Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

sexta-feira, setembro 07, 2012

MONSENHOR ORIVALDO CASINI

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 08 de agosto de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
ENTREVISTADO: ORIVALDO CASINI
Suceder alguém e dar continuidade ao trabalho desenvolvido com excelência por essa pessoa é um enorme desafio. Isso ocorre em todas as áreas profissionais. Empresas são suscetíveis a esse momento de transição e continuidade. Há uma diretriz na Igreja Católica que procura amenizar a carga de trabalho administrativo de um pároco após o mesmo atingir certa idade. Geralmente é convidado outro religioso, mais novo, para assumir oficialmente os atos paroquiais. Isso não diminui a importância do pároco anterior, ele continua exercendo suas atividades religiosas, celebrando missas, casamentos, batizados. Seu carisma é cada dia mais rico. Ao padre que assume a igreja legalmente perante as autoridades religiosas o seu esforço tem que ser muito grande. A comunidade nesse momento é muito observadora, analisa com lente de aumento quem é o sucessor. Faz isso de forma natural, até mesmo de forma inconsciente. Pesa muito a sabedoria do responsável por essa substituição. A Paróquia da Imaculada Conceição, na Vila Rezende, é um ponto de referência para os católicos piracicabanos, e até mesmo da região. Inúmeros casamentos foram celebrados na majestosa igreja, projetada pelo Arquiteto João Chaddad e construída as expensas do Grande Oficial Mário Dedini. Monsenhor Jorge Simão Miguel deu alma àquela paróquia. Carismático, ainda hoje é muito procurado em todas as ocasiões, seja celebrar um casamento, uma missa, um batizado. Muitos são os cristãos que o procuram para serem por ele aconselhados. Monsenhor Orivaldo Casini, que foi batizado pelo Monsenhor Jorge na Capela de Artemis, foi designado para assumir a Paróquia Imaculada Conceição. Conviver com um dos ícones de Piracicaba, Cônego Jorge Simão Miguel (Que muitos até hoje chamam de Padre Jorge, por força do habito) é motivo de muita alegria, mas implica em ter muita humildade diante de um símbolo vivo da Igreja em Piracicaba. Monsenhor Orivaldo Casini assumiu a paróquia com sabedoria, fraternidade e muita determinação. Nascido a 11 de julho de 1958, em Piracicaba no Distrito de Artemis, filho de Guerino Casini e Cecília Scarpelin Casini.


Isso em uma época em que Artemis era um local provido de mais recursos?


Minha mãe morava em São Pedro e segundo ela conta, meu bisavô tinha uma fazenda com plantação de café, em São Pedro. Naquele período da quebra do café eles fizeram empréstimos, a hipoteca foi executada e eles perderam tudo. Vieram para o Bairro Água Branca para cortar cana, não deu certo, mudaram-se para Artemis. Minha mãe conta que em Artemis tinha de tudo: estação de trem, cinema, cartório. Meus pais trabalhavam no corte de cana-de-açúcar. Quando eu tinha dois anos de idade meus pais mudaram-se para a cidade de Piracicaba, sou o mais velho de quatro filhos: eu, Sueli, Roseli e Claudinei. Aqui sempre moramos na Vila Rezende, o primeiro local onde moramos foi no Nhô- Quim, no Paiero. Meu pai passou a trabalhar em indústria, chegou a trabalhar no Dedini. Trabalhou no frigorífico próximo ao bairro Santa Terezinha. Meu pai faleceu com 28 anos de idade. Ele era um exímio pescador. Quando menino, com us cinco anos de idade, ele me levava junto, deixava-me sentado na barranca do rio, mergulhava e só voltava do rio com dois peixes cascudos na mão. Ia buscá-los na toca, no fundo do rio. Um domingo, após o almoço ele foi pescar com o meu tio. Aonde tem a Ponte do Caixão ele atravessou o rio com a tarrafa amarrada no peito, chegou até a outra margem e depois quis voltar, na volta, sentiu-se mal e faleceu no local. Minha mãe tinha 24 anos de idade, analfabeta, com três filhos e grávida de três meses do quarto filho. Morávamos em uma casa em frente onde hoje é o Quartel da Polícia Militar. Eu tinha sete anos de idade. A princípio fomos morar na casa dos meus avôs, Ela foi trabalhar, teve que aprender pelo menos a assinar o seu nome, para poder tirar sua documentação. Ela lançou-se a luta, trabalhando. Com 10 anos de idade eu estava na rua vendendo pipoca, vendendo doces. Dona Gertrudes, mais conhecida como Dona Tudinha, era vendedora de doces, tinha um carrinho de pipoca, eu fui ajudá-la. Ganhava alguma moedinha por dia. Os outros três filhos minha mãe levava para a creche. Onde foi construída a Biblioteca Municipal havia uma creche. Minha mãe saía a pé do bairro Paiero atravessava a ponte sobre o rio Piracicaba, caminhava até o centro onde trabalhava na casa de uma família. Ela fez isso por muitos anos.


Monumento á Mário Dedini, no centro o indústrial, a seu lado direito o metalúrgico e ao lado esquerdo o agricultor. Esse monumento a princípio foi instalado na Praça José Bonifácio, no centro de Piracicaba. Por questões políticas, foi transferido para a praça em frente a Igreja Imaculada Conceiçãom construída as expensas de Mário Dedini

O senhor estudou aonde?


Na Avenida Conceição, tinha uma escola que funcionava em uma casa, ensinava do primeiro ao terceiro ano primário. Minha primeira professora foi Dona Juracy Neves de Mello Ferracciú. A do segundo ano se chamava Maura. Do terceiro ano era Dona Elza. O quarto ano primário eu estudei no Grupo Escolar José Romão. Surgiu a oportunidade de fazer o curso preparatório no Instituto Baronesa de Rezende. para ingressar no ginásio. Fui fazer o ginásio ao lado da minha casa, nessa época morava na Rua João Teodoro, onde hoje funciona a Escola Abigail Grillo, durante o dia era Escola Abigail Grillo e á noite era Escola Dr. João Sampaio. Estudei a noite. E durante o dia vendia as pipocas, os doces. Concluindo o ginásio fui fazer o curso de Técnico em Mecânica na Rua do Rosário, no antigo Colégio Técnico, que hoje é a Escola Técnica Coronel Fernando Febeliano da Costa, tinha os cursos de mecânica e eletrotécnica. Conheci os professores Danilo Sancinetti, Professor Zocante. Meu primeiro emprego foi em uma granja, hoje seria talvez chamada de agropecuária, o proprietário era Dr. Isidoro, oficial de justiça. Tinhamos todos os tipos de rações para pássaros, galinhas, cachorros. Ele fechou a granja. Fui trabalhar como balconistaa em um supermercardo no Jardim Baronesa.Dali fui trabalhar na fábrica de vasssouras do Virgílio Naléssio, na Vila Boyes, fui vassoureiro, fabricava vassouras. Eu tinha de 18 para 19 anos. Fazia o percurso do Nhô Quim até lá de bicicleta, eu a tinha adquirido usada, de um parente próximo. Por um período recebia um valor fixo por mês, depois que aprendi a fabricar vassouras, que eram de boa qualidade, pintadas em várias cores, feitas com palha de vassoura, passei a ganhar pela produção realizada. Chamava-se Vassoura Pluma. Tinhamos um campinho de futebol, onde a bola estava eu ia junto. Tinhamos os cines Polyteama, Broadway e Colonial Eram os cinremas que eu frequentava por sinal os mais baratos. Nessa fábrica de vassouras trabalhei mais de quatro anos. Nessse período eu estava concluindo o curso de técnico em mecânica, veja como as coisas são por Deus. O nosso vizinho era do departamento de relações humanas da Dedini, disse que ia trazer uma ficha para preencher, ele iria levar ao seu departamento. Preenchi a ficha, ele me levou junto com a ficha. Lá fui encaminhado ao controle de qualidade da fundição, cujo diretor era Ari Regitano. Fui bem acolhido, sentei-me em sua sala, deu-me um modelo de madeira, um retângulo com um cubo em cima, e disse-me: “-Você faça planta, elevação e perfil desse modelo”. Eu não era bom desenhista, nunca gotei. Passei a tarde toda para fazer aquele desenho e saiu péssimo. Os desenhistas perguntavam : - Quer ajuda aí?” Ëu respondia:”- Estou terminando!”Chegou a hora de fechar o esritório e eu lá, tentando desenhar. Fui embora, voltei no outro dia, Regitano disse-me “- Você desenha mal. Só que é perseverante. Seu salário onde trabalha é muito baixo. Vou dar o serviço para você¨. A minha experiência na Dedini foi muito rica, um pessoal fantástico. Iniciei trabalhando como inspetor de qualidade, verificando as peças fundidas.


A vida do senhor melhorou bastante.


Melhorou, passei a ganhar razoavelmente bem. Minha mãe que desde a morte do meu pai teve que trabalhar para sustentar a família parou de trabalhar. A filha mais nova tinha se casado, a mais velha trabalhava, o menino estava na escola. Tudo foi-se encaminhando. Aquele desejo que estava em meu coração, de ser padre, voltou mais forte.


Como surgiu esse desejo em ser padre?


Eu o tinha desde criança. Admirava a figura do sacerdote, e essa figura era o Monsenhor Jorge, que está aqui na paróquia até hoje. No período em que trabalhei no supermercado, trabalhava inclusive aos domingos. Mas antes de entrar no trabalho, entre sete e sete e meia, vinha a missa das seis horas da manhã aqui, na Igreja Imaculada Conceição. Sozinho.


O senhor chegou a ser coroinha?


Na minha adolescência ajudava um grande sacerdote: Monsenhor Cecílio Coury. Participava do grupo de jovens, nossa paróquia era muito grande, a Paróquia São Pedro era capela pertencente a nossa paróquia, eu participava de um grupo de jovens denominado DDV, Frei Afonso era o nosso diretor espiritual.


A mãe do senhor teve influência na sua devoção?


Educação nesse sentido acredito que sim, ela sempre foi devota de Nossa Senhora Aparecida. A família não tinha o costume de participação na igreja. Naquela época o sonho de grande parte dos trabalhadores era ser funcionário da Dedini. Eu estava estabilizado, ganhando um bom salário. Isso foi em 1989, chegou um novo pároco á Paróquia São Pedro. Vieram dois padres da Itália: Padre Salvador Paruzzo da Província de Caltanissetta e Padre Giovanni Giglio veio de Ragusa, vieram a pedido do Bispo Dom Aniger. Giovanni foi ser pároco no Jardim Primavera e Salvador na Paróquia de São Pedro, sabendo do meu desejo ele me incentivou a ir pra o seminário.


Foi uma decisão muito difícil?


Muito difícil. Eu tinha o desejo de experimentar o seminário. Ao mesmo tempo tinha o meu emprego, o meu salário que ajudava a manter a minha família. Eu ficava em um dilema. Fui falar com o bispo da época. Disse-lhe que desejava ir para o seminário, tinha irmãos menores, minha mãe, se acontecesse alguma coisa com eles, uma necessidade, a diocese socorre? Ele disse-me que isso não era possível. Tomei a decisão de não ir para o seminário naquele ano. No ano seguinte mudou o bispo, chegou Dom Eduardo Koiak, sabendo da minha história mandou-me chamar. Conversamos, fiz a mesma pergunta a ele. Sua resposta foi: “- Você vá tranqüilo para o seminário, qualquer problema com a sua família nós estaremos aqui para resolver”. No ano seguinte, 1982, fui para o seminário em Aparecida do Norte, da ordem diocesana, conhecidos como padres seculares. Meu primeiro ano de filosofia foi no Seminário Bom Jesus, mais conhecido como “colegião”.Éramos em 97 seminaristas oriundos de todas as partes do Brasil. Esse seminário foi construído pelo Cardeal Arcoverde, o projeto inicial era em forma de “U”, não conseguiram construir, ficou em forma de “L”. São três andares. O grupo de Piracicaba era composto por uns 8 a 10 seminaristas. Permanecemos lá por um ano. O bispo nos transferiu para a PUC de Campinas, onde fizemos Filosofia, o único de Piracicaba que permaneceu lá foi o Monsenhor Rubens, atualmente capelão no Lar dos Velhinhos.


Em que local esse grupo de seminaristas se hospedava?


O bispo já tinha construído o seminário de Santa Bárbara D`Oeste. Fomos morar em nove, todos os dias íamos para Campinas, em uma Kombi. Fiz filosofia e depois teologia, completando nesses dois cursos oito anos de estudos. Enquanto se estuda teologia, aos finais de semana o estudante vai para as paróquias, aprender com os padres. Ele faz o chamado “estagio pastoral”. Ele é apresentado como seminarista. De segunda a sexta nossa vida era ir até a PUC, voltar para o almoço, e a cada dia tinha uma atividade: limpeza da casa, compras para a nossa manutenção. José Maria de Almeida foi nosso reitor, era fantástico. Ele foi pároco na catedral de Santo Antonio em Piracicaba. Quando o aluno conclui o curso de teologia é feita uma consulta para os leigos, padres, daquela paróquia. Se nada vai contra a ordenação desse menino, se ele pode se ordenar padre, ou não.


O senhor foi ordenado em que dia?


Fui ordenado diácono a 11 de maio de 1988 em Santa Bárbara D`Oeste e sacerdote no dia 6 de janeiro de 1989 na Paróquia São Pedro, aqui no Paiero. No meu tempo de estágio pastoral trabalhei no bairro Jardim Europa, uma comunidade muito pobre. Não havia padre, apenas a freira Irmã Celeste, que admiro muito. Ela perguntou-me se não queria ajudá-la naquela paróquia, o padre vinha de Americana, que pertencia a outra diocese.


O senhor como padre passou a trabalhar em que local?


Entusiasmado pelo padroeiro da comunidade, São Sebastião, quando aceitei trabalhar lá, o padre que vinha de outra diocese deixou de vir e a irmã precisou ir embora. Acabei ficando com a paróquia. Isso no inicio do ano, no final desse mesmo ano Dom Eduardo disse-me: “Você será ordenado padre, irá para Piracicaba, para a paróquia Santa Catarina”. Expus ao bispo a necessidade de um padre na comunidade Jardim Europa, em Santa Bárbara. Acabei permanecendo lá como o seu primeiro pároco. Era tudo muito pobre, não tinha igreja, não tinha casa paroquial, tinham feito um porão onde sábado a noite era feito um baile para arrecadar fundos e domingo a noite era a missa. O bispo disse que estava com problema do outro lado da pista, no bairro Jardim Molon. ¨-¨-Estou sem padre lá, você irá assumir também aquela comunidade¨. Ele me deu uma Kombi velha, não havia igreja, fiquei com essas duas paróquias. A igreja do Molon ficava em uma comunidade com pessoas com maiores recursos, o Padre João Rodrigues, claretiano, que tinha saído, era um padre fantástico. Tinha deixado tudo encaminhado, as colunas da igreja levantadas, a estrutura metálica já estava paga, telhado pago, fechei a igreja, e já pudemos entrar na Igreja São João Batista. No Jardim Europa levantamos a igreja, lá foi a minha ordenação diaconal. Fazíamos mutirão aos sábados, os homens faziam e colocavam o concreto, tinha um pedreiro contratado que durante a semana fazia as caixas para concretagem, ia deixando tudo pronto para o mutirão ser realizado. As mulheres faziam lanches, café, sucos. Era fantástico, tínhamos 50,60, 100 pessoas fazendo o mutirão. O bispo determinou que eu fosse para o centro de Santa Bárbara, na Paróquia São José e ser o reitor do seminário. Continuei também como pároco no Jardim Europa. Em um ano conseguimos fazer a casa paroquial nessa comunidade, a igreja católica alemã mandou recursos, isso foi no final de 1990. Ao terminar a casa paroquial o bispo mandou um padre para lá, eu nem cheguei a usá-la. No meu tempo eu era reitor da filosofia e da teologia. Após três anos e meio no seminário e quatro anos e meio em Santa Bárbara o bispo disse: “Você vai para São Pedro!”. Aos 74 anos tinha falecido o padre Floriano Colombi, após 37 anos de trabalho naquela paróquia, a única para a cidade inteira. Muitos fiéis nunca tinham visto outro padre a não ser o padre Floriano. Quando cheguei foi uma novidade, eu andava de bicicleta, foi notícia até no jornal da cidade. Após um período de observação passei a propor mudanças. Adquirimos terrenos na periferia para construir as capelas. Após dois a três anos tínhamos na cidade sete comunidades, e na zona rural 14 comunidades, a zona rural é muito grande, São Pedro tem 600 quilômetros de município. Tive a graça de logo que cheguei lá, um padre já com certa idade, se apresentou: “Sou o Padre Orlando, tenho setenta e poucos anos, estou hospedado em Águas de São Pedro no Hotel do Dr. Villa que é muito meu amigo, faço tratamento nas águas. O Dr. Villa está arrendando o hotel, tenho que sair de lá”. Disse-lhe: “-O senhor vem morar comigo, ficamos 12 anos juntos”. Hoje ele deve estar com 87 a 90 anos, mora em Rio Claro. Todo padre recém ordenado Dom Eduardo mandava passar um ano comigo. Conseguimos fazer muita coisa em São Pedro. Permaneci em São Pedro por 12 anos. Teve ano em que a paróquia tocou cinco obras ao mesmo tempo.


O senhor é um tocador de obras?


Penso que patrimônio tem que ser cuidado. Todo dinheiro que entra deve ser imediatamente aplicado.


Após permanecer em São Pedro o senhor assumiu qual paróquia?


Houve a troca de bispo, assumiu o atual, Dom Fernando Mason. Segundo o Código de Direito Canônico, todo padre ao completar 75 anos de vida entrega a paróquia ao bispo. Dom Fernando recebeu a paróquia de São José, do Monsenhor Luiz Gonzaga Juliani e da Imaculada Conceição do Monsenhor Jorge Simão Miguel. Imagino que até mesmo consultando outros padres, o bispo decidiu pela minha vinda para assumir a paróquia Imaculada Conceição. Assumi em 26 de fevereiro de 2006.


O senhor tem tido uma postura cristã e sábia, mantendo a figura do Padre Jorge em primeiro plano carismático.


Eu o respeito muito, acho que ele tem uma história em Piracicaba, sempre atendeu ao povo com muito carinho, não negava nada.


O senhor deve ter tido muita satisfação ao assumir a Paróquia Imaculada Conceição, particularmente pelo seu histórico de vida.


Eu vivi aqui, participei do grupo de jovens, nossas reuniões eram na sexta feira às 23 horas, não tínhamos outro horário, eram feitas no prédio em que estamos neste exato momento. É uma satisfação muito grande poder estar aqui ajudando a comunidade, encontrando meus amigos do grupo de jovens, da Dedini. Sinto-me em casa. Há pouco tempo celebrei o casamento de um filho de um amigo que trabalhamos juntos na Dedini. Faço batizados dos netos dos amigos que trabalharam comigo. Temos duas comunidades apenas: a Capela São Luiz e quando cheguei depois das missões Redentoristas, nasceu outra comunidade, próxima a Praça Parafuso, que é a Santo Frei Galvão, primeiro santo brasileiro. È interessante observar que na Paróquia Imaculada Conceição temos participantes da cidade inteira. Outra observação é que maio deixou de ser o mês das noivas, embora haja celebrações. Mas de setembro até dezembro não temos mais vagas. Realizamos todos os sábados três a quatro casamentos. Há casamentos ás sestas-feira.


Como anda a religiosidade do católico?


Os que são conscientes de sua fé estão muito firmes. O católico só de nome ainda busca alguma coisa, seja para atender suas necessidades materiais, físicas. Ele exige uma resposta imediata ao seu problema. Pela minha experiência na Imaculada temos uma participação muito grande de fiéis conscientes.


Qual é a posição do Monsenhor Jorge hoje?


Ele é pároco emérito, isso significa que ele só não responde legalmente pela paróquia, mas tem todas as atividades que sempre exerceu.


Monsenhor Jorge é um corinthiano fervoroso, o senhor também o é?


Sou palmeirense! Há pouco tempo ele fez uma aposta com uns amigos, perdeu e teve que vestir a camisa do Palmeiras.






MARIA HELENA AGUIAR CORAZZA

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 01 de setembro de 2012
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/


ENTREVISTADA: MARIA HELENA AGUIAR CORAZZA
Maria Helena Aguiar Corazza nasceu em Piracicaba, no dia 12 de agosto de 1937, na casa situada a Rua Governador Pedro de Toledo, 673, centro, Piracicaba, a casa existe até os dias atuais e é ocupada pelo Yázigi. Filha de Jorge Aguiar e Maria Aparecida Vieira Aguiar, que está com 99 anos, Maria Helena tem os irmãos Maria Lúcia e Jorge Roberto. Aos dois anos mudou-se com seus pais para São Paulo, foram morar no bairro Aclimação, de onde retornou aos 18 anos quando contraiu seu primeiro matrimônio com Antonio Corazza Júnior, com quem permaneceu casada por 51 anos, quando ele faleceu. Tiveram quatro filhos. Jorge Aguiar tinha comércio calçadista no então elegante centro de São Paulo, na Rua José Bonifácio, Rua Benjamin Constant. Mais tarde foi proprietário da Casa Marabá, em Piracicaba. Sócia fundadora do Clube da Lady, Presidente da Academia Piracicabana de Letras, lançou seu quinto livro, onde reúne uma pequena parcela das inúmeras crônicas publicadas anos a fio. Trata-se do livro “Crônicas de Maria Helena”.


Quando a senhora se casou e retornou a Piracicaba estranhou o ritmo de vida com relação a São Paulo?


Mesmo morando em São Paulo mantinha laços estreitos com Piracicaba, era aqui que eu passava as minhas férias. A família Aguiar Jorge era muito conhecida em Piracicaba, meus tios, minha avó Francisca de Aguiar Jorge ( Avó Chiquinha), o avô era José Jorge. O nome do meu pai deveria permanecer como era: Jorge Aguiar Jorge, só que ele, talvez por razões de ordem prática, suprimiu a repetição do Jorge no fim do seu nome, ficando Jorge Aguiar. Com isso não tenho em meu nome o sobrenome Jorge que minhas primas carregam em seus nomes. Eu me formei como professora na turma de 1956, no Colégio Assunção, depois de casada, fui a primeira aluna casada a terminar o curso no Colégio Assunção. Depois veio Terezinha Ferraz Leite, transferida de outra cidade, também casada. Éramos como se fossemos uma atração, tanto para as freiras como para as meninas.


Qual é a origem do sobrenome Jorge?


Meus antepassados vieram de Damasco, capital da Síria. Todos os povos e países têm seus encantos e desencantos.


A senhora é religiosa?


Muito. Sou devota de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Fátima, Santa
Paulina a Primeira Santa Brasileira. Estudei no colégio em que ela viveu no
Ipiranga, minha mestra Irmã Célia Cadorin foi quem fez o processo de beatificação
e santificação de Santa Paulina. Escrevi muito, sobre a vida toda de Madre Paulina, publiquei ainda no tempo em que o editor do Jornal de Piracicaba era Joacyr Coury . Escrevi muito sobre o Padre Galvão.


Como surgiu essa inspiração para a senhora escrever?


Não sei precisar. Ainda criança, com nove a dez anos já tinha muita facilidade em escrever, nessa época fiz uma redação cujo título era “Uma Gota da Água”. No final, encerro o conto comparando a gota d’água com uma lágrima. Leio muito, li clássicos, obras de Jorge Amado. Comecei a fazer Yoga, mas tenho um temperamento irrequieto demais. Uma vez arrisquei a participar de uma aula, isso há muitos anos, fui constantemente abordada por um pernilongo. Como poderia fazer Yoga sendo atacada por pernilongo? Sou a mais agitada em casa, mais do que meus filho, netos.


Como Presidente da Academia Piracicabana de Letras a senhora sabe por que o brasileiro ainda lê pouco?


O fator principal é o custo das obras.


Então como escritora a senhora teve bons rendimentos financeiros?


(Após uma boa risada Maria Helena volta a abordar o tema). Conheço pessoas que ocupam funções braçais, mas que gostam muito de ler. Como essas pessoas de poder aquisitivo restrito pode adquirir obras que custam 30, 40, 60 reais? Há a facilidade do livro eletrônico, eu não gosto, para mim tem que ser escrito no papel. Quando encontro algo que me interesso no computador, eu imprimo. Atualmente estou na fase de ler autores hindus.


Frases de efeito, motivadoras despertam seu interesse?


Posso até eventualmente citar alguma frase em algum livro que escrevi. Nunca irei contestar. “Quem espera sempre alcança”, que a pessoa vá atrás então, se não for nunca irá alcançar. Sem luta você não consegue nada. A pessoa tem que agradecer a sua saúde, que já vem naturalmente. Tenho horror a frase: “Era feliz e não sabia.” Quando estou feliz, digo: “Estou mesmo muito feliz, que coisa boa!”. E espero estar sempre muito bem, pois se pensar ao contrário a pessoa fica mau de verdade. Meu primeiro marido Antonio (Toninho) Corazza Júnior aos 41 anos foi acometido de uma doença que abalou, tirou o sossego, mas prosseguimos por décadas, persistindo, acreditando, com muita fé, trabalhando muito. Após a descoberta da sua doença ele viveu mais 31 anos.


Alguns anos após o falecimento do seu marido a senhora contraiu segundas núpcias?


Sou casada com o Dr. Luiz Antonio Abrahão, tem 55 anos de participação na OAB de Piracicaba. Parte da sociedade acha que uma viúva deve ficar em seu canto, recolhida, em seu luto. Conheci pessoa que por 10 a 11 anos ficou de luto, usando só roupas pretas. Na minha opinião isso é fraqueza. Não é fácil enfrentar isso. No dia anterior ao falecimento do meu primeiro marido, fui até a capela do hospital, descarreguei toda a minha dor, a ponto de fecharaem a porta da capela para evitarem que outras pessoas me vissem tomada por um sentimento de muita dor, minha manifestação escandalosa de sentimento de perda.


A senhora acredita que ao enviuvar-se, a pessoa não de ve se isolar?


Não pode se isolar. Essa é a grande mensagem que passo em um dos meus livros, que não é uma obra de auto-ajuda e sim de alto astral. Há pessoas que nasceram com o estigma de serem vítimas. Gostam de viver da comiseração (compaixão) dos outros. Quem irá suportar uma pessoa choramingando em um canto? Talvez isso suceda por dois ou três meses, depois ninguém mais vai tolerar. Você tem que usar a sua própria força. O processo de fé é muito importante, não é ser piegas, ser ingênua. Não se pode questionar Deus. Nós estamos neste mundo, mas existem milhões de galáxias. É melhor não questionar Deus e sim Tê-lo como uma energia. Há em cada um de nós uma força muito grande e que veio de algum lugar. Observe, quando você tem um pensamento muito forte você consegue. Eu estava revendo um livro “Santa Teresa de Ávila”, eu estive em Avila, ela conseguia ganhar as coisas com os mantras (orações repetidas) que ela fazia: “ Vou conseguir, vou conseguir, vou conseguir...) É lógico que existem limites, se a pessoa estiver falecendo, no fim de sua vida, atingiu o seu limite. Você não tem essa força.


A senhora freqüenta regularmente a igreja?


Tanto eu como o Luiz freqüentamos aos domingos.


Com sua experiência de vida, passando por muitas mudanças ocorridas nesses anos todos, sob o seu ponto de vista isso foi bom ou tornou as pessoas mais individualistas?


Contra o tempo não se pode ir. Hoje tudo que acontece é sinal dos tempos atuais. Houve uma inversão de valores, de disciplina, hoje os pais muitas vezes temem em dizer algo a seus filhos, os filhos em contrapartida dizem o que querem à seus pais. Desafiam professores, afirmando que são eles, alunos, que pagam o salário do professor. Há algumas décadas os pais controlavam os filhos apenas com o olhar. Pedia-se a benção aos pais, tios, padrinhos, avós. Existia o respeito pelos mais velhos, atitudes cordiais e respeitosas, como levantar-se e dar o assento aos idosos, grávidas. Hoje se tiver uma idosa quase sem forças, homens fortes, meninos grandes e sadios, ignoram. Ninguém liga para mais nada. Do rigor extremo passou-se a liberdade sem responsabilidade, sem limites. São atitudes inadmissíveis, qualquer ser humano é merecedor de respeito.


A senhora vive de bem com a vida?


Vivo. Tenho um processo de fé. Se perder o sono na madrugada, o que raramente acontece, eu rezo o terço. Tenho a certeza absoluta de que quando terminar de rezar o terço já estarei dormindo. O terço é uma arma. As orações funcionam como mantras.


A humanidade necessita de uma higienização mental?


Está faltando esse “voltar ao outro”. Ontem estivemos em São Paulo, no trânsito percebemos a agressividade das pessoas, uns contra os outros, independente de idade, sexo ou condição social, há uma violência gratuita.


São pessoas mal amadas?


Mal amadas, mal resolvidas consigo mesmas. Uma pequena contrariedade é motivo de reações violentas. São pessoas que não se realizam de nenhuma forma. O ser humano está estressadíssimo, completamente sem paciência. Egocêntricos. Colocam todas as fichas em uma determinada direção. Isso amesquinha a pessoa. Não acrescenta. Isso o leva a fazer uso de subterfúgios. Aos totalmente desprovidos de elementos necessários a sua sobrevivência o caminho das drogas é uma fuga, aqueles que mesmo tendo recursos necessários e entram nessa situação são pessoas carentes de carinho, atenção. Eu distribuo sorrisos, tapinhas afetuosos, abraços, atenção. Com a Dona Madalena Salati e mais 25 pessoas eu tomava conta da Casa do Bom Menino, eu passava a mão na cabeça de uma criança, dava-lhe atenção. Se um dia ele se tornasse um marginalizado, iria lembrar-se de que um dia havia recebido atenção e carinho de alguém. Isso poderá fazer com que ele imagine que existe pelo menos uma pessoa boa. Carinho é tudo. Toque é tudo. Existem muitos estudos e literatura sobre o poder do toque. Até os muito idosos sentem essa necessidade de afeto, quando vou a uma determinada casa de idosos procuro dar-lhes meu melhor sorriso. Confortá-los. Conheci e pratiquei o método Reiki que é uma prática espiritual esotérica baseada na canalização da energia universal através da imposição de mãos com o objetivo de restabelecer o equilíbrio energético vital.


A senhora considera-se uma pessoa extremamente ativa?


Sou. Até mesmo em reunião de condomínio, onde sou presidente da mesa, as medidas a serem tomadas procuro decidir de forma prática e objetiva. Sem muitas delongas.


Na cozinha como é a Maria Helena?


Se precisar ninguém passa fome. Criei meus filhos, cozinhava, dava aulas de piano. Da cozinha muitas vezes corrigia “– Fá sustenido!” ou -Si Bemol” Faço um bife muito bom, dizem que é melhor do que os outros, quando chega um neto, se não tenho nada pronto faço o “Arroz de Vó”. Tenho todos os molhos em pote assim como caldos de sopa, tudo natural. Atualmente consumimos muitas saladas e frutas. Mas já fiz muito quibe, principalmente o quibe cru, um dos pratos preferidos em casa. Um prato que faz muito sucesso é o mafufo que são charutinhos com folha de uva. Coalhada, homus, homus tahine, babaganuche, adoro halawi (doce árabe com pasta de gergelim).


A senhora tem o hábito de usar o Masbaha (Terço árabe)?


Não uso esse terço em particular, embora o tenha.


As pessoas não dizem que a sua vida são só rosas?


(Maria Helena ri.) Não existe isso! Eu sempre penso, mesmo nas piores situações: “- O melhor ainda está por vir!”


A mulher é cerne da família?


Com certeza! Uma mulher forte é um baluarte. Leva o marido, leva a família. O retorno sempre vem, e muito mais forte. Quando sinto alguma dificuldade com alguém peço a Nossa Senhora que toque o coração dessa pessoa. Isso dá certo.


Como a escritora Maria Helena vê o crescimento de Piracicaba?


É irreversível, o contrário seria dizer que Piracicaba deveria ficar presa, sem caminhar. Piracicaba cresceu de forma encantadora. Lembro-me da minha terra maravilhosa, com ruas ainda de terra, havia ribeirão a céu aberto, com suas pequenas pontes. Hoje ela cresceu, com um trânsito intenso, do bairro São Dimas até o bairro da Paulista pode-se levar quarenta minutos no percurso. Mas Piracicaba é uma cidade linda, muito bem tratada, nos dois últimos governos trabalhou-se muito nesse sentido. Há necessidades a serem resolvidas na saúde, na educação, só que essas necessidades só são quase inexistentes em países com alto grau de desenvolvimento. Mesmo nesses países há alto grau de suicídios, desgraças. Nesses países deveriam trabalhar mais a espiritualidade, isso no meu ponto de vista.


Suas memórias ruins, problemas, vão para o lixo?


Lembro-me de que devo confiar no Senhor de todo meu coração. Entrego a ele todos os meus problemas. Aplico isso. Converso com Deus. Não estou questionando onde ele está. As pessoas que deixam esta vida deixam também suas energias, e isso ajuda muito. Acho que essa energia não acaba nunca. Como disse São Agostinho: “-Eu apenas estou do outro lado do caminho!”.




Arquivo do blog