Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

sexta-feira, setembro 30, 2011

VOVÔS VOADORES - HELENA MENDES FERNANDES E JOSÉ FERNANDES MERLO

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado de setembro de 2011
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/

ENTREVISTADOS: HELENA MENDES FERNANDES E JOSÉ FERNANDES MERLO

Segundo o Professor Luiz Machado, Ph.D.: “Estamos equipados com estruturas cerebrais para encontrar meios de ultrapassar obstáculos e vencer desafios. Precisamos distinguir entre obstáculos-ameaça e obstáculos-desafio. Desafios são obstáculos, dificuldades que não ultrapassem os limites até onde podem estender-se as capacidades humanas. Como viver é vencer desafios, a natureza equipou-nos para isso. Se não estamos aceitando os obstáculos como desafios, não estamos realmente vivendo e não estamos sendo felizes. Em situações normais, o ser humano usa apenas uma pequena parte de seu potencial, de suas reservas cerebrais”. O casal Helena Mendes Fernandes e José Fernandes Merlo é exemplo de disposição invejável. Residem no Lar dos Velhinhos, onde são conhecidos como “Vovôs voadores”, embora possuam automóvel ambos cortam a cidade diariamente em cima de uma motocicleta, trabalham na administração de um pensionato. Não haveria nada de extraordinário se ambos não contassem com mais de setenta anos! Helena é natural de Tabapuã, próximo a Catanduva, onde nasceu em 1 de novembro de 1932, filha de Raul Mendes e Clara dos Anjos de Souza Lobato, José nasceu em 17 de dezembro de 1933, em Catanduva, filho de Guilherme Fernandes Pastor e Maria Pastora Merlo.

 

Sr. José até que idade o senhor permaneceu morando em Catanduva?

Eu era criança de colo quando a nossa família mudou-se para São Paulo, fomos morar no bairro Itaim-Bibi na Rua Urupês (atual Rua Jesuino Arruda). Estudei no Grupo Escolar Aristides de Castro que na época ficava na Rua Joaquim Floriano (O antigo prédio dessa escola, chamada de “Grupo Escolar do Itahim”, ainda na Rua Joaquim Floriano com a Rua Urussuí, foi inaugurado em 1925.). Éramos em 10 irmãos. Meu pai era negociante. Naquele tempo era tudo chão de terra, a condução mais fácil era o bonde que passava pelo Jardim Europa. O meu pai cortava lenha no meio do mato que havia ali no Jardim Europa, para usarmos no fogão á lenha da nossa casa. Ainda muito jovem quando fui trabalhar na garagem de ônibus da CMTC que existia no Itaim Bibi. Minhas irmãs trabalhavam na Fábrica de Chocolates Kopenhagen localizada na Rua Joaquim Floriano, ao lado havia um rinque de patinação. Em frente á Kopenhagen havia um cinema. O meu pai vendeu a nossa casa no Itaim Bibi, a área do terreno era 1.000 metros quadrados, com esses recursos ele adquiriu duas casas em São Caetano do Sul.

O Senhor permaneceu trabalhando na CMTC?

Por ser muito distante de São Caetano eu sai da empresa, meu chefe queria me transferir para a garagem do Brás. Meu pai queria montar um comércio para todos nós trabalharmos juntos, mas infelizmente ele faleceu, isso foi em 1945. Fui trabalhar na Cerâmica São Caetano, era ajudande de prensista, recolhiamos os ladrilhos que a máquina prensava. Em 1957 passei a trabalhar na DKW Vemag, onde permaneci por oito anos e meio. Lembro-me dos testes que eles faziam subindo nos morros para ver se os veículos tinham potência necessária. De lá eu fui trabalhar na Mercedes-Benz, nessa época tomei uma vacina e peguei hepatite, permaneci tres anos “de molho”! Trabalhei na Ford, na Divisão de Caminhões que ficava na Rua Henry Ford no Ipiranga. Fui funcionário da General Motors. Em 1965 entrei na Volkswagen onde me aposentei em 1983. Quando produziam algum carro para exposição, para deixar o carro no capricho, eu era convidado para trabalhar a parte de tapeçaria, estofamento e vidros. Eu trabalhava na Ala 13 da Volkswagen da Via Anchieta.

O senhor participou das famosas greves do ABC?

Eu era lulista até debaixo de água. Por causa das greves chegamos a levar cacetadas da polícia, época em que o Paulo Maluf era governador do Estado de São Paulo. Connheci Vicentinho, Jair Meneghelli e outros sindicalistas que se tornaram famosos.

Até que idade a senhora permaneceu em Tabapuã?

Fiquei na fazenda de propriedade da nossa família até os meus 31 anos. Em 1975 nos casamos e fomos morar na Vila Califórinia em São Caetano do Sul. Meus irmãos tinham se casado, só eu e um irmão estavamos solteiros. Eu trabalhava na roça, ia com o carro de boi enchia de milho, trazia até o paiol. Plantava e colhia mamona, vinha sentada em cima da carga. Tudo sózinha. Esse boi que puxava o carro era lindo, chamava-se Galante. Eu galopava a cavalo, lembro-me da Pampinha.

Após se casar a senhora foi trabalhar onde?

Fui trabalhar na Chocolate Pan. Quando fui me candidatar á vaga, passei na cabelereira, mandei cortar o cabelo no estilo franja, fiz um penteado. Já funcionária da Pan, comprei uma enceradeira na Eletroradiobraz a Chocolate Pan ficou sabendo que eu era casada. Fui mandada embora, eles só admitiam mulheres solteiras. Depressa fui trabalhar na Alpargatas, na Avenida Radial Leste. Houve um inicio de incêndio, fui até a cozinha tirei rapidamente as toalhas da mesa, molhei e abafei o fogo. Eles me colocaram para fazer curso de bombeiro, recebi o certificado com nota 10. Nessa época a Alpargatas fabricava entre outros produtos, o jeans, faziam a famosa alpargatas de sola de corda. Ao deixar a Alpargatas fui trabalhar nas Linhas Correntes, na Rua do Manifesto, no Ipiranga. O chefe chamava-se Eduardo, disse-me que não tinha serviço para mim, só tinha vaga para varredeira. Disse-lhe que aceitava, eu precisava do emprego. Antes de 90 dias de empresa passei a encarregada da seção de tubos. Funcionárias com anos de empresa não gostaram da minha promoção tão rápida. Desci o “Chico Reio”! Mostrei serviço, fiquei magrinha. Quando tinha que levar o óleo nos regadores para as meninas colocarem nas poçinhas e lubrificarem as máquinas eu era rápida. Dois anos depois, minha perna travou, não andei mais. Meu filho pequeno que fazia a comida e trazia para mim. Eu fiquei deitada. Voltei, passei pelos médicos, após cinco anos me aposentaram.

Dona Helena o que os trouxe á Piracicaba?

A nossa filha veio estudar na Esalq, em 1983 mudamos para Piracicaba, alugamos uma casa de propriedade do Ludovico Trevizan. Chegamos aqui não tinhamos o que fazer, eu coletava papelão, um carrinho de papelão dava para comprar uma caixa de óleo. Íamos a São Paulo, compravamos carros lá e trazíamos para vender em Piracicaba. Com o tempo o lucro já não compensava. Inventei de colocar um pensionato, vi umas casinhas velhas, entrei em uma divida enorme,devagarinho fui ajeitando e aluguei para estudandes. Na época a TAM tinha muitos pilotos, instrutores, em Piracicaba e eles passaram a se hospedarem lá. Foi o que me ajudou muito.

Quando foi a decisão de virem morar no Lar dos Velhinhos?

Era meu sonho! Diz Dona Helena. Dia de São Pedro vai fazer 13 anos que vim falar com a Rose, aqui no Lar dos Velhinhos. Nosso chalé é amplo e confortável, no quintal plantei muitas frutas.

Como surgiu a moto na vida do casal ?

Dona Helena responde: “Meu filho anda de motocicleta desde pequeno, meu neto, minha filha ia para a faculdade de moto”. Seu José completa: “A primeira vez que andei foi em Piracicicaba, eu já tinha uns quarenta e poucos anos. Decidi tirar a carteira de habilitação de motociclista.” Andamos todos os dias de moto, em tempo de matrícula da Esalq já chegamos a ir de moto cinco vezes ao dia até o pensionato.

A senhora ganhou uma medalha recentemente?

Foi nos Jogos Abertos das Ollimpíadas da Terceira Idade, ganhei a medalha de ouro de Miss Simpatia e Luxo. Aprendi sozinha a trabalhar com bijouterias, faço colares, lenços, pego caixa de fósforos, encho de lantejoulas fica muito bonito para festas juninas

Seu José o senhor navega na internet?

Quando conheci um computador, gostei. Comprei monitor, depois teclado, CPU montei um equipamento. Passei a digitar. Resolvi entrar na internet. Gosto muito disso ai. Se eu tivesse uns quarenta anos iria fazer de tudo para me aprofundar no campo de informática, já mexo com a internet há uns tres anos, eu sou muito persistente. Coloquei webcam para falar com a minha filha no exterior. Hoje já tenho também um notebook.

O senhor acha que independente da faixa etária a pessoa tem que estar atualizada?

Eu acho, com 77 anos sou atualizado, moderno. Ando de moto entro na internet, onde inclusive pesquiso preços de viagens.

Nas Festas Juninas do Lar dos Velhinhos a senhora é a noiva?

Todos os anos me escolhem para noiva. Eu e meu marido que puxamos a quadrilha. Eu mesma que costuro as roupas minhas e do meu marido.

Qual é a receita que vocês dão para chegar nessa idade com essa disposição?

Dona Helena diz: “ A receita é trabalho, trabalho, trabalho!” Seu José completa: “A pessoa tem que se atualizar, velho parado é velho atrofiado. Tem pessoa com menos idade do que a minha e que está toda bombardeada, porque não pratica nenhuma atividade”.

No Natal a senhora usou uma fantasia especial?

Mostrando várias fotografias ela diz: “Neste último Natal me vesti de àrvore de natal, a roupa ia até os pés cheia de contas, entreguei ás velhinhas cadeirantes quarenta e poucos colares que eu mesma fiz, a minha roupa pesava mais de cinco quilos, para o José fiz a roupa de Papai Noel, compramos sabonetes e ele levando o tradicional saco de presentes distribuiu aos velhinhos, foi o melhor natal da minha vida. ”. Qualquer evento que acontece no Lar o pessoal já nos inclui. Um dos hobby do José é a fotografia. Somos conhecidos como “Vovôs Voadores” ou “Casal 20”. Quando há blitz policial nós nem somos parados. Trabalhos muito, não dá tempo de ficar olhando o que passou. Eu já estou fazendo as roupas que vamos usar no próximo ano, utilizo muito babados de cortinas.

Dona Helena, vocês gostam de dançar?

Muito! Há uns cinco ou seis anos vencemos um Concurso de Dança por Resistência, quem ficasse mais tempo dançando ganharia o primeiro lugar. Foi uma promoção do Shopping Piracicaba, nós dois dançamos mais de duas horas. O prêmio foi um fim de semana no Hotel Fazenda Fonte Colina Verde, localizado na Estância Turística de São Pedro, o taxi nos levou na sexta feira e foi nos buscar no domingo, fomos tratados como principes.

A senhora acha que a falta de participação nas atividades coletivas piora a vida da pessoa?

A pessoa vai ficando velha! A pessoa se entrega, dorme o dia todo. Aos sábados temos o Clube do Vinil, depois tem o bingo. As quinta feiras temos um bailaço. Á noite eu fico fazendo minhas bijouterias, colares, e o meu marido fica na internet. Vamos dormir lá pela uma hora da manhã. No dia seguinte lavantamos as 8 ou 9 horas.
    
                                      

terça-feira, setembro 20, 2011

VANESSA DE GODOI CHIODI – GUARDA MIRIM

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 17 de setembro de 2011
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/

ENTREVISTADA: VANESSA DE GODOI CHIODI – GUARDA MIRIM
As descobertas tecnológicas dos últimos 50 anos revolucionaram a humanidade. Tudo ocorre cada vez mais rápido. Se para o indivíduo adulto administrar seu comportamento diante de tantas inovações é difícil, para o jovem em formação é algo mais complexo. Isso é um fenômeno mundial. A força da mídia conduz como carneiros milhões de consumidores ávidos por símbolos de sucesso e bem estar, os resultados dessa busca desenfreada produz consumidores vorazes em uma sociedade onde o ter á mais valorizado do que o ser. Milhares de jovens vivem em situação de risco, envolve obstáculos individuais ou ambientais que aumentariam a vulnerabilidade dos jovens para resultados negativos no seu desenvolvimento. A família vem mudando muito nos últimos tempos, família hoje se resume em pessoas que dividem o mesmo teto tendo laços parentescos ou de afinidades. A família constitui o primeiro e o mais importante grupo social de toda a pessoa, bem como o seu quadro de referência. Piracicaba tem um grande privilégio, do qual muito se orgulha, é a Associação Guarda Mirim Municipal de Piracicaba. Fundada em 21 de abril de 1966 pelo prefeito Comendador Luciano Guidotti e representantes da Sociedade Civil entre eles Rotary Club, Lions, Maçonaria e Guarda Civil, conforme projeto de Lei 1.161 de 1962, apresentado pelo Vereador Prof. Rubens Leite do Canto Braga. O Sub Inspetor da Guarda Civil Elias Domingos da Silva, o “Sub Elias” teve importante participação na implantação inicial da Guarda Mirim. “Não obstante tenha entrado em atividade há somente pouco mais de três meses, a Guarda Mirim, criada pela lei 1262-64 e alterada pela lei 1404-66, já se tornou uma corporação admirada e respeitada pela prestação de excelente serviço á coletividade, principalmente no setor de auxiliar da fiscalização de trânsito.” (Jornal de Piracicaba, 31 de julho de 1966). Conforme entrevista concedida ao jornalista e radialista João Umberto Nassif pelo Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo Frederico Ciappina Neto, que foi responsável pela Guarda Mirim desde a sua fundação até 2 de abril de 1984 ele diz: “Era formada por 30 meninos, mas um desistiu. Eram meninos terríveis! A metade deles era muito difícil. O inicio foi na cozinha da Guarda Civil. Não tinha nenhuma cadeira para sentar! Na cozinha era o comando. Eu consegui junto a duas empresas uma mesinha e um armário. Uma cadeira emprestada da Guarda Civil.Uma máquina de escrever emprestada. No fundo tinha um barracão de uma água só, aberto por sinal, esse prédio ficava na Rua Moraes Barros, 527. Enquanto a Guarda Civil ficou ali nós ficamos juntos. Dando instrução e preparando. Precariamente, porque não existia nada. Devagar fomos conscientizando a sociedade, a prefeitura, a Guarda Mirim nasceu municipal, a prefeitura é que mantinha, dava 20% do salário mínimo para o menino ficar 4 horas no transito.Ele tinha que estudar em um período. Se não estudasse não tinha direito ao ingresso”.Ele prossegue: “A função da Guarda Mirim quando foi criada era de ser auxiliar de transito. Os meninos trabalhavam cortando o transito da rua, faziam isso na Rua Governador Pedro de Toledo e outras principais ruas. Criamos até uma guarita, o menino manipulava aquilo, era um orgulho! Os meninos eram elegantes, simpáticos, o povo adorava a Guarda Mirim!” Ciappina continua : “A idade mínima era de 12 anos.É fantástica a responsabilidade da criança. A criança tem uma cabeça bonita, boa, limpa. Com 12 anos a criança esta começando a ser púbere. Não sabe nada ainda. Mas tem uma inteligência fantástica. Assimila rapidamente o que é ministrado.Se ele ficar solto irá adquirir costumes que a sociedade impõe, o meio impõe, e se ele ficar no lugar adequado ele irá receber a educação que o meio oferece. Essa lei que proíbe o trabalho ao menor de 16 anos é boa. Porém esdrúxula! A lei é boa desde que haja uma separação do ponto de vista. Separação de situações. Você não vai comparar o menino que trabalha em uma carvoaria aos 12 anos de idade com um guardinha que sentia a felicidade de participar da Guarda Mirim! Ele tinha prazer, era uma loucura, temos testemunhos fantásticos, um testemunho de João Batista Alves que foi cientista econômico, proprietário de duas casas comerciais em Piracicaba, esse menino fala o que ele viveu. O Vanderlei Jangrossi que foi vereador em São Paulo, pastor, esse menino diz: - A época mais feliz da minha vida foi a que eu passei na Guarda Mirim! Ele entrou com 12 anos de idade. Vários médicos foram guardas mirins. Eram garotos problemas! O meio iria destruí-los. Em 1966, na primeira turma, tivemos o Wilson Roberto de Barros falecido recentemente aos 49 anos de idade. Ele foi um médico psiquiatra muito famoso em Piracicaba, clinicava em vários hospitais, tem uma família bonita, ele morava em Rio das Pedras, os seus três irmãos passaram pela Guarda Mirim, um viajou o mundo inteiro, ele aprendeu a trabalhar em gráfica junto comigo, ele foi para a Esalq, acabou administrando uma tipografia, foi trabalhar em uma grande multinacional, acabou conhecendo o mundo viajando por todos os paises a serviço dessa empresa. O terceiro irmão foi para o Correio. Já deve estar aposentando. A Guarda Mirim tinha um coral fantástico. Temos aqui um panfleto do festival Internacional de Coros, realizado em outubro de 1977, participaram 47 corais de toda a América do Sul, a Guarda Mirim foi classificada entre os 20 melhores corais que se apresentaram!”.A Guarda Mirim acaba de inaugurar um prédio próprio, na Rua Gonçalves Dias, 721. São dois andares de instalações físicas com recursos adequados. A Assistente de Relações Públicas Vanessa de Godoi Chiodi traça um perfil da instituição nos dias atuais.
Qual é o nome oficial da Guarda Mirim?
Associação Guarda Mirim Municipal de Piracicaba.
Qual é a idade mínima para ingressar na Guarda Mirim?
Temos dois projetos, o Centro de Educação Profissional, que é o projeto de aprendizagem na área administrativa e o Projeto Banda Escola, é um projeto de banda onde a criança entra com doze a treze anos, os meninos vêm aqui, tem aulas de palheta, metais, temos dois maestros que trabalham conosco, um professor de percussão, eles tem aulas práticas e teóricas na área musical. Nesse projeto temos aulas de cidadania, valorização pessoal. Para ser aprendiz o aluno deve ter de 15 para 16 anos, estamos selecionando os nascidos em 1996. Ele irá ficar conosco no Centro de Educação Profissional durante dois anos, as aulas são aqui na Guarda Mirim e faz a pratica de aprendizagem em 60 empresas conveniadas todos na área administrativa, o curso que oferecemos é de Assistente Administrativo. Hoje temos aproximadamente 400 alunos, sendo metade meninos e metade meninas. Integram a banda cerca de 70 alunos. De acordo com a Lei 10097 eles têm que fazer a prática de aprendizagem que é o trabalho nas empresas e o curso teórico. Temos aprendizes que trabalham de quatro a seis horas, eles passam uma hora conosco e depois vão trabalhar.
Quais são os locais de origem dos componentes da Guarda Mirim?
O nosso público alvo do Projeto Profissionalizante está na faixa dos 15 a 16 anos, com renda familiar de zero a quatro salários mínimos, trabalhamos com adolescentes em vulnerabilidade social. Ele tem que estar freqüentando a escola regular. São requisitos básicos para seu ingresso na Guarda Mirim. No processo de matricula em nossa instituição eles passam por uma entrevista com a nossa assistente social. Temos que dar oportunidade aqueles que mais necessitam. Eles vêm dos mais diversos bairros, inclusive das cidades de Rio das Pedras, Saltinho.
A locomoção do Guarda Mirim obedece a alguma regra especial?
Estando uniformizado eles não pagam passagem de ônibus, o ingresso é feito sem passar pela catraca, no caso entram pela porta traseira.
Quais são as mantenedoras da Guarda Mirim?
Ela se mantém com esses convênios que admitem os aprendizes. Os Guardas Mirins são contratados pelas empresas através da nossa entidade.
Como é a procura de candidatos á Guarda Mirim?
No ano passado disponibilizamos 210 vagas, houve uma procura por parte de 500 adolescentes. Hoje estamos inaugurando uma sede nova com quatro salas, sendo três salas de aulas e uma de informática. A Guarda Mirim é uma Organização Não Governamental, ONG, seu presidente é José Sérgio De Favari.
Você percebe que quando o aluno ingressa tem um comportamento, e ao longo do tempo vai mudando seu comportamento?
Isso é muito perceptível. No inicio, por três meses, damos um treinamento de noções básicas, ele permanece na nossa sede. Aprende desde a atender a um telefone, postura, até noções de higiene pessoal. A Guarda Mirim é que oferece o uniforme, calça azul marinho, camisa azul clara, jaqueta azul marinho e sapatos. Eles só podem trabalhar em ambiente salubre.
Você percebe que os Guardas Mirins têm um comportamento diferenciado dos jovens da mesma idade que não freqüentam a Guarda?
Eles são mais responsáveis, esse processo de trabalhar e estudar, acaba provocando uma responsabilidade mais cedo. Nós temos o Projeto Iandê. (Segundo Cleuza Pio e Fernanda Aguillera a palavra 'Iandê' vem da língua Tupi Guarani e significa 'você'. A escolha do nome para o projeto desenvolvido na Associação Guarda Mirim Municipal de Piracicaba, se deu a partir do próprio significado e da constatação de que não era dada nenhuma orientação em termos de mercado de trabalho e recolocação profissional para o adolescente desligado da entidade. O adolescente em meio ao processo de saída em que deixa amigos, uniformes, cursos profissionalizantes, se vê de repente, sem rumo. Terrivelmente se sente só, desamparado e sem saber qual caminho seguir. Assim, a intenção do Projeto Iandê é orientar esse (essa) adolescente a trilhar um novo caminho agora com as próprias pernas. Porém, esta orientação educacional é a curto-prazo e tem o intuito de preparar o adolescente para que este consiga um trabalho fora da entidade).
Quando é mencionado que esse adolescente está em circunstância de risco, se ele não tivesse sido acolhido pela Guarda Mirim possivelmente estaria correndo um risco maior?
Aqui eles seguem o melhor caminho, que é o da educação, da assistência social, da valorização humana, trabalhamos nesse sentido.
Qual é a postura dos pais?
Os pais incentivam o ingresso de seus filhos.
Como é a apresentação da Banda da Guarda Mirim?
É sempre emocionante, temos um concerto todos os anos, “Viagem Através da Musica” acontece no mês de julho, a apresentação é no Teatro Municipal, com a presença dos pais, convidados. A Banda é o cartão postal da Guarda Mirim. Músicos famosos iniciaram sua carreira na banda, alguns seguem carreira fora do país. Nesse último concerto tivemos a participação de muitos músicos profissionais que foram guardas mirins. Marco Abreu que é um músico consagrado dá aulas aqui. Isso é um incentivo para os meninos.
Para eles o que significa a banda?
Eles são apaixonados pela musica! Alguns continuam na Banda e fazem o Conservatório de Tatuí.
Eles recebem alimentação?
Existe o restaurante da Guarda Mirim, fica na Rua Dom Pedro II, eles almoçam lá diariamente. Há uma médica para atendê-los todos os dias. Assim como psicóloga, assistente social, pedagoga. Temos também um projeto com os pais, achamos importante fortalecer esse vinculo familiar. Procuramos fazer com que os pais participem mais da vida dos seus filhos. Nesse sentido temos dois projetos: O Grupo de Diálogo Para Pais onde discutimos temas sobre o relacionamento familiar. Procuramos trazer um especialista sobre o tema que eles trazem.
Com as mudanças ocorridas na sociedade o adolescente está mais exposto ao assédio da mídia em todos os sentidos, como isso é trabalhado aqui?
Por isso temos o atendimento social e psicológico. A maioria colabora com a renda familiar. Nas aulas com a psicóloga há um grupo de diálogos, incluindo mídia, estimula os meninos a pensarem, a questão da cidadania é um traço muito forte aqui dentro. Aqui eles se sentem incluídos.
A paternidade precoce tem ocorrido com maior freqüência, isso acontece aqui?
Aqui não temos nenhum Guarda Mirim que seja pai! Trabalhamos temas como planejamento familiar, sexualidade na adolescência, saúde do adolescente. Eles têm atividade o dia todo, trabalham, estudam, fazem atividades aos sábados. A Guarda Mirim é uma entidade que muda a vida do adolescente. Mais de 70% ao sair da Guarda Mirim já estão empregados. Quem já foi Guarda Mirim acaba criando uma identidade.
Para quem trabalha com eles qual é o sentimento?
É ai que se vê como é gratificante trabalhar na área de assistência social. Os depoimentos de adultos muito bem sucedidos que foram da Guarda Mirim é altamente gratificante.
Há outro projeto desenvolvido com os pais?
Coordeno um projeto que é de culinária, chama-se “Projeto Sabor”, onde dividimos em módulos durante o ano, trabalhamos com as mães, pai ainda não apareceu nenhum, o curso é das 17:00 ás 20:00 horas, o primeiro módulo foi de panificação, padaria artesanal, outro foi de culinária trivial, e agora estamos fazendo o curso de salgadeiro e especial de Natal. São cursos de três meses, incentivamos as mães a comercializarem os produtos que elas aprendem a fazer, durante o curso trabalhamos também a questão do vinculo familiar, conversamos sempre sobre isso. A maioria das mães trabalha fora de casa.
Há muitas crianças com pai ausente?
Na própria sociedade é reduzido o numero de família modelo: papai, mamãe e filhinho. Hoje a família estruturada é composta por uma mãe que batalha, que luta para criar seus filhos, uma avó dedicada, ou até mesmo filhos criados só pelo pai. O importante é os pais se fazerem presentes na vida dos filhos, acompanharem, incentivarem.
O que afeta mais o adolescente?
É a falta de participação dos pais na vida dos filhos, muitas vezes gerada pela necessidade dos pais trabalharem e se ausentarem por longos períodos.
A Guarda Mirim tem um grupo de teatro?
É o Grupo Ronaumrose formado por Guardas Mirins, Ex-Guardas Mirins e aberto á comunidade. Quem dá as aulas é a Rosangela Pereira e a Magna Eliez do Grupo Guarantã, a Rosangela também é Ex-Guarda Mirim. Atualmente eles estão apresentando a peça “Acompanhe a Vida Escolar do Seu Filho”. É uma peça dinâmica e educativa, conta com uns 12 atores. Quem tiver interesse, basta encaminhar um ofício á Guarda Mirim, não necessita de palco especial. Tem a duração de 40 minutos.




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