Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

domingo, julho 01, 2012

JUSTINO (NEGO) ORIANI

JOÃO UMBERTO NASSIF

Jornalista e Radialista

joaonassif@gmail.com

Sábado 30 de junho de 2012 Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana

As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://blognassif.blogspot.com/

http://www.tribunatp.com.br/

ENTREVISTADO: JUSTINO (NEGO) ORIANI
Justino conhecido como Nego Oriani foi um grande industrial do setor calçadista. Com muita força de vontade aprendeu a fazer calçados, inovou, investiu, passou por inúmeras dificuldades, vivenciou as peculiaridades que envolvem a fabricação de um calçado. Homem de muita fé dedica-se a uma tradição religiosa que é a de dar o pouso ao Divino Espírito Santo. A instalação da antiga fábrica de calçados dá lugar a uma função considerada sagrada, que é abrigar os Irmãos do Divino por uma semana, no final da mesma ocorre uma verdadeira festa, o transito é interditado naquele quarteirão, montado um palco, é rezado o terço, cumprida as promessas com a passagem dos Irmãos do Divino sobre os penitentes, cerca de 30 a 40 pessoas deitam-se no leito da rua e cobertos por um lençol branco recebem as graças que a sua fé concebe. Após a celebração do sagrado vem a festa, com comida fornecida a vontade para todos os presentes, centenas de pessoas comemoram e são servidas com pratos tradicionais distribuídos gratuitamente na festa. Em diversas partes do prédio são vistas pinturas, imagens e até mesmo um pequeno oratório lembrando o Divino Espírito Santo. Justino nasceu a 12 de dezembro de 1930 no bairro rural Monte Branco, é um dos oito filhos do casal Benedito Oriani e Joana Grizzotto Oriani: Maria, Alice, Elídio, Antonio, Helena, Angelina, Justino e Rita. Desde muito pequeno Justino já ajudava nas tarefas diárias da Fazenda Serra Bonita, propriedade da família Oriani, trabalhou na roça até 20 anos, estudou até o quarto ano primário, ainda menino era responsável por ir a cavalo buscar a professora que descia do ônibus no bairro rural Água Bonita, por meia hora, cada um em seu cavalo dirigiam-se à escola na fazenda onde a professora ficava hospedada durante a semana, lecionando para as crianças das 40 famílias residentes na propriedade. A professora vinha na segunda feira e voltava para Piracicaba no sábado.

Como o senhor começou a trabalhar com calçados?

Meu irmão Antonio aprendeu a trabalhar como sapateiro, foi morar no Arraial São Bento, em um bairro rural chamado Peruca onde montou uma oficina de conserto de sapatos, eu tinha 20 anos quando fui aprender com ele o ofício de sapateiro. Por dois anos trabalhei para aprender a fazer consertos e fabricar sapatão que eram pregados com pregos (cravo) de madeira. Fazíamos alguns sapatos sob encomenda e sandálias simples para senhoras. Era um tempo em que muitos andavam descalços, adultos e principalmente crianças.

Após aprender o ofício o senhor mudou-se para a cidade de Piracicaba?

Vim morar no bairro da Paulista, na Rua Fernando de Souza Costa, número 2827. Quando mudamos a região era em grande parte coberta por plantação de algodão. Foi um período de grandes dificuldades, meu irmão Elídio comprou essa casinha e meus pais passaram a mora nela, Antonio Scarpari era proprietário de uma pequena casa nas imediações, na esquina de Rua Conselheiro Costa Pinto, montei ali uma oficina de conserto de sapatos. Sempre fui muito trabalhador e econômico, após dois anos com a permissão do meu pai fiz um rancho em sua propriedade e passei a trabalhar naquele local. Na Fazenda Costa Pinto morava um ramo da família Oriani, fui convidado para ir assistir o casamento de José Oriani foi quando conheci minha futura esposa, Cezira Brieda Oriani. Quando casei tinha 25 anos, por três anos depois de casado permaneci morando na casa do meu pai. Tivemos seis filhos: Valdir, Eliana, Therezinha, Heloisa, Vlade e Cláudia.

Continuando a trabalhar com sapatos?

Como eu não tinha tanto conhecimento na fabricação de sapatos, deixava todo material pronto e a noite funcionários de outras empresas vinham trabalhar para mim. Assim aprendi. Comprei uma faixa de terra vizinha e montei uma pequena fábrica de sapatos. O couro eu adquiria do curtume de Mário Maniero.

Qual era a preferência da moda masculina na época?

Sapatos de bico fino. Passei a comprar em São Paulo couro para fazer sapatos de cromo alemão, com isso meus calçados passaram a ganhar fama. Embarcava no trem da Companhia Paulista, ia até a região da Rua Rangel Pestana, onde havia fornecedores de material do setor calçadista. Trazia a peça de couro e aqui cortava, no inicio só fazia sapatos sob encomenda. Tinha duas máquinas de costura própria de sapateiro, mais conhecida como “máquina esquerda”. Eu trabalhava das cinco horas da manhã até as 22 horas. Trabalhei muito. Com o tempo ganhei o suficiente para adquirir um terreno na Rua Jorge Pacheco e Chaves, onde construí e montei a minha indústria de sapatos, com fabricação em série.
                                                            SALTO CARRAPETA

Qual é o número de sapato masculino mais procurado?

O número 39/40. Fiz sapatos masculinos com duas cores, branco e preto, branco e marrom, fabricava o famoso sapato de salto carrapeta, que é um salto de sapato bem mais alto do que o normal, masculino. Eu tinha um modelista, o José, ele pesquisava as tendências da moda através de revistas, publicações especializadas em calçados. Através de um pantógrafo reproduzia inúmeras peças a partir de um modelo. O couro era cortado a mão, havia uma prensa hidráulica que cortava a sola dos sapatos. A fábrica era grande, mas o máximo que eu produzia era 100 pares de sapatos por dia. Com o tempo fui comprando máquinas, importei três máquinas italianas, Tinha uma esteira onde entrava a matéria prima e no final o sapato estava pronto. Na época a maioria dos funcionários eram mulheres e adolescentes, era permitido o trabalho dos mesmos, ensinei o ofício a mais de 400 meninos. Os sapatos feitos naquela época eram para serem usados até onde fosse possível, diferente de hoje onde muitos usam o calçado e logo trocam por outro mais moderno. Hoje não se conserta mais sapato, na época faziam meia sola, sola inteira, trocavam o salto gasto. Em Piracicaba a maior fábrica era a minha, depois vinha a fábrica do Bachega, cheguei a ter 42 máquinas industriais. Eu tinha um viajante (vendedor) no Paraná que vendia muito, com isso forneci muito sapato para aquele estado. Em Piracicaba vendi muito para um grande comerciante do setor, Alberto Torossian. Em Piracicaba chegamos a ter uma dezena de fábrica de calçados. A fabricação de calçados é uma atividade muito sensível a tendências da moda, onerosa em função de impostos, e passa por uma concorrência muito forte no setor internacional. Um dia desses por curiosidade contei o número de peças que são usadas para compor um pé de um tênis, são 25 peças. O tênis tomou o espaço do sapato tradicional, estimo que 90% da população usam tênis. Eu acho que um sapato de bico fino é muito elegante.

Havia variedades de couro?

O couro do novilho era o de melhor qualidade. A fêmea tem tendência a barriga crescer, conforme o corte que o profissional faz no couro pode ocorrer de em um par de sapatos do mesmo lote de couro, ter um pé maior do que o outro, um dos pés tem o couro mais esticado com o uso pela origem do couro ou forma como foi cortado. Já fiz sapato com couro de crocodilo.

O que é pelica?

É o couro de cabra. Fiz muitas botinas de pelica. Eu tinha um funcionário que só fabricava botas, sanfonadas, de cano alto. Minha fábrica era completa.




O senhor é uma pessoa muito religiosa?
A minha família já era muito religiosa. Fui coroinha, mariano, saía da Serra Bonita ás quatro horas da manhã para vir assistir a missa na Igreja Sagrado Coração de Jesus ( Igreja dos Frades), vinha a cavalo. Deixava o cavalo em frente à igreja no espaço hoje ocupado por uma praça. Meu avô conhecia homeopatia, com o uso de ervas curava muitas doenças, minha mãe aprendeu com ele e eu a ajudava. Era uma época em que havia poucos médicos, estradas de terra, e meios de transportes difíceis. A maior parte das doenças tem origem emocional, muitas vezes a cura se dá através de auto-sugestão no simples fato da pessoa tomar um medicamento natural. A mente domina o corpo. Se pensar de forma positiva tudo será positivo. Quando alguém trata bem outra pessoa ela recebe tratamento semelhante, isso a beneficia. O mesmo ocorre quando o indivíduo trata mal alguém, ele estará trazendo malefícios para si mesmo.

Como começou a devoção do senhor para com o Divino Espírito Santo?

Faz quarenta anos que começou, fui assistir a uma Festa do Divino em Anhembi, gostei. Um amigo, Pedro Godoi, me ajudou a fazer a festa, no início muito simples. No dia 4 de julho, quarta feira, a Irmandade do Divino chega aqui onde foi a minha fábrica, de 30 a 40 irmãos pousam aqui. Permanecem até dia 10 de julho, terça feira. Às 5 horas da manhã se levantam saem em peregrinação e voltam ás 22 horas, passam o dia todo rezando. No dia 8 de julho é realizada a festa. Fecho o quarteirão para o trânsito, ás 17h30min horas os irmãos vão para o início do quarteirão, nós caminhamos em direção a eles, quem vai pagar promessa ou pedir alguma graça, deita-se no chão envolto em um lençol branco, ficam deitados 1 metro distante um do outro, são 50, 80 pessoas que se deitam. As pessoas que se deitam trazem o seu próprio lençol. Ficam com as costas apoiadas no chão, mãos e pés descruzados. Isso facilita quando o Irmão do Divino for pular sobre a pessoa. Conhecemos muitos casos de graças alcançadas. Minha esposa e eu voltamos ao palco, os Irmãos do Divino vem em direção ao palco, benzendo os corpos dos que estão deitados. Oram e benzem. No palco entoam musicas sacras, rezam o terço, após o terço as mesas e comidas estão prontas com capacidade para 100 pessoas. A comida, pratos, panelas, são todas benzidas. Ai já começa a musica profana sertaneja. Os irmãos, minha família e demais pessoas entram jantam e saem. Em seguida entram mais 100 pessoas, e assim prossegue noite adentro. No ano passado servimos 700 quilos de comida, estimamos em 1.500 o número de pessoas que estiveram presentes. A comida é composta por arroz, feijão gordo, carne com batata, macarronada e sopa de mandioca, conhecida como vaca atolada. Para beber é servida apenas água.

Como a igreja católica vê essa manifestação de fé popular?

Acredito que existe uma interpretação pessoal de cada religioso. Há os que aprovam e há os que não vêm com muita simpatia. Os Irmãos do Divino agem com muita seriedade, passam um mês andando e rezando.

O senhor é um dos colaboradores na construção da Igreja São José?

Sou do tempo que ali não existia nada além de um pasto. Reunimos umas 10 pessoas e iniciamos a construção, na época eu tinha um Ford 1929 e uma perua. Poucos tinham condução. Fazíamos reuniões na casa do Abel Pereira. Vitório Fornazier também participou muito da construção da igreja. Fazíamos festas para arrecadar dinheiro, chegamos a preparar 250 frangos.

O senhor gosta de música?

Gosto de baile freqüento sábado e domingo o Saudosista, vou aos bailes da “Estação Idoso José Nassif”, da terceira idade.



























































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