Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, maio 03, 2015

PAULO JUSTO BUENO MORETTI

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 02 de maio de 2015.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/ 


ENTREVISTADO: PAULO JUSTO BUENO MORETTI





Em 22 de março de 1995, um grupo de cerca de 30 amigos aficionados pelo ferreomodelismo (trens em miniatura), reuniu-se na Rua Alferes José Caetano,701, dependências da Verna Variedades, onde foram deslocados balcões, expositores, e mesinhas com cadeiras. Foi especialmente convidado um aeromodelista (praticante de hobby de aviões em miniatura) para relatar sua experiência de ter fundado uma associação. O lendário Oda, já falecido, contou como se iniciou no hobby do aeromodelismo, e que aquele momento era muito significativo para nós ferreomodelistas. A palavra foi usada por diversas pessoas presentes, de todas as faixas etárias. Desde então acalentamos o sonho de realizar efetivamente uma associação. Nos fundos da loja Verna existia um enorme salão, que tinha sido no passado a área de preparação de pães e doces, da Padaria Brasileira, com dois enormes fornos. Era um prédio com uma área bem definida como loja, e nos fundos, onde um dia foram feitos muitos pães e assados, foi ocupada pela Associação Piracicabana de Ferreomodelismo. Por ali passaram muitos ferreomodelistas, hoje nomes consagrados: Tarcisio Lessa, Paulo Lessa, Avary Perches, Paulo Moretti, Antonio Lima, Geraldo Zaratin, Guido Sarin, Gilson ABC, José Mattos, que chegou a dar aulas de maquetes naquele local e muitos outros cujos nomes constam em ata. Foi criado o logotipo e carteirinhas da associação. Paulo Moretti sempre foi um entusiasta tanto dos trens como da associação. Na ocasião seus filhos ainda muito pequenos já o acompanhavam. Construímos uma maquete modular, com 14 partes independentes, porém que poderiam ser conectadas. Cada parte media 1,50 metros por 0,75 cm de largura, totalizando 21 metros de percurso. O circuito tinha 3 linhas independentes, que se conectavam no início e no fim de cada módulo. A paisagem ficava a cargo do "dono" do módulo. Existia uma fiação embaixo da maquete que funcionava como rede de alimentação para os trilhos. Essa maquete ficou por duas vezes exposta no Shopping Piracicaba, 30 dias cada vez que para lá foi levada. Eram necessárias duas viagens de uma caminhonete F-4000 para leva-la. A primeira exposição de maquete de ferreomodelismo ocorrida em Piracicaba foi na Casa do Povoador, onde a Verna expôs uma maquete cedida por Gilson A.B.Camargo. A segunda exposição pública ocorreu na agência do Banespa da Rua Moraes Barros, quando uma maquete foi trazida da fábrica Frateschi de Ribeirão Preto até Piracicaba, em um caminhão 3/4 tipo baú. Todos os eventos que envolviam a APF, as várias exposições realizadas em diferentes dependências da Unimep, inclusive na Faculdade de Arquitetura tiveram a participação ativa da Verna como incentivadora e mediadora. Acreditem, mas foi realizada uma exposição de trem elétrico dentro de um cemitério! O Cemitério dos Americanos, em Santa Barbara D' Oeste, em uma festividade da comunidade norte-americana e seus descendentes no Brasil. Paulo Moretti estava presente nessa exposição com seu material. Participamos de inúmeras exposições, inclusive os incontáveis sábados à tarde em que montávamos nosso material rodante em duas maquetes móveis, nas dependências já precárias da Estação da Paulista. Guido Sarin e sua família foram incansáveis nessa tarefa. Foram dezenas de apresentações onde a maioria do público eram crianças de periferia, que jamais tinham colocado os olhos em uma maquete! Foi contratada uma empresa especializada (Telas Gomes), para cercar o local onde a enorme maquete modular foi pela última vez montada. Foram tomados todos os cuidados para não furar as paredes, mas sim usar braçadeiras, com o objetivo de preservar um ambiente histórico (Estação da Paulista). Tomamos todos os cuidados necessários para preservar a maquete, mas a população de pombos que infestava o local achou por bem "retocar" a maquete com suas fezes. Os cupins devoraram a madeira. Vândalos cortaram os fios de força da malha central que ficava embaixo da maquete. Nosso sonho permanece na nossa saudade, e nas imagens fotografadas e filmadas. Mas o mais importante nós conseguimos: motivar os talentos adormecidos, revelar artistas que o tempo perpetuará. E isso o cupim não corroeu e nem os pombos destruíram. Hoje estamos felizes em ver a Estação da Paulista restaurada. Nesses muitos anos, percorremos um longo caminho, mas em momento algum desistimos do nosso sonho: a Associação Piracicabana de Ferreomodelismo - APF, ter um espaço aonde possa lembrar a história do trem na formação da nossa cidade e região. 


A primeira oficial exposição de ferreomodelismo de Piracicaba e Região foi realizada em parceria com a Frateschi Trens Elétricos, de Ribeirão Preto e a Verna de Piracicaba, com o apoio do vereador José Pedro Leite da Silva e da Secretaria da Cultura, cuja titular Rosângela Camolesi incentivou muito. Foi em um sábado, dia 8 de abril de 2006 no barracão existente logo no final da ponte pênsil, no Engenho Central. Uma segunda exposição foi mais tarde realizada na Estação da Paulista, já restaurada, sendo que na ocasião o Prefeito Barjas Negri inaugurou essa exposição.
Cabe ressaltar que cada ferreomodelista tem sua característica pessoal, como se fosse uma impressão digital. Ao conhecedor, basta olhar uma maquete e logo dirá quem é o autor.
Em 30 de abril de 1854 foi inaugurada a primeira linha ferroviária do Brasil, o que fez com que data se transformasse em o Dia do Ferroviário. O vereador Pedro Kawai decidiu homenagear os ferroviários, heróis esquecidos que muito fizeram para o progresso do nosso país, para Piracicaba, realizando um evento com inicio no dia 24 de abril de 2015 nas dependências do SEST SENAT. Foi feito o lançamento de um rico documentário denominado “Alma de Ferro”, História e Lembranças de um Passado Ferroviário assim como exposição de cerca de uma dezena de maquetes ferroviárias. Paulo Moretti e Guido Sarin participaram ativamente com as suas obras e material rodante. 

Paulo Justo Bueno Moretti nasceu a 1 de fevereiro de 1955, na Rua Governador Pedro de Toledo, centro de Piracicaba, é filho de Justo Moretti Filho e Dina Moretti.que tiveram também as filhas Adriana e Lia.
Em que escolas você estudou?
Escola Estadual Professor Elias de Mello Ayres, depois COTIP- Colégio Técnico de Piracicaba, onde fiz engenharia e administração. Tenho dois filhos, Ralf e Caio.
Como surgiu essa exposição de ferreomodelismo?
Fui procurado pelo vereador Pedro Kawai. Junto com alguns amigos fizemos a montagem das maquetes e dos dioramas.


Qual é a escala utilizada para realizar essas maquetes?
O diorama conta o pedaço de uma situação. Como se fosse a fotografia de um local. Ele retrata uma situação dentro do contexto da ferrovia. São relativamente pequenos, estáticos. As maquetes foram feitas em duas escalas: uma em escala HO que é 1:87, ou seja, 87 vezes menor que a original. Outra é a escala N, que é a metade da escala HO. Ou seja, 1:164.
O material é de procedência nacional?
O material rodante em parte é de procedência nacional. Temos material de procedência japonesa, européia de uma forma geral e algumas dos Estados Unidos. A maioria das maquetes que estão expostas foi realizada por mim, são maquetes semi-profissionais. São maquetes de fácil locomoção, não tem uma grande parafernália eletrônica, que hoje é utilizada em maquetes profissionais. Tenho algumas maquetes analógicas, outras digitais, mas ainda não estão ligadas a um computador. No Brasil estamos engatinhando nessa área de informatização de maquetes. Em São Paulo temos pelo menos duas maquetes ligadas ao computador, que dá todos os comandos para as máquinas irem buscar vagões, descarregar vagões. Ainda é algo de valor elevado, fora da nossa realidade.
Paulo, você além das exposições locais, participou de diversas exposições?
Devo ter participado de 12 a 15 exposições. Participei também de concursos de ferreomodelismo de várias cidades, sendo que em vários desses concursos tive a felicidade de ser classificado em primeiro lugar. Fui convidado por um amigo, Armando Canhão, de Coimbra, mandei três trabalhos, quando os trabalhos são escolhidos ninguém sabe quem é o autor, para minha surpresa, os três trabalhos que mandei na categoria “Construções”, ganhei em primeiro, segundo e terceiro lugar.

O reconhecimento é cultural ou financeiro?
Reconhecimento financeiro não existe nenhum. E eu também não busco isso. Há o reconhecimento cultural e a satisfação de ter o meu trabalho reconhecido.
Quando surgiu essa sua atração pelo ferreomodelismo?
Ainda criança eu ganhei do meu pai alguns trens, não eram brinquedos, já era equipamento voltado ao hobby. Era da marca italiana Lima. Com o tempo fui aprimorando, muitas tentativas, hoje estou realizando trabalhos em um nível bom, em um patamar de realismo dentro do ferromodelismo.
O custo do hobby é alto?
Há duas formas de se praticar o modelismo: uma é comprar todo o material e montar. É a maneira de custo mais elevado. Outra forma é você mesmo criar suas peças, modificando materiais. É o que eu faço. Comprar pronto, ou comprar “kit” é muito fácil. Só que você não tem uma peça exclusiva. Gosto justamente disso, exercitar minha criatividade. Com isso consigo um efeito muito superior do que o material pronto.
Quantas maquetes você trouxe para essa exposição?
São quatro maquetes rodantes e em torno de meia dúzia de dioramas.
Tem alguma peça que você considera diferencia da das demais?
Uma é a Estação da Paulista, que eu tive que medi-la em todos os seus detalhes, desenhar, depois executar na escala 1:87. Outra é um diorama estático, uma estação do Mandaqui em São Paulo, era um ramal da Sorocabana, já extinto, fiz através de fotos. Até onde sei é o único diorama existente dessa estação.
Quanto tempo você usa para fazer uma peça dessas?
Como não é meu meio de subsistência, faço isso aos finais de semana. Por exemplo, a maquete da Estação da Paulista levou seis meses para ser concluída. É um trabalho de paciência, não pode ter pressa. É um trabalho que dá prazer, você faz cada peçinha com carinho, com tranqüilidade. Isso me dá uma paz, um sossego, me desligo do cotidiano. O grau de concentração é muito grande. Fico imaginando como vou fazer encaixar, o final de semana é pleno em cima da maquete.
A busca pelo realismo é incessante?
Cada vez mais! Cada peça que faço  melhoro o meu nível. Aprendo coisas novas, aprendo como fazer de outra forma, melhor, mais fácil, mais bonita. A cada maquete que faço vou melhorando o meu grau de aprimoramento. O olhar para cada objeto é diferenciado: uma tampinha de desodorante pode tornar-se uma caixa de água!
Qual é a faixa etária que se interessa pelo ferreomodelismo?
Pela minha experiência de outras exposições, posso afirmar que ela atinge tanto a criança, como o adolescente, o jovem, o adulto. Todos gostam!
Você dá cursos, aulas?
Já cheguei a dar algumas oficinas de maquetes. Como fazer árvores. Como transformar peças para modelismo. No ano passado até fui convidado pelo Colégio CLQ a fazer uma maquete  com os alunos. A partir do momento em que a maquete passou a tomar forma o interesse deles foi muito grande. Neste ano fui convidado novamente a dar algumas aulas para alunos da oitava série.
Há um choque entre a tecnologia que domina as novas gerações (celulares, games) e o trabalho artesanal com maquetes?
Existe  esse choque, não é pequeno. Isso de certa forma me entristece, a juventude não cria com suas próprias mãos, não elabora trabalhos manuais. De certa forma é uma geração passiva, que senta em frente a um computador, onde consegue coisas maravilhosas, só que cada vez mais está se perdendo a habilidade manual e a transformação que pode ser feita manualmente. O jovem passa a ser o consumidor de um produto, ao passo que quando realiza, por exemplo, uma maquete, ela está produzindo alguma coisa. O jovem, em sua maioria, ao ficar junto a um computador, está produzindo alguma coisa, mas principalmente está sendo orientado a ser consumista. Em geral deixa de lado a sua criatividade. Com isso perde grandes artesãos. Hoje já não existem mais alfaiates, relojoeiros que saibam consertar um relógio mecânico. São profissões em extinção.
Isso pode ocorrer com a construção de maquetes?
São poucas pessoas no Brasil que desenvolvem essa arte, comparada a população do país. Não sei precisar quantas, mas sempre haverá pessoas que irão desenvolver suas habilidades manuais. A tendência hoje no ferreomodelismo é a pessoa adquirir tudo pronto. Monta com algumas falhas, e põe aquilo para funcionar. O modelista que fabrica todas as suas peças, cria do nada alguma coisa que fique bonito, dê um impacto, isso está cada vez mais difícil. O próprio meio induz as pessoas a comprar e montar kits, a fazer um diorama ou uma maquete. E não é esse o propósito. O bom modelista tem por obrigação criar suas peças.

E as maquetes eletrônicas?
São muito bonitas, gosto, admiro. Você pode programá-las. Você pode fazer inúmeras manobras como se estivesse dentro da cabine de um trem. Só que você está sentado em uma cadeira em frente a uma tela! É gostoso, mas não é mais prazeroso do que fazer uma maquete física.
Nos lançamentos imobiliários usam-se maquetes eletrônicas ou maquete físicas?
São usadas as duas modalidades. Em qualquer lançamento você vê uma maquete física, é um chamariz. No caso de uma residência, principalmente os arquitetos fazem toda a parte de arquitetura através da maquete eletrônica, inclusive a decoração interior, isso dá um impacto muito forte. O consumidor irá se encantar pela maquete eletrônica. Sob o ponto de vista comercial é muito importante uma maquete física e uma maquete eletrônica. Os softwares são cada vez mais poderosos, é um processo muito rápido.
Você utiliza-se desses meios?
Na construção civil tive curso de AutoCAD, na parte de modelismo existia um software chamado CadTrem, ele fazia alguns circuitos, ele auxiliava. Mas nada melhor do que você pensar e você criar. Às vezes fico dias pensando como fazer uma peça. Algumas vezes, em um “clique” vem com toda a clareza do mundo como devo fazer aquela peça. Você tem ferramental próprio para o modelismo?
Tenho uma oficina completa. É uma oficina para hobby. Ali tenho máquinas específicas: micro-serra, micro-torno, todo ferramental que utilizo para fazer essas peças. Existem algumas ferramentas que eu criei.
Você vê a possibilidade do modelismo ser utilizado como terapia em instituições tais como locais de detenções?
Como terapia com toda certeza sim, não só no modelismo, mas qualquer atividade que seja feita e ocupe o tempo com certeza irá beneficiar muito o recluso. Quando estou me dedicando ao modelismo me esqueço do mundo. Para mim é um remédio! Quando você cria alguma coisa em que não tenha nenhum interesse a não ser a satisfação pessoal, isso se torna automaticamente uma terapia.
Material rodante, que são locomotivas, carros de passageiro e vagões, você tem idéia de quantos  possui hoje?
Devo ter por volta de 300 a 400 peças. Tanto na escala HO 1:87 como na escala N 1:160. Existe uma outra escala com a qual não trabalho, que é a escala 0 (zero), ela é grande 1:43,5 e tem a escala Z que é 1:220. Ou seja, são peças 87; 160; 43,5 e 220 vezes menor que o modelo original.
Existe em São Paulo, no Parque Ibirapuera uma maquete coletiva, muito grande, e possivelmente a mais antiga do Brasil ?

É da SBF – Sociedade Brasileira de Ferreomodelismo Esses dias o Alberto, que é um dos diretores, me convidou para fazer uma estação para essa maquete. É a maior do Brasil, talvez a mais importante. Entreguei-a semana retrasada. É uma estação de ramal, pequenininha, não tem nome, colocaram lá “Estação Moretti”.  

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