Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

domingo, março 26, 2017

JOSÉ ELPÍDIO MICHELETTI


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 18 de março de 2017

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://blognassif.blogspot.com/







ENTREVISTADO: JOSÉ ELPÍDIO MICHELETTI

José Elpídio Micheletti nasceu a 2 de setembro de 1934, em Piracicaba, no bairro Cidade Alta, a Rua Visconde do Rio Branco entre a Rua Moraes Barros e XV de Novembro, é filho primogênito de José Micheletti e Domingas Volpato Micheletti que tiveram oito filhos: José Elpídio, Maria Ozélia, Sidney, Elza, Roberto, Tarciso, Luiz (Calu) Carlos e Wlademir.

O senhor estudou em que escola?

Naquela época era comum concluir o primário e já ir ajudar a família, estudei no Sud Mennucci até o quarto ano.

Onde localizava o SENAI quando o senhor estudou?

Eu fiz o curso do SENAI, o diretor era o Professor Jordão,  um dos professores era o Professor Barbieri. O profesor de Português era Nélio Ferraz de Arruda Campos, o professor de  desenho era Ernani Margoni, que foi o primeiro diretor da escola nova. O prédio do Senai localizava-se a rua Dr. Otávio Teixeira Mendes, próximo a Escola de Música de Piracicaba, onde havia uns prédios antigos. Ao lado funcionava o Tiro de Guerra.

O senhor trabalhou um período na Retífica Romano?

Trabalhei 10 anos na Retifica Romano, em dois períodos de 5 anos cada um, o proprietário era o Comendador Antonio Romano. Morei na Rua José Pinto de Almeida, 832, vizinho do Luiz Guidotti, do Professor Barbieri. Ali perto nasceram Adilson Maluf, José Luiz Guidotti. Na retífica eu fazia mecânica geral depois passei a mandrilhagem de mancais e bielas. Nesse período casei-me no dia 9 de junho de 1956, com Rosa Maria Zuccollo Micheletti, na Igreja Bom Jesus, casamento celebrado pelo Monsenhor Martinho Salgot. Tivemos três filhos: Sonia, Salete e Marcos.

Qual era a profissão do pai do senhor?

Meu pai era padeiro. Ele começou a trabalhar aos 14 anos em padaria, iniciou aprendendo na Padaria Bom Jesus, na época de propriedade de José Monteiro. Meu pai trabalhou lá por 19 anos. Após esse período foi trabalhar na Padaria Vosso Pão, onde hoje está o Edifício Canadá.

Quem era o proprietário da Padaria Vosso Pão?

Na época era de João Batista Cardinalli e Dona Augusta Maygton, ela foi proprietária da Padaria Inca que ficava na Rua Governador Pedro de Toledo. A padaria Vosso Pão foi a padaria mais refinada de Piracicaba, na época.  Existe uma fotografia antiga do COMURBA de onde pode ser vista a chaminé da padaria. Dona Augusta juntamente com Alcides Azevedo passou a fabricar macarrão. O meu pai, ainda no centro, na padaria Vosso Pão, vendia domingo o macarrão fresco, sem secá-lo. Depois passou a empacotar e ele começou a vender macarrão. Foi um dos pioneiros. Era talharim e depois começou o macarrão comprido, o espaguete. Naquele tempo vendia-se sempre embalagem com um quilo. Era uma embalagem vermelha. A embalagem que tinha estampada a figura de um galo era a Aurora, outra marca. Depois a fábrica de macarrão que se iniciou na padaria Vosso Pão, passou a denominar-se Cacique e mudou-se para a Rua Santa Cruz, próxima a MAUSA. Ali se chegou a desmanchar trinta sacos de farinha de trigo para fazer macarrão. Foi a primeira vez em que vi uma carreta carregada de macarrão em Piracicaba! Nessa época eu trabalhava em uma oficina, tinha 18 anos, tirei a carta de motorista e fui trabalhar com o meu pai: vender macarrão. Vendia em Piracicaba, Rio das Pedras, Mombuca, Capivari.

Em Rio das Pedras o senhor vendia para quem?

Ali tinha muitos fregueses: Piva, Barrichello, Chammas, Calil. Depois meu pai pegou uma freguesia até Itapira, Ouro Fino, naquele tempo nós tínhamos dois furgõeszinhos GMC, um de mil quilos outro de mil e quinhentos quilos. Para Itapira chegamos a viajar com um Ford 1946. Conhecido como “Chorão”, na subida ele ia lentamente e parecia gemer, o famoso “Queixo-Duro”. Nós descíamos a Rua XV de Novembro para ir carregar, para entrar na Rua São João, precisava abrir bem senão a direção não dava para virar e fazer a curva. A fábrica Cacique chegou a fazer bolacha waffer. Meu pai deixou de trabalhar lá, vendeu os veiculos e adquiriu um bar na Vila Nhô Quim., naquela època era denominado “Paieiro”. Onde hoje é a Padaria Pão Quente, nesse bar tinha boche, depois ele vendeu e voltou para o Bairro Alto. Ele adquiriu um terreno na Avenida Independência., esquina com a Rua Dr. Otávio Teixeira Mendes. Ali era tudo chão de terra. Meu pai mudou de ramo, passou a vender aviamentos: agulha, linha, todos artigos do ramo. Até que ele voltou ´para a padaria novamente. Foi trabalhar na Padaria Bom Jesus. A noite trabalhava na padaria e durante o dia vendia aviamentos. Até que ele conheceu duas irmãs, de sobrenome Toledo, moravam na Cidade Jardim. Ele conseguiu penhorar o terreno com uma delas. Ela emprestou 150 a 160 mil cruzeiros. Com esse dinheiro ele adquiriu a padaria situada na Avenida São Paulo de propriedade de: José Rodrigues, o Benzico, padeiro, em sociedde com seu irmão João Rodrigues mais conhecido como João da Rita, a mulher dele chamava-se Rita e um terceiro irmão o Silas da Rocha. Eles compraram uma padariazinha, alugaram um barracão, a Avenida São Paulo já tinha asfalto, um pedaço era calçamento, ao que parece existia uma mina de água. Foi feita uma drenagem, calçamento com asfalto em cima. O meu pai adquiriu a padaria, nessa época já tinha casado, ele ia comprar a Padaria Bon Petit, na Rua Moraes Barros esquina com a Rua José Pinto de Almeida, infelizmete o negócio não deu certo.

Quando o pai do senhor adquiriu a padaria a Paulicéia era um bairro mais periférico?

Nas imediações situava-se o bairro Coréia, entre Avenida São Paulo e Avenida 31 de Março. Era tido como um bairro mais agitado, de vez em quando havia alguma desinteligência. Em junho de 1961 eu vim para a padaria que meu pai havia comprado em 4 de dezembro de 1960.

O que existia quando ele comprou?

Só o barracão e a padaria. Meu irmão Sidney já estava trabalhando na padaria. O Roberto trabalhava na MAUSA estava de férias, aproveitou, veio também, saiu da MAUSA. Meu pai sempre quiz que trabalhassemos todos juntos. A esquina onde hoje está construida era um terreno vazio.



    PORTAL COMEMORATIVO AOS 200 ANOS DE PIRACICABA CONSTRUIDO PELA      PANSA.
NA FOTO LOGO ABAIXO, A MESMA ESQUINA 50 ANOS DEPOIS.


Vocês não esperavam fazer tanto sucesso?

Não esperávamos! Meu pai pegou uma época boa, e ele gostava de caprichar. Os vizinhos tinham mutas crianças em casa: um tinha oito filhos, outro tinha seis e assim por diante. Tinha um na esquina que tinha dezesseis filhos. Só a vizinhança já formava uma boa clientela, Na época deveria ter umas quinze padarias na cidade. A Avenida São Paulo tinha duas mãos, tanto sobia como descia, formava um corredor. Era a entrada e a saída deste lado da cidade, não havia a Avenida 31 de Março, não existia a Avenida Luciano Guidotti.

Os frangueiros pegavam pães para levar à zona rural?

Eu tinha freguêses que levavam pães para a àrea rural, um dos antigos Wolff que trabalha com ovos pegava pães conosco. Nós começamos entregando pães com carrinho de tração animal, quando meu pai comprou a padaria, tinha uma perua Kombi velha, estava bem comprometida. Meu irmão morava no Bairro Alto, um dia vinha vindo com a perua, descendo a D.Pedro I, naquele tempo descia, parou em cima da linha da Estrada de Ferro Sorocabana, o trem estava fazendo manobra, pegou a perua. Adquirimos um Perfect, furgãozinho, os quatro pneus cada um tinha um tamanho! Tinha porta trazeira para carga e descarga. Depois compramos uma perua em boas condições. Naquela época “desmanchava” dois a três sacos de farinha. Nós comprávamos a farinha do Paco Munhoz. Era conhecido do meu pai, ele ia buscar quatro a cinco sacos. Era o dinheiro que dava para comprar. Naquele tempo na Estação da Sorocabana havia carrinhos de tração animal que faziam carretos. Colocava os sacos de farinha de trigo e trazia até a padaria. Com esse trigo trabalhava uns dois dias, depois ia buscar mais. O Paco Munhoz disse ao meu pai: “-Vou mandar um caminhão de farinha para você!”. Meu pai não quiz aceitar.  O Paco disse que ia tirar uma nota fiscal, e depois meu pai ia pagando. Com isso vinha a farinha para o meu pai, em nome da empresa José Micheletti, com o recibo que o moinho tinha recebido, eram farinhas do Moinho Paulista, Moinho São Jorge. Com isso ganhamos um bom nome junto aos fornecedores. Depois veio a empresa do Falanghe.

A padaria chegou a um ponto que começou a atrair consumidores de outros bairros?

Foi quando construimos o prédio novo. Primeiro compramos o terreno da esquina, o dono morava em São Paulo, meu pai conseguiu achá-lo. Ao lado havia um barracão que no inicio estava dificil a negociação, quando o proprietário soube que tinhamos adquirido o terreno da esquina acabou vendedo o barracão mais barato. Depois compramos uma casinha que existia ao lado.

Qual é a área construida da padaria?

O total dá 1200 metros de terreno, com construção 1.500 metros quadrados.

Quantas peruas chegaram a ter?

Eu, meus irmãs Roberto e Tarcísio, cada um dirigia uma perua. Eu fazia o bairro Alto. Nós só não íamos na Vila Rezende quase.

Entregava pães a domicílio?

Entregava! Deixava o pão na porta. Ficava na verdade na janela. Ali permaneciam o pão e o leite. Batia e dizia: “-Padeiro!”.O leiteiro deixava o valinho de leite junto ao litro de leite. Nós não entregávamos leite.
      FURGÃO DA MARCA PERFECT QUE A PANSA UTILIZAVA PARA ENTREGA DE PAÃES. O VEÍCULO ESTÁ ESTACIONADO NO LADO OPOSTO DA PADARIA, A AVENIDA SÃO PAULO ERA UMA VIA DE DUAS MÃOS.


Tinha o pessoal que saia dos bailes, ao amanhecer, e degustavam o pão alheio, quentinho?

Tinha alguns que pegavam, mas eram casos isolados. Teve um bar que reclamou que todo dia faltava um filão. O proprietário ficou na espreita e descobriu que um senhor passava com uma cestinha e tirava um filão. O dono do bar ficou penalizado. Disse-me: “-Deixe um pão a mais!”. Eu respodi-lhe que passaria a deixar um filão a mais sem custo para ele.

Vocês trabalharam muito para empresas?

Trabalhamos! Fornecia para a Prefeitura Municipal de Piracicaba, para a merenda escolar, para 18 centros comunitários. Passei a fornecer para a Caterpillar, Phillips, Usina Santa Helena, Monte Alegre, Lar dos Velhinhos, Dedini, Hotel Beira Rio, Hotel Central, Brasserie, Hotel Beira Rio, Restaurante Mirante. Fiz pão para a inaugução dos Plantadores de Cana de Açucar, foram 3.000 filõezinhos. Fornecia para as festas da Agronomia. Vendia para o Restaurante da Agronomia, na Casa dos Estudantes.

Fornecia muito para “marcar na caderneta”?

Bastante! Tinha um senhor que era turmeiro, chefe da turma que cortava cana-de-açúcar. Paravam uns quatro caminhões, a padaria abria as cinco horas da manhã, fechva as dez horas da noite. O turmeiro chegava logo cedo, o povo entrava, comia pão com mortadela a vontade, o turmeiro dizia:”-Pode fornecer a vontade, só marca o nome de quem está pegando!”.

No auge da PANSA quantos sacos de farinha vocês chegaram a “desmanchar” ?

Por dia 30 sacos! Talvez só padaria indústrial faça esse volume ou mais. Mas uma padaria normal é difícil. Conheci uma em Guarulhos, onde fui comprar uma máquina, que “desmanchava” 80 sacos por noite. Começava as oito horas da noite e ia até as oito horas da manhã.

Quantos fornos existiam na PANSA?

Começou com um forno, depois ficaram três, no fim desmontamos os três e colocamos um só que fazia por quatro fornos. Era forno elétrico. Eu imagino que esse foi um fator que contribuiu muito para aumentar os nossos custos, a energia elétrica passou a ser caríssima. Existe diferença entre o pão feito em forno a lenha e o pão feito com energia elétrica.

Como surgiu o famoso biscoito de polvilho da PANSA?

Tivemos a felicidade de ter bons funcionários. Ernesto Rampazzo trabalhou na Padaria Brasileira e veio para trabalhar na PANSA. Ele trabalhava a noite, teve uma época em que pensava em sair, estava cansado de trabalhar a noite. Passamos ele para trabalhar durante o dia. Ele disse: “-Eu sei fazer um biscoitinho! Compre um saco de polvilho!”. Começou a pingar, foi em frente, acabei colondo-o só para fazer biscoito, não vencia. Depois ficaram três padeiros só fazendo biscoito de polvilho durante o dia e a noite.

A PANSA chegou a ter quantos funcionários?

Chegamos a ter 50 funcinários. Tinha o balcão, a pizzaria, serviamos almoço, a padaria e o biscoito que tinha que empacotar, entregas.

Em que ano foi inaugurada a PANSA da Vila Rezende?

Foi no final da década de 60. A família começou a crescer, o pensamento era ampliar. Por razões estratégicas e comerciais acabamos vendendo.

Como surgiu o nome PANSA?

São as iniciais de Padaria Nossa Senhora Aparecida. Esse sempre foi o nome fantasia da padaria, desde o tempo do Benzico. Até hoje existe uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, que o Benzico trouxe de Aparecida do Norte. Assim como eu tinha visto que a MAUSA havia transformado seu nome pelas suas iniciais decidi fazer o mesmo com a PANSA. O nome PANSA foi registrado.

A PANSA  funcionou até que ano?

Até 2004.

A seu ver, as mudanças ocorridas no bairro influenciram para diminuir o movimento?

Acredito que pesou bastante o fato de termos ficado cansados. Meu irmão Sidney e eu no começo trabalhávamos dia e noite. Aposentei-me e continuei trabalhando. Meu irmão e a minha cunhada aposentaram-se. Os filhos formaram-se em faculdades e seguiram suas carreiras. Meu cunhado, Tarcisio, o famoso Katiá, estava com dor nas costas, logo ele faleceu, meu pai e minha mãe faleceram. Assim aos poucos, fomos obrigados a deixar atividades essenciais fora do nosso controle direto.

Qual é o segredo para fazer um bom pão?

É conhecer bem. As quatro horas da tarde o padeiro fazia a massa, tinhamos cocho de madeira, dividido para cada medida de farinha, um saco, dois sacos, três sacos. O padeiro colocava sal, água, farinha e fermento, ficava cinco horas fermentando. O padeiro entrava a noite ia voltando na masseira, colocava açucar, banha, misturava tudo. Depois cilindrava. O segredo está também no cilindrar bem. Para um saco de farinha de 50 quilos, vai um quilo de sal, um quilo de açucar e um quilo de banha suina que conserva o pão macio.

A parte de doces era muito famosa?

Tinha um confeiteiro bom, veio da Padaria Brasileira, ela e a Vosso Pão sempre tiveram fama na cidade. O Lauro, funcionário do João Cardinalli, da Padaria Brasileira, foi para São Paulo aprender a fazer doces. Nós conseguimos traze-lo para a PANSA. Meu irmão Tarciso aprendeu com ele.

O Luis Acs o senhor conheceu?

Conheci, esse era confeiteiro da Dona Augusta. Ele trabalhou para o Fasano em São Paulo. Depois ele teve o Rancho Alegre. Eu acredito que o Lauro aprendeu também com o Luis Acs.

Uma característica em épocas natalinas era a famosa leitoa que o cliente trazia pronta e temperada para assar no forno da padaria.

Nessa época eu tinha três fornos, pegava um, dois, três, padeiros e dizia: “-Vocês querem pegar para assar, eu não cobro nada do freguês. Quando perguntavam se eu assava, dizia que sim, não cobraria nada, só que não tinha como ficar olhando, pedia ao cliente que combinasse com o padeiro.  O padeiro cobrava um pouquinho. Eu não cobrava a lenha, só pedia para deixar tudo limpo. Quando passava a época o padeiro vinha e dizia: “-Eu não quero nem saber do cheiro de leitoa! Quero ficar uns dois meses sem ver leitoa!” O cheiro penetra. No fim começou a dar problemas, fizeram alguma troca de leitoa de um dono para outro. Cada uma tinha uma identificação, mas alguma coisa saiu errada. Depois disso o padeiro não queria mais assar.

A PANSA teve máquinas de assar frangos?

Teve duas máquinas. É bastante trabalhoso. A padaria em si era muito trabalhosa, hoje está mais fácil. Já vem tudo pronto tem que tirar umas gordurinhas, lavar e temperar o frango. Antigamente tinha que fazer tudo, a ave vinha inteira, com pé, cabeça. Lombo de porco eu comprva direto da Chapecó, quem vendia era um ex-jogador do XV de Novembro, Drace genro de Ernesto Viliotti que tinha um armazém a Rua Tiradentes. Compravamos deles, presunto , presunto gordo, presuntada, lombo, calabresa, comprava 30, 40 caixas de 20 quilos de banha. Tinha uma câmara fria do tamanho de um cômodo grande.

A parte de lanches e refeições da PANSA era frequentada por famílias e pessoas conhecidas em Piracicaba?

Vinham muitas famílias, um frequentador assíduo era: Romeuzinho, o Romeu Gomes de Oliveira. O Marino Mantoni. O Romeu Italo Ripoli, o João Hermann, o Zica quando fechava a Brasserie vinha comer quindim. A padaria já estava com a porta abaixada, eu abria ele dzia: “-Tem quindim ai?”. Servia-se depois dizia: “-Comi cinco quindins!” Por três vezes recebi a visita do Ary Toledo, o humorista. Houve uma época em que fiz uns cartões desejando Feliz Aniversário, aproveitei e escrevi Paz,Amor,No,Seu,Aniversário formando com as letras iniciais a palavra PANSA. Na vertical escrevia em letra maiúscula PANSA e na horizontal completava com as palavras acima. Eu mandava o cartão ao freguês que estava aniversariando, ele lembrava e vinha adquirir os nossos salgadinhos! A balconista anotava o nome dos clientes com seus dados. Ela nem sabia quem era Ary Toledo, e coincidiu, quando peguei a ficha olhei e vi seus dados. Ele faz aniversário no mesmo dia que a minha esposa faz: 27 de setembro. Coincidiu que Alcindo Manesco, da Banda Lira Guarany tinha amizade com Ary Toledo. O Alcindo fazia essas varas balanceadas de cenério para trocar cortinas, ele conheceu o Ary quando foi reformar um teatro. Toda vez que o Ary vinha ia ao Beira Rio, Ary Toledo gostava de comer pão de torresmo. Eu fazia pão de torresmo, para o Ary fazia um bem caprichado. Antes do show ele vinha para tomar uma cerveja e comer pão de torresmo. Fiori Gigliotti também vinha, Ary Pedroso estava sempre conosco. No final do ano fazia batante roscas e mandava para o Jornal de Piracicaba, para a PRD-6 Rádio Difusora, Rotary, Lions.

O senhor foi rotariano?

Meu pai é um dos fundadores do Rotary Paulista, da Associação dos Panificadores de Piracicaba Em sua homenagem o ex-vereador Wanderley Dionisio colocou o nome de José Micheletti em uma avenida. Fui Presidente do Rotary Paulista , fui rotariano por 18 anos, recebi o Prêmio Paul Harris, fui presidente da Associação dos Panificadores de Piracicaba. Meu pai sempre foi simpatizante de Luiz Carlos Prestes, quando ele esteve em Piracicaba meu pai tirou uuma fotografia ao seu lado.

Como o senhor arrumava tempo de fazer tudo isso?

Há um ditado que diz que quando você quiser que alguém faça alguma coisa procure aquele que tem bastante serviço que ele faz.

O Rotary Club Paulista iniciou em que local?

Começou no Clube de Campo de Piracicaba. Depois veio para a Casa da Amizade. Começou pequena, tomei posse quando aind não tinha o prédio redondo. Participei também do Centro Social Cáritas Piracicaba, tinha 180 crianças que ficavam o dia todo lá.

O senhor chegou a conhecer uma sede da polícia aqui na Paulicéia?

Conheci, era a cadeinha, ficava na Rua Dona Hilda. Era conhecida como “Cadeinha da Paulicéia” Era da Polícia Militar. Eles detinham o elemento depois o camburão passava para pegar.

O senhor conheceu o Bento Dias Gonzaga?

Conheci no Rotary o seu filho Luiz Gonzaga Dias Neto. Um dia desses faleceu um conhecido, fui ao velório e encontrei a esposa do João Rossi, a Dona Dirce, eles foram proprietários da Padaria São João, que ficava na Rua Alferes José Cetano, quase esquina com a Avenida Dr. Paulo de Moraes. Lá estava também Antonio Pereira, o Suspiro, da Padaria Riviera. Ele também é fundador da Associação dos Panificadores.junto com o meu pai.

O senhor lembra-se da Padaria Cruzeiro, que ficava na Avenida Dr.Paulo de Moraes próxima onde o bonde passava?

Ali era do Umberto Secondo Sachs, ele fazia a  freguesia dele no Campestre, Chicó. O ultimo que permaneceu lá foi seu filho Guido. Na Vila Rezende havia a Padaria do Sol, ficava na Avenida Rui Barbosa, funcionou por uns setenta anos, quando ele fechou passou a freguesia para nós.

E o bolo de Santo Antonio?

O primeiro foi eu quem fez, saiu com a ajuda do Dr. Antonio Altafin. Em uma reunião do Conselho Coordenador das Entidades Civis de Piracicaba, eu representava o Centro Social Caritas conversando com Dr. Altafin comentei que tinha visto uma noticia de um padeiro que fez um bolo de 200 quilos. Dei a sugestão de fazer um bolo de Sano Antonio,  o Dr.  Altafin conseguiria os ingridiente, fazer e assar eu não cobrava nada. Ele conseguiu no moinho farinha, no Martini a goiabada, ovos, fizemos um bolo de 500 quilos. O último que nós fizemos deu 8.000 quilos.

E para montar?

Começava 15 dias antes a fazer a massa, colocava na câmara. Os padeiros começavam a montar no dia 12 pela manhã, oito a dez confeiteiros e iam até a manhã do dia seguinte.

A Igreja São José o senhor ajudou?

Meu pai ajudou muito. E ajudou também o Clube do Saudosista. Foi um dos fundadores do Clube Italo Brasileiro. No  Lar dos Velhinhos ele fez um forno de lenha. Tinha uns três padeiros que eram abrigados lá. Tinha uma época em que através da Legião Brasileira de Assistência, vinha sacos de farinha de 25 quilos para o Lar dos Velhinhos de Piracicaba. O primeiro pão de hamburger lançado na cidade foi na PANSA da Vila Rezende. Tinha sábados e domingos em que fazíamos mais de mil hamburguers.Enchia o salão e a calçada também. O Décio Carnevale do Bar do Décio, consumia nosso pão de hamburguer.  Lembro-me de que O Bistecão queria um filãozinho sem corte em cima. Passei a fazer o filãozinho sem corte, vendia muito. O lancheiro que trabalhou conosco por 32 anos, o Mauro Fernandes, tem um trailler na Balbo.

Como faz para fazer aquele corte?

Era usado um bambuzinho com um pedacinho de gillete. A lamina ficava presa no bambu e cortava no meio. Hoje a vigilância sanitária exige bisturi.

A família Faganello é muito ligada ao ramo também?

A Panibrás era uma padaria do Supermercados Brasil, e o José Faganello é genro do Lellio Ferrari, que foi proprietário do Supermercados Brasil. A Panibrás funcionava onde é a Padaria Bom Jesus. O Faganello voltou ao nome anterior: Padaria Bom Jesus.

Voltando ao biscoito de polvilho o senhor vendia em muitas cidades?

Fornecia até em Araraquara. Campinas. Levava toda semana uma perua cheia ao Frango Assado na Via Anhanguera. Depois eles começaram a produzir e pararam de comprar conosco. Depois começou a aparecer fabriquetas de biscoitos de polvilho de todos os lados. Em Itu tinha uma fábrica com três fornos, também parou. Em Guarulhos, a Guarupão tem uma esteira com dois padeiros em cada ponta, os dois primeiros colocam o pão, os outros dois pegam o pão assado e pronto. O forno tem uns 20 metros de comprimento. O pão vai passando pela esteira devagarinho, ao lado tem um visor aonde o padeiro acompaha o movimento. O forno é um tunel com esteira. Ele tinha uma máquina que cortava o filãozinho pela metade, era para fornecer para a merenda escolar. de Guarulhos, São Bernardo do Campo, fornecia toda rede do Bradesco.

No inicio o filãozinho era cortado mais pela prática do que a pesagem um a um?

Pesávamos por amostragem, sempre dava peso acima. Até brincávamos que tinhamos que arrumar um padeiro com mão pequena!

O senhor recebeu e tem recebido diversas homenagens dos orgão de classe?

Fui homenageado pela Apapir- (Associação da Indústria de Panificação e Confeitaria de Piracicaba e Região), pela Aipesp (Associação da Indústria da Panificação e Confeitaria do Estado de São Paulo).

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