opinião a população pode ajudar mais.

Quem quiser colaborar pode procurar você aqui no Cecan, que fica anexo a Santa Casa de Piracicaba?

Pode me procurar que dependendo do que a pessoa for fazer eu ajudo. Vamos criar, fazer.

Uma contadora de histórias pode vir até aqui?

Apoio e ajudo no que for necessário.

Existem muitas famílias que apoiam o paciente, mas existe também famílias que abandonam o paciente?

Existe sim, são famílias que internam o paciente e o deixam internado na Santa Casa. Muitas vezes o paciente tem alta eles nem vem buscar.

São pessoas carentes?

Acredito que todos são carentes de afeto, mas nesses casos são pessoas que também são carentes financeiramente. Há paciente que vem sozinho, nunca vimos ninguém da sua família. Atualmente a demanda para tratamento é muito grande.

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