Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

domingo, julho 02, 2017

JOSIANY LONGATTO (SHIMLA)


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 01 de julho de 2017.

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://blognassif.blogspot.com/                     


http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADA: JOSIANY LONGATTO (SHIMLA)

 
Nascida a 24 de agosto na cidade de Piracicaba, na época moradora do bairro Vila Rezende, Joniany Longatto que tem o nome artístico de Shimla, é filha de Maria Calderan Longatto e Ari Longatto, que tiveram os filhos Josiany e Robson.  Iniciou seus estudos na escola SESI 85 que funcionava nas dependências da Escola Baroneza de Rezende onde cursou da primeira até a oitava série. A seguir estudou no Instituto Sud Mennucci, nessa época estudava em duas escolas, durante o dia no Sud Mennucci e a noite no Colégio Técnico em Contabilidade no Instituto Piracicabano. É formada em Ciências Contábeis pela Unimep.
O que a levou a estudar Ciências Contábeis?
O meu pai sempre foi empreendedor, a sua última empresa era uma mineração de calcário. Era o objetivo dos meus pais que eu ajudasse na administração da empresa. Aos dezessete anos entrei na faculdade de onde saí com vinte e um anos.
Após formar-se como Técnica em Contabilidade e em Ciências contábeis, você dedicou-se a profissão?
Foi uma fase em que senti que a dança começou a me atrair. Tomei consciência da veia artística que existia comigo. Era uma época em que não havia muito incentivo para as artes, eu sempre gostei, desde criança, de cantar, dançar. Cursei Balé Contemporâneo com o professor Ado Ravelli, no Clube Atlético Piracicabano. Era uma atividade que eu gostava, só pude fazer quando já tinha como escolher o que desejava, na época era uma atividade tida como supérflua. Havia a preocupação dos pais de que os filhos tivessem uma profissão que proporcionasse um futuro mais estável financeiramente.
Só que o encanto da dança tomou posse dos seus sentimentos?
A dança sempre esteve presente em minha vida. Até que com uns dezesseis anos fui a Festa das Nações e pude ver uma bailarina de dança do ventre. Ela era de São Paulo. Eu estava com um amigo Wagner Sturion, escritor, poeta. Ele escreveu uma peça de teatro chamada “Sonhando Acordado”, fui convidada por ele para ser a protagonista, em resumo a história era sobre uma menina humilde cujo sonho era realizar a Dança do Ventre. Nessa época eu fazia parte do teatro “Cochixo na Coxia” da Unimep. O diretor era José Antonio da Silva, o Chapéu.
ESQUETE TEATRAL "COCHIXO NA COXIA"

                                                    José Antonio da Silva, o Chapéu.
A dança do ventre atraiu você, pode-se dizer que a hipnotizou?
Passei a estudar dança do ventre com a síria Dona Marie Massuh Nimeh, que foi homenageada pela Câmara Municipal como a pioneira a dar aulas de Dança do Ventre em Piracicaba, ela morava em Piracicaba e me ensinou a dançar, pesquisar, eu ia a sua casa quase todos os dias nós pesquisávamos muito a respeito da dança, esse relacionamento transformou-se em uma grande amizade, tal como uma mãe e filha. Ela ia comigo e ficava até as madrugadas nas Festas das Nações! Me via dançar, apoiava muito. Quando eu comecei a dançar na Festa das Nações, fui convidada em 1994, até então quem dançava era Samira Samia uma das preletoras da dança do ventre no Brasil, um ícone da nossa dança, grande mestra. Fiz muitas aulas com ela. A filha dela está assumindo o Mercado Persa, que tem repercussão mundial, hoje tem a denominação de Congresso Internacional de Dança, Arte e Cultura Árabe. Começou no Clube Kolpinghaus e hoje está no WTC Events Center em São Paulo. Consta no Guiness Book como o maior evento de Dança do Ventre do Mundo. São três dias inenterruptos de danças com até cinco palcos simultâneos. Há competições de todos os tipos. Workshopping, vendas de produtos.




                     Apresentação da professora de dança, dançarina, coreógrafa Josiany Longatto
Você incorporou a cultura árabe?
De certa forma me sinto um pouco árabe. A minha “mãe” árabe que é a Dona Marie Massuh Nimeh, quando ela me acompanhava todo mundo achava que ela era realmente a minha mãe. Tinhamos uma relação de carinho muito grande. Ela era viuva, mãe de três filhos, não era bailarina, embora ela já tenha falecido, mantenho contado com seus filhos e famílias, para mim é como uma família.





Publicado em 23 de jul de 2015
Josiany Longatto e Isadora Neves partilham a beleza e a emoção da dança no Sarau Literário Piracicabano em 14 de Julho de 2015 nas de pendências do Museu da ESALQ- USP Ana Marly de Oliveira Jacobino Jacobino

Publicado em 1 de out de 2015
Apresentação de Dança de Isadora das Neves e Julia Rodrigues (alunas de Josiane Longatto - Shimla) em 22 de Setembro na Semana Cultural da Esalq_ USP no Sarau Literário Piracicabano Ana Marly de Oliveira Jacobino Jacobino

                                       
                                                          Super Noites no Harém





Samira Samia - Uma carreira Ímpar

                                              Shalimar Mattar - espada e véu
^                                                                Véu Fan


Você tem um nome artístico?
O meu nome artístistico é Shimla, quem me deu esse nome foi a Lú Gorelli, ela me chamava para dançar na casa dela, um dia fui dançar na casa da sua irmã, foi uma festa muito importante, tinha diversos estilistas, o jornal Correio Popular de Campínas entrou em contato com ela, queria saber qual era o nome da bailarina, saiu a minha fotografia na coluna social, ela encontrou esse nome em um livro que tinha lido. Na época era chique ter um nome artístico. Acabei adotando esse nome. Na realidade Shimla é o nome de uma cidade da Índia, nem é árabe! A grafia está correta com o “m” antecedendo uma letra consoante, que no nosso idioma antecederia uma vogal. O significado desse fonema é “Botão de Flôr”.
Existe vários tipos de danças árabes?
Existem vários estilos! Costumamos dizer que existem mais de 5,000 ritmos, os mais conhecidos são cerca de 350 ritmos. Nós bailrinas dançamos os básicos. Com vários acessórios, temos a dança do bastão, smujs, do pandeiro, cimbalos,cimitarras (ou espadas).
Quantos anos levou para você atingir esse nível de perfeição na dança?
Este ano estou completando 25 anos de profissionalismo desde a minha primeira dança em 1992.
A dança é a sua profissão?
É a minha profissão! Trabalho só com isso. Vivo de arte!
Quantas dançarinas existem hoje em Piracicaba?
Não sei informar com precisão, mas sei que existem muitas. Formei professoras, elas já montaram suas academias, estão formando suas alunas. Eu me especializei na área, fiz vários cursos, workshops profissionais, tive aulas com professoras renomadas internacionais que vieram ao Brasil, do Egito, dos Estados Unidos, Argentina.
Há alguma alimentação restritiva para manter-se em forma?
Não, eu como muito bem! As minhas aulas são suaves, a pessoa não se cansa muito mas gasta bastante energia.
Tem homem que pratica a dança árabe?
Existe. Hoje temos as danças folclóricas específicas para o homem esse tipo de dança está sendo muito difundida. Em especial a Dança do Ventre é feita para a mulher, em seu benefício, tanto em sua saúde como em sua função energética e sexual da mulher. Facilita a sua parte reprodutiva, parto, existe uma filosofia que está anexada a essa dança. Hoje já existe concursos para danças masculinas folclóricas e para Dança do Ventre masculina.
A Dança do Ventre é uma ginastica eficiente?
Em minha opinião é a melhor ginática para a mulher.
A partir de que idade a mulher pode iniciar a dança?
A Dança do Ventre é uma dança que não tem impacto, qualquer pessoa pode fazer desde que não tenhe nenhuma restrição médica. As que mais estão me procurando estão na faixa de 40 a 50, 60 anos. Já dei aulas para mulheres na casa dos 70 anos. Inclusive tem uma que dançou comigo uma dança egipcia chamada Meleah Laff.
Existe esposas que tomam aulas de danças para apresentarem a seus maridos?
Existe! Nesse caso geralmente elas tomam aulas particulares. Monto uma coreografia, ensino a pessoa a colocar um pouco da sua improvisação pessoal e dou algumas dicas. Geralmente trata-se de uma comemoração muito especial, um aniversário, aniversário de casamento. É uma dança muito especial, para um momento especial. Jamais vulgarizando a dança. Isso tem sido ultimamente divulgado de forma erronea pela mídia, em especial pelas novelas. A origem da Dança do Ventre é uma dança sagrada, era feita apenas pelas sacerdotisas nas pirâmides sagradas. A mulher dançava apenas para o homem que ela tinha escolhido para ser o pai dos seus filhos.
Uma jovem que queira manter a saúde em perfeito estado, sem submeter-se a rotina de aparelhos de academia, ela pode usar a dança como um meio?
A Dança do  Ventre é uma prática prazeirosa, a pessoa gasta energia, fortalece a musculatura, afina a cintura, faz alongamento, melhora apostura, aumenta sua auto estima, podemos trabalhar terapêuticamente para a mulher se ver mais bonita. Através das roupas, maquiagem, das danças de apresentações. As que não queiram apresentarem-se em público fazemos eventos entre nós. Só com mulheres. É um ambiente onde encontra-se uma energia muito boa. A Dança do Ventre promomove uma auto-cura. Ela é terapeutica. Trabalha com respirção e movimentações que você pode liberar mágoas. Liberar couraças musculares, energias travadas.
O fato de ser uma dança milenar não é obra do acaso?
Ela não está voltada apenas para a parte produtiva, mas para o corpo como um todo. Eu trabalho não só como uma dança, mas como um todo. Tenho comigo, que o que faço é uma missão, a principio eu não tinha nada para voltar-me à dança, tornei-me pioneira da Dança do Ventre em Piracicaba, algo que nunca imaginei, sequer planejei. Acredito que isso tenha sido colocado em minha vida, por um poder superior, para resgatar a feminilidade das mulheres, resgatar a dança como dança sagrada, que ela é. Lembro-me que estava na época do Tcham, e as criancinhas dançando o Tcham. Foi quando dedicidi dar aulas para crianças, iniciei dando aulas na Creche Branca Azevedo: ensinava postura, delicadeza, acessórios de véu, coisas para crianças, para tirar a vulgaridade da dança do Tcham, criei um método especial para crianças que é diferenciado do adotado para adultos.
Existe uma simbologia na dança com véus?
Existe a lenda dos sete véus, dos sete portais, sete maravilhas do mundo. Há uma profusão de alusões. É mais lendário do que específico e técnico. Na época em que estudei não existia a internet, a Dona Marie importava vídeos, eu estudava através deles, direto da fonte. Estudava os movimentos das melhores bailarinas, muito renomadas, que estão vivas até hoje. Comecei a dançar como elas. Depois é que fui fazer cursos, até então eu só sabia dançar, com os cursos passei a ter condições de dar aulas. Não imaginava que iria ser a minha profissão.
A bailarina desperta a fantasia masculina?
Esse é um cuidado que sempre zelei em ter. A roupa necessita mostrar partes do corpo para mostrar a dança. Não é para mostrar o corpo de forma vulgar. Há ocasiões em que a dança usa roupas fechadas. Dancei muito para a Sociedade Sírio-Libanesa, fiquei vinte anos lá, dei aulas, A Dona Marie Massuh era de lá. Conheci todas as pessoas da entidade, sinto-me parte dela.
Quando uma dançarina põe-se a dançar modifica o ambiente, qual é a explicação?
A Dança do Ventre tem uma energia diferente, e não é só porque seja sensual. Embora o sensual seja sagrado.
O olhar de uma dançarina é diferente, ele é quase hipnótico.
Você conquista o publico através do olhar, o seu olhar é a sua conexão com o público. O olhar é a janela da alma. Um determinado diretor de um famoso clube social de Piracicaba, em uma ocasião, após apresentar-me dançando, disse-me: “Você sabe onde está sua sensualidade? No olhar! Você pode cobrir-se todinha para dançar!”
Isso para quem já assistiu a diversas apresentações sabe que não é uma característica exclusiva sua.
Na Dança do Ventre, nós incentivamos a mulher ter sua sensualidade natural. Não vamos aguçar a sensualidade. Vamos resgatar a sensualidade natural da mulher. Quando a mulher tem a sensualidade acentuada a Dança do Ventre equilibra os hormônios. Eu sei o que eu faço, sempre danço para reverberar a Luz, a positividade, transformar as energias, deixar o ambiente alegre, essa é a função da bailarina. Animar a festa! Qualquer dança libera a serotonina!
Você sabe aproximadamente quantas apresentações já realizou?
No inicio eu anotava, mas com o passar do tempo, o número de apresentações aumentou muito e eu deixei de anotar. Guardo maços de jornais e revistas onde há fotografias e referências ao meu trabalho. Já dei aulas em todos os clubes de Piracicaba e nas melhores academias. Apresento-me em Piracicaba, região, São Paulo, onde me contratarem. Já dancei na Casa de Chá Khan el Khalili que na época era a melhor casa de chá do Brasil, atualmente já existem outras. Para dançar lá tinha que passar por uma pré-seleção muito grande. Participei da primeira seleção, depois passava por uma segunda seleção e se aprovada era contratada. A banca tinha mais de 12 profissionais, bailarinas renomadas de São Paulo. A Casa de Chá Khan el Khalili tinha como proprietário Jorge Sabongi, onde estudei também. Está escrito na porta que é a Casa da Arte da Dança do Ventre. O público alvo, e quem mais gosta de lá são as mulheres.
Você já teve convite para ir para o exterior?
Fui pré-selecionada para ir para a Espanha e para uma temporada de seis meses em navio cruzeiro. Quando ia assinar o contrato meus pais ficaram preocupados. Achei por bem não aborrece-los. Seria o inicio de uma carreira internacional. Isso foi em 2004, o diretor disse-me: “ Josiany se você for não irá voltar mais, é a melhor bailarina que estará presente”.
Isso é uma demonstração de grande maturidade, de quem põe seus valores acima do sucesso a qualquer preço.
A Dança do Ventre veio em um “boon” mundial, no ano 2000, para a mulher resgatar a sua feminilidade, seu valor em sua essência feminina. Um valor que estava sendo perdido no dia a dia em busca da igualdade entre o homem e a mulher. Eu acredito que devemos ser tratados de forma igualitária, porém temos que respeitar a natureza de cada um. O homem e a mulher tem energias diferentes. Complementam-se. Não são competidores.
Você dá aulas prticulares e para grupos?
Dou aulas particulares, para grupos de pessoas, academias, clubes.
Após você ter tomado a iniciaiva em divulgar a Dança do Ventre em Piracicaba houve mudanças nesse aspepecto?
Em 1999 fui a quarta colocada no Concurso Profissional no Mercado Persa, esse evento que é o maior do mundo. A partir daí a Dança do Ventre em Piracicaba cresceu muito.
Piracicaba reconhece o seu trabalho?
Já fui homenageada na Semana da Cultura Árabe que se deu na Câmara Municipal, o Professor Elias Sallum concedeu-me uma medalha comemorativa de Honra ao Mérito pelos meus trabalhos de dança e promoção da cultura árabe.
Quem quiser saber como se sente pode fazer uma aula experimental?
Pode fazer, basta entrar em contato comigo atravez do telefone (19) 9 9736.5060. A primeira aula é gratuita.
A pessoa que tem uma vida sedentária, coluna travada, pode sentir-se melhor com a dança?
Inicialmente tem que ter o aval de um médico, mas a Dança do Ventre ajuda a articular a coluna vertebral. O movimento de ondulações faz com que as vértebras fiquem mais “soltas”. Qualquer pessoa pode estar fazendo, mesmo que esteja acima do peso. Há algumas pessoas que dizem: “Ah! Não é para a minha idade!”. Isso não é verdade! A Dança do Ventre ajuda e muito!

DENISE CÁSSIA LOURENÇO – APASPI


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 24 de junho de 2017.

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://blognassif.blogspot.com/                     


http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADA: DENISE CÁSSIA LOURENÇO – APASPI


 

A nossa entrevistada, supervisora pedagógica da Apaspi- Associação de Pais e Amigos de Surdos de Piracicaba, onde trabalha a mais de três décadas é Denise Cássia Lourenço  nasceu a 28 de novembro em Francisco Sá, Minas Gerais. Filha de Ulisses Batista Gomes, funcionário de carreira do Banco do Brasil e Elianise Lourenço, advogada, que tiveram os filhos Ulisses, Débora Uelton e Denise. 

Você permaneceu na cidade de Francisco Sá até que idade?

Quando eu tinha sete anos meu pai foi transferido para São Paulo, fomos residir no bairro Santo Amaro, lá estudei o primário. O ginásio e o colegial fiz em Itapetininga, para onde meu pai foi transferido novamente. Em 1986 vim para Piracicaba, estudei Pedagogia voltada para deficientes, na UNIMEP. Depois fiz curso de especialização em Deficientes Auditivos.

O que a levou a interessar-se por essa àrea?

Sempre fui muito curiosa, via que em determinadas casas havia  crianças que não frequentavam a escola. Isso me intrigava. Por que essas crianças não iam para a escola? Quando iam eram encaminhadas para escolas específicas, diferentes das demais. Eu já trazia comigo essa dúvida, em Itapetininga, havia uma criança que não ia para a escola, não conseguia entender o porque. Isso ficou em minha cabeça até eu entender que aquela criança era deficiente intelectual. Meu irmão tinha um amigo chamado Renato, hoje é adulto, casado. Eu achava o Renato incrível, além da deficiência intelectual tinha uma deficiência física. Isso não o abatia, estava presente em todas as ocasiões, o que causava-me admiração. Quando decidi qual carreira iria seguir, decidi que iria ajudar essas pessoas.

Como você conheceu seu marido?

Tenho uma amiga, a Ana, que mora nos Estados Unidos, e ela fez uma festa de despedida, foi lá que conheci o meu marido, Fernando Cunha, em uma festa country. Era a apresentação de Cezar e Paulinho. Estamos casados ha 17anos. Por opção não temos filhos.

E a Apaspi como surgiu em sua vida?

Toda vez que eu ia para a faculdade pegava o ônibus na Rua Riachuelo, bem em frente a Apaspi. Eu via aquelas pessoas tentarem conversar e ninguém entendia. Na hora entendi que deveria participar daquela situação. Em frente a Apaspi tinha um cartaz enorme dizendo que iria encerrar as atividades por razões financeiras. Eu já tinha visto a notícia no jornal. Eles tinha necessidade urgente de voluntários. Em 1987 ingressei como voluntária. Conversei com a Deise que era a assistente social, Em 1990 me formei. Fiz a pós-graduação em Itatiba, nessa época eu já estva na Apaspi. A pós-graduação era na sexta feira e sábado. O presidente da Apaspi era Miguel Jorge Lulia.

O primeiro dia em que você entrou como voluntária qual foi o seu sentimento?

Senti que precisava fazer muita coisa! Na época tinha 80 crianças e adolescentes, dos 5 aos 18 anos. Nessa época o presidente era Julio Lázaro Sierra com um grupo de abnegados, entre eles Antonio Oswaldo Storel,  Antonio Aparecido Garrido, tinham visto no jornal que a Apaspi iria fechar por falta de recursos. Decidiram ajudar. A Apaspi foi criada no dia 26 de maio de 1977, completamos 40 anos de atividades.   As professoras Adir Teresinha Massari e Maria Ephinênia de Mello Camuzzo da Escola Estadual Dr. João Conceição são as fundadoras. Elas inicialmente tinham uma sala especial para surdos na própria escola, reuniam os pais para orientar, conversar. Como não tinham sede, chegaram a utilizar as dependências do Lar Escola Maria Nossa Mãe, localizada a Rua Boa Morte. Miguel Jorge Lulia que tinha uma filha surda, alugou uma casa para o uso da entidade.

Que tipo de trabalho era realizado além desse de conscientização e interação da família com o deficiente?

Fazíamos o atendimento de fonoaudiologia e atendimento de pedagogia. Nesse local permanecemos em torno de 15 a 20 anos. A sede própria foi conseguida graças a ação do prefeito Adilson Benedito Maluf, o vereador Mário Monteiro Terra encaminhou a solicitação e o prefeito deferiu o pedido de cessão de área, Mario Terra não só solicitou a àrea, como também veio nos ajudar. O presidente da Apaspi, Júlio Lázaro Sierra através de um intenso trabalho, buscou sensibilizar pessoas e empresas buscando doações de toda ordem, a população sensibilizada com a causa, respondeu positivamente, colaborando para a construção do prédio em que hoje nos encontramos. Tinhamos o prazo de três anos para concluir as obras, ou perderiamos a concessão da área, e não tinhamos nenhum recurso em caixa! A seguir tivemos como presidente José Aref Sabagh Esteves e atualmente temos na presidência Maria de Fátima Esteves.

Atualmente vocês atendem a quantos pacientes ou usuários?

Atendemos a quarenta pessoas. Denominamos usuário na parte social e paciente na assistência terapêutica.


    ALGUNS ALUNOS, VOLUNTÁRIOS E FUNCIONÁRIOS DA APASPI


Houve uma redução de necessidades ou uma redução de atendimento?

Diversos fatores contribuiram para essa redução. A vacina contra a rubéola expandiu sua àrea de atendimento, a rubéola é uma das doenças que mais implica na incidência da deficiência auditiva. A vacinação dos adolescentes, feita já a algum tempo, tem mostrado o resultado de sua eficácia. Os orgãos públicos de saúde tem feito um trabalho de vacinação contra rubéola nas escolas proporcionando uma diminuição de incidência de surdez transmitida pela mãe no período da gestação.

Uma gestante pode provocar a surdez em seu filho ou filha por quais fatores?

Além da rubéola, a catapora, desde essas doenças mais comuns até mesmo doenças venéreas. O feto desenvolve a audição nos primeros três meses de gestação.

É correto dizer que a população de surdos e mudos diminuiu?

Devo fazer uma correção básica: só surdos! Nem todo surdo é necessáriamente mudo! Há uma ssociação de que todo surdo é mudo, isso não é verdadeiro! Assim como todo mudo não é necessáriamente surdo! O mudo pode ter algum problema nas cordas vocais mas escutar muito bem! Toda criança que é admitida na Apaspi nós vamos a sua escola para levar orientação, temos uma parceria com orgãos públicos para levar as informações necessárias. A ocorrência de casos de surdez ocorre mais nos bairros periféricos. Há uma somatória de fatores: falta de informação, falta de medicação, de acompanhamento médico. Usamos também a rede social para levarmos informações.

Quem patrocina os custos das ações desenvolvidas pela Apaspi?

Estamos fazendo tudo que é possível para mantermos o que já conseguimos conquistar, mas não podemos fechar os olhos para a crise financeira que atingiu todos os setores, inclusive a Apaspi. Todas as entidades de cunho social foram sériamente atingidas. Já tivemos campanhas de prevenção nas creches em convenio com o poder público.






                                              BAZAR DA APASPI


Quando a criança nasce tem como detectar algum problema de audição?

Existe o teste da orelhinha, Obrigatório e gratuito nos hospitais e maternidades públicos desde 2010. É feito através de um parelho que emite alguns sons e a criança tem reações, no olhar, na mão. É realizado por profissionais capacitados como o fonoaudiólogo.

A ocorrência de surdez acomete também com pessoas com estabilidade financeira?

Normalmente a pessoa quando se prepara para ter um filho ela quer que a criança seja perfeita. A princípio a mãe ou os pais sentem que há algo diferente, mas a primeira reação é negar a ocorrência. A pessoa pode contrair rubéola e nem perceber, a manifestação da doença as vezes é quase imperceptível. Ela pode ser confundida com uma alergia. Por isso que a futura mamãe deve tomar a vacina antes da gravidez. Recomenda-se que ainda noiva, ou seja antes da gravidez, a mulher tome a vacina contra a rubéola, são duas doses apenas para ter imunidade sem a necessidade de tomar de novo. Casais que vão em lua de mel a lugares exóticos, se pensam em ter um filho, devem tomar também a vacina contra febre amarela. Cerca de 70% da incidência de casos de surdez em bebês é devido a rubéola. Outros fatores podem influenciar: medicamentos, alimentação, tabaco, bebidas alcoólicas.

Essas vacinas podem serem encontradas em quais locais?

Nos postos de saúde, é gratuita e indolor. São oferecidas todas as facilidades para esse tipo de procedimento. Têm que estar consciente de que o futuro da pessoa que você está gerando está sob sua total resposabilidade. Uma prevenção pode evitar que a pessoa seja muda pela vida toda. A sua omissão poderá condenar o futuro dela.

Quando a mãe tem certeza de que a criança de fato é muda, qual é a reação?

A primeira fase é negar. Depois é porque Deus quiz. A seguir ela tenta fazer alguma coisa. Procura um local que seja especializado, como a Apaspi, por exemplo, e a seguir vem o desprezo. Ela coloca a criança na instituição e não quer acompanhar o desenvolvimento da criança. Ela tem que aprender a LIBRAS, ( Língua Brasileira de Sinais) para se comunicar com a pessoa deficiente. Se a família é estruturada as coisas funcionam bem, infelizmente a realidade em que vivemos não é assim. O deficiente dentro de uma família estruturada desenvolve-se muito bem, essa criança é acompanhada, amada, aceita. Ao atingir a adolescência terá os problemas tipícos da idade, mais a sua condição de deficiente. Infelizmente o preconceito começa muitas vezes dentro da família. Se você não tenta aprender a linguagem do seu filho é um desprezo.

Ao chegar a Apaspi pela primeira vez a criança passa por uma avaliação?

Ela é avaliada por uma fonoaudiologa, uma pedagoga e uma assistente social. É feita uma entrevista com os pais, expõe-se os direitos que essa criança tem, inclusive auxilio financeiro por parte do governo.

Você tem pessoas assistidas que se transformam em voluntários?

Temos a Rosângela, essa moça é surda, ensina LIBRAS para as crianças, para as pessoas da família do surdo. A Rosângela ingressou na Apaspi com 5 anos, hoje ela tem 37 anos, antigamente não existia LIBRAS, existia a leitura labial. Aqui ela é professora de LIBRAS, vai começar a fazer pedagogia. Ela foi casada com um surdo, tiveram uma filha surda, o marido dela faleceu, ela casou-se com outro que é ouvinte, tiveram um filho ouvinte.

Como a entidade sobrevive financeiramente?

Uma parcela de ajuda é fornecida pelo poder público, que infelizmente é bem inferior as nossas necessidades. Sobrevivemos com o esforço da diretoria, voluntários e auda da população. Uma grande luta! Recebemos doações de alimentos, roupas.

Dos 40 surdos quantos usam aparelho para surdez?

Todos usam! Usam o interno ou os implantados. Além da colocação do aparelho há todo um trabalho para desenvolver a identificação dos sons. Não basta colocar o aparelho e está pronto! Não irá localizar nem saber o que é! Ele não irá escutar tudo e identificar! Dependendo do aparelho que a pessoa for usar não irá escutar a voz humana. Irá ouvir só os sons ambientais. O liquidificador, a campainha, o telefone. O implante do aparelho é feito através de uma cirurgia, funciona com uma pilha externa. Nós temos o Centrinho de Bauru, um hospital especializado para implante coclear.

A Apaspi atende qual faixa etária?

Quando se trata de um bêbe recém-nascido os pais recebem orientação. A partir de um ano de vida os pais vêm com o bêbe ele então passa a ter terapia de fonoaudiologia e pedagogia.

Eram mais vezes de terapia, tivemos que diminuir tempo e funcionários em função da crise. Os deficientes permanecem aqui até os 18 anos. Ai eles fazem a opção, uns vão para o mercado de trabalho outros para uma faculdade, depende da escolha de cada um. Se escolher uma faculdade há um interprete que o acompanha, foi uma luta muito grande, a Apaspi interferiu muito na questão junto ao Estado. Para aumentar a sala de recursos e aumentar os intérpretes. A sala de recursos é utilizada quando eles não aprendem na sala de aula. Para que uma especialista passe para eles o que não entenderam. Participei em conjunto com toda a Apaspi para aumentar os polos onde tenham essas salas para atender os surdos. Hoje temos a Escola Estadual Barão do Rio Branco, Escola Estadual Professor Elias de Mello Ayres, Escola Estadual Dr. Alfredo Cardoso, assim como as faculdades. O aluno surdo presta vestibular com intérprete, a faculdade contrata um intérprete, hoje é lei. A faculdade tem que providenciar o intérprete e arcar com os custos do mesmo. Durante o curso, todas as aulas o intérprete tem que estar junto ao surdo. Se o curso durar quatro anos, por quatro anos ele terá um intérprete, sendo a faculdade responsável pela remuneração do mesmo.

Qual é a relação do surdo com a música?

Os que tem implante coclear quando começamos  a trabalhar com ele  quanto mais atividades realizarmos é melhor. O que tem surdez profunda, que não tem fala, cantamos também,   tem o coral! Coral de surdos. 

Há ex-pacientes da Apaspi no mercado de trabalho?

Muitos! Na Mondelēz Internacional (anteriormente Nabisco), na Dedini, Hyundai, Caterpillar. São excelentes funcionários, desenvolvem uma concentração muito grande.

Usam o WhatsApp ?

Podemos dizer que o telefone chegou para o surdo através do WhatsApp!
                                                 ALGUNS DOS VOLUNTÁRIOS


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ARLETE MARIA RODRIGUES NEGRI


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 10 de junho de 2017.

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://blognassif.blogspot.com/


http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: ARLETE MARIA RODRIGUES NEGRI


 

Arlet Maria Rodrigues Negri nasceu a 27 de outubro no bairro rural Guamium, em uma fazenda, ali havia um casarão onde moravam, de portas e janelas azuis, junto a Estrada dos Godinhos. Atualmente a região já está urbanizada. Seus pais, Antenor Rodrigues e Angelina Castelucci Rodrigues tiverem três filhos: Arlete Maria, José Adalberto e Antonio Wilson.

Seu pai trabalhava em qual atividade?

Meu pai trabalhava na empresa Tema Terra em Sumaré, ele foi trabalhar nessa empresa que naquele tempo ainda chamava-se Tratores do Brasil quando eu tinha sete anos, Lá ele trabalhou até aposentar-se. Morei em Sumaré por dois anos. Meus avós paternos eram Jorge Rodrigues e Ida Carletti Rodrigues. De Sumaré por dois anos morei na cidade de Três Pontas em Minas Gerais. Depois voltei para Piracicaba, fui morar com meus avós maternos Ephigênia Basso Zambon e Antonio Castelucci , com o meu tio Antonio José Castelucci que morava com seus pais, ou seja, morávamos todos nós meu tio, meus avós e eu, na mesma casa.

Em que bairro de Piracicaba você passou a residir?

Na Avenida Dom João Nery, na Vila Rezende. Eu tinha estudado em Sumaré, em Três Pontas, e aqui fui estudar na Escola Imaculada Conceição (Na época conhecido como “Carequinha”). Era comum dizer que estudava no Carequinha! Fiz o curso de auxiliar de escritório, em seguida o Curso Técnico em Contabilidade., depois fui fazer a faculdade em Tatuí.

Você começou a trabalhar a partir de quantos anos?

Meu avô Antonio Castelucci tinha um açougue, inicialmente situado na Avenida Dona Francisca depois passou a ser na Avenida Dom João Nery. Eu tinha de catorze para quinze anos, ajudava no açougue. Gostava de trabalhar, desossar, picar, fazia lingüiça, codeguim (o cudiguim (ou codeguim ou cotechino) é uma lingüiça fresca elaborada com carne suína, couro cozido e gordura, com boa quantidade de temperos como alho, cheiro verde, noz moscada, pimenta).

A que horas abria o açougue?

As cinco horas manhã abria, lá pelas onze horas fechava, depois do almoço, das duas horas até as cinco abria de novo. O meu tio Antonio José Castelucci fazia faculdade de matemática em Rio Claro. Ele ajudava no açougue na parte da manhã, levantava bem cedinho, deixava todas as encomendas prontas e depois ele ia para a faculdade. Aos sábados um outro tio, Miguel Biscalchim  ajudava também. O meu tio Antonio José Castellucci formou-se em matemática, fez carreira como professor acadêmico e é um dos pioneiros da implantação de cursos da UNIMEP no Campus de Santa Bárbara D`Oeste.

Você concluiu o curso de contabilidade e foi fazer a faculdade?

Fui fazer educação artística em Tatuí, na Faculdade de Ciências e Letras de Tatuí, que era o que eu gostava, aos doze anos, eu morava em Três Pontas, pintava telas com pinturas a óleo, eu tinha muita habilidade com trabalhos manuais. A Faculdade de Tatuí já era famosa, quem estudava lá: João Pedro Godinho, Cecília Neves, Isabel Guardia, Mércia Angeleli, a Cica. O João Chiarini dava aula para mim. Era bem incentivador.
                                                              JOÃO CHIARINI

Como vocês iam para Tatuí?

Íamos de ônibus, saíamos de Piracicaba às seis horas da tarde, o ônibus saía de frente da catedral, e voltava à meia-noite. Na época eu era solteira. Era um pessoal muito animado, valia a viagem. Foram três anos.

Nessa época você já estava namorando seu futuro marido?

O Wilson estudava o curso científico com o meu tio Antonio José Castellucci, em função dessa amizade com o meu tio ele freqüentava a nossa casa. A minha avó era comadre da mãe dele Ângela Alleoni Negri casada com Carlos Negri, meu sogro. Estávamos sempre juntos. Depois de muito tempo começamos a namorar. Ele foi fazer Engenharia Civil na Escola de Engenharia de Piracicaba. Ele gostava muito de eletrônica. Foi um dos pioneiros da informática em Piracicaba. Ele informatizou o SEMAE – Serviço Municipal de Águas e Esgotos; informatizou a Prefeitura Municipal de Piracicaba, o SEMUTRAN -  Secretaria Municipal de Trânsito e Transporte; foi um dos fundadores do CIAGRI - Centro de Informática da ESALQ, ele trabalhava na Escola de Agronomia Luiz de Queiroz. Ele fez Mestrado em drenagem e irrigação. Quando nos casamos ele dava aulas na UNIMEP, em Piracicaba e em Santa Bárbara D Oeste. Ultimamente lecionava na Escola de Engenharia de Piracicaba.


Em que ano vocês se casaram?

Foi a 19 de julho de 1978, na Matriz da Vila Rezende, o Padre Jorge foi o celebrante. Tivemos duas filhas: Patrícia e Mariana.
                              CENTENÁRIO PARÓQUIA IMACULADA CONCEIÇÃO


Quando vocês vieram morar na casa onde permanece por 37 anos o bairro era bem diferente?

Havia poucas casas, estavam começando, a nossa rua era a que mais tinha casas, mas o bairro em si era composto por poucas casas.
                      ARLETE AO LADO DO PÉ DE MAMÃO NA CALÇADA DA SUA CASA.
                      ELA AFIRMOU TER APENAS JOGADO AS SEMENTES.

                               VISTA PARCIAL DA PRAÇA EM FRENTE A SUA CASA, ONDE PLANTOU MUITAS ÀRVORES FRUTIFERAS. ENTRE AS DUAS ÀRVORES AO FUNDO, SEU MARIDO WILSON ESTIVACAVA UMA REDE PRESA ÀS DUAS ARVORES E FICAVA OLHANDO AS CRIANÇAS BRINCAREM NA PRAÇA.

Além de arte, que você gosta muito, há outras coisas que a atrai?

Gosto muito de móveis antigos. Tenho uma coleção de xícaras, as pessoas sabem e quando vão se desfazer de alguma coisa antiga me consultam se quero. Sabem que eu irei cuidar com carinho. Algumas vezes até restauro. As coisas antigas que possuo são presentes de diversas pessoas, vizinhas, amigas, parentes. Tenho uma peça que ganhei de uma amiga chamada Dona Vilma, ele ganhou da sogra dela. A Dona Vilma faleceu com 85 anos. Imagino que essa peça deve ter mais de cem anos! Tudo que tenho de antigo foi alguém que me deu. Muitas coisas eu restaurei. Uma pessoa de muita cultura, da nossa família, sugeriu que eu fizesse um curso de restauração na Europa, eu tenho uma mão considerada apropriada para a pintura e restauração. É o que chamam na arte de ter a mão “suave ou leve”. Tenho muitas pinturas em porcelana que eu mesma fiz, assim como vitral. Pintura em tecido, bordar, aprendi a fazer tudo isso.

                                  CAIXA COM MACHETARIA FEITA POR ARLETE
CRIADO MUDO ANTIGO, SENDO QUE A CAIXINHA DE MADEIRA EM CIMA DELE DEVE TER MAIS DE 100 ANOS !





                          PEÇAS EM PORCELANA (UMA DAS QUALIDADES DE ARLETE É PINTURA EM PORCELANA)

Você nunca pensou em fazer disso uma profissão?

Gosto muito de fazer, já trabalhei por cinco anos na Casa Campos, hoje loja Além da Lua, minhas filhas estavam estudando fora, meu marido trabalhando, eu para não ficar muito só em casa fui ajudar a minha amiga e no fim acabei ficando o período integral. É uma loja de artesanato. Na faculdade aprendemos a entalhar, fiz machetaria com a Isabel Guardia. (Machetaria é a arte ou técnica de ornamentar as superfícies planas de móveis, painéis, pisos, tetos, através da aplicação de materiais diversos, tais como: madeira, metais, madrepérola, pedras, plásticos, marfim e chifres de animais, tendo como principal suporte a madeira).

Ainda adolescente você trabalhou no açougue mas já estava tentando encontrar outra atividade profissional?

Fui fazer o curso de cabeleireira na Escola de Cabeleireiros Calazans, do Gilson Calazans. Trabalhei uns 20 anos nessa atividade, ainda trabalhando no açougue já fazia um pouco de cabelo. Depois que meu avô fechou o açougue passei a trabalhar como cabeleireira em tempo integral Naquela época não havia muitos cabeleireiros em Piracicaba. Eu era bem famosa aqui na Vila Rezende. Comecei trabalhando sozinha, depois passei a ter alguém que ajudava a fazer unhas. Trabalhava no fundo do quintal da minha avó. Fiz um quartinho, um banheiro, e fazia lá. Comprei o secador, lavatório era muito caro, não tinha. Coloquei duas colunas de concreto que adquiri na Artefatos de Cimento Coimbra, em cima coloquei uma pedra de granito, um espelho, que conservo até hoje, assim passei a trabalhar.
                                         SECADOR DE CABELO ANTIGO COM PEDESTAL


                                                              BOBES NO CABELO

O secador era aquele em que a mulher enfiava a cabeça dentro?

Era esse mesmo! Tinha um babyliss, que era um modelador para ficar enrolado, ao contrário da conhecida “chapinha” que alisa o cabelo. Essa moda de enrolar o cabelo está na moda de novo.

Naquela época era muito comum, as moças enrolarem o cabelo com bob de plástico, passar boa parte do dia com os bobs e um lenço sobre a cabeça para depois irem terminar o penteado?

Às sextas e sábados eu começava a atender às cinco horas da manhã, enrolar os cabelos das meninas. Elas colocavam um lenço cobrindo a cabeça e iam trabalhar. Quando saiam do serviço voltavam para arrumar o cabelo. A moça com bob na cabeça com certeza já sabia que a noite iria passear. Era chique até! Eu tinha clientes que moravam nas proximidades da Santa Casa de Piracicaba, a Neide Krahenbhul fazia unha comigo. As meninas que trabalhavam nas lojas do centro vinham bem cedinho para enrolar o cabelo, tinham que tomar o ônibus e chegar ao local de trabalho às sete horas.

   
O famoso cabeleireiro Nandi era seu vizinho?

Era meu vizinho! Na Vila Rezende era eu, o Nandi e a Alzira (Zaíra) Papini e a Marli Zurck.

Os produtos utilizados para “fazer a cabeça” das moças eram improvisados?

O laquê era fundamental! O cabelo era enrolado com cerveja! Passava cerveja no cabelo para ficar duro!

Não ficava o odor da cerveja?

Ele secava, ficava duro apenas. Tempo de produtos da marca Anaconda.

O salão de cabeleireiro é um local com alguma semelhança a uma sala de psicólogo, onde as pessoas desabafam seus males?

De certa forma sim. É essencial que o profissional mantenha o sigilo de tudo que ouve ou sabe, ou poderá naufragar o seu empreendimento. Há momentos em que a pessoa sente-se a vontade para revelar confidências, suas ou de uma terceira pessoa, e isso não deve virar a chamada fofoca.

Para ir para o centro você utilizava o bonde?

Quanto pegar o bonde! Um pouco antes da cabeceira da ponte sobre o Rio Piracicaba, havia uma porteira que era fechada para dar passagem ao trem particular do Engenho Central.

O local que por muitos anos foi denominado de “Bimboca” situa-se aonde de fato?

Se você for pela Avenida Dona Santina, irá passar por um posto de saúde, descendo a atual Rua Francisco de Souza, tem uma bica de água, ali é que era a Bimboca. Mais adiante tínhamos o famoso bairro do Pitá, assim denominado por ter a plantação de pita ou agave, material que o industrial Virgilio Lopes Fagundes utilizava em sua indústria de cordas. Atualmente essa área está toda urbanizada. Essa descida que temos na Avenida Manoel Conceição é denominada como pertencente ao Bairro São Luiz.

Você freqüentava os cinemas de Piracicaba?

Freqüentava o Politeama, comprava balas, chocolates, na “bombonière” situada entre os bancos Itaú e Bradesco, na Praça José Bonifácio nº 13 de propriedade de José Passarela. Ia a outros cinemas também, na época existiam o Broadway, o São José o Palácio e o Colonial na Rua Benjamim Constant. Eu gostava de ir ao Politeama, é onde a juventude reunia-se. Dizíamos de vez em quando que “íamos fazer a praça”. Tinha uma grande amiga Leila Pizelli, advogada, trabalhava na prefeitura. Íamos até o centro, o seu pai tinha uma caminhonete, dávamos uma volta de caminhonete no centro. Às vezes quadrávamos o jardim da Vila Rezende, era freqüentado mais pelos jovens da Vila Rezende, eles não se misturavam com o pessoal da “cidade”. Na época a Caninha Tatuzinho e a Caninha Cavalinho estavam em atividades intensas. Eu tinha bastante amigas que trabalhavam na Tatuzinho.

Quais eram os cortes e penteados de cabelo femininos mais na moda da época?           

Eram “Joãozinho”, Chanel, Coque, Banana, que era um penteado que ficava na parte posterior um formato parecido com uma banana.
        PENTEADO FEMININO CONHECIDO COMO "BANANA" MUITO USADO NA ÉPOCA

Você teve a oportunidade de conhecer diversos artistas de repercussão nacional, no auge da carreira?

Na década de 60, anos da Jovem Guarda, quando muitos artistas estavam no auge, houve um almoço em Sumaré, do qual eu participei, era composto basicamente por artistas de expressão: Jorge Bem, George Freedman, Martinha, Pedro Paulo Rangel.

E Milton Nascimento?

Ele era de Três Pontas, no período em que morei lá o conheci, na época eu era criança, tinha uns doze anos, ele estava começando a fazer sua carreira. Era praticamente um anônimo. Depois que ele fez sucesso e estourou. Gosto muito de teatro, quando vinham peças com artistas muito famosos, íamos meu marido e eu até o camarim, para conhecê-los, cumprimentá-los. Assisti um show de Roberto Carlos e André Rieu.no Chile.

De maneira geral nós não valorizamos muito a nossa história?

Nada! Vejo o que sobrou, edificações que a especulação imobiliaria ainda não derrubou. Sou conservadora. Em frente a minha casa nasceu um pé de mamão, está carregado. Do outro lado da rua tem uma praça, ali já plantei diversas mudas de àrvores frutiferas, Inclusive duas mangueiras, quando o bairro não era tão habitado, meu marido colocava uma rede entre as duas mangueiras e ali ficava, olhando as crianças que brincavam. Até hoje cuido dessas plantas, faço compostagem, coloco adubo natural, corto grama.

Você gosta de ler?

Devoro livros, prefiro os livros de leitura leve, também chamados de àgua-com-açúcar. Embora as vezes também leio livros utilizados pela minha filha que atua profissionalmente na área de psicologia. Leio jornais, do começo ao fim. Tenho o habito de recortar aquilo que me interessa e às minhas filhas.

Você participa de alguma instituição como voluntária?

Já estou ha 20 anos como voluntária da instituição Associação Viva a Vida - Mulheres Mastectomizadas, mais conhecida como “Viva a Vida” situada a Rua José Pinto de Almeida, 824. A Dona Vilma Almeida de Godoi, foi a primeira pessoa a se preocupar em dar suporte à mulheres com cancer de mama, iniciei fazendo pinturas em tecido e fazendo perucas para as pacientes. Sou a primeira pessoa não acometida pelo mal a ajudar. Um dia Dona Vilma aceitou que eu ajudasse a instituição. Passei a fazer de tudo um pouco. Ajudar a fazer a primeira prótese, para as pessoas que não tem condições de comprar. Fazemos uma de paninho, com os pesos certos, é colocado dentro do sutiam. Fazemos esse trabalho, faço artesanato com as pessoas. Temos psicólogos, fisioterapeutas, contribuímos com cestas básicas, tentamos elevar a auto-estima da pessoa. Ali é freqüentado por mulheres de todos os níveis. Temos o brechó que abre de segunda a quinta do meio dia e meia até as três e meia, às quintas feiras é das duas horas da tarde até as quatro horas. O primeiro bingo feito pela Associação foi organizado por mim, pelo meu marido Wilson e pelo saudoso Didi Cardinalli. Foi lá no Lar dos Velhinhos. Depois o Capitão Gomes passou a nos ajudar, fizemos reuniões beneficentes com jantares. Assim levantamos a Associação. O volume maior de pessoas assistidas por nós é de pessoas carentes.

Arquivo do blog