Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

quinta-feira, setembro 27, 2018

domingo, setembro 09, 2018

JOÃO LÚCIO DE AZEVEDO


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 02 de setembro de 2018
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO:  JOÃO LÚCIO DE AZEVEDO

 

O Prof. Dr. João Lúcio de Azevedo nasceu a 31 de julho de 1937 em São Paulo, no bairro Jardim Paulista, na esquina da Avenida Nove de Julho com a Rua Estados Unidos, onde o seu pai tinha uma casa. São seus pais Manoel Victor de Azevedo e Ema Crivelentte de Azevedo. Tiveram seis filhos: Leda, Elmo, Valter, Manoel Victor, Luiz Carlos e João Lúcio.
É um endereço nobre!
Era o começo! A rua não era nem asfaltada! Essa casa existe até hoje, no local funciona um estabelecimento bancário. O local era um dos empreendimentos imobiliários da Companhia City. Com 4 a 5 anos mudei entre a Rua Conselheiro Zacarias e a Rua Honduras, no Jardim Paulista também, bem pertinho. Passava o bonde Jardim Paulista, subia a Rua Pamplona e eu ia até a Avenida Paulista.
Era bonde aberto ou fechado?
O que subia a Pamplona era aberto, lá em cima pegava o bonde “camarão”, vermelhinho, fechado. Eu ia até o Colégio São Luiz, na Avenida Paulista, onde estudei. Lá eu fiz o ensino médio e o preparo para o vestibular.
Dava para ir a pé da casa do senhor até o Colégio São Luiz?
Dava! Subia a Rua Pamplona, virava na Avenida Paulista, passava onde depois passou a ser o MASP, lá existia um belvedere (local de observação), ao que consta até hoje tem uns resquícios desse belvedere. A Avenida Paulista já era calçada. Existiam muitos casarões, mansões. A casa do Conde Matarazzo, quando eu ia de bonde para o Colégio São Luiz pegava-o lá em frente a mansão do Matarazzo. Era um bonde com o letreiro escrito “Angélica”, referência ao percurso pela Avenida Angélica.
O senhor chegou a entrar na Mansão Matarazzo?
Cheguei a entrar no vizinho, meu colega de Colégio São Luiz morava ao lado da Mansão Matarazzo. Dava para ver a propriedade do Matarazzo, era um monstro de casa! Era um patrimônio histórico! Tinha um muro baixinho onde eu sentava e ficava esperando o bonde, dali dava para ver a enormidade, a beleza da casa revestida em mármore de Carrara. Já tínhamos o Parque Trianon, uma sombra tropical no coração da Avenida Paulista, onde passava o bonde nos dois sentidos, em direção à Avenida Angélica e ao Paraíso, ali havia uma loja Sears, onde é um Shopping hoje. Na Brigadeiro Luiz Antônio Havia a Igreja Nossa |Senhora da Conceição. São Paulo era uma outra cidade. A década de 40 é um momento marcado por uma profunda mudança na cidade de São Paulo. Conforme dados do IBGE, sua população, em 1947, era duas vezes maior que a existente em 1937, ou seja, a população da cidade pulou de 1,3 milhão (1937) para 2,2 milhões 1947 em apenas 10 anos. Frequentei a loja Mappin na Praça Ramos de Azevedo.
Alguns colegas do Colégio São Luiz ainda reúnem-se?
De tempos em tempos fazemos uma reuniãozinha. Formei-me em 1957 no Colégio São Luiz.
O pai do senhor teve uma participação marcante na sociedade?
Meu pai foi jornalista, radialista na Rádio Excelsior, ele sempre foi muito católico, fazia um programa chamado “Hora do Pensamento Social Cristão”, trabalhava como jornalista no Correio Paulistano, depois tornou-se advogado do Banco do Brasil, na Avenida São João, bem no centro de São Paulo. Foi deputado por oito anos, foi Constituinte de 1946 a quarta assembleia reunida no país para elaboração do seu estatuto político fundamental, ele era do PDC Partido Democrata Cristão.
Na época a capital federal era no Rio de Janeiro.
Tinha que ir para o Rio de Janeiro. Eu fiquei uns tempos morando no Rio. Meu pai ia de trem. O Cruzeiro do Sul foi uma das composições que circularam entre o Rio e São Paulo. O percurso era: Estação Roosevelt (São Paulo) - Estação Dom Pedro II (Rio de Janeiro) - O Trem Azul ou Cruzeiro do Sul, como era oficialmente batizado, representava o que de mais moderno e confortável havia de disponível para a viagem entre as duas mais importantes cidades do País. Saia a noite de São Paulo e chegava de manhãzinha no Rio.
Ele viajava em cabine fechada?
Viajava em cabine, as vezes eu ia junto. Meu pai não gostava de ficar no Rio. Embora tivesse muitos amigos e parentes, então ele ficava na casa de parentes e depois aos fins de semana ele voltava. 
Ele não tinha residência funcional?
Naquele tempo não havia isso não!
Ele atuou politicamente quando o presidente da república era quem?
Ele pegou cinco anos do governo de Eurico Gaspar Dutra. Depois veio o Getúlio Vargas. Quando Getúlio faleceu meu pai era deputado. O segundo mandato do meu pai foi como deputado estadual, depois ele abandonou completamente a política. Em 1947. o local da sede do Poder Legislativo paulista era o antigo Palácio das Indústrias, na região central da capital paulista.
Em 1954 o senhor já era moço, foi o Quarto Centenário de São Paulo, o senhor chegou a ver a “Chuva de Prata”?
Cheguei a ver! No Trianon! Me lembro perfeitamente, foi lindo! Acho que ainda devo ter umas estrelinhas daquela época! Foi em janeiro de 1954,  quando o Parque Ibirapuera foi inaugurado. Era festa todo o dia. Bandas marciais, nacionais e americanas (fuzileiros navais). Música era tocada por todos os lados do parque. As marquises, lotadas de gente. Mário Zan tocado nos quatro cantos da cidade com seu "São Paulo Quatrocentão", que acabou se tornando o hino oficial do aniversário da cidade. Aviões da FAB lançavam ao ar pequenos triângulos de papel alumínio, que eram intensamente iluminados pelos poderosos holofotes do exército, localizados em pontos estratégicos. Era uma verdadeira chuva de prata. Em 1954, a Brigadeiro Luiz Antônio ainda era área residencial e muito,  elegante.
O senhor praticava esportes quando jovem?
Eu ia muito no Club Paulistano, aprendi a nadar lá!
Como a profissão de engenheiro agrônomo o atraiu?
Eu tinha um professor de biologia que era um alemão de nome Albrecht Tabor, ele dava aulas no Colégio Visconde de Porto Seguro e no Colégio São Luiz. Ele lecionava genética, era uma aula muito boa, eu sempre gostei de genética. Ele dizia: “Se vocês querem fazer genética, vão fazer em Piracicaba! Lá tem o professor Friedrich Gustav Brieger ele que sabe sobre genética! Prática de genética só lá em Piracicaba! Um curso bom, agronomia, uma escola fabulosa, situada no interior, melhor do que São Paulo para viver e tem o melhor professor de genética!”
O senhor conheceu o professor Brieger?
Trabalhei com o Brieger! Com a Maria Ruth Buzzato Alleoni. O Professor Brieger dava aulas práticas, enquanto os demais davam aulas teóricas.  Em 1957 vim para Piracicaba cursar a Esalq. Me formei em 1960.
O senhor veio a primeira vez para Piracicaba com qual veículo?
Vim com o carro do meu irmão, um Citroën, levava cinco a seis horas de viagem, de Campinas para cá era chão de terra, a rodovia com muitas curvas.
Piracicaba na época tinha uma população bem menor.
A área urbana da cidade estimo pouco mais de 50.000 habitantes. O diretor da Esalq era Hugo de Almeida Leme. Do Colégio São Luís três prestamos exames para entrar na Esalq: Paulo Penteado Meirelles, Guido Chierichetti e eu. Nós três fomos aprovados.
Como chamava-se a república em que o senhor passou a morar?
Era a Rancho Fundo ficava na Rua São João. Quando eu mudei era chamada ONU. Tinha descendestes de polonês, alemão, italiano, um venezuelano. O Centro Acadêmico era na Rua Prudente de Moraes entre a Rua Alferes José Caetano e a Praça José Bonifácio. Embaixo ficava “O Diário”, no prédio construído por Terêncio Galezzi. Não tínhamos muito o que fazer em termos de lazer, a noite ia para o CALQ –Centro Acadêmico Luiz de Queiroz.
A Esalq  era ensino em tempo integral?
Tempo integral! O professor mais famoso na época era Orlando Carneiro, ele vinha da Escola Politécnica de São Paulo pra dar aulas. Era bravíssimo! Tive aula com o professor Salgadinho, conheci Jairo Ribeiro de Mattos.
O bonde para a agronomia tinha um segundo vagão rebocado?
Quando era meio dia e meia, uma hora da tarde, ia começar o curso aqui, vinha o bonde com o carro reboque. Naquele tempo ninguém tinha carro, nem os professores. Quando passava um carro sabia que era do Professor Malavolta, do Professor Pimentel.
Naquela época já tinha toda essa infraestrutura que existe hoje?
Melhorou muito! Dava para dar aula das oito às onze horas, depois começava a uma hora da tarde e ia até quatro ou cinco horas da tarde. A noite não tinha nada. Mais tarde colocaram um curso noturno também.
Vocês almoçavam na escola?
Eu almoçava na república. O bonde nos períodos que antecediam ou terminavam as aulas iam ou vinham lotados.
O senhor praticava algum esporte?
Eu nadava no Clube de Campo de Piracicaba, tenho algumas medalhas.
O senhor tem filhos?
Casei-me com Maria Alice.Tenho dois filhos: João Lúcio Filho e Sílvia. Meu irmão Valter é padre em Manaus.
Aqui na Esalq o senhor fez o curso regular, chegou a ser monitor?
Fui! O Professor Brieger que inventou na época. Eu era aluno mais do professor Gurgel. O Brieger não falava muito bem o português, o Professor José Theófilo do Amaral  Gurgel traduzia. O Brieger tinha “pavio curto”! Salim Simão foi meu professor. O Brieger criou um Instituto de Genética, ele era muito ligado a Fundação Rockefeller que define sua missão como sendo a de promover, no exterior, o estímulo à saúde pública, o ensino, a pesquisa e a filantropia. Com isso o Brieger trouxe muitos recursos para a Esalq. Juscelino Kubitschek de Oliveira era o Presidente da República, incentivou muito a área da genética. O Brieger tinha dificuldade em entender a burocracia brasileira.
Logo que o senhor iniciou seu trabalho com genética quantas pessoas trabalhavam na área?
Aqui em Piracicaba umas quinze pessoas. Para a época era muita gente.
Após formar-se, ser monitor, quais foram os cargos seguintes que o senhor exerceu?
Fui professor assistente, doutorado, livre docência e titular. Portanto hoje sou Professor Doutor Titular da Cadeira de Genética. E aposentado! Quando terminei o doutorado o Professor Brieger disse-me: “Na próxima vez vai para a Inglaterra, não vai para os Estados Unidos, eles massificam muito, quando retornar não é um indivíduo, é uma massa, lá irá fazer parte de um grupo, excelente, fantástico. Você será usado como uma mão de obra qualificada. Vai para a Inglaterra que lá são indivíduos, você não trabalha em grupo ainda.Irá aprender mais. Irá voltar, não aprenda sobre as coisas que tem lá, aprenda para saber o que é genética, e venha fazer aqui alguma coisa que interesse para o Brasil. Você irá trabalhar com uma genética que não existe no Brasil, a genética de microrganismos.”
O senhor ficou em qual universidade na Inglaterra?
Fiquei na Universidade de Sheffield, no norte da Inglaterra. Muito boa na parte de engenharia, na parte de biologia é pequenininha. Me especializei em microbiologia. O Brieger que me disse: “Você vai fazer genética humana, a geração leva 20 anos, genética estuda transmissão de características de pai para filho, genética de milho leva um ano, de inseto irá levar um mês, de microrganismos a bactéria irá levar 20 minutos.”. “Isso não existe no Brasil”, ele me disse. A microbiologia estuda também a transmissão de micro características de fungo para fungo. Bactéria para bactéria. Alga para alga. Tem muito fungo que é importante porque causa doenças. Em plantas, em animais, tem muita bactéria que causa doença humana: Escherichia coli, doenças sexualmente transmissíveis. Naquela época o Brieger dizia: “Tem médico que não sabe direito porque está receitando antibiótico!”. Ele dava porque está matando a bactéria, mas não sabia porquê. O Brieger trouxe o inglês Joseph Alan Roper, esse inglês ficou uns dois meses no Brasil. Ele orientou umas quatro ou cinco pessoas. O Roper me escolheu e a uma moça chamada Nelly Neder. Fiquei três anos e meio na Inglaterra. Depois voltei para fazer um pós-doutorado em Nottingham e depois em Manchester. Ai já foi coisa de um ano, seis meses. Fui ver os Beatles na Inglaterra, quando eles não eram nem famosos ainda. Não consegui entrar no show, mas vi eles chegando! Eu morava em Sheffield que fica a uns 50 quilômetros de Liverpool. Eles foram dar um show em Sheffield no Cine Abey Dale. Fui com uns amigos, chegamos lá, estava aquela molecada de 16,17 anos, não conseguiam entrar no cinema, tudo cheio, naquele tempo eu tinha um pouco de barba, e não era comum ter barba! Foi uma época em que o mundo estava mudando, em plena guerra do Vietnam, a minissaia surgindo.  Depois fui para a Califórnia, e em Salt Lake City a capital e a cidade mais populosa do estado norte-americano do Utah. Lá conheci as instalações dos mórmons. É uma cidade tão limpa que parece que escovam a cidade o dia todo!
Piracicaba era conservadora?
Sempre foi! Eu era sócio do Clube Coronel Barbosa, frequentava os bailes.
Era a elite da elite!
Era, não era. Frequentava também o Clube Cristóvão Colombo. Os veteranos do meu tempo iam assistir ópera onde é o Teatro São José. Vieram cantores de óperas famosos para se apresentarem no Teatro São José.
O senhor ficou em mais outro país?
Fiquei uns dois meses no Japão. A Sociedade Japonesa de Progresso da Ciência que me convidou. Teve um tempo que fiquei como Diretor da Esalq, de 1991 a 1995. O Professor Akihiko Ando insistiu no convite para ir ao Japão.
O senhor chegou a morar na tradicional casa do Diretor da Esalq?
Eu desisti de morar naquela casa! Quem morou lá anterior a minha gestão foi Humberto de Campos. Antigamente era a Congregação da Esalq que escolhia os diretores, a minha foi a primeira eleição por votação de professores, estudantes, funcionários. 
Sendo o agronegócio um ponto forte do Brasil, qual é o papel da Esalq?
A profissão de engenheiro agrônomo é diversificada. Você pode encontrar agrônomo que é grande economista. Tem biólogo, eu sou mais biólogo do que agrônomo. Tive muito contato com os médicos Luiz Faria Pinheiro, Plinio Alves de Moraes este último foi direto da FOP Faculdade de Odontologia de Piracicaba.  Eles se interessavam muito por microbiologia, queriam saber como funcionavam as coisas.
O senhor lecionou fora de Piracicaba?
Passei quatro anos em Brasília como professor da universidade.
Quantos livros o senhor tem publicado?
Tenho uns vinte.
O senhor tem condecorações?
Tenho duas comendas, uma foi entregue pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso e outra recebi, embora estivesse na Inglaterra, foi entregue pelo Presidente Lula. Tenho uma passagem muito curiosa. Quando Luiz de Queiroz mudou-se para São Paulo, foi residir perto da Avenida Paulista. Meu pai também morava lá perto. Meu pai tinha seis filhos, e o Luiz de Queiroz não tinha filho. O Luiz de Queiroz faleceu moço, A Dona Ermelinda, esposa de Luiz de Queiroz, guardou o enxoval para criança, só que a criança não nasceu, meu pai estava com seis filhos, tempos difíceis, Dona Ermelinda nos conhecia, ela tinha ficado viúva, ofereceu o enxoval de criança. Eu usei o enxoval que seria para o filho de Luiz de Queiroz!

ELAINE REGINA CURIACOS MEYER


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 08 de setembro de 2018.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.teleresponde.com.br/

ENTREVISTADA: ELAINE REGINA CURIACOS MEYER

Elaine Regina Curiacos Meyer nasceu a 15 de fevereiro de 1963, em Piracicaba. Filha do Dr. Luiz Curiacos, advogado, corretor do ramo imobiliário, e Santina Pimpinatto Curiacos que tiveram dois filhos: Elaine e Luiz Eduardo. Elaine casou-se na Igreja dos Frades no dia 13 de julho de 1990, com Alfredo Carlos Meyer Júnior, economista.
Seus primeiros estudos foram feitos em qual escola?
Fiz em diversas escolas, na época mudamos diversas vezes de residência. Iniciei na Escola Nossa Senhora da Assunção, minha primeira professora foi Da. Marli, já falecida, onde permaneci por dois anos, depois fui para o Grupo Escolar Dr. Prudente de Moraes, lá estudei por um ano, a seguir fui estudar no Colégio Dr. Jorge Coury, onde terminei o ginásio. A seguir fiz o curso colegial no Colégio Piracicabano. Fiz curso de datilografia no CESAC- Centro Social Assistência Cultura Paróquia São José, eu datilografava profissionalmente, fazia meus “bicos”, sempre tinha alguma atividade que gerava algum dinheiro para minhas despesas pessoais. Acho que devido a minha ascendência árabe. No Colégio Piracicabano concluí o Curso Técnico de Patologia Clínica. Na época eu queria muito estudar no Colégio Piracicabano, ter uma profissão, eu sempre quis trabalhar, me sentir produtiva, sou assim até hoje. Na época eu não escolhi muito bem o curso. Sempre tive a vocação para trabalhar com a saúde. Na época os cursos existentes lá eram eletrônica, computação ou patologia clínica. Nunca trabalhei nessa área. Acabei tendo dificuldades no vestibular, o curso técnico deixa muito a desejar em determinadas matérias. Fiz o cursinho preparatório junto com o curso técnico. Prestei vestibular e fui aprovada para cursar Fisioterapia na Unesp em São Carlos e na Unimep em Piracicaba.  Há 30 anos, era uma matéria nova, pouco conhecida. Eu tinha 17 anos. Na época em que eu estava fazendo o cursinho a minha avó materna, Virginia, ficou doente, eu ficava com ela no hospital. Lá vinha uma fisioterapeuta realizar seu trabalho com a minha avó. Eu ficava encantada com o que ela fazia. Achava lindo o seu trabalho. Meu pai tinha muita dificuldade em deixar os filhos voarem! Com isso acabei ficando na Unimep. Hoje a minha filha mora em São Paulo e faço questão que ela voe, acredito que cresce muito quando mora sozinho.
Quantos filhos vocês têm?
 Temos uma filha só, a Maria Carolina, está com 20 anos. Eu acabei ficando na Unimep, que tem um curso excelente, depois fui descobrir que em nível de estágio é o melhor que existe. Você já sai trabalhando. Me formei em 1984. Na época o curso era integral de três anos. De manhã, a tarde e à noite ficávamos estudando no laboratório. Já no primeiro ano em que entrei fui estagiar no que era o maior centro de fisioterapia na época, existe até hoje. A proprietária, disse-me, que estágio era só a partir do segundo ano. Minha resposta foi: “Eu aprendo! Eu faço!”. Fui várias vezes até lá, até que ela me aceitou. A princípio tinha duas macas, o coordenador disse: “Vou trabalhar com este paciente e você vai vendo para ir aprendendo!”. Me ensinou a trabalhar com os aparelhos. Eu sempre acreditei muito no poder das mãos. Existia um protocolo de atendimento que eu fugia dele. Colocava o pessoal no box e começava a trabalhar com massagem. Era um procedimento mais intuitivo, eu não tinha tido essa disciplina ainda. Só que resolvia! As pessoas melhoravam bastante. Porém demorava muito o procedimento. Fui entendendo qual era o meu caminho, eu tinha resultados naquela massagem. Tinha muita vontade de que o paciente ficasse bem. Estudava bastante, sempre fui uma pessoa que estudei. Eu não estava alienada, estava fazendo a coisa certa mas sem capacidade técnica total. Todos os anos de faculdade eu fiquei lá fazendo estágio, quando terminou o meu curso, a proprietária me deu férias, em seguida me chamou, e em janeiro me disse que eu iria trabalhar como contratada. Agradeci muito, mas não aceitei. Eu não queria continuar fazendo a fisioterapia clássica. Queria outro caminho para mim. Sempre fui muito assim: tenho um propósito, eu acredito, eu vou, minhas intuições costumam funcionar. Não faço nada que a minha intuição indica para não fazer.
Você é religiosa?
Sou católica, sou espiritualista. Durante 10 anos conheci todas as religiões e seitas que você possa imaginar. Acabei voltando para a católica porque descobri que pessoas são pessoas. Em todos os lugares tem briga pelo poder, a força do ego está presente em todos os lugares. Voltei para a religião em que fui formada. Acredito em um Deus único.
A seu ver o ser humano é formado por energia?
Tudo é energia! Esse momento em que estamos aqui, agora, é energia! É o encontro de almas. Não estamos aqui ao acaso. Você tem a sua missão, eu tenho a minha. Dentro da missão de cada um, houve uma conexão. Acredito muito nisso. Tudo tem um porque, para que. Trabalho com pessoas de todas as religiões há mais de 30 anos, aprendo muito. Aprendi na minha vida a não ter intermediário: conecto-me com Deus, Ele fala comigo, falo com Ele. Frequento a igreja católica. Por muitos e muitos anos fui uma filha rebelde com Deus: eu posso, eu consigo, eu vou sozinha! Até que chega momentos da vida em Ele vê a sua situação de cem por cento impotente! Tempestades que chegam em nossa vida com a intensidade necessária à cada um para descobrir que sem a fé em Deus é impossível prosseguir. Acreditar em Deus é sentir a sua presença, e não um Deus distante. Desenvolver a espiritualidade. Há a presença de Deus que depende só de mim; a que depende do outro e a que depende de Deus e das circunstâncias, que nada posso fazer. Isso significa que somos impotentes em dois terços da vida. Percebi isso quando descobri que o um terço que era a minha parte eu não estava fazendo!
Há pessoas egocêntricas, julgam-se o centro do mundo e há pessoas que vivem para todos menos para si mesmo, qual é a sua opinião?
Dizemos que existem três tipos de pessoas: 1-) Aquela só ligada no EU; 2-) A pessoa altruísta que é o OUTRO; 3-) E o terceiro que é o Helicóptero! Só flutua por cima, mas não está presente. Há situações em que o profissional não pode demonstrar seus sentimentos imediatos. Ele não pode se envolver emocionalmente. Há também pessoas que não se envolvem com nada. Há casos em que a pessoa chega a extremos, ela quer a sua segurança e conforto pessoal, as vezes nem mesmo os filhos importam. São extremos. A meu ver o que precisamos é passear pelos três tipos de vez em quando. As vezes temos tendências a sermos um único tipo.
O egocentrismo é uma doença?
Necessariamente não é preciso ser considerada uma doença. Há sim falta de equilíbrio! Há pessoas que buscam o equilíbrio e ficam bem, outras são patológicas. Existem pessoas que tem uma patologia e outras que necessitam de orientação. O mais comum é acharem que não precisam de nada disso. Simplesmente não admitem, não aceitam.
Você saiu do local onde trabalhava como estagiária, já formada foi trabalhar aonde?
Sempre gostei de desafios. Surgiu uma oportunidade de trabalhar com uma amiga e precisava que eu trabalhasse meio período, era um trabalho em uma academia. Descobri um curso em São Paulo, pegava o último ônibus para Piracicaba, as 11:00 da noite. Eram aulas com o Professor Sardá, um argentino, na área de estética para mulheres, há 30 anos não havia as clínicas estéticas que existem hoje. Logo montei a minha primeira clínica junto com essa minha amiga. Foi a primeira clínica de estética da cidade a Pesos e Medidas. Essa clínica existe até hoje com a minha amiga. Funcionava em uma casa na Rua Ipiranga entre a Rua Governador Pedro de Toledo e a Rua Benjamin Constant. Com o tempo percebi que aquilo não me realizava, e eu não gosto de fazer só pelo dinheiro, tenho que me sentir bem. Fiz algumas “loucuras” em deixar lugares onde estava com um ótimo retorno financeiro. E não me arrependo. Sempre precisei do dinheiro, mas nunca o coloquei acima da minha realização. A clínica pelo fato de ser a primeira da cidade, ia muito bem, com atendimento individualizado, voltada às mulheres com bom padrão aquisitivo. Na época eu já fazia medicina chinesa, cursos, sempre dava um toque diferenciado no trabalho. Após dois anos, a minha supervisora da área de postura na Unimep, conversou comigo, estava deixando a cidade, e como eu tinha sido uma das suas melhores alunas, ela disse-me “Você montou a área de gestante, acho que você deve ficar com a área”. Para mim foi uma surpresa, eu nunca havia planejado isso. Ela deu-me sete livros para estudar, eu tinha uma semana para fazer isso. Foi uma semana em que saia do quarto só para tomar banho e me alimentar. Estudei. O tema que eu tinha estudado foi escolhido, fui muito bem. Tinha um concorrente que apareceu de outra universidade, com mais bagagem acadêmica, teoricamente eu teria perdido a vaga, mas fui assim mesmo para a entrevista, quando anunciaram a desistência do concorrente e a minha efetivação. Fiquei na Unimep por 10 anos como supervisora de estágios. Corresponde a professor só que supervisionando os estágios dos alunos do último ano. Eu também era professora. Entrei pela primeira vez como professora em uma sala de aula com 22 anos em uma sala com 87 alunos! Foi a minha primeira experiência em liderança! No início acharam que era trote, eu era alguma aluna! Tive que conquistar o respeito deles. Isso me deu segurança para poder avançar. O Reitor era Almir Maia. Eu tenho uma inquietação, quando cai na zona de conforto perde a graça. Depois de sete anos estava caindo na mesmice, nesse período fiz muitos cursos, uma média de um curso por mês. Passei a ter um bom padrão financeiro, casei. Eu sempre gostei muito de estudar. Pagava os meus cursos. Ia à São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba. Naquela época não tinha mestrado em fisioterapia, comecei a fazer em fisiologia na Faculdade de Odontologia de Piracicaba, Unicamp. Passei a ser chefe dos meus antigos professores e colegas. Foi a minha segunda liderança desafiadora. Para eles eu era uma menina, eles tinham 40, 50 anos. Fiquei nesse cargo por dois anos. Eu ganhava muito bem. Mas não estava satisfeita. Pedi para sair.
E o que você decidiu fazer?
Montei meu consultório de fisioterapia de coluna. Aluguei uma casa na Rua Alferes José Caetano entre a Rua Ipiranga e Rua Riachuelo. Contratei uma secretária. Comecei a lotar a agenda desde o começo. Este mês me aposentei. Venho fazendo coaching (uma ferramenta de desenvolvimento pessoal e profissional) já há três anos.
Como começou a sua paixão pelo coaching?
Na verdade, há uns 15 anos eu tive um paciente que estava com muita dor no ombro, era diretor de uma grande empresa, ele veio ao meu consultório por indicação. Em uma sessão ele saiu 80% melhor, na segunda sessão já sumiu a dor. Ele ficou encantado, já por dois anos tinha feito diversos tratamentos. Conversávamos bastante, ele viu que eu tinha um conhecimento que era extra terapia, disse que queria que eu fosse dar umas palestras para os seus funcionários. Ele tinha 98 funcionários, hoje tem mais de 1.000. Na empresa dele comecei a ver outras necessidades, oportunidades. Fiz uma especialização e virei consultora em ergonomia. Aumenta muito a produtividade. Comecei também a trabalhar o emocional das pessoas. Como ele é um empresário influente acabou me indicando para seus amigos. De repente montei uma empresa de ergonomia, fisioterapia preventiva. Fiz esse trabalho por 10 anos nas empresas como consultora, em paralelo com o consultório. Tive nove funcionários que trabalhavam para mim, nas empresas. Tive uma grande funcionária que teve uma doença grave e faleceu. Decidi continuar apenas com o consultório e dando palestras nas empresas. 
Atualmente sua atividade é dar palestras e coaching?
Na realidade são ferramentas para potencializar o que o outro tem de melhor, divide-se em três fases: a primeira é o autoconhecimento; reconhecimento e mudança de crenças; missão, visão, valores e metas. Pode ser feito individualmente ou coletivo. Hoje a maioria das empresas tem líderes que não estão preparados para serem líderes. Líder tem que ser educador, servidor. É aquele que ajuda o outro. Trabalho com o líder o seu desenvolvimento pessoal para ele exercer sobre os liderados. As vezes trabalho até com os liderados também. Já dei palestras até para 1.500 pessoas. Vou até a empresa, faço o levantamento das necessidades da empresa e a partir disso crio um projeto.
Você vai moldar um projeto para cada necessidade?
Exato. Até porque para trabalhar com pessoas não existe um padrão. É conhecer a individualidade de cada um.
Quanto tempo dura uma palestra sua?
Em média duas horas. Quando eu trabalhava com a coluna, percebi que somos emoções, aprendi a lidar com isso. Fui buscar psicologia, fiz cursos, para ajudar a pessoa de forma mais integral. As vezes vou trabalhar em uma empresa, percebo que além do meu trabalho a empresa precisa desenvolver processos, ou a área de vendas. Hoje tenho dois parceiros que trabalham comigo. O ser humano é o maior tesouro da empresa, se ele não for cuidado a empresa não evolui. A maioria dos responsáveis pela empresa não tem essa consciência. As vezes dentro da empresa há muito conflito, muita intriga, muito ego. Problemas de relacionamento. Isso é do ser humano em geral. Quando entro na empresa vou ajudando com a inteligência emocional, técnicas de neurolinguísticas. Trabalho em empresas fora de Piracicaba: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Ribeirão Preto. Já trabalhei para o Grupo Siemens, Gatti, entre outras empresas de grande porte. Hoje estou focada em empresas, e não tanto em palestras abertas ao público. Também tenho a minha cota de contribuição social, com palestras à instituições filantrópicas. Em empresas faço o perfil comportamental dos líderes. Avaliar o perfil da pessoa.
O investimento que a empresa faz é alto?
Pelo retorno que ela tem não é.
Uma das suas qualidades é seguir o seu desejo de realização pessoal em tempos em que as pessoas se escravizam pelo dinheiro.
O interessante é que sempre precisei de dinheiro, não tive herança, nem vida tranquila sem ter que prover o lar. Mas sempre acreditei muito no meu propósito de vida. Temos que trabalhar com um propósito. Tudo tem um significado. Se eu trabalhar só para pagar as minhas contas no final do mês vai ser muito chato! Vou entrar em uma zona de conforto e vou ser infeliz. Passar de criatura para criador é entender que você é protagonista da sua história. Se não está bom, faça alguma coisa para mudar.

RONDERSON BATISTA SANTOS (MINEIRO ENCANADOR


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 25 de agosto de 2018
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: RONDERSON BATISTA SANTOS
                         (MINEIRO ENCANADOR)

 

Ronderson Batista Santos também conhecido como “Mineiro Encanador”, é um dos muitos casos em que a pessoa incorpora como seu nome popular o local da sua origem e da sua profissão. Nascido a 4 de agosto de 1975 na cidade de Novo Cruzeiro Estado de Minas Gerais, filho de José Geraldo Batista da Paixão e Zilda Chagas, que tiveram dez filhos: Hercules, Paulo, Ronderson, Neusa, Glaucia, Gleiciane, Moisés, Edson, Rosane, Erica.

Com que idade o senhor começou a trabalhar?    

O meu primeiro registro na carteira de trabalho foi com 15 anos de idade. Antes eu já trabalhava na roça com o meu pai, plantava milho, feijão, cana-de-açúcar, arroz, café, meu pai tirava leite das suas vacas e das vacas dos fazendeiros. Ele prestava serviços para os fazendeiros, roçava manga.

Você chegou a tirar leite?  
Já com uns 10 anos tirava leite, tomava chifrada, a vaca pisava no meu pé, amarrava as patas traseiras para ela não machucar. Tinha que ajudar na roça. Fazia rapadura. Cachaça.
O senhor sabe fazer cachaça? 

Tínhamos que cortar a cana, levar para o alambique, moer, deixar fermentar. Depois colocar para ferver, daí tinha a “cachaça cabecinha” e a “cachaça água fraca”. A “cabecinha” é a primeira, a boa, alguns produtores misturavam um pouco da “água fraca” na “cabecinha” só que o conhecedor de cachaça percebe logo. Nós mantínhamos as duas separadas. Cada uma com seu preço. Meu avô, João Batista, fazia açúcar batido também.

Seus estudos primários foram no sítio?      

No sítio estudei até o terceiro ano primário, minha primeira professora era Dona Sinhá! Tinha que andar em torno de duas horas para chegar na escola, a pé, não havia estradas, as vezes quando não tinha chinelo o meu pai, fazia com couro e pneu. Outras vezes usava Alpargatas, conhecida também como “enxuga-poça”, era feita de tecido jeans, e solado de sisal. Fabricávamos tijolo, amassando o barro com os pés. Com o tempo foi colocado um burro que movia um mecanismo que amassava o barro. As casas eram feitas de “enxumento”: madeira em pé e batia o barro. Para as diferentes técnicas utiliza-se uma massa básica constituída de terra com 60 a 70% de areia, 30 a 40% de argila e água em quantidade suficiente. Alguns aditivos podem ser agregados de acordo com as necessidades ou com a técnica escolhida. Os principais aditivos são: Esterco de vaca ou cavalo que são estabilizantes químicos da massa. A pintura da casa era feita de “tabatinga”, um barro branco, tirava no mato, na lavra, derretia na água e pintava a casa. Ficava branquinha. As madeiras eram colocadas inicialmente em pé, as varas no sentido horizontal eram amarradas com cipó formando quadradinhos de 10 x 10 centímetros aproximadamente, em alguns lugares fazem de 5 x 5 centímetros. E batia-se o barro. O barro duro para ali.
Precisa ficar alguém do outro lado para evitar que caia o barro?
Não precisa não! O bolo de barro vai parando! Depois você vai batendo.
A casa era coberta como?
Com telha feitas à mão mesmo, “nas coxas”, tomavam o formato das coxas de quem as fazia, moldando o barro. Tinha água de poço e água da serra que vinha até a mina da água. Isso existe até hoje, a água sai da rocha e vem para o quintal. Hoje lá tem energia elétrica. 
Até que idade foi a sua permanência nesse sítio?
Até uns 14 anos, mudamos para Novo Cruzeiro. Meu pai permaneceu na roça e nós fomos para a cidade com a minha mãe. Não tínhamos nada, nem um fogão para cozinhar, foi muito difícil o início na cidade. Minha mãe arrumou emprego na padaria, os pães que sobravam o padeiro dava para ela. Era o nosso almoço e jantar. Depois eu consegui um emprego na feira: vender por medida (a granel) feijão, arroz. Dormíamos todos em um quarto só e em uma cama só. Os colchões no chão, na terra. A casa era alugada. Começamos a ganhar fogão, geladeira, cristaleira, usados. O primeiro emprego que consegui na cidade foi em uma marcenaria, para lixar móveis. Ganhava meio salário mínimo, sem registro. O dono da marcenaria, Seu Dedé, foi visitar a minha casa, viu que eu não tinha cama, me deu um beliche: um dormia embaixo outro em cima. Um outro irmão foi trabalhar em outra marcenaria e ganhou mais um beliche. Meu pai arrumou emprego em uma fazenda chamada Fazenda Sul América que contratava mais de 1500 homens só de Novo Cruzeiro em toda temporada de colheita de café. Antigamente o pai podia assinar uma autorização para o filho menor de idade poder trabalhar. Assim meu pai, meu irmão e eu fomos trabalhar na Fazenda Sul América. Eu tinha 16 anos, meu irmão 15 anos. A nossa vida mudou. Passamos a ganhar dinheiro, os três. Ficávamos alojados de segunda-feira até sexta-feira. Minha mãe tinha a doença de Chagas, ela faleceu quando eu tinha 17 anos. Nessa época, em período de safra meu pai vinha trabalhar em Piracicaba e mandava o dinheiro que ganhava para Minas.
Como seu pai veio para Piracicaba?
O meu irmão Paulo, o mais velho, veio para Piracicaba, trabalhava na Coopersucar, quando minha mãe faleceu não deu tempo dele ir vê-la, logo depois ele foi nos visitar. Eu nesse período estava muito revoltado, não tínhamos nem condições para sepultar a minha mãe como ela merecia. Um farmacêutico que doou a urna funerária para sepultá-la. Eu não queria mais permanecer naquele lugar. Quando meu irmão voltou à Piracicaba eu vim com ele. Fiquei morando no Bairro da Paulista na casa de uma tia minha, Tia Alzira. Fiquei uns tempos na casa da Tia Maria na Rua Fernando de Souza Costa. O meu primo, já falecido, trabalhava na empresa Mirafer Produtos Siderúrgicos Ltda. Fui trabalhar ganhando 450 URV (Unidade Real de Valor) quando da implementação do Plano Real. Eu mandava um pouquinho para o meu pai e ficava com um pouquinho aqui. Meu irmão e eu alugamos uma casinha em uma vila de casas na Rua Ipiranga. Trouxemos o meu pai para cá, veio todo mundo! Meu pai arrumou emprego na Prefeitura Municipal para montar palco. Meu irmão tinha comprado um terreno, antigamente a Empresa Municipal de Desenvolvimento Habitacional de Piracicaba – EMDHAP financiava, não dava a casa. Ela financiava o terreno para fazer a moradia, meu irmão tinha feito esse financiamento. Fica no Bairro Mário Dedini. Meu irmão dividiu o terreno ao meio e deu a metade dos fundos para o meu pai. Meu pai passou a pegar todos os ferros que eram descartados nas construções, tinha uma senhora do Bairro do Godinho que tinha umas casas antigas, já sem condições de uso, ele ganhou os tijolos, madeira, telha. Assim com sobras de construções e material usado descartado ele construiu uma casa de oito cômodos, sendo quatro quartos.
Tudo com material já utilizado anteriormente?   
Tudo com material usado!    
Ao seu ver o brasileiro desperdiça muito material?
Joga muita coisa fora! Muita coisa! Meu pai fez uma casa carregando coisas da rua! Ele só comprou o cimento e arrumou o pedreiro! As janelas foram todas doadas. Morando com o meu pai trabalhei na Tofer Engenharia Comércio Indústria, trabalhei em uma empresa tercei          rizada da Belgo Mineira, Camargo Correa, em Piracicaba, na Boyes, foi na Boyes que conheci a minha esposa Lenilda Ladislau dos Santos. Começamos a namorar em 1998. Tem uma passagem interessante, ela residia sozinha, em um pequeno quarto, na Vila Rezende, um belo dia, ela estava trabalhando e cheguei na casa dela. Abri a porta, tinha ido ao Mercado Municipal, enchi uma cestas de frutas variadas e escolhidas, fiquei esperando-a, fingindo que estava dormindo. Até hoje estamos casados, faz 20 anos! Casamos dia 26 de setembro de 1998. Temos dois filhos: Liliane e Robson.
Quando o senhor começou a trabalhar como encanador?           
Na verdade desde que eu cheguei aqui em Piracicaba eu já fazia “bico”. A caixinha que eu usava com as ferramentas estava guardada até pouco tempo. Eu trabalhava na empresa durante o dia e aos finais de semana fazia os “bicos”. Aprendi fazendo, não gostava de ficar parado. A noite por dois anos fui garçom do “Banana Chopp” ficava na Avenida Independência, próximo a Santa Casa o proprietário era o Seu Dorival. Eu trabalhava até a meia noite, as seis horas da manhã já estava trabalhando na empresa onde eu era empregado. Nos finais de semana quando não estava trabalhando na empresa ia ajudar a servir o almoço. Graças a Deus sempre lutei, de dia e de noite. Tem cliente que liga a meia-noite, coloco o carro na estada e vou atender o cliente.
Hoje qual é a sua especialidade profissional?
Na parte hidráulica. Há uma constante inovação, é necessário estar sempre atento para as mudanças, estudo o produto, reparos, qualidades, a internet é uma ferramenta muito útil para a constante atualização técnica. Fiz curso no SENAI, Desenho Mecânico 1,2,3. Fiz curso de eletricista, hidráulica, encanador, informática. Trabalho muito na parte hidráulica.
E obra civil, construção, o senhor trabalha também?
Já fui empreiteiro de obras, tinha sete a oito funcionários. Percebi que deveria trabalhar de outra forma, atualmente a minha esposa cuida da loja São José Reparos, situada a Rua Brasílio Machado, 2658, WhatsApp 9 9639 7966, voltada à parte hidráulica e elétrica, e eu presto serviços. Com isso consigo dar mais atenção aos meus clientes. É o que importa, o cliente satisfeito. Meus filhos ajudam a administrar. Todos nós estamos sempre em harmonia, e sempre aconselhamos um ao outro. Há um grande respeito mútuo, entre o casal e os filhos. Muitas vezes acato o conselho de um deles, que me fazem ver onde tenho que corrigir. Essa união nos fortalece.
A sua decisão em montar a loja e prestar serviços foi um bom caminho?
Está dando para pagar as contas, criar os filhos.
E o seu envolvimento com a política?
Por três vezes já fui candidato a vereador, a primeira vez fui candidato pelo PSB, junto com o Gustavo Hermann. Tive 109 votos. A segunda vez saí pelo PRB, fiquei primeiro suplente do vereador Paulo Henrique Paranhos Ribeiro, tive 461 votos, na terceira vez fiz 287 votos.
O que o atrai para a política?
Eu penso que um político não é um artista ou ator, ele é um funcionário eleito para prestar serviços para a comunidade. Infelizmente existe em nosso país, políticos que usam maquiagem para tirar fotografias em festas de aniversário! Eu consigo ser um vereador e um encanador simultaneamente. Um vereador tem direito a ter pessoas para trabalhar em seu gabinete, posso atende-lo em sua casa, trocar uma torneira, cobrar pelo serviço prestado, e você reivindicar alguma coisa para a sua rua, tenho como ligar no meu gabinete e fazer a minha assessoria entrar em contato com o poder público e atender as suas necessidades públicas também.
A seu ver como está o nosso povo em termos de informação política?
O povo está andando para onde o vento sopra. O povo não pensa!
A televisão influencia muito?
A televisão mente muito! Manipula demais! Hoje vemos campanha eleitoral onde alguns tem bastante tempo de exposição, outros não tem. Para mim isso está errado! O tempo deveria ser dividido de forma igual para todos. Tenho projetos para Piracicaba, estão no endereço eletrônico do Google como Propostas de Ronderson Mineiro 10010
https://issuu.com/rondersonmineiro10010/docs/propostas_de_ronderson_mineiro_10010. Penso que se caso um dia eu tiver o mérito e o povo me der a chance de ser um vereador, criar a proibiçao de dormir e morar na rua. O poder público teria que oferecer abrigo à esses moradores de rua.
Isso é um problema social sério, nem sempre o morador de rua submete-se a regras mínimas estabelecidas para a convivência em albergues.
Não quero maltratar os moradores de rua, mas tirá-los dessa situação miserável, oferecendo qualificação, emprego, dignidade. Eles merecem todo carinho, respeito e nosso zelo. Hoje tem morador de rua conversando com outro colega pelo celular! Tem que haver um trabalho conjunto com a população. Infelizmente há entidades que usam a caridade (distribuindo alimentos, roupas) como peça de propaganda. O morador de rua , a meu ver, deveria ter um lugar para ir, tomar um banho, sem que sejam impostas muitas regras. Se da maneira que estamos fazendo não está dando resultado, vamos criar outra forma de fazer. A Câmara é uma Casa de Leis. Para atender certas situaçõeshá o Serviço Social do Municipio. Já usei a tribuna da Câmara de Vereadores de Piracicaba umas três ou quatro vezes.
Você já teve algum envolvimento com alguma entidade?
Fundei a Associação dos Desempregados. Recebíamos por dia de 100 a 150 pessoas. O objetivo era captar vagas para pessoas desempregadas. Encaminhar as pessoas gratuitamente. Se a pessoa arrumasse um emprego e sentisse gratidão podia doar um pacote de folhas sulfite, para fazermos curriculos. Cada um daria aquilo que desejasse. Se algum empresário quisesse doar uma cesta básica para uma família que estivesse passando por necessidade extrema, nós não recolheríamos a cesta, jamais. Indicaríamos a família que estava passando fome alguém da empresa iria levar, poderíamos até acompanhar.
Tem gente passando fome em Piracicaba?
Vemos muitas pessoas irem buscar cestas básicas nas igrejas. Acredito que tenha pessoas que passam fome em nossa cidade. Tem os que passam fome e não pedem socorro. Se eu estiver passando fome eu grito: tenho dois filhos, quero trabalho!
E as pessoas que pedem dinheiro nos semáforos, qual seria a sua proposta?
Colocaria dois veículos, com sinalização do tipo Giroflex, escrito “Combate a miséria” com duas pessoas boas de diálogo, nada de repressão, ofender, bater. Parava no sinaleiro e abordava o pedinte: “Nós combatemos esse serviço seu de pedir dinheiro em sinaleiro”. Se a pessoa dissesse: “Ah! Mas eu estou desempregado!”. Receberia como resposta: “Vamos lutar para arrumar-lhe um emprego, nem que seja para varrer rua”. O sinaleiro iria esvaziar de pedintes.
Como é o mercado da mão de obra de encanador?
A minha empresa é a “Mineiro Encanador”, as vezes eu saio meia noite, uma hora da manhã, para atender cliente. Atendo prédio, apartamento, presto serviços para bastante empresas, desentupidora, tenho a Roto-Rooter para desentupir. Eu trabalho com reparos da válvula Hydra. Uma grande dificuldade que temos é de trabalhar em local com parquímetro. Não foi previsto um local onde possamos descarregar material, escada.
Vocês fazem serviços fora de Piracicaba?
Faço serviço em Rio das Pedras, Saltinho, já fui fazer até em Jaú. Infelizmente, tem acontecido de bons profissionais sofrerem a falta de serviço, porque muitos estão desempenhando uma atividade que antes não faziam. As vezes nem estão preparados para atender um serviço. As pequenas empresas não tem acesso a muitos órgãos públicos, mesmo tendo condições de preço mais favoráveis. Grandes empresas de fora da cidade levam vantagem em decorrência das exigências burocráticas.

PEDRILHA DE GOES BAGGI (AMIGAS DA ONÇA)


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 18 de agosto de 2018
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/



ENTREVISTADO: PEDRILHA DE GOES BAGGI 
                           (AMIGAS DA ONÇA)
 
A psicóloga clínica e hospitalar Pedrilha de Goes Baggi nasceu em Piracicaba, no Bairro da Paulista, a Rua Santos, próximo à Praça Takaki. Casada com Antonio Baggi Junior tem dois filhos: Renata e Ronaldo. Pedrilha é filha de Alcindo Goes comerciante e Aparecida Goes costureira que tiveram três filhos: Mário, Maria Helena e Pedrilha.
O pai da senhora sempre trabalhou como comerciante?
Inicialmente ele trabalhou na Usina Monte Alegre, até que ele saiu e comprou uma freguesia de pão, um carrinho de tração animal e um cavalo, com o passar do tempo ele adquiriu uma Kombi.
Esse carrinho era aquele com dobradiça, erguia-se a tampa, e lá estavam os pães?
Exatamente!
A que horas ele costumava sair para trabalhar?
Saia a uma hora da manhã. Ia carregar os pães, a sua freguesia era muito grande. À tarde ele saia de novo com outros produtos: pães doces, sonhos, roscas doces. Na época ele trabalhava com a Padaria São José, situada à Avenida Madre Maria Teodora. Hoje o local é ocupado por uma farmácia. Mais tarde ele montou uma filial da padaria São José, na Rua Coronel Barbosa, esquina com a Coronel Fernando Febeliano da Costa. Ali funcionava como um ponto de venda, os pães vinham prontos da fabricação na padaria.
A senhora chegou a trabalhar nessa filial?
Trabalhava no balcão atendendo, as vezes faltava pão eu ia entregar com ele. Nessa época eu tinha uns 11 anos.
A senhora chegou a fazer entrega nas casas dos fregueses?
Fiz! Geralmente o leiteiro entregava o litro de leite e nós entregávamos o pão tipo “bengala”, lembro-me de um dos lugares em que entregávamos era a “Coréia” (Na década de 50 nas imediações da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, também conhecida como Igreja da Paulicéia, era uma área onde havia com mais frequência atritos entre os moradores, o delegado titular Dr. Geraldo Lopes Vieira atendia frequentemente as desavenças, o que o levou a comparar a briga entre vizinhos a Guerra da Coréia. O apelido caiu no gosto do povo). Nessa época meu pai já tinha uma Kombi, alguns vinham pegar o pão, outros tínhamos que deixar na porta. O que para a época era um pouco ousado, as mulheres vinham buscar o pão de camisola, levantavam da cama e vinham do jeito que estavam.
No período em que entregavam pão com o carrinho qual era o nome do cavalo?
Tinha o Lobo, uma égua branca chamada Pomba e uma égua preta chamada Pretinha. Eu ia com o meu pai cortar grama, onde hoje é o Castelinho (Construído por João Chaddad).
Ali o meu pai cortava capim gordura. Meu pai lotava o carrinho e vínhamos para casa. Eu ia passear.
Nessa época ali não havia asfalto?
Era tudo chão de terra, não me lembro de ter a Avenida Dr. Paulo de Moraes. Existia a Avenida Nove de Julho, ia até um pedaço, depois ela acabava. Lembro-me também que um senhor levava com carrinho cana-de-açúcar picada para dar ao cavalo. Atrás de casa havia um terreno onde ficava o cavalo.
A tarde seu pai saia novamente para visitar a freguesia?
Iam também pães doces, sonhos. Tinha clientes que marcavam na caderneta, e acertavam ao final de um mês, e muitos compravam a vista. Em 1986 meu pai adoeceu, permaneci com o meu irmão na filial da padaria. No início de 1987 nós arrendamos. Eu sai de lá e arrumei trabalho na Unimep. Onde trabalhei por 17 anos no Colégio Piracicabano, de 1987 até 2004, a Ozaide Trimer era a minha chefe.
O curso primário onde foi realizado pela senhora?
Foi na Escola Estadual Professora Olivia Bianco, o ginásio estudei na Escola Estadual Dr. Jorge Coury e depois fiz na Escola Estadual Sud Mennucci onde conclui o ensino médio.
O que a levou a estudar psicologia?
Lembro-me de quando era menina eu pegava uma revista a primeira coisa que eu ia ler era a seção do Eduardo Mascarenhas, psicanalista, e me intrigava como ele conseguia saber o que estava ocorrendo com a pessoa. Como eu trabalhava na área administrativa, me aconselharam a fazer o curso de administração. Cursei por algum tempo o curso de administração, mas percebi que não era o que eu buscava. Eu tinha uma amiga que cursava psicologia e conforme ela contava a respeito do seu curso meu interesse aumentava. Decidi fazer psicologia. Em 1998 me formei em psicologia. Eu casei dia 2 de junho de 1979, na Igreja dos Frades. Já estamos casados há 39 anos.
A senhora dedica-se especificamente a alguma área em especial ou só em seu consultório?   
Em 2004 quando saí do Colégio Piracicabano, fui trabalhar no setor de hemodiálise da Santa Casa, fiquei por dois anos e meio trabalhando como psicóloga do setor. Depois fui trabalhar no Cecan (Centro do Câncer da Santa Casa de Piracicaba). A minha postura como psicóloga ficou voltada mais para a área hospitalar. Tenho o meu consultório particular onde faço psicologia clínica.
A seu ver, qual é o paciente que reage de forma a não aceitar com reação mais acentuada a sua situação: o do Cecan ou da hemodiálise?
O câncer vem com um peso e um estigma muito grande, quando o paciente de câncer tem o diagnóstico positivo na hora vem o sentimento de morte próxima. A pessoa que tem o diagnóstico de deficiência renal crônica, a minha impressão era de ela não tinha esse estigma, só que o processo em si é mais difícil, ele tem que fazer 4 horas de hemodiálise, três vezes por semana, isso dava a impressão de que eles não tinham uma vida própria. O paciente com câncer faz uma quimioterapia a cada 21, 28 dias. Ele pode comer tudo que desejar. O paciente de hemodiálise tem muitas restrições. Da mesma forma, o paciente com câncer pode passear, o que faz hemodiálise tem que saber se o lugar aonde vai, quantos dias irá ficar, se tem um local em que ele possa fazer a hemodiálise. Essas limitações tornam seus deslocamentos mais restritos.
Como o paciente a recebe? Com alegria?
Nem sempre! Tem que haver o desejo do paciente ir ao psicólogo, falar da sua angustia. Estou no Cecan todos os dias. Tem o pessoal que vai fazer a quimioterapia, vai passar pela consulta médica, as vezes o próprio médico encaminha, ou a enfermagem, as vezes ele vai por vontade própria, muitas vezes vou até a quimioterapia, pode acontecer da pessoa ter preconceito com relação ao psicólogo, as vezes dão uma abertura. Há também os que rejeitam claramente a presença de qualquer profissional da psicologia. É uma atitude defensiva. De forma suave e gradativamente procuro quebrar essa postura. Com a convivência, ou por ordem médica, coloco-me a disposição do paciente.
Um choque emocional muito grande, uma decepção, enfim um fato social de grandeza relevante pode ocasionar um ataque cardíaco. O câncer pode ocorrer do comportamento, de fatores emocionais?
Pelo que já estudei, artigos científicos, o fato de levar uma vida mais suave não irá garantir que deixará de contrair a doença. A dificuldade em prevenir a doença é não saber porque ela surge. Como psicóloga eu procuro saber se a pessoa passou por algum trauma, o médico irá usar seu olhar clínico, a nutricionista irá ver por outro viés.
O “stress’ pode desenvolver o câncer?
Não há comprovação científica. Alguns dizem que sim. Tem gente que tem muito “stress” e não desenvolve nada! Outros não estão estressados e tem! A psicologia é o estudo do comportamento, a psicodinâmica da pessoa.
A incidência de câncer é mais acentuada em quais classes sociais?
A doença não escolhe classe, idade, beleza, poder aquisitivo. O que acontece é que a classe menos favorecida não faz exames preventivos, com isso quando percebem a doença já está em um estágio avançado. Um fator também é que os mais abastados ao menor sinal buscam os recursos mais avançados. Isso as vezes adia a doença. Tudo depende da complexidade do caso.
O álcool e o tabaco podem agir como gatilho para a doença?
O que se diz é que a probabilidade de desenvolver câncer é maior. É uma probabilidade. Você irá escutar “Fulano fuma há 50 anos e não tem nada”. A chance de você ter câncer com o uso do tabaco é maior do que não fumar. Isso não isenta os não fumantes! Atualmente há muitos conflitos de relacionamento, não só entre casal, mas com relação ao mundo em que vivemos. O psicólogo tem como função escutar e pontuar onde o indivíduo está tendo um comportamento repetitivo. Muitas vezes a pessoa só muda a personagem, o comportamento é o mesmo.
A senhora faz um trabalho muito interessante: “As Amigas da Onça”.
O grupo surgiu em 2012, eu queria fazer um grupo terapêutico, mas que não fosse tradicional. Meu desejo é que elas se expressassem a vontade. Sem formalismos. De certa forma queria que fizessem uma troca de experiências sobre o tratamento pelo qual estavam passando. Usei o artesanato como mediador, isso no Cecan. Convidei a Daniela Prates, ela é artesã.
Que tipo de artesanato era?
Artesanato com feltro, que não usassem máquinas.
Qual foi o grau de satisfação das que realizavam as peças?
Foi uma realização! Sobretudo o encontro de pessoas que estavam passando pela mesma situação. A identificação: eu também estou passando por isso, eu também estou careca, eu também faço quimioterapia. Foram conversando entre si e houve essa troca. Eu estava presente, quando o assunto era inconveniente, mudávamos de assunto. Mas eu fazia o artesanato junto, conversávamos, fazendo essa integração o grupo foi crescendo, formando um vínculo, no início foram seis pessoas, com o tempo foi aumentando, cada mês fazíamos um tipo de artesanato. Sempre com esse objetivo, que elas se conhecessem, mesmo porque umas faziam quimioterapia em um dia, outra em outro dia. Quis unir essas mulheres para que elas soubessem que não estavam sozinhas. Cada uma deveria saber que não era a única a passar por isso.
Quando descobrem que estão com câncer não perguntam: Por que eu?
Isso! Eu digo, não se deve perguntar: Por que eu? Quando a pessoa ganha na loteria sozinha, ela não pergunta para Deus: Por que eu? Ela começa a se achar culpada, que aquilo é um castigo. E não tem nada disso.
Ai entra um pouco do resquício da formação religiosa culpa-castigo, como se Deus não fosse amor e sim um Ser que pune sem misericórdia.
O paciente pode pensar que é uma punição por algo. O grupo foi crescendo, vinham muitas, faziam artesanatos, conversavam muito. O nome “Amigas da Onça” surgiu de uma brincadeira de final de ano o amigo secreto. Como nem todas as pessoas se conheciam muito bem, decidimos brincar com as pessoas sorteadas. Fizemos com presentes mesmo. Foi uma tarde divertidíssima, alguém sugeriu que tínhamos que colocar um nome no grupo, como estávamos vivenciando surgiu o nome “Amigas da Onça” por conta da situação do momento. E a coisa foi pegando, agregamos alegorias relativas a onça. (Todas industrializadas, nada natural, do animal só o nome). Lenços, presilhas, tudo que tenha a ver com a onça.
Vocês fizeram uma apresentação no Lar dos Velhinhos que encantou e emocionou os presentes.
Apresentamos uma música, onde houve a participação dos presentes, estávamos com o apoio de algumas pessoas, inclusive voluntárias, para a coreografia.
Na realidade é uma divulgação do trabalho de vocês, caso uma empresa ou entidade solicitar vocês podem fazer uma apresentação?
Nós damos ênfase ao “Outubro Rosa”, o objetivo é que as pessoas conheçam o seu corpo, façam um autoexame. Mostrar que as pessoas que estão ali já fizeram o tratamento de câncer de mama ou qualquer outro tipo de câncer, estão ali, vivendo, alegres, brincando, cheias de vida. Vamos diminuir o estigma do câncer. Temos o face “Amigas da Onça”  https://www.facebook.com/Amigas-da-On%C3%A7a-197442354013109/
Quem vai ao Cecan já está sensibilizada?
A pessoa quando vai ao Cecan já está com diagnóstico de câncer. Ela já fez uma biopsia confirmando. Ela chega fragilizada. É apresentada à ela os recursos tecnológicos e humanos que dispomos. Eu apresento o grupo para quem quiser participar.
Tem pessoas que ficam remoendo e tornam sua própria vida mais difícil?
São aquelas pessoas que arrastam correntes. É necessário haver uma aceitação.
Ocorre de uma pessoa que já teve câncer, foi tratada, curou-se e ao comentar com alguém escutar “Ai, coitada!”
Isso é muito ruim! As pessoas não querem que sintam pena dela.
Há também aquelas pessoas que ao ter a doença, mesmo curada, são incapazes de pegar um copo de água, pede que alguém o faça?
São pessoas que se colocam o tempo todo como vítima, com certeza ela já se colocava, com o câncer isso acentuou-se.
Quais são as diferenças entre o psiquiatra e o psicólogo?
Para atuar como psiquiatra deve-se cursar seis anos de Medicina e mais dois ou três de residência em Psiquiatria. Já para atuar como psicólogo, deve-se fazer uma graduação de cinco anos em Psicologia e, em seguida, especializar-se na área e na abordagem escolhida.  O psiquiatra faz o diagnóstico e recomenda a medicação. O psicólogo vai ouvir e pontuar para que o paciente tenha consciência daquilo que ele está fazendo. Ele irá promover um autoconhecimento. O paciente que irá mudar. A forma como ele lidar vai ser a resposta.
Colocando dessa forma, que o desejo da pessoa é soberano e a Constituição Federal assim afirma, ninguém pode ser obrigado a agir contra si mesmo, como psicóloga qual é a sua visão com relação a Cracolândia?
Em minha opinião a pessoa deve ser convencida a tomar um banho, se recompor, a sair daquele quadro maior, e depois ver se ela quer ser tratada. Ou seja no ambiente em que ela está não tem capacidade própria para discernir. Ela tem que ter condições de sobriedade para que possa decidir o que de fato deseja. Se a pessoa não quiser, ninguém muda. Isso acontece com todo vício: jogo, álcool, tabaco, substâncias químicas.
A senhora nesses 14 anos como psicóloga deve ter visto e ouvido de tudo, e cada um tem seu problema?
Todo mundo tem o seu problema, o que muda é a forma de lidar com o problema. Tem os que levam de forma mais branda e passam bem e as pessoas em que tudo é negativo, ela é vítima.
Quem acha que o copo está meio vazio tem mais possibilidade de ter algum problema de saúde do que a pessoa que acha que o copo está meio cheio?
Sim. É a forma como ela vai lidar com a situação, o olhar negativo, aquilo não vai dar certo.
O autoconhecimento desde os tempos remotos é uma busca do ser humano. Cada um tem um universo dentro de si?
O autoconhecimento é fundamental. Ele ajuda em todos os aspectos. Como lidar com determinada situação, como lidar com uma doença. Em termos psicológicos é o que a gente proporciona. O psicólogo vai fazendo com que a pessoa se conheça, saiba como ela é. Conheça seus defeitos e qualidades. O objetivo do psicólogo é aquilo que esteja inconsciente fique consciente.
Qual é o poder do subconsciente sobre o consciente?
È muito grande. Quanto mais consciência tivermos vamos lidar melhor com todas as situações. O seu comportamento será do seu conhecimento. Uma palavra dita ao acaso pode trazer grandes consequências. A palavra tem muito poder. Acho importante que as pessoas vivam o dia de hoje. Não dar tanta importância para coisas pequenas.
Muitas pessoas permanecem ligadas ao passado?
Tem, isso faz mal, mas faz muito mais mal a ansiedade, o que vai fazer no futuro. O passado já foi. Existe pessoas que lamentam-se de fatos ocorridos na infância, adolescência, ou mesmo há décadas, só que no fundo elas esperam ter um ganho secundário com essas lamentações. Acha que com isso as pessoas terão pena dela. “Ah! Coitado, ele sofreu!” Todo mundo sofre! As pessoas ao atingir a idade madura, aposentam-se e podem ter uma vida ativa ou uma vida rotineira, uma mesmice sem graça. Depende exclusivamente da escolha da pessoa.
 

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