Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

sábado, fevereiro 16, 2019

LUIS MANUEL MARCELINO e MICAELA HIGINO PEREIRA MARCELINO


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 16 de fevereiro de 2019.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
LUIS MANUEL MARCELINO e MICAELA HIGINO PEREIRA MARCELINO 

ENTREVISTADOS: LUIS MANUEL MARCELINO e MICAELA HIGINO PEREIRA MARCELINO

Luis Manuel Marcelino, registrado na Sociedade Portuguesa de Autores, conhecido como Luís Marcelino, o poeta de Carreiro de Areia, escritor luso-canadense, fará o pré-lançamento de três livros, dois de poesias e um de relatos e ficção, será no dia 21 de fevereiro de 2019, no Instituto Beatriz Algodoal, situado a Rua São José, 446, centro de Piracicaba. No dia 23 de fevereiro, sábado às 10 horas fará uma pequena palestra e o lançamento das três obras no Recanto dos Livros, nas dependências do Lar dos Velhinhos. Uma rara oportunidade para ter as obras, conhecer o autor e sair com um livro autografado pelo mesmo. Autodidata, sensível, conseguiu transpor para o papel seus sentimentos de visão do mundo que o cerca.
Luís Manuel Marcelino nasceu a 13 de setembro de 1953, em uma pequena aldeia denominada Carreiro de Areia, pertencente a cidade de Torres Novas, em Portugal.


 É filho de Manuel Marcelino Pedro, pintor de construção civil e Maria da Guia, doméstica, que tiveram três filhos: Antônio, Regina e Luís.
Quantos habitantes tinha a aldeia quando o senhor nasceu?
Minha aldeia tinha 200 habitantes. A vocação da aldeia antigamente era agrícola, atualmente os habitantes trabalham em diversas atividades, fora da aldeia, em busca de um trabalho melhor. A aldeia mantém sua originalidade, as casas são feitas com pedra, umas assentadas com terra ainda, outras já com tijolos e cimento.   
A casa em que o senhor morou ainda existe?
Há três semanas atrás dormi no quarto em que nasci! A casa ainda é da nossa família.
Qual foi a sensação de passar a noite no quarto em que o senhor nasceu em Portugal?
É uma sensação boa, de estar em minha aldeia, e dormir no quarto em que nasci!
Como é a temperatura local?
No inverno, faz muito frio, dentro das casas é mais frio do que na rua, são casas antigas, não tem os recursos atuais, Temos que usar roupas e cobertores que nos protejam.
Pelo fato de ser uma construção muito antiga, o banheiro é externo?
O banheiro é interno. Tem todo o conforto normal a uma casa. Só não tem o aquecimento. Tudo no estilo rústico, que é o normal da aldeia. Frequentei a Escola Primária de Poços, um lugarzinho na aldeia. Essa escola atualmente está fechada, não há crianças em idade escolar na aldeia. Antes fazíamos os quatro primeiros anos nessa escola e depois seguia-se para a cidade para continuar os estudos.  Aos 11 anos de idade comecei a trabalhar em uma oficina mecânica e mais tarde dediquei-me à pintura de automóveis. Quando iniciei tínhamos carros ingleses Morris, alemães como Opel, Renault de origem francesa, isso foi por volta de 1965.
                                                        AUTOMÓVEL MORRIS 1952

                                                                 OPEL 1959
                                        
Comecei limpando os carros, as peças dos carros, varrer a oficina, pegava as ferramentas que os mecânico pedia, após algum tempo segui da mecânica para a pintura de automóveis.
Qual é o segredo para fazer uma boa pintura em um automóvel?
Tem que ter boas mãos para pintar, bons olhos para ver o que está sendo feito e bons materiais. Apesar de que quando comecei a ajudar os pintores não havia bons compressores. Era com um cilindro de oxigênio, com essa pressão do oxigênio é que se pintava, não se usava compressor. Onde fui trabalhar já havia energia elétrica.
Os clientes ficavam contentes com o seu trabalho?
Sim, não posso me queixar. Quando ainda era um garoto, os mestres é que faziam o trabalho. Eu só ajudava. Mais tarde comecei a fazer os meus próprios trabalhos.
              LUIS MANUEL MARCELINO e MICAELA HIGINO PEREIRA MARCELINO
Na época a política em Portugal era pesada?
Era ditadura. Antônio de Oliveira Salazar foi um advogado, professor universitário e presidente do Conselho de Ministro de Portugal de 1933 até 1968. Salazar foi responsável pela consolidação do Estado Novo e pela implantação ideológica do salazarismo. As regras eram difíceis, não podia ter ajuntamento nas ruas, Nunca vivi muito isso por que sempre passei ao lado da política. Anterior a esse período eu servi a tropa, ou seja serviço militar, foram 22 meses em Portugal, antes servíamos quatro anos, metade do tempo em Portugal e a outra metade na Províncias Ultramarinas, tínhamos cinco países na África: Guiné-Bissau, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Moçambique.
Vocês tinham televisão, rádio na aldeia?
Até os meus 12 anos não tínhamos eletricidade na aldeia. Comecei a trabalhar na pintura de automóveis com 18 anos, parei de trabalhar com a pintura em 2012. Permaneci em Portugal até 1990 quando emigrei para o Canadá.
O que o levou a sair de Portugal?
Eu já tinha parentes no Canadá, minha irmã já morava lá, a vida em Portugal não estava muito fácil, Portugal estava passando por uma reconstrução, uma mudança.
Dona Micaela, a senhora tinha alguma atividade em Portugal?
Sim, era costureira, aprendi tudo sozinha. Corto o tecido, costuro, o desenho geralmente era da revista Burda, desenhava o modelo para o papel, do papel para o tecido, cortava, costurava e ficava bonito! Minha máquina era uma Singer elétrica. Trabalhava só com moda feminina, pode-se dizer que era alta costura: vestidos de noivas, casacos compridos, curtos, saias, blusas, o tecido a própria cliente escolhia, comprava e trazia. 
As clientes gostavam?
Adoravam! Eu costurava das nove horas da manhã até as sete horas da noite.
Qual era a alimentação do dia a dia?
Acho que em Portugal nós variamos muito de comida, tínhamos feijoada, massa. A feijoada é feita com feijão encarnado(vermelho), com chouriço, cenoura, couve, carne de porco. Temos o bacalhau, há também um consumo muito grande de caldos (sopas). Em Portugal come-se muita sopa. No verão, como faz muito calor, comemos comidas mais leves. No verão já tivemos a temperatura de 40 graus centigrados. Nesse ano em que a temperatura chegou a 40 graus, muitos idosos faleceram. A temperatura mínima onde morei eram 10 graus positivos.
Quem era o santo padroeiro do local onde a senhora morava?
Nossa Senhora de Fátima, Santo Antônio, isso em todo Portugal. Mais ao norte do país o padroeiro é São João e São Pedro. São três santos padroeiros. Na aldeia do Manuel o santo padroeiro é Santiago. Havia muitas procissões.
Em Portugal o catolicismo é muito forte?
Dona Micaela responde: A minha maneira de ver, já foi mais forte. Portugal recebeu muitos imigrantes, com crenças diferentes. Ainda prevalece o catolicismo.
Como vocês se conheceram?
Dona Micaela diz: “É interessante essa história. Há seis anos eu fui para o Canadá, mais especificamente para Toronto, onde tenho a minha mãe que mora no Canadá há 42 anos. Manuel e eu nos conhecemos no Canadá, há quatro anos, vai fazer dois anos que estamos casados.
A senhora é de que região de Portugal?
Eu não sou de Portugal! Nasci em Angola, na África. Com 5 anos fui para Moçambique, onde morei até os 19 anos.  Meu pai é Joaquim Higino Pereira, era enfermeiro, e a minha mãe Augusta Elias da Piedade. Tenho dez irmãos.
Quem foi primeiro para o Canadá?
Foram a minha mãe e o meu padrasto. Estávamos em Moçambique quando se deu em Portugal a Revolução de 25 de Abril de 1974, também conhecida como Revolução dos Cravos, quase todos os portugueses saíram de Angola e Moçambique. Muitos foram para a Austrália, África do Sul, Portugal outras pessoas foram para o Canadá. Decidi ir para Toronto, no Canadá por que já havia família por parte do meu padrasto. Isso foi em 1977. Infelizmente eu saí da África, minha terra, com 19 anos, já se passaram 43 anos. Tenho imagens, boas recordações. E digo: África é África!
Havia algum tipo de diferenciação entre o negro e o branco em Angola e Moçambique?
Quando eu vivia lá, não via muita diferença, talvez pela minha idade. Mas de fato não se juntavam. Nas casas, habitações onde estávamos não havia negros que vivessem lá. Havia uma zona deles. Nas lojas os funcionários eram mais os negros do que os brancos, assim como nos cafés, restaurantes. Íamos à mesma escola, negros e brancos. Morei em uma escola interna onde havia uma negra interna. Por isso eu não via discriminação.
Você realizou todos os seus estudos nesse colégio interno?
Fiz o curso primário em uma aldeazinha em Moçambique, chamada Buzi, depois então, fui para o colégio estudar do quinto ano até o oitavo ano, o Colégio chamava-se Nossa Senhora da Conceição. Era um colégio de freiras.
Era uma disciplina muito rigorosa?
Havia regras, leis, tudo com horário determinado para cumprir. Era muito rígido. As seis da manhã as freiras chegavam ao dormitório, batiam palmas, para acordar-nos, levantávamos, ajoelhávamos logo para rezar. Depois tínhamos meia hora, ou uma hora, para aprontarmo-nos, após o banho, íamos para o refeitório. Tomar um pequeno almoço, depois íamos ás aulas, tudo isso com horário. Missas só tínhamos aos domingos.
Qual foi a sua impressão ao chegar no Canadá?
Eu já tinha ido passar as férias no Canadá há 31 anos. Adorei o Canadá. Amo o Canadá!
A senhora exerceu alguma atividade no Canadá?
Ainda trabalho! Em limpeza de casa. Há muita procura por quem faz esse trabalho. Hoje já não é tão bem remunerado por ter muita concorrência. Há muitos brasileiros que fazem limpeza de casa. Mas vale a pena ir.
Qual é o comportamento do canadense?
Eles têm um comportamento típico britânico. A parte do Canadá em que estamos fala-se inglês. Moramos em um apartamento, eu, Micaela gosto do trânsito de lá. É melhor do que em Lisboa. Eu adoro Lisboa também. No Canadá as vias são todas regulares, paralelas e perpendiculares, bem sinalizadas.
O volante de direção do automóvel fica do lado esquerdo ou direito, como o modelo inglês?
É igual ao do Brasil
O transporte público em Toronto é bom?
É ótimo!
Em Toronto que existe um shopping abaixo da calçada?
É o maior shopping do mundo! O PATH é um complexo de túneis subterrâneos no Centro de Toronto. É como se fosse um shopping gigante debaixo da terra. São cerca de 30 quilômetros de extensão e mais de 371 mil metros quadrados que fazem do PATH o maior complexo comercial subterrâneo do mundo! O local conta com mais de 1200 lojas dos mais variados segmentos, como academias, mercados, lojas de fotocópias, restaurantes, clínicas médicas. É possível encontrar de tudo por lá! Por isso, durante o inverno, muitas pessoas preferem aproveitar tudo que o local tem para oferecer em vez de encarar o frio e a neve do lado de fora. O metrô fica muito próximo do meu apartamento e ele nos leva até o shopping.
O custo de vida, como é no Canadá?
Micaela diz: “Um bocadinho caro!”. Muitos produtos são importados, o que é produzido lá fica longe da cidade, o transporte encarece o produto.
Luís Marcelino o senhor escolheu Piracicaba para lançar três dos seus livros no Brasil. No dia 21 de fevereiro de 2019 o senhor fará o pré-lançamento de três livros, no Instituto Beatriz Algodoal, e no dia 23, sábado, às 10 horas da manhã, fará uma breve apresentação e o lançamento dos livros no Recanto dos Livros, no Lar dos Velhinhos de Piracicaba. Quais são os nomes dos livros?
São: “Mensagens e Pensamentos” que é a minha primeira obra, um conjunto de trabalhos escritos ao longo de alguns anos. São mensagens que eu gostava, que o mundo lê. Pensamentos que fui escrevendo de acordo com a minha paz de espírito, fiz em 2016. Em 2917 fiz “Nota de Música”, uma história começada a ser escrita nos anos 70, interrompi a obra, mantive o projeto, dediquei-me a outras obras e finalmente em 2013 a conclui e lancei em abril de 2017. Em novembro lancei “Pedaços de Silêncio”, um livro de poesias. Pedaços da vida retratados em silêncios de poesia; sonhos sem guarida transportados entre a realidade e a fantasia.
O que o motivou a escrever esses livros?
O primeiro livro “Mensagens e Pensamentos” tem poemas com mais de 20 a 30 anos, fui escrevendo e pondo na gaveta. Em 2016 houve a oportunidade de publicá-lo. Tenho outras obras onde sou coautor.
Luís, esses poemas foram inspirados em seu dia a dia, em suas observações, colocava no papel seus sentimentos?
Me inspiro muito no meu dia a dia, certas coisas que vejo, que eu sinto, muito sobre a natureza, certas coisas que escuto, o mundo precisava mudar um pouco, escrevo algumas coisas românticas, transporto para o papel meus sentimentos. Escrevo para que as pessoas que irão ler sintam-se bem também.
Os seus poemas são para elevar a pessoa?
Eu penso que sim e espero que sim. Essa é a minha ideia. Faço questão de que todos os meus livros sejam lançados primeiramente em minha aldeia. Assim foi com todos que já lancei e espero fazer o mesmo com os próximos.
É a primeira vez que vocês vem ao Brasil?
Sim é a primeira vez! Micaela diz: “Amei todos os dias em que estou aqui. Está me fazendo lembrar muito a minha África.”
Os negros brasileiros e os negros africanos, a seu ver tem alguma semelhança?
Não. Eu até acho diferença entre o negro angolano e o negro moçambicano. São diferentes em comportamento, fisionomia.
O que o Luís está achando do Brasil?
Respondendo em poucas palavras, espero que não seja a última vez. Estou gostando! As praias brasileiras são banhadas pelo Oceano Atlântico, assim como Portugal, só que no Brasil as praias são piscinas, em Portugal o mar é mais revolto. As águas das praias de Portugal são frias.
Eliana Menegatti, anfitriã, menciona a preocupação de Micaela antes de vir ao Brasil. A imagem do Brasil no exterior é de um país violento, com todo tipo de crime ocorrendo a qualquer momento.
Eliana revela que Micaela disse-lhe: “Eliana, eu tenho tantos colares, pulseiras, são bijuterias, que combinariam com a minha roupa, deixei tudo no Canadá! De tanto que me falaram do Brasil!” A imagem do Brasil no Canadá é assustadora. Somos terríveis, roubamos, matamos, assaltamos, o tempo todo! Disse-lhe que quando ela voltar poderá repintar diferente o Brasil! A Experiência que eles estão tendo, inclusive ao Luís que escreve para o jornal Sol Português faço um apelo, que escreva um texto sobre o Brasil.
 
Quantos portugueses moram em Toronto?
Possivelmente meio milhão sejam portugueses! (População estimada em Toronto é de 2.731.571 de habitantes em 2016).

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

JOSEMERI APARECIDA JAMIELNIAK


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 09 de fevereiro de 2019.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
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http://www.teleresponde.com.br/ 






ENTREVISTADA: JOSEMERI APARECIDA JAMIELNIAK

 

 

A professora Josemeri Aparecida Jamielniak possui bacharelado em MateUniversidade Estadualmática pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), mestrado em Biometria pela  Paulista (UNESP),
                                                       UNESP BOTUCATU





na Université de Metz, Chargé de Recherches INRIA atuando na área de Modelagem Matemática e Simulação Computacional de Biossistemas e, atualmente é doutoranda em Matemática Aplicada pela UNICAMP.
                                           UNICAMP - VÍDEO INSTITUCIONAL





Tem experiência em Matemática Aplicada com ênfase em Biomatemática, Modelagem Computacional aplicada à sistemas ecológicos e biológicos e possui também experiência em estatística computacional.






Josemeri Aparecida Jamielniak nasceu a 9 de outubro de 1989, na cidade de Curitiba, no bairro Boqueirão, é um bairro com muitas casas típicas alemãs. 

Estudou sempre em escola pública. O ensino fundamental foi na Escola Municipal Nossa Senhora do Carmo, o quinto ano estudou no Colégio Estadual Professor Victor do Amaral, o sexto, sétimo e oitavo anos foi na Escola Estadual Polivalente de Curitiba e o ensino médio foi no Colégio Dr. Xavier da Silva, bem atrás do Shopping Estação.





 É filha de Rosemeri da Silva Jamielniak e José Walter Jamielniak que tiveram os filhos Josemari e Walter José.

                          HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

                                                             UFPR 105 ANOS


 Você lembra-se do nome da sua primeira professora?

Foi a professora Nilcéia! Tenho contato com ela até hoje.

Até que idade você morou em Curitiba?
 Permaneci lá até os meus 22 anos.
Você nesse período nunca trabalhou?
Quando estudava no ensino médio, trabalhei em uma padaria, trabalhava na parte da tarde e à noite, atendendo no balcão. Era muito divertido, eu ia de bicicleta para o trabalho, minha mãe me encontrava no meio do caminho.

                                               COMO FAZER O PÃO CHINEQUE

Os pães de Curitiba são diferentes dos de  Piracicaba?
Há o pão francês, mas consome-se muito o pão d`agua, o chineque que é um pão doce de origem alemã, a cuca ou kuka, tem cara de bolo, vai ao forno em assadeira de bolo e até seu nome vem da palavra alemã para bolo, Kuchen. Tecnicamente, porém, cuca não é bolo, e sim um tipo de pão. Um pão doce macio e úmido, caracterizado pela cobertura do tipo de uma farofa, feita com manteiga, farinha e açúcar. É muito popular e consumida em Curitiba.
Como você sentia-se trabalhando com o público e sendo ainda muito jovem?
Sempre achei muito boa essa experiência de poder atender aos clientes, poder conversar, para mim é muito divertido.
O seu poder de ser comunicativa já se revelou nesse trabalho?
Imagino que sim! Há uma afirmação de que o curitibano é muito fechado, na realidade ele é reservado, após você fazer amizade com um curitibano irá ter amizade para sempre.
Você permaneceu a sua adolescência e parte da juventude em Curitiba quais eram as formas de diversões da época?
Os cinemas tradicionais já tinham migrado para os shoppings, lembro-me de que a primeira vez em que fui ao cinema com os meus pais, foi em um cinema no centro, que era no estilo clássico: um local que era apenas cinema. Fomos assistir Scooby-Doo, um desenho animado americano.
  


                                                 CINEMAS DE RUA DE CURITIBA



                                                 CINEMAS DE RUA DE CURITIBA

Por que você decidiu vir para Piracicaba?

Eu vim para cá, junto com o meu marido, Adriano Gomes Garcia, que começou a fazer doutorado na Esalq. Ele fez Biologia na Ufscar - Universidade Federal de SÃO Carlos. Fizemos o mestrado no mesmo período, foi quando nos conhecemos. Casamos e mudamos para Piracicaba.



Você tem ascendência alemã?

Tenho, a minha avó paterna é alemã: Augustin. (Rui Augustin desvendou e registrou a origem histórica e cultural da família Augustin que resultou em uma obra muito interessante). Ela me contava que a própria família a proibia de falar alemão. Ela passou para nós, apenas uma música infantil em alemão (Josemeri põe-se a cantar, relembrando alguns trechos), meus pais cantavam para mim, minha tia sabe até hoje. Minha avó manteve a comida alemã, o pirogue (ou 'pierog') é um pastel salgado cozido, ou frito, meu pai prefere frito. Fácil de fazer e que faz muito sucesso na época do Natal.


Você guarda boas lembranças de Curitiba?

Curitiba foi onde vivi por 22 anos, frequentei a igreja católica, fui catequista, ainda frequento as festas relativas a datas comemorativas, padroeiros, juninas.

Apesar de ser destaque por suas inovações, em alguns aspectos Curitiba ainda conserva suas tradições?

Conserva bastante! Essa igreja que eu frequentava, todos os anos eram feitas procissões de páscoa, de Natal, e com o passar dos anos, aumenta o número de pessoas que frequentam esses eventos, eu imaginava que a tendência fosse de diminuir, mas não, cada vez tem mais participantes.



Você conheceu seu marido em qual cidade?

Em Botucatu, no curso de mestrado.

Até algumas décadas, o olhar feminino não era muito voltado à matemática.

Hoje é muito comum alunas interessarem-se por matemática. Tenho mais alunas do que alunos no curso de Matemática da Unimep.

O que a atrai em matemática?

Tudo! Considero o mundo da matemática maravilhoso! Ela está presente em tudo! Sem a matemática não teríamos o grau de evolução que temos. O mundo da matemática é fascinante!

Alguém disse que a matemática é uma expressão da natureza.

Segundo consta quem afirmou foi Galileu Galilei físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano. Galileu Galilei foi personalidade fundamental na revolução científica. Disse a frase: "A Matemática é o alfabeto que Deus usou para escrever o Universo."
                                                      GALILEU GALILEI


É uma realidade! Faço doutorado em Matemática Aplicada, a matemática, pela matemática pura, acho fascinante, maravilhosa a regra dos números, mas eu gosto da Matemática Aplicada em nosso dia a dia, hoje trabalho com transmissão de doenças. Em meu trabalho de doutorado estudo a dinâmica de um fungo que tem sido o autor principal do declínio proporcional de sapos. Esse fungo levou à extinção de aproximadamente 40% da população de sapos. Acredita-se que essa redução é consequência do surto dessa doença que chama-se  quitridiomicose. O fungo que atinge os anfíbios é o Batrachochytrium dendrobatidis (BD) ameaça a população mundial de anfíbios. Está relacionado com o impacto humano, o aumento da temperatura, diminuição de habitat. Esse fungo ataca a pele do sapo e o leva à morte em 20 dias. Ele já dizimou espécies e é o principal causador da morte de sapos nos últimos 20 anos. Joaninha é o nome popular dos insetos coleópteros da família Coccinellidae. Geralmente têm o corpo redondo e colorido, com muitas espécies predadoras de pragas agrícolas e com grande importância na agricultura, pois atuam como controle biológico, está sendo reproduzida em alta escala em laboratórios, ela está ameaçada de extinção. A próxima espécie em extinção são as abelhas.
Estamos nos envenenando?
Sim, com certeza! Isso é uma das coisas em que a minha área de trabalho atua! Como estudamos dinâmica, estudamos a dinâmica entre hospedeiros e parasitoides. Como no caso da Joaninha. Já é a área do meu marido, como ele é entomólogo (Entomologia é a especialidade da biologia que estuda os insetos sob todos os seus aspectos e relações com o homem, as plantas, os animais e o meio-ambiente) ele estuda como as espécies interagem, qual tem que ser o espalhamento quando você quer controlar uma população invasora, qual é o parasitoide ou predador dela que você tem que liberar, qual a quantidade para manter um controle populacional ótimo, sem usar inseticida, usando controle biológico. Usamos equações matemáticas para esse tipo de estudo.
Há uma relação direta entre a matemática, biologia e o próprio homem?
Totalmente! Eu estudo especificamente Biomatemática (matemática aplicada à biologia, à medicina ou às ciências humanas (por ex.: em estatísticas demográficas, modelos funcionais de fibras nervosas etc.). Essa junção das duas ciências é nova. É uma junção fantástica! Você consegue descrever qualquer fenômeno biológico usando equações matemáticas.
Em que ano vocês vieram para Piracicaba?
Foi em 2014. Em fevereiro de 2019 serão cinco anos. Ainda conservo um pouco do sotaque original, embora ache bonito o sotaque piracicabano. Temos muitas palavras muito específicas de Curitiba: "Penal: estojo escolar para guardar lápis e canetas."; “vina (salsicha)”; "Piá: usado para se referir a um garoto, adolescente ou entre amigos do sexo masculino"; “Mimosa. Não é mexerica, nem tangerina. É mimosa”.
Qual é sensação em ainda muito jovem, dar aulas em Universidade para alunos da sua idade ou com mais idade?
Eu já lecionei no ensino fundamental, 7° ano. É pior do que lecionar no ensino superior. Pelo fato de eu ser nova o pessoal do 7º ano não tem respeito. Acredito que no ensino superior as pessoas tem mais consciência da importância do estudo. De fato eles ficam admirados em ter uma pessoa mais nova do que eles lecionando. Já tive aluno de quase 60 anos. Para mim é muito bom, desafiador, matemática em si oferece desafios, o fato da pessoa estar muito tempo fora da escola, tem-se que resgatar conhecimentos de bons anos passados.
Matemática é difícil?
Tenho que concordar que sim. Você tem que ter um nível de abstração muito alto, e as pessoas as vezes não tem. Tem que pensar em uma coisa que não tem uma aplicação imediata, mas que faz sentido para uma outra área de estudo. Os alunos querem saber: “Aonde vou usar isso?”. Ou “Para que tenho que aprender isso?”. As vezes tem um porque imediato, as vezes não. A matemática é bonita por ter um padrão.




Você começou a lecionar quando?
Comecei em 2014 em uma faculdade em Tatuí. Ensinava Cálculo Integral e Diferencial I,II e III para as faculdades de engenharia. Lecionava Estatística também.
O que você acha do Ensino à Distância?
Eu fico um pouco preocupada com o Ensino à Distância. Isso porque exige do aluno uma dedicação muito grande que a maioria dos alunos não tem essa disciplina, essa rigorosidade. Vejo na Universidade, quando passo um exercício, muitos dos meus alunos, a primeira coisa que fazem é ir buscar a resposta na internet. Você não está saindo da sua zona de conforto para ir conhecer uma coisa nova, irá apenas copiar alguma coisa que alguém já fez. Quais serão as profissões que teremos daqui a 10 anos? A Tecnologia está tomando conta do nosso dia a dia. Muitas cidades não têm mais cobrador de ônibus. No supermercado já tem caixas onde você paga sem a necessidade de ter uma pessoa cobrando. Empregos básicos, que exigem uma formação básica estão acabando. Me preocupo porque estou formando professores que irão ser professores desses profissionais daqui há 10 anos. O que tenho que ensinar para os meus alunos que serão professores desses profissionais do futuro? Acredito que a tecnologia nunca irá tirar a nossa capacidade de raciocínio. É o que a minha geração não faz! Minha geração não pensa mais. Busca as coisas prontas.
O brasileiro têm consciência do orçamento doméstico básico?
Não têm! Nós precisamos muito aplicar a área de ciências exatas, desde ao mais singelo orçamento doméstico até cálculos avançados. Hoje lecionando na Unimep, sou considerada uma das professoras mais “difíceis” pelo aluno. Não sou considerada chata, mas dizem que as minhas provas são muito difíceis. Eu passo exercícios contextualizados, dando uma situação e um problema, quero que eles pensem como resolver aquela situação! É isso que nós precisamos! Para os meus alunos da engenharia também, sempre digo a eles: “-Seu chefe nunca irá falar: Calcule isso!”. Isso o computador faz. O seu chefe vai dar-lhe um problema e você terá que resolver esse problema. Digo-lhes: “Aí você irá usar a matemática a seu favor para resolver esse problema”. Quero que você saiba passar um problema real para a linguagem matemática, tirar o resultado, mesmo que seja no computador, e saber resolver o seu problema da melhor maneira possível.

                                                      CAMPUS UNIMEP

                                                  40 ANOS COMO UNIVERSIDADE

A Esalq tem bastante coisa que a atrai nessa área?
A Estatística só. Gosto muito de Estatística principalmente  inferência bayesiana (IB) que consiste na avaliação de hipóteses pela máxima verossimilhança, da inferência estatística para a inteligência computacional (IC), onde é sinônimo de aprendizado bayesiano (ou aprendizado de máquina bayesiano), e encontra aplicações na biomedicina, computação em nuvem, pesquisa de algoritmos, criatividade computacional. Além da utilidade singular para implementações e lida com problemas reais (através da modelagem e da consideração dos dados).


                            

     Introdução ao Algoritmo Naive Bayes


Você já teve aluno que sofreu pressão familiar para não estudar matemática?
Tem. Uma aluna minha começou a fazer engenharia em Araras, no terceiro descobriu que não gostava de engenharia, queria mesmo fazer matemática, isso criou uma grande polemica na família, queriam que ela fosse engenheira, todo mundo acha que a área da matemática não dá dinheiro, não tem futuro.
Tem futuro e dá dinheiro?
É um campo que ainda está em crescimento, nos últimos cinco anos tem matemático sendo contratado para altos cargos em empresas, as portas estão se abrindo muito para quem é matemático, físico e estatístico. O cérebro de quem faz exatas pensa de forma diferente de quem estuda ciências humanas. Há uma maneira diferente de estruturar as coisas. Acho que é essa busca que está acontecendo.
Quem é mais sensível ao ser humano o matemático ou quem estuda ciências humanas?
Eu não sei! Talvez quem faz ciência humanas! Acho que os matemáticos são um pouco frios! (risos). Os matemáticos têm o habito de trabalharem de forma solitária, um dos últimos ganhadores de um prêmio, morava com a mãe, e desenvolveu toda a sua teoria fechado em um quarto. Não há muita interação entre os matemáticos.
Você joga xadrez?
Ultimamente não porque não tenho mais tempo, mas gosto bastante. Meu marido também joga, perco para ele! Em programação de computador eu levo vantagem! Uso Assembler programa que transforma o código escrito na linguagem Assembly em linguagem de máquina, substituindo as instruções, variáveis pelos códigos binários.
Você tem algum hobby?
Gosto muito de ler! Antigamente eu lia uns 15 livros por ano, antes do doutorado. Nesses últimos quatro anos só leio um por ano!
Pratica algum esporte?
Faço musculação, para manter a saúde, não que eu goste! Por um período fiz Muay Thai.
Você tem algum animal de estimação?
Tenho! Três cachorros: Grega, Zorro e Cinderele e uma gatinha: Orange. A Cinderele é manca, lembrei-me da princesa que perdeu o sapatinho. A Grega já era do meu esposo, ele achou-a filhotinha na rodoviária. O Zorro eu o encontrei próximo a minha casa, a Cinderele encontrei na Unimep de Santa Barbara d`Oeste, era filhotinha, com a patinha manca. Fiquei com pena e peguei. A Orange era uma filhotinha que estava perdida na rua da minha casa. Peguei também. Agora pretendo ficar só com esses!
Seus pais vêm para Piracicaba visita-los?
Vêm. Devem vir agora no carnaval. Minha mãe ama Piracicaba, ela adora o calor.
Quais são seus planos para o futuro?
Tenho muitos projetos, plano para morar fora do país, só que fico muito apegada ao trabalho que desenvolvo, gosto muito da minha profissão, me preocupo com os meus alunos que serão professores no futuro. Acho a minha carreira aqui muito bonita. Abrir mão disso tudo e ir para outro país, conheço pessoas que não gostaram do país para onde foram, mesmo sendo considerado país de grandes recursos.
A seu ver a idade influi na capacidade cerebral?
Eu acho que não é a idade que influencia, são os estímulos. Quanto menos você estimula, mais velho o seu cérebro vai ficando. Muito mais influente do que o tempo são os estímulos. Quando você para de aprender coisas novas, para aprender uma outra coisa fica mais difícil. Temos que estar continuamente aprendendo.


9 Provas de que Você pode Aumentar a Capacidade do Seu Cérebro

A Biomedicina usa matemática?
Meu trabalho de mestrado foi na área médica. Trabalhei com infeções hospitalares. Fiz parceria com um médico que era chefe de um hospital de Botucatu. Um dos grandes problemas na área médica são as infecções hospitalares. Ele estava em um hospital de pessoas que sofreram queimaduras graves. Eu não tinha contato com o paciente, o médico fornecia os dados e eu fazia os modelos. A presença junto ao paciente deve ser de pessoas estritamente essenciais. Na área médica a matemática pode contribuir muito. Podemos criar cenários na matemática que não são possíveis em experimentos laboratoriais por exigirem uma infraestrutura que o modelo matemático não precisa. Você passa para uma equação, usa o computador e simula situações. Por exemplo: “-Se a temperatura aumentar 30 graus, o que irá acontecer com determinado fenômeno?”. Só que para desenvolver esse modelo matemático é preciso ter muito conhecimento do processo, como eu precisava do médico para me falar como aconteciam as coisas.
O talento, a determinação e a disciplina da jovem Professora e Doutoranda Josemere muda o ponto de vista dos mais experientes com relação as futuras gerações.
{\displaystyle h_{a}=argmax_{h}\left[p(h|e)={\frac {p(e|h)p(h)}{p(e)}}\propto p(e|h)p(h)\;\;{\text{ pois }}\;\;p(e)|h=p(e)\right]}


sexta-feira, janeiro 18, 2019

IBRAHIM MATTUS


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 19 de janeiro de 2019.

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://blognassif.blogspot.com/


http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: IBRAHIM MATTUS     




Ibrahim Mattus nasceu a 2 de outubro de 1931na cidade de Conceição de Macabu, nome que deriva de Nossa Senhora da Conceição do Rio Macabu, naquela época era distrito de Macaé. É filho de Abdo Mattus e Izolina Pereira Mattus que tiveram sete filhos: Afair, que faleceu ao nascer,Fair, Nazira, Munira, Ibrahim, Nabile, Amira. Ibrahim Mattus é Procurador Federal. No Exército chegou ao posto de terceiro sargento. Iniciou-se profissionalmente como funcionário terceirizado do Instituto do Açúcar e do Álcool, galgando postos importantes, sendo inclusive nomeado como interventor pelo Presidente Fernando Collor. Batalhador incansável, trouxe ao Bairro Santa Terezinha melhorias usando sua influência pessoal, adquirida por mérito próprio. Uma narrativa de uma vida de lutas, glórias e desafios.                         


Qual era a atividade do pai do senhor? 

Mascate! Como todo bom árabe ele começou como mascate, trabalhou muito, pouco antes de falecer tinha um armazém que tinha de tudo. Era o shopping de hoje! De enxada até agulha, da banana ao feijão! Meu pai faleceu muito jovem, com 41 anos, possivelmente com um ataque cardíaco, naquela época não existia os recursos que existem hoje, era um mundo diferente.

Ele veio para o Brasil sozinho?

Veio sozinho, ele tinha um primo que já morava no Brasil, Jorge Tebet Jorge que morava em Conceição de Macabu. Ele e Jorge eram dois moços de chamar a atenção, meu pai era muito charmoso, um homem bonito, conheceu a minha mãe, ela com 17 anos, casaram-se. Era um período em que as famílias tinham muitos filhos.

Ao ficar viúva qual foram as providencias que a sua mãe tomou?

Eu tinha uns cinco anos. O meu pai estava muito bem de vida. Começaram a aparecer credores, minha mãe querendo honrar o nome do meu pai, as dívidas eram na palavra, não usava-se documentação escrita, ela pagou a todos que se apresentavam como credores. Com isso em pouco tempo os recursos escassearam. Como tínhamos uma conhecida em Niterói, fomos todos para lá. 



Uma viúva e seis filhos! Minha mãe era costureira, começou a trabalhar, fazia costuras para uma empresa do Rio de Janeiro, fazendo calças. Com 12 anos eu levava as calças prontas para o Rio de Janeiro. Ia de barca, naquela época a travessia Rio-Niterói era feita por barcas. Ainda não existia a ponte ligando as duas cidades. A ponte foi construída em 1964 pelos militares.

O senhor pequenininho ia sozinho?

Naquela época não havia maldade, os próprios passageiros se protegiam, assim como aquela criança desconhecida ,no caso, eu, levava as calças prontas e trazia a fazenda para costurar as calcas, camisas, o que precisasse. Minha mãe costurava bem.

Com isso ela conseguiu manter a família?

Conseguiu, e também havia muita solidariedade, por parte de famílias amigas, parentes. Ela costurou durante sua vida toda, faleceu em 1992, com 86 anos. Foi uma heroína, sozinha criou uma família. Criou os filhos, encaminhou-os, se relacionar, hoje nossa família tem mais de 100 descendentes.

O senhor trabalhava em algum local, quando era garoto?

Fui trabalhar em uma farmácia, fazendo entregas de medicamentos. Ia a pé, de bicicleta, dependia da distância. Eu me sentia importante! Depois fui trabalhar com um dentista, uma das minhas atividades era levar as marmitas para ele. Ele fazia restaurações utilizando ouro. Antigamente, o ouro era uma das ligas metálicas mais utilizadas por dentistas em restaurações devido a sua resistência. O procedimento sempre foi muito caro por se tratar de um material precioso. Por isso ter um ou mais dentes de ouro era um símbolo de status financeiro. Permaneci trabalhando para o consultório dentário por uns quatro anos.

O senhor não se interessou em ser dentista?

Não me interessei, talvez por não ter estudos na época. A minha vida de estudante foi muito difícil. Fiz o curso primário no hoje Colégio Estadual Melchiades Picanço em Niterói. O governo lançou um curso que dava a oportunidade de fazer o ginásio e o colegial em um tempo reduzido, proporcionando a oportunidade de fazer um curso superior. Tive um grande amigo chamado João Pires Ribeiro que era meu cunhado, casado com a minha irmã Fair. Ele me indicou a um senhor que tinha um restaurante na

Standard Oil Company era no Brasil a Esso Brasileira de Petróleo Ltda. Fui trabalhar com ele , no prédio que era do Instituto do Açucar e do Álcool, fundado em 1933 por Getúlio Vargas.

O senhor conheceu Getúlio Vargas?

Conheci! Cheguei a falar com ele. Eu tinha um amigo que era o mordomo do Getulio, ele me convidou para ir até o Palácio do Catete para conhecer o Dr. Getúlio. Fui. Ele me cumprimentou, de longe, aí nós fomos embora. Em 24 de agosto de 1954 ele suicidou-se.

Gregório Fortunato foi o chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, também  conhecido como "Anjo Negro", devido ao seu porte físico e sua pele negra. Gregório começou a ter muito poder, despachava com coronel, general. Antes de falar com o Getúlio os interessados tinham que passar primeiro com ele. Getúlio por suas idéias, foi se isolando, o Almirante Amaral Peixoto casou-se com Alzirinha (Alzira) Vargas filha dele, conheci esse pessoal todo, não tinha relações de amizade, mas quando ia ao Palácio do Catete sempre via um deles. Conheci o Copacabana Palace Hotel, mas não frequentava, era só para quem tinha muito dinheiro, geralmente turistas estrangeirs.

Existem até hoje pessoas que colocam em questão se Getúlio Vargas suicidou-se ou foi assassinado, a seu ver o que de fato aconteceu?

Getúlio sentiu-se encurralado. Tinha o Gregório Fortunato que praticamente mandava e desmandava, Carlos Lacerda, um grande orador, fez uma intensa campanha contra Getúlio. Teve um dia em que ele ficou 24 horas no ar falando mal do Getúlio. Conheci Adhemar de Barros, inclusive lembro-me do caso famoso de suposta "negociata" muito comentado foi o "Caso da Urna Marajoara" do Museu Paulista.

O senhor conhece a história de Jorgr Guinle dono do Copacabana Palace?

Carlos Guinle, seu pai, sabia que logo iria falecer, calculou o tempo de vida do filho Jorge (Jorginho) Eduardo Guinle, e disse-lhe: “Esse dinheiro é para você viver até morrer” Jorginho foi um socialite, playboy, e herdeiro milionário notável por suas conquistas amorosas e falência financeira. Após ter gastado quase todos seus bens, avaliados em cerca de 100 milhões de dólares, em festas, viagens e mulheres, Guinle faleceu aos 88 anos de idade, morando, por favor de seus novos donos, no hotel Copacabana Palace. O hotel fora fundado por seu tio, Octávio, em 1923. Conquistou grandes artistas, entre elas Ava Gardner, Anita Ekberg, Veronica Lake, Romy Schneider, Kim Novak, Hedy Lamarr, Susan Hayward, Zsa Zsa Gabor, Rita Hayworth, Lana Turner, Jane Russell. Casou-se quatro vezes com: Dolores Sherwood Bosshard, Ionita Sales Pinto, Tânia Caldas, Maria Helena Carvalho. Não há dinheiro que aguente!

O Rio de Janeiro dessa época era completamente diferente?

Você saía tranquilo, eu trabalhava no IAA, fazíamos horas extras, a noite saíamos para jantar a meia-noite, íamos no Spaghettilândia, vinham umas cumbucas com espaguete, ficava na Lapa, não havia riscos;

Como era a Confeitaria Colombo?

Ali era o ponto dos políticos, das atrizes, das candidatas a atrizes.

Carnaval, o senhor participou?

Participava mais como assistente. Naquela época havia um desfile de carros, com muito confete e serpentina. O povo se divertia de forma sadia. Era mais romântico.

O senhor chegou a frequentar a Rádio Nacional?

Frequentei no tempo de Cesar de Alencar, Cesar Ladeira, ali conheci Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Aracy de Almeida, Ataulfo Alves, Nelson Gonçalves, Silvio Caldas, era tudo ao vivo. Como bom niteroiense, não tinha o que fazer no domingo, atravessava com a barca, criança não pagava.

E bailes o senhor frequentava?

Fui uma vez no Bola Preta para conhecer. A conotação de baile naquela época era outra.

E o folclórico Tenório Cavalcante o senhor o conheceu?

Ele era de Duque de Caxias, o conheci, tem uma passagem em que o Tenório Cavalcante estava sendo entrevistado, ele andava com uma capa preta e embaixo da capa preta Tenório andava sempre ao lado de sua "Lurdinha", uma submetralhadora MP-40 de fabricação alemã, o entrevistador, radialista, fez uma pergunta ao Tenório, que não o agradou, o Tenório disse-lhe: “Pula na piscina!” O radialista disse-lhe “-Mas eu estou de roupa, com relógio”. O Tenório simplesmente disse-lhe: “Pula na piscina, senão vou lhe dar um tiro!”. Imediatamente o entrevistador mergulhou! Pelos cabos eleitorais, Cavalcanti fora conhecido como "O Rei da Baixada"; pelos rivais, era tachado de "O Deputado Pistoleiro".

Uma das figura folclóricas do Rio de Janeiro foi João Francisco dos Santos mais conhecido como Madame Satã?

Era um homossexual, com uma altura muito acima do padrão, musculoso, uma fera em qualquer briga, inclusive praticava o que na época era novidade Jiu-jitisu. E um exímio manejador de navalha. São fatos que existiram.

O senhor chegou a ir ao Cassino da Urca?

Não, não fui. Só iam artistas, pessoas com alto poder aquisitivo.

A barca que fazia a travessia Rio-Niterói transportava quantas pessoas?

Acho que umas 3.000 pessoas. Foram reformadas e estão funcionando até hoje. Depois vieram as aero barcas. Eram barcos para cerca de 50 pessoas, quando ele pegava uma certa velocidade ele inflava e deslizava na água, fazia o percurso em 8 a 10 minutos, a barca convencional levava 30 minutos.

O Rio de Janeiro lhe traz muita saudade?

Tenho saudade das amizades, bastante familiares que ainda moram lá. Rio de Janeiro, Niterói, eles tem uma característica própria que são as suas praias. Mesmo aborrecido, se você teve um dia pesado, vai para a praia, procura uma sombrinha, deita, você se recupera, se recompõem. Niterói é um município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, no estado do Rio de Janeiro. Foi a capital estadual, entre 1834-1894 e novamente entre 1903-1975. A Guanabara foi um estado do Brasil de 1960 a 1975, que existiu no território do atual município do Rio de Janeiro. Em sua área, esteve situado o antigo Distrito Federal. Foi capital estadual fluminense até a fusão entre os estados do Rio de Janeiro e da Guanabara em 1974. Dista 15 km da Cidade do Rio de Janeiro e possui como acesso a Ponte Rio–Niterói Antes o Rio de Janeiro foi Estado da Guanabara, depois voltou a ser Rio de Janeiro. Niteroi deixou de ser a capital do Rio de Janeiro. Portanto Rio de Janeiro é a capital do Estado do Rio de Janeiro.

A mudança da Capital Federal para Brasília acelerou a deterioração do Rio de Janeiro?

O Rio politicamente não tem mais nada. Tem suas maravilhosas praias. Conheci Juscelino Kubitschek de Oliveira colocou ordem na casa. Transferiu a capital para Brasília. Hoje o Rio não comportaria além do espaço físico, a topografia impõem limites naturais.

Voltando à sua trajetória pessoal, o senhor foi trabalhar no prédio do IAA.

Esse meu cunhado João Pires da Costa Ribeiro, conhecia o Pires, que tinha o restaurante do IAA. Fui na Praça XV, 42, onde hoje é a sede da Policia Federal, disse ao Sr. Pires que eu era cunhado do João Pires. O restaurante ficava no último andar, 11º andar. Era para os funcionários. Me apresentei, o Sr. Pires disse-me: “Você é cunhado do Pires? “

 Respondi afirmativamente. Ele disse-me: “Pega um jaleco e pode começar a trabalhar!” A diretoria do IAA almoçava depois dos funcionários terem feito sua refeição.

Havia diferença nas refeições servidas aos funcionários e aos diretores?

Havia! Não sei se era por ser novinho, talvez bonitinho, ele me mandou servir a mesa da diretoria. Tinha uma senhora, Dona Elza, muito fina, simpatizou-se comigo. Eu me esforçava para tratá-los da melhor maneira possível. Dona Elza perguntou-me: “Ibrahim você não quer ser ascensorista?” Respondi-lhe: “Se o Sr. Pires deixar, eu vou!”.  Ela disse-me: “Com o Pires eu me entendo!”. Eu fui falar com ele, contei-lhe o sucedido. Ele disse-me: “Vai embora, vai cuidar da sua vida”. Fui servir no IAA como ascensorista, era diarista, era terceirizado. Eram duas portas de metal sanfonadas, portas pantográficas. Ali trabalhei uns seis meses.

O que o senhor achou desse trabalho?

Melhor do que o anterior! Trabalhava em pé, tinha que abrir a porta para o acesso ou a saída dos ocupantes. No elevador conheci todo mundo. Tinha um senhor que era de uma usina de São Paulo, todo natal ele ia com uma nota de dinheiro no valor de 20 mil réis, naquela época era um bom dinheiro, notas novinhas, ele ia distribuindo, para o ascensorista, para o garçom, só para os funcionários com cargos mais modestos. Eu trabalhando no elevador, essa mesma senhora, Dona Elza, ela trabalhava no gabinete da presidência, era secretária do presidente Gileno De Carli, ele era de uma família de Pernambuco. Dona Elza disse-me: “Ibrahim, surgiu uma vaga de contínuo no gabinete, você quer ir para lá?” Na hora respondi:” Vou sim senhora, o que a senhora fizer por mim está ótimo!” Após uns seis meses no gabinete ela disse-me: “Ibrahim, você vai fazer um curso na IBM! Surgiu uma vaga e a diretoria disse-me para indicar uma pessoa. Vou indicar você.” Perguntei-lhe: “E o meu horário?” Ela respondeu” Você vai fazer o curso, portanto está dispensado do horário!”

Que curso o senhor foi fazer na IBM?

Um curso de mecanização. Eram digitados os dados e transferidos para um cartão perfurado. Fiz o curso que durava seis meses.

Nessa época o senhor já trabalhava de paletó e gravata?

Sim, eu trabalhava no gabinete da presidência!

Qual era a sua idade?

Eu me casei aos 20 anos, aos 20 anos entrei lá. Deveria estar com 21 a 22 anos.

Como se chama a sua esposa?

Em primeiras núpcias casei-me com Vanusa Barbosa Mattus, tivemos os filhos: Luiz Carlos (falecido precocemente), Paulo Roberto (falecido há uns seis anos), Júlio Cesar, Carlos Alberto, Marco Aurélio, Edna Lúcia, Ana Maria e Carmem Denise. Em segundas núpcias casei-me com Neide Terezinha Gentile Mattus. Além de criarmos uma sobrinha, Maria de Fátima, hoje residente na cidade de Campos, Rio de Janeiro.

Após fazer o curso na IBM o senhor foi trabalhar em que setor?

Fui trabalhar na seção de mecanização. Era ambiente com ar condicionado. Por causa dos equipamentos e dos cartões que no calor ficavam muito rígidos e no frio perdiam a resistência. Tinham que ter a elasticidade ideal. Era um setor de elite. Ali passava a contabilidade, serviço pessoal, naquela época não tinha o Departamento de Recursos Humanos(RH). O  IAA fazia muitos empréstimos para as usinas, tudo era controlado por lá. Imprimíamos os relatórios que o presidente pedisse. Os relatórios eram impressos em papel zebrado (duas cores, sendo cada linha uma cor), em impressoras matriciais, enormes, barulhentas. O IAA tinha no Brasil todo uns 3.000 funcionários. Eu não estacionei, fui evoluindo dentro da empresa, até quando eu estava no Departamento Pessoal veio a revolução de 1964. O General Vargas (Mera coincidência de sobrenome com Getúlio Vargas) foi nomeado interventor do IAA. O Departamento Pessoal sempre foi uma área especial por deter informações de cunho sigiloso. Esse General Vargas me chamava em seu gabinete e dizia: “Me traz a ficha do funcionário tal”. Eu trazia a ficha. E faz aquilo, e faz isso. Acabei fazendo amizade com ele. Lembro-me que um dia ele me disse: "Ibrahim, tem pessoas que vem aqui e me dá vontade de jogar escada abaixo! Você jogaria para mim?” Respondi-lhe: “General, não sou violento, não faço isso e sei que o senhor não faz também!”  A história vai mudar radicalmente. Fui nomeado interventor da Destilaria Gileno De Carli. a pessoa que estava aqui como gerente estava fazendo coisas erradas. Para você ter uma ideia ele andava de patinete no salão da usina. Era maluco. O jipe chapa branca (uso restrito serviço público) era como se fosse propriedade dele. Enfim, ele usava e abusava. Cheguei aqui, com ordem do General Vargas para mandar esse gerente para Ponte Nova - no estado de Minas Gerais, onde havia uma destilaria também. Isso foi no final de 1969. Vim com a missão de acabar com essa destilaria. Elas estão até hoje ai porque a pressão foi muito forte. Havia um serviço especial que administrava essas destilarias: Gileno De Carli, Lençois Paulista, Guararema, Ariranha, eram aproxiamadamente umas vinte destilarias do Instituto. Eu fazia todo mês uma vistoria nessas destilarias, isso no Estado de São Paulo, mandava um relatório para o Rio de Janeiro. Vajava de jipe. Eu tinha um carro Mercury conhecido como “Boi Deitado” . Foi um amigo meu, procurador lá do Rio de Janeiro, que tinha essa Mercury. Ele Disse-me: “- Ibrahim, fica com essa Mercury, vai usando até eu precisar dela”. A cor era verde-água,oito cilindros, muito robusta,era um trator.Fiquei aqui como administrador dessas destilarias, vi que não tinha jeito como acabar. Na Destilaria de Guararema quem mandou invadir a destilaria foi um padre!

Onde situava-se a Destilaria Gileno De Carli?

Ficava em Santa Terezinha , no atual bairro IAA. Levei para Santa Terezinha: Correios, Caixa Econômica Federal e farmácia. Santa Terezinha era constituida pelo Matadouro, IAA e a pracinha, com algumas casas dos moradores mais antigos. Levei água, o prefeito era Adilson Benedito Maluf. Eu liguei para o General Vargas, disse-lhe: “General, aqui não tem água, ela vem de uns dois quilômetros, eu preciso de tubo para levar para a destilaria”.

Mas como funcionava a destilaria sem água ?

Ela tirava água do rio e tratava, era independente. A questão era levar água para a população de Santa Terezinha. Levamos água para toda Santa Terezinha até a destilaria. Precisávamos de luz, eu só poderia deixar as casas terem luz com autorização da Companhia Paulista de Força e Luz., ela era a dona dos postes. Entrei em contato com o IAA para fazer o uso dos postes. A CPFL autorizou o IAA a utilizar a energia, Antes só tinha luz no IAA e no Frigorífico Angeleli.

O senhor morava lá?

Morava na casa nº 1.

Quanto tempo o senhor permaneceu em Santa Terezinha?

Posso dizer que estou até hoje lá! Tenho filho que mora lá. Levei a água, luz e depois o asfalto para Santa Terezinha. Quando era terra eu mandava passar o trator da Destilaria. Um episódio curioso ocorreu quando trouxemos uns ferros de outra destilaria para cá. Um amigo nosso, um negro de sobrenome Bispo, ao perceber que uma barra de aço de uns 200 quilos ia cair e poderia causar uma tragédia, ele abraçou a barra, sózinho, seu corpo tremia com o peso, até chegarem os companheiros e ajudá-lo. Isso ficou na história. Eu era o administrador quando veio a Planalsucar, Com os laboratórios que analisavam as amostras de açúcar que colhíamos. A Planalsucar saiu, uma parte da área está com o municipio, outra com escolas, há outra parte com a Justiça do Trabalho. Em 1970 abriu o vestibular para a Faculdade de Direito em São Carlos, fiz o vestibular e passei. A Unimep tinha faculdade de Direito, já estava no primeiro ano. Passei a cursar a Faculdade de Direito de São Carlos, ia todas as noites eram 240 quilômetros ida e volta, ia com meu fusquinha. No semestre abriu a segunda turma aqui em Piracicaba, pedi transsferência de lá e me inscrevi aqui na UNIMEP. Sou da segunda turma de Direito da Unimep, me formei em 1974. Abriu concurso para procurador do IAA. Eram sete vagas disponíveis, eu entrei. Fui aprovado em primeiro lugar. Fui nomeado procurador, hoje sou aposentado como Procurador Federal. Em 1992, quando o Collor entrou, ele me nomeou interventor no Rio de Janeiro, para fechar o IAA. Todos os dias em meu gabinete havia uma fila de mulheres que descia a escada, a conversa era muito parecida: “ Seu Ibrahim , não manda a minha filha embora!” Eu explicava: “Minha senhora, a minha missão é essa!”. Nesse interim a minha mãe ficou doente, ela veio a falecer em 1992. Passei um telegrama ao Collor pedindo que me substituisse por questão de saúde, a não adaptação as ordens que ele deu, ele atendeu o meu pedido. Eu ainda estava em Niteroi, ele nomeou outro interventor, que foi uma senhora. Pensei: “-Estou com 40 anos de IAA. O que estou fazendo aqui?”. Passei um telegrama ao Collor, agradecendo e pedindo a aposentadoria. Ele imediamente concedeu. Saiu no Diário Oficial, ai me aposentei, em 1992. Aí vim para Piracicaba , de volta.

Hoje o que o senhor faz?Tem algum hobby?

Eu já estou aposentado! Uso muito o computador, converso, telefono. Me lembro de tudo na minha vida.

Em seu trabalho o senhor pegou muitos voos?

A Ponte Aérea era a minha casa! O Constellation foi uma aeronave comercial famosa  operado pelas extintas Varig e Panair do Brasil. Tinha cabine pressurizada, o que era novidade naquela época e era movido por quatro motores radiais a pistão de 18 cilindros. Tinha dias em eu ia e voltava até o Rio. Demorava 45 a 50 minutos de voo. Saia do aeroporto de Congonhas e descia no Santos Dumont.

O senhor chegou a montar escritório de advocacia em Piracicaba?

Montei, no Edifício Kennedy, na Praça José Bonifácio. Após algum tempo decidi fechar. Já estava aposentado.

O bairro de Santa Terezinha conhece o trabalho do que o senhor fez em benefício da localidade?

Eis a questão! O pessoal que vivenciou cada melhoria feita, quase todos faleceram. Quem vai acreditar que levei água, luz e asfalto, correio, Caixa Econômica Federal para Santa Terezinha? O Adilson Benedito Maluf teve participação com recursos locais, mas tive que usar meus contatos em esferas superiores. Fui muito amigo do Deputado Federal João Hermann  Netto, do Deputado Federal Pacheco Chaves, do Deputado Estadual Francisco Antonio Coelho, o Coelhinho, do José Machado. João Chaddad é muito meu amigo. Em 1982 o Chaddad concorreu ao cargo de prefeito de Piracicaba e eu era o candidatado a vice-prefeito. A política é envolvente. E perigosa. Assim como você faz uma amizade pode despertar uma inimizade. Passei por essa experiência e posso afirmar que não gosto. Ouço todo mundo, tiro as minhas conclusões.

O que o senhor acha de Piracicaba?

Quem conhece Piracicaba de 1969! A primeira vez que vim para cá o Edifício COMURBA tinha caído seis meses antes, estava tudo lá, as lajes dos andares dependuradas na parte do prédio que não caiu, ainda tinha muito entulho. Fiquei apavorado com aquilo. A sorte de muitas pessoas, é que o cinema que existia embaixo, Cine Plaza, iria funcionar à tarde e o prédio desmoronou antes.

O senhor foi colaborador com artigos para algum jornal?

Quando o Jornalista Evaldo Vicente iniciou o seu trabalho com “A |Tribuna Piracicabana”, eu escrevia uma página inteira sobre Santa Terezinha. Lá tudo que acontecia em Santa Terezinha eu noticiava, Meu filho o jornalista, apresentador e produtor de televisão Kal  Mattus era garoto, ele era  o responsável pela distribuição de “A Tribuna Piracicabana” em Santa Terezinha. (Alguns anos passados e sua neta, a jornalista Marina Mattus, filha de Kal Mattus, estreou na última sexta-feira, dia 18 de janeiro, uma página/coluna no jornal “A Tribuna Piracicabana”, com seus textos falando sobre nossa cidade e, principalmente, sobre seus cidadãos!).

Nessa época o senhor foi administrador de Sanmta Terezinha?

Na época tinha um amigo, já falecido, o Brandão, que foi diversas vezes candidato a vereador. Fui administrador de Santa Terezinha.

O senhor nunca pensou em ser vereador?

Só em 1982 fiz essa aventura de sair candidato a vice-prefeito! Paulo Maluf estava no auge estávamos o Chaddad, eu e Paulo Maluf na mesma chapa. Eu telefonava para a casa dele, Dona Sylvia Lutfalla Maluf atendia, eu pedia material de propaganda, a noite, no dia seguinte estava aqui em Piracicaba. O Maluf veio à Piracicaba, fazer um comício onde era o COMURBA, eu estava na casa do Dr. Jairo Ribeiro de Mattos, que era candidato a deputado. Disse ao Jairo: “Jairo, nossos votos estão lá na praça, vamos para lá!”. Fomos, o Maluf veio nos cumprimentar. O cantor em alta na época era Waldick Soriano, com a música “Eu Nao Sou Cachorro Não”. Ele apresentou-se com seu repertório incluindo essa música que fazia muito sucesso. Era uma pessoa carismática.

Temos constantemente notícias sobre o desvio de conduta de alguns políticos. Do alto da sua experiência, qual é a solução para essa situação?

Não têm! O mundo não tem solução! A França é um ícone da perfeição política, eu adoro os franceses, pela arte, filosofia, mas a França está corrompida. A Inglaterra está corrompida. A Alemanha está corrompida. 

O senhor sempre foi muito ativo!

Fui! Eu estava no IAA no Rio, adquiri três Gordinis novos, financiados. Coloquei-os para trabalhar como taxi, em uma semana um foi roubado, outro pegou fogo e o terceiro eu devolvi. Quando cheguei aqui em Piracicaba em 1969, estava ainda pagando carnê referente aos carros!

Ir morar no Rio de Janeiro era o sonho de muitos brasileiros?

Era onde tudo acontecia! Tinha tipos característicos como toda cidade têm. Um deles era o Poeta Gentileza. Eu estava em casa dormindo.  Minha esposa disse-me “Levante que o circo pegou fogo vai que estão lá assistindo ao espetáculo sua mãe, sua irmã e sua sobrinha!”, Era o Gran Circo Norte-Americano. Peguei o carro, nessa época eu trabalhava no IAA durante o dia e trabalhava como taxista com um Chevrolet 1938, até umas dez ou onze horas da noite. Fui até onde estava o circo, quando cheguei vi uma cena dantesca, muitas pessoas mortas, desfiguradas. Encontrei minha mãe, minha irmã e a minha sobrinha. Elas me contaram que durante o fogo se abraçaram e colocaram a minha sobrinha no meio. Hoje minha irmã e minha sobrinha moram nos Estados Unidos. A Olga, minha sobrinha, ficou com cicatrizes das queimaduras nas costas. Não sei se ela fez depois alguma cirurgia plástica. Minha irmã Nabile também ficou com marcas das queimaduras. Levei-as ao hospital, e voltei, com o meu carro passei a levar os feridos ao Hospital D. Pedro I, em Niterói. Ficamos a noite toda prestando socorro. José Datrino, o Poeta Gentileza falecido em 1996, perdeu a família toda. José acordou alegando ter ouvido "vozes astrais", segundo suas próprias palavras, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual. Datrino possuía uma empresa de transporte de cargas e residia, com sua família, no bairro de Guadalupe pegou um de seus caminhões e foi para o local do incêndio onde hoje encontra-se a Policlínica Militar de Niterói. Plantou jardim e horta sobre as cinzas do circo em Niterói, local que um dia foi palco de tantas alegrias, mas também de muita tristeza. Aquela foi sua morada por quatro anos. Lá, José Datrino incutiu nas pessoas o sentido das palavras Agradecido e Gentileza. Foi um consolador voluntário, que confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade. Daquele dia em diante, passou a se chamar "José Agradecido", "Profeta Gentileza" ou “Poeta Gentileza”

 Percorreu toda a cidade. Era visto em ruas, praças, nas barcas da travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em trens e ônibus, fazendo sua pregação e levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: - "Sou maluco para te amar e louco para te salvar". O Profeta Gentileza, também oferecia, em gesto de gentileza, flores e rosas para as pessoas que cruzavam seu caminho nas ruas do Rio de Janeiro.

(“Fogo!”, gritou a trapezista Nena. Antonietta Stevanovich  foi a primeira a dar o alerta dentro do circo. Junto com os colegas Vicente Sanches e Santiago Grotto, ela apresentava o quadro final de acrobacia, clímax do espetáculo da tarde quente de domingo em Niterói. Foi quando um clarão pode ser notado na parte inferior da lona, à esquerda da entrada. O fogo se alastrou rapidamente e, nos 10 minutos seguintes, as 3 mil pessoas que lotavam o Gran Circo Norte-Americano viveram um inferno. Foi o maior incêndio da História do Brasil. Montado num grande terreno na avenida Feliciano Sodré, no centro da cidade, o circo, de propriedade do empresário Danilo Stevanovich, era um dos maiores da América Latina. Contava com 60 artistas, das mais diversas nacionalidades, A lona verde e laranja, pesava 6 toneladas. Resultou em 503 mortos e 300 feridos foi uma das maiores tragédias do Brasil, ocorreu na tarde de 17 de dezembro de 1961. Foi um incêndio provocado por Adílson Marcelino Alves, o “Dequinha”, que tinha antecedentes por furto e apresentava problemas mentais, motivado por vingança contra o dono do circo que o dispensou. O Gran Circo Norte-Americano comportava tantas pessoas quanto o Cirque du Soleil hoje em dia. O incêndio que o destruiu deu um impulso à cirurgia plástica no país).

O cansaço e o sono do senhor o salvou?

Nós íamos todos ao circo, só que almocei, deitei, adormeci. Com isso meus filhos permaneceram em casa. Minha esposa foi me chamar para levar as crianças ao circo, foi quando veio a notícia pelo rádio, de que o circo estava em chamas. O “Poeta Gentileza”, andava pela Avenida Amaral Peixoto, onde no número 55 minha sobrinha que é médica do Exército tem consultório. Ele usava terno, lembra a figura do artista falecido Pedro de Lara.

Ainda no IAA, em Piracicaba, trabalhava uma personalidade: José Carlos Brasil.

Ele era funcionário do IAA, e projetava filmes para a população. A princípio era projetado a céu  aberto, depois ele passou a passar no galpão do IAA. Naquela época, eu trouxe um costume do Rio, o IAA dava brinquedos através de uma associação que nós tínhamos. Antes tínhamos uma missa e nós chamávamos o Padre Otto Dana para celebrar essa missa. Todo Natal era assim. Na época o Padre Otto estava como pároco em Santa Terezinha.

Às margens da Rodovia Piracicaba-Limeira, em terras da ESALQ, há uma estrutura enorme de uma usina de açúcar, qual é a origem dela?

Aquilo foi doado pelo Instituto do Açúcar e do Álcool, foi iniciada a construção, quando chegou a Revolução de 1964. Parou tudo. Aquilo era para ser um protótipo de usina para formar os engenheiros agrônomos ligados a cultura da cana-de-açúcar, canavieiros, teriam uma usina como laboratório.

Qual é um dos seus sonhos que gostaria de realizar?

Gostaria muito de ir ao Líbano e ao Egito! Conhecer o Vale dos Reis, no Egito, onde dezenas de antigos faraós foram sepultados. Onde foi descoberta a famosíssima tumba de Tutankhamon (1341 a.C. – 1323 a.C.), abriga o túmulo dos filhos de Ramsés II (a.C. 1290 a 1224 a.C.). Neste último foram achados 130 corredores e câmaras, o que o torna o maior do local e um dos maiores do mundo. Com o avançar das pesquisas, aquele número pode, talvez, chegar a 200. Em 1922 foram realizadas grandes descobertas no Vale dos Reis.

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