Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, julho 26, 2015

ERACLIDES VALLE FARIA (KIDA)

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 11 de julho de 2015.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADA: ERACLIDES VALLE FARIA (KIDA)






Eraclides Valle Faria, mais conhecida como Kida  nasceu a 24 de agosto de 1926, em Correntes(Segundo dados da prefeitura local, população com cerca de 18.000 habitantes no último censo), uma cidadezinha próxima a Garanhuns. É filha de Hermínio de Souza Valle e Aparicia Barreto Valle, que tiveram ainda mais dois filhos: a que seguiu a vocação religiosa Irmã Luiza e José, já falecido.
Qual era a atividade dos seu pai?
Meu pai era militar. Ele faleceu no posto de Major da Policia Militar do Estado de São Paulo. Meu pai mudou de Correntes, onde era comerciante, dono de uma loja, veio para São Paulo, aqui ingressou na Polícia Militar. Onze meses após ter ingressado ele trouxe minha mãe, eu e minha irmã, fomos morar em uma travessa da Avenida Tiradentes, na Rua Alfredo Maia onde moramos por sete anos.

Em qual escola a senhora começou a estudar?
Foi na Escola Estadual Prudente de Moraes na Avenida Tiradentes, 273, Bairro da Luz. Ali fiz o primeiro ano. Depois da Revolução Constitucionalista de 1932 meu pai fez uma casa.
Ele participou da Revolução de 1932?
Participou! E como participou! Voltou traumatizado. Um espirro que alguém dava ela já pulava e saia gritando. A revolução para quem esteve na frente de combate foi muito traumatizante. Ele permaneceu na linha de frente por quatro meses, nas proximidades da divisa com Minas Gerais.
Nesse período em que seu pai estava em combate, onde a senhora, sua mãe e sua irmã permaneceram?
Ficamos em uma casa localizada ao lado do Quartel do Exército, no bairro Santana. Quando havia tiroteio, os aviões passavam jogando bombas, parecia prata caindo, meu pai aconselhava que nessas horas ficássemos embaixo da mesa, era o lugar mais seguro. Enquanto minha mãe rezava para a guerra terminar, minha irmã e eu pensávamos ao contrário, porque meu pai mandava queijos lá de Minas. Nós não vimos nada, não vimos a guerra. O enfrentamento foi na frente de batalha.
Nesse período da Revolução de 1932 vocês não freqüentaram a escola?
Nessa época não freqüentamos. Meu pai após a revolução construiu uma casa no Tucuruvi, na Rua Vitória, número 9.
Ali em Santana,  na Avenida Voluntários da Pátria, eram ruas de terra?
Era! Havia feira livre em plena Avenida Tiradentes! Os bondes tinham seus terminais em Santana, tanto o aberto como o “camarão, este fechado e recebia esse nome por ser vermelho lembrando o crustáceo.
A senhora chegou a conhecer o “Trenzinho da Cantareira”?
Quantas vezes eu vi a “Maria Fumaça”! Meu pai só viajava naquele trem para ir até o quartel. O dia em que ocorreu um enorme desastre com aquele trenzinho, matou muitas pessoas, naquele dia meu pai amanheceu doente, com forte crise de sinusite, disse “- Hoje não conseguirei trabalhar, e não foi.” Ele iria à parte da tarde. Ele pegava esse trenzinho às onze horas da manhã, para ir para o quartel.  Nesse dia ele não foi, o trem tombou, ocorreram muitas mortes. Era um trem misto de carga e passageiros, trazia água para São Paulo. Todos os funcionários públicos usavam aquele trem porque não pagavam a passagem. E também porque não havia outro tipo de condução, não havia ônibus ali naquele tempo. Tinha o bonde e o trem. Nessa época comecei a estudar na Escola Estadual Silva Jardim na Avenida Tucuruvi, 724. Lá estudei até o terceiro ano. O nosso diretor era Ulisses Guimarães que depois se tornou grande figura nacional. 
Minha primeira professora foi Dona Mariazinha. Lembro-me que uma vez deu uma tempestade e ela me colocou no colo dizendo: “-Não tenha medo!”.
O professor e diretor da escola, Ulisses Guimarães, ensinou uma música aos alunos?
Ele ensinou assim: Nesta mãozinha direita/eu tenho cinco dedinhos/Fazem tudo de uma feita, /fazem tudo ligeirinhos./São pequenos, são prendados, são espertos, pois não são?Eu acho tão engraçados/os dedos da minha mão/São  cinco na mão direita /e cinco na outra mão!/Juntando cinco mais cinco/ ao todo dez dedos são!”  Quando o diretor da escola Ulisses Guimarães entrava na sala de aula, todos os alunos levantavam-se, ele mandava sentarem.
Quando ele cantava essa música?
Na hora que ele entrava na sala de aula, dizia: “- Hoje vim trazer um versinho para vocês!” Ele cantava e depois conversava com a professora. Todo mundo o respeitava, era sério, não era de brincadeira. Mas era amigo!
Após o terceiro ano nessa escola, em qual escola a senhora foi estudar?
O meu pai adoeceu, fez uma cirurgia de úlcera, ele foi transferido para Taubaté. Lá  conclui o curso primário na escola Dom Pereira de Barros. Fiquei morando na casa dos meus pais até casar aos 18 anos com José Faria, natural de Natividade da Serra.
Como a senhora conheceu o Sr. José Faria?
Conheci na igreja, ele era Congregado Mariano e eu era Filha de Maria. Meu marido veio junto com outros amigos de Natividade da Serra, fizeram a inscrição para o concurso da Polícia Militar, foi aprovado. Nessa ocasião meu pai precisava de um ordenança, entre os recrutas, ele escolheu o meu marido. Muitas vezes ele ia em casa para cumprir alguma ordem dada pelo meu pai, levar ou trazer algo, o José ia de bicicleta, era rua de terra ainda. Ele ia muito lá, na igreja, meu pai começou a nos ver juntos, ele me chamou e perguntou-me: “– Você está gostando daquele soldado?”. Respondi que estava. Meu pai então me perguntou: “- Vocês estão namorando?”. Respondi-lhe; “–Nós conversamos, nada mais do que isso.” Meu pai conversou com o José perguntando-lhe: “: Você está com boas intenções com a minha filha?”. O José respondeu-lhe que sim. Ele disse-lhe: “-Então você comece a ir à minha casa! Ela não vai à rua, não freqüenta cinema!”.
Tinha hora certa para namorar?
Meu pai estabeleceu os horários dizendo-lhe: “Se você for a noite é das sete as nove da noite. Se for durante o dia, você vai as três da tarde e as cinco da tarde você entra no serviço, conforme marca sua escala de inicio de trabalho.” Meu pai era durão. Eu seguia as regras. Sem querer, mas segui, às vezes ficava “de mal” com o meu pai, ficava sem tomar a benção dele. Eu me escondia o mais que podia para não vê-lo.
Vocês namoraram quanto tempo?
Seis meses! Foi na época da Segunda Grande Guerra, já tinham seguido muitos civis para a Itália, para combater, requisitaram mais homens para seguirem à frente de batalha, veio um pedido para que o quartel enviasse os soldados solteiros. Meu pai chamou o José e disse-lhe: “Você está com boa intenção com a minha filha. Você quer casar com a minha filha? Ou você casa agora ou se for à guerra não sei de que jeito irá voltar. Se voltar! Casamos no Santuário de Santa Terezinha em Taubaté. Ficamos um período morando com os meus pais. Quando foi para ter o primeiro filho, preferimos ir para nossa casinha.
Quantos filhos a senhora teve?
Doze: Luiz Adalto, que irá fazer 70 anos no dia 21 de outubro. Neusa Maria, Ana Maria, Sonia Maria, Maria José(falecida precocemente), Maria de Fátima, Maria Bernadete, Luiz Antonio, Maria de Lourdes, Luiza Maria, José Faria e Maria Cristina. Em média há um ano e meio de diferença de idade entre um e outro.
Como era a vida da senhora para manter essas crianças todas?
Ele era soldado raso quando já tínhamos quatro filhos. Eu só digo que foi Ele que me ajudou muito! Eu fazia doce, pastel para vender, mas isso dava um valor muito pequeno, ajudava algumas costureiras, ajudava no arremate das roupas. Às vezes elas traziam em casa, às vezes eu ia à casa delas. Eu nem contava para ele que estava fazendo essas coisas. Nunca reclamei. Sabia que estava casando com um soldado e ele ganhava pouco. Eu morava em frente à casa da minha mãe, nunca ela soube o que eu tinha e o que eu não tinha. Tinha dias em que ele vinha almoçar, ele me perguntava se eu também não ia almoçar, eu dizia que tinha tido fome antes não deu para esperar, eu almocei um pouquinho antes. Eu não tinha comido nada, depois que ele saia, eu raspava tudo que sobrava e comia. Todo mundo queria ser minha madrinha, me ajudavam, sem eu pedir. Tive vizinhas maravilhosas. Às vezes eu ia a igreja, levava aquele bando de crianças, sentávamos todos no primeiro banco. A missa era às oito horas, às seis horas eu já começava a dar banho e trocá-los.
Para manter a ordem com essa criançada não era fácil?
Foi muito fácil. Eles eram muito obedientes. Iam para o quintal, meu marido sempre alugava casa que tivesse quintal. Ele se interessava mais no quintal do que na casa. A criançada acabava de tomar café, iam todos para o quintal. Eu arrumava a minha casa sossegada e fazia o almoço. Na hora do almoço eu colocava o rosto na porta da cozinha e dizia: “- Olha o almoço!”. Eles passavam no tanque de lavar, eu deixava dependurado junto ao tanque esse saco de farinha de trigo. A criançada lavava as mãos, enxugavam e vinha à mesa para almoçar. Minha mesa tinha um banco mais alto e outro mais baixo, sentava cada um conforme sua altura.
Era fogão a lenha?
Quando íamos alugar uma casa, a primeira coisa que eu fazia era ir à cozinha para ver como era o fogão. Às vezes era a lenha, outras a carvão, com quatro bocas. Eu não gostava do fogão a carvão, às vezes acaba o carvão no fogão e a comida não estava cozida ainda. Naquele tempo não havia panela de pressão. O feijão levava duas horas para cozinhar. Passava roupa com ferro de brasa. Eu engomava a farda, aquela de cor caqui. Passava uma goma bem leve, só com o pano. Durava três a quatro dias, usando a mesma roupa. Ele era muito cuidadoso.
Qual condução ele usava para ir trabalhar?
Um tempo ele teve bicicleta, depois passou a ir a pé. Era um dia no quartel outro dia em casa para dormir. Ele me ajudou muito a cuidar das crianças, No dia em que ele estava em casa, eu dava banho, ele enxugava e trocava. Quando ele não estava, eu dava banho, ia colocando na cama, quando terminava de dar banho os que tinham tomado banho antes estavam todos dormindo!
A senhora costurava também?
Eu só costurava, não sabia cortar, tinha uma vizinha que era costureira, ela cortava roupa para mim. E a minha roupa, assim como dos filhos maiores ela fazia. E eu passava roupa para ela. A coisa que eu mais detestava era passar roupa. Mas era a única coisa que eu podia fazer para ela, para não pagar a costura.
Não existia geladeira, como fazia para guardar a comida?                           
Antigamente não estragava, acho que a comida era melhor. Carne, feijão, eu fazia de um dia para outro, deixava em cima da pia, não estragava. Em Taubaté moramos uns três ou quatro anos. Meu marido gostava muito de mudar. Mudamos muito, acho que fiz umas quarenta mudanças. De cidade em cidade. Cada dois filhos nasceram em um lugar.
Qual foi a cidade que a senhora mais gostou?        
Foi Tietê.
Ele reformou-se com quantos anos de serviço?
Ele fez vinte e sete ou vinte e oito anos de serviço, como ele não tirava as licenças prêmios, contava em dobro. Depois se arrependeu, porque se aposentou moço, e ficar dentro de casa é triste. Minha irmã arrumou emprego para ele em uma concessionária Volkswagen, isso em São Paulo. A maior parte da educação dos meus filhos, devo a minha irmã, ela lecionava no Colégio Santana, meus filhos estudaram no Colégio Santana. Depois meu marido trabalhou um tempo no Colégio Santana. Sempre essas coisinhas, só para não ficar dentro de casa. Ele fez a Academia de Polícia Militar do Barro Branco de tanto eu falar, com isso ele deu baixa como primeiro-tenente. De São Paulo fomos morar em Caraguatatuba onde permanecemos por 17 anos. De lá mudamos para Piracicaba, em uma casa próxima a Igreja São Judas Tadeu. Eu tinha uma amiga que morava no Lar dos Velhinhos, ela escreveu uma carta e mandou um livro do Lar. Meu marido se entusiasmou. Eu dizia à ele: “ Estamos ficando velhos, nós não queremos deixar herança para depois os filhos terem que dividir, a única coisa que nós temos que fazer é não ter casa, alugar.
Em que ano vocês vieram morar no Lar dos Velhinhos?
Em 1999. No Lar ele morou 10 anos. Morávamos em uma casa, depois que ele faleceu eu vim morar no apartamento dentro de Lar. Sempre cuidei dos outros, era como se eu não existisse.
E essa história da senhora se vestir de noiva nas festas juninas?
Já fui entrevistada a respeito diversas vezes, pelos jornais, rádios televisão. A nossa animadora cultural, a Maria é a responsável! Tinha uma senhora que ela e o marido eram os noivos da festa todos os anos. No ano retrasado o marido dela faleceu. A Maria me escolheu como noiva, eu ajudei a organizar o casamento, com o papel para cada um decorar.

A senhora foi eleita Miss?
Isso faz uns quatro anos. Fui eleita “Miss Lar dos Velhinhos”. Foi através das olimpíadas, o evento foi no Ginásio junto ao campo do XV de Novembro, o Ginásio Municipal de Esportes "Waldemar Blatkauskas". Tinha participantes de outras entidades, outras cidades, como Rio Claro, Rio das Pedras, eu era representante de Piracicaba.
Qual foi a sensação que a senhora teve?
Fui meio nervosa! Andar no meio de um público enorme. Tinha que andar bastante, desfilando. Eu fui de salto alto! Estava chique, arrumada como uma rainha!

A senhora conquistou muitas medalhas, como foram essas conquistas?
Tenho algumas das olimpíadas, uma delas é da caminhada, saímos da “Estação Idoso José Nassif”, na Paulista, e fomos até a catedral, andando, e voltamos..
Qual é o segredo para ter tanta disposição?
Não saberia responder!
Uma particularidade muito interessante é que a senhora tem uma série de bonecas em seu quarto, esse carinho que a senhora tem por elas relembram sua infância?
Eu tenho essas bonecas hoje porque quando eu era criança não tive! Nunca tive uma boneca. A primeira boneca que tive foi dada por um primo do meu pai, ele tinha voltado da Revolução de 1932, estava internado em um hospital, minha mãe soube, foi fazer uma visita à ele. Só que ele estava muito mutilado. Quando chegamos, ele estava com essa boneca aos pés da cama, em uma caixa. Ele quase nem podia falar, disse que a boneca era para mim. Peguei a boneca, fiquei encantada, a boneca abria o olho, fechava, era da Estrela. Foi a primeira boneca que eu tive. Uma mulher que estava doente, com tuberculose, gostou da boneca, pegava-a, beijava-a, abraçava, apegou-se a ela. Minha mãe deu a boneca para ela. Eu queria morrer quando vi minha boneca ir embora!
O importante é que a senhora está realizando um desejo seu, de retomar o lado puro e infantil sem nenhum pudor em assumir, como adultos que colecionam brinquedos por puro prazer.
Minha única preocupação é que alguém pense que estou ficando ruim da cabeça! (risos).
A senhora participou no dia anterior a esta entrevista, de uma festa junina, isso a cansou?
Não sei o que é cansaço! Fui a uma cidade do Paraná, andei de ônibus, horas e horas cheguei lá a tardezinha, minha filha disse que estavam se preparando para ir a uma festa típica. Fui com eles, retornamos para casa a uma e meia da manhã.
Qual é a visão da senhora sobre o jovem atual?
Tenho dó de alguns, suas mães não querem ter o trabalho de ensiná-los. Deixam os filhos crescerem sem controle algum. Com o aparecimento do WatttApp ficam o dia inteiro voltados aquilo. Esses jovens vão ficar alienados. Até na igreja, junto com os pais, estão mais preocupados com as mensagens do celular do que com a celebração.
A senhora assiste televisão?
Assisto, não assisto nenhuma novela, com exceção da “Dez Mandamentos”. Assisto o programa do Datena. O que percebo é que as famílias estão acabando. Acredito que haverá uma hora onde as coisas mudarão.
A senhora tem uma imagem do Padre Cícero, é devota dele?

Ele é lá da minha terra, meu avô, pai do meu pai, era amigo intimo dele. Todo ano, dia 20 de março, aniversário do Padre Cícero, ele saia de Correntes, em um carro de boi, saia um dia antes, até chegar em Juazeiro. 

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