Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sexta-feira, agosto 29, 2014

IRENE SOUZA FERRAZ


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 30 de agosto de 2014.

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://blognassif.blogspot.com/


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ENTREVISTADA: IRENE SOUZA FERRAZ

 


Nascida em uma fazenda, no município de Bariri, a 21 de abril, filha de Antonio de Paula Ferraz e Julieta de Souza Ferraz, que tiveram 12 filhos, sendo que três faleceram ainda muito novos. A filha primogênita foi a Maria, a seguir: Conceição, Jandira, Nair, Marina, Irene, Luiz, Antonio e Expedito. Logo que se casaram Antonio e Julieta eram proprietários de uma fazenda no bairro rural de Recreio, próximo a Charqueada. Após alguns anos seus pais venderam essa fazenda em Recreio e adquiriram outra fazenda enorme em Avanhandava seu pai após alguns anos vendeu essa fazenda ao seu cunhado, e adquiriu outra fazenda em Bariri, local em que Irene nasceu. Alguns anos depois ele adquiriu uma propriedade muito próxima a Guaiçara, localidade próxima a Lins.

Até que ano escolar a senhora estudou em Guaiçara?

Estudei até o segundo ano primário. Quando eu tinha uns nove anos nossa família mudou-se para Piracicaba à Rua Floriano Peixoto, no centro. Matriculei-me no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Lembro-me perfeitamente da minha professora do terceiro ano: Maria José. Depois mudamos para a Rua Moraes Barros, fui estudar a quarta série primária no Grupo Escolar Moraes Barros. Bem em frente existia a Fabrica de Bebidas Andrade. A minha professora era Dulcelina Ferraz de Arruda Leite.

Na esquina havia um casarão, que mais tarde foi a Biblioteca Municipal, e recentemente foi demolido sendo que no local está sendo construído um edifício. Quem residia naquele casarão?

Quem morava ali era o Padre João. (Em 1916 assume o cargo de Capelão da igreja São Benedito, o Cônego João Batista Ferraz.) Era primo-irmão do meu pai. Ele tinha herdado uma grande fortuna, aquela casa foi construída por ele onde morou até falecer. Ele sempre auxiliou muito aos necessitados. Conclui o curso no Grupo Escolar Moraes Barros, naquele tempo davam diploma escrito com letras góticas, esse diploma está na no Grupo Escolar Moraes Barros, há uns 15 anos foi aniversário acho que de 100 anos do Grupo Moraes Barros, a diretora estava organizando uma comemoração, pediu meu diploma emprestado, infelizmente não recebi esse diploma de volta, na época fiquei meio chateada. Para entrar no ginásio tinha que fazer um exame de admissão. Naquele tempo a classe era composta só por meninas e outra classe só por meninos. Tudo que aprendi com essa professora foi muito importante, cheguei a usar até em aulas que dei em faculdade. Era um ensino de nível elevado.

Após terminar o primário qual foi a próxima atividade da senhora?

Fui trabalhar! Minha irmã mais velha já tinha arrumado um emprego para mim. Tínhamos que trabalhar. As mais velhas tinham aprendido corte e costura, Por sinal a mais velha era modista mesmo. A Nair trabalhava na Livraria Giraldes, na Rua Moraes Barros. Ela trabalhou lá muitos anos.

A senhora foi trabalhar aonde?

Fui trabalhar na Galeria dos Tecidos de propriedade de Ultimio Tardivo. Era uma loja só de tecidos, situava-se na Rua Governador Pedro de Toledo, quase esquina com a Rua Moraes Barros quase em frente a Porta Larga. Trabalhávamos mais com sedas puras, era uma loja muito chique, muito boa.

O que uma menina de quinze anos fazia em uma loja dessas?

Vendia! Cortava o tecido certinho! Ganhava quarenta mil réis por mês. Trabalhei na Galeria dos Tecidos por dois anos. Após esse período fui trabalhar em São Pedro em uma loja de tecidos de propriedade de João Coury, onde permaneci por nove anos.

Como a senhora decidiu mudar-se para São Pedro?

O Sr. João Coury gostava muito de leitura, ele era cliente da Livraria Giraldes, minha irmã que o atendia. Ele a convidou para ir trabalhar na Casa Coury. Ele precisava de uma funcionária que inclusive soubesse fazer a escrita da casa, eu sabia fazer. Sempre fui a mais atirada dos irmãos. Desde muito pequena. Minha mãe fazia trabalhos de tricô, crochê, fazia trabalhos bonitos. Fazia joguinhos de lã para recém-nascidos. Colocava em uma cestinha e dava para que eu vendesse. Eu ia de porta em porta, vendia tudo, voltava com o dinheiro e entregava para a minha mãe, feliz da vida! Eu deveria ter uns nove anos. Um dia minha irmã citou o meu nome ao Sr. João Coury, deu-lhe o endereço de onde eu estava trabalhando. Ele foi até lá, era um sírio muito distinto, fino. Ele se apresentou, e me convidou para ir trabalhar em São Pedro, disse-me que a minha irmã Nair tinha dito que talvez eu fosse. Ele disse-me que pagava oitenta mil réis, o dobro do que eu ganhava. Ele disse-me ainda que eu teria um quarto meu, comida, tudo incluso, já que não dava para ir e voltar todos os dias até São Pedro. Ele era casado, tinham perdido um filho com uma doença que hoje jamais morreria: apendicite. A loja em São Pedro chamava-se Casa Coury, ficava na Rua Veríssimo Prado. Naquela época São Pedro ainda não era considerada a terra do bordado. A cada 15 dias eu vinha visitar minha família em Piracicaba. Era estrada de terra, a condução era a famosa “jardineira”, a gente comia poeira até Piracicaba. Tinha o trem também, a “Maria Fumaça” da Estrada de Ferro Sorocabana. De trem levava quatro horas de viagem de São Pedro até Piracicaba. De ônibus levava umas duas horas, até mais um pouco, parava em todo quanto era lugar. Após um ano que eu estava trabalhando lá, foi trabalhar conosco a minha irmã Jandira que até então trabalhava na Ótica e Relojoaria Gatti, situada na Rua Governador Pedro de Toledo esquina com a Rua Moraes Barros. A Casa Coury em São Pedro tinha muito movimento. O pessoal do Alto da Serra vinha, levava sacos de mercadorias. Quando o Sr. Coury veio para o Brasil era mascate, ele conhecia todo mundo do Alto da Serra de São Pedro, fazendeiros, foi assim que ele conseguiu montar essa loja. Depois ele casou-se com Dona Maria (Mariquinha), ela era brasileira.

Lá vendia de tudo?

Só não vendia calçados. Mas desde chapéu para homens, guarda chuvas, armarinhos, era uma loja quadrada, com um balcão enorme. Tinha três portas de aço enormes. Era separada da casa. Havia uma escada que ligava a loja até a casa. A casa era grande, tinha um terreno muito grande. Era um lugar muito bom para morar. A principio eu pensei em ir e ficar por um ano, até guardar algum dinheiro. Meu objetivo era estudar. No fim fiquei por nove anos. Quando sai deixei o casal chorando.

A senhora não estudou lá?

Estudei o que apareceu naquele tempo São Pedro era um décimo do que é hoje. As ruas eram de terra batida, não havia asfalto. Eu fiz SENAC lá, um ano. Apareceu, foi o prefeito Pedrinho Aguiar que trouxe esse curso. Tínhamos que estudar para valer, tinha até sociologia! Após um ano ganhamos um diploma enorme. O prefeito convidou as moças para fazer esse curso. Quem passasse em primeiro lugar, no final do ano, teria como prêmio uma viagem para São Paulo, para fazer outro curso lá, mais avançado. Eu ganhei o prêmio, fiquei em primeiro lugar. O prefeito Pedrinho foi conversar com o Sr. Coury. Sempre trabalhei muito, até hoje trabalho. Sempre gostei de trabalhar, nunca parei. No final daquele ano o curso foi encerrado com uma festa muito bonita. Isso foi por volta de 1942. Guardo esse diploma até hoje. Houve um exame, que veio lacrado de São Paulo e só foi aberto na hora em que foi aplicado às alunas. O Sr. João Coury concordou e dar-me uma semana de licença para viajar. Uma classificada em segundo lugar foi também para que eu não viajasse sozinha.

Em que local de São Paulo vocês ficaram?

Ficamos no Pacaembu. Isso foi uma iniciativa do governo. Lá estavam todos os alunos que haviam passado em primeiro lugar, de diversas cidades. Ficamos no próprio estádio,   havia quartos com três a quatro camas cada um. Visitamos pontos característicos de São Paulo. Foi o melhor passeio que fiz! Tinha outro curso que deveria ser feito e daria como prêmio uma viagem à Europa. Pensei a respeito e decidi que deveria aproveitar aquele momento, mas não me interessei em fazer uma viagem tão longa. Passeamos muito, divertimo-nos muito e depois voltamos para casa. Isso ocorreu quando eu já estava trabalhando há uns três anos na Casa Coury. Quando completou nove anos, eu já tinha guardado um pouco de dinheiro e pensei em fazer o curso de madureza (atual supletivo),  pensei: vou entrar no curso normal.

A senhora fez o curso de madureza aonde?

Fiz em dois lugares. Em Piracicaba não havia o curso de madureza. Hoje só não estuda quem não quer. Estudei o ginásio, para depois entrar no Normal. Era uma luta tremenda. Após um ano fui prestar exame em Itapetininga, no Instituto Peixoto Gomide, uma das escolas mais tradicionais do Estado de São Paulo. Eram nove exames escritos e nove exames orais, dezoito exames.

A senhora ficou hospedada aonde em Itapetininga?

Fui com uma colega que tinha uma prima que morava lá. Essa sua prima, Benedita, que nós a chamávamos de Ditinha, por coincidência era inspetora de alunos desse instituto. Era uma escola muito bonita, existe até hoje. Fiquei 21 dias em Itapetininga. Consegui passar em cinco matérias, quatro eu fiquei devendo. Voltei à Piracicaba, meu pai estava  na Santa Casa de Misericórdia onde permaneceu por três meses até vir a falecer. Naquele ano desisti de estudar. No ano seguinte voltei a trabalhar e estudar, trabalhava na Casa São Paulo, era de uns sírios, situava-se na Rua Governador Pedro de Toledo. No final do ano fui prestar exame em Jaboticabal. Fomos um grupinho, éramos três carros. Conseguimos passar e viemos com o certificado do ginásio. Matriculei-me na Escola Normal, tive que prestar exames em três matérias que faltavam. Eram matérias mais fáceis, fiz a adaptação. Tive algumas aulas com um parente muito famoso, era artista: Antonio Pacheco Ferraz que viveu até os 101 anos. Ele residia em São Paulo, como seus pais moravam em Piracicaba ele vinha sempre e dava-me algumas aulas. No Curso Normal passei em segundo lugar. Sou formada como professora na turma de 1955.

A senhora decidiu fazer o que a seguir?

Tive um convite desse mesmo primo, Antonio Pacheco Ferraz, é interessante que ele era primo por parte da minha mãe que era Pacheco e por parte do meu pai que era Ferraz. No final do ano, ia fazer os exames, fui até a casa dele, na época ele estava com sua família em uma casa próxima ao Mercado Municipal de Piracicaba, o professor que ia fazer os exames era João Dutra. Fui atrás do meu primo Antonio, em casa o seu apelido era “Nenê”. Ele me disse: “–Irene você tem dom para desenho, porque não presta concurso para desenho!”. Respondi-lhe: “-Ah Nenê! Eu gosto de matemática, gostaria de prestar concurso para matemática!”. Ele me disse: “ –Você vai se formar neste ano, vai lá para a minha casa e eu vou lhe ensinar desenho e você presta concurso para ensinar desenho para ginásio!”. Ele morava em São Paulo, na Vila Mariana, próximo a Igreja da Saúde. Ele era casado com uma prima irmã: Hermozila a mãe dela era Ferraz e o pai dela era Pacheco. Pais e mães de Antonio Pacheco Ferraz e Hermozila Ferraz Pacheco eram primos-irmãos legítimos. Eles se gostavam desde criança, ele foi estudar na Europa, ficou noivo duas vezes, ela ficou noiva aqui duas vezes, ela não tirava o Nenê da cabeça e nem ele deixava de pensar nela. Tiveram um filho, o Francisco.

Que idade a senhora tinha quando foi para São Paulo?

Em torno de 28 anos. Fui morar na casa do meu primo Antonio Pacheco Ferraz, a Hermozila foi minha colega de passeio em Piracicaba, ele me disse: “- Você se dá tão bem com a Hermozila!” De fato, fiquei lá dois anos e quatro meses. Eles moravam em um sobradão, muito bem arrumado. Ele me disse: “-Você fará companhia para a Hermozila!”. Lá na época existiam alguns sobrados, mas era um tanto quanto isolado. Ele ficava preocupado porque ela ficava sozinha com o menino na época com uns seis anos. Fiquei pensando, ser professora de desenho? Eu fazia bem feito, mas não era a minha matéria. Antonio Pacheco Ferraz era professor da banca examinadora da Escola Caetano de Campos. Ele me deu umas aulas, eu tinha facilidade para desenho, o meu irmão Antonio Souza Ferraz pintou vários quadros, meu primo Antonio Pacheco Ferraz dizia que o meu irmão era artista nato.

A senhora prestou o concurso para professora?

No dia certo do exame fui para a Escola Caetano de Campos, na Praça da República, passei em todos os exames. Nesse meio tempo apareceu um rapaz que eu conheci quando estudei em Itapetininga, Seu nome era Hélio dos Santos, era filho único, morava com a mãe viúva, em São Paulo. Era funcionário do Estado. A mãe dele era inspetora de alunos. Todo mês eles iam para um sítio que tinham em Itapetininga. As vezes iam visitar a Dona Ditinha que era prima deles. Eu estava lá e esse rapaz me conheceu. Fizemos amizade. Saíamos passear em grupo, junto com outros filhos da Dona Ditinha. Um ano em que permaneci em Itapetininga ele ia todo mês para lá. Minha irmã recomendou que eu voltasse para Piracicaba. Voltei. Um dia recebi uma carta desse rapaz. Disse que viria a Piracicaba fazer um passeio e que gostaria de encontrar-se comigo. Ele veio, na época eu estava ainda estudando. Ele voltou à São Paulo. Após me formar fui para São Paulo, eu estava na casa do Nenê, ia prestar concurso para ser professora do Estado. Um dia o Hélio apareceu na casa do Nenê. Ele foi com a mãe dele, Dona Adelaide. Foram fazer uma visita. Enquanto Dona Adelaide estava conversando com a minha prima ele se declarou, disse que desde que tinha me conhecido em Itapetininga não me esquecia. Concordamos em nos conhecer melhor, a começar a namorar até que ele me propôs casamento.

Ele era professor?

Não, era funcionário público, como o salário era restrito ele deixou doze anos de trabalho e foi trabalhar na Companhia Água Branca, uma empresa muito rica. Um grande amigo dele, o Joaquim era diretor dessa empresa, sempre dizia que ele poderia trabalhar lá e ganhar três a quatro vezes mais do que no Estado. Depois que ele firmou o namoro comigo, saiu do Estado e foi trabalhar com esse amigo. Íamos nos casar. Ele havia comprado o necessário, estava preparando tudo certinho. Ele queria fazer um casamento igual ao do Joaquim que fazia sete meses que havia se casado. Um dia ele me disse: “-Irene, falta três meses para nos casarmos, vou mostrar para você como será nosso casamento”. Deu todos os detalhes, onde seria a festa, a viagem de núpcias no Rio de Janeiro no Copacabana Palace. Fiquei muito contente, muito feliz. O meu casamento ia sair da casa do meu primo Antonio Pacheco Ferraz. O Hélio me disse: “-Irene, você vai escolher uma escola do Estado, só que para quem está começando não será aqui em São Paulo, você irá lecionar lá não sei aonde. Você vai sair de São Paulo, eu estou aclimatado aqui, não quero sair daqui. Eu gostaria que você desistisse você não precisa trabalhar.” Disse-lhe: “Imagine! Formei-me com tanto sacrifício, quero lecionar!”. Ele então me disse, você pode arrumar escola, perto de casa, aqui em São Paulo. Concordei com ele. Era um moço bom, congregado mariano, religioso. Faltava apenas três meses para nos casarmos, enxoval completo, alianças, viagem de núpcias programada. Ele viajava para essa companhia, ia pela Via Dutra. Ia para todos os lugares de carro. Em uma dessas viagens, no dia 29 de abril de 1958, ele sofreu um acidente de carro e faleceu. Eu já estava lecionando na Prefeitura de São Paulo, na Cidade Vargas, no final do metrô Jabaquara.

Quando a senhora ficou sabendo da tragédia?

Era bem cedo, eu estava indo para a escola, o Joaquim, amigo do Hélio foi para me dar a noticia, mas não teve coragem. Ele bateu na casa vizinha e deu o recado. A vizinha era um sobrado geminado com o do Nenê, da sacada ela bateu na janela do quarto do Nenê. Eram umas seis horas da manhã. O Nenê acordou assustado, quando recebeu a noticia de que o Hélio estava no necrotério. Nenê e Hemozila sentaram-se na cama, não sabiam como me dar a noticia. Ficaram os dois conversando, eu já estava de saída para a escola, quando eu estava para descer a escada passei pelo quarto deles que estava com a porta meio aberta, escutei falarem “Irene”. Logo imaginei que mamãe tinha falecido, ela andava muito doente. Bati na porta, falaram que eu entrasse. Perguntei o que estava acontecendo. Foi quando me disseram: “Seu noivo morreu, está no necrotério”. Era uma terça-feira. Eu tinha estado com ele no domingo. O Nenê foi comigo até o IML na Rua Teodoro Sampaio. Parecia que estava dormindo. Nem parecia estar morto. Ele faleceu no dia 29 de abril e foi sepultado no dia primeiro de maio. Larguei escola, larguei tudo. Voltei à Piracicaba, sem rumo. Fiquei quase um mês. Foi quando apareceu uma amiga, veio junto com o marido e me disse: “–Vamos voltar agora mesmo, ou você irá perder a sua escola!”. Eu disse-lhe: “–Aparecida, não sei se vou voltar a lecionar!”. No mês seguinte voltei a lecionar, meio sem rumo. Eu já estava lecionando na Adutora Rio Claro, antes de Santo André. Quando surgiu esse ensino, mais do que depressa fui atrás do padre Meirelles pároco da Igreja Nossa Senhora das Graças, ele arrumou uma sala fui até a prefeitura, me inscrevi, no mês seguinte estava nomeada. Wladimir de Toledo Piza como Prefeito do Município de São Paulo, tomando conhecimento da falta de vagas para crianças em idade escolar, criou as Escolas Primárias Municipais, rompendo com o Convênio Escolar que a prefeitura mantinha com o Governo estadual e implantou 2.000 escolas em um ano. Para viabilizar o orçamento as construiu em madeira, por serem de rápida execução e de baixo custo e adaptou outras, precariamente, em garagens e associações de bairro, visando atender a demanda anos depois elas ganhariam prédios definitivos. Com o passar do tempo a prefeitura construiu uma escla, a Escola Municipal Cidade Vargas. Nessa escola permaneci por 17 anos. Fui designada para dirigir uma escola em Campo Limpo, no Jardim das Rosas. Para chegar na escola tinha que tomar tres conduções, incluindo onibus e taxi. Ia de onibus até o Largo Treze. De lá em diante ia de taxi.

A senhora chegou a conhecer algum outro moço, após o falecimento do Hélio?

Depois que o Hélio faleceu tive um convite para ir para a Serra do Navio, Território do Amapá, para lecionar lá. Fui, fiquei seis meses. Uma companhia americana tinha arrendado um território por cinquenta anos, tinham feito uma cidade em Macapá. No Porto de Santana embarcavam o minério de manganês, ficava a cinco horas da Serra do Navio, onde havia uma cidade que eles fundaram  Terezina. Implantaram um sistema administrativo tipico americano. Fui para dar aulas a filhos de funcionários brasileiros. Voltando a São Paulo continuei lecionando, com o passar do tempo após morar em apartamento próprio, por conveniência pessoal, passei a morar em um pensionato. Havia uma professora aposentada cujo filho tomava refeições aos sábados no pensionato, o advogado Francisco Dantas Pinheiro. Ambos tinhamos por volta de quarenta anos. Casamos na Igreja Santa Terezinha, em uma travessa da Avenida Angélica. Permanecemos casados por 15 anos.

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