Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sexta-feira, julho 25, 2014

WALTERLY MOR5ETTI ACCORSI e LUCAS TEIXEIRA DE MORAES


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 28 de junho de 2014.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/

ENTREVISTADA: WALTERLY MORETTI ACCORSI e LUCAS TEIXEIRA DE MORAES

 

Walterly Moretti Accorsi é farmacêutica diplomada pela Unimep, advogada formada pela PUC de Campinas, nascida em Piracicaba, em 1944, a Rua Governador Pedro de Toledo esquina com a Rua Voluntários de Piracicaba, filha dos professores Walter Radamés Accorsi e Judith Moretti Accorsi. Walter Accorsi lutou na frente de batalha da Revolução Constitucionalista de 1932 e Judith costurava, fazia alimentos, doces, para mandar para a linha de frente dos revolucionários. Tem uma irmã, Waldith.  Ao lado está o universitário Lucas Teixeira Franco de Moraes conhecido na Esalq como “Jayminho” isso porque seu avô, Aldir Alves Teixeira, também estudou na Esalq, formado na turma de 1959, quando estudante trabalhou nos Correios como telegrafista.  Atualmente ele tem um laboratório em São Paulo que trabalha com a qualidade do café.

Waterly você tem larga experiência em fitoterapia?

Como diria uma amiga, Dra. Cilene, não é mais sangue que corre nas veias, é puro verde! Cresci dentro disso, quando me casei foi com um botânico, agrônomo, fui morar no Nordeste do país, conheci coisas maravilhosas, Sou formada em farmácia. o Brasil é um país fantástico, de dimensões continentais, um povo maravilhoso, uma etnia fantástica. Temos todas as origens e todos os vieses. A planta em si é encantadora. A origem do homem é o reino vegetal. O reino vegetal veio preparar o caminho do homem. Claro que é a abençoada química que interfere. Que tira a dor, tira o infarto, faz nascer o bebê que não está conseguindo nascer. No crônico, no preventivo, as outras alternativas são bem válidas e muito importantes. Todos estão muito intoxicados, quando há a ingestão de muita medicação antes de ocorrer um quadro agudo já foi criada a tolerância, no estado agudo dificilmente as substâncias terão o efeito esperado pelo médico. Daí a singularidade de não mais vender sem receita médica antibióticos, antiinflamatórios. Isso porque não tem mais o que fazer, terceira, quarta ou quinta geração já não faz mais efeito. Eu nunca tomei nenhum antiinflamatório, ma se pego uma gripe de uma pessoa que contumaz no uso dele, esse vírus que me foi passado está resistente, ele não irá responder a nenhum tratamento. É um problema endêmico. Um problema social, brasileiro.

Você se casou com um agrônomo?

Casei-me com José de Souza Sobrinho, agrônomo, botânico. Natural de Pernambuco, temos os filhos Walter e Ricardo, gêmeos. Tenho cinco netos.

Atualmente você tem um importante laboratório fitoterápico em Piracicaba?

Antonio Perecin que era um grande amigo do meu pai dizia: “- Accorsi, você não pode perder esse conhecimento, ele tem que ficar para o Brasil, para o mundo!”. Meu pai era um entusiasta, gostava de divulgar seus conhecimentos, gostava de estudar. Tinha um grande conhecimento, tanto no Brasil como no exterior. Muitas vezes no exterior ele terminou algumas pesquisas que as pessoas estavam por concluir. Isso ocorreu nos Estados Unidos, no Japão, Canadá. Nos últimos 23 anos da vida dele dedicou-se só a fitoterapia, ele estava focado em tudo que dizia a respeito. Às vezes uma pequena palavra que alguém dizia era o que faltava para ele completar a conclusão dele.

Como começou a paixão dele por plantas?

Foi desde criança. Meu avô tinha duas fazendas de café. Quando criança gostava de passear pelos cafezais, e por muitas vezes ouviu alguém dizer que tal planta era boa para isso ou para aquilo. Desde criança ele tinha um olhar especial pela plantinha que era tida como daninha, mas era medicinal. Meu pai estudou no Mackenzie em São Paulo depois veio estudar na Esalq.

Foi na Esalq que ele desenvolveu esse setor?

Ele estudou, quando ele se aposentou foi concedido a ele o título de professor emérito, foi lhe concedido um espaço na própria Esalq, onde permaneceu os últimos vinte e três anos e meio da sua vida. Ele sempre foi muito ético. Quando descobria algo que podia fazer bem e que não oferecia risco a saúde da pessoa, ele divulgava. Meu pai foi uma pessoa que percorreu o Brasil todo, viajou por muitos países, ele trazia consigo os conhecimentos étnicos. Ele sabia interpretar. Tinha muitos amigos na área médica, agronômica. Ele tinha segurança no que dizia. Antigamente havia pechas impingidas em portadores de certos males como câncer, AIDS. São colocadas por algumas pessoas sobre outras com o intuito de intimidar. Poucos sabem que esses males são frutos de experiências realizadas em buscas de outras medicações. Por isso se alastrou. Isso foi dito por pessoas que estavam no auge da vida acadêmica, eram pessoas de expressão, que poderiam sofrer represálias por conta dessa divulgação. Iriam incomodar alguns interesses. Essas pessoas que fizeram essas afirmações já não estão mais vivas. Meu pai tinha um amigo de infância, Coronel Fiori Marcelo Amantea, cuja esposa estava muito debilitada, com câncer, meu pai tinha ganho um caminhão de casca de ipê roxo que veio de Cruz das Almas, Bahia. Meu pai deu um saquinho com essa casca, para ser fervida. O coronel fez o chazinho, deu a sua esposa e essa senhora dormiu por três dias. A mulher melhorou, passou a ter uma qualidade de vida, o câncer tem marcadores, é como a diabetes, uma vez com ele sempre com ele. O oncogen está dentro da gente, ele irá se manifestar por genética, por estress.

Qualquer pessoa tem o oncogen?

Sim, e pode ser benigno ou maligno. Pode se manifestar ou não. Uma vez manifestado é possível ter qualidade de vida. Assim como a diabetes, pode estabilizar nos níveis aceitáveis, mas não existe como dizer que está curado, a qualquer momento ela pode se manifestar.

Após a melhora da esposa do coronel o que ocorreu?

Elçe ficou tão entusiasmado que passou a divulgar, ele foi falar com a Xênia que tinha um programa na televisão. Me lembro que todos os domingos iamos almoçar coma a minha avó em São Paulo. Estávamos todos almoçando quando o coronel ligou. Sabiamos que poderiamos colocar um artigo no jornal, ser um multiplicador, mas não tinhamos estrutura para atender a todos que procurassem após uma divulgação em massa. Foi feita a divulgação, meu pai ficou muito triste, vieram os interesses economicos, em vez de ter no mercado um produto de segurança foi constatado que algumas pessoas vendiam até serragem.

A Rede Globo divulgou os benefícios do ipê roxo.

Foi veiculado no programa Fantástico. Após isso meu pai ficou mais cuidadoso em divulgar os benefícios das plantas. Atualmente a maior quantidade de plantas fornecidas por distribuidoras são feitas por extrativismo. Isso significa que tem que ser tomado muito cuidado porque elas podem acabar. Não existe o cultivo de plantas medicinais.

Ha a presença de pesquisadores estrangeiros em nossas matas?

De fato eles estão mesmo pesquisando nossa flora. Como tudo é bio-tecnologia, uma questão de clone de células, uma pequena raspadinha com uma tampa de caneta é suficiente para levar omaterial genético para o exterior. Isso foi presenciado por uma pesquisadora. O quimico, bio-quimico ou fitoquimico, consegue desenhar aquela estrutura, seja ela de que origem for. Uma vez desenhada pode ser copiada na parte alopática. É uma pré-sintese de tudo: da fauna ou da flora.

Ha quanto anos você está nesse meio?

Eu cresci nesse meio. Morei de onze a doze anos no nordeste, com isso conhecia mateiro, reserva indigena, via como eram feitas as curas. Passar cinco horas com recursos acadêmicos de saúde e sarar no dia seguinte com uma planta. Ai que vem o sincretismo religioso e o foco daquela pessoa com a divindade, aquela crença. Tive uma vivência indigena que foi fantástica, fui para o Alto Araguaia, estava em uma reserva de Xavantes, permanecemos por vinte dias lá, pegamos gripe. Eles entram na mata e trazem para cada um uma plantinha que serve para a gripe. Dizem que a planta escolheuaquela pessoa para curar.

Lucas você é acadêmico da Esalq?

Estou no quinto ano de Engenharia Agronomica, nasci em 30 de setembro de 1991. Meu interesse por essa área surgiu a partir de quando passei a frequentar um centro de xamanismo, que é a prática espiritual mais antiga da humanidade. De ver o sagrado na natureza. De tentar uma conexão mais profunda com a natureza, como se ela fosse divina.

Lucas , você chegou a visitar alguma tribo indígena?

Já fui a uma tribo na Amazonia, conheci aqui em São Paulo a Aldeia Quiruá. Acredito que exista muito interesse dos jovens pelo assunto, embora esses aspectos não sejam muito abordados dentro da universidade ou mesmo em nosso contexto social. As pessoas não tem acesso a essas informações.

Há outros jovens estudantes com essa visão mais voltada ao mistico, ao espiritual?

Há sim. As plantas são cultuadas e sendo reconhecidas como sagradas pelos nossos ancestrais, desde o começo elas tinham esse poder divino de conexão com o mundo espiritual e do poder de cura do fisico, espiritual e mental. Durante a história da humanidade todas as civilizações tinham algumas plantas de conexão, as plantas ritualísticas, e dentro disso tinham as plantas medicinais, eram utilizadas com preceitos religiosos. A primeira bebida que seria sagrada na história da humanidade é o Soma. (Soma é uma bebida ritual da cultura védica e hindu, é também o nome da própria planta da qual se extrai a bebida, bem como a personificação do Deus dos Deuses. Existem nos Vedas (Rigveda, Soma Mandala) 114 hinos exaltando suas qualidades). No Brasil temos uma bebida que já foi considerada patrimonio cultural brasileiro pelo então Ministro da Cultura Gilberto Gil que é a Ayahuasca.

Walterly você já esteve no Japão, qual é a opinião deles a respeito das plantas?

Fui acompanhando o meu pai, ele foi quatro vezes ao Japão. Conhecemos um Japão ocidentalizado, com o consumo de muito tabaco, cerveja, remédios alopáticos. Mas há um Japão que ainda cultiva a tradição, dos chás, eles cultuam muito o idoso que foi produtivo, fomos levados para conhecer um idoso que esteve presente em Hiroshima. Ele nos ofereceu um chá de babosa. Tem um gosto horrível.

Walterly quando se produz um remédio sintético é utilizada como base algo produzido na natureza?

A primeira síntese foi do salgueiro: o ácido acetilsalicílico, Em 1897, o laboratório farmacêutico alemão Bayer conjugou quimicamente o ácido salicílico com acetato, criando o ácido acetilsalicílico foi o primeiro fármaco a ser sintetizado na história da farmácia e não recolhido na sua forma final da natureza. Foi a primeira criação da indústria farmacêutica. A visão da pessoa pelo Oriente é como um todo, a soma que é a parte física e o sutil, que é a nossa emoção, a nossa alma. É interessante como os nossos indios agem, ele dá um chá, uma determinada bebida ou ainda ele fuma e põem em você a fumaça. Essa fumaça penetra os oros e faz um outro tipo de tratamento.

Pelo que estou entendendo, se a pessoa sofre de um problema cardiaco a origem pode ser emocional?

Não! A pessoa tem programado geneticamente para ter esse problema. Pode se acentuar ou suavizar através da vida dessa pessoa. Com seus traumas e suas realizações.

Qual é a receita para viver bem?

Meu pai dizia três frases: 1-) Se ocupe. Não se preocupe. 2-) Não deixe que as coisas interfiram em você. 3-) Ontem é a base do futuro e a força do presente. Todo ese conhecimento, o que você acertou, continue pesquisando. O que errou, pare. O que vai fazer essa análise é o presente. O que hoje é muito doido amanhã não será mais. O que hoje é muito importante incorpore a sua vida. O que doeu muito use como exemplo para que não ocorra mais.

A humanidade está em uma corrida suicida?

As pessoas se preocupam em ter e não em ser. Isso é uma corrida suicida. O modelo economico é que fez isso. Se você não estiver com o sapato da moda, não tiver o carro da moda, se não visitar os países da moda. A sua felicidade está na sua mão, você não depende de nada de fora, de ninguém. A sua felicidade pode ser acrescentada por agentes externos, mas não depende dos outros a própria felicidade.

Qual sua visão de evolução humana, Lucas?

Aos poucos as pessoas estão tomando conciencia de que a forma em que vivemos não é a forma correta. Em janeiro desse ano Domenico De Masi (Sociólogo italiano contemporâneo, famoso pelo seu conceito de "ócio criativo" segundo o qual o ócio, longe de ser negativo, é um fator que estimula a criatividade pessoal), escreveu um texto dizendo que o Brasil poderia inspirar a humanidade na criação de um novo modelo de desenvolvimento, e que esse modelo poderia surgir dos indios. Acredito que a desigualdade social, depresão, corrupção, violência, são doenças que afetam nossa população. A cura vem da reintegração do homem com a natureza. Da utilização das plantas como remédio.

Walterly a humanidade está doente?

Não está doente, está em transição.

Walterly, a nossa flora oferece muitas opções?

O açafrão-da-terra (curcuma longa) é o açafrao brasileiro, não é concentrado como o indiano, que é caríssimo, esta sendo realizado um trabalho com a coordenação do Professor Lindolfo, que é de multiplicar essas plantas, fazer um horto de plantas medicinais, ensinar como devem serem usadas, a Dra. Nair, médica sanitarista instrui sobre o uso dessas plantas. Outra planta fantástica é a ora pro nobis (Pereskia aculeata), é muito consumida no Sul de Minas Gerais consumida com frango, parece uma verdura, é extremamente proteico. O Brasil tem muitos recursos.

 

AMÉLIA DAL PICCOLO COLETI


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 28 de junho de 2014.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/

ENTREVISTADA: AMÉLIA DAL PICCOLO COLETI

 

Da. Amélia em sua poltrona, de sorriso espontâneo, muito bom humor, relembra fatos que remontam décadas. Aos poucos vai se soltando, um café é servido. Lê sem usar óculos. Na escola era sempre escolhida para declamar. A sala repleta de móveis e fotografias nos remete a um passado recente. Sua filha, professora e escritora Leda Coletti acompanha todos os seus movimentos e vontades. Há um clima de festividade no ar, dia 5 de julho de 2014 Amélia Dal Piccollo Coleti estará celebrando 100 anos de vida! Muitos dos seus familiares preparam-se para a grande comemoração. Amélia nasceu em Piracicaba, no Sítio da Santa Fé, a cerca de oito quilômetros de Piracicaba. Seus pais Martinho e Marieta Dal Piccolo tiveram onze filhos: Guerino (1897), Thereza (1898), Rita (1900), João (1902), José (1904), Josefina (1907), Maria (1909), Elvira (1911), Amélia (1914), Corina (1917), Dionísio (1918), sendo que os oito primeiros nasceram em Batatais os demais no Sítio da Santa Fé, município de Piracicaba. Martinho e Marieta adquiriram o Sítio da Santa Fé de Joaquim Maria de Souza que tinha recém-construido um casarão com oito cômodos. A propriedade compreendia 24 alqueires paulistas de terra.  Entre outros bens possuía engenho de pinga, capela, 3 casas geminadas para os colonos, chiqueiro com porcos, rancho dos arreios, cocheira, vacas, burros, arados, riscadores, trole, carroças, pomar já formado e outras benfeitorias. Tendo como ponto de referência o ribeirão Guamium, tinham como vizinhos, do lado esquerdo, partindo do Bairro Via Nova, os seguintes sitiantes: Viviani, Freschinette, Coletti, Penteado, Marchini, Galvão até o tanquinho de água da família Furlan, local próximo onde hoje está a Indústria Codistil, na Cruz Caiada. Do lado direito havia os vizinhos: Panciera, Zocca, Perón e Furlan. A estrada de terra com destino a Piracicaba e Rio Claro ficava distante da sede pouco mais de um quilômetro. O abastecimento de água era feito pelo poço movido a corda com carretilha, iam também buscar água na nascente (olho d`água) na divisa com o sítio da família Galvão. Não havia luz elétrica, usavam-se lampiões e lamparinas. Com o passar do tempo o casarão foi aumentado com mais dois cômodos. Havia também um quarto para o frade, era no casarão que ele se hospedava quando vinha celebrar missa mensalmente e nos dias de festas. Da. Amélia casou-se com Antonio Coleti, agricultor, empresário agro-industrial, que foi suplente de vereador em Piracicaba, ao assumir a vaga deixada pela ausência de um dos vereadores, participou da proposta da construção da rodoviária interurbana de Piracicaba, localizada onde está a atual, hoje reformada. Até então cada empresa de ônibus tinha um local de onde partia. Por muito tempo a AVA Auto Viação Americana que ligava Piracicaba a Campinas, passando por Santa Barbara D`Oeste e Americana, saia da sua “agencia” situada a Rua Prudente de Moraes, próxima a Rua Santo Antonio. Isso foi no tempo em que vereador não recebia nenhum salário para trabalhar, ele vinha da Vila Nova para as sessões na Câmara Municipal de charrete, percorrendo quase vinte quilômetros a noite entre vinda e volta. Sua filha Leda Coletti é professora, escritora e poetisa, ela preserva a história da família, um dos seus livros é  “A Saga dos Dal Piccolo”. 

Com que idade a senhora começou a trabalhar?

Aos doze anos já trabalhava com a enxada, plantávamos tudo que consumíamos. Ajudava a tratar dos animais, cuidava da horta. A alimentação era bem variada, mas não podia faltar polenta todos os dias. Meu pai adquiria do seu cunhado de São Roque uma cartola de vinho por ano. Até hoje às vezes tomo um pouco de vinho. Aos domingos  todos tomavam vinho.

Além de trabalhar na roça, a senhora freqüentou a escola?

Estudei até o terceiro ano a professora era Dona Risoleta Dias Ferraz. Para ir à escola andava quatro quilômetros a pé para chegar à Escola da Vila Nova. Passava pela propriedade da família de Antonio Coleti, seu pai Luiz Coleti foi uma pessoa muito conhecida por ter construído os primeiros engenhos de pinga da região, construía inclusive chaminés. Ele faleceu com 79 anos, alguns anos antes construiu o engenho do sítio da família Dal Piccolo Coleti. Luiz Coleti era muito amigo de Mário Dedini.

Como se chamava o sítio da família Dal Piccolo?

Era o Sítio da Santa Fé. A família sempre foi católica praticante. A vida girava em torno da capela, a qual possuía um quadro que representava a Santa Fé (Daí o nome do bairro). Antonio Coleti, que se casou comigo era neto do proprietário de um sítio vizinho, que ficava a uns dois quilômetros da Vila Nova.

A senhora caminhava a pé até a escola, e quando chovia?

Caminhava pelo barro, naquela época era comum as crianças andarem descalças. Eu era boa aluna, tinha as melhores notas, gostava muito de estudar.

Com quantos anos a senhora se casou?

Começamos a namorar eu tinha dezoito anos, aos dezenove anos nos casamos, em 9 de novembro de 1933 na Igreja Imaculada Conceição, na Vila Rezende, o Monsenhor Rosa foi o celebrante. A viagem de núpcias foi para Bom Jesus de Pirapora, Luiz Coleti, pai do meu marido, foi dirigindo um automóvel de propriedade da família. Era estrada de terra na época. Fomos em um dia e voltamos no dia seguinte.

Após se casar em que local a senhora e seu marido Antonio Coleti foram morar?

Como era muito comum na época, fomos morar na casa do meu sogro, com as minhas cunhadas, sogra. Em 1941 meu marido construiu uma casa muito bonita, que inclusive foi escolhida para receber o bispo quando o mesmo esteve em visita na localidade. Em 1936 nasceu a primeira filha Gemma Guiomar, em 1941 nasceu a filha Leda e em 1946 nasceu José Tadeu. Sempre gostei muito de cultivar flores. Meu marido cultivava cana de açúcar e tinha um engenho de aguardente movido a vapor. Os engarrafadores iam buscar a aguardente com caminhão, um deles era o Del Nero, que tinha depósito no alto da Rua Boa Morte.

A senhora e seu marido adquiriram uma casa em Piracicaba?

Isso foi em 1948, além do sítio, adquirimos uma casa na Rua Governador Pedro de Toledo, entre a Rua São Francisco e Joaquim André, onde bem mais tarde foi ocupada pela Fundação Jaime Pereira. Permanecemos lá por uns dois anos. Meu marido vendeu essa casa e com seu tio Pedro adquiriram uma propriedade próxima a Rio Claro. Decidiram montar uma usina de açucar junto com a família Ometto, em Iracemapolis. Após algum tempo meu marido vendeu a sua parte aos Ometto e adquiriu a propriedade de Ipeuna. Por volta de 1965 a 1966 ele decidiu montar um engenho de aguardente nessa fazenda. Com o tempo ele arrendou o engenho e passou a ser fornecedor de cana de açucar.

Naqueles tempos havia muitas festas no sítio?

Meu marido tinha um conjunto musical que animava todas as festas da região era conhecido como “Conjunto do Toninho Coleti”. Ele tocava clarinete, banjo, violão.

A senhora lembra-se de alguma música da época?

Da. Amélia animada põe-se a cantarolar: “O jardineira por que estas tão triste/
Mas o que foi que te aconteceu/ Foi a Camélia que caiu do galho/ Deu dois suspiros e depois morreu”.

Como se deu o inicio do namoro entre a senhora e seu futuro marido?

Ele mandou-me um recado que queria namorar comigo. Mandei dizer-lhe que não recebia recado, se quisesse que viesse falar comigo. Ele veio falar comigo. Ai começamos a namorar.

A senhora é muito religiosa?

Sou devota de Santo Antonio e São Judas Tadeu. A propriedade recebe o nome de São Judas Tadeu e a Capela é Comunidade São Judas Tadeu.

Como a senhora se sente em estar completando 100 anos de vida?

Nem faço idéia! ( Da. Amélia provoca gargalhadas nas pessoas presentes).

A senhora viajou, passeou muito quando casada?

Meu marido não gostava de sair, ele dizia: “- Vou para o meu canavial! Isso que é lindo!”. Era muito trabalhador. Caseiro. Sempre tinha gente em casa que ia tocar sanfona junto com ele que tocava violão. Todo ano tinha festa junina.

Para locomover-se nas vizinhanças qual era o meio de transporte utilizado?

Usava charretinha, ia as fazendas da Corina, Elvira. Eu conduzia a charrete. Vinha à Piracicaba, que era chão de terra e ficava a uma distância de uns dez quilômetros. Era a estrada que liga Piracicaba a Rio Claro. Logo que meu marido adquiriu o sítio ele levava as duas meninas para a escola até Rio Claro, distante cerca de dois quilômetros, em um automóvel Cadillac. Elas voltavam de jardineira da empresa Marchiori. Enquanto a casa não ficava pronta na fazenda, eu ficava com meu filho em nossa casa de Piracicaba, muitas vezes quando chovia a estrada que liga Piracicaba a Rio Claro ficava intransitável, tinha que dar a volta por São Pedro, que também era de terra. 

Naquela época muita coisa era feita em casa mesmo?

Fazíamos de tudo. A lingüiça era feita em casa. Sabão era feito em casa, comprávamos a soda, misturava com cinza, gordura, e fervia essa mistura toda até chegar ao ponto certo. As panelas eram areadas. A água era de poço, o poço ficava a uns 100 metros da nossa casa. A água era difícil em Rio Claro. Meu marido faleceu aos 83 anos em 1996.

A senhora além da casa na fazenda tinha outra residência em Piracicaba?

Em 1966 adquirimos uma casa na Rua do Rosário, entre a Rua Gomes Carneiro e a Rua Floriano Peixoto. Em 1970 decidi permanecer o tempo integral no sítio até 1977. Nós tínhamos adquirido uma casa na Rua Ipiranga, onde havia morado Jethro Vaz de Toledo, a casa existe até hoje, está sendo usada para fins comerciais. O quintal dessa nossa casa fazia divisa com o quintal da casa onde residiu ainda menino o Governador Adhemar de Barros.

Atualmente a senhora reside em um apartamento, como foi a reação do marido da senhora quando entrou em um apartamento, uma vez que ele gostava do horizonte sem limites da fazenda?

Ele vinha durante a semana e aos finais de semana, o resto do tempo permanecia no lugar que gostava muito, que era a fazenda. Em Piracicaba ele ia à Cooperativa dos Plantadores de Cana, ia à missa, ele era muito popular,bastante comunicativo.

A senhora gosta de animais?

Sempre gostei muito, tenho predileção por gatos. Lembro-me com saudades da Naná, uma gata lá do sítio. Lembro-me do Rio Guamium.

Quantos netos a senhora tem?

Tenho cinco netos e seis bisnetos.

A senhora gosta de compor versos?

Gosto muito.  ( No livro de Leda Coletti, “ A Saga dos Dal Piccolo” tem as trovas redigidas pela “mama” Amélia nos seus 89 anos)

 

Gosto de fazer versinhos

que valorizam o bem

e, embora sejam curtinhos

muitas verdades contém.

 

Tenho oitenta e nove anos

com cabeça de mocinha,

filha de pais italianos

sempre gostei de trovinha.

 

Todos nós necessitamos

de proteção e respeito

mas, para isso é preciso

comportar-nos desse jeito

 

Fraternidade cristã

dá sentido à existência

e doar-se a alma irmã,

aceitá-la na vivência.

 

Jesus nos deu o exemplo

morreu pregado na cruz,

fez de sua vida um templo

fez a treva virar Luz!

 

JOÃO JOSÉ SOARES


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 28 de junho de 2014.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
 

ENTREVISTADO:  JOÃO JOSÉ SOARES

SINDICATO DOS TRABALHADORES EM TRANSPORTE URBANO DE PIRACICABA E REGIÃO

 

O senhor é natural de qual cidade?

Sou meridianense, nascia 25 de setembro de 1951 em Meridiano, um município do Estado de  São Paulo fundado em 1960 e pertence à Microrregião de Fernandópolis.Sou filho de Deocleciano José Soares e Felicidade da Costa Soares. Eles trabalhavam na agricultura. Tiveram os filhos: Maria, Manoel e  eu João José.

Até que idade o senhor permaneceu em Merediano?

Até meus 16 a 17 anos. Lá estudei até o quarto ano primário, mais tarde complementei meus estudos, já em São Paulo.

Em Meriadiano o senhor já trabalhava?

Trabalhava na roça com algodão, arroz, todo tipo de cultura que fosse plantada tinha que trabalhar. Comecei a trabalhar aos sete anos.

Quem decidiu mudar para São Paulo?

Foram os meus pais, fomos morar na Vila Guarany, mais tarde conseguimos adquirir um terreno em São Mateus onde construimos uma casa. A mudança nossa foi feita com um caminhão, um Chevrolet Brasil. Nós tinhamos um primo que trabalhava como empreiteiro nas Indústrias JB Duarte S/A, que produzia óleos vegetais para fins industriais e alimentícios. Esse meu primo contratava o pessoal que descarregava os caminhões que chegavam carregados de amendoim, soja, girassol, grãos, para fabricar óleo entre eles os de marca “VIDA”, “ÓLEO MARIA”, “GILDA”, “CERES”, e “JB”. Fui trabalhar com o meu primo isso foi em 24 de julho de 1968. Em 1970 ou 1971 acabei sendo admitido pela JB Duarte.

O senhor continuou fazendo o mesmo trabalho?

Aí peguei um serviço mais leve, encaixotar as latas de óleo nas caixas. Na época éramos cerca de 300 funcionários. Nesse tempo levávamos as marmitas de casa. Eu era o último que almoçava.

Por quê?

Isso foi no período em que eu trabalhava limpando os tanques dos caminhões. Internamente a cada metro e pouco havia compartimentos, para que o óleo não entornasse o caminhão, com um rodinho eu entrava nos tanques, tirava a borra de óleo que sobrava, era uma pasta que sobrava da moagem do amendoim da soja, utilizada para fazer sabão, havia outros subprodutos como o óleo, a prensagem dos grãos era feita na unidade de Santo Anastácio, o macacão que eu usava ficava todo sujo, eu almoçava por último por causa do cheiro que exalava em função do trabalho que exercia. Dependendo do dia eu limpava três a quatro caminhões no dia. Um caminhão de 30.000 quilos deve ter 6 repartições. Existe um buraco de uma repartição para outra, como eu era magrinho passava por elas. Era um serviço gostoso, melhor do que trabalhar na roça.

Quanto tempo foi  a sua permanência na JB Duarte?

Foi por volta de um ano e meio, em 1972 fui trabalhar como cobrador de ônibus, a Vila Ema Transportes Coletivos Ltda.

Qual foi a sensação que o senhor teve no primeiro dia de trabalho como cobrador de ônibus?

Foi a pior possível. Aquele mundo de gente em pé, nem sempre tinha o troco certinho para voltar, isso no tempo em que o cobrador dava dois puxões na cordinha de sinal para fechar a porta traseira. Naquela época não existia a carteirinha de idoso, todo mundo pagava a sua passagem. No ponto final fazia a leitura dos números da catraca, entregava a féria ( dinheiro das passagens recebidas) na última viagem. Em cada ponto final fazia uma leitura, se fossem quatro viagens seriam quatro leituras.

Quanto tempo durava uma viagem de ônibus na linha que o senhor fazia em São Paulo?

Cheguei a ficar três horas em uma única viagem. Da Vila Ema ao Parque D.Pedro.

Pessoas muito obesas às vezes não passavam pela catraca?

Isso sempre existiu, assim como gestantes, cadeirantes, são pessoas que pagam a passagem, mas não passam pela catraca, que é girada pelo cobrador para registrar a passagem.  Após oito meses tirei a carteira de motorista. Saí da empresa e por oito anos trabalhei como motorista de caminhão. O primeiro caminhão que fui dirigir foi um Mercedes-Benz, modelo 1519. Trabalhei com Scania, com o Mercedes 1520, Alfa-Romeu. Atualmente a tecnologia evoluiu muito, o próprio computador trava o veículo se ele não estiver em condições de sair rodando. Antigamente o painel mostrava óleo e água, isso quando acendia.

O uso do freio do caminhão exige muita técnica por parte do motorista?

Todo transporte, inclusive o urbano, tem o freio motor, é um sistema de freio que ajuda a reter o veículo. Se eu pegar uma serra, e descer o tempo todo pisando no freio, a lona de freio sofre um desgaste anormal, o ar que aciona o freio se estiver carregando direitinho não tem nada a ver. Imagine 40.000 toneladas descendo a Serra de Petrópolis, que considero uma das mais acentuadas do país, o motorista tem que ser muito hábil, descer em baixinha velocidade, o freio motor e o freio a ar é conjugado, portanto a velocidade tem quer muito lenta na descida. Vemos caminhões de alto custo sendo conduzidos por motoristas que apesar da elevada responsabilidade que assumem, recebem uma remuneração totalmente inadequada. Muitos acidentes que ocorrem hoje poderiam ser evitados se não submetessem os motoristas a uma carga horária de trabalho acima da capacidade suportável.

Mas recentemente foi decretada uma lei que regulamenta o tempo de trabalho e o tempo de descanso a cada jornada do motorista.

Infelizmente é uma lei ainda impraticável por falta de infra-estrutura nas estradas. Se um motorista para em um acostamento para descansar ele está sujeito a acidentes. Se você for de Piracicaba à Brasília, quantos pontos de parada você encontrará para jantar e descansar? Não existem em números suficientes! Outro fator é que os motoristas ganham por produtividade, quando deveriam ter um salário fixo digno, que não os submetessem a correr e oferecer riscos nas estradas. Um caminhoneiro ganha R$ 1.460,00 reais na carteira, você acha que ele pode parar de rodar às 18 horas para seguir viagem no dia seguinte? Ele tem que seguir para ganhar comissão sobre a produtividade. Existe de fato uma fiscalização que abrange a todos? A lei foi feita para o caminhão não rodar, mas não pensaram enquanto o motorista irá ganhar.

O sindicato do qual o senhor é presidente, o SINTTRANSP, abrange só o transporte de pessoas?

Só transporte urbano, de passageiros.

Qual é a carga horária média de um motorista que dirige ônibus urbano?

Alguns dirigem cerca de 8, 9 a 10 horas diariamente. Só que existe um problema sério, existe ônibus que passam nas casas dos motoristas, transportando-os para a garagem a fim de que possa iniciar o trabalho, cada um dirigindo o seu ônibus. O primeiro motorista que toma o ônibus que o conduzirá até a garagem, tem que levantar às duas horas e quarenta minutos da manhã. Esse ônibus que os apanha é chamado pelos motoristas como “negreiro”, um tema pejorativo que abomino e usado há muitos anos. Tem oito motoristas que moram em Artemis. Às três horas da manhã passa o carro (ônibus) que os apanha lá. Em seguida o carro vai até a Balbo, no Sonia, no Parque Orlanda, no IAA, ele chega na garagem as quatro horas e dez minutos da manhã. Com isso o primeiro motorista que entrou nesse ônibus, foi transportado por uma hora e vinte minutos ou uma hora e meia. A noite se dá o mesmo processo, ou seja, em média para ir trabalhar ele andou quase três horas como passageiro de ônibus dirigindo-se ao seu trabalho. A carga horária do motorista entre sair e voltar para casa é de no mínimo doze horas por dia. Infelizmente não é todo mundo que tem um carro, uma moto, e vai deixar parado seu veículo onde?

O senhor considera que o motorista de ônibus urbano sofre restrições?

Considero que ele acaba sendo discriminado, se for a uma festa de aniversário, ou a uma reunião familiar, se for dormir a meia noite às três horas da manhã tem que estar pronto para ir trabalhar. Ele não tem muito lazer junto a família. Na Copa do Mundo muitos funcionários param, alguns até horas antes de iniciar o jogo. O motorista não pode parar. Isso acontece também no natal, ano novo. Só aqueles cuja folga coincida com esses eventos é que podem usufruir junto a família.

O senhor é o primeiro presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Urbano de Piracicaba e Região?

De transportes urbanos sou. Anteriormente era ligado ao Sindicato dos Condutores Rodoviários de Piracicaba.

O senhor veio para Piracicaba em que ano?

Eu vim para Piracicaba no dia 29 de outubro de 1988. Tinha uns conhecidos aqui, vim, gostei da cidade e aqui fiquei. Sou casado em segundas núpcias com Valdenia Muniz Soares. Sou pai de cinco filhos, sendo dois do segundo casamento e três do primeiro.

Chegando a Piracicaba em que bairro o senhor foi morar?

Morei na Balbo, no inicio demorei um ano para conseguir emprego como motorista. Nesse período fiz um pouco de tudo, trabalhei como servente de pedreiro, em demolição de casas antigas, no dia 16 de outubro de 1989 fui trabalhar como motorista na Auto Ônibus Paulicéia. Fiz muitas linhas, a linha do Bairro Verde eu adorava fazer.

Em São Paulo o senhor trabalhou em várias empresas de ônibus?

Trabalhei também na CMTC Companhia Municipal de Transportes Coletivos. Em São Paulo dirigi inclusive onibus elétrico, fazia a linha de São Mateus até a Praça João Mendes. Quando chovia, as vezes ao passar pela chave que existe na fiação aérea, o contato desengatava, com um varão, debaixo de chuva tinha que encaixar o contato na rede aérea. Geralmente o cobrador não tinha como deixar a roleta, o motorista é quem tinha que fazer aquele serviço. Eu não gostava muito de dirigir onibus elétrico.

O onibus elétrico é mais rápido do que o onibus a diesel?

Aquilo é um vagão de metrô. Pisou vai embora! O sistema de freio deles é inimaginável. Para instantaneamente. Tem o freio elétrico e o freio mecânico.

O senhor fez algum curso especial para dirigir onibus elétrico?

Tem que ter um treinamento específico. Para mim a CMTC foi uma das maiores e melhores empresas que existiu no Estado de São Paulo. Permaneci na CMTC de 1981 a 1988. Era uma empresa com cerca de 25.000 funcionários.

O senhor conheceu Jânio Quadros?

Todo prefeito era presidente da CMTC. Jânio foi o melhor presidente dessa empresa. Ele sempre negociava com o sindicato, dizia que não queria o sindicato na sua porta. Fazia visitas de surpresa na CMTC. Foi muito bom. Lembro-me também do Mário Covas.

Quando o senhor passou a ser motorista de ônibus em Piracicaba, estranhou muito?

Os modelos de ônibus eu já conhecia de São Paulo. O que me chamou a atenção era o tempo para almoçar: de sete a dez minutos. O órgão municipal responsável pelo trânsito na época não dimensionou junto ao trabalhador a forma de idealizar o horário. Quando eu já estava como presidente do sindicato, conseguimos em comum acordo com os empresários e junto aos órgãos responsáveis, estabelecer um horário de refeição para o motorista.

Quando foi criado o Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Urbano de Piracicaba e Região?

O inicio foi como Associação dos Motoristas de Transportes Urbanos em 17 de agosto de 1998. Após um longo período de negociações, em 2004 a documentação foi oficializada, A Carta Sindical data de 12 de julho de 2007.

Porque houve essa separação do Sindicado dos Condutores Rodoviários de Piracicaba?

Na realidade eu comecei a associação no dia 21 de setembro de 1996. Quando eu trabalhei na CMTC tinha um cobrador que trabalhava comigo e era diretor do sindicato. Eu via sua luta. Ao pensar em montar a Associação, recebi o apoio de vários companheiros de outras localidades. O Sr. Laerte Valvassori no meu entender foi um dos maiores sindicalistas patronais. Houve um desentendimento sobre o pagamento de horas extras. Nós prosseguimos trabalhando normalmente por sete horas e vinte minutos diariamente. Não deixamos a população sem transporte até as sete horas e meia da noite. Dali em diante não havia mais ônibus circulando pela cidade. Isso durou uma semana.

Quantos motoristas integram o sindicato?

O transporte de Piracicaba atualmente tem de 650 a 700 trabalhadores. Abrange Piracicaba, Rio das Pedras, Charqueada, Águas de São Pedro e São Pedro.

O senhor tem algum salário pago pelo sindicato?

Não. Sou funcionário registrado na Empresa Beira Rio. Somos dezesseis diretores. Afastados, que se dedicam ao sindicato são cinco. Somos filiados a CUT. Quando iniciei o sindicato os associados não tinham tíquete de refeição, a cesta básica era bem fraquinha. Temos dois cabeleireiros, dentistas, convênio médico com a Amhpla, Santa Casa Saúde, inclusive para os motoristas aposentados que representam de 10 a 15 por cento dos trabalhadores no transporte.

Com que idade o motorista se aposenta?

Em muitas cidades só pode ser contratatados motoristas com no máximo 45 anos de idade. Nós temos em Piracicaba motoristas com 65,66, anos, tinha um que aos 72 anos trabalhava ainda. E era muito competente, mais até do que alguns bem mais jovens. Piracicaba é a unica cidade que não impoem limite de idade para trabalhar.

O motorista de onibus sofre a tensão natural do trânsito e a presão interna dos passageiros.

Eu gostaria muito de ter a oportunidade de ter um reporter acompanhando um dia de um motorista de onibus, desde o momento em que ele sai da casa dele até quando retorna. Tenho sérias dúvidas se o reporter consiguirá completar o dia ao lado do motorista. A tensão é muito grande.

Em Piracicaba os onibus tem cobradores?

Não tem cobradores. É feita a venda a bordo. Antigamente não havia esse sistema, uma pessoa residente em outra cidade ao chegar a Piracicaba não tinha como se locomover a não ser que fosse até o terminal adquirir cartão de transporte. Dinheiro não era aceito para pagar a passagem no próprio onibus. Isso gerou muito conflito entre motoristas e passageiros. Em 2007 criei a sugestão do cartão, o motorista passou a vender o cartão no onibus. A passagem de onibus em Piracicaba custa R$ 2,95.

Quantos carros (onibus) correm por dia em Piracicaba?

São 218 carros em 103 linhas. Atigamente havia várias empreseas, com a ultima licitação existe apenas uma empresa responsável por todas elas. Os veículos estarão em uma única garagem, em Santa Terezinha. Tudo indica que deverá ficar melhor a forma de dialogar, inclusive acertar horários de linhas.

O Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Urbano de Piracicaba e Região recentemente realizou algumas conquistas inéditas aos seus associados?

É importante salientar que o nosso sindicato de Piracicaba foi o único que sobresaiu em conquistas realizadas, ultrapassando seus congeneres. Realizamos uma grande campanha, resultando no maior reajuste da categoria, 10% sobre o salário. Reajuste de 13,30% no vale refeição, reajuste de 18,5% na cesta básica, reajuste de 23,5 % no Plano de Lucros e Resultados. O vale refeição será fornecido inclusive quando o trabalhador estiver em férias.

sexta-feira, junho 13, 2014

GERALDO CLARET DE MELLO AYRES


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 07 de junho de 2014.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/

ENTREVISTADO: GERALDO CLARET DE MELLO AYRES

 

Geraldo Claret de Mello Ayres nasceu a 22 de outubro de 1928 em Pirassununga, é filho de Elias de Mello Ayres e Maria Amélia de Aguiar Ayres que de 1920 a 1936 moraram e trabalharam em Pirassununga e tiveram os filhos: Maria Aparecida, Maria Benedita, Maria Cecília, Maria Estela, que foi freira, e Geraldo.

Qual era a atividade dos seus pais em Pirassununga?

Meu pai era professor de Biologia Educacional da Escola Normal Oficial de Pirassununga e minha mãe professora no Grupo Escolar Anexo. Em 1936 os dois vieram para Piracicaba, nessa época eu tinha oito anos de vida. Cheguei a cursar o primeiro ano da Escola Normal Oficial de Pirassununga, hoje Instituto de Educação de Pirassununga. Minha primeira professora, que me alfabetizou foi a professora Maria das Dores Pinto, conhecida como “Dona Dora”.

Em que local seus pais vieram morar em Piracicaba?

Meu pai veio e adquiriu a casa na Rua José Pinto de Almeida entre a Rua Prudente de Moraes e Rua São José. Essa casa e mais outra ao lado foram recentemente demolidas dando lugar a um novo edifício.

O pai do senhor veio exercer a função de professor?

Ele veio lecionar na Escola Normal Oficial de Piracicaba, mais tarde denominada “Sud Mennucci”. Minha mãe era professora adjunta no Curso Primário Anexo da Escola Normal Oficial. É importante salientar que eles mudaram para Piracicaba em 1936, meus pais não tiveram nenhum ganho extra como premio de loteria, herança, eles, um casal de professores, adquiriram com seus salários uma das 10 casas mais bonitas de Piracicaba. Atualmente isso é impossível, com isso nota-se a degradação da função do professor.

Em Piracicaba o senhor matriculou-se em que escola?

Em Piracicaba passei a estudar o segundo ano do curso primário, tenho uma característica, fui primeiro aluno de ponta a ponta. Tenho boletim escolar guardado, as professoras escreviam “100 com louvor”.  O aluno segundo colocado era nota 100. Formei-me no quarto ano no Curso Primário Anexo a Escola Normal Oficial de Piracicaba

A segunda professora primária do senhor qual era o nome dela?

Foi Hercília Junqueira, conhecida como “Dona Ziloca”. Ela foi também a minha professora de terceiro ano. No quarto ano foi a Dona Cecita, o nome dela era Maria Cecília Almeida. Em setembro ela aposentou-se, foi substituída pelo professor Mário Gatti, cuja filha mais tarde foi minha aluna.

Qual foi a próxima etapa?

Eu fiz o ginásio, fui cursar no Externato São José, a sessão masculina do Colégio Assunção. Na época localizado a Rua D.Pedro II esquina com a Rua Alferes José Caetano, prédio onde mais tarde funcionou a FOP – Faculdade de Odontologia de Piracicaba. Lá onde cursei o ginásio depois fui ser professor titular. O Externato São José era administrado pelas Irmãs de São José, com casa provincial em Itu, mas de origem francesa. O Colégio Piracicabano estava se expandindo, de filosofia metodista, o bispo pediu às irmãs que enquanto não viesse à Piracicaba o Colégio Dom Bosco, de orientação católica, funcionasse ali no Colégio São José também a sessão masculina. Terminei a quarta série lá.

Como o senhor ia da sua casa até lá?

Ia a pé, sozinho, saia da Rua José Pinto de Almeida, era pertinho. A rua de casa não era asfaltada, passava o bonde, mas era com pedregulho. Após me formar no Externato São José tive que prestar um vestibularzinho. Uma seleção para ingressar no curso científico no Sud Mennuccci. O científico era uma prolongação do ginásio. Éramos 29 alunos que prestamos esse exame.

O senhor entrou em primeiro lugar?

Entrei em primeiro lugar. Foi uma glória muito grande. Durante o curso científico tive professores memoráveis: Hélio Penteado de Castro, Francisco Mariano da Costa, tive a primeira aula lecionada por Erotides de Campos.

Como era Erotides de Campos?

Ele dava aulas de química. Foi amicíssimo do meu pai. A amizade deles já tinha se iniciado em Pirassununga. Quando vieram para cá, continuaram a amizade, toda festinha, aniversário, ele e sua esposa Dona Tita, iam em casa. Quantas vezes vi o Erotides de Campos tocar piano em casa! Uma das músicas que ele fez em Pirassununga recebeu o nome de “As Covinhas do Teu Rosto”, em homenagem a minha irmã mais velha, que na ocasião era uma criança. Eu nem tinha nascido ainda. Sei pela tradição. Erotides era uma alma pura, não tinha vaidade, ele era mulato, cortava o cabelo bem rentinho, os amigos passavam a mão e brincavam dizendo: “-Como vai o cafezal ai!”. Ele perdeu os dentes, mandou fazer dentadura. Isso me lembro muito bem, ele dizia ao meu pai: “-Mello, dentadura é uma coisa ótima! Eu só tiro para mastigar!”. Faleceu nos braços do meu pai. A nossa casa era na Rua José Pinto de Almeida, na Prudente de Moraes era a casa dele e da Dona Tita. Após o almoço ele sentiu-se mal, estava acabando de fazer a capa de uma musica que ele fez em parceria com o meu pai. Música dele, letra do meu pai. A Dona Tia, esposa dele, quando viu que ele estava esquisito correu em casa buscar meu pai. Meu pai de pijama, saiu, correu lá, amparou a cabeça do Erotides, ele morreu. Foi assim. Após a morte de Erotides, uns quinze ou trinta dias depois, veio substituí-lo Demosthenes dos Santos Correa, fui aluno da primeira turma daquele professor extraordinário. Tive aula com Archimedes Dutra, Rossini Dutra filho do Benedito Dutra.

Como eles eram?

O Benedito Dutra gostava de ser músico, e era músico. O hino do Colégio Assunção a música é dele e a letra é do meu pai.  Benedito teve dois filhos, aos quais deu os nomes de dois musicos famosos: Rossini e Mozart, este era cirurgião dentista. O Rossini foi professor de música.

Após completar o cientifico o senhor foi fazer qual curso?

Eu não fiz cursinho. Tive um mês, dia sim, dia não, aulas de física, com o Ésio Apesato que era aluno da agronomia. Prestei o vestibular e entrei em décimo primeiro lugar na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, já era da USP. A Luiz de Queiroz foi criada em 1902, Luiz de Queiroz era proprietário da Fazenda São João da Montanha.  Não tinha filhos, doou para o Estado com a condição do Estado instalar ali uma escola agrícola. E foi intalada a escola agrícola. Tanto que por muito tempo foi denominada Escola Agrícola.  No próprio bonde vinha escrito o destino como Escola Agrícola. Quando Adhemar de Barros criou a USP em 1934, a Luiz de Queiroz foi incorporada na condição de instituto de ensino superior.

O senhor chegou a conhecer Walter Accorsi?

Fui aluno dele e depois amigo.

E os balancês, o senhor participou também?

Sim, tinha o balancê e o chaparê. O balancê era balançar o bonde no sentido do seu comprimento, principalmente quando tinha uma prova dificil os alunos queriam adiar, quando o bonde chegava na curva da Rua José Pinto de Almeida, com a Rua Marechal Deodoro, faziam o balancê, até levantar a roda do bonde do trilho, ai o pessoal da manutenção tinha que colocar o bonde no trilho, para isso tinham que usar um macaco, já não dava mais tempo de aplicarem a prova. Os professores também estavam no bonde, em sua maioria. Os alunos fazisso mais no “Cara-Dura”, como era chamado o reboque. Ia um bonde na frente puxando o “Cara-Dura”, logo atraz ia outro bonde, para na volta trazer a reboque o “Cara-Dura”. Com o balancê, paravam o “Cara-Dura”, o bonde da frente e o bonde de traz. Eu não sou e não fui um engenheiro agronomo vocacionado. Não sou de família de fazendeiros. Meu desejo era cursar Direito. Só que eu não tinha condições físicas nem econômicas para morar em São Paulo. Quando eu entrei no Grupo Escolar pesava 16 quilos, quando ingressei no ginásio pesava 24 quilos, quando fiz doutoramento na Esalq, já era casado, pesava 48 quilos. Um colega, Carlos Alberto Ditt,o pai dele era corretor de café em Santos, era magro, alto, pela midia ele viu que nos Estados Unidos um cidadão chamado Charles Atlas, era tão fraco que não aguentava andar de bicicleta. Esse cidadão criou uma série de exercícios físicos, que foi praticando até que dali alguns anos foi eleito Mister Estados Unidos. Ele vendia a programação dele por 200 dólares. Esse meu amigo, escreveu e recebeu esse manual, começou a praticar e ensinou alguns exercícios para mim. Fui um asmático terrivel. Após inumeras crises, um dia surgiu em Piracicaba, oriundo de São João da Boa Vista, o médico Dr. Sérgio Caruso, com dois tubinhos de cortisona, o remédio era Decadron, do laboratório Organon, nunca mais tive asma. Fui muito doentio. Não tive infância, adolescência nem juventude. Eu tinha a impressão de que não iria viver até os 30 anos. Talvez por isso eu tenha decidido casar cedo. O que Deus não permitiu que eu tivesse nessas épocas, que foi saúde, eu tive depois na maturidade. Eu me cuidei, quando percebi que tinha que dar um jeito, comecei a fazer exercícios, ginástica, andar, nadar, e até hoje faço exercícios. Faço musculação inclusive. Com 85 anos. Com isso tenho uma esplendida forma física e mental. Na Esalq tive professores extraordinários, Salvador Toledo Pizza, Walter Radamés Accorsi, Frederico Gustavo Brieger, José de Mello Moraes “Melinho”, Graner, Jaime Rocha de Almeida. Até o segundo ano eu não me encontrei muito na escola. Quando me casei, nas férias de julho do terceiro ano de Esalq, passei a ser um excelente aluno. Comecei a sentir atração pela química agrícola. Quando passei para o quarto ano e fui aluno do Dr. Jaime Rocha de Almeida, que foi o maior mestre que eu tive, me empolguei com a tecnologia do açucar e do alcool. Fui um excelente aluno do Dr. Jaime, o que representou um ponto crucial em minha vida. Em novembro de 1952, de uma turma de 57 alunos, oito se formaram por média, não precisaram fazer os exames finais. Eu estava entre esses oito. A escola nos deu uma declaração de que estávamos formados, só faltava a colação de grau. Já casado, fui atrás de emprego. Ganhei acho que a primeira bolsa do Instituto Brasileiro do Café, fui trabalhar no Instituto Agronômico de Campinas. Trabalhei um ano lá. Minha função era estudar a micro-anatomia do cafeeiro. Que até então não existia no Brasil. Isso foi em 1953. O diretor era o Dr. Carlos Arnaldo Krug. O chefe da botânica era uma pessoa extraordinária, Dalvo Mattos Dedecca. Comecei a notar que as pessoas que se dedicam a botânica, aos vegetais, ou são pessoas puras ou vão ficando mais puras. Fiz esse trabalho sob a orientação dele. Dois anos depois ele apresentou como tese na Esalq e recebeu o título de doutor. Por um ano eu morei em Campinas, aluguei uma casa lá, foi um drama para a minha esposa, lá ela não conhecia ninguém.

Como o senhor conheceu a sua esposa?

Conheci Jurema Rstom de Mello Ayres, filha de Isaac Jorge Rstom, proprietário da Loja Tigre, ao lado do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, seus pais vieram adultos do Líbano. A conheci quadrando o jardim. Eu estava com mais dois amigos, e tinha duas moças uma mignom e outra mais avantajada. Após algumas voltas e alguns fleters eu disse ao meu amigo: “-Adolfo, com qual eu vou sair?”. Ele me disse: “-Arrisca a menorzinha, é tão delicadinha!”. Me aproximei e começou o namoro. Isso foi em 18 de dezembro de 1946.

Como foi a abordagem que o senhor fez?

Foi na cara de pau. Disse-lhe: “-Vamos dar uma saidinha?”. Ela ficou enrubescida, e saimos andar na Rua Governador Pedro de Toledo. Esse era o passeio.

Qual era a idade de ambos?

Eu tinha 18 anos e ela 13 anos e seis meses. Namoramos quatro anos e meio. Quando ela fez 18 e eu 22  nos casamos na Catedral de Santo Antonio. O padre era amigão meu, veio de Capivari, ele tinha sido aluno da minha mãe em Pirassununga, quando criança. Era o Conego Alécio Adani. O casamento civil foi realizado na casa do meu sogro, o juiz de paz foi até lá, estavam presentes seu pai, sua madrasta Lucia Ferro. Minha esposa foi morar na casa da minha irmã, pela regulamentação da igreja católica, jamais o noivo poderia conviver com a noiva antes de casar. Na quinta feira a tarde casamos no religioso.

Na época não era muito comum, mas chegaram a viajar em lua de mel?

Viajamos, fomos para Campinas. Fomos de taxi, eram poucos aqueles que tinham carro. Passamos uma semana e voltamos à Piracicaba. Fomos morar na casa dos meus pais, era uma casa muito grande, tinha quatro dormitórios. Três das minhas irmãs se casaram e a quarta foi para o convento. Naquele casarão ficamos meu pai, minha mãe e eu. Por um ano e meio, até me formar, moramos juntos com meus pais. Em 1952 eu me formei.

Quantos filhos o senhor  tem?

Quando eu ainda era estudante nasceu a minha primeira filha. Tivemos Maria Estela, Maria de Fátima, Elias e Lilian Regina.

Como o senhor voltou à Piracicaba?

A Dona Aurora, esposa do Dr. Jaime, encontrou-se com a minha mãe no ponto de bonde, atrás da Catedral, disse-lhe: “- Dona Amélia, o seu filho Geraldo está bem em Campinas?”. Tem uma vaga aqui com o Jaime. Tenho certeza de que o Dr. Jaime vai querer ele no departamento. Vim para ser assistente do Dr. Jaime Rocha de Almeida. Vim morar ao lado da casa do meu pai. Nese meio tempo eu ganhei uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) para ficar um ano no departamento de bioquímica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP.

Como agrônomo o que o senhor foi fazer em uma escola de medicina?

Fui indicado para a bioquimica, bio é vida, quimica estuda a matéria e suas transformações. Bioquimica estuda a matéria e suas transformações que acontecem nos seres vivos. Estuda todos os componentes dos seres vivos. Seja uma bactéria, um virus, uma levedura, um fungo, vegetal, animal, água, peixes.

Mas esse tipo de estudo não está mais relacionado a medicina do que a agronomia?

A bioquimica é uma ciência relativamente nova, não tem ainda 150 anos. Mas se desenvoveu tanto que uma pesquisa de um professor eminente de Curitiba, Metry Bacila, de quem fui aluno, ele fez um levantamento na década de 60, de todos os trabalhos científicos publicados no mundo, 70% é de bioquímica. A bioquímica estuda, faz o que pode para conhecer a chamada matéria viva. Fisiologia é bioquímica. Todo fenômeno biológico é bioquímica em sua essência. Ao dobrar um dedo da mão, realizo uma contração muscular, isso é fruto de um processo bioquímico. Digestão é um processo bioquímico. Reconstrução das nossas proteínas, nossos componentes todos é bioquímica. O estudo dos micro-organismos, a microbiologia é bioquímica. Não é tão importante a descrição do microorganismo, se era uma bactéria que tinha um revestimento tipo geléia, se tinha flagelo, se tinha um cílio. Muito mais importante é saber o que esse microorganismo faz. O que ele produz. Se é patógeno, se produz moléstias em nós, se é de interesse para a indústria. Os fármacos não criam funções, remédio nenhum faz milagre, por isso se chama remédio. Remédio remedeia, não cura. Se curasse 100% bastava dar uma injeção em um cadáver e ele ressuscitaria. A ação do remédio que é farmacodinâmica é bioquímica. A interação entre receptores nossos e medicamentos é bioquímica.  A genética clássica, de Mendel é válida, claro. Mas hoje genética é bioquímica. Sabe-se que toda proteína que os seres vivos sintetizam são realizadas através da codificação genética, essa codificação é que determina quais aminoácidos irão se ligar. Assim como com 25 letras você escreve uma biblioteca, com 20 e poucos aminoácidos a natureza constrói todas as proteínas do nosso universo. Cada vez que um organismo aceita uma proteína estranha ele aceita como um antígeno. Sintetiza outra proteína que é o anticorpo. Por defesa. Se eu sofro a agressão de um vírus da gripe, que é uma nucleoproteína aquilo é estranho ao meu organismo. Imediatamente meu organismo sintetiza anticorpos. As proteínas são essencialmente críticas para cada organismo. Toda ciência biológica dinâmica é bioquímica.

O senhor mudou-se com a sua família para Ribeirão Preto?

Fui com a minha esposa e a minha filha mais velha. Perdemos outra filha ainda muito nova. Lá foi gerado e gestado meu filho, que nasceu em Piracicaba. Ribeirão Preto foi uma fase muito agradável para mim. Representou um marco científico na minha vida. Esse meu filho, Elias de Mello Ayres Neto, é musicista, foi solo da orquestra do Maestro Ernest Mahle, com 17 anos e meio, prestou exame em cinco faculdades de medicina, entrou nas cinco. Sem fazer cursinho. Escolheu a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Cursando medicina ainda dava aulas de flauta. Tocou na orquestra de Ribeirão Preto. Formou-se, fez três anos de residência em cardiologia em Ribeirão Preto. Passados três anos ele foi indicado ara ficar dois anos com o Dr. Jatene e equipe.

O senhor voltou para Piracicaba após o período em que permaneceu em Ribeirão Preto?

Voltei e fiquei no Instituto Zimotécnico, na Esalq, zimotécnico estuda a técnica da fermentação, que foi um sonho concretizado em parte, do Dr. Jaime Rocha de Almeida.

O objetivo era melhorar a fermentação da cana?

Até de outros tipos. Não deu tempo, ele faleceu com pouco mais de cinqüenta anos. Dr. Jaime era uma figura marcante, flautista da Orquestra Piracicabana, regida pelo Maestro Dutra, foi ele quem ensinou flauta à Celso Woltzenlogel que era filho de Luiz ( Lulu) Barbeiro que tinha salão de barbearia do lado da catedral.  O Celso Woltzenlogel hoje está em Londres, e é um dos maiores flautistas brasileiros.

O senhor continuou trabalhando no Instituto Zimotécnico?

Lá eu trabalhava em tempo parcial. Nesse meio tempo foi criada por força inclusive do Rotary Clube de Piracicaba e outras forças vivas da cidade a Faculdade de Odontologia de Piracicaba, como Instituto Isolado do Ensino Superior do Estado de São Paulo. No segundo ano do seu funcionamento, o catedrático contratado de fisiologia era o Dr. Ben-Hur Carvalhaes de Paiva, tinha consultório junto com Plinio Alves de Moraes que era prorietário de Laboratório de Análises Clinicas. Não sei como Dr. Plinio lembrou-se de mim, convidou-me para durante um ano trabalhar com ele, no sentido de aperfeiçoar a metodologia. Fui, fiquei uma semana no Hospital das Clínicas, só na parte laboratorial, fiquei mais uma semana no Laboratório Fleury, vim com toda metodologia nova e instalei no Laboratório do Dr. Plínio. Dr. Ben-Hur viu o meu trabalho. Passado um ano, quando na odontologia ele precisou de um bioquimico, e não tinha na cidade e região dentista credenciado para instalar e ministrar bioquimica, para dar uma disciplina ela tem que constar do seu curriculo. A maioria das faculdades de odontologia não tinha a disciplina de bioqimica. Fui convidado para instalar a bioquimica. Acumulei, ficava um período na Esalq e outro na FOP, instalando a disciplina, sob todos os aspectos, desde programação até laboratório, compra de material. Fui pioneiro como outros foram pioneiros nas outras disciplinas. Passado um ano o Dr. Jaime conseguiu tempo integral para os pesquisadores do Instituto Zimotécnico. Tive que deixar a FOP. Nesse meio tempo fui fazer cursos em Curitiba por quatro vezes, com bolsa, na Universidade Federal do Paraná com Metry Bacila e colaboradores. Foi quando o primeiro diretor da FOP, Carlos Henrique Robertson Liberalli, que era carioca, com sotaque característico ( Dr. Geraldo Claret o interpreta com perfeição), disse-me: “ – Mello Ayres! Você vai ser professor de bioquímica!”. Disse-lhe que bioquimica eu tinha consciênca de que sabia um pouco, agora fisiologia eu apenas estudei. Com seu sotaque carioca, Professor Liberalli disse-me: “- É mais fácil um bioquímico estudar fisiologia do que um fisiologista estudar bioquimica!”. Assim passei mais um ano acumulando, após um ano fui graças a Deus muito bem aceito pelos cirurgiões-dentistas, por todos os profesores, funcionários, alunos da FOP, dali um ano eu tive coragem, pedi demissão da USP e passei para a Faculdade de Odontologia, como Professor Catedrático Contratado. Responsável pela fisiologia e bioquimica. Naquele tempo havia a Escolinha Walita que ensinava receitas de bolos para as madames para vender material. Apelidaram a FOP de Escolinha Walita. Acharam que era uma escolinha incipiente. Chegaram a me parar na rua dizendo: “- Geraldo! Você vai sair da USP para ser profesor na Escolinha Walita?”. Disse: “- Vou! Sabe por que? Porque nós vamos crescer juntos!”. A minha profecia, que era compartilhada por outros, se concretizou. Fiquei na Ododontologia, fui muito bem aceito, fiz toda a carreira universitária, me aposentei na posição mais alta: professor titular. Fui pioneiro da bioquimica, como Ben-Hur foi pioneiro da fisiologia, Nobilo na protese, Merzel na anatomia.

As dificuldades foram grandes?

Muitas. Uma delas foi quando o Governador Adhemar de Barros deu um aumento substancial para a USP e não deu para os institutos isolados de Piracicaba, Araçatuba, Bauru, Ribeirão Preto, Araraquara, São José dos Campos, Rio Claro. Era um absurdo o Estado manter dois niveis salariais para o ensino superior. Foi criada a Comissão dos Institutos Isolados do Ensino Superior do Estado de São Paulo o Merzel era o presidente e eu era o secretário. Sempre fui idealista. Me empolguei nessa luta e viajei por muitas cidades onde havia Institutos Isolados, arrebanhando a turma para fazer greve. Assembléias memoráveis que varavam as madrugadas. A luta foi vencida, saiu a equiparação. O professor Raphael Lia Rolfsen que me conheceu nessa movimentação toda em Araraquara, passando pelo gabinete Enio Rocha, funcionário de confiança de Adhemar de Barros, funcionava como “reitorzinho” dessas faculdades, tinha sobre a sua mesa o meu nome e o do Merzel para sermos dispensados. Dr. Raphael imediatamente tomou partido a nosso favor, afirmando que éramos dois rofessors dignos, competentes e honestos. Fiquei sabendo disso mais tarde.