Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, julho 26, 2015

IRMÃ LUIZA MARIA

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 18 de julho de 2015.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/


ENTREVISTADA: IRMÃ LUIZA MARIA



A Congregação das Irmãs de São José remonta aos meados do século XVII, na cidade de Le Puy-en-Velay, França. O Padre Jean Pierre Médaille conseguiu reunir algumas das jovens e viúvas com as quais se encontrara em seu trabalho missionário. Decidiram, então, apoiar-se mutuamente na realização de um novo projeto. Pobres invadiam povoados e grandes centros. Era uma situação calamitosa e devastadora, exigindo solução para tanta miséria e fome. Luísa Josefina Voiron era o nome de batismo da Madre Maria Teodora Voiron. Nascida em Chambéry, França, em 6 de abril de 1835. O Brasil é contemplado com a presença das Irmãs de São José. Madre Maria Felicidade encarregada de escolher as religiosas para importante missão designa sete Irmãs, tendo como superiora Madre Maria Basília.que faleceu durante a viagem dois dias antes de chegar ao Brasil.
Irmã Maria Teodora no dia 24 de maio chega na Baía da Guanabara preparando-se para a viagem a Itu. Chegou à cidade na tarde de 15 de junho de 1859. As Irmãs se instalaram temporariamente no prédio da Santa Casa de Misericórdia de Itu até que fossem concluídas as obras do colégio. Muito bem acolhida por todas as irmãs, ela só não agradou ao bispo D. Antônio Joaquim de Melo, que a achava jovem demais para ser superiora, pois contava apenas com 24 anos, e decidiu que Madre Justina seria superiora. Passados alguns meses D. Antônio procura Irmã Maria Teodora e lhe confia o cargo de superiora. Isso aconteceu no dia 13 de novembro, dia da festa de Nossa Senhora do Patrocínio, e dia da inauguração do colégio que recebeu seu nome.
Irmã Luiza Maria, cujo nome de batismo é Eunice Barreto Valle nasceu em Garanhuns, Pernambuco, no dia 14 de agosto de 1925, estará fazendo 90 anos em agosto próximo. É filha de Hermínio de Souza Valle e Aparicia Barreto Valle, que tiveram ainda mais dois filhos: Eraclides Valle Faria, mais conhecida como Kida e José, já falecido. Pertence a Congregação de São José de Chambery. Quando tinha três anos sua família mudou-se para São Paulo.
A senhora começou a freqüentar a escola quando?
Aos seis anos passei a freqüentar a Escola Prudente de Moraes, localizada na Avenida Tiradentes, em São Paulo. Depois nós mudamos para o bairro Tucuruvi, freqüentamos a Escola Silva Jardim. Onde o Dr. Ulisses Guimarães era o diretor. Antigamente para fazer o ginásio tinha que ter no mínimo onze anos, Eu terminei o primário com nove anos. Quando entrei estava alfabetizada, no mesmo ano me passaram para o segundo ano. Fui estudar no Colégio São Paulo da Cruz, no Tucuuvi, das irmãs passionistas. Fiz o quarto e o quinto ano escolar novamente com elas. Foi ai que despertou a vocação, vendo as irmãs. O primeiro chamado que Deus me deu foi através da presença das irmãs.
Depois meu pai foi transferido para Taubaté, fui para o Colégio Bom Conselho das Irmãs de São José. Identifiquei-me mais com o carisma das Irmãs de São José. Com 15 anos pedi para o meu pai para entrar para o juvenato.
Qual foi a reação dele?
A princípio ele era contra, achava que era coisa de criança ainda. Minha mãe me apoiava. Depois ele foi conversar com a superiora e deixou-me ir. Juvenato, que era em Itu, onde continuávamos estudando. Eu estava na terceira série quando fui fazer o juvenato, tinha 15 anos de idade. Juvenato é a fase das que pensam em vocação, mas são muito jovens ainda. Após o juvenato eu contava firme, um desejo era esse mesmo, estava convicta disso. Fiz o postulado aos 20 anos em seguida e noviciado aos 21 anos. Em 1949 fiz os votos de Pobreza, Castidade e Obediência, que hoje denominamos: Amor Universal, Despojamento e Disponibilidade. Trocamos um pouco os nomes.
A senhora fez estudos de nível superior?
Fiz as faculdades de História, Geografia, Biologia e Teologia.
A senhora permaneceu em Itu?
Lecionei só um ano em Itu, fui transferida para Santos, fui lecionar no Colégio São José, na Avenida Ana Costa, onde permaneci por quatro anos. De Santos fui para o Colégio Santana, em São Paulo, onde permaneci por 16 anos. Vim para Piracicaba, lecionar no Colégio Assunção. Aqui estive por duas vezes, sendo que na segunda vez fui diretora do colégio por dois anos. Como diretora eu assumia pelo menos a aula de religião de uma das classes, para ficar em contato com as alunas, eu não gostava de ficar sem dar aulas, isso foi no final da década de 50 e inicio da década de 60. Em seguida fui para Franca onde permaneci por dois anos. Voltei para o Colégio Santana, que foi um colégio em que voltei por cinco vezes. Depois eu pedi para fazer uma experiência de inserção, trabalho no meio do povo. Vivendo como e com o povo. Éramos três Irmãs: Irmã Marta Alexandra, conhecida como “Tereza de Calcutá Brasileira”, de tão dedicada que ela era, Irmã Maria Isabel Muniz e eu Nós três fizemos uma casinha de madeira, os quartos só cabia a cama e um criado mudo. Isso foi na Vila Zilda. Morei cinco anos ali. Um dia a Irmã Marta Alexandra chegou com um garoto que ela achou na rua comendo comida de um saco de lixo. Fiquei cinco anos lá, foi uma experiência maravilhosa.
Como era a convivência com a comunidade?
Era tranqüila, inclusive na época a dependência química de alguns viciados era praticamente só do álcool. Tinha um grupo deles, quando a gente passava por eles, diziam: “Oi Irmã!”. Eles cuidavam da nossa casa. Naquela época já tínhamos abolido o uso do hábito.
Irmã, por que a Igreja aboliu o uso do hábito?
A Congregação este ano está completando 365 anos de fundação. Nosso fundador não queria que ficássemos em evidência, dizia: “-Façam as coisa da melhor forma possível, mas façam de uma forma discreta. Vistam-se como viúvas por que assim vocês podem sair sozinhas”. A mulher só podia sair acompanhada do marido ou do pai, as viúvas podiam sair sozinhas. Quando foi reconhecida como Congregação, a primeira coisa que fizeram foi mandar por o hábito. Era todo preto, uma espécie de touca branca, véu preto, e o que chamávamos de murça, uma barra branca cobrindo o tórax. Um terço na cintura e um crucifixo grande dependurado no pescoço. Hoje nós temos esse símbolo só.
O hábito impunha respeito, mas também dava certo ar de distanciamento?
A pessoa fica e evidência, queira ou não queira o hábito dá evidência, impunha respeito, mas também evidenciava. Quando o Concílio Vaticano II disse que as congregações deveriam se atualizar, voltar ás suas origens, se estava enfraquecida fortalecesse a espiritualidade, vamos ser como as pessoas comuns, vamos tirar o nosso hábito, isso foi feito pouco a pouco, não foi obrigado. Eu fui uma das primeiras a tirar. Tem algumas que até hoje usam o hábito. O importante para nós é o carisma e a espiritualidade e não o exterior, o nosso testemunho é que tem que ser importante, e não a aparência. O nosso carisma é o da união, viver e criar a unidade. Esse é o grande carisma da congregação. A espiritualidade é alimentada pela devoção a Santíssima Trindade, Encarnação e Eucaristia, essas três fontes de espiritualidade é que fortalece a vivência da unidade.
Atualmente a senhora está morando em qual cidade?
Em Campos do Jordão, em uma comunidade de três irmãs, é uma casa.
Visitamos os morros onde existem muitos pobres, visitamos as comunidades, conversamos com as pessoas, propomos a oração do terço, uma vez por semana na comunidade. Faz só dois anos que estou lá. Temos que nos voltarmos para os mais carentes, e quem são os mais carentes? Será que são os miseráveis ou essa juventude rica e grã fina que são carentes de amor, de valores, de religiosidade. Um é carente financeiro, miserável e outros são miseráveis de valores. No colégio Santana tive a oportunidade maior de ver as coisas, nós temos desde o berçário até o colegial. Tinha uma mãe que chegava as seis e meia da manhã trazendo o bebezinho, ia buscar as sete horas, sete e meia, o horário correto era cinco e meia. Isso todos os dias. As professoras notavam que a criança vinha sujinha, coloquei um sinal na fraldinha da criança, ela foi para casa, levou a bebe, no dia seguinte quando ela voltou a primeira coisa que pedi para a professora olhar era se a fralda estava marcada. Ela nem tinha trocado a fralda  da criança. Do jeito que levou ela trouxe. Como essa criança pode ter amor a essa mãe? Que não é mãe, ela só gerou. A desculpa é do trabalho. É uma desculpa esfarrapada. Tem uma lenda muito bonita, um pai que nunca conseguia ver o filho, ele saia antes que a criança acordasse e chegava depois que a criança estava dormindo. Quando ele saia ele dava um nó no lençol da criança, para dizer: “- Eu passei por aqui e te dei um beijo” Quando a criança acordava a primeira coisa que ela olhava é ver se tinha o nó. Ela tinha um grande amor pelo pai, sabia que o pai gostava dela. Porque todo dia ele passava por lá e fazia aquele nó. O trabalho não é desculpa.
Irmã, atualmente o pai tem trabalhar, a mãe tem que trabalhar, é em função do progresso material, de um consumismo sem limites?
Tenho a impressão de que há de tudo. Os meios de comunicação estão divulgando demais a importância do “ter”. Contanto que eu tenha dinheiro e consuma bastante é o que importa. O consumismo tomou conta do mundo. Desde as crianças. Os pais que atendem a todo tipo de pedido das crianças. Não há mais limites. Para poder consumir eu preciso trabalhar, quanto mais eu trabalhar mais eu posso consumir, isso quando não fico devendo depois. Com isso dão pouco valor para o cuidado com a família. Você pode deixar a criança por oito horas no colégio, mas quando você vai buscar a gente nota a diferença, aqueles que abraçam o pai, a mãe, quando chegam. Ficaram na escola em período integral, mas sentem que em casa são amados. Você pode ficar em casa, se ficar o tempo todo em frente a televisão, enquanto a criança está lá fazendo outra coisa. Ou então na internet. Os pais podem e devem continuar trabalhando, mas não deixem de valorizar a criança. Colocou no mundo, você é o responsável. Não adianta dizer: “-Basta um filho!”. Os filhos que eu puder ter. Claro que não serão mais 12 filhos como antigamente. Mas pelo menos uns dois ou três. Para a criança também poder ter contato com irmãzinhas, irmãozinhos. Filho único não é o ideal.
Isso é um fenômeno mundial?
É mundial. Em termos sociais não vejo muitas perspectivas de mudanças, em termos religiosos está havendo uma preocupação maior em todas as religiões. Na Igreja Católica estamos tendo a felicidade de ter esse Papa maravilhoso. Ele está fazendo muito para o ecumenismo, essas religiões que se separaram foram por questões políticas. O que eu admiro nos evangélicos é o zelo apostólico. Eles não têm medo de ficar fazendo propaganda da sua religião, onde quer que estejam. Nós católico somos mais acomodados. O católico é que tem que vir para a nossa igreja. Nosso Papa diz aos padres e bispos: “-Não fiquem na igreja, saiam da igreja! Procurem o povo, e não o povo procurar a igreja!” Ele está estimulando muito essa ação apostólica, essa ação missionária do clero. O nosso clero é um pouco acomodado também.
Existe uma questão que está em pauta, que é o celibato.
Estou rezando para que ele consiga! Para tirar o celibato, os padres não eram celibatários! Quem é celibatário é o religioso, que faz voto de castidade, por opção, o padre quer ser padre, ministro, mas ele não está sendo chamado para ser celibatário. No Concilio de Trento (Convocado pelo papa Paulo III, em 1542, e durou entre 1545 e 1563), inventaram isso, por o celibato para o clero. Estou rezando para esse Papa conseguir, temos 10.000 padres no Brasil, que deixaram a Ordem para poder casar. Estou rezando muito para ele ter essa firmeza, essa coragem, porque tem os cardeais que são contra. Estou com esperança que o Papa consiga superar isso e tirar o celibato do clero. Muitos são diáconos, que gostariam de exercer o ministério total.
Quantas Irmãs da Congregação de São José existem no Brasil?
No Brasil somos 600, no mundo 15.000.
A Igreja Católica perdeu um pouco do seu espaço, a senhora acredita que tenha ganhado em qualidade?
A Igreja Católica está em um processo de caminho muito bonito. Quem é católico é para valer! Havia muito católico que era só de nome. Estamos sentindo um crescimento maior de pessoas que estão assumindo a religião. São mais autênticos.
Diante do quadro delicado que passamos atualmente em nosso país a Igreja tem se posicionado de que forma?
A CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tem um trabalho muito bonito também na linha social.
Nós tínhamos dentro da Igreja, a Igreja Progressista (Os progressistas geralmente questionam uma ou mais crença distinta da igreja). A seu ver isso é uma fase?
É fase! Os carismáticos, por exemplo, é uma forma que a Igreja realizou para ter uma visibilidade maior. Eles pegaram muita coisa dos evangélicos. Os carismáticos dos Estados Unidos eram evangélicos. O carisma em si é positivo. Gosto muito dessa parte externa, que é importante nos dias de hoje. Temos que respeitar os tempos também. Cada tempo tem seu jeito. Ficar em um cantinho só rezando era um tempo. Agora quanto mais movimento tem, mais o povo gosta. Então vamos respeitar! Como Jesus dizia: “- Vocês estão no mundo, mas não são do mundo! Não vivam como o mundo! Mas vivam no mundo!” sendo testemunha do evangelho, sendo testemunha do Cristo no mundo.
    TERÇO COM CONTAS EM CINCO CORES, CADA COR SIMBOLIZA UM CONTINENTE
A senhora tem um lema?
Tenho! “Em tudo amar e servir”. Escolhi, rezando, senti muito essa necessidade. O que Jesus pede? Amar! Amar a todo mundo. Sem exclusão de ninguém. Seja santo, ou seja, bandido.  É Filho de Deus. Em tudo amar. E servir aonde precisar. O que precisar estou a disposição. Essa disponibilidade é uma graça que Deus me deu. . Por isso quando minha superiora pergunta: “- Reze para saber o que você sentiria se eu a transferisse para tal lugar”. Não preciso rezar, está precisando lá, pode mandar. Se for ver eu não quero sair de onde estou, mas se está precisando porque não vou? Chego lá , me adapto, lembro-me do meu tempo de criança, era a última a sair de casa, eu passava beijando as paredes e chorando. De saudade. Quando chegava a outro lugar em um zás – traz fazia amizades, ficava gostando.  Acontece a mesma coisa na vida religiosa, quando saio de um lugar eu sinto falta, quando chego no outro, já estou tão bem,!
A senhora é muito comunicativa?
Sou mais de prestar atenção, de ouvir, escutar.
A senhora tem algum livro escrito?
Tenho mais anotações. Minha sobrinha Cristina é que fez um livro da minha vida, ela fez um apanhado de tudo que escrevi das minhas orações, fez uma brochura. Eu gosto muito de rezar escrevendo. Primeiro comecei com o salmo da minha vida, depois contei toda a minha história, escrevi: “Passo a passo, pouco a pouco e o caminho se faz”. Gosto muito de rezar escrevendo. Ali eu falo com Jesus. Eu tinha isso no Pen Drive, minha sobrinha pegou todas essas minhas orações.
A senhora usa computador, internet?
Uso! Temos que aprender a cada dia, Quando tenho alguma duvida consulto o Google. De um modo geral eu procuro responder os e-mails que mandam. Tenho um gruo de ex-alunas, formadas há 44 anos, no Colégio Santana, naquele período em que fiquei 16 anos. Eu dava aulas de história, geografia, biologia e ainda religião. Até hoje, todos os anos agora em novembro ou dezembro, , a gente se encontra, matando a saudade.




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