quarta-feira, setembro 23, 2026

 

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS

Jornalista e Radialista João Umberto Nassif

 

 

Entrevista: Padre Luiz Carlos Carone

 



 

Da marcenaria ao Altar: A Trajetória de Fé e Proximidade de Deus do Padre Luiz Carlos.

O zelo com o templo e o ambiente acolhedor que hoje movem a Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no Jardim Santa Tereza, em Rio das Pedras, são o reflexo direto da história de seu pastor. De origem humilde, nascido em uma numerosa família de 11 irmãos, o Padre Luiz Carlos aprendeu cedo o valor do trabalho e da fé. Filho de um carpinteiro e marceneiro devoto, ele iniciou sua jornada laboral logo aos 10 anos de idade, em uma loja de presentes em Piracicaba.

Essa bagagem de vida moldou o perfil acessível e benevolente que se tornou sua marca registrada ao longo de décadas de sacerdócio. Antes de assumir a comunidade rio-pedrense, o pároco liderou por 11 anos a Igreja Nossa Senhora Aparecida, no Bairro Piracicamirim, em Piracicaba — cidade com a qual a população local mantém forte ligação , e dedicou outros 12 anos à imponente Igreja de Saltinho. Nesta entrevista exclusiva, o sacerdote relembra suas raízes, o exemplo de seus pais e detalha como a sua própria história se conecta com a realidade da classe trabalhadora que ele acolhe e lidera hoje.

Padre Luiz Carlos Carone, o senhor nasceu em que dia?

Nasci em 14 de fevereiro de 1958, às 9:00 horas da manhã! Talvez isso tenha influenciado no meu gosto de levantar cedo! (Risos).

O nome dos pais do senhor?

João Carone e Hermínia Fernandes Carone! Eles tiveram 11 filhos: Helena, Antonio, Maria, Lourdes, José, Paulo, Izabel, Aparecida, João, Luiz Carlos e Terezinha. Onze filhos, já dava para para formar um time de futebol!

Qual era a profissão do seu pai?

Era carpinteiro, tornou-se marceneiro. (O carpinteiro trabalha mais em estruturas, enquanto o marceneiro trabalha com mobiliário, o marceneiro é considerado mais refinado devido aos detalhes em seu trabalho (Nota do Jornalista). Meu pai viveu até os 93 anos. A minha mãe era mais emotiva, viveu 86 anos. Foram pessoas de muita fé. Meu pai tinha uma fé inabalável!

O curso primário o senhor estudou em qual escola?

Estudei em Piracicaba na Escola Estadual Dr. João Conceição, no então prédio novo, na Rua Marquês de Monte Alegre. Depois fui para a Escola Estadual Professor Alcides Guidetti Zagatto. Em seguida fui para o Seminário fazer o Colegial, em Rio Claro, no Claret, até que então  entrei para a Diocese. Aí fiz PUC, Filosofia e Teologia.

Em Piracicaba?

 Fiz em Piracicaba e em Santa Bárbara d’Oeste que naquele tempo era o nosso Seminário. Eu ia e voltava de Piracicaba a Santa Bárbara.

Foram quantos anos?

Eu entrei com 17 anos e fiquei quatro anos no Seminário Menor. Depois fui para Filosofia por 3 anos, e 4 anos de Teologia. Mais um ano de Diaconato e me ordenei em 1987.

O senhor se ordenou em qual igreja?

Fui ordenado na Paróquia São José, a sua mãe estava presente (mãe do jornalista), quem me ordenou foi o Bispo Dom Eduardo Koaik. Cônego Luiz Gonzaga Juliani, muitos padres, o centro da igreja estava com muitas pessoas. O bispo disse: “-Só a sua família já dá uma igreja! Não vai sair da igreja para montar outra não!”. Lógico, foi em tom para relaxar a emoção! Minha família tem 25 sobrinhos!

Da sua infância o senhor tem recordações?

Tenho algumas lembranças a partir dos 5 anos de idade, era o décimo filho, com 10 anos de idade fui trabalhar (Naquela época era comum crianças trabalharem, dentro ou fora de casa!). Lembro-me de que havia um padre, chamado Pedro, que vinha sempre nos visitar. Eu já dizia que queria ser padre! Nessa época eu tinha uns cinco anos! Aos 15 anos de idade comecei a amadurecer o pensamento de ser padre. Com 10 anos de idade fui trabalhar na Casa dos Presentes, de Alcides Saipp e sua esposa, a loja existe até hoje na Rua do Rosário, entre a Avenida do Café e a Rua Dr. Edgar Conceição, na Paulista. Trabalhei 7 anos lá, trabalhava e estudava. Tinha muito brinquedo da Estrela, Trol... naquela época recebia carga muito grande de brinquedos entregues por caminhão! Naquele tempo não era giro, era estoque! Ele já fazia o que o Baú da Felicidade fazia, a pessoa começava a pagar em janeiro e ia retirar em dezembro. Foi uma pessoa bem sucedida, querida, honesto, me tratava muito bem. Nas minhas férias eu ia trabalhar lá! Eu tinha fama de ser bom vendedor! Aos sábados a loja fechava ao meio dia e eu lavava o Simca e depois um Itamaraty.

 Essa fé que o motivou a seguir a vida religiosa surgiu como?

O fato de trabalhar desde os 10 anos, fez com que eu fosse desinibido, me desenvolvi bastante e fui conhecendo muita gente. Fãzinha tinha bastante! Até briguinha na escola! Naquele tempo, no período em que trabalhei na Casa dos Presentes, a relação com os clientes era de amizade, praticamente todos se conheciam, as conversas eram mais espontâneas. Eu era uma pessoa de muitas amizades. Um dos primeiros, se não for o primeiro grupo de jovens foi formado na minha casa. O Totó Danelon que fundou. Ele faleceu por uma fatalidade. Nem ele soube do que ele morreu. Foi um carrapato, ele gostava de caminhar por locais onde a natureza tinha sido preservada, e lá pelos lados da Água Branca ele foi para contemplar a natureza. Nem percebeu que tinha levado um carrapato para casa. No banho ele sentiu-se mal e a esposa achou o carrapato após o banho. Ele ficou internado no hospital em torno de dois dias. Nós tínhamos esse grupo de jovens, tínhamos muita amizade, Na Paróquia São José chegou a ter 20 grupos de 50 jovens! Um total de 1.000 pessoas reunidas! Fazíamos caminhadas! Era um outro tempo!

As caminhadas eram feitas de onde para qual local?

Da Paroquia São José para a Catedral. Da Igreja São José para o Itapuã!

O senhor conheceu o Frei Sigrist?

Conheci! Da Igreja dos Frades. Conheci Frei Saul, Frei Basilio, Frei Liberato, era um frade rigoroso. Frei Honório, era um frade leigo. Ia buscar prendas, com uma caminhonete que dirigia com velocidade! Mas era um frade carismático, muito querido.

Como foi o seu ingresso no seminário?  

Um dia eu recebi visita. Naquele tempo eles chamavam de recrutação. Eles passavam pelas escolas, os que gostariam de ir podiam ir conversar com o padre na sala dos professores. Fui até lá e comecei a fazer o encontro vocacional. Em 1975 entrei, e fui estudando, tive as dificuldades, estudei latim o colegial todo.

A Igreja inovou bastante, ao celebrar a missa em português, a mudança do padre, voltado para os fiéis!

A partir daí teve não só os aspectos devocionais, por exemplo Irmandades, Terço. Isso avivou até mais. Veja o Terço dos Homens! Tem também as Pastorais: da Saúde, da Juventude. Pastoral Familiar, Encontro de Casais, temos uma semana de Pastoral Familiar e quase todos os dias a Igreja cheia! E em sua grande maioria casais jovens!

A Igreja comporta aproximadamente quantos fiéis?

Sentados 340. E depois tem um bom espaço em que as pessoas podem permanecerem em pé.

Sr. Armelindo Contessa, o senhor está participando conosco desse bate papo, por ser um dos pilares de sustentação das grandes obras que aqui são realizadas, tudo no mais perfeito estado!

Sou o zelador! Eu cuido da parte externa, dentro é um trabalho feito por mulher. Preparo tudo que é necessário para as celebrações.

Essa igreja impressiona demais não só pelo tamanho, mas sobretudo pelo zelo com que tudo é feito!

Uma Igreja bonita, espaçosa, é muito procurada para casamentos?

Talvez por uma questão de costume, os casais preferem realizar o casamento na Matriz. Uma vez por ano, realizamos casamentos comunitários. São aquelas pessoas que já estão vivendo juntas. Agora em novembro será o quinto ano que eu faço o casamento comunitário. No ano retrasado realizamos 11 casamentos comunitários. Esses casais estão juntos há 5, 10, 20 anos juntos e optam pelo casamento comunitário. Eles permanecem na comunidade. Hoje o casamento tem uma forte parte social.

O casamento, muitas vezes, é um acontecimento social, com 20 padrinhos, luzes, fumaça, músicas fora do contexto.

Só que hoje tem normas e pastoral responsável, e fotógrafos credenciados na diocese. Não por interesse econômico, mas em interesse em sanar esses problemas. Dificilmente você vai ver um fotógrafo colocar a máquina em cima do altar como colocavam! Tem gente que fica meio com o pé atrás, depois até agradece a pastoral, ela faz tudo por eles!

Qual é o efeito que a informática, os celulares, vem causando no aspecto religioso?

Ontem nós discutimos muito isso no Conselho Pastoral! Desde a pandemia tem ajudado muito! Quando eu estava no Piracicamirim, a primeira missa on-line, quem entrou em contato com a missa me impressionou muito! Foi um angolano, que estava na África, foi o primeiro que entrou em contato! Entrou o fator língua portuguesa!  Na Pastoral, no Grupo de Conselho, no Grupo 9 da Pascom, ela coordena isso, tem todo o cuidado, por exemplo: política, é um assunto delicado, pode ser um assunto político com “P” maiúsculo, do Papa, do Bispo no sentido do bem comum, mas tomar cuidado para não transparecer partidário. Quando se trata de IA é pior! A imagem, muita gente não sabe, pensa que pode tirar uma foto não sei de quem e postar. Isso pode dar um processo complicado, que a pessoa se fez isso ingenuamente nem sabe.

Com a I.A, por exemplo, vamos montar alguma coisa para a Semana Santa. “A Traição de Judas”, eu chamei o rapaz que tem 20 anos, ele conhece bem I.A. eu disse-lhe: “ Dá uma olhada nesse texto e vê se tem alguma coisa de Judas e Jesus que não tem nada a ver!”  . Ele analisou, e viu no fundo de uma das imagens, um beijo de Judas em Jesus que estava mais próximo da boca do que do rosto! Nós temos que tomar o máximo cuidado porque há interesse escuso em disseminar e simular! Passaram pelo celular, um globo de ferro que vai abrindo e fechando, em cada abertura aparece a imagem de um Santo até chegar em Nossa Senhora Aparecida. São desenhos em 3 dimensões e muito detalhados. Antes de passar para alguém, pedi para essa pessoa dar uma olhada se não tinha nada diferente. Ele considerou tudo normal.

A primeira Paróquia que o senhor assumiu qual foi?

Dom Eduardo tinha o costume de deixar 1 ou 2 anos em uma Paróquia. Eu fui na Paróquia de Bom Jesus de Santa Barbara d`Oeste. Foi em 6 de agosto, aniversário do meu pai! Fiquei um ano lá. Fiquei 13 anos e 6 meses em Saltinho. Eu queria sair de lá, o Bispo não queria que eu saísse , o povo fez um abaixo-assinado, o Bispo me aconselhou a dizer que estava saindo pela minha vontade.  

O senhor foi para onde?

O Bispo disse-me: “Você vai pegar duas paróquias, com dois padres aposentados!”. Fiquei com uma Paróquia em Mombuca e outra em Rafard. Fiquei nove anos e seis meses lá! Aí Dom Fernando me trouxe para Piracicamirim. Fiquei 11 anos no Piracicamirim! Agora faz quatro anos e meio que estou aqui, cheguei em fevereiro. Em janeiro faço 40 anos de Padre!

O Padre tem um período em que ele é obrigado a parar?

A parar não é obrigado, ele pode continuar ajudando um Pároco. Ele tem que passar o comando para um substituto. O Bispo também deixa de exercer a atividade e passa a ser emérito. Dom Eduardo, que era um homem sábio e espirituoso dizia que era um título bonito para dizer “Aposentado!”.

O Padre Jorge permaneceu como pároco a vida toda?

Ele e o Monsenhor Juliani permaneceram. Naquele tempo havia alguma tolerância. Hoje existe uma norma, mas na verdade é o Bispo quem decide. Hoje existem normas , inclusive voltadas para padres, pastores, que se fizerem campanha política dentro do templo, ou da igreja, eles podem sofrer impugnação.

Aqui na Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, em Rio das Pedras, qual é o horário das celebrações, reuniões!

Na quarta-feira temos missa às 19:30 horas. Às quintas-feiras, nós temos na comunidade, casas, aonde são realizadas uma cerimônia religiosa em que  o morador acolhe cerca de 30 a 35 pessoas, às 19:30. Na primeira sexta-feira do mês, às 19:30 tem missa com adoração do Santíssimo, em uma sexta-feira, celebramos uma missa na Capela Santa Cruz, é uma capela pequenininha, o local é denominado Praça Floriano Peixoto, em frente ao Posto  Montagner. Na outra sexta-feira, às 19:30 é celebrada uma missa no Bairro Alambari. Na última sexta-feira é reunião do Conselho. Aos sábados, o Frei Moacir celebra missa às 15:00 horas aqui na Paróquia Nossa Senhora Aparecida. Sábado às 19:00 horas celebramos em uma capela urbana, no Bairro Vitória Perim Cesarino. Popularmente denominado “Pombal”. No domingo pela manhã, às 7:30 horas, celebramos a missa na Paróquia Nossa Senhora Aparecida. Por três vezes ao mês celebramos a missa no Bairro Batistada. No outro domingo, às 9:30 são feitos os batizados. E todos os domingos às 18:30, são celebradas as missas na Paróquia Nossa Senhora Aparecida. Domingo de manhã a Igreja da Paroquia Nossa Senhora Aparecida fica lotada, inclusive com fiéis em pé! No total chegamos a ter 31 a 32 missas em cada mês, somando essas missas fora da Igreja Nossa Senhora Aparecida.

O dia em que se comemora Nossa Senhora Aparecida tem missas especiais?

Tem missa às 8:00 horas da manhã, com coroação, segue com terço às 11:00 horas, começou com um grupo pequeno e hoje já deixa a Igreja cheia, rezando o terço. É bem coordenado pelas pastorais. O dia todo a igreja recebe muitas visitas de pessoas que vem prestar suas homenagens e orações a Nossa Senhora Aparecida. Às 17:00 horas, procissão, segue com missa às 18:30 e após missa a quermesse. Quando é celebrada a missa, temos que colocar um telão fora da igreja, é muito grande a presença de devotos. O povo é muito educado, as crianças não fazem barulho, temos bastante coroinhas e acólitos. No próximo domingo, dia 5 de setembro, vai ter investidura de mais alguns coroinhas e acólitos.

Qual é a função do acólito?

O acólito tem uma função parecida com a de um mestre de cerimônia. Ele dá o suporte se surgir alguma novidade. Os que se destacam, acabam tornando-se Mestres de Cerimonia. Temos um acólito de 20 anos, ele que é o coordenador de liturgia.

Ainda tem as meninas que se caracterizam como anjos?

Na coroação tem! Nós temos um grupo de mães que oram pelos filhos, elas se reúnem semanalmente, na Semana Santa a segunda feira é deles! Elas tem um terço diferente: 7 vezes 7 Ave-Maria e no final mais 1, e cada mistério é ilustrado com sofrimento de mãe que tem filhos presos, drogados, é um terço muito lindo, chora-se, mas eles recuperam filhos também! Tem dado resultado! E serve de consolo para a mãe. Essas infelicidades não escolhem classe social, idade, sexo, grau de cultura.

Senhor Contessa, o senhor é o pai da Aline, que trabalha na secretaria?

Sou!  Ela é uma pessoa tranquila, segura. Eu moro muito próximo a igreja. Procuro ajudar em tudo que posso. Às vezes o padre está ausente, a pessoa veio pedir água benta, isso eu posso conseguir. Uma senhora queria uma vela benta, quando ela disse que apenas uma servia, pedi ao Frei que estava em outra sala, ele benzeu a vela e eu dei para ela. Sua alegria foi muito grande!

Dizem aqui na igreja, que; “Aconteça o que aconteça o Seu Contessa está aqui!” Na verdade, esse homem é muito importante para a Igreja, ele está sempre pronto para fazer o que for necessário!  

Padre Luiz Carlos, normalmente quanto tempo é utilizado para celebrar uma missa?

Se for comum é para ser cerca de uma hora. O povo hoje tem uma participação ativa na missa. E for um dia em que uma pastoral quer recrutar alguém. tem que dar um minutinho para ele falar. Se for Dia das Mães ou Dia dos Pais, tem um teatrinho. Ó que nesses dias em que tempo de cerimônia aumenta o pessoal já está com o espírito e o coração preparado para um evento maior.  O que a gente não pode fazer é ficar esticando.  A sociedade atual é mais objetiva.

Sr.Contessa, o senhor é nascido em Rio das Pedras?

Eu nasci em Mombuca.

O senhor conheceu Dona Emília?

Conheci! Dona Emília benzia o povo, fazia orações para os enfermos, a casa dela lotava, ela fez anexo a sua casa uma capela. Tinha os dias certos que ela atendia, tinha um padre que ia celebrar a missa na capela que ela construiu. Nós morávamos no sítio. Depois que eu casei passamos a ir à missa em Mombuca. Dona Emília fazia muita caridade, quando chegava o período de Natal. Dois filhos dela são médicos, um é mecânico.

 


Armelindo Contessa

 

 

O Padre Luiz Carlos que acumula décadas de ordenamento como padre, já percorreu inúmeras Igrejas e Capelas. Ele afirma que da Diocese as duas cidades de grande força religiosa são Santa Barbara d`Oeste e Capivari.

Padre Luiz Carlos, Nossa Senhora Aparecida parece que está sempre próxima ao senhor!

Essa colocação é muito boa e me deixa muito contente! Quando eu saí do Piracicamirim, da Igreja Nossa Senhora Aparecida, o Bispo disse-me: “Nossa Senhora Aparecida o persegue! Eu vou enviá-lo para a Paróquia de Nossa Senhora Aparecida de Rio das Pedras!!”. Eu me lembro de que quando passei por Saltinho, fiz uma capela urbana de Nossa Senhora Aparecida! Quando passei por Rafard e Mombuca estava em construção em cada cidade uma capela Nossa Senhora Aparecida também! A minha devoção é Nossa Senhora Aparecida e São José. Eu convivi lá em Piracicaba com a Paróquia São José. Só tive um pároco, que foi o Juliani. Nessa época, as duas figuras religiosas mais conhecidas em Piracicaba foram o Monsenhor Juliani e o Monsenhor Jorge, este, apesar de ter o título de Monsenhor, foi sempre conhecido como “Padre Jorge”.

O senhor acredita que aos poucos os jovens vão descobrir a força espiritual da religiosidade, irão conduzir a própria vida, sem se deixarem serem manipulados pelos meios de comunicação tendenciosos, que buscam o dinheiro fácil vendendo ilusões?

 

Eu conheço, já por três a quatro décadas, casais, onde os homens tinham uma vida religiosa provida de constância e fé, suas esposas nem todas tinham essa mesma conduta. Hoje esses casais tem filhos, as esposas frequentam as missas, e o mais interessante e inovador, todos fazem questão de acompanhar pela rede social as falas diárias sobre o Evangelho, dos padres que entram na internet! E fazem questão de cada uma escolher um padre diferente. Com isso selecionam dois ou três padres que as fazem compreender melhor os sentidos das palavras do Evangelho no cotidiano! As sogras acompanham! A forma de tratamento, o carinho que elas têm pelas sogras, é um exemplo de amor filial.

Nas igrejas hoje tem bastante jovens. A nossa igreja tem casais novos, que vem com criança no colo! Algumas famílias vivenciaram em seu seio o problema do alcoolismo, Hoje quando se reúnem, realizam festas, mas o que se nota é a ausência de álcool.

O que nós estamos percebendo é que existem duas correntes de pensamento, o pessoal que ainda está na ilusão de viver o que já vimos no passado, o uso de drogas, o excesso do álcool, contrapondo com uma visão de vida saudável. Parece que a população, jovens, pessoas maduras, despertaram para uma vida que respeita a saúde do corpo. Basta ver o número de academias e a dimensão delas!

Padre Luiz Carlos complementa: “-Não fuma!”.

A ciência já provou que o cigarro provoca inúmeros malefícios, inclusive a perda da dentição: ou faz implante ou põe dentadura! Até ser proibida, a propaganda dos cigarros eram as mais elaboradas e bem feitas! A rede social. extirpou isso, dando ciência, a quem interessar, das consequências.

A minha tese, em função de ouvir inúmeros católicos não praticantes regularmente, mas que respeitam e frequentam a igreja, de forma esporádica. Eles dizem com convicção, que um dia vai ter que mudar, pois está tão ruim, que não tem como piorar mais. É um ciclo. “Ou pelo amor ou pela dor!”

 

 A todos que estão lendo, ouvindo, pedimos uma benção especial.

Quero agradecer a sua presença aqui, a todos que vão prestigiar essa entrevista, quero pedir que Deus, à você também, para todas as famílias que podem ver, que Deus abençoe, pela interseção de Nossa Senhora Aparecida, dando através do Espírito Santo, o discernimento para o caminho da fé, para o caminho da mudança, para o caminho de ser feliz e passar a felicidade para os outros, saber que a fé não é um peso, mas é um livramento. Que Deus abençoe para ter esse discernimento e caminhar junto da fé. Tem muitas formas hoje para a gente se esclarecer na fé. Que Deus abençoe para isso. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém!

 

 

segunda-feira, setembro 14, 2026

 

João Umberto Nassif, em pé, e o professor Henrique de Carvalho Cosenza – Crédito: Arquivo Pessoal

 

A Tribuna Piracicabana tem, há vários anos, o privilégio de ser o veículo de comunicação utilizado pelo jornalista João Umberto Nassif para divulgar o magnífico trabalho que faz, como entrevistador. Nosso colaborador Armando Alexandre dos Santos cuidou do tema. Agradecemos a ambos pela ajuda de sempre.

Personagem extraordinariamente rico de conhecimentos, de amizades e recordações acumuladas ao longo de décadas de trabalho jornalístico – no rádio e na imprensa escrita – o jornalista piracicabano João Umberto Nassif passou os últimos 22 anos – dos 66 que tem agora – fazendo História Oral. Mais precisamente, coletando material para que no futuro historiadores e sociólogos disponham de fontes primárias abundantes e confiáveis para compreender a realidade de Piracicaba e região nas últimas décadas.

Nesses 22 anos, Nassif entrevistou perto de 1000 pessoas, de todas as categorias sociais e representando os mais variados setores da sociedade. Homens e mulheres, velhos e novos, ricos e pobres, todos os que têm algum depoimento interessante a dar caem sob o olhar do curioso que é João Umberto Nassif. Com jeito e simpatia, sabendo se adaptar à psicologia de cada entrevistado, inspirando em todos confiança desde o primeiro momento, Nassif consegue obter relatos fantásticos que, sem ele, seriam esquecidos e fatalmente desapareceriam da memória coletiva da cidade.

Pois esse grande entrevistador foi, desta vez, o entrevistado…

Foi no dia 23 de março de 2019, no Lar dos Velhinhos de Piracicaba que nos encontramos. Nassif é, como voluntário, diretor do Lar dos Velhinhos e administrador de uma grande livraria de livros usados, que funciona no local sem qualquer objetivo lucrativo. É um sebo sui generis, que não renova seu estoque comprando livros, mas apenas recebendo doações; e não repassa os livros para os interessados com intuito comercial, mas apenas os vende a preços módicos para auxiliar a manutenção daquela tradicional instituição beneficente que funciona há mais de 100 anos e é a mais antiga casa de repouso de idosos em funcionamento, em toda a América Latina. O trabalho de classificação e catalogação dos livros recebidos é feito pessoalmente por Nassif e sua esposa Vera, auxiliados por uma equipe de voluntárias, escritoras e poetisas participantes de grupos literários atuantes na cidade.

O tema da entrevista foi o trabalho desenvolvido por Nassif, no rádio e na TV, coletando centenas de depoimentos de pessoas de todas as categorias sociais. O leque de entrevistados aberto por Nassif é enorme. Não creio que no Brasil outro jornalista tenha conseguido entrevistar e, mais do que isso, deixar registrado por escrito, depoimentos de tanta gente. No futuro, será impossível escrever uma História de Piracicaba e Região nas últimas décadas do século XX e nas primeiras do XXI sem consultar o acervo reunido por Nassif. Modestamente, Nassif se limita a coletar os depoimentos e raramente faz, no texto de apresentação de cada uma das entrevistas, comentários e análises sobre os entrevistados. Mas, sem dúvida, o público fica esperando que ele próprio ainda produza uma obra que seja uma visão de conjunto sobre o universo constituído pelos quase mil depoimentos paciente e perseverantemente.

Curiosamente, Nassif, o grande entrevistador, confessou-me que nunca tinha dado uma entrevista na vida… Foi a primeira e, segundo ele espera (creio que está enganado!), será a última. Privilégio não pequeno, pois, me foi concedido, e agora é colocado ao alcance dos leitores de A Tribuna.

Vamos à transcrição da conversa:

Armando Alexandro dos Santos: João Umberto, você aqui em Piracicaba, despretensiosamente e talvez sem se dar conta do vulto total do seu trabalho, vem há muitos anos fazendo uma coisa fantástica, que é entrevistar muita gente da cidade e da região, para guardar seus depoimentos numa espécie de banco de dados que funcione como memória coletiva de Piracicaba. No seu critério de seleção das pessoas a serem entrevistadas, você é extremamente amplo, extremamente inclusivo. Você traz para deporem desde prefeitos, desembargadores, professores universitários, empresários do mais alto nível, até pessoas simples, mas que têm um depoimento interessante a deixarem para a História ou para a compreensão da nossa sociedade atual. Nesses quase vinte anos de trabalho, você já entrevistou perto de mil pessoas. Seus depoimentos estão transcritos e publicados, em parte na imprensa escrita, em parte nos livros que você publicou e em parte no seu blog na internet. Isso, no futuro, permitirá uma visão extraordinariamente rica e bem documentada da sociedade piracicabana no atual período histórico. Esse seu trabalho é fantástico e mereceria ser bem mais amplamente divulgado. Acredito, João Umberto, que pode haver em outros pontos do Brasil, pessoas como você, que fazem coisas parecidas, mas acho muito difícil que alguma delas tenha ido tão longe como você foi. Ou seja, tenha entrevistado individualmente um número tão grande de pessoas e tenha perseverado, sistematicamente, durante tanto tempo no trabalho, não apenas gravando os depoimentos (o que já seria notável), mas editando-os e publicando-os. Seu trabalho de transcrição e editoração, sempre consciencioso e fiel, deve ter-lhe tomado milhares de horas de esforço. Por isso, repito que o exemplo de João Umberto Nassif precisaria ser mais conhecido em nível nacional, porque é muito ilustrativo do que já foi feito e do que ainda pode ser feito em matéria de história regional. Daí eu ter querido ter esta conversa com você, para lhe pedir que me fale de suas próprias impressões sobre o seu trabalho: como é que nasceu essa ideia, por que você teve esse interesse nisso, quais são os seus critérios na seleção dos entrevistados, quais os ensinamentos que você auferiu com esse trabalho, qual sua experiência ao cabo de 22 anos etc. etc. Por favor, fale disso…

João Umberto Nassif: Bom dia, Armando, eu fico muito lisonjeado com essa introdução que você fez. Pela nossa amizade é que eu me proponho a falar alguma coisa, porque eu não vejo nada assim. Eu digo que o maior beneficiário nessa história, sou eu. Sem dúvida! Eu aprendo muito com as pessoas, ao valorizar e dar conhecimento dos valores de muitas pessoas que estão em nosso meio e cujas realizações os mais jovens desconhecem. Há fatos, nesses vinte anos, muito curiosos. Eu por dez anos fiz as entrevistas ao vivo, em rádio. E em rádio, quando é ao vivo, a emoção aflora, particularmente, no entrevistado, e também quem está entrevistando tem que ter um jogo de cintura razoável, porque às vezes a coisa derrapa, e você tem que voltar na linha. O rádio, infelizmente eu fui obrigado a parar por questões de ordem pessoal, pela dificuldade de conciliação de horário com outra atividade. Todos nós sabemos que o rádio, o jornal, no interior particularmente, não nos dá muito retorno ou não dá, às vezes, retorno suficiente para você sobreviver ou ter uma qualidade de vida que permita desfrutar de alguns dos pequenos prazeres, como ler um livro, por exemplo, fazer uma pequena viagem, nada de muito ambicioso. Mas até isso, às vezes, é limitado. Então, você tem que abrir mão de certas coisas. Mas essas entrevistas eu fiz por dez anos no rádio e concomitantemente, por quatro anos, em rádio e jornal. Aí eu fui convidado pelo Evaldo Vicente, diretor de “A Tribuna Piracicabana”, para transcrever no jornal a entrevista que já tinha saído no rádio, e o negócio colou! E é interessante porque às vezes o Evaldo me fala– “Pôxa, veio fulano aqui buscar 50 exemplares, veio fulano aqui buscar quarenta exemplares!” Entendeu? Porque ele quer distribuir aquilo para a família e para os amigos…

AAS: Isso marca uma vida para muita gente, ter uma página de jornal publicada no nível dos seus trabalhos, marca a vida inteira. É quase uma condecoração, compreende? É sair da esfera privada e pelo menos a pessoa ter a ilusão de que chegou à esfera pública. É um salto, salto qualitativo na vida!

JUN: Eu tenho duas situações opostas, bem assim nos dois extremos. Eu recebi um e-mail de uma professora da UNICAMP agradecendo por entrevistar o pai dela, um senhor no meio da multidão, desconhecido, mas que tinha uma história de vida muito interessante. E tem o outro extremo, que é o de um juiz de direito que preserva a entrevista enquadrada em moldura atrás na sala dele…  Acredito que isso para mim, é muito significativo. Agora, o mais interessante disso tudo é que a gente foi colecionando esses fatos. Eu tenho só um sentimento, é de não poder, não ter recursos financeiros para publicar tudo em livros. Eu já publiquei dois livros, mas eu gostaria de publicar todas as entrevistas para que não se perdessem. E isso aí, é um sonho meu. Então, se um dia eventualmente acontecer de eu ter a condição de ter esse privilégio, eu farei isso, quem sonha alcança, tenho fé…

AAS: Lembre-se do verso de Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce!”

JUN: Eu vou me lembrar a partir deste momento. Mas nessas minhas andanças, fiz algumas descobertas interessantes, que eu reputo extremamente valiosas. Uma delas: você, com certeza, conhece Lawrence da Arábia. Sabe qual a nacionalidade dele?..

AAS: Inglesa.

JUN: Não, ele nasceu em Botucatu. Aí vem toda uma história, toda uma história… O Barão de Serra Negra, nascido em 1822 aqui em Rio das Pedras, que na época pertencia a Piracicaba, chamava-se Francisco José da Conceição. Ele mantinha uma linha de mulas transportando cargas desde o litoral até o Mato Grosso, quase na divisa com o Paraguai. E na guerra com o Paraguai, ele prestou serviços para o exército, levando armas e suprimentos. E recebeu pelos seus serviços uma boa recompensa financeira, além do próprio título de barão. E com isso ele plantou café, daqui do Taquaral, que hoje é um bairro de Piracicaba, até a cidade de Botucatu. Era uma extensão considerável!  E ele tinha filhos, cada um com uma função diferente. Um filho tomava conta da fazenda, outro filho ficava em Santos, cuidando da exportação, e outro filho, Manuel da Conceição, operava na Bolsa de Londres, mas residia na França, em Paris, de onde ele distribuía, inclusive, café para vários países da Europa. Em Londres, ele teve um caso extraconjugal com uma inglesa, e resultou que a inglesa ficou grávida; ele trouxe então essa inglesa para a fazenda de Botucatu, cercou a fazenda com capangas, homens armados, providenciou toda a assistência médica. A inglesa deu à luz um menino. Dali a seis meses a criança estava já em ponto de poder viajar e foi com a mãe para a Inglaterra, onde o Manuel arrumou um casamento dela com um inglês, deve ter entrado dinheiro na história, com certeza, e essa criança era o Lawrence da Arábia!

AAS: Agora, como é que sabe isso e qual é a base para dizer que isso é verdade?

JUN: Bom, porque eu fiquei sabendo através de um descendente colateral dele, Renato Leme Ferrari, que é bisneto do jurista Francisco Morato, que por sua vez era casado com uma filha do Barão de Serra Negra, irmã do pai do Manuel Conceição. Independente disso, eu fui confirmar essa história com outra pessoa, o advogado Armando Moraes Delmanto, que se dispôs a ir até a Inglaterra e a França, procurar algum rastro. Só que, eles, os ingleses, eliminaram tudo, se encarregaram de eliminar qualquer documentação, por causa da fama do Lawrence, porque ele é um herói inglês. A única coisa que sobrou nos arquivos, e o Delmanto viu, foram os recibos de remessa de dinheiro do Conceição, daqui, para o filho, na Inglaterra. Esses recibos estão arquivados na Inglaterra, mas não permitiram que o Delmanto tirasse cópia, mas ele viu.[1]

AAS: Que curioso, mas que curioso! Isso aí é uma bomba! E daria para se escrever um romance.

JUN: É uma bomba! E dava um belo romance! Mas, além desse, tem um outro fato… mais peculiar a Piracicaba, que a filha do Mussolini esteve em visita aqui na Usina dos Morganti, no bairro do Monte Alegre. Dessa visita à mansão dos Morganti só eu tenho fotografia.

AAS: A filha do Mussolini, creio que se chamava Edda. Era casada com o Conde Ciano.

JUN: Isso, exatamente!

AAS: Isso me faz lembrar uma história (desculpe, é só um pequeno desvio…) do Churchill com o genro dele. Não sei se conhece.

JUN: Não.

AAS: O Churchill tinha um genro, Anthony Eden, que também era político e que em 1955 sucedeu ao sogro como primeiro-ministro. Os dois não se entendiam bem e viviam trocando farpas. Certo dia, conta-se que o Eden, para provocar o sogro, lhe perguntou: “Meu sogro, na sua opinião, qual foi o maior homem de toda a Segunda Guerra Mundial?” Era o tipo da pergunta maldosa, porque obviamente o Churchill não poderia dizer que era ele próprio… Resposta do Churchill: “Foi o Mussolini.” – “Por que o Mussolini?” – “Porque mandou fuzilar o genro dele”. De fato, Mussolini mandou fuzilar o Conde Ciano.

JUN: (risos) Muito boa essa! O bairro do Monte Alegre, constituído em torno da usina dos Morganti, tem umas histórias interessantíssimas. Por exemplo, foi o pintor italiano Alfredo Volpi (1896-1988) que pintou a capela. Isso foi numa fase inicial da carreira dele, ainda em estilo tradicional, antes de ele ter aderido ao estilo mais moderno. Esse trabalho tem uma história curiosíssima, narrada por pessoas que estavam em volta dele, enquanto ele estava aqui no Monte Alegre. O Volpi tinha auxiliares. Então ele fazia os traços básicos das figuras e os auxiliares completavam as pinturas. E ele enquanto isso tomava um belo de um vinho…

AAS: E via os outros trabalharem.

JUN: E ia almoçar, deitar. Aí lá pela tarde, ele acordava e lá ele ia ver como é que estava o negócio. Então, ali na realidade, A parte intelectual, a parte artística, é dele. Mas a parte operacional, na verdade, foi de terceiros. Isso pouquíssimas pessoas sabem. A capela do Monte Alegre foi construída para batizar Marisa Morganti, neta do usineiro Pedro Morganti (1876-1941).

AAS: Aliás, que linda é aquela capela!

JUN: É linda! E eu tive a oportunidade de conhecer Marisa Morganti, tive contato com ela e fiz uma entrevista na antiga mansão dos Morganti, que já não pertencia mais a sua família (hoje pertence ao Lar dos Velhinhos, por doação da família Silva Gordo, que adquiriu o imóvel dos herdeiros de Pedro Morganti). E ela foi me mostrando: olha isso era meu quarto, isso aqui era onde eu comia; aqui, eu brincava de boneca. Ela tinha uma casa de boneca que o avô mandou fazer, de estrutura! E quem fazia aquela comidinha que toda criança faz era o mordomo, Ieda. Para comer de verdade! Era um japonês, chamado Ieda, que fazia a comida. Então levavam a comida pronta, lá. Até isso tinha.[2]

AAS: A menina com a comida de verdade, brincava de dar para as bonecas?

JUN: Brincava e comia também, com as amiguinhas e aquela coisa toda… E a capela foi feita para ela ser batizada, com pia batismal e tudo o mais. E eu tive o privilégio de tirar a fotografia dela ao lado da pia batismal em que ela foi batizada. Isso é uma coisa, para mim, extremamente histórica.

AAS: Não deve ter sido fácil para o Morganti conseguir a pia batismal. Porque teoricamente, para haver pia batismal, precisava ser uma paróquia. Era difícil uma igreja que não era sede de paróquia ter pia batismal. Ele deve ter conseguido isso, por algum relacionamento que tinha com os meios eclesiásticos. Isso não era habitual, uma sede de fazenda ter uma pia batismal, porque aquilo, na realidade, naquele tempo era uma capela de fazenda.

JUN: É, de fazenda. Só que ele era político, tinha influência, criou o Açúcar União. Era um sujeito que tinha um poder de fogo altíssimo! Mas, voltando um pouquinho, eu tive também o privilégio de entrevistar duas pessoas cegas, muito interessantes. Uma delas foi o Prof. Luís Alberto Aguiar Godoy, que mora aqui no Lar dos Velhinhos. Ele é interessante porque não tem revolta nenhuma com sua cegueira.

AAS: Eu fiquei profundamente impressionado pela entrevista dele! Ele chega a recomendar que as pessoas que veem fechem os olhos durante 15 ou 20 minutos, todos os dias, como se fossem cegas, e pensem, reflitam. E se tornarão pessoas melhores.

JUN: Ele diz que agora, depois que perdeu a visão, vê as coisas numa dimensão superior, ele passou a se autoconhecer melhor…

AAS: Portanto, ele deu um salto no aperfeiçoamento dele rumo ao que Sócrates chamava de “perfeição da paideia” que é o autoconhecimento. Quer dizer, é um passo rumo à sabedoria, à filosofia de vida que ele deu por meio da cegueira. Eu fiquei realmente impressionado com essa entrevista.

JUN: Eu também fiquei, essa entrevista mexe com a pessoa. Também me impressionou uma outra entrevista, com um senhor conhecido como Dito Cipó, que me disse uma coisa um dia, (inclusive a minha esposa estava do lado e eu fiquei até meio chocado quando ele falou). Ele me disse: – “O senhor consegue ver as pessoas por dentro”. Eu fiquei meio assustado, porque isso tem o lado bom e tem o lado também perigoso, não é? Ah. mas, fiz uma entrevista muito curiosa também com o nosso querido prefeito Barjas Negri. E eu sempre tive curiosidade em saber porque ele se chamava se Barjas, e não Jarbas. Aí ele me contou que sua família morava em São Paulo, e na casa vizinha morava um compadre do pai dele chamado Rodrigo Barjas. E o pai falou para mãe: – “Olha, nós vamos batizar nosso filho com o nome do compadre, em homenagem, para prestigiar.” Naquele tempo tinha muito disso. A mulher achou que ele ia batizar a criança com o nome de Rodrigo… mas ele foi lá e batizou de Barjas. E a curiosidade maior do fato, é que por uns caminhos aí que a gente tem, eu consegui encontrar uma fotografia do tal Rodrigo Barjas. E no começo da entrevista com o prefeito Barjas Negri, eu mostrei a fotografia e perguntei se ele conhecia aquele homem. Ele não conhecia. Então eu disse: ­- “Esse é o Rodrigo Barjas, que lhe deu o nome.” Ele ficou pasmo! Ele não esperava, então foi uma curiosidade. Outra curiosidade, muito interessante: eu estava aqui no Lar dos Velhinhos, onde sou diretor há uns 15 anos, mais ou menos, e faz parte do trabalho da gente ver o que está acontecendo com o pessoal que mora aqui, embora não seja a minha área. E eu vi um senhor parado, um negro com uma pilha de cadernos, daqueles bem escolares, bem grossos, e fui conversar com ele. Conversamos, conversamos, conversamos. E, na ocasião, eu fazia com uma diretora da TV Cultura, que mora aqui, um programa na Rádio Educadora, voltado para os idosos daqui. E eu vi que aquele senhor estava escrevendo poesias, poesias e mais poesias e contos e não sei mais o quê. Aí, eu achei muito curioso aquilo e mostrei para quem conhece de fato poesia, que é a Dona Thais. E ela ficou impressionada com a métrica da poesia. A curiosidade da história é que ele por 30 anos tinha trabalhado como coveiro. “Seu” José Ferreira é o nome dele. E eu fiz a entrevista com ele e começamos a ler os poemas dele na rádio. Ele morava no pavilhão geral, o pessoal pegava no pé dele, sabe como é… – “Ei, aonde vai com o caderninho?” Ele passou então a morar num apartamento com outra pessoa e passou a tomar conta da biblioteca interna que nós temos aqui. Depois, ele passou a morar num flat, sozinho. Então ele se sentiu valorizado, como merecia. Então, isso para mim não tem preço. E tem uma outra coisa, que não sei se convém publicar ou não, eu vou deixar a seu critério. Tenho um número de entrevistas, não muito grande, que foram filmadas e gravadas, mas nunca foram publicadas. Só tomaram conhecimento delas o entrevistado, a pessoa que filmou e eu. Só os três. E fizemos um pacto. Essas entrevistas não seriam publicadas enquanto nós três estivéssemos vivos. Mas deixamos tudo preparado para elas se tornarem públicas quando morresse o último de nós. São entrevistas que a gente chama de entrevistas fechadas. Qual é o objetivo dessas entrevistas fechadas? É deixar depoimentos para história que não firam pessoas vivas, e também que não mascarem a verdade. Porque a gente pega um livro de história, você como professor sabe, que a história que é contada ali é uma história para ser lida, mas nem sempre corresponde à verdade. Nessas entrevistas, há coisas fantásticas, fatos, assim, extremamente interessantes.

AAS: São muitas que estão nesta condição?

JUN: Não, acho que devem ser umas dez ou doze entrevistas, de cinco ou seis horas cada uma.

AAS: Naturalmente, nem sei, nem você disse quais são as pessoas. Mas, contar que existe isso eu posso?

JUN: Sim.

AAS: No Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, existe uma coisa parecida, um setor reservado chamado “Arca do Sigilo”. A pessoa entrega o seu arquivo com a condição de só ser aberto para consultas 50 anos depois da sua morte. Recentemente ia ser aberto, não sei se já foi, o arquivo secreto do embaixador José Carlos Macedo Soares.

JUN: Nossa! Do Macedo Soares?

AAS: Do Macedo Soares. Ele deixou lá. Não sei se deixou todo o arquivo, mas deixou muita coisa lá.

JUN: Há nesses arquivos pessoais coisas que você sabe que podem acabar prejudicando alguém.

AAS: Sim, certas coisas às vezes até devem ser destruídas. Uma pessoa consciente sabe que certas coisas não podem ser fisicamente conservadas. Têm que ser destruídas.

JUN: É, os descendentes vão carregar um peso que não merecem.

AAS: Por isso eu costumo dizer aos meus alunos que uma lição de história, inteiramente fidedigna, inteiramente exata, nós só teremos no dia do Juízo Final. Aí, será Deus contando a História como ela realmente se passou. Não tem como esconder. Todos os mistérios da humanidade serão resolvidos nessa hora. Todos os pactos, todas as tramas, todas as conspirações. Também, no sentido contrário, todos os atos de desapego, de virtude, de desinteresse heroicos, que muitas vezes ficaram sem reconhecimento público, nessa hora todo mundo vai saber. É lindo isso, é um panorama grandioso.

JUN: Sem dúvida. Eu tenho mais algumas coisas, por exemplo, eu entrevistei Moacir Franco. E ele me falou uma coisa… Agora, vou jogar, vou puxar a brasa para minha sardinha, tá? Sem falsa modéstia, ele me disse: – “Você é o melhor cara que me entrevistou até hoje, porque você me faz pensar. Você não foca linearmente na ocorrência, como todo pessoal que me entrevista, você vai, volta, volta, vai, entendeu?”

AAS: Sim, sim. Você vai insensivelmente seguindo um fluxo mais psicológico do que cronológico.

JUN: Exatamente. Samuel Pfromm Netto me disse uma vez: – ”É uma pena que o Estadão não te conheceu”.

AAS: Samuel foi dos piracicabanos que eu mais admirei. Era um homem extraordinário. Eu o recebi mais de uma vez no meu apartamento, com sua esposa D. Olga, também piracicabana.

JUN: Ele tinha uma inteligência fantástica! Essas são coisas que marcam a gente de tal forma… Há também o caso de um Prêmio Nobel da Paz que eu entrevistei, fui o único que o entrevistou em Piracicaba, a imprensa inteira nem se tocou que ele estava aqui na cidade. Era o agrônomo Norman Borlaug (1914-2009), chamado “o pai da revolução verde”. Ele desenvolveu métodos de agricultura que revolucionaram profundamente a produção agrícola, fazendo o solo produzir muito mais. Ele veio a Piracicaba, eu fiz um plantão no hotel em que ele estava e consegui fazer uma entrevista com ele. Piracicaba inteira nem soube que ele estava aqui, nem foi um órgão de imprensa entrevistá-lo. Se fosse um jogador de futebol ou um cantor, possivelmente teria corrido para entrevistar. Também o Juca Chaves eu entrevistei. É uma pessoa fantástica, de uma humildade muito grande. Eu entrevistei também vários bispos, como o piracicabano Dom Moacyr Vitti (1940-2014), Arcebispo de Curitiba, e o também piracicabano Dom Irineu Danelon, Bispo de Lins, que está aposentado e mora aqui no Lar dos Velhinhos.  E entrevistei generais, como o general Edson Diehl Ripoli, nascido aqui em Piracicaba, e o general João Camilo Pires de Campos, que atualmente é Secretário da Segurança do Estado de São Paulo e tem uma casa aqui em São Pedro. Entrevistei vários padres, professores, pastores, dois profissionais de circo, e fiz um passeio, interessantíssimo por todos os sindicatos, entrevistando todos os sindicalistas, antes da crise dos sindicatos, para ter um perfil do meio, saber como é que é. E o meio deles é muito semelhante.

AAS: Sim, sim. O que eles têm em comum é muito mais do que o que os separa .

JUN: Muito mais. A tendência agora [com o fim da contribuição compulsória para os sindicatos] é mudar o perfil, ainda bem que fui a tempo. Entrevistei também várias freiras, entrevistei o Frei Augusto, Mons. Juliani, Mons. Jorge, da Vila Resende, Mons. Jamil Abib, da Catedral.

AAS: Mons. Jamil tem uma cultura muito grande.

JUN: Sim, dele o que saiu foi uma entrevista meio rabiscada, porque na verdade o perfil dele é muito maior do que aquilo que saiu.

AAS: É verdade, ele não fala muito de si próprio, mas é um intelectual, um grande colecionador, um grande connaisseur de arte.

JUN: Sim, ele tem uma cultura requintada.

AAS: E uma experiência de vida que não é brincadeira, ser esfaqueado como ele foi… Eu estava presente, assisti à cena. Foi numa Missa que ele estava celebrando em rito maronita para a colônia árabe de Piracicaba, durante a homilia. Foi impressionante.

JUN: Entrevistei também o Maestro Ernest Mahle, que deu uma ótima entrevista, falando de sua infância na Alemanha de antes da Segunda Guerra, de sua família, de como veio para o Brasil, de como nele despertou a vocação para a música etc. etc.[3] Entrevistei também várias pessoas com mais de cem anos, como Dona Olga Marchiori, que morreu com 102 anos, e Dona Maria, que foi dona da Radio Difusora. E uma senhora que foi a fundadora da Sorveteria Paris, que ficava onde é hoje o Banco Safra, na esquina da Praça José Bonifácio com a Rua Prudente de Morais. Era pastelaria e sorveteria. Era uma delícia o sorvete. Entrevistei professores da ESALQ, como Roland Vencowski, Francisco Mello e outros mais. Entrevistei o Nélio Ferraz de Arruda, que foi prefeito e teve uma história curiosíssima: ele decidiu fazer uma praia no rio Piracicaba, perto do Regatas. Ele achou que praia tem que ter areia… Então, caminhões e caminhões de areia transformaram tudo aquilo numa linda praia… mas na primeira enchente foi tudo embora, não sobrou nada. Entrevistei cantadores de cururu, é muita gente mais. As figuras que entrevistei, todas elas acabam deixando um legado, vamos dizer assim, um ensinamento, uma experiência. Dão trabalho, mas valem muito a pena, são muito gratificantes.

AAS: Quanto tempo leva, em média, cada entrevista, para fazer e para transcrever?

JUN: Incluindo o deslocamento, para arredondar, levo em torno de duas horas para gravar cada entrevista. Para transcrever, depende muito da pessoa entrevistada. Há pessoas que são prolixas, pessoas que quase não falam, pessoas que jogam inúmeros dados que você tem que checar, às vezes não batem, é preciso dar uma acertada neles, tudo isso toma um tempo razoável, no mínimo são umas 8 horas de trabalho.

AAS: Claro, e tem que ser tudo muito colado à gravação, tem que ser eximiamente fiel ao que a pessoa disse.

JUN: Sem querer, já deixei gente, até sem a intenção, mas eu acabei deixando a pessoa de saia justa.

AAS: Sei, sem querer fez uma pergunta que de forma tocou num ponto doloroso.

JUN: Foi uma coisa involuntária. Eu já entrevistei algumas pessoas que eu não publiquei, por uma questão de respeito e até para corresponder à confiança que a pessoa depositou, fazendo o depoimento.

JUN: É, a gente acaba conhecendo coisas… Uma entrevista muito interessante, muito curiosa, foi com um pai de santo. Eu fui ao terreiro dele. Era um negro baiano. Eu perguntei a ele o que ele fazia. Ele me respondeu: – “Olha, sou baiano, não canto, não jogo bola, o que você acha que eu posso ser? Só posso ser pai de santo.” Nós conversamos muito, ele explicou aquela coisa toda. E aí, no final da coisa eu perguntei se ele podia fazer duas previsões, quem seria o próximo presidente e se o Brasil ganharia ou perderia a Copa do Mundo. Ele respondeu que o próximo presidente seria uma mulher. Só havia duas candidatas, a Dilma e a Marina… E disse que o Brasil perderia a Copa. Aí, eu disse a ele: – “Escuta, agora vamos falar o português claro. Tá certo, você tem seus búzios, coisa e tal, você tem uma espiritualidade, mas é só isso?” Sabe o que ele me respondeu? Ele falou– “Meu filho, eu leio três jornais por dia.” (risos). Às vezes, pessoas leem alguma entrevista e me pedem o telefone do entrevistado. Eu nunca dou, sem antes ter pedido autorização.

AAS: Compreendo. É preciso ser extremamente ético num trabalho desses, em que você está trabalhando baseado na confiança das pessoas.

JUN: Sim.

AAS: Esse é um dos muitos méritos do seu trabalho, João Umberto. Se em cada cidade do Brasil houvesse uma pessoa que fizesse isso com seriedade e constância como você faz, daqui a 50, 100 ou 200 anos, seria possível futuros historiadores e sociólogos traçaram um retrato histórico ou sociológico da nossa época muito mais profundo e muito mais fiel do que quem consultar coleções de jornais. Os jornais noticiam muitos fatos políticos, mas nem de longe entram nas reentrâncias da vida social como as suas entrevistas. Parabéns, portanto, pelo seu magnífico trabalho. Faço votos para que não apenas o prossiga por muitos anos mais, mas também consiga realizar o sonho de publicar tudo em livros.

[1] O depoimento do Dr. Renato Leme Ferrari foi publicado em: NASSIF, João Umberto. Paulistenses. Piracicaba: Edição do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, 2013, vol. II, p. 43-52. Quanto às pesquisas do Dr. Armando Moraes Delmanto sobre o assunto, ver: http://www.armandomoraesdelmanto.com.br/?area=artigos&id=5

[2] O depoimento de D. Marisa Morganti Ayrosa Falanghe pode ser encontrado na íntegra em: https://blognassif.blogspot.com/2016/03/marisa-morganti-ayrosa-falanghe.html

[3] O depoimento do Maestro Ernest Mahle foi publicado em: NASSIF, João Umberto. Paulistenses. Piracicaba: Edição do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, 2013, vol. II, p. 187-196.

 

 JOÃO UMBERTO NASSIF é Jormalista formado pela FIAM-FMU -São Paulo,

 Bacharel em Direito pwla Universidade Metodista de Piracicaba, 

Propaganda e Marketing pela Faculdade Objetivo

Radialiasta Profissional - Locutor - pelo SENAC

Membbro Emérito do Lar dos Velhinhos de Piracicaba - Cidade Geriátrica

Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Membro da Academia Piracicabana de Letras

Recbeu a Medalha Prudente de Moraes 

Recebeu Moção de Aplauso da Câmara Municipal de Piracicaba

Por vários anos ocupou cargos de Secretário, Membro de Conselhos das Instituiç~~oes acima. 

Colaborador do Jornal "A Triuna Piracicabana"

Por 10 anos apresentou o programa "Piracicaba Histórias e Memórias" pela Rádio Educadora de Piracicaba

Com a grande apresentadora Thaís de Almeida Dias, teve o privilégio de apresentar o programa "Pulsares" por dois anos na Rádio Educadora de Piracicaba. 

João Umberto Nassif, com mais 15 amigos fundaram a APF - Associaçãao Piracicabana de Ferreomodelismo. Participando de eventos, como convidados do Shopping Piracicaba,Estação da Paulista, 1º Encontro de ferreomodelistas de Piracaba com participantes de outras cidades. Realizado no Engenho Central. 

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