Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

sábado, abril 18, 2015

EDMA JUSTINA DE OLIVEIRA SOUZA

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS 

JOÃO UMBERTO NASSIF 

Jornalista e Radialista 

joaonassif@gmail.com 
Sábado 18 de abril de 2015.

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana 

As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/ 

ENTREVISTADA: EDMA JUSTINA DE OLIVEIRA SOUZA




Edma Justina de Oliveira Souza, nasceu a 26 de março, nascida em Nipoã, próxima a São José de Rio Preto. Seus pais Jovelino Dionísio de Souza e Maria Ernestina de Oliveira Souza tiveram os filhos Egas Muniz, Edma, Eliezer Carlos. Seu pai era farmacêutico.  
Até que idade você permaneceu em Nipoã?
Morei em Nipoã até os nove anos, quando terminei o Grupo Escolar. Meu primeiro professor foi o Professor Rui.  Nessa ocasião nossa família transferiu-se para São José do Rio Preto. Lá fiz o ginásio no Instituto de Educação Monsenhor Gonçalves. Concluí o ginásio com 14 anos. Dia 6 de janeiro de 1954 mudei para São Paulo. Ano do IV Centenário! Fomos para o centro de São Paulo, não era a cidade que é hoje. Atravessamos o Túnel Nove de Julho a pé!  Chegamos a ver a famosa “Chuva de Prata”. ( Foi lançado no Vale do Anhangabaú triângulos prateados que parecia ser uma chuva de prata). Todas as comemorações que pudemos ver relativas ao IV Centenário nós vimos. O povo comparecia em massa, ao parque do Ibirapuera construído no espaço de dois anos para as festividades do aniversário dos 400 anos. A minha filha, Ana Lúcia de Oliveira Souza, é bailarina clássica, a madrinha artística dela, Neide Rossi, dançou no bale do IV Centenário. Anos depois, a minha filha participou de um festival de dança, no qual se saiu vencedora, além de um prêmio em dinheiro ganhou a coroa do IV Centenário que havia sido da sua madrinha. 











A filha da senhora, Ana Lúcia Souza, é bailarina?
Foi! Ela ganhou uma bolsa de estudos em Brasília, foi para Mannheim na Alemanha. Após dois anos, foi para Stuttgart onde permaneceu por aproximadamente uns seis anos, depois ela foi para Mônaco onde ficou mais dois anos como primeira bailarina. Teve um rompimento de tendão. Foi para Nova Iorque onde fez o curso de jornalismo. Fez cinema no Actors Studio. Fez Pilates, Yoga, ela ficou um mês na Índia com os monges, fazendo um aprimoramento. Atualmente ela está com 33 anos. Ela dançou para a Rainha Elizabeth da Inglaterra, foi trabalhar em Mônaco convidada pelo Príncipe Albert. Ela foi considerada por uma revista francesa como “A Bailarina de Asas da Europa”.
A senhora fez o curso colegial em qual escola em São Paulo?
No Colégio Paulistano, hoje se tornou FMU – Faculdades Metropolitanas Unidas., situado na Rua Taguá. Meu pai freqüentava o Clube Piratininga, eu passei a minha mocidade dentro do Clube Piratininga. Atualmente este clube está na Alameda Barros 376, uma travessa da Avenida Angélica, no nosso tempo ele situava-se no Anhangabaú. Ficava em uma esquina, pelo que me lembro ele foi criado por um pessoal que tinha ligações com a Revolução Constitucionalista de 1932. Grandes obras de arte como as telas da Revolução Constitucionalista, São Paulo Antigo e o painel histórico de 1988, em tinta à óleo, “1a.Missa da Fundação de São Paulo”,  do artista plástico S. Migliaccio enriquecem o hall principal. Muitas outras pinturas, igualmente raras, estão distribuídas em todos os demais ambientes e salões para serem admiradas pelos muitos freqüentadores do clube. O meu pai foi combatente da Revolução de 1932, ele era enfermeiro. Ele ficou nas imediações de Taubaté. Minha mãe é pensionista de 1932!


Além do colégio, a senhora fez algum outro curso na época?
Fiz o colégio, e simultaneamente fiz o que naquela época era chamado de “Curso Normal”, hoje é o magistério. Fiz na Escola Livre Tamandaré, situada na Rua Tamandaré. Após concluir ambos os cursos, fiz vestibular para medicina. Eu fui criada dentro de uma farmácia, vendo tudo quanto é coisa que você possa imaginar. Meu pai era farmacêutico formado em 1927 pela Escola de Pharmacia, Odontologia e Obstetrícia de São Paulo, situada a Rua Três Rios (parte da antiga chácara Dulley), bairro do Bom Retiro, onde permaneceu até 1965. Hoje é a Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, da USP.
A senhora cresceu em meio a todos aqueles vidros, potes, utilizados pelas boas farmácias?
Vivi em meio aquilo tudo!  Ele foi gerente da Farmácia Vota, existe até hoje em São Paulo, na Vila Mariana. Meu pai era do interior, era de Santa Adélia, aí ele foi para São José do Rio Preto, adquiriu uma farmácia e lá ele se estabilizou. Naquela época o farmacêutico no interior era um faz-tudo. Tanto que na nossa casa ele construiu uns cômodos, porque não tinha outro farmacêutico na cidade. Isso em Nipoã, por volta de 1935 a 1936.
Ele conheceu sua mãe em Nipoã?
Foi lá que se conheceram e se casaram em 1937. Ele conheceu a minha mãe porque o meu avô materno teve febre amarela, havia uma epidemia de febre amarela. Não havia médico, ele levou para lá o famoso Dr. Montenegro. Nessa época meu avô faleceu. Havia um isolamento dos que tinham contraído a febre amarela, a minha mãe eles esconderam, não a deixaram que fosse para o isolamento. Ela tinha 17 anos.
Seu pai enfrentou alguma outra epidemia que atacou a população?
Na década de 60 tínhamos uma farmácia na Avenida Washington Luiz,  em frente ao aeroporto de Congonhas em São Paulo. Foi um período em que ocorreu a febre asiática. O aeroporto era todo com cerquinha de madeira. A Washington Luiz era uma estrada! Tanto que eu levava da Washington Luiz até onde hoje é a Igreja de Moema, cujo nome é Igreja Nossa Senhora Aparecida, é uma igreja lindíssima, segundo me contaram foi pintada por uma deficiente. Meu pai me levava ao ponto de ônibus as cinco horas da manhã, era chão de terra, São Paulo era São Paulo da garoa, eu ia de luvas, gorro, de “manteaux” (casaco), tomava o ônibus, descia em Moema, lá eu tomava o bonde que vinha de Santo Amaro, passava pela atual Avenida Vereador José Diniz, eu descia na Rua Vergueiro para ir ao Colégio Paulistano. Tinha o bonde aberto e o bonde fechado em suas laterais (o famoso camarão, por ser vermelho). Passavam os dois tipos de bonde. Vinha enxada, enxadão, galinha, porco, tudo dentro do bonde! O povo vinha daquele fundo de Santo Amaro. Na época lá era roça! O meu ônibus para chegar do aeroporto de Congonhas até Moema levava uma hora. Era uma estradinha. Eu entrava as sete horas na escola. Eram duas linhas de bonde, uma que ia outra que voltava, formando dois pares de trilhos. Aquela região, Campo Belo era formada por chácaras daquele pessoal da família Strano, era tudo brejo. O Brooklin Novo era um lamaçal. Se não me engano, onde é hoje a Avenida Bandeirantes havia o Córrego da Traição. O Itaim Bibi era uma área formada com mato.






Você chegou a freqüentar o Parque Trianon?
Freqüentei, era uma delícia! Antes da construção do MASP tinha um belvedere.
Após formar-se professora a senhora passou a lecionar?
Trabalhei muito! Dava aulas, dei aulas por 15 anos, na Vila Joaniza, Pedreira. Dava aulas de manhã em uma escola, à tarde em outra. Dava aulas na Favela do Buraco Quente a noite! A Favela Buraco Quente ficava ali na Washington Luiz. Onde hoje é o Supermercado Extra, aquela região toda era o Buraco Quente.  Eu dava aulas a noite para alfabetizar adultos. Teve uma época em fraturei o tornozelo, eles iam me buscar no colo para dar aulas para eles. Era um povo maravilhoso!
O famoso Salão de Chá do Mappin a senhora chegou a freqüentar?
Muito! Já era na Praça Ramos, em frente ao Teatro Municipal. Freqüentava o Restaurante Fasano na Rua Barão de Itapetininga. Era quase na esquina com a Rua Sete de Abril.
A senhora chegou a conhecer o Quartel do Exército que havia na Rua Conselheiro Crispiniano?
Conheci! Ficou famoso. Quando Jânio Quadros renunciou o Quartel do Exército era lá!
Como se chamava a farmácia do seu pai?
Era “Farmácia Congonhas”, ela ficava em frente a ala internacional do aeroporto, é onde também só desciam as autoridades. Na época o Carvalho Pinto era o governador do Estado de São Paulo. Ele renunciou em Brasília e veio para São Paulo, ele contava que Carvalho Pinto iria apoiá-lo, para tentar dar um golpe. O Carvalho Pinto recuou, o Jânio Quadros meteu o pé no peito do Carvalho Pinto, o Carvalho Pinto subiu a escadinha do avião para encontrar com o Jânio este o derrubou lá de cima. Eu não vi, mas os vizinhos geralmente iam ver a chegada de autoridades. Essa história era relatada pelos nossos vizinhos que diziam ter presenciado.
Ainda em Nipoã o seu pai participou ativamente na sociedade?
Ele fundou o Clube de Nipoã! Fez uma biblioteca muito boa, era uma cidade muito boa e movimentada, nesse clube reuniam-se políticos, como Aloísio Nunes Ferreira,o pai, Ulisses Guimarães, meu pai foi prefeito da cidade. O meu avô, pai da minha mãe, foi para Nipoã vindo da Bahia, em carro de boi! Ao que parece levaram quarenta dias de viagem. A minha mãe é nascida em Ituverava. Na época aquela região era tudo sertão, vieram para desbravar.
Após alguns anos lecionando, a senhora decidiu mudar o rumo das suas atividades?
Fui trabalhar no Banco Mineiro da Produção, depois incorporado ao Banco do Estado de Minas Gerais. Após alguns anos fui transferida para Belo Horizonte. Tive um convite e fui ser gerente no Banco Nacional, em São Paulo, na agência da Rua Sete de Abril. Depois fui abrir a agência da Mooca. Isso em meados da década de 60. Foi na época da Revolução de 1964, do Sindicato dos Bancários, apanhei, fui presa. Meu irmão foi para Santa Rita de Sapucaí, porque lá tinha a melhor escola de eletrônica. Após isso fui estudar direito em Pouso Alegre. Era um curso intensivo, íamos para Pouso Alegre estudar na quinta, sexta, sábado e domingo. Os outros dias eu trabalhava em São Paulo. Foi uma luta tremenda. Terminei meu curso e comecei a fazer especialização, fiz Direito Civil na PUC, pela OAB fiz uma série de cursos.
Em qual segmento do direito a senhora começou a atuar?
No inicio fui criminalista, atuei nessa área muito tempo, uns dez anos, é uma área apaixonante, desgastante e perigosa. Deixei essa área e fui trabalhar em uma empresa especializada em cobranças só de laboratórios. Nessa empresa tive possibilidades que considero a grande escola da minha vida. Advoguei praticamente em todo Brasil. Depois fui trabalhar na área imobiliária, a principio em um grande escritório de advogados, depois montei o meu escritório. Dra. Edma relembra inúmeros casos, cita locais, situações, que deixa bem evidente como a vida do profissional de direito pode ser repleta de dificuldades, situações de alto risco.
Edma em que cidade a senhora se casou?
Casei-me a 26 de maio e 1972 em São Paulo, na Igreja Nossa Senhora do Brasil (A igreja mais procurada pelos noivos, onde são realizados os casamentos das mais requintadas famílias). Foi um casamento estiloso, casei-me com um homem lindo, maravilhoso, músico, Noir Vagner Ribeiro. Quem celebrou foi o Padre Silvio, meu primo, veio de Catanduva especialmente para realizar nosso casamento. A recepção foi em uma choperia que eu e o Noir tínhamos. Era uma casa fechada, que abria as quatro horas da tarde e ia até as duas horas da manhã. Era uma choperia só para empresas. Determinada empresa decidia reunir-se para um jantar comum cardápio de comida russa. Então servíamos comida russa. As empresas que faziam o evento determinavam o cardápio. Situava-se na Avenida do Cursino. Chamava-se “Cheroga”, em tupi-guarani quer dizer “minha casa”. Era uma casa lindíssima, os azulejos foram pintados a mão. O Noir era um músico fantástico, tocava todos os instrumentos.


Edma você casou-se em alto estilo!

Fui Miss Bancária, fui Miss Aeroporto, trabalhei na Real Aerovias no controle de vôo. 













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