Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

sábado, outubro 27, 2012

WALDEMAR BONADIO BERTOLUCCI

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 27 de outubro de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados na Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/


ENTREVISTADO: WALDEMAR BONADIO BERTOLUCCI
Waldemar Bonadio Bertolucci é nascido a 7 de julho de 1940 em uma fazenda pertencente ao município de Vera Cruz entre as cidades de Marília e Garça. Filho de Antonio Bertolucci e Rosa Bonadio Bertolucci, o casal teve ainda os filhos Oswaldo e Maria Rosa. Seus pais trabalhavam na fazenda de propriedade de Dartiu Xavier da Silveira. A fazenda, com uns 70 alqueires, ficava a uns 12 quilômetros de Vera Cruz, o avô de Waldemar, Domingos Antonio Bonadio era o administrador, Antonio, pai de Waldemar era fiscal da fazenda. A principal cultura era a de café.


Em que ano você saiu da fazenda?


Saí em 1951, quando foi vendida a fazenda, eu tinha 11 anos. Aos oito anos eu já tinha entrado na escola que se situava na fazenda vizinha onde estudei até o terceiro ano primário. Mudamos para Vera Cruz em 1952. Era uma cidade pequena, hoje muita gente mora em Vera Cruz e trabalha em Marília. Ficamos até o mês de junho, mudamos para Tupã, onde concluí o quarto ano primário. Meu pai foi trabalhar com meu avô Giuseppe Bertolucci que tinha um sítio junto com seus irmãos. Eu permaneci na cidade de Tupã. Com 13 anos fui trabalhar na Fábrica de Guaraná Iara, que além de guaraná fabricava quinado, conhaque, engarrafava cachaça fabricada na Fazenda Coqueirão. Iam buscar aguardente com caminhão, enchiam as cartolas de madeira e traziam. O engarrafamento das bebidas, inclusive o guaraná era manual. Com uma concha já com o volume pré-determinado, um funil, colocava garrafa por garrafa o xarope que o químico tinha trabalhado a noite toda fabricando. Tinha uma máquina que completava com água e gás carbônico. Existia um pedal que era para tampar, era uma tampinha de lata com cortiça pelo lado interno. Colocava-se a garrafa em uma base, puxava uma alavanca ela encostava onde deveria receber a água, outra alavanca enchia de água e gás, pisava no pedal e tampava a garrafa.


Às vezes estourava alguma garrafa?


Estourava, usávamos óculos de proteção e um avental de borracha.


Você tinha quantos anos?


Tinha 13 anos. Hoje é proibido trabalhar com essa idade,


Você acha que começar a trabalhar tão novo prejudicou a sua vida de alguma forma?


De jeito nenhum!Acho que só ajudou. Aprendi a ter disciplina e conheci as dificuldades que a vida nos oferece.


O horário de entrada qual era?


Em torno de sete ou sete e meia da manhã. Tinha uma hora para almoço, ia almoçar em casa. Às vezes tinha que ajudar a carregar o caminhão, o guaraná tinha 24 unidades de meia garrafa, a caçulinha eram 72 unidades, 36 em pé e 36 encaixadas com a tampa da garrafa voltada para baixo, eram todas em caias de madeira. A maioria dos que trabalhavam na fábrica tinham a minha faixa etária. Éramos de 12 a 15 funcionários. O sobrenome do proprietário era Proteti. Não cheguei a ficar um ano nessa fábrica. Fui trabalhar em um bar que ficava no mercado velho de Tupã, ali ajudava a vender servir balcão e fazer sorvete. A massa do sorvete era batida a mão. Todo sorvete de massa que era feito lá era bom. Sorvete de creme, coco queimado, coco branco. Às vezes eu torrava o coco ralado em uma frigideira para fazer o coco queimado. Quando acabava de tirar a massa do tambor ficava uma beiradinha grudada que não sai na pá. Colocava a vasilha embaixo da torneira, com a água escorrendo pelo lado externo, a massa derretia e ficava um líquido gelado. Eu colocava em um copo e tomava. Os donos eram dois japoneses. De lá, aos 15 anos fui para Dracena, situada a 125 quilômetros de Tupã. Fui morar com meus tios Natal e Maria Bertolucci.


Qual foi seu primeiro emprego em Dracena?


Fui trabalhar no consultório do médico Dr. Gumercindo Correa de Almeida Moraes Júnior, meu tio trabalhava no posto de saúde, ele que me indicou hoje é uma atividade exercida praticamente pela classe feminina. Ele era clinico geral, aparecia todo tipo de doentes, muitos vindos do Mato Grosso. Eu fazia a limpeza do consultório, esterilizava instrumentos. As fichas dos pacientes eram preenchidas pelo médico. Não havia consulta marcada, ele ia atendendo por ordem de chegada. Iniciava às 8 horas da manhã e ia até o ultimo paciente. Naquela época havia muito panarício uma infecção aguda (provocada por uma bactéria estafilococo ou estreptococo) de um dedo da mão ou do pé. O paciente era tratado no próprio consultório, era ministrada a anestesia Sinalgan, eu ajudava a segurar o braço da pessoa. Aprendi a aplicar a anestesia. Aprendi a aplicar injeção aplicando no próprio médico quando ele estava gripado.


Qual é o segredo para aplicar injeção sem colocar o paciente em risco?


Primeiro é ter todo o material esterilizado. Segundo é não pegar a veia, você aplica, puxa um pouquinho o êmbolo, se não vier sangue pode injetar. Caso vier sangue, empurra a agulha ou puxa um pouco. Permaneci nesse consultório aproximadamente um ano. Fui trabalhar na Casa Jaraguá, uma rede de loja de tecidos localizada em frente a rodoviária de Dracena. Hoje é um jardim. A rodoviária era redonda com dois postos de gasolina, cheia de barzinhos, bazar. Entrei como pacoteiro, fazia pacotes. Quando chegava um ônibus pegava impressos da loja e panfletava junto aos passageiros Se o cliente se interessasse eu levava para a loja. Com isso o gerente da Lojas Riachuelo, de tecidos também, acabou me chamando para trabalhar com eles. Fui trabalhar na Riachuelo, como pacoteiro mesmo. O povo de Mato Grosso, logo na divisa do estado, vinha fazer compra em Dracena. Não fiquei por muito tempo na Riachuelo, eu tinha um amigo que era alfaiate, a sua mulher também costurava, eram recém-casados, tinham uma filhinha. Eu sempre ia visitá-los. Esse meu amigo acabou me convencendo a trabalhar como alfaiate, ele afirmava que era uma profissão com futuro. Nessa época meu pai tinha ido passear em Dracena, achei que aprendendo a trabalhar como alfaiate poderia trabalhar também à noite, sábado, domingo. Eu queria ser alguém na vida, ter uma casa minha. Queria ganhar dinheiro, mas estava difícil ganhar. Isso foi em 1954 ou 1955. Comecei costurando camisa, ainda não cortava. Paletó eu pregava entretela, caseava. Antigamente era tudo feito a mão, hoje é feito por máquinas. Na época a maquina de costura Pfaff era considerada a melhor para o uso dos alfaiates.


Você exerceu o ofício de alfaiate por muito tempo?


Eu tinha um tio, Vergílio Bertolucci, que morava em Andirá, no Paraná, ele era taxista, fui morar com ele. Um primo do meu pai, João, conhecido como Nico, tinha um armazém de secos e molhados em uma fazenda, fui trabalhar com ele. Passei a morar na fazenda na casa do Nico. Vendia muito, só de um fazendeiro atendíamos as famílias de 10 fazendas. Era tudo vendido com vale. (Anotação do valor da compra em um vale). No final de mês o fazendeiro mandava o dinheiro. Os vales variavam de350 a 400 cruzeiros. Do dia primeiro ao dia 10 cada dia as famílias de uma fazenda faziam suas compras. Não tínhamos condições de atender mais de uma fazenda por dia. Eram fazendas de café com colônia de 40, 50, 60 casas. Vendíamos apenas comestíveis, uma época passamos a vender também botinas. Meu primo Nico tinha um caminhãozinho Chevrolet 1951, com ele fazíamos as entregas das compras. Eu aprendi a dirigir nessa época. Um dia descemos em uma tulha para carregar feijão, carregamos, o cunhado do meu primo ficou com receio de que a caminhonete quebrasse achou melhor que depois o Nico a fosse buscar. Eu subi, dei partida e subi de ré até o topo, em seguida a conduzi até o armazém. Eu tinha uns 15 anos. Outro meu primo, que tomava conta da fazenda tinha um caminhão Chevrolet ano 1947. Câmbio seco. A partida era dada no pé. Tem que dar uma acelerada e pisar na embreagem para mudar a marcha.


No armazém vendia cerveja?


Vendia, não havia energia elétrica nem geladeira, a cerveja ficava no chão em cima do piso de cimento. Acho que se tivesse gelada o pessoal não tomaria já tinham se acostumado com a cerveja nessa temperatura. Pedro Coalho era um italiano que às vezes vinha a cavalo, parava no armazém, tomava duas cervejas e ia embora. Falei com meu tio Vergilio e com meu primo Nico que estava pensando em mudar para a cidade, trabalhar e estudar. Fui trabalhar em Andirá, em um posto com a bandeira Texaco, Era de propriedade de Ari Neves, tinha gasolina e óleo diesel, tinha lavador, troca de óleo e um restaurante que era arrendado. Eu atendia no caixa. O frentista também lavava caminhões, nessas ocasiões eu também atendia nas bombas. A bomba era elétrica, às vezes faltava energia tinha que servir combustível girando uma manivela. Naquela época no Paraná havia um trânsito muito grande de caminhões. O posto ficava na estrada existente até hoje, ligava Bandeirantes a Cambará. Hoje é asfaltada, na época era de terra. Quando chovia ninguém andava, tinha que esperar parar a chuva, duas horas depois o trânsito andava de novo. Uma vez choveu quase durante um mês inteiro. Tinha mais de 200 caminhões parados em Bandeirantes.


Colocavam correntes em pneus?


Nem com correntes os caminhões andavam. A terra grudava como uma cola, mesmo andando a pé ela vai grudando no sapato e não sai. As casas na época tinham uma lamina de ferro em um quadradinho de madeira para raspar o pé. Caminhão com corrente ia acumulando o barro e pegava na carroceria em cima. Jeep que era a condução mais utilizada no barro, com tração nas quatro rodas, o barro grudava na roda, pegava na lataria e travava. Se forçasse fundia o motor. O dinheiro dos motoristas desses caminhões ia acabando, para não estragar comeram os frios que um caminhão transportava e tinha também ficado encalhado. Começaram a cortar eucalipto que existia em uma fazenda, na beira da estrada e colocaram na estrada para saírem primeiro os que tinham mais urgência. Quando a estrada ficou enxuta, a bomba do posto não vencia abastecer tantos veículos. Iam ao restaurante para se alimentarem, cobertos de barro da cabeça aos pés. Isso foi de 1955 para 1956.


O dono do posto delegava a administração para você?


Delegava porque era uma pessoa muito doente, quase não aparecia lá, sua esposa que as vezes vinha. Eu depositava o dinheiro do movimento, telefonava para a Texaco em Ourinhos para pedir combustível. Os dois frentistas não sabiam dirigir, eu que colocava os caminhões no lavador. Certa ocasião o proprietário do posto estava internado em um hospital, sua esposa me pediu que eu fosse até Ourinhos buscar a sua filha que estava saindo de férias de um colégio interno. Embarquei em um trem misto, carga e passageiros, e fui até Ourinhos. Fui com o dinheiro para pagar o colégio, as contas da menina na cidade, quitanda, bazar. Vim com ela de trem até Andirá, lá seu avô estava esperando com uma charretinha para levar a neta. Em janeiro de 1957 voltei para Tupã. Meu tio tinha vendido o sítio e tinha comprado um armazém e um cinema em Arco-Íris, então distrito de Tupã.


Você veio trabalhar no armazém ou no cinema?


Nos dois! O cinema chamava-se Cine Arco-Íris, os filmes eram projetados aos sábados e domingos. Era um cinema com paredes de tábua, com janelas dos dois lados, o piso era plano. Existia um palco onde se realizavam bailes, colocavam-se as cadeiras de um lado e eram realizados bailes, carnaval.


Quem projetava os filmes?


Eu! Quando meu tio comprou o cinema já funcionava, Moacir Passador, esse é o seu nome civil, está vivo até hoje, ele era o maquinista, ou seja, quem projetava os filmes, sua família morava em Tupã, ele ia se mudar, fui para ficar no seu lugar. Eu ajudava meu tio no armazém durante o dia e aos sábados e domingos passava os filmes. A sessão começava as 20h00min horas. A máquina era de 16 milímetros.


Era uma máquina só?


Era apenas uma máquina, na hora de trocar o rolo de filme fazia-se um intervalo. Um filme comum, de uma hora e meia, eram dois rolos. Acendia as luzes, tirava um rolo colocava outro, passava a fita. Os filmes eram mandados de Botucatu. Semestralmente eles mandavam uma seleção de filmes, desenhos, documentários, seriados. Os seriados eram passados aos domingos. O filme que mais deu trabalho foi um que quebrou a fita quatorze vezes durante a projeção. O nome desse filme eu guardei: “O Monstro da Lagoa Negra”


 

Como era colado?


A fita tem uns quadrinhos que são tracionados pelos dentes de um carretel da máquina, dobrava-se onde quebrou, emendava, passava durex. Dobrava para cortar na medida certinha.


Quantas pessoas freqüentavam o cinema em cada sessão?


Uma centena de pessoas, ou um pouco mais. O pessoal era todo conhecido. Quando quebrava a fita faziam barulho, batiam o pé. As cadeiras eram comuns, tinha apenas uma ripa pregada unindo seis ou oito cadeiras, para o pessoal não tirar a cadeira do lugar. Permaneci lá até o final de 1957. Meu tio acabou vendendo o cinema para o ex-dono. Permaneci passando filmes para ele por uns dois meses. Eu disse ao meu tio que achava que o movimento comercial no armazém já não precisava do meu serviço. Tinha um viajante que vinha vender mercadorias para o meu tio no armazém, ele era de Tupã, era uma loja que trabalhava também no atacado, vendia armas, munições, ferragens. Vendia de tudo. Meu tio vendia só secos e molhados. O viajante disse-me: “Se você quer ir vá á Casa Dias que eu indico seu nome”. Trabalhei na Casa Dias por mais ou menos um ano. Em Marília ia abrir uma filial das Lojas Coteninga de tecidos, me chamaram, dois amigos iam para Marília para inaugurar a loja. Fui, fiquei morando no Hotel Nove de Julho, na Rua Prudente de Moraes, em frente ao Cine São Luiz. Inauguramos a loja em Marília fomos inaugurar a loja de Garça, peguei uma gripe, fiquei uma semana muito ruim. O movimento da loja após uns três meses caiu muito, já não estava me compensando ficar lá. Voltei para Tupã, um amigo me disse que na Lojas Riachuelo estava precisando de vendedor. Na segunda feira estava descendo a avenida entrei na Coteninga, os colegas brincaram comigo, acharam que eu estava de férias antes de completar um ano. Eu disse que estava indo para a Riachuelo. O gerente me convidou, acabei ficando na Coteninga. Até que um dia resolvi comprar uma caminhonete Ford 1933 e mascatear. A porta era como a da DKW abria ao contrário, chamada de “porta suicida”. Foi a primeira caminhonete que saiu com bomba de gasolina até então era o tanque era por gravidade. Motor 4 cilindros em linha. Passei a vender sardinha fresca. O trem trazia de Santos para Tupã, chegava as quatro horas da manhã em Tupã. O trem descarregava se não fosse buscar ficava na plataforma. Tinha um senhor que era o representante daqueles carrinhos de mão que vendiam na rua, Tupã tinha bastante disso. O senhor que mandava vir o peixe chamava Antonio Valverde, ele mandava vir de 10 a 15 quilos para cada peixeiro e para mim vinha uma caixa de madeira com 50 quilos. O gelo ficava dois a três dias na caixa e não derretia. Todo dia eu pegava 50 quilos e ia vender nos bairros vizinhos: Arco-Íris, Queiroz. Só que além do peixe eu pegava com o atacadista no mercado: repolho, tomate, batata. Saia para a zona rural, e por incrível que pareça o pessoal não tinha esses produtos plantados. Cuidavam de café, plantavam amendoim, mas não plantavam o que consumiam. O que eu vendia de sardinha para japonês! Em Queiroz tinha muitos arrendatários que plantavam amendoim, eu chegava já vinha uma japonesa querendo cinco quilos de sardinha, outra queria três quilos. Eu usava aquela balancinha de mão, com pratinho. A caminhonete quebrava muito, dava muita despesa. Vendi a caminhonete para uma fábrica de colchões, só que fiquei com ela até parar de vir peixe. Tinha mandado um telegrama para Santos suspendendo o envio, mas até certo tempo ele continuava a vir. Até receber o telegrama, cancelar o pedido demorava uns quatro ou cinco dias. Quando não veio mais peixe, entreguei a caminhonete. Em 1960 ia ter censo no IBGE, o pai da Wilma, Tedeskini Scalise, que eu nem pensava que um dia iria ser meu sogro, era o agente regional do IBGE em Tupã. Ele estava arregimentando pessoas para serem delegados censitários. Eu o conhecia porque o cinema usava um selo para ser colocado nas entradas, era o IBGE que vendia. Conversamos, ele me contratou, junto com outros que iriam para outras localidades sob a sua responsabilidade. Fiz um curso de uma semana e fui mandado para Monte Castelo, beirando o Rio Paraná. Naquela época residiam lá oito mil e poucos habitantes não chegavam a nove mil. Assim que cheguei a Monte Castelo, procurei o responsável pelo serviço de alto falante, não existia rádio na cidade, e anunciei que estava contratando pessoas para fazer o censo. Geralmente eram professores que tinham interesse. Dividi o município em setores, dei um setor para cada um, entreguei o material para trabalharem, dei um curso rápido informando o que deveria ser feito. Permaneci lá uns quatro meses. Aqueles professores iam a cavalo pelo meio da invernada, até uma casinha lá nos confins, tudo para realizar um censo bem feito.


A população maior era rural ou urbana?


Era rural. Acabei de fazer o censo, preparei todo material, mapas.


A saúde e a educação eram problemas graves da população?


A saúde sempre foi um grande problema, já foi pior. A educação era melhor, havia mais disciplina, mais respeito. Os professores eram mais respeitados e melhor remunerados.


Após terminar o censo qual foi sua próxima atividade?


Foi na época em que Jânio Quadros foi eleito. Voltei para Tupã, trabalhei algum tempo na loja de um português. Eu tinha um amigo chamado José Pereira França Filho, o Cazuza, pernambucano, ainda muito novo veio para São Paulo, trabalhou como peão em fazenda. Naquela época trabalhar em um banco era um emprego muito valorizado. O Banco Econômico da Bahia estava precisando de funcionário, por indicação do Cazuza, que era cortejado pelos bancos em função do seu elevado patrimônio, ele tinha 34 fazendas, fui apresentado ao gerente. Cumpri as formalidades necessárias e comecei a trabalhar a 1 de outubro de 1961. Minha primeira função foi ser caixa. Naquela época eram dois guichês, com uma gaveta só para dois caixas. Quando entrei tinha um caixa trabalhando, é amigo meu até hoje, chama-se Jayme Zampieri. Usávamos maquinas Burroughs, elétrica, quando faltava energia colocava manivela e continuava trabalhando. Por dois anos trabalhamos com caixa juntos. Fiquei no banco até 2002, foram 41 anos trabalhando no banco. Trabalhei no caixa, no conta corrente, lançando fichas de clientes, tinha uma ficha amarela com várias colunas onde lançava, depois veio uma maquina grande, tinha uma fita que era picotada, soltava um diário grande, carbonado, em três vias. tive que fazer um curso para trabalhar com ela. Quando chegou o computador eu estava afastado prestando serviço no Sindicato dos Bancários de Tupã, onde fui tesoureiro e vice-presidente. Fui suplente de Juiz Classista em Adamantina e Presidente Prudente.


Nesse meio tempo você estudou?


Fiz o curso de madureza, hoje chamado de supletivo.


Quando você conheceu sua esposa Wilma Scalise Bertolucci?


Eu a conheci na época em que estava com o cinema em Arco-Íris. Eu vinha comprar selos no IBGE com o pai dela, ela trabalhava no CPP, Centro do Professorado Paulista, situado ao lado. Às vezes ela vinha conversar com o pai dela logo voltava. Casamos em Tupã. Temos dois filhos: Welton e Fabrizio.


Como começou a sua paixão por avião?


Eu sempre gostei de avião, em Dracena tinha um amigo, Ângelo Sanches, que tinha avião. Em 1966 eu já estava no banco em Tupã, a prefeitura tinha construído um aeroporto novo e o aeroclube de Tupã estava fechado. Tupã tem uma pista boa, asfaltada, com 1530 metros e 35 metros de largura, balizamento e iluminação. Para dar um número maior de associados e reabrir o aeroclube, preenchi uma ficha. Fui procurado por João Marin Berbel, meu amigo, já tinha pertencido ao aeroclube antigo. Nosso instrutor era Manuel Nunes Feijó, de Marília. Comecei a voar em um P-56, motor de 90 HP, Paulistinha fabricado em Botucatu.


Qual foi a altura máxima que você já voou?


Com o Paulistinha foi 4;000 pés se não me engano. São aproximadamente 1.200 metros. Um pé são 33 centímetros.


Quantas horas de vôo você tem?


Tenho entre 800 a 1.000 horas de vôo.


Já teve pane alguma vez?


Só simulada, pane normal eu nunca tive. Uma manobra que eu fazia é o chamado “oito preguiçoso” Fiz vôos rasantes sobre o chamado Rio Feio. Voava com meu irmão, ele levava diversos pára-quedas pequenos, com um boneco, passávamos sobre o rio ele lançava os pára-quedas pequenos para o pessoal que estava pescando no rio. Tem um fotógrafo em Tupã que tirava muitas fotografias na cidade, Na época da construção do CEAGESP a cada quinze ou vinte dias tirávamos uma foto, acompanhamos a sua construção. Ele sentava no banco de trás, eu tirava uma porta do avião, eu ia com o nariz do avião para cima da torre, quando ele me dizia: “-Já” eu tirava o avião para o lado esquerdo e ele pelo espaço onde deveria ter a porta fotografava.


Como se deu a sua vinda à Piracicaba?


Após me aposentar continuei trabalhando por vários anos no banco. O Banco Econômico passou a ser BBV, cujos donos eram espanhóis. Em 2002 foi vendido para o Bradesco. Eles me ofereceram a oportunidade de continuar trabalhando ou se quisesse poderia sair. Eu e outro colega saímos do banco. A minha esposa Wilma se aposentou da escola onde trabalhava. Nossos filhos estavam morando em Piracicaba, decidimos mudar para cá.


Qual a diferença entre Piracicaba e Tupã?


Morei em Tupã quase 50 anos, é uma cidade bem menor do que Piracicaba. Atualmente tenho um circulo de amizades em Piracicaba, além de fazer pequenas tarefas junto aos filhos tenho lido muito.








quinta-feira, outubro 18, 2012

LUIZ ANTONIO LEITE - MADALENA

REPRODUÇÃO DA ENTREVISTA FEITA NOS ESTÚDIOS DA RÁDIO EDUCADORA DE PIRACICABA EM 3 DE MAIO DE 2005
                                                         Foto: João Umberto Nassif

                                                       LUIZ ANTONIO LEITE - MADALENA 

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS Produção e Apresentação Jornalista e Radialista JOÃO UMBERTO NASSIF Transmitido pela RÁDIO EDUCADORA DE PIRACICABA AM 1060 KHERTZ Aos Sábados das 10:00 às 11:00 horas da manhã.
Contato com João Umberto Nassif        joaonassif@gmail.com


ENTREVISTADO: LUIZ ANTONIO LEITE - MADALENA, Presidente do Centro Comunitário do Bairro Boa Esperança.


Luiz Antonio Leite é uma figura folclórica de Piracicaba, muitas vezes você absorto em seus pensamentos foi surpreendido, descontraiu-se com as inocentes brincadeiras que Luiz Antonio Leite proporciona aos habitantes de Piracicaba. Hoje vamos conhecer o lado sério, de trabalho humanitário, de luta pela sua comunidade. O cidadão Piracicabano Luiz Antonio Leite é popularmente conhecido pelo nome de Madalena.


Você é cidadão Piracicabano?


Sou nascido em Piracicaba, no dia 27 de dezembro de 1956. Nasci no local denominado Boqueirão, situado no Bairro Alto. Meu pai chama-se Inácio de Moura, que eu não cheguei a conhecer. Minha mãe é Luisa Leite. Somos em 5 irmãos. Estudei no Grupo Escolar Dr. Alfredo Cardoso. Aos 14 anos de idade comecei a trabalhar. Aos 13 anos de idade ainda brincava de casinha. Não gosto de jogar bola. Meu negócio era mais arrumar a casa, fazer a comida. Meu primeiro trabalho foi na casa da Ditinha Penezzi. Ali aprendi a fazer muita coisa que ela me ensinou. Ela era muito exigente. Na casa dela a maioria era composta de advogados, eu lavava uma camisa branca do doutor, quando ela via um amassadinho ela me chamava e dizia: - Você vai passar essa camisa de novo! Está mal passada! Nunca respondi. Eu passava tudo de novo. Eu queria aprender. Ali aprendi muita coisa, a cozinhar, a fazer doces.


Você chegou a queimar alguma comida?


Cheguei a queimar arroz.(risos) A casa era muito grande. Eu tinha que fazer de tudo, lavar, passar, enquanto o arroz ia secando eu ia fazendo outro serviço. Quando percebia o arroz já estava queimado!


Você se considera bom profissional para limpar uma casa?


Sou. Até agora em todas as casas em que trabalhei nunca ninguém reclamou! Eu faço uma faxina das boas! Tiro tudo do lugar. Não tenho hora para sair. Tem empregada que vai trabalhar, quando o relógio marca 4 horas da tarde quer ir embora. Quando eu trabalhava por dia, entrava às 7:00 horas da manhã e saia às 6:00 horas da tarde. E arrumava a cozinha da janta ainda! Para não deixar para a patroa fazer! No tempo em que eu era mais molecão não tinha onde ficar eu ficava até as seis horas da tarde no trabalho, assim eu também jantava!


Você trabalhava cantando?


Cantando, ligava o rádio, sempre na maior animação.


Você é católico?


Sou católico graças a Deus! Quando era garoto morava no Bairro Alto, ia assistir a missa da Igreja Bom Jesus. Após a missa dormia no banco da igreja. No dia seguinte uma mulher vinha abrir a igreja, me via encolhidinho e dizia: - Menino você dormiu aqui! Ela me dava um copo de leite e pão com manteiga.


Você tinha uma relação amistosa com seus irmãos?


Não. Com meu irmão por parte de pai não. Ele era contra tudo que eu fazia. Não podia ir um colega meu lá em casa que ele tocava. Ele tinha preconceito. Meu padrasto também não gostava muito do meu jeito de ser. Eu ficava muito triste, meus colegas iam me convidar para sair e ele tocava! Eu dizia para a minha mãe, quando tiver uns 14 ou 15 anos de idade vou sair desta casa. Ela adoeceu, não tinha jeito de eu sair. Eu sozinho que trabalhava para sustentar a todos em casa! Até que um dia sai de casa. O primeiro quartinho em que fui morar foi no Bairro Verde, chamado antigamente de Coréia, fui morar na casa da Dona Irene. O meu quartinho era de tábua. A minha cama era de jornal, com uma cobertinha, e uma corda em forma de varal que eu usava como cabide para por as minhas roupas.


Você foi trabalhar em república de estudantes?


Trabalhei na república Canecão, ficava na Rua Benjamin Constant, era uma república antiga. Lá eu cozinhava, lavava roupa, deixava tudo em ordem. Nessa época eu tinha uns 16 a 17 anos. Até aquela época me chamavam de Luiz. Só que eu não gostava que me chamassem por esse nome. O responsável pela república era o Robertinho, ele era o bom da boca, era o homem que tinha mais dinheiro na república. Ele formou-se Engenheiro Agrônomo. Normalmente eu não trabalhava aos domingos, mas ele disse que eu deveria ir trabalhar no próximo domingo. Foi feita uma votação, meu nome foi escolhido em uma eleição pelos estudantes. Quem sugerisse o nome vencedor ganharia uma caixa de cerveja. Teve muitas sugestões de nomes: Maria, Vanessa, etc... Eu não gostei de nenhum. Foi feita uma nova eleição. Na segunda votação o Carlinhos sugeriu Madalena. Teve então o batizado como Madalena, com diploma, churrasco e tudo! Foi muita gente. Meninas, rapazes. Foi a coisa mais linda! Eu tinha feito um arroz de forno.


Você bebe? Fuma? Joga?


Não bebo, não fumo e não jogo!


Você mesmo se encarregou de divulgar o seu novo nome, Madalena?


Eu mesmo. A coisa pegou de uma tal forma que se me chamarem de Luiz sou capaz de até nem responder. Desde criança sou Madalena! Vou responder por Luiz no cartório, no banco. Na minha conta de água vem escrito Madalena. Vem escrito Luiz Antonio Madalena!


Você adotou o nome Madalena em suas duas candidaturas a vereador?


Na primeira candidatura não pude adotar. Deu uma confusão. Colocaram outra Madalena para concorrer comigo. Hoje meu nome para efeitos eleitorais é Luiz Antonio Madalena. Hoje Madalena é um nome oficial.


Você trabalhou em casa de gente muito importante em Piracicaba?


Trabalhei sim. Trabalhei por um período de um ano mais ou menos, na casa do Deputado Federal João Hermann Neto, ali no bairro Cidade Jardim. Lá eu fazia tudo. Cozinhava, lavava, passava. Ele é uma pessoa simples como nós. Ele não tem luxo na comida. A mistura sim, ele gosta de filé mignon, carne toda de primeira! Eu faço tudo isso. Não tenho preguiça.


Na hora das refeições você come junto a família para a qual trabalha ou em um cantinho separado?


Logo que comecei a trabalhar por dia, eu achava chato sentar a mesa com o patrão. Comia na cozinha. Só que eles ficavam bravos. Diziam: Não! Não! Você é como nós! Pode vir sentar a mesa! Passei a sentar a mesa. Até hoje sento a mesa com qualquer patrão.


O guarda-roupa da sua casa tem mais roupa do Luiz Antonio Leite ou da Madalena?


Para falar a verdade tem mais roupa da Madalena. Ela é mais vaidosa!(risos) Do Luiz tem terno, sapato preto, marrom, cinto, relógio. Já usei terno! Fiquei a tarde inteira atendendo ao telefone no meu serviço. E não era homem que ligava, era só mulher!(risos) Algumas diziam que eu tinha ficado muito bonito de terno, por que eu não passava a usar só terno, outras ligavam para falar abobrinha!(risos).


Você colocou terno e foi paquerado por algumas mulheres?


Exatamente! Só que elas perderam tempo à toa! Encostei o terno rapidinho! (muitos risos)


Você quando era criança sofreu bastante, e isso refletiu muito na sua vida toda, e talvez por isso hoje você atua como presidente do Centro Comunitário do bairro Boa Esperança?


A Boa Esperança é um bairro carente. O Javari ainda é mais carente do que a Boa Esperança! O Javari não tem asfalto, não tem luz, o bairro Monte Rei tem muitos problemas sérios. Dá dó. Eu brigo muito para melhorar essa situação. Cobro atitudes dos vereadores, do prefeito. Todo mundo recolhe seus impostos. No bairro Javari ninguém paga imposto, mas eles querem pagar para terem uma situação melhor no bairro! Pagando os impostos, é melhor para a Prefeitura e para os moradores também.


Você trouxe uma pasta com muitas fotografias das ruas com problemas, praticamente não tem ruas, o leito carroçável são apenas enormes buracos. Isso não é uma situação nova, não é uma crítica a administração atual.


Exatamente. Não é uma crítica contra a administração atual. Muitas vezes no meio da noite sou acordado para ajudar alguém do bairro. Esses dias uma mulher recebeu uma cobrança judicial de impostos que o falecido marido estava devendo. Eu orientei para que buscasse um advogado. Defendo muito a prática de esportes pelos moradores. As crianças não encontram um local com um brinquedo, não tem um lugar para ir. Isso é uma forma de tirar as crianças das ruas. O Clubinho só atende das 8:00 da manhã até às 4:00 horas da tarde. E domingo? Como é que fica? Sábados? Feriados? Essas crianças ficam na rua! Se tivesse uma quadra de basquete, um brinquedo qualquer elas não estariam na rua!


Você promove duas festas anuais?


Promovo uma festa em todo dia 12 de outubro e no Natal. Saio pedindo contribuições pelas lojas, e consigo muita coisa! A Mercedes do supermercado Tutti Frutti me ajuda muito! As pessoas que se vestem de Papai Noel me ajudam muito. Tenho que agradecer a essas pessoas e a Deus que me ajuda.


(Nesse momento a ouvinte Silvia faz a pergunta: Estou ouvindo a entrevista da Madalena, acredito que muitas pessoas vivam um conflito interno muito grande sobre a sua opção de vida. Gostaria de saber com que idade ela percebeu que era uma pessoa diferente, quais foram as suas dificuldades, os problemas que ela enfrentou, se ela procurou algum médico, ajuda psicológica, ou simplesmente assumiu a sua condição).


Eu não fui ao médico. Aos sete anos de idade já gostava de brincar de casinha, com bonecas, meu pai era contra, brigava com a minha mãe. Minha mãe sempre me apoiou. Ela dizia: - Não posso abandonar meu filho porque ele é assim! Ele não é o primeiro! Eu sempre quis ser assim, nunca quis mudar. Após perder a minha mãe sofri muito. Resolvi seguir a minha vida do jeito que eu queria. Passei a usar lenço na cabeça, vestidinho, passeava pela Rua Governador Pedro de Toledo de saia, eu não me arrependo de ser assim, para conseguir a minha casa sofri muito! Tenho que agradecer em primeiro lugar a Deus, quando eu não tinha um lugar para morar eu pedia a Ele: Deus eu sei que um dia vou ter a minha casa! Acho que os pais devem apoiar o filho em sua opção e não simplesmente colocá-lo na rua!


Negro, pobre e homossexual, tem que ser muito macho para assumir uma situação dessas?


Com certeza sim.


A ouvinte Ângela do bairro Primeiro de Maio participa do programa dizendo que Madalena trabalhou com ela por quase dois anos, isso foi quando eu tinha meus dois filhos pequenos, a Madalena é a pessoa mais maravilhosa que eu conheci, de uma humildade, de um ensinamento de vida, nunca teve a liberdade que eu ia dizia para ela ter em minha casa. Eu só queria dizer que se tanta gente fosse como a Madalena o mundo seria bem melhor! Na época em que ela trabalhou em minha casa uma criança minha tinha 8 anos de idade outro uns 5, eles cresceram vendo a Madalena, ela é muito carinhosa, uma pessoa que sabe os limites, na rua, Madalena brinca com todo mundo, dentro da sua casa ela é uma pessoa que não tem nada a ver com aquela Madalena! Faz um serviço que ninguém faz melhor do que ela! Em casa todo mundo era Luiz. Meu marido se chama Luiz, assim como meu filho e também a Madalena! Eu era cercada de Luiz! Sou muito feliz de ter tido um dia a Madalena dentro da minha casa.


Você na verdade curte um grande barato quando está no terminal de ônibus urbano, ou na Rua Governador Pedro de Toledo, centro de Piracicaba, ali é a sua passarela,você encontra aquele machão acompanhado é ai que você deita e rola?


Esse machão que passa com a mulher e dá uma de homem, é ai que eu gosto de mexer! Falo Lindo! Bonito! Você é um gatão!(muitos risos). Ele fica sem jeito, e me cumprimenta!


É verdade que uma vez você arrumou uma confusão na Rua Governador, em uma esquina aonde tinha um pelotão de policiais?


Isso foi na véspera de um Natal. Eu estava brincando gritando: Motoristaaaaaaa! Nesses dias tinha aqueles moleques novos de guarda (aspirantes), todo mundo buzinando, eu gritando, na esquina das Ruas XV de Novembro com a Rua Governador, bem na esquina da farmácia, me cercaram. Disseram: - Você está preso! Comecei a discutir feio com eles! Começou a lotar de gente. Um carro que vinha pela Rua XV de Novembro parou bem próximo a mim. Um senhor de terno desceu, era o delegado! A situação foi esclarecida, e assim eu pude seguir meu caminho em paz!


Você é exímio lutador de caratê e capoeira?


É verdade. Só que acho que não há necessidade de ficar falando isso para todo mundo! Eu guardo isso para mim. Se alguém pensa que vai bater em mim, vai se enganar!


Você fez um forrobodó no Estádio do Morumbi em São Paulo?


Foi uma briga que saiu lá. Foi em um jogo do XV de Novembro contra o São Paulo, fomos de trem! A torcida do São Paulo veio para cima de nós, tivemos que bater neles! Não gosto de briga. Não provoco ninguém. Fico na minha! Mas se provocarem, sai de baixo!


Você fazia bagunça no bonde?


Andei muito no bonde! Saia da escola para vir no terminalzinho do centro. Beijava um, gritava!


Você gosta de novela?


Adoro. Não choro, mas eu gosto. Adoro cinema. Não gosto de filme romântico. Prefiro filme de ação com o Rambo, Arnold Schwarzenegger, filme de terror.


Você foi padrinho de formatura de uma turma de formandos?


Fui. Eu não queria ir, não tinha roupa. Fui à casa de uma amiga minha, ela me emprestou a roupa e eu fui. Usei um blusão, uma calça, saia azul com uns desenhos bonitos, e o tamanco no pé! Foi a coisa mais linda!


Esse tamanco seu tem uma história curiosa?


Na verdade é o outro tamanco que eu tinha. Sou muito religioso. Freqüento a igreja da Catedral e a Igreja do Bom Jesus. Vou à missa aos domingos. Confesso-me. É bom confessar! Há uns quatro ou cinco anos eu tinha um tamanco de mola, era um tamancão com uma mola embaixo, esse tamanco eu ganhei de uma pessoa que trouxe da Itália. Eu ia a missa com o tamanco, ele fazia um barulho, que o padre coitado, parava a missa e todo mundo olhava para traz para ver a Madalena chegar!(muitos risos)


Quando você está dentro de uma igreja prestam mais atenção no padre ou em você?


Os fieis assistem a missa. Mas sempre tem alguém que fica olhando para mim!


Você gosta muito de carnaval?


Eu adoro! Saio na Portela. Eu adoro a ala das baianas! Eu saio todo ano de baiana!


Você foi candidato a vereador em piracicaba por duas vezes. Na primeira vez você teve 1200 votos. Na segunda vez você teve 1620 votos. Você hoje é suplente de vereador?


Exatamente isso. Se o vereador Chico D’Água deixar a cadeira hoje ocupada por ele, eu assumo como vereador.


É verdade que você tem o sonho secreto de ser prefeito de Piracicaba?


É verdade. Se Deus quiser. Tenho muita fé em Deus. Vou trabalhar muito para ajudar a classe pobre. Eu ando em todo lugar. Em todos os bairros. Eu tenho dó de ver aquela gente reclamar da vida. Gente que não tem o que comer. Eu não posso ajudar ninguém porque também passo apertado!


Você se informa muito?


Gosto de ler jornal. Assisto os noticiários de televisão.


No seu ponto de vista porque existem pessoas miseráveis?


As pessoas da alta classe pensam mais neles próprios. Eles pensam no povo na hora do voto. Após as eleições, eles não querem mais saber dos problemas que existem nos bairros. Quem é presidente de associações de bairro sabe o que o povo passa. Nós fizemos um trabalho assistencial junto com a igreja, isso quando eu era jovem, naquele tempo não se passava fome. Visitávamos casa por casa, e levávamos cesta básica para cada família necessitada. Hoje você não vê mais isso!


Você conhece o mar?


Nunca vi e nem quero ver! Se me oferecerem uma passagem para Aparecida do Norte, Pirapora, eu vou! Mas sair da minha casa para ir para Santos, não vai acontecer nada. Eu já sou negro, vou para lá para ficar mais preto ainda?(risos).


Meu santo de devoção é São Benedito, Santo Expedito, Nossa Senhora de Aparecida e Bom Jesus de Pirapora. Sou bastante religioso, Graças a Deus!








domingo, outubro 14, 2012

AMADEU FRACENTESI CASTANHO

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 13 de outubro de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: AMADEU FRACENTESI CASTANHO
Amadeu Fracentesi Castanho nasceu a 6 de abril de 1928, em Piracicaba, na Rua da Boa Morte número 51, hoje o número é 1479. É filho de Amadeu Castanho nascido em Capivari, e Olympia Fracentesi Castanho nascida em São Paulo. Seu pai atuava na área de direito, foi fazendeiro, loteou boa parte da cidade, formando alguns bairros como Vila Progresso, Bela Vista, Paulicéia. Em 1923 a empresa Antonio Bacchi & Cia. composta por Amadeu Castanho, Antonio Bacchi e Fernando Costa Sobrinho adquiriu 186 alqueires paulista de terras, tinham como vizinhos a ESALQ e seguiam em uma longa extensão de terras até os confins da Paulicéia, da Avenida Independência até o Piracicamirim.

Quantos anos levaram para lotear essa área toda?

Eles conseguiram a Primeira Carta Patente Federal emitida para o Estado de São Paulo com a finalidade de fazer loteamentos. Lotearam a Vila Bela Vista composta por 512 lotes, vendidos em 60 dias. Depois fizeram a Vila Progresso, Vila Independência, Vila Paulicéia e Vila Piracicamirim. Onde hoje é a Shopping Paulistar, era uma caieira, mina de cal, adquirida pelo meu pai para fazer as casas, pertencia ao Ditoca. A cidade de Piracicaba terminava no pontilhão da Rua Benjamin Constant.

Em que local o senhor passou a sua infância?

Casa onde Amadeu Castanho morou quando menino, na Rua da Boa Morte esquina com a Rua Ipiranga, foi derrubada e hoje é um terreno vazio, ao lado fica a casa onde nasceu o ex-governador Adhemar de Barros,onde hoje funciona uma pesnão.
A minha infância passei na Rua Boa Morte esquina com a Rua Ipiranga, era um casarão que foi dividido em duas casas, a da esquina foi derrubada, hoje é um terreno vazio, na outra onde funciona uma pensão, foi onde o ex-governador Adhemar de Barros nasceu. Na década de 40 havia uma placa alusiva ao fato. Na Rua Ipiranga entre a Rua Governador Pedro de Toledo e Boa Morte havia uma sinagoga, que também foi demolida. Naquele trecho já havia o calçamento de paralelepípedo, a Rua Alferes José Caetano era terra, assim como a Rua do Rosário, que era a rua por onde passava a boiada. A Rua do Comércio, atual Rua Governador Pedro de Toledo era calçada com paralelepípedo. Na Rua Ipiranga quando se encontrava com o Ribeirão Itapeva, formava uma espécie de lagoa, La nós nadávamos, pescávamos guaru-guarus para fazer cuscuz. Mamãe falava: “-Vai até o Itapeva e pega um pouco de guaru-guarus para fazer no almoço!” Ou então: “-Vai na Rua do Porto e pega para amanhã”.

Tinha uma sorveteria muito famosa no centro.

A Sorveteria Paris ficava na esquina da Prudente de Moraes com a atual Praça José Bonifácio. Anteriormente existia embaixo do Clube Coronel Barbosa a “Leiteria Brasileira” Era o melhor sorvete da cidade. Com 12 anos aprendi datilografia e fui trabalhar com o meu pai na Praça Sete de Setembro. Quando eu tinha 4 anos de idade faltou um menino da minha idade, ele deveria estar presente em uma festa no Colégio Piracicabano eu o substituí. Fiz todos os meus estudos, até 17 anos. no Colégio Piracicabano. Em seguida estudei na Escola Cristóvão Colombo, onde me formei como contador. Por dois anos estudei economia na Escola Álvares Penteado próxima a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Morava em uma pensão na Avenida Anhangabaú, próximo ao Mercado Municipal de São Paulo. Eu trabalhava como contador na empresa Tecidos Zacharias S/A, na Rua Vinte e Cinco de Março, 1012. O dono principal era Abdalla Belhaus seu sócio Melhem Zacharias. Naquele tempo contador limpava banheiro, balcão, fazia tudo, só após seis meses colocaram um auxiliar para fazer o resto. Fiquei um ano e meio em São Paulo, minha irmã se casou e minha mãe pediu-me para voltar.

O pai do senhor atuou na área jurídica?

Naquele tempo o pretendente podia realizar seus estudos particulares e submeter-se a um exame em São Paulo, na OAB. Meu pai como solicitador tinha a carteira número 30 da Ordem dos Advogados do Brasil. (Os solicitadores são um misto de advogados, procuradores e consultores jurídicos). Ele era sócio do advogado Antonio Eiras, tinham escritório na Praça Sete de Setembro, 7. Era uma pequena praça em frente ao Teatro Santo Estevão, na época unica rua asfaltada de Piracicaba, uma extensão de 100 metros. A Rua São José não era uma via interompida como é atualmente, ela atravessava a praça, criando entre ela e a Rua Prudente de Moraes a Praça Sete de Setembro. A frente do Teatro Santo Estevão era voltada para a Rua São José. O fundo do Teatro Santo Estevão era na Rua Prudente de Moraes.

No seu retorno à Piracicaba onde o senhor foi trabalhar?

Luciano Guidotti tinha uma loja de louças, era o tipo de “Casa de Mil Réis” tinha muita louça, vidro, copo. Ficava na Rua Governador Pedro de Toledo esquina com a Rua São José. Ele morava na parte superior a loja. Isso foi em 1949. Eu tinha duas ofertas de trabalho, ambas como contador: na Rádio PRD-6 e com o Luciano Guidotti, ele estava fazendo o encerramento da loja e a abertura de uma agência de automóveis, achei esta segunda opção como a melhor. Fui convidado para trabalhar lá pelo Alcides Martinelli, que era migo do Luciano.

Qual foi a primeira impressão que o senhor teve ao conhecer Luciano Guidotti?

Muito boa! Era um homem alto, de pele muito clara, muito inteligente Tinha horas em que estava muito alegre, também tinha suas horas de tristeza. Era muito enérgico. Fechamos a loja de louças e abrimos a empresa Guidotti & Cia. O Brasil passava uma grande mudança no setor de veículos, era o início da industria automobilística no Brasil, onde se fabricavam poucas coisas. O governo deu uma autorização aos agentes das grandes montadoras que importassem diretamente os veículos fabricados nos Estados Unidos. Eram importados na modalidade CKD Complete Knock-Down, os veículos vinham desmontados, a General Motors montava aqui no Brasil. O pagamento era feito pela agência revendedora, antecipadamente, em dolar americano. Comprava o dolar na bolsa, mandava para a General Motors, era feito o cálculo de custo peça por peça, motor, câmbio, cabine. Fazia-se o “invoice” que em português é fatura. Eu telefonava para Detroit eles falavam o valor do pêso da mercadoria, e a quantidade de veículos. Fechava o câmbio em São Paulo. O lote mínimo era de 24 veículos. Gerolamo Ometto trabalhava com a Ford. Os Irmãos Petrocelli tinham agência na Rua Prudente de Moraes esquina com a Rua Governador Pedro de Toledo tinham Agência Chevrolet. O Guidotti era concessionário GMC e Oldsmobile.

Em que ano ocorreu a primeira importação feita pelo Guidotti e com a sua participação?

Foi em 1950, de 24 caminhonetes “pick up GMC”, movidas a gasolina. O país foi evoluindo, passou a produzir cabine então não era permitido importar cabine, da mesma forma passou a produzir feixe de molas deixou de importar feixe de molas. As leis foram modificando-se. Em 16 meses Guidotti importou 998 veículos. Foram importados alguns caminhões 4-71, 6-71 também. Abrimos loja na Rua Timbiras, em São Paulo. Funcionava mais como um depósito, um ponto de apoio. Vendíamos para o Brasil todo. O Luciano vendeu as casas que tinha na Rua Santo Antonio e investiu na importação. Os ônibus do Expresso Piracicabano eram vendidos pelo Guidotti. Em 1952 saiu uma lei terminando a importação pelas agências, o fabricante passou a importar e montar usando peças e assessórios fabricados no Brasil. Os caminhões pesados eram adquiridos pelas transportadoras. O Expresso Piracicabano era uma delas. Eram veículos para 10 a 12 mil quilos.

E as peças de reposição?

Nós tínhamos, assim como uma oficina na Rua Treze de Maio esquina com José Pinto de Almeida. Naquele tempo Piracicaba era pequena, tinha pouco trânsito na rua.

O senhor adquiria carro para seu uso na agência?

Ficava com os veículos que eram adquiridos nas trocas. Entrava muito carro Citroen. Tive uma motocicleta Ariel 350, inglesa, outra era uma Sparta 150 fabricada na Tchecoslováquia, eu comprei nova, nós vendíamos essa motocicleta. Viajei muito com a Ariel, ia para Santos, a estrada era toda em terra. Passava por dentro de Tupi, Caiubi, Santa Bárbara D`Òeste, Americana Campinas, asfalto só existia de Jundiaí para frente. Íamos um pequeno grupo com duas ou três motocicletas, às vezes levando mais alguém na garupa.
                                                            Motocicleta inglesa Ariel 350 cc
                                                 Sparta 150 fabricada na Tchecoslováquia

Como o senhor conheceu a sua esposa?

Conheci a minha esposa Maria Iomar Castanho em Ubatuba. Fui passear em uma festa em Ubatuba. Não existia a Via Dutra, nem a Rodovia dos Tamoios. O trajeto era feito por Taubaté, São Sebastião e Ubatuba, levava umas 14 horas de viagem de Piracicaba a Ubatuba, se não chovesse, se chovesse já na subida de Caiubi ninguém conseguia subir. Um acessório indispensável era enxada, isso de caminhonete De moto levava água e capacete que era de couro. Acampamos em uma praia da cidade. Ela estava passando férias na casa do seu avô, isso foi em 1951, nos casamos em 1952. Casamos em Gália e passamos a lua de mel em Ubatuba. De Piracicaba à Gália eram 360 quilômetros em estrada de terra.

Quanto tempo o senhor trabalhou com o Guidotti?
Trabalhei por sete anos. Abrimos uma empresa chamada Auto Importadora Nardin, éramos em três sócios: Luiz Nardin, Luiz Gonzaga e eu. Passei a vender trator Zetor importados da Tchecoslováquia, comprava da Agrobrás Importadora. Era um dos poucos tratores diesel do Brasil. A loja ficava na Rua D. Pedro I, número 817, perto do mercado. Em dois anos e meio vendemos umas trezentas máquinas. Dávamos garantia, manutenção. Tinha um jipe utilizado para fazer as revisões em campo. Fiz um curso de mecanização agrícola realizado na ESALQ, em três meses. Quando o cliente adquiria um trator íamos ensiná-lo a utilizar da melhor forma seus recursos. Tive que aprender a arar, gradear. Em dois ou três dias eram suficientes para ensinar o comprador. Naquele tempo a cana-de-açúcar mais comum era a 3X, tinha uma touceira dura, mas o trator arava bem. Isso foi em 1956, 1957. Até hoje, após 60 anos tem trator vendido por nós e que está rodando.
                                                                CARCARÁ


                                                                        DKW 1956
                                                                        DKW 1959




 Após 5 anos abrimos a União de Veículos, concessionária DKW em sociedade com Maks Weiser. Em 1956 estávamos passando férias em Santos, o Maks perguntou-me se eu conhecia alguém na Vemag. Disse-lhe que conhecia. Foi quando ele me disse que em 1957 a Vemag iria lançar um carrinho DKW. Já conhecia o pessoal através da Studebaker, subimos a serra e fomos até a Vemag. Em um porão, coberto por encerado havia duas peruas Vemaguet, estavamos acostumados com o conforto e luxo dos carros americanos, achei aquela perua horrível, os carros alemães eram diferentes, menores.
                                                      VEMAGUET 1955
O Maks ficou entusiasmado. Conseguimos a concessão da DKW. No primeiro ano fomos os maiores vendedores da DKW, mais do que São Paulo, vendemos duzentos e poucos veículos. Entrava muito carro usado no negócio, o Maks entende muito de carro usado. Como aumentou muito a venda, a Vemag quiz que separassemos a empresa da venda de tratores. Ficou o Luiz Nardin com a parte de tratores e fiquei com o Maks na União de Veículos a concessionária ficava na Rua Dr. Otávio Texeira Mendes. 1186. Onde tinha sido um barracão de recauchutagem. Reformamos o barracão e abrimos a agência lá.
DKW SEM AS "PORTAS SUICÍDAS" QUE ABREIAM AO CONTRÁRIO DE TODOS OS CARROS ATUAIS.
Quem foi o primeiro cliente a comprar um DKW em Piracicaba?

Foi o Willands Guidotti filho do meu ex-patrão. Estouramos de vender.
                                              "JEEP"  DKW CHAMAD DE CANDANGO




RURAL WILLYS



PICK-UP
BERLINETA INTERLAGOS

BERLINETA CONVERSÍVEL

JEEP WILLYS


GORDINE


FÁBRICA WILLYS




COMO NASCEU O PRIMEIRO AUTOMÓVEL BRASILEIRO

 Mais tarde junto com o Maks montamos a V Motors Veículos e Motores S/A vendíamos a linha Willys Overland: Aero Willys, Jeep, caminhonete Willys, e Dauphine e Gordini. Ficava na Avenida Independência esquina coma a Rua Bom Jesus. Hoje funciona a empresa GVT no local. Foi o primeiro prédio em arco construído em Piracicaba e a primeira oficina azulejada. O engenheiro foi Alberto Coury. Saí da concessão da DKW porque a fabricação do carro ia ser extinta, a Auto Union alemã tinha adquirido as ações da DKW. Comprou as ações da Vemag e fechou. Acabou a fabricação de DKW no Brasil. Ai passou para Volkswagen, o Maks ficou com a concessionária Volkswagen enquanto eu permaneci na V Motors com Benedito Perrone, Em 1962 veio uma grave crise no setor, o Aero Willys era um sucesso, nós já tínhamos arrecadado o sinal de compra de mais de cem carros, entregaram apenas um veículo. No segundo mês fechou a fábrica Fechamos a revenda.

Qual foi a próxima atividade do senhor?

Abrimos a retífica de motores Delta, na Rua José Pinto de Almeida, onde tinha sido a oficina do Guidotti. Comprei um terreno e fiz um barracão lá, na Rua Alfredo Guedes, 167. Montei uma retífica com todo material importado da Itália. Era bem moderna, avançada para a época. Foi a primeira fervura a gás do Estado de São Paulo. O grande problema do motor é que é sujo, com óleo incrustado. Tem que desmontar tudo e ferver o motor, antigamente se fervia adicionando soda cáustica, usando óleo queimado para ferver a caldeira. Quando fiz o prédio vi um projeto com a Ultragaz para a fervura a gás, adicionando um produto menos perigoso do que a soda cáustica. Os concorrentes eram três: Romano, Consentino e São Cristóvão. Fiz uma linha de montagem, comprei 300 motores usados e fazia a retífica à base de troca. O ano de 1967 foi ótimo, uma maravilha. Tinha 54 empregados. Em setembro os árabes aumentaram o preço do petróleo, de 4 para 24 dólares o barril. Com essa crise do petróleo os veículos viraram sucata. De 100 motores que retificava por mês caiu para 8. Tive que fechar a retífica, indenizar os funcionários. Tive que vender o barracão, só que não tinha comprador para as máquinas. Walter Hahn era proprietário da concessionária Mercedes Benz em Piracicaba adquiriu o barracão. Em Barra Bonita tinha um proprietário de cinco usinas de açúcar, ele tinha serviço garantido dentro da sua própria empresa, vendi para ele as máquinas da retífica. No negócio do barracão entrou para mim um sítio na estrada de Tupi, tinha 90 metros de frente por 3.000 metros da frente ao fundo. Uma minhoca. Após ir a Campinas onde ficava a sede responsável pela energia elétrica, consegui com a empresa que ela levasse energia até o local. Fiz uma rua de 9 metros da frente ao fundo. Loteei em lotes de 1.000 metros quadrados. Fiz umas 15 casinhas, um pomar, veio uma pessoa interessada e comprou tudo. Isso foi em 1972 a 1974.

Qual foi seu próximo empreendimento?

Dr. Carlos de Toledo e Milton Checoli me convidaram para fazer a Urbanizadora Convívio. Eu estava construindo um hotel, em São Paulo, na região próxima ao Aeroporto de Congonhas, era um hotel horizontal, com terreno de 6600 metros quadrados, hoje é a Avenida Águas Espraiada. A prefeitura desapropriou e até hoje não pagou, estou esperando há mais de 20 anos. A Martha Suplicy fez um acordo para pagar em 10 prestações, pagou três prestações, os outros prefeitos não pagaram mais nada. O hotel tinha 49 apartamentos. Era diretor na Convívio administrei o loteamento Colinas de Piracicaba. Em 1979 compramos em três sócios, três sítios, horríveis, no meio havia um enorme buraco formado pela erosão, perdia-se de 7 a 8 alqueires no local onde havia erosão a área total era de 68 alqueires, loteamos em 665 lotes.(O alqueire paulista. é de 24.200 metros quadrados) Foram feitos nesses locais dois lagos. O volume de água que vem da pista da rodovia de Piracicaba a São Pedro é muito grande quando chove, construímos o primeiro lago, fizemos a escavação, o extravasor. Fui até São Pedro, junto com minha esposa. Na ida passamos não tinha uma gota de água no lago, almoçamos em São Pedro, o céu ficou escuro, deu um “toró”, quando retornamos de São Pedro o lago estava cheio. Encheu em três horas e meia. O segundo lago eu construí três anos depois, a água quando extravasa vai para o Ribeirão Cachoeira, que por sua vez deságua no Rio Piracicaba.

Como surgiu a sede campestre do Clube Coronel Barbosa dentro do condomínio?

Dr. Heitor Werther Stuart Montenegro era diretor do Clube Coronel Barbosa, ele me procurou, foi na época em que o Cristovão Colombo tinha comprado uma área para fazer sua sede campestre. Disse-lhe que tinha una área no fundo do loteamento que não havia sido loteada. São 6 alqueires. Fizemos uma reunião entre os proprietários da área e o clube, chegamos a um acordo. O clube não tinha dispnibilidade financeira para iniciar as obras, a Convívio deu 400 mil cruxeiros que foram pagos em 10 prestações de 40 mil cruzeiros. Assim foram construídas as obras do clube. Só que os associados não se interassaram muito em frequentar e o clube está atualmente sem ser utilizado. A venda de lotes no Colinas foi suspensa após vendermos 60 lotes. Fui operar o hotel em São Paulo, onde permaneci por seis anos, até a prefeitura desapropriar.Eu e meu filho, que fez hotelaria, administramos o hotel. Recebíamos passageiros quando não tinha teto no Aeroporto de Congonhas. Chamava-se Hotel Soleil, tinha 48 funcionários. Voltei à Piracicaba, ajudei na parte administrativa da construção de alguns prédios.

O senhor está escrevendo um livro?

Estou escrevendo sobre a família toda, já tenho 600 páginas escritas, chama-se “Páginas Esparsas”.Desde a época do meu avô Augusto Cesar Castanho, de Capivari, onde foi professor, diretor de grupo. Republicano. Em Itu, no museu, tem pertences do meu avô. Meu pai lutou na Revolta da Armada, fugiu de casa e foi para o Rio de Janeiro. Meu irmão Edésio Castanho morreu na Revolução de 1932. Meu pai perdeu tudo na crise de 1929, ele tinha uma dívida com o Banco do Brasil,de irrigação do cafezal. Quando veio a crise do café, os imóveis cairam em 80% do seu valor, mas as dividas permaneceram em mil réis. Ele tinha 12 casas na Rua XV de Novembro desde a esquina com a Rua Governador. Tinha 500 lotes que eram vendidos a 30 mil réis cada um, chegaram a valer 3 mil réis. Papai vendeu tudo para pagar o Banco do Brasil. O pai dele foi republicano, deu-lhe uma educação muito rígida. Ele faleceu em 1942.

O senhor praticava esportes?

Remei no Clube de Regatas de Piracicaba, participei cinco vezes do Piracicaba a Nado, ia até Artemis a nado. Remava a iole a 4 e a 8 que é banco fixo, com patrão, remava catraia. Joguei bola ao cesto pela Escola Cristóvão Colombo. Sou filatelista. Fui rádio amador por 22 anos. Entrei para o rádio amadorismo em 1959, naquele tempo telefone era um brinquedinho que não funcionava. Para falar de Piracicaba com São Paulo tinha que esperar oito horas para completar a ligação. O rádio amador era o meio de comunicação. A polícia usava o rádio amador como instrumento de trabalho. Quando caiu o Comurba a nossa equipe trabalhou 48 horas sem parar. O edifício que caiu chamava-se Luiz de Queiroz, construído pela empresa Comurba. A notícia que correu o mundo foi que tinha desabado o Luiz de Queiroz, associavam com a ESALQ. Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Na época tínhamos mais de uma centena de estudantes sul-americanos estudando na ESALQ. O mundo inteiro queria falar com Piracicaba. Deu pane no sistema telefônico da Telefônica Piracicaba S/A. Montamos no coreto uma estação de rádio amador. Cada um ficava duas horas operando o rádio.

O senhor usa internet?

Bastante, tudo que posso faço pela internet. Já uso computador há uns cinco anos. Todos os dias leio jornais americanos, italianos e brasileiros. Leio o The Miami Herald, o The Times de Londres, Gazzetta Della Sera de Roma, abro o jornal da cidade italiana onde está morando a minha filha.






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