Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, maio 04, 2014

ANTONIO CARLOS MORELATO JÚNIOR MOREL MORELATO


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 29 de abril de 2014.
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
 
 
ENTREVISTADO: ANTONIO CARLOS MORELATO JÚNIOR ( MOREL MORELATO)
 

Morelato é assim que muitos o chamam. Morel foi uma abreviatura criada pelas pessoas com maior convivência com o artista. A junção de Morel Morelato ficou sonora. Artista plástico, criador de novas técnicas, ele transformou o secular e trivial móvel infantil em uma expressão de arte. O que causa impacto a quem conhece as obras de Morelato é a contradição entre o mobiliário infantil, com motivos lúdicos, e sua arte, pinturas em tela, com expressão forte, pesada, densa. Se a vida imita a arte, a arte de Morelato retrata a pluralidade do ser humano.
Antonio Carlos Morelato Júnior nasceu a 7 de julho em Ribeirão Preto. É filho de Antonio Carlos Morelato e Mercedes Almeida Morelato que tiveram os filhos: Vera, Antonio Carlos, Maria e Sandra. 
Qual era a atividade profissional do seu pai?
Ele era proprietário de uma fábrica de balas. Começaram fabricando em Ribeirão Preto as balas Balas Rin Tin Tin, também fabricaram a bala Chita. A bala Rin Tin Tin começou quase em um fundo de quintal, depois que virou uma fábrica. Eu cresci em uma fábrica de doces, além das balas comuns, tinha as recheadas, tinha uma linha de chocolates, bombons, lembro-me de uma bala de menta recheada com licor de menta.
Você fez o curso primário em que escola de Ribeirão Preto?
Estudei no Colégio Marista, que inicialmente era denominado Marcelino Champagnat, lá estudei o primário e o ginásio. Tínhamos atividades esportivas, eu jogava futebol, era atacante.
Você chegou a ser motivado a seguir a carreira religiosa?
Eu era muito rebelde nessa parte religiosa, era um sacrifício ter que freqüentar as missas celebradas em latim. A igreja do Colégio Marista era muito bonita. Eu admirava aquelas santas que adornavam a igreja. Sentia uma atração muito grande pela arte com que eram feitas. Eram lindas. As imagens, o próprio altar, as peças em mármore. Eu me impressionava pela arte, não pela parte religiosa.


Em Ribeirão Preto você teve algum contato cultural além da escola?
Trabalhei no Museu Histórico e no Museu do Café. São dois museus no mesmo prédio, eles pertencem a municipalidade, mas é dirigido pela USP.
Como você ingressou no museu?
Fiz um concurso, eu tinha muita habilidade, fui contratado para trabalhar no museu, cuidava da manutenção, exposições. Fiz um curso com uma diretora de um museu do Rio de Janeiro, como eu tinha noção de arte procurei evitar que alterassem as características originais das peças existentes no processo de manutenção das mesmas. Já naquela época a idéia era de fazer um museu dinâmico, foi um período em que havia muitos jovens trabalhando lá, e a idéia de achar o museu estático era considerada um absurdo. O Museu do Café, que é ao lado, é em um casarão que pertenceu a Francisco Schmidt. Em 1913, Francisco Schimdt era o maior produtor de café do Brasil e recebeu o título de "Rei do Café". Ele construiu e morou nesse casarão, na época o local era uma fazenda. Ele alavancou muitas iniciativas econômicas e culturais em Ribeirão Preto. Trabalhando no museu, achamos que não deveria ser estático, as pessoas poderiam achar que estavam sempre vendo expostas as mesmas peças. Com o apoio de um diretor começamos a mudar o museu inteiro. Fizemos uma exposição revolucionária, o Pietro Maria Bardi esteve lá e me fez uma dedicatória dizendo que estava feliz em ver alguém tão novo já mostrando como um museu deveria ser. Até a pouco tempo tinha essa dedicatória guardada, perdi na ultima enchente do Rio Piracicaba, que transbordou e as águas destruíram tudo que atingiram. Outra pessoa que conheci foi Roberto Burle Marx.


O conceito de museu ainda não ficou muito claro para uma parte da população?
Museu é um local problemático. A pessoa tem uma garrafa velha que pertenceu a alguém, mas que não tem importância histórica nenhuma, a pessoa quer doar. Muitas vezes querem doar tudo que é coisa velha. Museu não é um depósito de coisas velhas. Nós conseguimos fazer uma reserva técnica ótima, conseguíamos substituir as coisas, a cara do museu estava sempre mudando. O Museu do Café em Ribeirão Preto parece que é o único cujas peças são originais, foram de fato utilizadas. Na época em que eu trabalhava lá, um pessoal de Tókio fez algumas réplicas de peças expostas no Museu do Café em Ribeirão Preto e fez um museu semelhante lá no Japão. Passaram meses e fizeram uma reprodução do nosso museu.
Até que idade você permaneceu trabalhando no Museu?
Até uns 26 anos. Foi quando conheci Henriete Bortoletto Maluf, mãe dos nossos filhos Laurita, Ramsés e Dark. Ela estudava biologia em Ribeirão Preto, eu trabalhava no museu, almoçávamos na USP, foi lá que nos conhecemos. Ela assumiu uma cadeira em uma escola em Santos, mudamos para Santos, no inicio moramos no Canal 5, depois fiz um ateliê em um bairro mais afastado chamado Humaitá. Lá me dei muito bem com os caiçaras. Havia um mangue rico em argila, fizemos grandes esculturas com esse material.
Quando estava no Museu do Café em Ribeirão Preto você já fazia arte sua?
Eu fazia pintura e escultura, trabalhei muito com argila e pedra sabão. Noventa por cento das peças mais antigas que eu tinha aqui foi perdida na enchente do Rio Piracicaba em 2011. Boa parte desse material não está mais comigo, eu vendi para um cientista francês, Christian Feller, que fazia um trabalho na ESALQ. Ele comprou um container de obras minhas. Todas as esculturas premiadas, trabalhos que eu tenho, estão na França.


Como foi o período em que você morou em Santos?
A pintura sempre foi o meu forte, eu comecei a entrar bastante em salões de arte e ganhar prêmios. Após uns três anos decidimos vir à Piracicaba.
Como você classifica sua arte?
Tem essa coisa mais comercial, que é a linha infantil, é arte, cada peça é única, um critico de arte, fez com que eu participasse de uma exposição no Museu de Arte Contemporânea da USP, ele me classifica como um expressionista nato, voltado muito para o expressionismo alemão. Ele também não entendia como de uma arte lúdica, infantil eu também fazia arte expressionista.


Você inconscientemente pode estar transmitindo em sua arte um conflito natural do ser humano com ele mesmo?
Acho que pode ser. Uma vez estava ouvindo Vinicius de Morais dizendo que o poeta é um grande mentiroso. Ele inventa uma dor onde não existe. Às vezes penso que é isso. Ou se artisticamente eu consigo transmitir o lado do sofrimento e o lado alegre.  
Qual técnica de pintura você usa em seus quadros?
É uma técnica mista, fui inventando, no inicio era com pigmento de casca de cebola, eu sempre ouvi falar que ao ferver a casca de cebola com o pigmento tingia-se cabelo. Isso é fácil de comprovar, basta cozer um ovo junto com casca de cebola, a casca do ovo ficará amarelada.  Hoje eu misturo muito, trabalho com pigmento de tinta industrial, verniz a base de água. O detalhe é que não uso quase o pincel, pinto com palha de aço, eu usava muito a ferrugem da palha de aço. Observando a ferrugem criada pela palha de aço na pia, percebi que era muito difícil de tirar a ferrugem da pedra.


Para adquirir uma obra de arte sua tem que estar com a carteira recheada?
(Risos) É difícil comercializar uma obra de arte quando não se está em um grande centro. Quase a totalidade dos artistas de Piracicaba não consegue sobreviver da venda dos seus quadros. Isso ocorre em outras áreas como escritor, músico. Não sei como é o mercado fora do Brasil, a impressão é de que há mais respeito pelos artistas.
Ainda vivemos resquícios do período colonial?
O homem que lê, que está bem informado torna-se um obstáculo aos que desejam o poder para se beneficiarem. Percebe-se que mesmo as grandes escolas particulares não levam as crianças para visitarem exposições. Sempre que vou dar oficinas nas escolas eu falo que felizmente estudei em uma escola que incentivava a arte. Na época os Maristas ensinavam música, esporte, futebol, cinema e já se preocupavam com ecologia, estamos falando de três décadas atrás.
As escolas, mesmo estaduais, ensinavam musica, arbitrariamente decidiram excluir música do ensino. Isso resultou no que temos hoje. Com a arte foi a mesma coisa?
Tive aulas de arte na escola. É importante dar essa formação para a criança até seus oito ou dez anos. Mesmo em escolas tidas como de alto nível, os próprios pais sequer conhecem a Casa do Povoador. Segundo alguns educadores, hoje há um grande temor em tirarem as crianças fora da escola pelo risco e pelo medo da violência. No meu ponto de vista, isso não se justifica. Há dez anos consegui levar crianças de seis anos para uma Bienal. Não aconteceu nada. Hoje já estão grandes, passam por mim e se lembram daquela visita a Bienal. Essa pessoa não irá esquecer nunca mais!  Ao que parece as escolas preparam o aluno para entrar na faculdade. Só isso. É um objetivo comercial. Não há a preocupação de formação da pessoa com filosofia, arte.
No seu ponto de vista o que é mais importante, o objetivo comercial, do aluno ser treinado para entrar em uma faculdade ou receber uma educação onde haja a formação humana?
Sem duvida, a formação humana é mais importante.
Ao seu ver, os sérios problemas éticos que encontramos em quase todas as áreas vem dessa formação incompleta do individuo?
Infelizmente a conduta de muitos indivíduos é movida pela falta de ética, má formação de caráter. Vemos diariamente desde alguém estacionando em local impróprio até pequenos delitos praticados por pessoas que o fazem pelo simples prazer de transgredir. Muitas vezes levam alguma coisa que nem vão usar, mas querem levar. È o desejo da posse.
Atualmente você trabalha em duas frentes, a sua arte expressionista e a arte lúdica. Como surgiu a arte lúdica em sua vida?
Comecei a fazer isso em Santos. Meus filhos eram pequenos, comecei a fazer quadros com desenhos infantis, usando giz de cera, a resgatar as brincadeiras de criança, eu escrevia muitos poemas. Tenho poemas voltados ao publico infantil e outra linha amarga. Quando vim para Piracicaba, o Colégio Piracicabano adquiriu uma série de trabalhos meus e recentemente eles me chamaram para dar uma oficina e me mostraram que meus trabalhos estão lá. Ainda em Santos percebi que não havia nada que eu gostasse para as crianças brincarem. As mesas eram brancas, com algum adesivo com motivo infantil. Passei a fazer dentro do apartamento mesmo, algumas peças já utilitárias. Logo em seguida viemos para Piracicaba, passei a fazer no apartamento em que viemos morar. Era tudo manual, na tinha equipamentos mais apropriados. Foi bom porque os meus filhos cresceram no meio disso. Em alguns quadros desses que foram para a França eu deixava que eles fizessem os desenhos deles, pequenininhos, para não interferir. A casa inteira era arte.
Alguém já lhe disse que fisicamente você lembra Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, ou simplesmente Pablo Picasso?

Já! (Risos) Eu queria ser um pouquinho dele!
O que os seus filhos acham de você trabalhar com arte?
Eles devem gostar. Tiveram uma infancia e cresceram de uma forma ludica, com arte, a mãe deles também gostava muito de ler. Eles tem um respeito muito grande pelas pessoas. São calmos, tranquilos, não se enveredaram pelos caminhos das drogas.

O momento de criação de um artista é sagrado. Cada um tem seu próprio clima para criação. Qual é o seu?
Ao criar minhas telas, tenho como companhia uma boa musica, um jazz ou blues e uma taça de vinho. Nada mais do que isso além do material para pintura.
Já aconteceu de alguém vizualizar em uma obra sua coisas que você nem de longe imaginou?
Pintura é como musica, se for bom musico tem que ensaiar todo dia. Pintar é a mesma coisa. Por isso sai facil a pintura. Muita coisa no quadro é acidental. A arte tem uma coisa muito interessante, as vezes você pinta algo aqui e tem alguém a milhares de quilômetros pintando alguma coisa muito parecida. (Nesse momento Morelato interrompe e vai buscar um trabalho seu, que é fruto das suas pesquisas com materiais alternativos). Você está vendo essa obra? Foi feita com bombril e alcool, raspando em cima de uma fotografia,  descobri que as fotos de papel que ficam escuras, ao serem raspadas com bombril e alcool formam essas figuras. Foi uma técnica que desenvolvi, ai em cima desse trabalho eu passo para uma tela maior. É impressionante como ao raspar surge a figura. Atualmente a maior dificuldade é conseguir fotografias de papel, inservíveis, para realizar esse trabalho. As fotos digitais suprimiram as fotografias reveladas em papel. Uso nos contornos o lápis dermatográfico, que é utilizado muito em cirurgias.

Você não pensa em dar oficinas para as crianças em escolas?
Andei dando oficinas nas escolas, nas particulares eu cobro, mas na pública além de não cobrar muitas vezes tenho que pagar o material que os alunos irão utilizar. Não é caro, mas se as pessoas apoiarem até abro mão do cachê. Na última que fiz dei o curso aos pais e aos alunos, mas no fim tive que levar o material, eu percebi a situação de precariedade deles. A oficina foi ótima. Uma lata de verniz custa em torno de R$ 50,00 , só que dá para dar oficina quase o ano inteiro. Esse ano já fui em duas escolas publicas sem ganhar nada. Muitas oficinas que dei em escolas particulares os alunos acabaram trazendo os pais para conhecerem o ateliê.

Você trabalhou com pessoas em situação de risco?
Trabalhei com psicóticos do Hospital Espirita Dr Cesario Motta Junior. Atualmente continua um grupo, e encontrei com uma das coordenadoras que me disse que tem pacientes ainda pintando por terem gostado muito.
Esse trabalho junto a detentos pode trazer bons resultados?
Funcionaria! Já pensei em fazer alguma coisa, não com o objetivo de industrializar. Já fiz trabalhos em comunidades de bairros distantes, como no Bosque do Lenheiro, alguns tem muito talento, o que falta é incentivar.

Sua linha ludica está em vário países?
Já vendi para pessoas de diversos países, holandeses gostam muito dessa linha. Tenho obras na Italia, França, Estados Unidos,  Teve caso em que tive que fazer o produto, e deixar pronto para o cliente montar no país dele. Recebi a visita de um general americano, do Texas, um homem enorme, que adquiriu alguns itens para decorar seu gabinete. Não contei, mas sei que produzi milhares de obras ludicas e estão espalhadas pelo mundo todo. Na linha lúdica uso de cinco a nove cores.
Você tem recebido visita des escolas em seu ateliê?
É um prazer receber as visitas das escolas, só peço que agendem com certa antecedência. Em abril deste ano, 2014, já vieram duas escolas. Acho importante que as escolas tragam seus alunos, muitos acham que artista só existe morto. Outro dia veio uma menina, de uns 8 anos, e disse-me que achou que eu era uma lenda, ja estivesse morto. Isso tem uma lógica: eles estudam os artistas que já morreram! Deduzem que todos os artistas estão mortos!
Você é um artista premiado?
Recebi prêmios em Ribeirão Preto, Santos, São Vicente, Cubatão, quando ganhei o Mapa Cultural aqui, os quadros foram adquiridos pelo Estado de São Paulo e estão na Pinacoteca do Estado de São Paulo como acervo., trata-se de uma série denominada: “ O Amor é Um Imenso Vazio Tentando Preencher Um Monte de Nada”. Morelato está no facebook como Made In Morelato.

MILTON COSTA


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 26 de abril de 2013.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
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ENTREVISTADO: MILTON COSTA

 


Milton Costa é piracicabano, nascido a 6 de fevereiro de 1967, filho de José Costa e Maria Regina Paulino Costa que tiveram cinco filhos: Paulino, Milton, Vanderlei, Carlos Alberto e Luiz Fernando. Milton é casado com Silvana Aparecida Rodrigues, é pai de Caroline, Pedro Henrique, Amanda Beatriz e Gabriel.

Qual era a atividade do seu pai?

Era caminhoneiro, trabalhava na Monflex.- Industria de Moveis Estofados Monflex. Ltda. Ele era conhecido por “Zélão”. Ele dirigia um caminhão Mercedes-Benz, modelo conhecido popularmente como “Cara Chata”, furgão. Na época morávamos na Rua Ipiranga, próximo a MAUSA. Freqüentamos muito o Oratório Dom Bosco, próximo ao SENAI, isso na época do Padre Bordignon (Padre Luiz Ignácio Bordignon Fernandes, nascido em Brazópolis, MG em 20/04/1921 e falecido em Araras no dia 22/03/2006). Freqüentávamos as missas, onde ganhávamos pontinhos pela freqüência e no final do ano ganhávamos prêmios. Sou oratoriano dessa época.

Havia incentivo à pratica de esporte?

O esporte era muito incentivado! Lá foi um caminho muito abençoado na nossa vida. Éramos cinco irmãos, cinco crianças de uma família pobre. O Oratório Salesiano Dom Bosco é uma historia de Domingos Sávio que acolhia as crianças da rua e levava para Dom Bosco dar ensinamentos salesianos. Nós aprendíamos as orações e depois fazíamos a prática de esporte. O sonho do oratoriano era ser salesiano. Era ser estudante do Dom Bosco. Era uma escola particular de elite. Como freqüentadores do oratório entravamos umas três horas da tarde, o padre nos levava para as quadras. Havia as quadras para os oratorianos e para os salesianos. Em alguns momentos ambos os grupos usavam as mesmas quadras. Esse padre conseguiu uma área só para os oratorianos, deixou a parte de cima para os salesianos. Ele ainda conseguiu um espaço onde fez salão de jogos para os oratorianos, snooker, xadrez, ping-pong.

A disciplina talvez tenha sido uma dos fatores muito importantes nessa convivência?

Foi maravilhosa! Foi o que deu Norte para sermos uma pessoa do bem! O Oratório Salesiano recuperou muita criança! Quando eu tinha oito anos a minha mãe faleceu. Meu pai lutava pela sobrevivência, viajava muito dirigindo o caminhão. Quando perdi a minha mãe estava interno em um colégio em Ferraz de Vasconcelos.

Como você foi parar lá?

A minha mãe vendo as dificuldades que enfrentávamos aqui em Piracicaba, decidiu mudar-se para São Paulo, levando consigo os cinco filhos. A princípio fomos morar no bairro Barra Funda, havia uma empresa que era ligada a Martini, fábrica de doces. Minha mãe foi trabalhar lá. Não era possível ela trabalhar levando ao serviço os cinco filhos juntos.  Um dos filhos ficou morando na casa do meu avô Benedito Paulino Filho, uma personalidade muito conhecida em Piracicaba pelos famosos bailes que promovia. Meu avô era o famoso “Bidito”! Uma das minhas tias, Vilma Paulino, sensibilizada com a nossa situação foi nos buscar, assim voltei a morar em Piracicaba na Rua Bernardino de Campos, 802, em frente ao Palmeirinha. Nessa época eu tinha de 12 a 13 anos. Eu já tinha freqüentado anteriormente a escola no Grupo Escolar Barão do Rio Banco, na Rua Governador Pedro de Toledo, em Piracicaba, isso quando morava na Rua Ipiranga, vi construir o Teatro Losso Netto. Brincávamos lá na época. Do Grupo Escolar Barão do Rio Branco fui estudar no Grupo Escolar Dr. Alfredo Cardoso. Por uma temporada fomos morar na casa do Tio Dirceu, ele era pintor de paredes. Com muitas crianças na mesma casa, nós acabamos indo para a Casa do Bom Menino.

O que era a Casa do Bom Menino?

Uma instituição que agrega crianças de rua, abandonados pela família. Vinha muita criança da FEBEM ( Fundação do Bem Estar do Menor) de São Paulo para Piracicaba. Tanto que encontrei alguns meninos que haviam estado comigo na casa de Ferraz de Vasconcelos aqui na Casa do Bom Menino. Isso depois de muitos anos.

A Casa do Bom Menino acolhia só crianças abandonadas ou também crianças problemáticas?

Acolhia a todos. Funcionava mais como um orfanato. Não era abrigo específico de menores infratores. Eram crianças que por inúmeras razões estavam abandonadas a própria sorte. Tivemos em Piracicaba outra instituição que por muitos anos acolheu e educou crianças nessas condições, que foi o Lar Franciscano de Menores. Assim como havia para as meninas o Lar Maria Nossa Mãe.

Com o advento do polêmico Estatuto da Criança e Adolescente essas instituições simplesmente foram extintas?

Foi isso mesmo. No Lar do Bom Menino tínhamos um bom time de futebol.

Em que posição você jogava?

Jogava de meio direita. Eu era muito rápido e tinha o raciocínio rápido em campo.

Nesse período em que permaneceu na Casa do Bom Menino você chegou a fazer algum curso?

Estudava na Escola Estadual de Primeiro Grau Prof. Augusto Saes. A Casa do Bom Menino situava-se na Rua Machado de Assis. Próximo ao Jardim Elite. Acordava as seis horas da manhã, ia até ao Augusto Saes e depois ia até a Casa do Bom Menino. Era semi-interno. Eu dormia na casa do meu tio e passava o dia na Casa do Bom Menino. Lá existia o curso de marcenaria, a Philips mandava as bobinas para serem trabalhadas, havia a serralheria. Conforme a vocação, um seguia um aprendizado. Os que gostavam de trabalhar com móveis trabalhavam na marcenaria. Os equipamentos eram projetados para oferecer a segurança adequada. Nessa época eu já estava com 16 a 17 anos.

Você se identificou com qual atividade?

Eu gostava de trabalhar com a Philips, era para passar quatro voltas de um fio em uma bobininha, fazia 100, 200, isso rendia um dinheirinho bom. Eu gostava também da marcenaria e do esporte. Havia um professor de educação física que além de aulas regulares proporcionava também o jogo de futebol. Portanto eu tinha o ensino regular na Escola Augusto Saes, almoçava na Casa do Bom Menino, As cinco e meia já tinha tomado banho, jantado e estava pronto para voltar para casa. Com o passar do tempo ia permanecendo cada vez mais na Casa do Bom Menino, lá estavam meus amigos. Com o decorrer do tempo passei a ser interno da Casa do Bom Menino.

Você acha que se não tivesse esse apoio da Casa do Bom Menino sua vida poderia ter seguido um rumo diferente?

Lá aprendemos a seguir regras e a ter disciplina. Em nosso meio havia menores infratores, que também seguiam as orientações que nos eram dadas. Só que éramos adolescentes, oriundos das mais diversas origens, com formações familiares distintas, era um convívio que às vezes gerava pequenos conflitos entre nós mesmos. Quem zelava para que a ordem fosse mantida era o diretor Antonio Carlos Danelon, o Totó, assistente social da Prefeitura Municipal. Ele sucedeu o Mineirão, que tinha métodos extremamente rígidos com os jovens. O Paulino, jogador do XV de Novembro, foi coordenador nosso na parte esportiva. O Paulino era uma referência para nós, ele tinha sido jogador do Santos. Até hoje o Totó me chama de filho! Lá que ele conheceu sua esposa Sueli. Era um período da nossa vida em que como jovens estávamos formando nossa personalidade. Tempo em que todos ambicionavam ter uma calça Lee, Lewis. Tínhamos a ânsia natural da idade em nos auto-afirmarmos. Só que tínhamos que trabalhar. Posso afirmar que o melhor conselho é o exemplo que recebemos de outras pessoas. Você sente que realizar ou dizer algo errado é mais difícil.

Com que idade você saiu da Casa do Bom Menino?

Sai de lá com uns 18 anos. Fui ser servente de pedreiro, por um tempo voltei a morar com a minha tia, depois acabei morando na rua. Dos 18 aos 20 anos fui morar na rua. Ao lado da antiga revenda Chevrolet, a Colina, havia os ônibus da Viação Prisma, havia um muro enorme do Posto dos Furlan, meu pai ficava com o caminhão lá, passei a morar dentro do caminhão, só que ele tinha que sair cedo para carregar o caminhão, e eu tinha que acordar cedo e sair do caminhão. Com o passar do temo nós pulávamos o muro e dormíamos dentro dos caminhões da CCNC- Comércio de Combustíveis Noiva da Colina. Eu passei a trabalhar como frentista no posto de gasolina situado na Avenida Saldanha Marinho, eu tinha uns 20 anos. Fiquei uns três anos trabalhando no posto. Fui trabalhar em uma empresa de comércio de combustíveis, meu serviço era o de limpar piche desses tanques que são colocados no solo e funcionam como depósito de combustíveis de postos de gasolina. Eu tinha que tirar aquele piche com querosene.

Pelo lado externo ou interno do tanque?

Entrava no do tanque, sozinho, sujeito a um mal súbito, era um ambiente bastante tóxico, sem ventilação, usava uma mascara de enfermagem, botas, bermuda e sem camisa. Depois voltei a trabalhar no posto de gasolina. Embora trabalhasse aos sábados até as oito horas da noite o salário era melhor e o serviço mais saudável. Após algum tempo, com uns 22 anos, fui morar no bairro rural Limoeiro, adiante de Artemis.

Como você foi parar no Limoeiro?

Eu tinha amizade com um grupo que era da família Broggio, eram proprietários da indústria Santin, eles tinham uma chácara onde sempre tinha festas e eu freqüentava. Em um carnaval teve uma festa, acabei perdendo a hora de trabalho no posto de gasolina, perdi o emprego. Passei a trabalhar para a família, como trabalhador rural, cuidando de porco, do jardim, era um serviço mais sossegado, a alimentação era melhor. Morei na Fazenda Santo Antonio por quatro anos mais três anos na chácara. Foi na fazenda que aprendi a trabalhar com implementos agrícolas, domar cavalos, cuidar de gado.Curava bezerros, por uma ano tratei de um touro nelore que tinha tido uma briga com um touro holandês. Ganhei experiência em aplicar injeções em animais. Voltei para a cidade, fui trabalhar na Nechar  em Rio das Pedras, saia as 4:15 da manhã de casa, pegava o ônibus da empresa as 5 horas da manhã na Avenida Armando Salles, tinha voltado a morar com minha tia Vilma, na Rua Bernardino de Campos. Essa minha tia foi importantíssima na minha vida. Meu irmão mais velho nos deixou, foi seguir a carreira esportiva. Eu fiquei com a incumbência de olhar pelos meus irmãos. Na Nechar eu era terceirizado através de uma agência de Piracicaba, fui admitido como funcionário da Nechar para trabalhar no estoque da empresa. Lá eu vi a primeira greve na minha vida. Fui convidado a voltar a trabalhar na Fazenda Santo Antonio, no Limoeiro. Voltei. Só que a minha visão sobre as coisas eram diferentes, as coisas tinham mudado na fazenda. Voltei a morar com a minha tia. Lembro-me que teve um domingo em que chorei o dia inteiro. Identifico-me muito com o problema de outras pessoas. Na segunda feira consegui trabalho na Gramarmo, de propriedade de José Benedito Longo. Ele me deu uma oportunidade, eu cortava aproveitamento. Pedrinhas de 10X10; 5X5 centímetros. E assim por diante. Eu não era serrador, era ajudante. Trabalhava em máquinas perigosas como serrador e cortando aproveitamento sem experiência nenhuma. Fui pleitear meu direito, o serrador tem o melhor salário de uma marmoraria. Vendo meu nível de trabalho, colocaram-me no acabamento, na entrega, Sai da serra, que era uma qualificação profissional em que deveria ter sido mantido e passei a ser ajudante de entrega. Fui conhecer o mundo. A empresa era muito forte. A Gramarmo tinha até premiações concedidas por órgãos do setor de rochas e granito. Fizemos o serviço de mármore na casa do banqueiro dono do Banco Safra, em São Paulo. Colocamos muito mármore em mansões nos bairros Morumbi, Interlagos.

Você chegou a fazer um trabalho em que abaixo do piso de mármore havia uma serpentina de cobre para aquecimento do mármore no inverno?

Fizemos esse trabalho na mansão do Jair Coelho, “Rei das Quentinhas”, no Rio de Janeiro. (Famoso fornecedor de refeições que servia a 6.500 presos do Estado do Rio de Janeiro) Era mármore transparente, mármore-ônix, importado. Durante essas viagens ficava hospedado em hotel. Permaneci na Gramarmo por uns seis anos. Fui trabalhar na Casarin, logo em seguida trabalhei na Marmo Itália Mármores E Granitos Ltda. Fui convidado por um sindicalista de Campinas de nome Alcides e por Sebastião Antonio de Moraes. O sindicato existe desde 1947. Em 1999 vim prestar serviços no sindicato. Em 2003 assumiu a presidência do sindicato Edson Batista dos Santos que exerceu dois mandatos. Em 25 de agosto de 2010, após eleito, assumi a presidência do sindicato. 

Quantos diretores tem o sindicado?

São 16 diretores, sendo que 14 permanecem trabalhando nas respectivas empresas e apenas dois estão afastados dedicando-se exclusivamente ao sindicato. Temos um grupo de 15 funcionários que trabalham no sindicato. No período em que o Edson foi presidente assumi a pasta da Co-Emprego, do Conselho de Saúde, Comitê Permanente Regional sobre Condições e Meio Ambiente do Trabalho na Indústria da Construção – CPR, Comsepre (Conselho Municipal de Prevenção de Acidentes do Trabalho), Comitê Permanente Nacional – CPN e a Feticom- SP (Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário no Estado de São Paulo) onde fui diretor regional, diretor de formação e hoje sou diretor tesoureiro.

Você tem um lema?

Tenho: “Quem quer faz, que não quer fazer cria problemas”, esse ditado me foi passado pela minha tia-mãe, a tia Vilma. Ela disse isso em uma ocasião em que argumentei algo sobre a dificuldade em fazer determinada tarefa Nunca mais esqueci isso na minha vida. Por isso fiquei um pouco arrojado. Somos o que desejamos ser.

Quantos associados existem no sindicato?

Começamos no ano 2.000 com 380 associados. Hoje temos 6.500 associados com carteirinha, de um total de 11.000 sendo que a Categoria Geral de Trabalhadores são 20.000 trabalhadores.

Qual é a região que abrange o SINTICOMPI?

Abrange São Pedro, Águas de São Pedro, Santa Maria da Serra, Ipeuna, Charqueada, Rio das Pedras, Anhembi, Torrinha. Estamos abrindo sub-sede em São Pedro e outra sub-sede em Rio das Pedras. Há um projeto de 2016 sair de Santa Maria da Serra a primeira barcaça. Essa é a promessa dos governos estadual e federal.

O SINTICOMPI oferece uma série de cursos e campanhas aos seus associados, pode citar alguns?

Temos um grande número de cursos de formação profissional, além de campanhas como a do fim da marmita.

A mulher está despontando no setor da construção civil?

Tivemos no passado na direção uma mulher. Hoje o sindicalismo é muito dinâmico e muitas vezes exige estar fora de casa, o que nem sempre é possível a mulher que acumula tarefas, profissionais e domésticas. No canteiro de obra a presença da mulher já é uma realidade.

Como é a relação da mulher com relação aos colegas do sexo masculino?

Esse é um dos primeiros impactos. Por natureza a mulher é mais dedicada aos estudos do que o homem. Ela tem a sensibilidade mais apurada. Ela vai para o canteiro de obras com grande s vantagens sobre o elemento masculino.

A mulher realiza serviços com mais perfeição do que o homem?

Faz. E ela assume a responsabilidade pelo que faz. Ela se propõe a desafios, temos mulheres que trabalham em cadeirinha de balanço fazendo pinturas externas em prédios. O SINTICOMPI é um sindicato participativo, um sindicato cidadão. Oferecemos aos associados colônia de férias, dentistas, Cabeleireiras, médicos, advogados, oftalmologistas, cursos de computação. Nosso desejo é “Peão não! Cidadão!”. Esse é o nosso projeto na saúde, segurança e direito relacionado ao trabalho. Através do sistema “S” de serviço, como se trata da indústria da construção, temos o SESI como ponto de lazer. Temos dentro das instalações do sindicato um curso de alfabetização para os associados, temos a ConsFort, que é uma parceria terceirizada, onde qualquer pessoa interessada pode participar, é um curso livre, sem custo, com os cursos de Mestre de Obras, Pedreiro de Alvenaria, Pedreiros de Revestimento Argamassa, Pedreiros Pisos Cerâmicos, Paisagismo, Controladores Lógicos Programáveis, Comandos Elétricos, Eletricista Instalador (Predial), NR 10, NR 10 Reciclagem. O maior piso salarial da categoria no Estado de São Paulo é o de Piracicaba.

ANTONIO ROBERTO PREVIDE


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 19 de abril de 2013.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
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ENTREVISTADO: ANTONIO ROBERTO PREVIDE


 
Antonio Roberto Previde nasceu a 22 de abril de 1949, em Piracicaba, no Bairro Monte Alegre, na Colônia do Macabá. Filho do casal Virgilio Previde e Luiza Bacchin Previde que tiveram os filhos Maria Antonia, Antonio e Gilmar.
Os seus pais moravam no Bairro Monte Alegre quando ainda eram solteiros?
A minha mãe morava com sua família mais para os lados do Bairro Rural Tupi. Meu pai morava no Macabá. Eles se conheceram em uma festa que teve no Monte Alegre, era uma festa promovida pelo Comendador Pedro Morganti, um churrasco para 5.000 pessoas.  Todas as colônias da região eram convidadas para participarem. Meu avô materno, Antonio Bacchin, tinha o sítio dele com cana de açúcar. Minha mãe foi à essa festa com a família, conheceu meu pai e alguns meses depois estavam casados. Foram morar no Macabá.
Você lembra-se como era a casa em que morava na Colônia Macabá?
Lembranças eu não tenho, só depois, já adulto, é que voltei para rever. Meu pai foi por dois anos consecutivos campeão de corte de cana de açúcar. Tinha que cortar e amarrar a cana de açúcar em um feixe, havia um padrão pré-estabelecido, cada feixe era composto por 22 canas, não podiam estar com as pontas.
O campeão de corte de cana ganhava algum prêmio?
Ganhava! Meu pai dizia que com o prêmio que ganhou pela primeira vez comprou uma casa na Rua Santa Cruz. Era uma casinha simples e naquela época o imóvel não era tão valorizado como hoje. Com o valor ganho no segundo ano em que foi campeão novamente, ele adquiriu uma outra casa no Bairro São Judas, na esquina da Rua Dr. Alvin com a Rua do Trabalho, onde fomos morar. Meu pai ficou trabalhando na Usina Monte Alegre até 1951. Minha mãe cuidava da nossa casa, quando havia colheita de café ela ia ajudar.


 
Que idade você tinha quando sua família mudou-se do Monte Alegre?
Eu tinha dois anos de idade quando a minha família mudou-se para a Rua Regente Feijó esquina com a Rua Santo Antonio. Viemos morar na casa situada no Estádio Roberto Gomes Pedrosa, era a casa do caseiro. Romeu Ítalo Ripoli pediu que seu amigo Comendador Pedro Morganti, indicasse uma pessoa para cuidar do campo de futebol. O Pedro acabou indicando meu pai. Com isso moramos dentro do Estádio Roberto Gomes Pedrosa, mais ou menos, 30 anos. Eu morei lá até me casar aos trinta anos. Meu pai permaneceu mais dois anos, depois o estádio foi vendido para a MAUSA, ele permaneceu mais algum tempo e acabou saindo.

 

Você era um espectador privilegiado?
Era! O que eu assistia de jogo de futebol e jogava!
Você chegou a integrar a equipe do XV de Novembro de Piracicaba?
Sim! Desde as categorias de base, joguei como centro avante no infantil, juvenil e amador. Depois veio o XV Escola, que o falecido Jacobelli era o treinador, o Duarte Filho era o diretor de esporte, em 1969 passei a ser jogador profissional do XV de Novembro, na época em que o Comendador Humberto D`Abronzo era o presidente.
Além do XV de Novembro, você jogou em outros times?
Joguei no Platinense, de Santo Antonio da Platina, no Paraná, o técnico era o Orlando Maia, fiquei por pouco tempo no Bandeirantes, joguei em Tietê, tive uma passagem pela Ponte Preta.
Por quantos anos você jogou?
No amadorismo eu era famoso pelo chute que eu tinha, eu chutava forte mesmo. Inclusive existe uma reportagem a respeito no Jornal de Piracicaba onde fala a meu respeito, referindo-se como “O Canhão da Rua Regente”. Pelo XV de Novembro joguei praticamente dois anos. Em 1969 me profissionalizei. Infelizmente naquela época ganhava-se o salário mínimo para jogar no XV. Jogava porque gostava.


Tinha o “bicho” (prêmio pela vitória) também?
O “bicho” não era isso tudo que falavam! Em termos atuais seria R$ 100,00 ou R$ 200,00. Não é como hoje onde ganham de bicho R$ 5.000,00 ou R$ 10.000,00. Existiam jogadores que tinham um salário melhor, como Piau, Amauri, Nicanor, Chicão, Ademir Chiarotti, Ademir Gonçalves. Época dos técnicos Julião, Cardinalli, Drace, Dema, Gaspar. Era uma época em que não havia tanto o emprego da força física, era mais habilidade mesmo. O futebol era mais gostoso de assistir. Eu afirmo que enquanto o XV de Novembro jogava no Estádio Roberto Gomes Pedrosa, todo ano se revelava um jogador. O XV sempre vendia um jogador para o Corinthians, São Paulo, Palmeiras. Com o dinheiro dessa venda acaba montando o time para o próximo campeonato. Acredito que por volta de 1973 a 1974 o XV de Novembro começou a jogar no Estádio Barão de Serra Negra,  diminuiu muito a revelação de novos jogadores para serem vendidos para os times de outras cidades.
A recente vitória do Ituano que conquistou o título estadual pode incentivar o futebol do interior?
Com certeza! Antigamente era difícil um time do interior ser campeão. Tinha que ganhar na bola e algumas vezes no apito também. Havia por parte de alguns juízes um  favorecimento aos times grandes. Havia também um favorecimento ao chamado “time caseiro”, tenho a experiência de ter jogado em várias cidades, jogar contra o time local, no seu campo, era difícil. Todo lance duvidoso era contra o time visitante. Tinha que jogar muito bem, não deixar dúvidas. Tinha um juiz, que dizia ao jogador; “Caia que eu dou o pênalti! Se você não cair como posso dar o pênalti?”. Isso são fatos que vivi não me contaram.
Você chegou a jogar contra times tidos como grandes?
Sim, contra o São Paulo, por exemplo, no tempo da dupla de zagueiros Jurandir e Dias. O Jurandir era de grande estatura, o Roberto Dias era um craque.
O XV de Novembro é um dos valores que identificam Piracicaba?
Com certeza! Lembro-me que quando os treinos eram no Estádio Roberto Gomes Pedrosa, havia um senhor que ficava na portaria e arrecadava um valor simbólico, equivalente a R$ 1,00 hoje, isso para o publico assistir os treinos do XV. Teve dia de ter 2.000 pessoas assistindo a um treino do time. Naquela época havia o folclore de haver dois treinos coletivos na semana. Normalmente as terças e quinta feiras.
No seu ponto de vista hoje é diferente por quê?
Quantos campos de futebol você vê hoje? São poucos. E estão distantes. Havia muito mais times e jogadores que se despontavam no futebol amador. Eram convidados para fazerem testes no XV. O pessoal da ESALQ jogou muito com o XV. O Atlético ( Clube Atlético Piracicabano) tinha um timaço. Assim como outros times como o MAF, Usina Costa Pinto, eu mesmo joguei no Vera Cruz, no União Porto, no Palmeirinha.
Falta estímulo ao jovem para que participe de esportes?
Falta. Hoje há também essa lei que nós temos de que o jovem só pode trabalhar depois de completar 16 anos, eu sou contra. Acho que ele fica muito tempo sem fazer nada. A criança tem o direito de brincar, mas a partir dos 12 a 13 anos ele já começa a ser adolescente. Ele não se contenta com uma bolinha de gude, ou uma bola de pano para ficar chutando. Não irá brincar de “queimada” que hoje nem se vê mais. Ainda existe o trabalho infantil escravo. E não precisa ir longe, em Piracicaba mesmo você irá encontrar. Dos 14 aos 16 anos tem muitos garotos que já são homens. E não podem trabalhar! Na nossa época com essa idade era contratado como aprendiz. Fiz o primário no Grupo Escolar Moraes Barros, o diretor era Seu Irineu. Em frente ao Grupo Escolar ficava a Fábrica de Bebidas Andrade. Bebíamos um refrigerante “Caçulinha” sem gelo!
Você além de estudar fazia alguma outra atividade?
Ajudava meu pai, varria a arquibancada, eu tinha uns 12 anos. Todo domingo havia jogo, na segunda feira tinha que varrer as arquibancadas, o campo todo. Era um quarteirão quadrado. ( Cerca de 10.000 metros quadrados). Minha mãe lavava roupas, o uniforme do XV, muitas vezes eu tinha que ajudar a lavar as meias. Meu pai ganhava salário mínimo, mais a residência, água, luz e morávamos no centro.
Quanto tempo você demorava para varrer o campo todo?
Dois dias! Lavava os vestiários.
Alguma vez você encontrou alguma coisa curiosa no estádio, deixada por algum torcedor?
Achava de tudo! Dentadura, aliança, dinheiro, boneco, blusa, paletó, cachimbo, radinho de pilha.
Após concluir o curso primário no Grupo Escolar Moraes Barros você foi estudar onde?
Fui para o SENAI, que está até hoje no mesmo local, perto do colégio Dom Bosco. Naquela época o curso no SENAI durava quatro anos, dois anos de oficina e dois anos que equivalia ao ginásio. Formei-me torneiro mecânico, trabalhei na Indústria Fazanaro.  Só que não me identifiquei muito com a profissão. Em paralelo continuava jogando bola. Saia do trabalho às cinco horas da tarde e vinha a pé para treinar no campo do XV. Na época o Fazanaro ficava na Rua Bom Jesus. Naquela época havia o curso de madureza (ensino supletivo), no Colégio São Bento de Araraquara. Estudava aqui e prestava os exames lá. Por dois anos fui jogador profissional do XV de Novembro. Nunca consegui ter uma projeção, apesar das pessoas que me conheciam me chamarem de “Virgilinho”, por causa do meu pai Virgilio.
O que faltou para você despontar como estrela do futebol?
Acho que faltou orientação. Fui já de inicio para o meio de jogadores experientes, com hábitos pouco disciplinados para o esporte. Eu continuava ganhando o salário mínimo, que penso que tinha menor poder aquisitivo do que hoje. O Baú da Felicidade foi inaugurado aqui em Piracicaba, um chefe de uma equipe, Antonio Carlos Coletti, me conhecia, sabia que tinha alguma experiência em vendas, já tinha feito uns bicos. Ele me convidou, afirmou que poderia ganhar três vezes mais. O técnico do XV, o Dema, tentou evitar a minha saída da equipe, mas eu disse-lhe que não estava vendo ali muito futuro para mim. Trabalhei um ano e pouco no Baú da Felicidade, a loja ficava na Rua Governador, próxima ao Clube Cristóvão Colombo do centro. Era uma loja enorme, Ia da Rua Governador Pedro de Toledo até os fundos na Rua Benjamin Constant.
Era no auge do Baú da Felicidade?
Vendia-se muito. Eletrodomésticos e móveis. E tínhamos uma cota de carnês do Baú da Felicidade. Esse era o chamado “filet mignon”. Na época eu tinha uns 21 anos. Nessa época consegui comprar meu primeiro carro, um Fusca 1961, coral. Isso foi em 1972. Era um carro usado. Passei a jogar futebol só no amadorismo. Em 1973 foi inaugurada em Piracicaba a Eletroradiobraz. Eu e um amigo éramos vendedores do Baú, estávamos trabalhando na rua, vimos uma grande fila no SENAI, ficamos curiosos, perguntamos o que estava acontecendo, um representante da empresa disse que estavam contratando pessoal para trabalhar na Eletroradiobraz. Fizeram uma proposta melhor do que tínhamos no Baú. Fui trabalhar no setor de móveis da Eletroradiobraz.
A vinda da Eletroradiobraz à Piracicaba foi um acontecimento marcante para o comércio local?
Foi tido como a inauguração de um Shopping. A Banda União Operária executando musicas, o prefeito Adilson Maluf cortando a fita inaugural. Foi uma festa! Foi uma revolução no comércio local. Fui registrado no dia 20 de agosto de 1973, fiquei 30 dias em treinamento em Campinas, para inaugurar a loja no dia 3 de outubro de 1973, o público estava entrando pela Rua Visconde e os operários acabando de cimentar a saída pela Rua Silva Jardim. Na época tínhamos o Supermercado Brasil, a Ultragaz que era uma loja e a Casa Pernambucana, que trabalhava mais com tecidos. Eram as lojas maiores da época.
Quantos anos você permaneceu na Eletroradiobraz?
Fiquei 28 anos lá dentro. Com o falecimento do Plínio Sigmar Bortoletto, que era presidente do sindicato, como suplente dele assumi em 2000 a presidência do sindicato. Na Eletroradiobraz trabalhei como encarregado de móveis, de máquinas e ferramentas, de lazer, barracas, camping, bicicletas. Da linha branca: geladeira, fogão, máquina de lavar roupa. Linha de imagem: televisão, som. De Eletroradiobraz passou a se denominar Jumbo-Eletro e atualmente Pão de Açúcar, sob o controle de um grupo francês. Ainda sou funcionário do Pão de Açúcar.
Seus vencimentos provêm de qual entidade?
Provém do sindicato. Sou funcionário cedido ao sindicato. Em 1999 inaugurei o Pão de Açúcar 24 Horas. O Creso R. Lopes era meu gerente, continua gerente até hoje. Foi feita uma reforma rápida, contratou-se meia dúzia de funcionários. Nós já tínhamos uma equipe que trabalhava a noite que eram os repositores, pessoal da limpeza, segurança. Foram contratados dois caixas, uma moça na padaria e rotisseria. No inicio foi difícil, tinha que fazer a leitura às duas horas da manhã, às quatro horas da manhã, pelo fato de morar ao lado eu fazia essas leituras, com chuva, com frio, a cada duas horas ia até a loja. Fazia uma avaliação, olhava, não tinha ninguém. Hoje o Creso diz que tem sete caixas operando e quase não dá para atender a todos. De madrugada é um movimento tremendo, criou-se um habito.
Como você define comércio?
Todo mundo precisa comprar. Só que a pessoa gosta de comprar onde é bem atendido. E bem recebido. Comércio é uma arte. Precisamos qualificar cada vez mais os funcionários que trabalham no comércio. Infelizmente há uma rotatividade muito alta de funcionários. Os empresários investem muito pouco em treinamento.
Aí entra também o custo do funcionário, ele ganha mal e o empresário paga muito.
A carga tributária é alta. Se um funcionário ganha R$ 1.000,00 somando a carga tributária até a demissão dele ela chega a 100%, ou seja, para empresa ele irá custar R$ 2.000,00. Todo mundo vende com lucro, ninguém vende com prejuízo, e a concorrência por mais barato que ela venda o produto ela nunca chega ao preço de custo.
Piracicaba é uma boa praça comercial?
É uma cidade que tem dinheiro, é um bom mercado. Quando uma empresa se estabelece na cidade já fez uma pesquisa antes de vir. Todas as empresas que vieram se deram bem.
Quais categorias abrangem o seu sindicato?
Os empregados do comércio varejista e atacadista de Piracicaba. São 7.000 comerciários. Temos apenas 15% desse total que são associados.  O setor de padarias já pertence a outro sindicato. Lanchonetes são ligadas ao setor hoteleiro.
Quantos diretores têm no Sindicato dos Empregados no Comércio de Piracicaba?
São 16, sendo que 5 permanecem na sede prestando serviços diretamente ao sindicalizado.
O sindicato oferece vários benefícios aos associados?
O associado paga R$ 20,00 por mês. Ele tem tratamento dentário gratuito, para ele, esposa e filhos. Está a disposição durante o dia e funciona também a noite. Temos a farmácia que vende medicamentos a preço de custo. Oferecemos três advogados: civil, trabalhista e previdenciário. Gratuito tanto na consulta como no processo. Temos uma videoteca com uns quatro mil títulos de filmes. O associado pode freqüentar o nosso Clube dos Comerciários, em Artemis, uma área de 20.000 metros quadrados, com piscina, campo de futebol, quiosques, salão de festas. O comerciário que tiver filho tem R$ 50,00 por filho para adquirir material escolar. Oferecemos a colônia na Praia Grande, que hoje paga-se R$ 70,00 por dia para usufruir com direito ao café da manhã, almoço, jantar, quarto com ar condicionado, frigobar, televisão. O associado pagando R$ 20,00 por mês tem direito a tudo isso. Oferecemos cursos, palestras, em nossa sede.
Quando foi fundado o sindicato?
Em 17 de julho de 1962 foi criada a Associação dos Comerciários de Piracicaba, transformada em sindicato em 8 de janeiro de 1963. Fundado por Nagib Ismael, então funcionário da Porta Larga.

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