Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sexta-feira, julho 18, 2008

CRISPIM DURRER


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
Rádio Educadora de Piracicaba AM 1060 Khertz A Tribuna Piracicabana
Sábado das 10 ases 11 Horas da Manhã Publicada ás Terças-Feiras

Entrevistado: Crispim Durrer


Nos anos de 1960, as crianças residentes no bairro da Paulista, tinham perto da Praça Takaki vários locais de lazer e diversão. Na esquina das Ruas do Rosário com Dona Jane Conceição, onde hoje existe uma série de lojas, era um terreno vazio. De tempos em tempos era o centro de fantasia da criançada. Ali eram armados circos, os parques que tocavam em disco de vinil os boleros então muito em moda, as músicas eram repetidas tantas vezes que muitos decoravam as letras. Tinha o jogo de argolas, onde se pagava determinado valor por um número de argolas e as atirava tentando atingir o gargalo de um litro a partir de uma determinada distancia, onde havia um balcão. Ou ganhava-se o litro, geralmente um vinho ordinário, ou o prêmio que ficava logo abaixo, geralmente maços de cigarros. Havia os tiros de espingarda de pressão, cuja precisão era mais ocasional do que conseqüência da habilidade do atirador. Eram espingardas com rolha na ponta ou chumbinho. Na quaresma naquele terreno era erguido o pau-de-sebo. Era um tronco roliço, com mais de cinco metros de altura, recebia um tratamento para ficar sem saliências naturais. Devidamente revestido com sebo de boi derretido. No topo, era colocado um triângulo de madeira (a cruzeta) onde amarravam dinheiro e prendas. A garotada para manter os pés mais unidos posiveis, e também para ir limpando o sebo, usava a “peia”. No tempo de eleição os políticos usavam aquele espaço para conquistar votos com seus discursos inflamados. Para o povo era uma forma de lazer. Para a criançada era a caça aos brindes como chaveiros, flâmulas, santinhos. Quando não havia nada disso, existia o jogo de bola de vidro, empinar papagaio (com o tempo passou a ser denominado pipa), soltar ou rodar pião de madeira. Quem abastecia a criançada era o “Seu” Crispim. Logo ao entrar no “templo” de consumo, já se avistava ao fundo a máquina de fazer garapa. Do lado direito uma enorme vitrine acondicionava os objetos de desejo da molecada: como bolinha de vidro, papel de seda, goma arábica (alguns usavam farinha de trigo diluída em água como cola), pião, fieira (barbante grosso que é enrolado em torno do pião), chaveiros, canivetes. Era de dar água na boca! Crispim Durrer circula pelo bairro da Paulista, lúcido, com uma memória invejável.
O senhor é brasileiro?
Sou! E nascido em Piracicaba, no Bairro Serrote, já faz 86 anos. Meu avô paterno era suíço e meu avô materno era alemão. Meu pai nasceu próximo á Berna que é a capital da Suíça. Estudei na Escola Reunida do Bairro Serrote, de Adolfo Beismann, meu avô. Éramos nove irmãos, seis homens e três mulheres. Trabalhei no serrote como lavrador, cultivando todo tipo de cereais. Meu pai tinha um sítio com 50 alqueires ( N.J. cada alqueire paulista mede 24.200 metros quadrados). Permaneci lá até 1951. Resolvi mudar para Piracicaba. Vim para a Rua do Rosário, 2600. Ali por dezoito anos tive um bar e uma garaparia. Era a única garaparia existente ali na época. Tinha uma ótima freguesia. Com as economias que consegui reunir pude proporcionar estudos á um casal de filhos que eu tinha, e que infelizmente hoje são falecidos.
O senhor guarda lembranças da época em que se mudou para a Paulista?
Lembro-me sim! Em 1951 não havia água encanada e nem esgoto. As ruas eram todas empoeiradas até a Estação da Paulista. A Rua do Rosário não era mão única. Os caminhões de cana trafegavam em ambos os sentidos. O prefeito Francisco Salgot Castillon asfaltou o Morro do Enxofre. Na Praça Takaki não existia nada. Havia apenas uma casinha velha em um canto. Na esquina da Avenida Madre Maria Teodoro ficavam os Irmãos Aliberti, Depois vinha o Bar da China, o armazém do Antonio Lucas, na esquina, onde hoje existe uma farmácia havia o Bar Serenata, de propriedade de Miguel Fernandes. Seguindo pela Rua do Rosário no sentido centro, tinha um terreno vazio, em seguida o açougue do Gêronimo Casarim, em seguida o meu barzinho, passando por algumas casas residenciais, tínhamos adiante a Maquina de beneficiar arroz de propriedade de João Sabino Barbosa e Augusto Grella. Mais adiante Manoel Castilho tinha uma sapataria. Manoel foi candidato á vereador. Na quadra seguinte havia a Igreja Assembléia de Deus, que permanece até hoje. Ainda na mesma calçada existia a Farmácia São Judas Tadeu de propriedade do farmacêutico Nelson de Mattos. Ao lado havia a e loja “Caldeirão de Ouro” propriedade do Crócomo, irmão de Francisco Crócomo e do emérito Professor da Esalq, Dr. Otto de Jesus Crócomo. Mais adiante, ao lado do hoje Restaurante Paulista, havia o embarque e desembarque de gado, que eram transportados pela Companhia Paulista, os trilhos atravessavam a Rua do Rosário e entravam naquela área que tinha uma enorme mangueira de gado, propriedade da Companhia Paulista. No lado impar da Rua do Rosário, havia o armazém do Emílio Fabris. Em seguida residia o Santo Casarim. O famoso Bar do Gep cujo nome de batismo é José Tozzi. Em seguida morava meu pai, José Durrer. Eugenio Vecchini tinha um armazém na esquina da Rua do Rosário com Avenida do Café. Na caçada oposta, Rubens Zíllio tinha um açougue. A Casa dos Presentes de Alcides Saipp já existia. Na esquina da Avenida Dr. Edgar Conceição com Rua do Rosário, Roque Furoni, falecido recentemente, tinha um armazém. Na esquina havia um sobradinho muito bonito de propriedade do Sr. José Nassif. Junto ao meio fio, existia uma bomba de gasolina de propriedade do mesmo, com a bandeira Texaco. Ao lado existia um armazém administrado por Da. Rosa Canaan Nassif, mãe do Sr. José. Mais adiante, existia a residência da Da. Elvira Beismann, meu tio Antonio Beissmann era caminhoneiro. Morava ainda ali Dirceu Pompermayer, que foi um dos sócios da famosa Casa Dom Bosco. O Sr. Benedito Baglione morava logo adiante. Uma das suas últimas ocupações profissionais foi a de “motorista de praça”. Finalmente, onde hoje é o Supermercado Balan era o Armazém do Sr. Victório Fornazier, ele fornecia para muita gente do sítio, tinha uma grande freguesia. Hoje a Rua do Rosário é um importante centro comercial.
A Avenida Madre Maria Teodoro era conhecida em seu trecho com maior declive, como Morro do Enxofre. Havia movimentação comercial nessa via?
Tinha poucas coisas. Só depois que o prefeito Salgot asfaltou é que começou a melhorar. Hoje lá também se encontra todo tipo de comércio.
Passava boiada pela Rua do Rosário?
A boiada descia, os boiadeiros iam tocando os bois até o embarcador da Companhia Paulista. Nós por diversas vezes íamos assistir a embarcação. Os vagões carregavam os bois e levavam. Era muito bonito assistir aquela movimentação toda.
Na esquina onde hoje está a Drogal era ponto das jardineiras que iam para os sítios?
Naquele tempo o motorista era também proprietário do bar. Era um argentino chamado Avelino. Vinha com muita dificuldade, porque não existia asfalto em lugar nenhum. Um dia vinha outro dia não podia vir porque chovia.
Acima da Praça Takaki havia habitações?
Tinha, mas eram poucas casas. A companhia de energia elétrica exigia uma distância máxima de 30 metros do último poste para realizar as ligações. Onde hoje existe um posto de gasolina Petrobrás era o Posto Canta Galo, do conhecido como Joane Vasoureiro.
O senhor freqüentava alguma igreja?
Freqüentava a Igreja dos Frades. Lembro-me do Frei Paulino, Frei Liberato, Frei Virgilio. Cheguei a assistir á filmes que eles apresentavam Teatrinhos. Onde hoje funciona um prédio de assistência social, na Rua Alferes, ao lado da Igreja dos Frades, era tudo diferente. A padaria mais próxima era a São João. Já existia a Padaria Jacareí também muito freqüentada após as missas.
Quais as lembranças que o senhor guarda do trem, do bonde?
Por várias vezes fui de trem até Campinas, tínhamos parentes em Viracopos. Meu pai nos levava passear. Lembro-me do bonde, pagávamos quinhentos réis até o centro!
Houve uma época em que um indivíduo de cognome “Belo” era muito temido, pela valentia, e suspeito de alguns atos ilícitos. O senhor o conheceu?
O Belo para mim foi muito bom, ele foi até meu freguês. Ele sempre me respeitou. Ele acabou sendo assassinado em um parque.
O senhor conheceu o Nhoca?
Eu tinha muita amizade com ele. Era cavaleiro, elegante, era um homem grande, andava em u cavalo marchador, subia e descia a Rua do Rosário montando um cavalo marchador. Era tido como benzedor, dizem que benzia animais e até pessoas. Nunca fiz uso dos seus atributos místicos! Era um bom homem.
O Sebastião Tintureiro foi conhecido do senhor?
Conheci! Sebastião Barbosa era o seu nome. Ele teve um bar também. Hoje ele tem um dos filhos que trabalha com relojoaria, o Ismael.
O Pedro Rasera (Pedrinho) Tinha uma barbearia?
Tinha. Eu fazia a barba lá. O seu irmão é o comerciante Jorge Rasera.
O senhor tem habilitação para dirigir veículos, qual foi o seu primeiro carro?
Faz uns quinze anos que não dirijo mais. Meu primeiro carro foi uma perua DKW 1961, vermelha.
O senhor foi um dos primeiros proprietários de telefone do bairro?
Eu tinha telefone. O número era 4977. Naquela época telefone e televisão era bens que poucos possuíam. A minha televisão era em preto e branco, como todas na época; Mais tarde é que veio o sistema de televisão colorida.
A hoje Farma-Paulista, na época chamava-se Farmácia Nossa Senhora da Penha. Teve um período em que seu proprietário era o Miguel Victória Sobrinho seu vizinho era Antonio Lopes, logo em seguida, na esquina da Dr. Edgar Conceição com Rosário estava estabelecido o Nenê Lopes, eram irmãos e tinham armazéns próprios.
Na Avenida João Conceição havia uma serraria o senhor lembra-se?
Era a serraria do Galesi! Comprei madeiras várias vezes lá. Era o Hélio Galési e outro irmão dele. Lembro-me do Jacinto Bonachella que tinha posto de gasolina onde hoje é a Padaria Apolônio.
Existia alguma parteira famosa no bairro?
Tinha a Dona Carolina! Ela morava na Rua Gomes Carneiro, entre as Ruas Alferes e Governador Pedro de Toledo. Conheci a Santa Casa quando funcionava ainda na Rua José Pinto de Almeida.

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