Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

domingo, maio 01, 2016

QUIMIE KAMIYAMA

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 30 de abril de 2016.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/ 

ENTREVISTADA: QUIMIE KAMIYAMA



Quimie Kamiyama é metódica, determinada, esbanja simpatia. Quem a vê pela primeira vez imagina que se trata de uma pessoa com temperamento oriental, reservado. De fato é muito discreta. Mal se pode imaginar que ela integra um conjunto de musica popular brasileira, tocando seu inseparável pandeiro. Horas, isso mesmo, horas a fio ela acompanha as mais diversas musicas, sempre com o mesmo entusiasmo e alegria. Atleta, ela cuida de seu físico realizando longas corridas. Nascida no Noroeste do Estado de São Paulo, na cidade de Onda Verde,


                                               ONDA VERDE CIDADE DOS APELIDOS
Com dois anos de idade veio para São Paulo. Nascida a 1 de abril de 1951. Quimie é filha de Tojiro Kamaiyama e sua mãe Kiyo Kamaiyama que tiveram nove filhos: Koiti, Midori, Usio,Tokugi, Tetsuso, Naoki, Miriam, Quimie e Hissashi.
Quando a família mudou-se para São Paulo foi morar em que bairro?
Fomos morar na Rua Pitangueiras,323, apartamento 74.  próxima a Praça da Árvore. Nessa ocasião meu pai já estava aposentado, ele faleceu cedo, aos 67 anos. Isso foi por volta de 1975.
Como foi o meio de sobrevivência da família em São Paulo?
Dois dos meus irmãos abriram casas de móveis. O Naoki começou a estudar e formou-se em engenharia na Escola Politécnica. Eu também me formei em enfermagem.  O curso primário fiz no Grupo Escolar Professor Arthur Marret, ginásio e colegial fiz no Carlos de Campos. No Brás.
A senhora chegou a utilizar bonde como meio de locomoção?
Cheguei a utilizar o bonde como meio de transporte, subia a Rua São Caetano. Era na época do bonde aberto, depois é que veio o bonde fechado nas laterais, o “camarão”, assim denominado pela cor vermelha.
Após concluir o curso colegial a senhora foi estudar enfermagem em qual escola?
Fui estudar enfermagem na UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo, entrei em 1972 e sai como enfermeira padrão em 1975.
A senhora foi trabalhar em qual hospital?
Eu gostava de trabalhar em hospitais públicos. Primeiro fiquei no Hospital São Paulo, por um ano. Depois fui para o Hospital das Clínicas onde permaneci por 13 anos, no setor de ortopedia. Na época em que eu estava pedindo demissão o governador era Paulo Maluf. Ele tinha congelado o salário de todos os “hagaceanos”, de todos que trabalhavam em hospitais estaduais.
O Hospital das Clínicas de São Paulo é um universo da medicina.
Na época o INCOR- Instituto do Coração estava ainda em construção. Depois que foi construído o Hospital do Câncer ficou maior ainda. Toda emergência de maior gravidade era direcionada ao Hospital das Clínicas. A atriz Elis Regina foi internada lá, não a vi, mas os colegas comentavam.
Como era a rotina da senhora no setor de ortopedia?
Eu circulava entre os setores: setor feminino, adulto, masculino, setor de paraplégicos. Circulava no PI que é a Paralisia Infantil. Quando eu estava no setor de Paralisia Infantil recebi a visita do Ayrton Senna, era uma pessoa bem simples, não falava nada, ficamos sabendo depois que ele trocou todos os aparelhos respiratórios das crianças do setor de Paralisia Infantil.

Esses pormenores nunca foram divulgados na mídia. Na Paralisia Infantil tinha alguns leitos reservados para casos especiais, como foi o caso do João Carlos de Oliveira, conhecido como João do Pulo, um atleta, especializado em saltos, sendo ex-recordista mundial do salto triplo,   Teve a carreira de atleta interrompida em 22 de dezembro de 1981, quando sofreu um grave acidente automobilístico na Via Anhanguera, no sentido Campinas-São Paulo. Após quase um ano de internação na UTI, sua perna direita teve de ser amputada.






  


A senhora chegou a ter contato com João do Pulo?
Às vezes tinha, ele era uma pessoa que não estava deprimido, o acidente tinha sido recente. Era uma pessoa maravilhosa.
Era muito comuns acidentes de trânsito?
Era. Mas não tanto como ocorre atualmente.
Qual é o requisito principal para um profissional trabalhar nessa área?
Além dos conhecimentos técnicos, tem que ter muita paciência, tolerância, carinho. Cada caso é um caso especial. Na época os pacientes eram mais tolerantes. Eu achava que eram menos revoltados. As pessoas eram diferentes naquela época, a educação era outra.
Nessa época a senhora morava em que bairro?
Em 1978 adquiri meu apartamento na Rua Artur Prado, paralela a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio. É um ponto estratégico, vou para o Shopping Paulista a pé, vou até a Liberdade a pé, às vezes eu vou a pé para o centro. Vou até a Avenida Paulista em quinze minutos.
Em que ano a senhora saiu do Hospital das Clínicas?
Sai em 1988, eu disse à minha vizinha, que também era minha colega: “-Vou pedir demissão porque com esse ordenado prefiro ficar de braços cruzados”. Fui viajar para o Japão. Fiquei em Tokio, em Yamanashi, trabalhando na área hospitalar. Falo fluentemente o japonês, escrevo um pouco  e leio qualquer artigo.




Como a senhora conseguiu esse emprego no Japão?
Na época estavam começando a recrutarem pessoas para levar para o Japão, havia umas empresas que atuavam nessa área, ficavam lá no bairro da Liberdade. Eu me candidatei e fui. Tinha uma hospedaria certa e já tinha onde trabalhar. Já sai do Brasil com destino certo.
No Japão a senhora morou quanto tempo?
Foram uns cinco anos. Nesse tempo eu vim várias vezes para o Brasil.
Lá a senhora trabalhou na área de ortopedia?
Não. Lá eu trabalhei bastante com idosos, Trabalhei um pouquinho com ortopedia também.
Como é o idoso japonês?
É um pouquinho diferente dos nossos idosos. Dependendo do problema podem ser mais bravos. Às vezes a pessoa que sofre um AVC- Acidente Vascular Cerebral, a pessoa perde a paciência.
A senhora pode fazer um comparativo entre a medicina no Brasil e no Japão?
A medicina de uma forma geral não é diferente.
O tratamento com relação aos pacientes, lá são mais bem cuidados?
São! Recebem mais cuidados lá. São mais respeitados.
O idoso no Japão recebe um respeito maior do que o idoso no Brasil?
Qualquer idoso merece respeito. No Japão ele recebe muito mais respeito, não dá nem para comparar.
As doenças mais comuns com idosos no Japão são semelhantes às doenças com idosos no Brasil?
Tem Alzheimer, Parkinson, a seqüela de AVC é bastante comum.
O habito alimentar japonês difere muito do brasileiro?
Acho que o habito alimentar japonês é um pouquinho menos gorduroso, mais saudável. Os idosos têm atividades físicas conforme a capacidade e necessidade de cada um. Tanto dentro do hospital como fora, em passeios. Para mim foi uma experiência muito importante.




A senhora decidiu voltar ao Brasil por algum motivo em especial?
Eu não fui para ficar definitivamente lá. Voltei. Quando estava com quase 40 anos fui acometida de uma doença. Fui fazer tratamento lá, porque aqui não havia o tratamento que eu queria. Tratei-me, me curei totalmente. Depois voltei para o Brasil. É uma doença que não faço questão em evitar em falar, tive câncer de ovário. Permaneci em tratamento por quatro meses, no primeiro mês tive um tratamento convencional, tanto no Brasil como no Japão o médico tinha estimado que eu teria só mais três meses de vida. O hospital em eu estava no Japão trabalha em conjunto com a medicina americana. Resolvi parar com essa terapia convencional. Fui fazer um tratamento chamado imunoterapia. ( A finalidade da imunoterapia é incentivar o sistema imune do paciente a reconhecer o tumor e eliminá-lo). Eram duas vacinas diferentes que eu aplicava a cada cinco dias, subcutânea, quando recebi por seis meses essa vacina, eles me chamaram para fazer um check-up total e fazer uma auto vacina. Foi colhido material, com esse material foi feita vacina com dose para um ano. Isso foi em Tokio. Eles tem hospital, consultório e laboratório em três lugares diferentes de Tokio. Junto com as duas ampolas que eu tomava adicionei a auto vacina. Assim que comecei a tomar a auto vacina a recuperação foi surpreendente.
Isso foi há quantos anos?
Já faz quase 25 anos. Se eu não tivesse feito o tratamento lá eu não estaria conversando com você. Essa vacina quem está trabalhando é o filho do pioneiro, é a segunda geração do professor. O nome dela é Vacina Hassumi. Ele começou a pesquisa durante a Segunda Guerra Mundial, acredito que tenha sido até um pouco antes da Segunda Guerra. Se não me engano foi na década de 30, esta relatado em um livro escrito em japonês.
E quem pagava todas essas despesas?
Eu tinha algumas economias. Mas tenho dupla nacionalidade, sou cidadã brasileira e japonesa, tenho os dois passaportes. Nessa condição de cidadã japonesa obtive bons benefícios médicos. Primeiro você paga com seu dinheiro, quando o tratamento é de alto custo ai eles devolvem 70% do que você gastou. Eu recebi na hora.

                                                        MONTE FUJI - JAPÃO

Ou seja, o Estado cuida do cidadão?
Cuida! Há um grande respeito pela vida humana. Cada um respeita seu semelhante. É interessante, muitas vezes respeita mais o próximo que a si mesmo.
Os seus laços com o Brasil a trouxeram de volta?
Minha família toda está em São Paulo. Meus amigos. Minha profissão. Eu nasci, estudei e trabalhei aqui.
Após curar-se a senhora voltou a trabalhar?
Voltei a trabalhar no Hospital Santa Cruz, fui convidada a trabalhar lá. O Hospital Santa Cruz foi inaugurado em 1939, e sua história está intimamente ligada à da imigração japonesa. Trabalhei um ano. 



                                                      HOSPITAL SANTA CRUZ
Eu voltava ao Japão uma vez por ano. Após cinco anos parei de tomar a vacina.  Eu tinha feito um concurso para ingressar no Hospital do Servidor Publico Municipal, fui aprovada, quando voltei do Japão passei a trabalhar. Ali permaneci até me aposentar. Cinco anos antes de me aposentar me chamaram para trabalhar em uma pesquisa clinica, um serviço que eu nunca tinha feito. Em 2011, aos 60 anos, aposentei-me. Eu não via a hora de chegar aos 60 anos, minhas colegas achavam isso um absurdo! É que eu tenho algumas atividades a mais do que as minhas colegas. Leio em japonês, gosto de astronomia, história. Em 2008 eu resolvi voar de balão, eu gosto de umas aventurazinhas, não muito radicais. Marquei com uma colega de profissão, vim aqui em Piracicaba voar, decolando da ESALQ. Fiquei um dia hospedada no IBIS Hotel, perto do Shopping Piracicaba, voamos por uma hora e depois descemos em um campo onde tomamos um delicioso café da manha com champanhe. Nesse dia que fiquei sabendo do Lar dos Velhinhos. Resolvi marcar com o Serviço Social para conhecer o lugar, a Irmã Hilda nos acompanhou pessoas maravilhosas, fiquei encantada com o lugar e tudo. Em 2009 eu comprei o flat em que resido.
A senhora tem uma particularidade que são suas famosas caminhadas.
Na verdade eu pratico corridas já faz 19 anos. Em São Paulo eu corria no Parque Ibirapuera. Após tirar essa doença, achei que a corrida era a melhor opção para manter a minha saúde. Eu vou praticando e vou analisando. Não pratico corrida de curta distância onde tenho que desenvolver a velocidade. Corro lentamente, mas longa distância. No Parque Ibirapuera tem uma trilha de seis quilômetros, eu dava duas voltas, são doze quilômetros, demorava mais ou menos uma hora e meia. Hoje continuo correndo na ESALQ onde corro aproximadamente dez quilômetros. Por semana eu sinto que tenho que ir umas quatro vezes.



Existe outra particularidade da senhora que nos chama muito a atenção, a senhora é uma exímia pandeirista!A sua execução de pandeiro permanece por horas!
São duas horas. Quando cheguei aqui no Lar convidaram-me para ir a uma Feijoada do Gordo, fui, na ocasião o Laerte do Vinil colocava seu material de som e me orientou nas primeiras batidas de pandeiro. Eu gostei! Um dia o Seu Antonio me convidou para tocar na festa. Foi assim que comecei.









                                   
Qual é o sentimento que a senhora sente ao tocar esse instrumento?
É uma delicia ! Eu tento acompanhar!
Há um pouco de contradição em uma pessoa com forte formação oriental tocar um instrumento popular brasileiro?
Acho que a minha relação com o pandeiro foi de amor a primeira vista!
É uma atração inusitada, algo muito bonito, e não deixa de ser um exemplo de otimismo!Percebe-se que seus sentimentos estão nas pontas dos dedos ao tocar pandeiro de forma tão concentrada!
Nosso objetivo, do conjunto musical, é beneficiar as pessoas, levar alegria.
A senhora já saiu em algum desfile de carnaval?
Não! Acho que não tenho samba no pé! Mas se me mandarem tocar pandeiro eu toco sim!
A alimentação da senhora é normal?
Eu evito frituras. Tenho colesterol alto, é genético, mesmo sendo magra o índice de colesterol é acima do normal.
A senhora gosta de literatura, sua preferência é pela literatura brasileira ou japonesa?
Ultimamente estou lendo mais em japonês. Mas gosto de literatura ocidental também.
A senhora gosta de História, a seu ver é importante conhecer História.
Você conhecendo História pode prever muitas coisas do futuro. Com a História você pode aprender.
Quem quiser conhecer a sua arte em tocar pandeiro qual é o horário em que o conjunto se apresenta?
O Conjunto se apresenta todas as quintas feiras das duas horas até as quatro horas da tarde, no Lar dos Velhinhos.


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