Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sexta-feira, maio 13, 2016

JOSÉ FERREIRA (ZÉ PRADÃO)

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 14 de maio de 2016.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: JOSÉ FERREIRA (ZÉ PRADÃO)



José Ferreira desde muito cedo começou a gostar de escrever. Aos quatorze anos já escrevia com regularidade. Extremamente observador dos hábitos e costumes, procurava registrar os fatos que presenciava ou ouvia falar. Em pouco tempo tinha acumulado uma série de cadernos, com registros históricos de uma época. O destino quis testar sua tenacidade e sua vocação, um dia ao voltar do seu trabalho ao local onde morava, só encontrou as cinzas de um incêndio. O que um dia tinha sido seu maior bem, seus escritos, agora estavam destruídos. O choque foi grande para ele. Mas a vida tinha que continuar. De origem humilde, teve que trabalhar ainda muito cedo para ajudar a compor os escassos ganhos da família. Com o passar do tempo, o sonho maior falou mais alto, e aos poucos José retornou a escrever. Hoje já aposentado, quase de forma compulsiva ele escreve. Escreve muito. Com letra caprichada, vai dia a dia preenchendo grossos cadernos. Desperta a curiosidade natural de alguns. Outros julgam que é apenas um capricho. Mas aos poucos ele vai revelando o interior do seu ser, a sua extrema capacidade de observação de hábitos e costumes, e transforma tudo isso em contos, poesias, frases. Um historiador e escritor nato. Nascido a 5 de maio de 1942, a Rua XV de Novembro entre a Rua Aquilino Pacheco e a Rua Silva Jardim no Bairro Alto, em Piracicaba. José em seus escritos aborda de formas diferentes, em histórias, poesias, frases, o cotidiano. É uma escrita pura, que nasce do seu intimo, de suas observações. Um autêntico artista que apesar de não aquecer as cadeiras das escolas por muito tempo se expressa de forma objetiva, artística. Um grande valor literário, sem dúvida.



Onde hoje é o Estádio Barão de Serra Negra tinha o que naquela época?
Tinha um bosque, eu brincava ali quando criança. Já existia aquela árvore frondosa que permanece até hoje, a sapucaia. A fruta dela tinha o formato de coco com uma espécie de tampa, quando amadurecia aquela “tampa” caia. Dentro havia uma espécie de noz. .Em frente ao Cemitério da Saudade havia um largo, éramos crianças, um pegou uma enxada, outro pegou o rastelo, e decidimos fazer um campinho de futebol ali. No bosque havia um bambuzeiro, fomos lá e pegamos uns bambus grossos, fizemos a trave, quando marcávamos um joguinho contra algum time adversário pegávamos cal e marcávamos as linhas do campo.
Qual era a atividade do seu pai?
Era pedreiro, seu nome era Antonio Ferreira e minha mãe chamava-se Dulcilia Conversa Ferreira. Eles tiveram os filhos: José, Maria Luiza, Ana Maria e Alcides.
O senhor estudou em qual escola? 
Comecei no Grupo Escolar Alfredo Cardoso, naquela época era atrás da Igreja Bom Jesus. Depois eu fui para o Grupo Escolar Prudente de Moraes que ficava onde hoje é o Museu Prudente de Moraes, na esquina da Rua Santo Antonio com a Rua Treze de Maio. Como eu era muito novo minha mãe me trazia a pé do Bairro Alto até a escola. Consegui voltar ao Grupo Escolar Alfredo Cardoso, no prédio que está até hoje. Antes ali tinha sido estação de trem da Estrada de Ferro Sorocabana, nós chamávamos ali de Largo da Estação. Estudei até o quarto ano primário. Ai eu comecei a trabalhar.
Em que local foi seu primeiro emprego?
Com aproximadamente treze anos fui trabalhar para a Prefeitura Municipal no “Rec-Rec”. O serviço era tirar grama dos vãos entre os paralelepípedos e a grama que nascia no leito carroçável, sarjetas.  Trabalhava a maior parte do tempo com a coluna dobrada, o chefe não era fácil, se desse uma paradinha ele dizia: “Vamos, vamos...”. A água era armazenada e servida em um corote de madeira. Entrava no serviço as sete horas da manhã, parava para almoçar as dez horas, as duas horas da tarde tinha café com leite. A nossa sede era na Avenida Dr. Paulo de Moraes, no prédio da prefeitura. Só que nosso chefe dizia: “ Amanhã vamos começar o serviço em tal rua”. As ferramentas eram levadas pela prefeitura para essa determinada rua na véspera.
Como eram as ferramentas?
Sabe esses arcos de barril? Íamos a diversos lugares, pedíamos aqueles arcos de barril, nós é que tínhamos que ir atrás, não era a prefeitura. Tinha os mais largos e os mais estreitos que chamávamos de ferrinho. O maior era usado em touceira de grama. Quando era touceira muito grande usávamos a enxada. As ferramentas eram amoladas com lima
Quanto tempo o senhor trabalhou no “Rec-Rec”?
Trabalhei quando o prefeito era o Dr. Samuel de Castro Neves.
O senhor chegou a conhecer o Teatro Santo Estevão?
Conheci! Inclusive tenho uma história relacionada ao prédio do Teatro Santo Estevão. Naquela época eu estava estudando das duas e meia às cinco e meia da tarde no Grupo Prudente de Moraes, que era onde é o Museu atualmente. Minha mãe me levou até a escola. As cinco e meia eu saí e passei em frente ao Teatro, bem na frente da porta do Teatro Santo Estevão quando fui descer a guia, vi algo embrulhadinho, Peguei e olhei, eram Cinco Mil Réis! Ali tinha um ponto de carro de praça (taxi). Coloquei no bolso rapidamente, desci a Rua São José, entrei na Rua Governador Pedro de Toledo, desci a Rua Moraes Barros, correndo sempre, virei na Rua José Pinto de Almeida, subi a Rua XV de Novembro, cheguei em casa quase sem fôlego, minha mãe perguntou-me por que eu estava correndo tanto. Contei o que tinha achado. Minha mãe quis saber onde eu achei. Contei toda a história para ela. Ela mandou que eu permanecesse com o uniforme da escola, ela se aprontou, disse-me: “-Vamos aonde você achou o dinheiro!” Fomos a pé até o Teatro. Ela quis saber em que lugar eu havia achado aquele dinheiro. Mostrei o local. Ela perguntou-me se alguém viu. Eu respondi-lhe que era possível que os motoristas de carro de praça tivessem visto. Minha mãe foi e perguntou ao Mingo Fantasia, que era um dos mais antigos motoristas de carro de praça. Ele morava perto de casa, na Rua Moraes Barros em frente ao Grupo Escolar Alfredo Cardoso
Ela disse: “Seu Domingos, esse é meu filho, o senhor conhece, ele disse que achou esse dinheiro aqui. “Seu Domingos respondeu: “- Ele achou mesmo Dona Dulcilia. Nós vimos quando ele abaixou e depois vimos àquela criança correndo. Fomos ver atrás do Teatro se não tinha ninguém o ameaçando. Nós vimos ele achando”  Minha mãe deu até um suspiro. O Seu Domingos disse: “A senhora veio lá do Bairro Alto, a pé só para confirmar?” Minha mãe respondeu: “Eu tenho que confirmar”.
Nessa época o senhor  trabalhava como pedreiro?
Ele já estava trabalhando no Cemitério da Saudade, junto com o me pai, o nome dele era Antonio Ferreira, mas era conhecido como Pradão. Isso porque na entrada do cemitério tem uma imagem do Pradão com um livro. Quando ele começou a trabalhar lá colocaram o apelido e ficou conhecido como Pradão. Quando ele faleceu a nota dizia que tinha falecido Antonio Ferreira, o Pradão. Ninguém o conhecia por Antonio.

João de Almeida Prado é conhecido como homem do livro no cemitério, diz a lenda que de vez em quando o livro está em sua mão e as vezes no chão





ANTONIO (JÁ FALECIDO) IRMÃO DE JOSÉ FERREIRA 
Entrevista dada â alunos do Curso de Jornalismo da UNIMEP

Você tem apelido?
Quando eu jogava no time “Paulistano” que ficava no Bairro Alto, na esquina da Rua Silva Jardim, o Ari Rizzo tinha uma lojinha na Rua Moraes Barros bem em frente ao campinho. O Hugo Olivetto (Que por algum tempo ficou conhecido como um dos homens mais pesados de Piracicaba, chegou a fazer até propagandas comerciais em função da sua condição física), morava ali perto. Fomos falar com o Ari, estávamos formando um time, queríamos adquirir um jogo de camisas, só que não tínhamos dinheiro, pagaríamos quando pudéssemos. Ele nos deu 12 camisas. No time tinha o José Zambello, branco. Combinamos eu era Zé Preto e ele Zé Branco. Era uma época diferente, havia pureza de sentimentos. A escola era uma beleza, um silêncio! No Grupo Prudente de Moraes tive como professora Dona Célia.
Qual foi o próximo emprego em que o senhor trabalhou?
Fui trabalhar em uma selaria na Rua Governador Pedro de Toledo, quase na esquina da Avenida Independência, de propriedade de Marcelo, o Marcelino Mendes e do Toninho eram irmãos. Um tomava conta da loja e o Marcelo tomava conta e nos ensinava o ofício atrás, no barracão. Depois eles compraram do Augusto Baldo a selaria na esquina do mercado e daí mudaram-se para lá. Eu passei a trabalhar para o Laerte Tremacoldi, ele tinha uma fábrica de barcos, atrás do Grupo Alfredo Cardoso, os barracões estão até hoje lá. A parte debaixo do barracão era a fábrica de barcos. Comecei fazendo limpeza, aos poucos ele foi me ensinando a parte de pintura, apertar parafusos nos barcos. Após algum tempo sai e fui trabalhar com o meu pai. Eu tinha uns quinze anos.
O primeiro dia em que o senhor foi trabalhar com o seu pai, no Cemitério da Saudade, qual foi a reação do senhor?
Foi normal. Entramos meu irmão e eu. Naquela época não se usava o pedrisco para fazer concreto, Meu irmão e eu ficávamos de segunda feira até sábado quebrando aqueles pedaços de tijolos, em cima de uma pedra de paralelepípedo.No sábado nós a peneirávamos e mediamos em uma lata de dezoito litros. O empreiteiro Firmino José Ribeiro chegava, outro empreiteiro era o Xoxo. Nós mediamos, meu pai marcava. Ele dizia: “Os meninos quebraram tantas latas de pedrinha”.  Eles pagavam o meu pai, quando chegava aos sábados, meu pai dava um mil réis para nós. Íamos ao cinema São José, meu irmão e eu, quando chegávamos, na portaria tinha um senhor já bem idoso que vendia um doce baratinho chamado de mata-fome. Comprávamos uma para cada um de nós e subíamos para assistir filmes de bang-bang com Tom Mix, Buck Jones, Roy Rogers. Não deixava de ir um sábado sequer. Na Igreja Bom Jesus tinha o Cine Paroquial, lá não pagávamos nada. A molecada pobre do bairro lotava o Cine Paroquial. Naquele tempo usávamos ainda calças curtas e pé descalço. Fui colocar uma alpargata no pé aos quinze anos. O pessoal chamava a Alpargatas Roda de “enxuga-poça”. Um dia uma vizinha chegou para a minha mãe e disse: “Dona Dulcilia, experimente esse sapato no pé do Zézinho, assim eu era chamado no bairro, era do meu filho”. Minha mãe pegou, agradeceu, experimentei o sapato. Parece que tinha sido feito para mim.  Foi meu primeiro sapato, eu tinha quinze anos. Foi uma festa. Eu disse ao meu irmão: “Você vai de alpargatas e eu vou de sapato”. Passou um tempo e ela apareceu com outro par de sapatos, perguntou à minha mãe: “-Vê se serve para o Nenê”, que era o apelido do meu irmão Antonio Ferreira Filho. Era meio grandinho, mas minha mãe enchia de jornal na ponta e deu certo. Meu irmão disse-me: “Não é só você que vai de sapato, eu também vou!. Essa vizinha era casada com Ernesto Furlan, eles moravam ao lado da nossa casa.
















No cemitério o senhor após algum tempo quebrando pedra mudou de função?
Passei a ser servente, fazia massa, dava os tijolos. Naquela época eu era servente de Antonio Ferraz, conhecido como Nico, irmão do Xoxo. O nome do Xoxo era Aristides José Maria, ele era conhecido como Xoxo desde quando jogava futebol no Palmeirão, no Palmeirinha. Lá ele ganhou o apelido de Xoxo que permaneceu por sua vida e em suas obras no cemitério. Ele colocava uma plaquinha com o nome Xoxo em cada tumulo que fazia. Isso motivou até um fato engraçado, um pessoal da zona rural encomendou um tumulo. Quando ficou pronto chamaram a família para ver. Um dos parentes, desconfiado, bateu no tumulo, e disse: “Não sei não se vai durar muito!”. Os demais quiseram saber porque, ele mostrou a placa escrito Xoxo e disse : “ Olha ali” . Foi quando o Xoxo teve que explicar toda essa história. Lá no cemitério trabalhava também Antonio De Sordi, pai do De Sordinho (Nílton De Sordi que jogou na Seleção Brasileir). Ele era empreiteiro e trabalhava para o Xoxo. Eu trabalhava um pouco com ele e um pouco com o Nico. O De Sordi, assim como os pedreiros daquela época era exigente. Saia às cinco horas da tarde, quando faltavam uns quinze minutos ele dizia: “Pode pegar as ferramentas e lavar”. Tudo tinha que ser muito bem lavado, a colher de pedreiro, enxada, o caixão de massa. Hoje geralmente deixam do jeito que está. O Xoxo montou a marmoraria juntamente com seu sobrinho Osvaldo Perina, o apelido dele era Zito, como sócio. Naquela época chamava-se Marmoraria Bom Jesus. Artur José Maria, filho mais velho do Xoxo ficou tomando conta das obras do pai no cemitério. O Xoxo ficava mais na marmoraria. Eu comecei a trabalhar com ele, já como pedreiro. Era ele, eu e um senhor de idade que nós o chamávamos de “Seu Zico”. Ele era nosso servente, e praticamente um pai para nós. No fim o meu pai começou a empreitar obras por conta própria.. Éramos nós dois ele e eu. Na época havia uma concorrência agressiva, outro empreiteiro fica observando o cliente acertando o serviço com algum construtor. Quando o cliente saia o empreiteiro que estava de olho abordava o cliente e fazia por um preço menor o mesmo serviço. Era uma guerra. Meu pai percebendo o procedimento ocorrido algumas vezes, fez um documento onde o contratante assinava um termo de compromisso, nos termos de uma duplicata. Ele dizia: “- Vou fazer o serviço, quando terminar eu aviso e o senhor paga a duplicata”. Até que meu pai ficou enjoado daquela concorrência o tempo todo e decidiu parar.










O senhor deve ter histórias memoráveis ocorridas no cemitério.
Lembro-me de uma senhora que procurou o meu pai e disse: “-Pradão, quanto você cobra para erguer uma segunda gaveta no tumulo de minha propriedade, que só tem uma gaveta?” O tumulo fica perto do túmulo do Padre Galvão. Meu pai deu o orçamento, Ela estava conversando com o meu pai, eu fiquei meio afastado, meu pai não gostava que ao conversar com uma pessoa alguém, mesmo um filho, ficasse perto dele escutando. Olhei na direção do centro de Piracicaba, vi uma poeira enorme, comentei com um colega que estava perto que estava estranhando aquela poeira. Ele disse-me: “Estou com o rádio ligado. Caiu o Comurba!” Era parte do edifício “Luiz de Queiroz” mais conhecido como COMURBA que era o nome da construtora Companhia de Melhoramentos Urbanos. A mulher que tinha ido conversar com o meu pai amoleceu as pernas e sentou-se. O amigo dele, marido dela, trabalhava como encanador naquela obra. Ela simplesmente disse: “Meu marido trabalha no Comurba!”. Sem saber se ele tinha sido vitima, no outro dia meu pai e eu demos andamento a obra, deixamos preparado para ser usado futuramente. No dia seguinte a mulher voltou e disse ao meu pai: “É Pradão! O túmulo vai ser usado! Meu marido faleceu no acidente do Comurba!”.
O próprio empreiteiro é que fazia o sepultamento?
O sepultamento era feito por funcionários da prefeitura. Depois é que o empreiteiro passou a fazer também o sepultamento. Nesse caso em particular, como o túmulo ainda estava por ser concluído, ele foi autorizado a fazer o sepultamento.
Como funcionava a distribuição de serviço entre os empreiteiros?
Cada empreiteiro era escalado uma semana. Era o Xoxo, o Firmino José Ribeiro, o Fioravante de Lima (Tino), cada semana era um, fazia o rodízio. Trabalhei com todos eles. Naquela época não éramos registrados, havia a necessidade de bons profissionais, quem precisava pagava um pouco a mais e o profissional ia trabalhar para outro empreiteiro.
A porta principal do cemitério foi sempre no mesmo local?
A entrada era pela Avenida independência, o portão existe até hoje, mas segundo consta, em 1906 o vereador Francisco Morato propôs a construção de um portal de entrada que acabou ocasionando a demolição do muro que separava os mortos de diferentes religiões.  O projeto é de Serafino Corso e foi construído por Carlos Zanotta. Diziam que onde é Estádio Barão de Serra Negra, na época em que foi construído, foram achadas ossadas ali.
Quantos anos o senhor trabalhou no Cemitério da Saudade?
Trabalhei 30 anos no Cemitério da Saudade. Não era funcionário da prefeitura, era empreiteiro.




Tinha pessoas que davam gorjetas?0 anos, embora não fosse funcionário da prefeitura Tinha! Acabei tornando-me um pedreiro considerado como bom profissional, eu sempre gostei de fazer o serviço bem direitinho, fiz o sepultamento de Mário Dedini, Leopoldo Dedini, Cassio Paschoal Padovani, só não fiz o de Luciano Guidotti, porque não era o dia o meu plantão. Eu era conhecido no cemitério como “Zé Pradão”.T
O primeiro sepultamento que consta nos registros do Cemitério da Saudade é da negra Anastácia?
Foi da escrava Anastácia e ela está sepultada no mesmo lugar onde está sepultado o João Balaeiro, ele fazia balaio e vendia. Era negro, de calça arregaçada, pito na boca. Ao lado da capela tem um tumulo de um menino que tinha falecido com nove ou dez anos, em cima do tumulo fizeram uma caixa de mármore, com tampa, ali começou a aparecer água. Era uma caixa vazia, com a tampa, para no futuro plantarem alguma flor, quando então seria tirada a tampa de mármore. Após algum tempo, um determinado dia levantei a tampa, não comentei nada com ninguém. Um dia chegou uma senhora, após um bom tempo rezando junto ao tumulo ela disse-me: “- Falaram que esse menino virou santo”. Conversamos um bom tempo, ela teve a curiosidade em saber o que tinha naquela caixa de mármore, eu abri para que ela visse, estava cheia de água! Ela disse-me: “Será que eu não posso levar um pouco dessa água?” Disse que podia, arrumei uma garrafinha, com uma caneca enchi a garrafinha para ela. Após agradecer muito ela foi embora. Uns quinze ou vinte dias depois, a mulher me procurou no cemitério. Ela foi onde eu estava trabalhando e começou a chorar. Ela me agradeceu muito, pediu que Deus me abençoasse, disse que seu filho não podia nem levantar da cama, ele tinha dez anos, disse-me “ Lembrei-me de que o senhor tinha falado da água, dei daquela água para ele beber, o menino sarou!”. Eu apenas pedi que ela não comentasse com ninguém, iria causar um tumulto.
Há uma história de um caixão que ninguém conseguia levar assim que entrou no cemitério?
É o túmulo do Padre Galvão. A meu ver é uma lenda, não posso afirmar a veracidade do fato. Isso ocorreu no portão antigo, na Avenida Independência. Quando chegou onde está o caixão pesou muito, a ponto de terem que soltar no chão. Os funcionários mais antigos comentavam que foram feitos todos os esforços para erguer o caixão, mas não conseguiram. Decidiram fazer o tumulo ali mesmo, e assim foi feito.



Outro tumulo muito visitado é o de Alfredo Cardoso?
Há um grande número de pessoas que freqüentam esse tumulo, a meu ver há bastante criatividade popular.




O Cemitério da Saudade cresceu muito?
Cresceu! Compraram a chácara da família Schmidt e aumentaram.
O senhor aposentou-se trabalhando no cemitério?
Não, aposentei-me quando trabalhava em uma indústria metalúrgica, logo que meu pai faleceu, eu fiquei desgostoso e sai do trabalho no cemitério. Eu já tinha casado com Maria Aparecida Bernardes Ferreira, ela era enfermeira na Santa Casa de Piracicaba. O primeiro emprego dela foi no restaurante e lanchonete Leiteria Brasileira, ela era uma menina, exercia a função de ajudante de cozinheira. Tivemos quatro filhos: Lucilaine, Claudia, Ana Paula e José Roberto. Quando caiu o Comurba eu era solteiro, nós éramos namorados. Troquei de roupa e sai de casa, disse à minha mãe que tinha caído o Comurba e a Cida, minha noiva na época, trabalhava no restaurante encostado. Desci a pé a Rua XV de Novembro, quando cheguei a policia não deixou entrar na área isolada. Fui informado então que não havia acontecido nada no local onde ela trabalhava, o pessoal estava todo no fundo do restaurante. Casamos na Igreja Bom Jesus. Eu tinha dois cunhados, João Bernardes e Luiz Bernardes eles me convidaram para ir trabalhar na Metalúrgica RKM. Fui admitido, trabalhei dois anos como faxineiro, ai me chamaram para auxiliar de almoxarifado. O porteiro aposentou-e, fui para a portaria. Tive que anotar tudo que ele fazia, ele não me ensinou nada. Quando ele saiu eu consultava minhas anotações, em pouco tempo já estava amigo dos caminhoneiros. O filho do Xoxo conversou comigo, eu comecei a trabalhar com ele, fora do horário de expediente na metalúrgica, empreitava para realizar serviços em túmulos. Como ele tinha marmoraria eu passei a ajudá-lo na montagem de tumulo, principalmente de granito. A princípio usava-se o granito preto, hoje utilizam mais o marrom. Aos sábados e domingos meu irmão e eu trabalhávamos no cemitério. Levava massa, erguia parede, só que o nervo ciático começou a se manifestar. Eu carregava muito peso. Apesar de que o material o filho do Xoxo mandava o funcionário deixar tudo já preparado para que eu trabalhasse da forma mais fácil. Mesmo assim eu fazia esforço físico, levava as latas com massa, abaixava, levantava. Um dia eu disse-lhe: “Artur, não dá mais!”. Trabalhei oito meses após aposentado. Nessa época aluguei um quarto na Vila Monteiro e passei a morar sozinho. Após um excelente relacionamento com uma senhora que conheci, chegamos a conclusão de que seria melhor continuarmos excelentes amigos. Logo depois ela vendo-me morando sozinho, apresentou uma amiga com a qual vivi treze anos Infelizmente ela ficou com Alzheimer, ficou pele e osso, eu que cuidava dela. Nós freqüentávamos a Igreja São Francisco de Assis, próxima de casa. As filhas foram extremamente atenciosas com ela, e vendo o quadro, acharam que eu estava sentindo demais a doença dela. Iria me acabar junto com ela. Um dia me chamaram e disseram que eu deveria me cuidar, dar um pouco de atenção a mim mesmo, voltei a morar naquele quartinho que já tinha morado há anos. Ali tinha meu fogão, minha geladeira, cuidava das minhas roupas. Foi quando minhas filhas começaram a falar que eu ali sozinho não era uma boa opção. Eu não queria morar com nenhum dos filhos, sei que cada um tem sua vida própria. Elas então conseguiram com que eu arrumasse uma vaga no Lar dos Velhinhos. Faz dois anos que estou aqui.
Sr. José Ferreira, como começou essa sua carreira literária?
Eu tinha 14 anos.  Escrevi muito. Já adulto tinha uma amiga, o marido dela trabalha no SEMAE, eu fazia poesia e ela gostava muito. Eu tinha um caderno de duzentas folhas. Totalmente escrito. Muitos me aconselharam a publicar um livro daquele caderno. Essa minha amiga adoeceu, não podia mais levantar da cama. Eu pedia licença ao marido dela e ia visitar-la.Uma ocasião levei o caderno, ela começou a chorar e disse-me: “Zé antes de eu morrer você não dá este caderno para mim?” Dei o caderno para ela. Passei um tempo sem escrever até resolver a começar tudo de novo, comprei cadernos, canetas.
Você se considera um escritor, um poeta ou um historiador?
Faço alguns versos, mas não me considero um poeta, eu conto histórias. Tenho muitas histórias. Algumas delas estão em meus cadernos. Relembro as histórias do meu pai, da minha mãe, escritas após eles terem falecidos. Parte da história da minha vida. Sinto que o que escrevo desperta a atenção de muitas pessoas. Já publiquei pequenos trechos, por influencia de amigos. Meu sonho é transformar uma parte do que tenho em um livro. Só existe a barreira do custo de impressão, esse eu não consigo arcar com ele.



Histórico sobre os primeiros cemitérios e enterramentos de Piracicaba:

    Equipamento de primeira necessidade em qualquer civilização, o cemitério sempre esteve ligado à religião católica, no território brasileiro. Dependendo da classe social, os homens livres, quando mortos, eram sepultados dentro ou no adro das igrejas. Já os escravos eram enterrados nas fazendas onde trabalhavam ou abandonados nas proximidades de uma Santa Casa de Misericórdia (Cachioni, 2002). 
    A antiga prática dos enterramentos dentro das igrejas foi considerada prejudicial para a saúde pública, e uma legislação determinava que fossem construídos cemitérios em locais afastados da área do perímetro urbano, no entanto a população ainda insistia no sepultamento dentro das igrejas (ou nos seus adros), por considerá-los áreas santificadas. 
    Todavia, em Constituição, as obras de construção de uma nova matriz católica, as quais circundando a edificação primitiva, inviabilizavam a referida prática, o que tornava fundamental a construção de um cemitério (Cachioni, 2002).
    Em 1828 o governo determinou que os cemitérios fossem transferidos para locais mais apropriados, a bem da saúde pública (Carradore, 1989). 
    Apesar da legislação não permitir, a teimosia do povo ainda mantinha a prática dos sepultamentos dentro da Matriz de Santo Antônio, mesmo depois da construção de um cemitério no Largo da Boa Vista. Cemitério este que, em poucos anos, se deteriorou por falta de conservação (Cachioni, 2002).
    Somente em 1849 o cemitério da vila foi definitivamente cercado. A partir deste momento, a população passou a ter menos reservas em sepultar seus  mortos naquele sítio, que até então, não tinha sequer recebido a benção da igreja (Carradore, 1989). Saneamento e salubridade dificilmente eram encontrados nas vilas e cidades imperiais. O Cemitério público, localizado no Largo da Boa Vista, causava enorme constrangimento pelas queixas dos moradores das redondezas, pois vivia a exalar ‘hum hálito pestífero’, a tal ponto, que a 
Câmara exigiu do Fiscal que tomasse medidas sérias para  ‘mais bem enterrar os cadáveres’... (Perecin, 1989). 



Cemitério da Saudade:
  

  O Cemitério da Saudade de Piracicaba foi o terceiro na cidade a ser construido e foi formado inicialmente como um cemitério protestante. O cemitério foi solicitado porque os protestantes, no caso, luteranos, não podiam ser sepultados em cemitérios católicos. Havia em Piracicaba dois cemitérios Católicos: o primeiro ficava localizado na Praça Tibiriçá, onde atualmente se encontra a E.E. ‘Morais Barros’ e o segundo, onde se encontra o Colégio Dom Bosco-Assunção, servia apenas  aos padres e freiras. Theodore Loose foi um dos primeiros a serem sepultados no cemitério da comunidade, em 1869. 
    Muitos norte-americanos (batistas, metodistas e presbiterianos), vindos da Guerra da Secessão, também enterraram seus mortos nesse cemitério, que foi de uso exclusivo da comunidade alemã até tornar-se municipal (público) em 2 de dezembro de 1872, com o sepultamento da escrava Gertrudes.  Para tanto foi construído um muro que separava os Protestantes dos Católicos. Também neste ano foi colocado, no muro da Avenida Independência, frente à Rua Moraes Barros um portão de ferro confeccionado pelo ferreiro 
Joaquim Lordello (Cachioni, 2002). 
    Reformado no início do século XX, suas ruas foram em boa parte alteradas, mantendo-se alguns túmulos nas disposições antigas, como no caso do Padre Galvão.  Em 1906 o vereador Francisco Morato propôs a construção de um portal de entrada no Cemitério Municipal, que acabou trazendo a demolição do muro que separava os mortos de diferentes religiões. Foi executada uma avenida central e um portal de entrada, com características neoclássicas e anjos em relevo, projetado por Serafino Corso e construído por Carlos 
Zanotta (Setto, 1996). 
    Apesar de popularmente se dizer que pode ter sido inspirado no portal do Cemitério de Gênova, na Itália, é difícil a comparação, tendo em vista que o importante portal monumental do Cemitério Staglieno não apresenta semelhanças formais com o portal piracicabano, muito menos em tamanho ou proporções. O  Portal do Cemitério da Saudade é uma construção de caráter monumental, com inspiração no ‘Arco do Triunfo’ clássico, tendo proporções bastante acanhadas se comparado ao congênere genovês. Na entrada há quatro figuras em relevo representando serafins e querubins, todas diferentes entre si. O portão de ferro fundido foi trazido da Alemanha pelo arquiteto Serafino Corso e a epígrafe OMNES SIMILES SUMUS foi pintada em 1941 pelo artista local Joca Adâmoli, atendendo ao pedido do Prefeito José Vizioli. A liberdade estética, com a qual foram usados os elementos clássicos, insere o monumento no Ecletismo.


Adicionar legenda
 A denominação Cemitério Municipal da Saudade foi feita por indicação do vereador Oscar Manoel Schiavon, em 12 de junho de 1953. O prefeito Aquilino José Pacheco montou a sua atual estrutura, ordenando os túmulos, colocando guias e sarjetas, drenando as águas pluviais que causavam erosão e infiltrações nas sepulturas. O Cemitério da Saudade ocupa área de 145 mil metros quadrados, tem 20 mil túmulos, 90 quadras,1 avenida, 12 ruas e 11 travessas (de A a K), guarda 124 mil restos mortais e realiza aproximadamente mil sepultamentos por ano (Cachioni, 2002).
                               Portal do Cemitério da Saudade. Acervo IPLAP



Portal do Cemitério da Saudade no primeiro quartel do século XX. Arquivo IHGP.



Situação atual do Portal do Cemitério Municipal da Saudade, após obras de recuperação.
Exemplo de obra de arte encontrada no Cemitério da Saudade:Foto: Paulo Renato

Exemplo de jazigo encontrado no Cemitério da Saudade.Foto: Paulo Renato.

         TUMULO  ONDE ENCONTRA-SE SEPULTADO PRUDENTE DE MORAES O PRIMEIRO PRESIDE CIVIL DA REPÚBLICA


O Cemitério
O maior cemitério da cidade de Piracicaba guarda mais de 124 mil restos mortais, e não é a toa que junto com alguns deles nasceram e vivem até hoje crenças que já espalharam por gerações de piracicabanos. João de Almeida Prado, um empresário estudioso conhecido pelas suas obras, depois de falecido ficou famoso de outra forma, sua estátua de bronze sobre o túmulo é a personagem da história do homem do livro, contam que o livro também bronze que está no chão de seu sepulcro, já foi visto por muitas vezes na mão do homem estudioso.O cemitério foi fundando em 1872, ele foi o terceiro a ser construído na cidade. Em Piracicaba nesse tempo existiam outros dois cemitérios, porém católicos: o primeiro ficava localizado na Praça Tibiriçá, onde atualmente se encontra a Escola Estadual ‘Morais Barros’ e o segundo, onde se hoje se localiza o Colégio Dom Bosco-Assunção, esse servia apenas aos padres, freiras e religiosos reconhecidamente católicos, de ordens leigas. Como os dois locais pertenciam às ordens religiosas a administração era feita pela igreja, que exigia comprovantes de batismo e extrema unção para o sepultamento, dificultando assim o enterro dos negros, judeus, ciganos e também dos protestantes. O médico alemão, Dr. Otto Rudolpho Kuffer que residia em Piracicaba e também era protestante em 1860  solicita a compra de terreno, e no mesmo ano recebe da Câmara Municipal de Piracicaba a concessão de uma Carta de Data (que permitia a compra) e adquire o terreno para a construção de um cemitério para os protestantes, comunidade que na época estava em grande ascensão local e regional.
Ao todo são mais de 145 m² de extensão, são aproximadamente 20 mil túmulos, distribuídos em 90 quadras, um avenida, 12 ruas e 11 travessas (de A a K). O local escolhido diferente dos outros cemitérios ficava longe do centro da cidade, em terras que eram usadas para o cultivo de algodão, e também de cana. No local apenas os que fossem comprovados legitimamente protestantes poderiam ser enterrados, situação que só mudou em dezembro de 1872. As primeiras pessoas a ocuparem o campo foram: família Wolling em 1878; família Lohse, em 1878; família Theodor Loose, em 1878 e família Gott, em 1873. A municipalização de cemitérios só ocorreu em Junho de 1890, pelo então imperador Dom Pedro II. E para marcar esse novo momento o primeiro sepultamento realizado na Saudade já como cemitério municipal foi o da escrava Gertrudes.
                           DOCUMENTÁRIO DO CEMITÉRIO DE LA                                         RECOLETA BUENOS AIRES

                       DOCUMENTÁRIO DO CEMITÉRIO DE LA                                       CHACARITA BUENOS AIRES


DOCUMENTÁRIO DO MAIS FAMOSO CEMITÉRIO DO MUNDO EM PARIS Cemitério do Père-Lachaise

Arquivo do blog