Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

domingo, julho 02, 2017

DENISE CÁSSIA LOURENÇO – APASPI


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 24 de junho de 2017.

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://blognassif.blogspot.com/                     


http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADA: DENISE CÁSSIA LOURENÇO – APASPI


 

A nossa entrevistada, supervisora pedagógica da Apaspi- Associação de Pais e Amigos de Surdos de Piracicaba, onde trabalha a mais de três décadas é Denise Cássia Lourenço  nasceu a 28 de novembro em Francisco Sá, Minas Gerais. Filha de Ulisses Batista Gomes, funcionário de carreira do Banco do Brasil e Elianise Lourenço, advogada, que tiveram os filhos Ulisses, Débora Uelton e Denise. 

Você permaneceu na cidade de Francisco Sá até que idade?

Quando eu tinha sete anos meu pai foi transferido para São Paulo, fomos residir no bairro Santo Amaro, lá estudei o primário. O ginásio e o colegial fiz em Itapetininga, para onde meu pai foi transferido novamente. Em 1986 vim para Piracicaba, estudei Pedagogia voltada para deficientes, na UNIMEP. Depois fiz curso de especialização em Deficientes Auditivos.

O que a levou a interessar-se por essa àrea?

Sempre fui muito curiosa, via que em determinadas casas havia  crianças que não frequentavam a escola. Isso me intrigava. Por que essas crianças não iam para a escola? Quando iam eram encaminhadas para escolas específicas, diferentes das demais. Eu já trazia comigo essa dúvida, em Itapetininga, havia uma criança que não ia para a escola, não conseguia entender o porque. Isso ficou em minha cabeça até eu entender que aquela criança era deficiente intelectual. Meu irmão tinha um amigo chamado Renato, hoje é adulto, casado. Eu achava o Renato incrível, além da deficiência intelectual tinha uma deficiência física. Isso não o abatia, estava presente em todas as ocasiões, o que causava-me admiração. Quando decidi qual carreira iria seguir, decidi que iria ajudar essas pessoas.

Como você conheceu seu marido?

Tenho uma amiga, a Ana, que mora nos Estados Unidos, e ela fez uma festa de despedida, foi lá que conheci o meu marido, Fernando Cunha, em uma festa country. Era a apresentação de Cezar e Paulinho. Estamos casados ha 17anos. Por opção não temos filhos.

E a Apaspi como surgiu em sua vida?

Toda vez que eu ia para a faculdade pegava o ônibus na Rua Riachuelo, bem em frente a Apaspi. Eu via aquelas pessoas tentarem conversar e ninguém entendia. Na hora entendi que deveria participar daquela situação. Em frente a Apaspi tinha um cartaz enorme dizendo que iria encerrar as atividades por razões financeiras. Eu já tinha visto a notícia no jornal. Eles tinha necessidade urgente de voluntários. Em 1987 ingressei como voluntária. Conversei com a Deise que era a assistente social, Em 1990 me formei. Fiz a pós-graduação em Itatiba, nessa época eu já estva na Apaspi. A pós-graduação era na sexta feira e sábado. O presidente da Apaspi era Miguel Jorge Lulia.

O primeiro dia em que você entrou como voluntária qual foi o seu sentimento?

Senti que precisava fazer muita coisa! Na época tinha 80 crianças e adolescentes, dos 5 aos 18 anos. Nessa época o presidente era Julio Lázaro Sierra com um grupo de abnegados, entre eles Antonio Oswaldo Storel,  Antonio Aparecido Garrido, tinham visto no jornal que a Apaspi iria fechar por falta de recursos. Decidiram ajudar. A Apaspi foi criada no dia 26 de maio de 1977, completamos 40 anos de atividades.   As professoras Adir Teresinha Massari e Maria Ephinênia de Mello Camuzzo da Escola Estadual Dr. João Conceição são as fundadoras. Elas inicialmente tinham uma sala especial para surdos na própria escola, reuniam os pais para orientar, conversar. Como não tinham sede, chegaram a utilizar as dependências do Lar Escola Maria Nossa Mãe, localizada a Rua Boa Morte. Miguel Jorge Lulia que tinha uma filha surda, alugou uma casa para o uso da entidade.

Que tipo de trabalho era realizado além desse de conscientização e interação da família com o deficiente?

Fazíamos o atendimento de fonoaudiologia e atendimento de pedagogia. Nesse local permanecemos em torno de 15 a 20 anos. A sede própria foi conseguida graças a ação do prefeito Adilson Benedito Maluf, o vereador Mário Monteiro Terra encaminhou a solicitação e o prefeito deferiu o pedido de cessão de área, Mario Terra não só solicitou a àrea, como também veio nos ajudar. O presidente da Apaspi, Júlio Lázaro Sierra através de um intenso trabalho, buscou sensibilizar pessoas e empresas buscando doações de toda ordem, a população sensibilizada com a causa, respondeu positivamente, colaborando para a construção do prédio em que hoje nos encontramos. Tinhamos o prazo de três anos para concluir as obras, ou perderiamos a concessão da área, e não tinhamos nenhum recurso em caixa! A seguir tivemos como presidente José Aref Sabagh Esteves e atualmente temos na presidência Maria de Fátima Esteves.

Atualmente vocês atendem a quantos pacientes ou usuários?

Atendemos a quarenta pessoas. Denominamos usuário na parte social e paciente na assistência terapêutica.


    ALGUNS ALUNOS, VOLUNTÁRIOS E FUNCIONÁRIOS DA APASPI


Houve uma redução de necessidades ou uma redução de atendimento?

Diversos fatores contribuiram para essa redução. A vacina contra a rubéola expandiu sua àrea de atendimento, a rubéola é uma das doenças que mais implica na incidência da deficiência auditiva. A vacinação dos adolescentes, feita já a algum tempo, tem mostrado o resultado de sua eficácia. Os orgãos públicos de saúde tem feito um trabalho de vacinação contra rubéola nas escolas proporcionando uma diminuição de incidência de surdez transmitida pela mãe no período da gestação.

Uma gestante pode provocar a surdez em seu filho ou filha por quais fatores?

Além da rubéola, a catapora, desde essas doenças mais comuns até mesmo doenças venéreas. O feto desenvolve a audição nos primeros três meses de gestação.

É correto dizer que a população de surdos e mudos diminuiu?

Devo fazer uma correção básica: só surdos! Nem todo surdo é necessáriamente mudo! Há uma ssociação de que todo surdo é mudo, isso não é verdadeiro! Assim como todo mudo não é necessáriamente surdo! O mudo pode ter algum problema nas cordas vocais mas escutar muito bem! Toda criança que é admitida na Apaspi nós vamos a sua escola para levar orientação, temos uma parceria com orgãos públicos para levar as informações necessárias. A ocorrência de casos de surdez ocorre mais nos bairros periféricos. Há uma somatória de fatores: falta de informação, falta de medicação, de acompanhamento médico. Usamos também a rede social para levarmos informações.

Quem patrocina os custos das ações desenvolvidas pela Apaspi?

Estamos fazendo tudo que é possível para mantermos o que já conseguimos conquistar, mas não podemos fechar os olhos para a crise financeira que atingiu todos os setores, inclusive a Apaspi. Todas as entidades de cunho social foram sériamente atingidas. Já tivemos campanhas de prevenção nas creches em convenio com o poder público.






                                              BAZAR DA APASPI


Quando a criança nasce tem como detectar algum problema de audição?

Existe o teste da orelhinha, Obrigatório e gratuito nos hospitais e maternidades públicos desde 2010. É feito através de um parelho que emite alguns sons e a criança tem reações, no olhar, na mão. É realizado por profissionais capacitados como o fonoaudiólogo.

A ocorrência de surdez acomete também com pessoas com estabilidade financeira?

Normalmente a pessoa quando se prepara para ter um filho ela quer que a criança seja perfeita. A princípio a mãe ou os pais sentem que há algo diferente, mas a primeira reação é negar a ocorrência. A pessoa pode contrair rubéola e nem perceber, a manifestação da doença as vezes é quase imperceptível. Ela pode ser confundida com uma alergia. Por isso que a futura mamãe deve tomar a vacina antes da gravidez. Recomenda-se que ainda noiva, ou seja antes da gravidez, a mulher tome a vacina contra a rubéola, são duas doses apenas para ter imunidade sem a necessidade de tomar de novo. Casais que vão em lua de mel a lugares exóticos, se pensam em ter um filho, devem tomar também a vacina contra febre amarela. Cerca de 70% da incidência de casos de surdez em bebês é devido a rubéola. Outros fatores podem influenciar: medicamentos, alimentação, tabaco, bebidas alcoólicas.

Essas vacinas podem serem encontradas em quais locais?

Nos postos de saúde, é gratuita e indolor. São oferecidas todas as facilidades para esse tipo de procedimento. Têm que estar consciente de que o futuro da pessoa que você está gerando está sob sua total resposabilidade. Uma prevenção pode evitar que a pessoa seja muda pela vida toda. A sua omissão poderá condenar o futuro dela.

Quando a mãe tem certeza de que a criança de fato é muda, qual é a reação?

A primeira fase é negar. Depois é porque Deus quiz. A seguir ela tenta fazer alguma coisa. Procura um local que seja especializado, como a Apaspi, por exemplo, e a seguir vem o desprezo. Ela coloca a criança na instituição e não quer acompanhar o desenvolvimento da criança. Ela tem que aprender a LIBRAS, ( Língua Brasileira de Sinais) para se comunicar com a pessoa deficiente. Se a família é estruturada as coisas funcionam bem, infelizmente a realidade em que vivemos não é assim. O deficiente dentro de uma família estruturada desenvolve-se muito bem, essa criança é acompanhada, amada, aceita. Ao atingir a adolescência terá os problemas tipícos da idade, mais a sua condição de deficiente. Infelizmente o preconceito começa muitas vezes dentro da família. Se você não tenta aprender a linguagem do seu filho é um desprezo.

Ao chegar a Apaspi pela primeira vez a criança passa por uma avaliação?

Ela é avaliada por uma fonoaudiologa, uma pedagoga e uma assistente social. É feita uma entrevista com os pais, expõe-se os direitos que essa criança tem, inclusive auxilio financeiro por parte do governo.

Você tem pessoas assistidas que se transformam em voluntários?

Temos a Rosângela, essa moça é surda, ensina LIBRAS para as crianças, para as pessoas da família do surdo. A Rosângela ingressou na Apaspi com 5 anos, hoje ela tem 37 anos, antigamente não existia LIBRAS, existia a leitura labial. Aqui ela é professora de LIBRAS, vai começar a fazer pedagogia. Ela foi casada com um surdo, tiveram uma filha surda, o marido dela faleceu, ela casou-se com outro que é ouvinte, tiveram um filho ouvinte.

Como a entidade sobrevive financeiramente?

Uma parcela de ajuda é fornecida pelo poder público, que infelizmente é bem inferior as nossas necessidades. Sobrevivemos com o esforço da diretoria, voluntários e auda da população. Uma grande luta! Recebemos doações de alimentos, roupas.

Dos 40 surdos quantos usam aparelho para surdez?

Todos usam! Usam o interno ou os implantados. Além da colocação do aparelho há todo um trabalho para desenvolver a identificação dos sons. Não basta colocar o aparelho e está pronto! Não irá localizar nem saber o que é! Ele não irá escutar tudo e identificar! Dependendo do aparelho que a pessoa for usar não irá escutar a voz humana. Irá ouvir só os sons ambientais. O liquidificador, a campainha, o telefone. O implante do aparelho é feito através de uma cirurgia, funciona com uma pilha externa. Nós temos o Centrinho de Bauru, um hospital especializado para implante coclear.

A Apaspi atende qual faixa etária?

Quando se trata de um bêbe recém-nascido os pais recebem orientação. A partir de um ano de vida os pais vêm com o bêbe ele então passa a ter terapia de fonoaudiologia e pedagogia.

Eram mais vezes de terapia, tivemos que diminuir tempo e funcionários em função da crise. Os deficientes permanecem aqui até os 18 anos. Ai eles fazem a opção, uns vão para o mercado de trabalho outros para uma faculdade, depende da escolha de cada um. Se escolher uma faculdade há um interprete que o acompanha, foi uma luta muito grande, a Apaspi interferiu muito na questão junto ao Estado. Para aumentar a sala de recursos e aumentar os intérpretes. A sala de recursos é utilizada quando eles não aprendem na sala de aula. Para que uma especialista passe para eles o que não entenderam. Participei em conjunto com toda a Apaspi para aumentar os polos onde tenham essas salas para atender os surdos. Hoje temos a Escola Estadual Barão do Rio Branco, Escola Estadual Professor Elias de Mello Ayres, Escola Estadual Dr. Alfredo Cardoso, assim como as faculdades. O aluno surdo presta vestibular com intérprete, a faculdade contrata um intérprete, hoje é lei. A faculdade tem que providenciar o intérprete e arcar com os custos do mesmo. Durante o curso, todas as aulas o intérprete tem que estar junto ao surdo. Se o curso durar quatro anos, por quatro anos ele terá um intérprete, sendo a faculdade responsável pela remuneração do mesmo.

Qual é a relação do surdo com a música?

Os que tem implante coclear quando começamos  a trabalhar com ele  quanto mais atividades realizarmos é melhor. O que tem surdez profunda, que não tem fala, cantamos também,   tem o coral! Coral de surdos. 

Há ex-pacientes da Apaspi no mercado de trabalho?

Muitos! Na Mondelēz Internacional (anteriormente Nabisco), na Dedini, Hyundai, Caterpillar. São excelentes funcionários, desenvolvem uma concentração muito grande.

Usam o WhatsApp ?

Podemos dizer que o telefone chegou para o surdo através do WhatsApp!
                                                 ALGUNS DOS VOLUNTÁRIOS


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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