Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sexta-feira, abril 03, 2015

MARGARETE ZENERO

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 14 de março de 2015.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADA: MARGARETE ZENERO 
                     (CASA DO POVOADOR)



Margarete Zenero é a diretora da Casa do Povoador, situada em Piracicaba. Nascida em Piracicaba, a 29 de maio de 1960, filha de Pascoal Zenero e Nilva Tedesco Zenero que tiveram também os filhos Tânia e Paulo.
Você iniciou seus estudos em qual escola?
O pré-primário fiz ainda muito nova, em função dos meus desenhos, estudei com a Terezinha Moraes. Estudei no Instituto Sud Mennucci até a quarta série primária. Depois fui estudar no Colégio Dr. Jorge Coury, uma das minhas professoras foi Clemência Pizzigatti. Como não havia o curso colegial no Jorge Coury, voltei para o Instituto Sud Mennucci. Em seguida fiz um ano de cursinho preparatório no Curso Luiz de Queiroz – CLQ fiz o vestibular e passei a cursar Psicologia na Unimep. Fomos a primeira turma do Campus Taquaral. Em torno da universidade era um deserto, não existia nada. Íamos de ônibus fretado pela faculdade. Era uma área considerada fora da cidade, hoje está inserida no meio da cidade.
Em que ano você formou-se em psicologia?
Foi em 1983.
A arte faz parte da sua vida?
Sempre tive uma ligação forte com a arte. Do lado da família do meu pai há o Rudnei Zenero, engenheiro, que gosta de desenho, tem essa veia artística. O irmão da minha mãe, Norival Tedesco, é um artista reconhecido pelo seu talento e perfeição nas peças que realiza como ourives. Posso afirmar que tenho a influência dos desenhos do Rudnei e a influência da arte, cor, beleza por parte do Norival.
Quando você se deu conta de que podia fazer arte?
Sempre tive uma amizade muito próxima com a Leda Cançado, ela e minha mãe sempre me incentivaram muito. Eu trabalhei na arte com cerâmica por muito tempo. Posso afirmar que em minha vida sempre tive atividades que tinha a arte em paralelo. A arte é uma atividade que pratico para mim.



Você atua na área de psicologia?
Atuo, tenho clinica há mais de 30 anos. Mantenho meu ateliê, onde desenvolvo a minha arte.
Por que geralmente quem trabalha na área de psicologia gosta de fazer poesias?
Porque o psicólogo é sensível! Se não for sensível não entra na alma da outra pessoa. Se não puder entrar na vida da pessoa não poderá fazer nada por ele. A arte tem esse ponto em comum, a sensibilidade.
A psicóloga consegue entrar no universo interior do paciente?
Se ele permitir, sim. Caso ele não permita é uma intromissão.
Atualmente somos um dos países que consome antidepressivos em toneladas. A arte pode ajudar a suprir essa ansiedade?
Tudo que cria: arte culinária, violão, dança, jardinagem, joga seu lixo emocional. A arte não resolve a depressão, mas ajuda muito. Troque seu antidepressivo pela arte. Isso funciona em todas as áreas que envolvem criatividade. A atividade física como correr, dançar, fazer teatro, cantar, tudo isso ajuda e muito.



Qual é a técnica que você mais utiliza?
Comecei trabalhando com pintura a óleo. Ganhei medalhas de ouro, prata, em vários salões, em Piracicaba.  Tornei-me presidente da APAP – Associação Piracicabana dos Artistas Plásticos, foi um período em que tinha pouco tempo para pintar, e a tinta a óleo se deixar aberta ela resseca. A aquarela era mais poética, eu podia deixar montada, quando voltava era só molhar. Assim já faz uns seis anos que estou na aquarela. Com aquarela já ganhei medalha de ouro, prata. Fiz muita cerâmica com a Lúcia Portela, a minha professora ainda é a Denise Storer, que é fantástica, como professora, como amiga, como ser humano. Tive bons anjos da guarda, boas almas do meu lado na arte, se fosse pelo que eu faço para trabalhar, não daria para continuar. 
A área de psicologia a cada dia tem uma demanda maior por profissionais?
A psicologia antigamente não atuava na área jurídica, hoje temos psicólogos dentro da área jurídica, como profissão.
Você atua nessa área?
Não. Eu trabalho com crianças, adolescentes, adultos.



Qual é o fator mais trabalhoso nessa função?
São os pais! Quando você trabalha com crianças, há um fator muito relevante que são os pais. No mundo contemporâneo é difícil julgar. Tem  mãe que é mãe, pai, tem que dar conta de tudo e como ela vai ter tempo?
Os pais procuram compensar suas falhas com concessões em excesso para os filhos?
Acho que a culpa é da falta de tempo, isso faz com que aumentem os limites, tenham algumas tolerâncias, por compreenderem não estabelecem regras e aí se perdem. Nesse sentido acho que os pais estão fazendo o que podem. Talvez precisássemos de uma política em que as mães pudessem ficar mais com seus filhos.
O pai ficar mais tempo com os filhos é mais difícil do que a mãe?
Se você pensar que hoje não é necessariamente o homem o provedor, acho que as coisas funcionam para ambos.
Em especial o homem latino não se preza muito a essa função?
Eu não concordo com o Dia da Mulher, trocaria por Direito da Mulher. Quero direitos iguais. Eu trabalho igual a um homem mereço ganhar igual a ele. A mulher tem conquistado seu espaço, há mulheres dirigindo ônibus, exercendo uma série de atividades até então realizadas exclusivamente pelo homem.
Arte e psicologia têm um elo?
Têm! Através da arte consigo trabalhar a parte psicológica, principalmente com a criança. A criança não tem a elaboração do adulto às vezes através de um desenho você vê o que ela está sentindo. Quando você trabalha com a arte, você trabalha com a sua sensibilidade. Já fui júri, quando você analisa uma obra, você analisa o que está por trás daquelas cores, daqueles traços, o que foi transmitido. Na arte muitas vezes o desenho que é feito, a cor que é colocada, a posição em que é posta, não no sentido da beleza, mas no sentido do sentimento, a arte ajuda muito você conseguir ver a outra pessoa.



Como psicóloga qual é a sua opinião sobre o controle da natalidade?
Lamentavelmente há um percentual relativamente alto de mulheres que desejam ter um filho para criar vínculos, não só afetivos, mas principalmente financeiros. Algumas não se limitam a um único relacionamento com esse objetivo, tem filhos de vários pais, é uma fonte de renda! Percebo também que temos que trabalhar mais a dignidade. Porque uma mãe tem que trabalhar tanto e não pode criar seu filho? Acho fantástico que ninguém fique com fome porque se alimentou na escola, mas acho terrível não ter a autonomia de colocar a sua comida na mesa sem ter que ter bolsa família, bolsa isso, bolsa aquilo. Aumente o salário! Dá dignidade ao ser humano! Dá realização do que ele faz! Dá valor para ele! Sou mais da linha do Presidente Fernando Henrique Cardoso, que dá a vara e não o peixe pronto. Não acho que seja dado muito, quero deixar claro que a filosofia deveria ser a favor do ser humano. Enquanto indivíduo capaz, de uma profissão digna. Um salário digno. Se der uma bolsa família controlo o povo em cima daquilo que eu dou. Eu não sou a favor disso. Independente de partido político. Sou a favor de vamos pagar muito bem, porque você trabalha, tem uma família. Vamos fazer redução de horário para quem fica com as crianças, a família necessita disso. Quantos países têm onde a mãe fica cinco anos sem trabalhar porque olha os filhos até eles terem uma independência. Eu amo a vida. Tenho um filho de 21 anos, o Caio.
Mudando o foco do assunto, estamos no interior da Casa do Povoador, afinal o que foi essa edificação?
Para mim a Casa do Povoador é cheia de luz. A primeira exposição que fiz foi nessa casa. O primeiro “não”, “você não é artista”, recebi nesta casa, foi quando vim com uns painéis de mosaico, me disseram que era muito bonito, mas que não era arte. Fiquei muito brava, fui ver o que era arte!  Então para mim esta casa sempre foi um lugar de luz, um lugar de arte, de artista. Para mim a Casa do Povoador é o meu segundo coração. É aonde os artistas podem mostrar quem eles são. Temos aqui os bonecos do Elias, que é o guardião do nosso Rio Piracicaba. Temos a Rute o Laudir que defendem essa casa com a raiz deles. Vejo na Casa do Povoador o ponto de partida da cidade. Ponto de partida do amor, da arte. De dentro da Casa ouvimos o cantar das águas do Rio Piracicaba.
Essa é a sua visão de artista, e a sua visão histórica dela?
Já escutamos as mais diversas versões. Já escutamos que foi Casa de Sal, outras versões diziam que era um ponto de travessia do Rio Piracicaba. A única certeza que temos é de que hoje ela é comunitária. (Acredita-se que a construção do que é hoje conhecida como Casa do Povoador tenha sido feita entre 1850 e 1860. Terá sido a Casa do Povoador residência da família do Capitão Antonio Corrêa Barbosa? É a polêmica que existe entre os historiadores).


Você tem idéia do número de pessoas que visitam a Casa do Povoador?
Passam de 800 a 1600 pessoas.
Qual é a reação das pessoas que visitam a Casa?
Tenho a sensação de que eles acham que a casa é deles. Entram com a maior intimidade, sentem-se em casa, perguntam, às vezes temos que por certos limites, porque a Casa tem regras.
Há quanto tempo você é diretora da Casa do Povoador?
Faz um ano e meio, entrei em setembro de 2014. Realizamos uma exposição por mês.
Qual é o critério para convidar o artista?
Procuramos o coletâneo, dar oportunidade a todos. Algumas são com datas fixas, como as do Fórum, trazemos obras de advogados, assim como alguns funcionários. Sempre convidam um artista como a Carminha do origami, a Carmela Pereira do naif, 
Como surgiu a exposição da caixinha de fósforo?
Começou assim: olhei na internet, vi o trabalho que Oswaldo Pullen, de Brasília, estava fazendo, pensei: “Isso dá uma exposição!”.  Entrei em contato, articulei, tanto que o primeiro cartaz que nós fizemos tem a fotografia dele. Ai veio a G1, pessoal de fora do país, gente de quase todo o Brasil participou o ano passado. Neste ano teremos a 2º Exposição Nacional “Arte Sobre Caixa De Fósforos” coma curadoria de Odfair Jorge Demarchi e Margarete Zenero. A abertura será dia 20 de março de 2015, sexta-feira, às 20 horas, visitação de 21 de março a 26 de abril de 2015, de segunda a sexta-feira das 08 horas às 17:00 horas sábados, domingos e feriados das 8:00 horas às 18:00 horas. Na Casa do Povoador- Galeria “Alberto Thomazi”. Este ano há uma diversidade muito grande. No ano passado tivemos 86 inscrições, este ano são 141 inscritos. Cada inscrito pode participar com até cinco peças. Temos tido muito apoio como da Prefeitura Municipal, da Ação Cultural, Unimed, Grupo Bom Jesus, Simespi,Drogal, Acipi, essa participação valoriza o evento.
Quais são as técnicas utilizadas nessas caixinhas de fósforos?
Temos entalhe em madeira, mosaico, aquarela, acrílica, óleo, patchwork (trabalho com retalho), origami, fuxico. Tem peças incríveis.
Esses trabalhos são enviados de quais localidades?
Recebemos trabalhos de artistas do Rio de Janeiro, Califórnia (Estados Unidos), Curitiba, Itanhaém, São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia.
Tem premiação?
Daremos um certificado de participação.
Há alguma exposição similar a esta no Brasil?
Teve uma em Campinas, inclusive eu participei, com Álvaro, Robson, Paulo Branco, só que é com caixas de qualquer tamanho. Era um trabalho de auto-imagem, você colocava uma imagem sua dentro da caixa, foi feito dentro da Estação Cultural em Campinas, no interior de um vagão de trem. Ficou muito lindo, parece que vão repetir.
Piracicaba é uma cidade rica em artistas?
A meu ver é a melhor do país! Se eu pensar em criação penso em Nordeste. Se pensar em organização, penso no Sul. Dependendo do ângulo em que vejo a arte posso dizer que determinada região é melhor.
Qual é a relação do cidadão piracicabano comum, com relação a arte?
Eu tenho a sensação que em Piracicaba todo mundo tem uma “veiazinha” artística! Temos artistas fantásticos, que com recicláveis fazem arte fantástica!
Na área externa a Casa do Povoador existe uma arena, ali também são realizados eventos?
Fizemos toda festa do XV, da camiseta, a Festa do Divino foi feita lá, temos feito oficinas de origami. Recentemente fizemos uma manifestação do humor que não provoque o ódio e sim o riso, no ano passado tivemos bandas tocando o ano inteiro. São realizadas na arena apresentações de teatro por grupos da cidade. A Casa do Povoador é um dos pólos de irradiação de arte em Piracicaba. Tivemos o lançamento de dois livros aqui dos autores Irineu Volpato e outro de Nelson Rodrigues. 
Margarete, você como diretora da Casa do Povoador tem alguma mensagem ao leitor?

Convido a todos para que venham para a Casa do Povoador, é isso que nos estimula. 

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