Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sexta-feira, setembro 30, 2016

ZORAIDE ROSAMIGLIA MIORI

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 27 de agosto de 2016.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADA: ZORAIDE ROSAMIGLIA MIORI





Zoraide Rosamiglia Miori nasceu em Piracicaba a 9 de novembro de 1933, é filha de Nicolau Rosamiglia e Maria Zitto Rosamiglia, nascida em Piracicaba a Rua do Porto. Era tia de José Provenzano um dos donos da Relojoaria Provenzano situada a Rua Boa Morte.
Qual era a atividade do pai da senhora?
Era marceneiro, fazia coisas lindas! Fazia entalhes maravilhosos. Era um artista. Meu pai era nascido em Piracicaba, filho de italianos. Ele tinha marcenaria na Rua Moraes Barros, em Piracicaba. Tempo em que existiam os marceneiros Simoni, Nardin. Morávamos em frente a casa do De Sordi. Contrariando a minha mãe, meu pai decidiu morar em Rio das Pedras, que na época não tinha rede de esgoto, calçamento. Isso foi no inicio de 1937
Seus pai tiveram quantos filhos?
Onze filhos: Floripes, Pascoalino, Vera, Orlando que faleceu muito novo, quando nasceu outro menino minha mãe colocou o nome de Orlando, Moacir, Zoraide, Nelson, também faleceu muito pequeno, quando nasceu outro menino minha mãe colocou o nome de Nelson, Ivanilde e José Eduardo. Aos 43 anos minha mãe teve o último filho, três meses depois ela faleceu de um colapso cardíaco.
E quem cuidou dessas crianças?
Aminha irmã mais velha ficou por um tempo cuidando, depois ela casou-se com Américo Marino. Outra irmã, a Vera, assumiu toda a responsabilidade, ela tinha 19 anos e eu 10 anos.
O pai da senhora tinha uma oficina de marcenaria?
Os filhos mais velhos o ajudavam. Quatro filhos permaneceram ajudando e um foi estudar em São Paulo. A marcenaria fabricava moveis em geral. Moveis entalhados. Para manter essa família meu pai trabalhou muito. Morávamos a Rua Rangel Pestana número, 129 conhecida como“Rua Torta”. Fica margeando o Córrego Tijuco Preto. . O proprietário da casa de Rio das Pedras queria vende-la casa para nós, sabia que o meu pai não estava satisfeito em pagar aluguel da casa em que morávamos em Piracicaba. Ele ia todos os dias para oferecer a casa ao meu pai. Isso fez com que meu pai e minha mãe, que não queria mudar, entrassem em conflito. Meu pai acabou comprando a casa em Rio das Pedras para deixar de pagar aluguel em Piracicaba. As crianças acostumaram-se logo, os filhos mais velhos estranharam um pouco.




Naquele tempo o trem da  Estrada de Ferro Sorocabana passava em Rio das Pedras?
Tinha trem, tinha a famosa jardineira que era como chamávamos os primeiros ônibus, vinha e voltava de Rio das Pedras uma vez por semana. Íamos e voltávamos de Piracicaba utilizando o trem. Passava s onze horas, às quatro horas da tarde e depois tinha o noturno. Eram três horários, apitavam quando chegavam.
Era comum a pessoa ir até a estação de trem para ver quem estava chegando ou partindo?
Quem não tinha o que fazer, ia. A minha filha mais velha até hoje se lembra que quando ia levá-la ao dentista em Piracicaba, ia de trem. Levava uma meia hora para chegar a Piracicaba. Passava pelo bairro rural Chicó e ia até a Estação da Sorocabana em Piracicaba, situada onde é atualmente o terminal de ônibus urbano. Era uma estação bonita. Tinha uma estrada que passava onde atualmente é o Borsatto, em Rio das Pedras, só que quando chovia tinha que colocar corrente de aço nos pneus dos veículos, não havia estrada, esse caminho saía no Bairro Piracicamirim, em Piracicaba. A estrada que liga Rio das Pedras até a Rodovia Cornélio Pires não existia. Havia uma porteira, essa fazenda era do meu cunhado Américo Marino e do seu irmão Nicolau Marino pai do Natin, ali era tudo fazendas: Santa Maria, Fortaleza.
Qual era o produto cultivado nessas fazendas?
Quando eu era criança, era o algodão. Depois é que veio a plantação da cana-de-açúcar.
Em Rio das Pedras a senhora freqüentou a escola?
Fiz o curso primário no Grupo Escolar Barão de Serra Negra. Minha primeira professora foi Dona Idalina Andrade Leone, ela que me alfabetizou.
Naquela época era muito comum ao concluir o primário dar por encerrados os estudos.
A minha mãe faleceu em outubro eu tirei o diploma em novembro. Para continuar os estudos teria que ficar interna no Colégio Assunção, em Piracicaba, não tinha meios de ir e voltar todos os dias.  E tinha a escola Sud Mennucci, onde meus irmãos mais novos estudaram.  Eu não pude ir, tinha que ajudar a minha irmã, principalmente com menino, nosso irmãozinho, que era pequenininho, tinha uns três meses. Minha função foi essa, ainda criança comecei a ajudar e aprender. Foi uma faculdade!
A senhora e sua irmã tinham que cozinhar para a família toda?
Eram dez pessoas que se alimentavam. Fazíamos em panelas enormes, o fogão era de lenha. Não havia rede de esgoto, o sanitário era fora de casa (fossa séptica), água encanada já tinha assim como luz elétrica.










A rua comercial de Rio das Pedras, a Rua Prudente de Moraes era chão de terra?
Era tudo chão de terra. Assim como a cidade toda. Quem calçou a cidade foi o prefeito Caetano Oscar Waldemar Gramani.
Tinha algum tipo de lazer?
Tinha muito baile. A Sociedade Cultural Riopedrense, que antes da Segunda Guerra Mundial chamava-se Sociedade Italiana era animada Nós íamos aos bailinhos aos fins de semana, com discos, uma vez por mês tinha baile com conjunto ao vivo. Quando comecei a freqüentar os bailes tinha meus 17 a 18 anos. Meus irmãos também gostavam de dançar, frequentavam também, meu pai fica tranqüilo. Antes de me casar eu fazia parte do coral da igreja, era solista. Cantei muito em casamentos. Ajudava e participava das quermesses que ocorriam atrás da igreja, não havia água direta, tinha que ligar na hora.  Não existia o Salão Paroquial. Ali fazíamos nossas brincadeiras, roleta de prendas, almoços, jantares, eu participava disso tudo. Graças a Deus tudo que tentamos fazer deu certo. Na época eu fiquei uns dois ou três anos como Presidente do Conselho da Igreja, das quermesses.  Senhor Horácio Limongi Apesar de ter mais idade do que eu o Senhor Horácio Limongi e eu trabalhávamos juntos. Na época eu tinha uns 23 a 24 anos. Eu gostava, sempre fui muito entusiasmada com as coisas. Acho que é isso que conta, gostar da vida. Na praça central não havia a Concha Acústica, existia um coreto com duas patas, do bico de cada uma delas saia água.
Coma senhora conheceu o seu futuro marido? 
Ele sempre morou aqui em Rio das Pedras, embora tenha nascido em Capivari. O seu nome é Alcides Miori. Ele era músico, tocava pistão, era amigo do meu irmão mais velho.  Foi uma pessoa sempre muito correta. Com vinte e poucos anos ele adquiriu o Bar Chic, ficava próximo a igreja, por uns dez anos ele teve esse bar, tinha dois irmãos que o ajudavam. Quando íamos aos bailes o conjunto que tocava era dele. Quando começaram as quermesses ele já tinha vendido o bar. Ele e seus irmãos montaram uma sociedade e passaram a ser proprietários da Miori S/A que produz a Caninha Riopedrense. Em uma dessas quermesses alguém veio me dizer que o Alcides estava interessado em mim. Isso na época em que tinha o “correio elegante”. Quando ele arrematava alguma coisa diferente ele mandava para mim. Aquelas pequenas coisas foram me conquistando.


ZORAIDE

MODELO EM PROPAGANDA DE REDE DE FÁRMÁCIA

                                       PORTEIRA QUE EXISTIA NA ESTAÇÃO DE TREM

ZORAIDE AINDA MUITO JOVEM 

PASSEIO EM PIRASSUNUNGA E, 1956

LEMBRANÇA DIPLOMA 1944

BAR CHIC



BAR CHIC

PROCISSÃO COM DECORAÇÃO EM FLORES TRAZIDAS DE PIRACICABA

                                                        FORDINHO 1929


Vocês casaram-se quando?
Casamos no dia 6 de junho de 1964, casamos no civil, no dia 7 casamo-nos na Igreja Matriz Bom Jesus, em Rio das Pedras, foi um casamento muito bonito, foi o primeiro casamento com missa em nossa cidade. O padre celebrante, Padre Aloisio Berange, era de origem francesa, tinha sido transferido do Rio de Janeiro para Rio das Pedras. A nossa lua de mel foi em Poços de Caldas.
Quando voltaram foram residir aonde?
Na casa que tinha sido do meu pai. Era uma casa boa, meu pai tinha falecido, eu tinha dois irmãos comigo, uma era professora que lecionava durante o dia e dava cursos para adultos a noite. E o meu irmão caçula, trabalhava com os meus irmãos durante o dia e estudava a noite. Em família decidimos que seria bom para todos que morássemos juntos aos dois naquela casa. Após quatro anos, já tinha meus dois filhos a Maria Angélica e o Alcides, meu marido comprou o terreno e construímos aqui.
A senhora sempre permaneceu trabalhando em casa?
Naquela época a mulher geralmente permanecia em casa, como dona de casa, no período escolar dos meus filhos fui presidente da APM – Associação de Pais e Mestres do Grupo Escolar Barão de Serra Negra.
Qual é a relação de parentesco da senhora e o Comendador Oswaldo Miori?   
É meu sobrinho, sobrinho do meu marido.
Quem fundou a Riopedrense?
Foi a família do meu marido: Oswaldo, Avelino, Donato, Alcides, Américo, Durvalino e Constante. Eles começaram a engarrafar em pequena escala, terras eles já tinham bastante, passaram a produzir, montaram uma usina perto de Dobrada, na Fazenda Ximbó.
A Caninha Riopedrense teve uma época em que foi famosa no Brasil inteiro?
Foi! Só que o meu marido não ficava no setor da aguardente. Como tinha o Supermercados Miori meu marido foi direcionado para ficar no supermercado. Ficava na Rua Prudente de Moraes, em Rio Das Pedras, mais tarde ali funcionou o Supermercado Defavari. O Supermercado Miori trouxe uma grande mudança no comércio local. Foi o primeiro e era muito bonito. Meu marido permaneceu uns dez anos no supermercado. Quando o supermercado foi fechado ele já estava aposentado. Ele tinha uns setenta e poucos anos. Ele faleceu com 81 anos.
A senhora chegou a freqüentar o cinema de Rio das Pedras?
Era uma delicia! Chamava-se Cine Ipiranga. Só tinha sessões as quarta feiras, sábados e domingos, começava às sete horas da noite. Em cima do cinema tinha um salão de baile, O meu cunhado Américo Marino casado com a minha irmã Floripes e o seu irmão Nicolau Marino, pai do Natin, que construíram o prédio do cinema. O Natin naquela época era mocinho, jogava no XV de Novembro de Piracicaba. O prédio foi inaugurado a 7 de setembro de 1945. Naquela época eu estava usando luto ainda, pelo falecimento da minha mãe. Era costume, adultos e crianças vestirem-se com roupas pretas em sinal de luto, e assim vestiam-se por longo tempo.
A senhora lembra-se de quando as missas eram realizadas em latim?
Eu cantava em Missa de Réquiem, também conhecida como "Missa para os mortos" (do latim: Missa pro defunctis)”, cantava em latim, cantei muitas missas em latim. Eu cantava de Verônica em latim. Fui Verônica vários anos, mesmo depois de casada.
O que é música de Verônica?
É um lamento. Ela é cantada em cada estação a mesma música. Durante a procissão há quinze estações (A jovem, conhecida simplesmente por Verônica, é uma representação de Santa Verônica no seu encontro com Cristo na Via Crucis. Geralmente enverga um manto, por vezes complementado por um véu. O texto tradicionalmente cantado é o responsório em motete. O vos omnes, inspirado no versículo 1:12 do Livro das Lamentações, cuja autoria é atribuída a Carlo Gesualdo, que o incluiu na sua obra Tenebrae Responsoria)
Canto da Verónica (latim)
Responsorium :
O vos omnes
Qui transitis per viam,
Attendite, et videte
Si est dolor similis sicut dolor meus.

Versus :
Attendite, universi populi
Et videte dolorem meum.
Canto da Verónica (português)
Responsório:
Oh vós todos
Que passais pela via,
Vinde e vede:
Se há dor semelhante à minha!
Verseto :
Atentai, povos do mundo,
E vede a minha dor.
E tem que cantar com a alma?
Sem música, sem acompanhamento, sem nada. Tinha uma roupa preta, usava um véu preto, longo, tinha a estampa da face de Cristo, quando começava a cantar ia desenrolando, quando estava terminando enrolava de novo. As paradas eram em média a cada 150 metros. O percurso era: saía da igreja, passava atrás da igreja, descia até o bairro Bom Retiro e depois vinha pela Rua Prudente de Moraes até a igreja. Quando ia cantar às vezes subia em uma cadeira ou em um banco. Uma vez cantei no terraço da casa do Dr. Gorga. Ali é bem alto.
A senhora tem uma ligação muito forte com a Igreja.
Muito! Em uma ocasião enfeitamos uma enorme cruz só com crisântemos de várias cores, foi montada no quintal da casa da minha irmã, depois saiu o andor pelas ruas da cidade, na procissão de Bom Jesus, que agora não é feita mais. Em uma das ocasiões o Padre Zambon pediu que fizesse um bolo enorme, para a comemoração de uma data especial. Foram 130 placas de massa de bolo. O primeiro bolo tinha dez metros de comprimento. Em quinze minutos acabou. O segundo tinha mais do que o dobro do tamanho.
Rio das Pedras tinha uma banda de Jazz?
Meu marido tinha uma banda, a “Jazz Band Riopedrense” composta por Constance Miori, Silvinho, José Farah, Alcides e Luis Betiol. Nessa época meu marido era solteiro, devia ter uns 22 a 23 anos.
A senhora sempre foi uma pessoa muito ativa, trabalhando prol a comunidade. No período das eleições os candidatos a procuram para pedir apoio?
Eles vêm muito até a minha casa,
Em Rio das Pedras existe uma praça que tem o nome da senhora em sua homenagem?
Ela foi inaugurada em 11 de julho de 2009, quando Rio das Pedras fez 115 anos.
Desde que ano que a senhora é ministra da Eucaristia?
Desde 1996.
O que faz um Ministro da Eucaristia?
O Ministro da Eucaristia tem o seu trabalho dentro da igreja, faz parte de uma pastoral, existem várias pastorais. Além de fazer o seu trabalho dentro da igreja, tem ir dar a comunhão para os doentes, visitá-los, isso é feito uma vez por semana. Logo em seguida que eu comecei a participar o Padre Eugênio em uma das reuniões disse-me que gostaria que o ajudasse nas exéquias.
O que  são exéquias?
São orações com o auxílio das quais a comunidade cristã acompanha e homenageia seus mortos. Tem uma oração apropriada. Teve uma época em que havia mais dois ou três Ministros da Eucaristia para ajudar. Depois faleceram, permaneci por uns sete ou oito anos sozinha. Chegava a ir até duas por dia ao velório.
O que a motiva a trabalhar como voluntária, exercendo a função de Ministra da Eucaristia?
É o espírito de colaboração os sacerdotes pediam e eu fui colaborando. Houve a troca de vários padres e eu permaneci.
Qual é o sentimento que a senhora tem quando realiza um trabalho desses?
Tantos as Exéquias como as visitas aos doentes, me trazem uma realização muito grande. Nas exéquias levamos o conforto para a família, procedemos a entrega do corpo à Deus, mas também temos uma palavra para a família, alguns aceitam de uma forma mais fácil, outros já tem muita dificuldade em aceitarem a perda de um ente querido. Na Igreja não tem o que comentar, é algo muito lindo. Muito sublime.
As exéquias têm um horário determinado para fazer?
Eles telefonam para a paróquia e a paróquia liga para mim, dizendo a que horas será o sepultamento. Eu vou à hora em que eu posso. À noite eu não vou não se sepulta a noite. Algumas vezes tive que levantar mais cedo para ir ao velório.
Como a família reage com a senhora?
Sou muito bem acolhida! É uma liturgia que eu não sabia fazer, aprendi, com o tempo fui aperfeiçoando. Sempre fiz com muito carinho. Com amor. É difícil quando vemos uma criança chorando pelo falecimento do pai ou da mãe. Nessas horas tenho que ser muito forte. Tenho que concentrar-me no que estou fazendo e depois de terminada a minha função religiosa, posso tentar fazer algo para amenizar a dor daqueles que mais precisam. Já aconteceu uma vez, uma menina chorava copiosamente, fiquei penalizada, e identifique-me com ela, eu também tinha passado por isso quando a minha mãe faleceu. Quando terminei as orações junto a falecida, aproximei-me da menina, busquei um local mais tranqüilo, levei-a, conversei muito com ela. Ela acabou acomodando-se, Mas é difícil.
A senhora sem querer abraça um pouco a dor da família?
Sim! Naquele momento sim!
Como os doentes que recebem a sua visita são indicados à senhora?
O critério utilizado é visitar as famílias mais próximas da casa de cada voluntário. Atualmente somos em 40 Ministros da Eucaristia, Ministro de Exéquias somos duas.
A seu ver o leigo tem que ser mais participativo das atividades ritualísticas da Igreja?
Eu acho que sim. Apenas o padre não consegue desenvolver todo trabalho necessário, a comunidade é grande. Eu também participo da liturgia, que é a participação de pessoas durante a missa. Acabada a coleta do óbolo, é recolhida, vai para a sacristia, o valor coletado é contado, anota-se em dois papéis o valor, um papel com a anotação do valor vai dentro da sacola e outro vai para o altar, para o padre informar aos fiéis de quanto foi o valor recebido. Cabe ao padre dar os melhores destinos a coleta: manutenção da igreja, da casa paroquial, auxílio a necessitados.
Os Vicentinos têm uma expressão muito forte em Rio das Pedras?
Tem! Trabalham muito bem. Dão bastante assistência.
Antigamente existia o confessionário onde o padre ficava e o fiel postava-se de joelhos, do lado de fora e confessava-se. Atualmente não existe mais isso?
Hoje é um contato mais direto, não existe mais esse tipo de procedimento. Tanto o confessor como quem está confessando ficam de frente um para o outro. Dessa forma é muito melhor, agora temos mais uma direção espiritual. Há mais liberdade em falar. Não é um procedimento repetitivo. Da forma atual, sentamos, conversamos, tiramos as dúvidas. Se houver algo errado é dito. E ali recebemos a absolvição.
O número de psicólogos aumentou muito e diminuiu muito o número de confissões junto à igreja, o psicólogo de certa forma está ocupando um espaço que anteriormente era ocupado pelas confissões junto ao padre?
Sim! Tem muitas pessoas que não se confessam com o padre, mas contam muitas coisas ao psicólogo. Conheci uma pessoa da família que foi professor de psicologia na USP- Universidade e São Paulo, já faleceu. Aos psicólogos as pessoas falam tudo sobre sua vida. Basicamente o psicólogo só escuta a pessoa falar dos seus problemas. De certa forma o católico, talvez inconscientemente transferiu-se do confessionário para o consultório do psicólogo.
Ou seja, o ser humano tem a necessidade de externar os seus problemas?
Sim é uma necessidade inerente ao homem.
O Ministro da Eucaristia não realiza confissões?
Não! Existe um movimento dentro da Igreja Católica para a criação de sacerdotisas. O Papa tem feito reuniões visando esse fim, formar sacerdotisas.
A senhora tem o desejo de tornar-se uma sacerdotisa?
Infelizmente já não tenho mais idade para isso! Mesmo que eu fosse mais nova, possivelmente não seria. É uma responsabilidade muito grande, é possível cometer um erro, todo mundo erra. Muitas vezes temos a convicção de que estamos fazendo a coisa certa, por exemplo, a educação dos filhos, nós muitas vezes pensamos que estamos fazendo as coisas da maneira correta, e não estamos! Assim é a igreja. Vamos até onde achamos que a nossa situação permite.
Como a senhora vê atualmente a freqüência de fiéis á igreja?
Os meus pais não iam muito a igreja, não tinham tempo, com todos aqueles filhos para cuidar, prover sustento. Recebiam a imagem de Nossa Senhora no mês de maio, eles nos mandavam fazer às vezes deles na igreja. Hoje vejo pai, mãe e filhos na igreja. Sábado passado foi o dia de Bom Jesus, se entrasse na igreja não tinha lugar nem para respirar! Na verdade nossa igreja está pequena. Uma vez por mês tem a missa do Santíssimo há uma freqüência muito grande. Há muita fé, muita devoção. 
Atualmente o pároco de Rio das Pedras como se chama?
Seu nome é Luiz Antonio Favoretto. Pelo que eu sei é natural de Rio Claro, a paróquia em que ele trabalhava antes vir para Rio das Pedras foi a paróquia do CECAP em Piracicaba.
Como a senhora tornou-se personagem principal da propaganda de uma rede de farmácias?
Eu estava na igreja, tinha uma família que de vez em quando vinha assistir a missa aqui em Rio das Pedras, foi em 2013. O responsável pela agência freqüentava muito a casa do Padre Luiz Souza Lima que antecedeu o padre atual. Uma pessoa da agência convidou-me para fazer uma campanha para a Rede de Farmácias Drogal. As imagens e fotografias foram feitas em uma das unidades da Drogal na Avenida Independência, não a que fica em frente a Santa Casa, mas uma mais para frente no sentido da Escola de Agronomia. Fizeram banner, capa de revista, filmes.
Quanto tempo a senhora gastou para fazer as fotografias e a gravação em vídeo?
Saímos a s 8:30h e voltamos as 16:00h. Foi divulgado no Estado de São Paulo todo. Quando ocorreu a divulgação recebi muitos telefonemas. Mais duas pessoas participaram da campanha, tem até uma foto minha saindo com um senhor, como se estivéssemos adquirido remédios. 
A senhora faz também um trabalho voluntário em benefício da Santa Casa de Rio das Pedras?
Faço! Não trabalho lá dentro, reunimos algumas amigas e através de doações, fazemos um pequeno bingo beneficente, geralmente as segundas-feiras. Iniciamos em 2007 a 2008.  Temos uma conta no banco, só para essa finalidade, depositamos todo o dinheiro arrecadado, quando tem certa quantia levamos para as Irmãs da Santa Casa.
E as prendas surgem como?
Nós mesmas que compramos! Para nós é uma distração e sabemos para aonde vai o dinheiro. São todas senhoras idosas. Com isso temos aonde ir na segunda-feira.
Em frente a Igreja Matriz existe um sobrado muito antigo, que preserva suas características originais, a senhora chegou a conhecer as pessoas que ali moraram?
Era o tempo da glória! Na época ali morava a família Saliba. Eram pessoas muito boas. Lembro de alguns dos irmãos: Dr. Wahibo João Saliba, João, Elias, conheci todos eles. Eram primos do Dr. João Basilio que nasceu em Rio das Pedras.
A senhora foi rotariana?
Fui por pouco tempo. Lembro-me dos desfiles, das fanfarras, lembro-me quando vinha de Piracicaba a Silvia Hage, era baliza, ia desfilando a frente da fanfarra.
Um pouco antes do inicio da estrada vicinal que liga Rio das Pedras até a Rodovia do Açúcar existe uma capela, qual é o nome dessa capela?
É a Capela Santa Cruz. Indo por essa estrada tem outra capela, é a Capela do Barão de Serra Negra, ali que foi sepultado o Barão de Serra Negra. Mais tarde fizeram o translado dos seus restos mortais para Piracicaba. Aquela fazenda pertencia ao Barão de Serra Negra, é a Fazenda Bom Jardim. Tivemos em Rio das Pedras as usinas de cana-de-açúcar: Usina Bom Jesus; São José; São Jorge e a Santa Helena. As Usinas São José e São Jorge eram próximas. Só permaneceu a Usina Santa Helena. Nas comunidades rurais de Rio das Pedras ainda existe capelas.
Teve uma época em que havia muita Santa Cruz?
Eram pequenas capelinhas que marcavam o local aonde havia falecido uma ou mais pessoas, em acidente ou morte natural. Esse costume diminuiu muito, hoje tem poucas. No caminho de quem vai para a Fazenda Viegas, da família Basílio, ali tinha a capela onde o padre Geraldo foi assassinado.
A senhora chegou a freqüentar a fábrica de macarrão que existia cujo prédio existe até hoje?
Conheci a fábrica de macarrão, eu era criança, ficava no final da Rua de Baixo. Rua Torta e Rua de Baixo são dois nomes dados para a mesma rua cujo nome oficial é Rua Rangel Pestana. A Rua do Meio é aquela que fica paralela a Rua Rangel Pestana, é a também conhecida como Rua de Cima. A fábrica era do Seu Horácio Limongi, nós íamos muito lá porque naquela época o Seu Horácio era sócio do Seu Nicolau Marino. A família Limongi tinha padaria, e no fundo a fábrica de refrigerantes, a famosa Gengibirra,Itubaina, o Licor de Cacau Sublime. Muitas vezes íamos lá brincar e ganhávamos sorvetes de palito. A Tereza era nossa amiga, eles davam sorvete pra nós. Na padaria, além do pão comum faziam o pão de mel. Lembro-me bem da época da guerra, o trigo foi racionado, havia uma cota para comprarmos pão, enfrentava fila.
A cidade de Rio das Pedras em sua maioria era composta por imigrantes, principalmente italianos,  no período da Segunda Guerra Mundial, a senhora lembra-se de ter visto ou sabido de algum problema político?
 Teve! Os italianos não podiam ter rádio em casa. Confiscavam o rádio. Meu pai tinha rádio, mas era brasileiro. Eu conheci muitas pessoas que perderam o rádio. Nós tínhamos um cabo da polícia, o Pedro Salgado, ele andava com reio, todo mundo respeitava. A delegacia era onde mantém o prédio até hoje.   Entre a igreja e o local onde hoje tem uma cruz, havia duas casas, em uma delas ficava a câmara municipal e a prefeitura e em outra casa o posto de saúde, foram ambas demolidas, dando espaço para a praça. A Câmara e a prefeitura eram ao lado da igreja.
Rio das Pedras cresceu muito?
O grande problema é que a cidade não tem recursos hídricos, não temos água, as autoridades incentivam a construção de casas populares sem se atentarem ao fato de que a água é escassa. Há solução, o armazenamento da água em períodos chuvosos é uma das soluções, porém isso não é feito. Futuramente o grande problema que enfrentaremos será a falta de água. Trabalhei no Fundo Social de Solidariedade com o Prefeito Prefeito Antônio Costa Galvão por quatro anos e depois por oito anos com o Prefeito Marcos Buzetto, conhecido como Marquinho, trabalho voluntário, não remunerado.
Como a senhora vê o envolvimento da Igreja com a política?
Há um lado positivo, serve para conscientizar as pessoas dos seus direitos e deveres.




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