Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sexta-feira, maio 13, 2016

JOSÉ FERREIRA (ZÉ PRADÃO)

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 14 de maio de 2016.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: JOSÉ FERREIRA (ZÉ PRADÃO)



José Ferreira desde muito cedo começou a gostar de escrever. Aos quatorze anos já escrevia com regularidade. Extremamente observador dos hábitos e costumes, procurava registrar os fatos que presenciava ou ouvia falar. Em pouco tempo tinha acumulado uma série de cadernos, com registros históricos de uma época. O destino quis testar sua tenacidade e sua vocação, um dia ao voltar do seu trabalho ao local onde morava, só encontrou as cinzas de um incêndio. O que um dia tinha sido seu maior bem, seus escritos, agora estavam destruídos. O choque foi grande para ele. Mas a vida tinha que continuar. De origem humilde, teve que trabalhar ainda muito cedo para ajudar a compor os escassos ganhos da família. Com o passar do tempo, o sonho maior falou mais alto, e aos poucos José retornou a escrever. Hoje já aposentado, quase de forma compulsiva ele escreve. Escreve muito. Com letra caprichada, vai dia a dia preenchendo grossos cadernos. Desperta a curiosidade natural de alguns. Outros julgam que é apenas um capricho. Mas aos poucos ele vai revelando o interior do seu ser, a sua extrema capacidade de observação de hábitos e costumes, e transforma tudo isso em contos, poesias, frases. Um historiador e escritor nato. Nascido a 5 de maio de 1942, a Rua XV de Novembro entre a Rua Aquilino Pacheco e a Rua Silva Jardim no Bairro Alto, em Piracicaba. José em seus escritos aborda de formas diferentes, em histórias, poesias, frases, o cotidiano. É uma escrita pura, que nasce do seu intimo, de suas observações. Um autêntico artista que apesar de não aquecer as cadeiras das escolas por muito tempo se expressa de forma objetiva, artística. Um grande valor literário, sem dúvida.



Onde hoje é o Estádio Barão de Serra Negra tinha o que naquela época?
Tinha um bosque, eu brincava ali quando criança. Já existia aquela árvore frondosa que permanece até hoje, a sapucaia. A fruta dela tinha o formato de coco com uma espécie de tampa, quando amadurecia aquela “tampa” caia. Dentro havia uma espécie de noz. .Em frente ao Cemitério da Saudade havia um largo, éramos crianças, um pegou uma enxada, outro pegou o rastelo, e decidimos fazer um campinho de futebol ali. No bosque havia um bambuzeiro, fomos lá e pegamos uns bambus grossos, fizemos a trave, quando marcávamos um joguinho contra algum time adversário pegávamos cal e marcávamos as linhas do campo.
Qual era a atividade do seu pai?
Era pedreiro, seu nome era Antonio Ferreira e minha mãe chamava-se Dulcilia Conversa Ferreira. Eles tiveram os filhos: José, Maria Luiza, Ana Maria e Alcides.
O senhor estudou em qual escola? 
Comecei no Grupo Escolar Alfredo Cardoso, naquela época era atrás da Igreja Bom Jesus. Depois eu fui para o Grupo Escolar Prudente de Moraes que ficava onde hoje é o Museu Prudente de Moraes, na esquina da Rua Santo Antonio com a Rua Treze de Maio. Como eu era muito novo minha mãe me trazia a pé do Bairro Alto até a escola. Consegui voltar ao Grupo Escolar Alfredo Cardoso, no prédio que está até hoje. Antes ali tinha sido estação de trem da Estrada de Ferro Sorocabana, nós chamávamos ali de Largo da Estação. Estudei até o quarto ano primário. Ai eu comecei a trabalhar.
Em que local foi seu primeiro emprego?
Com aproximadamente treze anos fui trabalhar para a Prefeitura Municipal no “Rec-Rec”. O serviço era tirar grama dos vãos entre os paralelepípedos e a grama que nascia no leito carroçável, sarjetas.  Trabalhava a maior parte do tempo com a coluna dobrada, o chefe não era fácil, se desse uma paradinha ele dizia: “Vamos, vamos...”. A água era armazenada e servida em um corote de madeira. Entrava no serviço as sete horas da manhã, parava para almoçar as dez horas, as duas horas da tarde tinha café com leite. A nossa sede era na Avenida Dr. Paulo de Moraes, no prédio da prefeitura. Só que nosso chefe dizia: “ Amanhã vamos começar o serviço em tal rua”. As ferramentas eram levadas pela prefeitura para essa determinada rua na véspera.
Como eram as ferramentas?
Sabe esses arcos de barril? Íamos a diversos lugares, pedíamos aqueles arcos de barril, nós é que tínhamos que ir atrás, não era a prefeitura. Tinha os mais largos e os mais estreitos que chamávamos de ferrinho. O maior era usado em touceira de grama. Quando era touceira muito grande usávamos a enxada. As ferramentas eram amoladas com lima
Quanto tempo o senhor trabalhou no “Rec-Rec”?
Trabalhei quando o prefeito era o Dr. Samuel de Castro Neves.
O senhor chegou a conhecer o Teatro Santo Estevão?
Conheci! Inclusive tenho uma história relacionada ao prédio do Teatro Santo Estevão. Naquela época eu estava estudando das duas e meia às cinco e meia da tarde no Grupo Prudente de Moraes, que era onde é o Museu atualmente. Minha mãe me levou até a escola. As cinco e meia eu saí e passei em frente ao Teatro, bem na frente da porta do Teatro Santo Estevão quando fui descer a guia, vi algo embrulhadinho, Peguei e olhei, eram Cinco Mil Réis! Ali tinha um ponto de carro de praça (taxi). Coloquei no bolso rapidamente, desci a Rua São José, entrei na Rua Governador Pedro de Toledo, desci a Rua Moraes Barros, correndo sempre, virei na Rua José Pinto de Almeida, subi a Rua XV de Novembro, cheguei em casa quase sem fôlego, minha mãe perguntou-me por que eu estava correndo tanto. Contei o que tinha achado. Minha mãe quis saber onde eu achei. Contei toda a história para ela. Ela mandou que eu permanecesse com o uniforme da escola, ela se aprontou, disse-me: “-Vamos aonde você achou o dinheiro!” Fomos a pé até o Teatro. Ela quis saber em que lugar eu havia achado aquele dinheiro. Mostrei o local. Ela perguntou-me se alguém viu. Eu respondi-lhe que era possível que os motoristas de carro de praça tivessem visto. Minha mãe foi e perguntou ao Mingo Fantasia, que era um dos mais antigos motoristas de carro de praça. Ele morava perto de casa, na Rua Moraes Barros em frente ao Grupo Escolar Alfredo Cardoso
Ela disse: “Seu Domingos, esse é meu filho, o senhor conhece, ele disse que achou esse dinheiro aqui. “Seu Domingos respondeu: “- Ele achou mesmo Dona Dulcilia. Nós vimos quando ele abaixou e depois vimos àquela criança correndo. Fomos ver atrás do Teatro se não tinha ninguém o ameaçando. Nós vimos ele achando”  Minha mãe deu até um suspiro. O Seu Domingos disse: “A senhora veio lá do Bairro Alto, a pé só para confirmar?” Minha mãe respondeu: “Eu tenho que confirmar”.
Nessa época o senhor  trabalhava como pedreiro?
Ele já estava trabalhando no Cemitério da Saudade, junto com o me pai, o nome dele era Antonio Ferreira, mas era conhecido como Pradão. Isso porque na entrada do cemitério tem uma imagem do Pradão com um livro. Quando ele começou a trabalhar lá colocaram o apelido e ficou conhecido como Pradão. Quando ele faleceu a nota dizia que tinha falecido Antonio Ferreira, o Pradão. Ninguém o conhecia por Antonio.

João de Almeida Prado é conhecido como homem do livro no cemitério, diz a lenda que de vez em quando o livro está em sua mão e as vezes no chão





ANTONIO (JÁ FALECIDO) IRMÃO DE JOSÉ FERREIRA 
Entrevista dada â alunos do Curso de Jornalismo da UNIMEP

Você tem apelido?
Quando eu jogava no time “Paulistano” que ficava no Bairro Alto, na esquina da Rua Silva Jardim, o Ari Rizzo tinha uma lojinha na Rua Moraes Barros bem em frente ao campinho. O Hugo Olivetto (Que por algum tempo ficou conhecido como um dos homens mais pesados de Piracicaba, chegou a fazer até propagandas comerciais em função da sua condição física), morava ali perto. Fomos falar com o Ari, estávamos formando um time, queríamos adquirir um jogo de camisas, só que não tínhamos dinheiro, pagaríamos quando pudéssemos. Ele nos deu 12 camisas. No time tinha o José Zambello, branco. Combinamos eu era Zé Preto e ele Zé Branco. Era uma época diferente, havia pureza de sentimentos. A escola era uma beleza, um silêncio! No Grupo Prudente de Moraes tive como professora Dona Célia.
Qual foi o próximo emprego em que o senhor trabalhou?
Fui trabalhar em uma selaria na Rua Governador Pedro de Toledo, quase na esquina da Avenida Independência, de propriedade de Marcelo, o Marcelino Mendes e do Toninho eram irmãos. Um tomava conta da loja e o Marcelo tomava conta e nos ensinava o ofício atrás, no barracão. Depois eles compraram do Augusto Baldo a selaria na esquina do mercado e daí mudaram-se para lá. Eu passei a trabalhar para o Laerte Tremacoldi, ele tinha uma fábrica de barcos, atrás do Grupo Alfredo Cardoso, os barracões estão até hoje lá. A parte debaixo do barracão era a fábrica de barcos. Comecei fazendo limpeza, aos poucos ele foi me ensinando a parte de pintura, apertar parafusos nos barcos. Após algum tempo sai e fui trabalhar com o meu pai. Eu tinha uns quinze anos.
O primeiro dia em que o senhor foi trabalhar com o seu pai, no Cemitério da Saudade, qual foi a reação do senhor?
Foi normal. Entramos meu irmão e eu. Naquela época não se usava o pedrisco para fazer concreto, Meu irmão e eu ficávamos de segunda feira até sábado quebrando aqueles pedaços de tijolos, em cima de uma pedra de paralelepípedo.No sábado nós a peneirávamos e mediamos em uma lata de dezoito litros. O empreiteiro Firmino José Ribeiro chegava, outro empreiteiro era o Xoxo. Nós mediamos, meu pai marcava. Ele dizia: “Os meninos quebraram tantas latas de pedrinha”.  Eles pagavam o meu pai, quando chegava aos sábados, meu pai dava um mil réis para nós. Íamos ao cinema São José, meu irmão e eu, quando chegávamos, na portaria tinha um senhor já bem idoso que vendia um doce baratinho chamado de mata-fome. Comprávamos uma para cada um de nós e subíamos para assistir filmes de bang-bang com Tom Mix, Buck Jones, Roy Rogers. Não deixava de ir um sábado sequer. Na Igreja Bom Jesus tinha o Cine Paroquial, lá não pagávamos nada. A molecada pobre do bairro lotava o Cine Paroquial. Naquele tempo usávamos ainda calças curtas e pé descalço. Fui colocar uma alpargata no pé aos quinze anos. O pessoal chamava a Alpargatas Roda de “enxuga-poça”. Um dia uma vizinha chegou para a minha mãe e disse: “Dona Dulcilia, experimente esse sapato no pé do Zézinho, assim eu era chamado no bairro, era do meu filho”. Minha mãe pegou, agradeceu, experimentei o sapato. Parece que tinha sido feito para mim.  Foi meu primeiro sapato, eu tinha quinze anos. Foi uma festa. Eu disse ao meu irmão: “Você vai de alpargatas e eu vou de sapato”. Passou um tempo e ela apareceu com outro par de sapatos, perguntou à minha mãe: “-Vê se serve para o Nenê”, que era o apelido do meu irmão Antonio Ferreira Filho. Era meio grandinho, mas minha mãe enchia de jornal na ponta e deu certo. Meu irmão disse-me: “Não é só você que vai de sapato, eu também vou!. Essa vizinha era casada com Ernesto Furlan, eles moravam ao lado da nossa casa.
















No cemitério o senhor após algum tempo quebrando pedra mudou de função?
Passei a ser servente, fazia massa, dava os tijolos. Naquela época eu era servente de Antonio Ferraz, conhecido como Nico, irmão do Xoxo. O nome do Xoxo era Aristides José Maria, ele era conhecido como Xoxo desde quando jogava futebol no Palmeirão, no Palmeirinha. Lá ele ganhou o apelido de Xoxo que permaneceu por sua vida e em suas obras no cemitério. Ele colocava uma plaquinha com o nome Xoxo em cada tumulo que fazia. Isso motivou até um fato engraçado, um pessoal da zona rural encomendou um tumulo. Quando ficou pronto chamaram a família para ver. Um dos parentes, desconfiado, bateu no tumulo, e disse: “Não sei não se vai durar muito!”. Os demais quiseram saber porque, ele mostrou a placa escrito Xoxo e disse : “ Olha ali” . Foi quando o Xoxo teve que explicar toda essa história. Lá no cemitério trabalhava também Antonio De Sordi, pai do De Sordinho (Nílton De Sordi que jogou na Seleção Brasileir). Ele era empreiteiro e trabalhava para o Xoxo. Eu trabalhava um pouco com ele e um pouco com o Nico. O De Sordi, assim como os pedreiros daquela época era exigente. Saia às cinco horas da tarde, quando faltavam uns quinze minutos ele dizia: “Pode pegar as ferramentas e lavar”. Tudo tinha que ser muito bem lavado, a colher de pedreiro, enxada, o caixão de massa. Hoje geralmente deixam do jeito que está. O Xoxo montou a marmoraria juntamente com seu sobrinho Osvaldo Perina, o apelido dele era Zito, como sócio. Naquela época chamava-se Marmoraria Bom Jesus. Artur José Maria, filho mais velho do Xoxo ficou tomando conta das obras do pai no cemitério. O Xoxo ficava mais na marmoraria. Eu comecei a trabalhar com ele, já como pedreiro. Era ele, eu e um senhor de idade que nós o chamávamos de “Seu Zico”. Ele era nosso servente, e praticamente um pai para nós. No fim o meu pai começou a empreitar obras por conta própria.. Éramos nós dois ele e eu. Na época havia uma concorrência agressiva, outro empreiteiro fica observando o cliente acertando o serviço com algum construtor. Quando o cliente saia o empreiteiro que estava de olho abordava o cliente e fazia por um preço menor o mesmo serviço. Era uma guerra. Meu pai percebendo o procedimento ocorrido algumas vezes, fez um documento onde o contratante assinava um termo de compromisso, nos termos de uma duplicata. Ele dizia: “- Vou fazer o serviço, quando terminar eu aviso e o senhor paga a duplicata”. Até que meu pai ficou enjoado daquela concorrência o tempo todo e decidiu parar.










O senhor deve ter histórias memoráveis ocorridas no cemitério.
Lembro-me de uma senhora que procurou o meu pai e disse: “-Pradão, quanto você cobra para erguer uma segunda gaveta no tumulo de minha propriedade, que só tem uma gaveta?” O tumulo fica perto do túmulo do Padre Galvão. Meu pai deu o orçamento, Ela estava conversando com o meu pai, eu fiquei meio afastado, meu pai não gostava que ao conversar com uma pessoa alguém, mesmo um filho, ficasse perto dele escutando. Olhei na direção do centro de Piracicaba, vi uma poeira enorme, comentei com um colega que estava perto que estava estranhando aquela poeira. Ele disse-me: “Estou com o rádio ligado. Caiu o Comurba!” Era parte do edifício “Luiz de Queiroz” mais conhecido como COMURBA que era o nome da construtora Companhia de Melhoramentos Urbanos. A mulher que tinha ido conversar com o meu pai amoleceu as pernas e sentou-se. O amigo dele, marido dela, trabalhava como encanador naquela obra. Ela simplesmente disse: “Meu marido trabalha no Comurba!”. Sem saber se ele tinha sido vitima, no outro dia meu pai e eu demos andamento a obra, deixamos preparado para ser usado futuramente. No dia seguinte a mulher voltou e disse ao meu pai: “É Pradão! O túmulo vai ser usado! Meu marido faleceu no acidente do Comurba!”.
O próprio empreiteiro é que fazia o sepultamento?
O sepultamento era feito por funcionários da prefeitura. Depois é que o empreiteiro passou a fazer também o sepultamento. Nesse caso em particular, como o túmulo ainda estava por ser concluído, ele foi autorizado a fazer o sepultamento.
Como funcionava a distribuição de serviço entre os empreiteiros?
Cada empreiteiro era escalado uma semana. Era o Xoxo, o Firmino José Ribeiro, o Fioravante de Lima (Tino), cada semana era um, fazia o rodízio. Trabalhei com todos eles. Naquela época não éramos registrados, havia a necessidade de bons profissionais, quem precisava pagava um pouco a mais e o profissional ia trabalhar para outro empreiteiro.
A porta principal do cemitério foi sempre no mesmo local?
A entrada era pela Avenida independência, o portão existe até hoje, mas segundo consta, em 1906 o vereador Francisco Morato propôs a construção de um portal de entrada que acabou ocasionando a demolição do muro que separava os mortos de diferentes religiões.  O projeto é de Serafino Corso e foi construído por Carlos Zanotta. Diziam que onde é Estádio Barão de Serra Negra, na época em que foi construído, foram achadas ossadas ali.
Quantos anos o senhor trabalhou no Cemitério da Saudade?
Trabalhei 30 anos no Cemitério da Saudade. Não era funcionário da prefeitura, era empreiteiro.




Tinha pessoas que davam gorjetas?0 anos, embora não fosse funcionário da prefeitura Tinha! Acabei tornando-me um pedreiro considerado como bom profissional, eu sempre gostei de fazer o serviço bem direitinho, fiz o sepultamento de Mário Dedini, Leopoldo Dedini, Cassio Paschoal Padovani, só não fiz o de Luciano Guidotti, porque não era o dia o meu plantão. Eu era conhecido no cemitério como “Zé Pradão”.T
O primeiro sepultamento que consta nos registros do Cemitério da Saudade é da negra Anastácia?
Foi da escrava Anastácia e ela está sepultada no mesmo lugar onde está sepultado o João Balaeiro, ele fazia balaio e vendia. Era negro, de calça arregaçada, pito na boca. Ao lado da capela tem um tumulo de um menino que tinha falecido com nove ou dez anos, em cima do tumulo fizeram uma caixa de mármore, com tampa, ali começou a aparecer água. Era uma caixa vazia, com a tampa, para no futuro plantarem alguma flor, quando então seria tirada a tampa de mármore. Após algum tempo, um determinado dia levantei a tampa, não comentei nada com ninguém. Um dia chegou uma senhora, após um bom tempo rezando junto ao tumulo ela disse-me: “- Falaram que esse menino virou santo”. Conversamos um bom tempo, ela teve a curiosidade em saber o que tinha naquela caixa de mármore, eu abri para que ela visse, estava cheia de água! Ela disse-me: “Será que eu não posso levar um pouco dessa água?” Disse que podia, arrumei uma garrafinha, com uma caneca enchi a garrafinha para ela. Após agradecer muito ela foi embora. Uns quinze ou vinte dias depois, a mulher me procurou no cemitério. Ela foi onde eu estava trabalhando e começou a chorar. Ela me agradeceu muito, pediu que Deus me abençoasse, disse que seu filho não podia nem levantar da cama, ele tinha dez anos, disse-me “ Lembrei-me de que o senhor tinha falado da água, dei daquela água para ele beber, o menino sarou!”. Eu apenas pedi que ela não comentasse com ninguém, iria causar um tumulto.
Há uma história de um caixão que ninguém conseguia levar assim que entrou no cemitério?
É o túmulo do Padre Galvão. A meu ver é uma lenda, não posso afirmar a veracidade do fato. Isso ocorreu no portão antigo, na Avenida Independência. Quando chegou onde está o caixão pesou muito, a ponto de terem que soltar no chão. Os funcionários mais antigos comentavam que foram feitos todos os esforços para erguer o caixão, mas não conseguiram. Decidiram fazer o tumulo ali mesmo, e assim foi feito.



Outro tumulo muito visitado é o de Alfredo Cardoso?
Há um grande número de pessoas que freqüentam esse tumulo, a meu ver há bastante criatividade popular.




O Cemitério da Saudade cresceu muito?
Cresceu! Compraram a chácara da família Schmidt e aumentaram.
O senhor aposentou-se trabalhando no cemitério?
Não, aposentei-me quando trabalhava em uma indústria metalúrgica, logo que meu pai faleceu, eu fiquei desgostoso e sai do trabalho no cemitério. Eu já tinha casado com Maria Aparecida Bernardes Ferreira, ela era enfermeira na Santa Casa de Piracicaba. O primeiro emprego dela foi no restaurante e lanchonete Leiteria Brasileira, ela era uma menina, exercia a função de ajudante de cozinheira. Tivemos quatro filhos: Lucilaine, Claudia, Ana Paula e José Roberto. Quando caiu o Comurba eu era solteiro, nós éramos namorados. Troquei de roupa e sai de casa, disse à minha mãe que tinha caído o Comurba e a Cida, minha noiva na época, trabalhava no restaurante encostado. Desci a pé a Rua XV de Novembro, quando cheguei a policia não deixou entrar na área isolada. Fui informado então que não havia acontecido nada no local onde ela trabalhava, o pessoal estava todo no fundo do restaurante. Casamos na Igreja Bom Jesus. Eu tinha dois cunhados, João Bernardes e Luiz Bernardes eles me convidaram para ir trabalhar na Metalúrgica RKM. Fui admitido, trabalhei dois anos como faxineiro, ai me chamaram para auxiliar de almoxarifado. O porteiro aposentou-e, fui para a portaria. Tive que anotar tudo que ele fazia, ele não me ensinou nada. Quando ele saiu eu consultava minhas anotações, em pouco tempo já estava amigo dos caminhoneiros. O filho do Xoxo conversou comigo, eu comecei a trabalhar com ele, fora do horário de expediente na metalúrgica, empreitava para realizar serviços em túmulos. Como ele tinha marmoraria eu passei a ajudá-lo na montagem de tumulo, principalmente de granito. A princípio usava-se o granito preto, hoje utilizam mais o marrom. Aos sábados e domingos meu irmão e eu trabalhávamos no cemitério. Levava massa, erguia parede, só que o nervo ciático começou a se manifestar. Eu carregava muito peso. Apesar de que o material o filho do Xoxo mandava o funcionário deixar tudo já preparado para que eu trabalhasse da forma mais fácil. Mesmo assim eu fazia esforço físico, levava as latas com massa, abaixava, levantava. Um dia eu disse-lhe: “Artur, não dá mais!”. Trabalhei oito meses após aposentado. Nessa época aluguei um quarto na Vila Monteiro e passei a morar sozinho. Após um excelente relacionamento com uma senhora que conheci, chegamos a conclusão de que seria melhor continuarmos excelentes amigos. Logo depois ela vendo-me morando sozinho, apresentou uma amiga com a qual vivi treze anos Infelizmente ela ficou com Alzheimer, ficou pele e osso, eu que cuidava dela. Nós freqüentávamos a Igreja São Francisco de Assis, próxima de casa. As filhas foram extremamente atenciosas com ela, e vendo o quadro, acharam que eu estava sentindo demais a doença dela. Iria me acabar junto com ela. Um dia me chamaram e disseram que eu deveria me cuidar, dar um pouco de atenção a mim mesmo, voltei a morar naquele quartinho que já tinha morado há anos. Ali tinha meu fogão, minha geladeira, cuidava das minhas roupas. Foi quando minhas filhas começaram a falar que eu ali sozinho não era uma boa opção. Eu não queria morar com nenhum dos filhos, sei que cada um tem sua vida própria. Elas então conseguiram com que eu arrumasse uma vaga no Lar dos Velhinhos. Faz dois anos que estou aqui.
Sr. José Ferreira, como começou essa sua carreira literária?
Eu tinha 14 anos.  Escrevi muito. Já adulto tinha uma amiga, o marido dela trabalha no SEMAE, eu fazia poesia e ela gostava muito. Eu tinha um caderno de duzentas folhas. Totalmente escrito. Muitos me aconselharam a publicar um livro daquele caderno. Essa minha amiga adoeceu, não podia mais levantar da cama. Eu pedia licença ao marido dela e ia visitar-la.Uma ocasião levei o caderno, ela começou a chorar e disse-me: “Zé antes de eu morrer você não dá este caderno para mim?” Dei o caderno para ela. Passei um tempo sem escrever até resolver a começar tudo de novo, comprei cadernos, canetas.
Você se considera um escritor, um poeta ou um historiador?
Faço alguns versos, mas não me considero um poeta, eu conto histórias. Tenho muitas histórias. Algumas delas estão em meus cadernos. Relembro as histórias do meu pai, da minha mãe, escritas após eles terem falecidos. Parte da história da minha vida. Sinto que o que escrevo desperta a atenção de muitas pessoas. Já publiquei pequenos trechos, por influencia de amigos. Meu sonho é transformar uma parte do que tenho em um livro. Só existe a barreira do custo de impressão, esse eu não consigo arcar com ele.



Histórico sobre os primeiros cemitérios e enterramentos de Piracicaba:

    Equipamento de primeira necessidade em qualquer civilização, o cemitério sempre esteve ligado à religião católica, no território brasileiro. Dependendo da classe social, os homens livres, quando mortos, eram sepultados dentro ou no adro das igrejas. Já os escravos eram enterrados nas fazendas onde trabalhavam ou abandonados nas proximidades de uma Santa Casa de Misericórdia (Cachioni, 2002). 
    A antiga prática dos enterramentos dentro das igrejas foi considerada prejudicial para a saúde pública, e uma legislação determinava que fossem construídos cemitérios em locais afastados da área do perímetro urbano, no entanto a população ainda insistia no sepultamento dentro das igrejas (ou nos seus adros), por considerá-los áreas santificadas. 
    Todavia, em Constituição, as obras de construção de uma nova matriz católica, as quais circundando a edificação primitiva, inviabilizavam a referida prática, o que tornava fundamental a construção de um cemitério (Cachioni, 2002).
    Em 1828 o governo determinou que os cemitérios fossem transferidos para locais mais apropriados, a bem da saúde pública (Carradore, 1989). 
    Apesar da legislação não permitir, a teimosia do povo ainda mantinha a prática dos sepultamentos dentro da Matriz de Santo Antônio, mesmo depois da construção de um cemitério no Largo da Boa Vista. Cemitério este que, em poucos anos, se deteriorou por falta de conservação (Cachioni, 2002).
    Somente em 1849 o cemitério da vila foi definitivamente cercado. A partir deste momento, a população passou a ter menos reservas em sepultar seus  mortos naquele sítio, que até então, não tinha sequer recebido a benção da igreja (Carradore, 1989). Saneamento e salubridade dificilmente eram encontrados nas vilas e cidades imperiais. O Cemitério público, localizado no Largo da Boa Vista, causava enorme constrangimento pelas queixas dos moradores das redondezas, pois vivia a exalar ‘hum hálito pestífero’, a tal ponto, que a 
Câmara exigiu do Fiscal que tomasse medidas sérias para  ‘mais bem enterrar os cadáveres’... (Perecin, 1989). 



Cemitério da Saudade:
  

  O Cemitério da Saudade de Piracicaba foi o terceiro na cidade a ser construido e foi formado inicialmente como um cemitério protestante. O cemitério foi solicitado porque os protestantes, no caso, luteranos, não podiam ser sepultados em cemitérios católicos. Havia em Piracicaba dois cemitérios Católicos: o primeiro ficava localizado na Praça Tibiriçá, onde atualmente se encontra a E.E. ‘Morais Barros’ e o segundo, onde se encontra o Colégio Dom Bosco-Assunção, servia apenas  aos padres e freiras. Theodore Loose foi um dos primeiros a serem sepultados no cemitério da comunidade, em 1869. 
    Muitos norte-americanos (batistas, metodistas e presbiterianos), vindos da Guerra da Secessão, também enterraram seus mortos nesse cemitério, que foi de uso exclusivo da comunidade alemã até tornar-se municipal (público) em 2 de dezembro de 1872, com o sepultamento da escrava Gertrudes.  Para tanto foi construído um muro que separava os Protestantes dos Católicos. Também neste ano foi colocado, no muro da Avenida Independência, frente à Rua Moraes Barros um portão de ferro confeccionado pelo ferreiro 
Joaquim Lordello (Cachioni, 2002). 
    Reformado no início do século XX, suas ruas foram em boa parte alteradas, mantendo-se alguns túmulos nas disposições antigas, como no caso do Padre Galvão.  Em 1906 o vereador Francisco Morato propôs a construção de um portal de entrada no Cemitério Municipal, que acabou trazendo a demolição do muro que separava os mortos de diferentes religiões. Foi executada uma avenida central e um portal de entrada, com características neoclássicas e anjos em relevo, projetado por Serafino Corso e construído por Carlos 
Zanotta (Setto, 1996). 
    Apesar de popularmente se dizer que pode ter sido inspirado no portal do Cemitério de Gênova, na Itália, é difícil a comparação, tendo em vista que o importante portal monumental do Cemitério Staglieno não apresenta semelhanças formais com o portal piracicabano, muito menos em tamanho ou proporções. O  Portal do Cemitério da Saudade é uma construção de caráter monumental, com inspiração no ‘Arco do Triunfo’ clássico, tendo proporções bastante acanhadas se comparado ao congênere genovês. Na entrada há quatro figuras em relevo representando serafins e querubins, todas diferentes entre si. O portão de ferro fundido foi trazido da Alemanha pelo arquiteto Serafino Corso e a epígrafe OMNES SIMILES SUMUS foi pintada em 1941 pelo artista local Joca Adâmoli, atendendo ao pedido do Prefeito José Vizioli. A liberdade estética, com a qual foram usados os elementos clássicos, insere o monumento no Ecletismo.


Adicionar legenda
 A denominação Cemitério Municipal da Saudade foi feita por indicação do vereador Oscar Manoel Schiavon, em 12 de junho de 1953. O prefeito Aquilino José Pacheco montou a sua atual estrutura, ordenando os túmulos, colocando guias e sarjetas, drenando as águas pluviais que causavam erosão e infiltrações nas sepulturas. O Cemitério da Saudade ocupa área de 145 mil metros quadrados, tem 20 mil túmulos, 90 quadras,1 avenida, 12 ruas e 11 travessas (de A a K), guarda 124 mil restos mortais e realiza aproximadamente mil sepultamentos por ano (Cachioni, 2002).
                               Portal do Cemitério da Saudade. Acervo IPLAP



Portal do Cemitério da Saudade no primeiro quartel do século XX. Arquivo IHGP.



Situação atual do Portal do Cemitério Municipal da Saudade, após obras de recuperação.
Exemplo de obra de arte encontrada no Cemitério da Saudade:Foto: Paulo Renato

Exemplo de jazigo encontrado no Cemitério da Saudade.Foto: Paulo Renato.

         TUMULO  ONDE ENCONTRA-SE SEPULTADO PRUDENTE DE MORAES O PRIMEIRO PRESIDE CIVIL DA REPÚBLICA


O Cemitério
O maior cemitério da cidade de Piracicaba guarda mais de 124 mil restos mortais, e não é a toa que junto com alguns deles nasceram e vivem até hoje crenças que já espalharam por gerações de piracicabanos. João de Almeida Prado, um empresário estudioso conhecido pelas suas obras, depois de falecido ficou famoso de outra forma, sua estátua de bronze sobre o túmulo é a personagem da história do homem do livro, contam que o livro também bronze que está no chão de seu sepulcro, já foi visto por muitas vezes na mão do homem estudioso.O cemitério foi fundando em 1872, ele foi o terceiro a ser construído na cidade. Em Piracicaba nesse tempo existiam outros dois cemitérios, porém católicos: o primeiro ficava localizado na Praça Tibiriçá, onde atualmente se encontra a Escola Estadual ‘Morais Barros’ e o segundo, onde se hoje se localiza o Colégio Dom Bosco-Assunção, esse servia apenas aos padres, freiras e religiosos reconhecidamente católicos, de ordens leigas. Como os dois locais pertenciam às ordens religiosas a administração era feita pela igreja, que exigia comprovantes de batismo e extrema unção para o sepultamento, dificultando assim o enterro dos negros, judeus, ciganos e também dos protestantes. O médico alemão, Dr. Otto Rudolpho Kuffer que residia em Piracicaba e também era protestante em 1860  solicita a compra de terreno, e no mesmo ano recebe da Câmara Municipal de Piracicaba a concessão de uma Carta de Data (que permitia a compra) e adquire o terreno para a construção de um cemitério para os protestantes, comunidade que na época estava em grande ascensão local e regional.
Ao todo são mais de 145 m² de extensão, são aproximadamente 20 mil túmulos, distribuídos em 90 quadras, um avenida, 12 ruas e 11 travessas (de A a K). O local escolhido diferente dos outros cemitérios ficava longe do centro da cidade, em terras que eram usadas para o cultivo de algodão, e também de cana. No local apenas os que fossem comprovados legitimamente protestantes poderiam ser enterrados, situação que só mudou em dezembro de 1872. As primeiras pessoas a ocuparem o campo foram: família Wolling em 1878; família Lohse, em 1878; família Theodor Loose, em 1878 e família Gott, em 1873. A municipalização de cemitérios só ocorreu em Junho de 1890, pelo então imperador Dom Pedro II. E para marcar esse novo momento o primeiro sepultamento realizado na Saudade já como cemitério municipal foi o da escrava Gertrudes.



sábado, maio 07, 2016

FILOMENA NASCIMENTO MATTOS



PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 07 de maio de 2016.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADA: FILOMENA NASCIMENTO MATTOS



Filomena Nascimento Mattos está com 89 anos, com muita disposição física e mental, lembra-se de fatos que vivenciou. Com seu marido formaram um casal arrojado que em férias percorreram longas distâncias, aventurando-se até o Uruguai e Argentina, dirigindo um Fusca ou uma Kombi. Assim conheceram novas culturas, pessoas e lugares. Esportista, Filomena praticava natação, ciclismo. Acumulou junto com seu marido uma coleção de troféus e medalhas. Seus pais eram de Capão Bonito.

FILOMENA NASCIMENTO MATTOS


Qual era o nome do seu marido?
Pedro Máximo de Mattos, nós tivemos três filhos: Valdir, José Carlos e Jayme.
A senhora pintou belos quadros, como se desenvolveu essa sua veia artística?
No principio eu pintava panos de enxugar pratos. Surgiu uma vontade muito grande pintar um quadro. Passei a freqüentar aulas em um ateliê que funcionava junto a uma loja de artigos para pintura.
Quantos quadros a senhora chegou a pintar?
Foram uns treze quadros. Gosto muito de pintar flores, pássaros, borboletas.
O que a senhora sente quando está pintando um quadro?
Sinto-me feliz! E quando vejo o quadro pronto sinto-me muito feliz!
Em média quanto tempo a senhora gasta para pintar um quadro?
Demoro mais de um mês, é um processo muito lento, minucioso. Geralmente faço pintura a óleo.
                                            FILOMENA E UM DOS SEUS QUADROS


A senhora gosta de música?                                 
Meu marido era musicista. Ele tocava flauta, bandolim, violino. Ele tocava na orquestra regida pelo Maestro Mahle.
O seu marido fazia serenata para a senhora?
Fazia! Aqui no Lar dos Velhinhos o pessoal pedia para que ele fizesse serenatas.
A senhora tem alguma música pela qual tem preferência?
Sendo música de boa qualidade eu gosto de todas as músicas. Prefiro as músicas suaves. Das músicas do passado eu gostava muito as interpretadas pelo cantor Vicente Celestino (Antônio Vicente Filipe Celestino), sendo que a música “O Ébrio” é uma das minhas preferidas, foi um enorme sucesso na época, segunda metade da década de 40.




                                           VICENTE CELESTINO "O ÉBRIO"


                                       Carlos Galhardo - Fascinação ( Fascination - 1957 ) 







                   Francisco Alves - O dia que me queiras (El día que me quieras - 1945) 


 Gostava muito de Carlos Galhardo ( Catello Carlos Guagliardi ), Francisco Alves (Francisco de Morais Alves). Eu era fã deles. Eu cantava no Coral do Maestro Ernst Mahle e da Igreja Metodista.
Como se deu o encontro da senhora com o seu futuro marido?
O pai dele conhecia a nossa família e deu o endereço do meu pai para procurá-lo. Ele ficou alguns tempos no hotel. Após uns três meses na cidade de Itapetininga ele me viu e simpatizou-se comigo. Ele via que eu estava lendo romances, sempre levava um romance para que eu lesse. Cada vez que ele vinha trazia um romance.
Vocês começaram a namorar?
Eu não percebi que ele estava me namorando. Passaram alguns anos ele estava no Exército. Quando ele foi dar baixa procurou o meu pai e disse: “-Agora vou dar baixa e vou ter que procurar serviço! Ou então vou fazer carreira no Exército!”. Infelizmente como soldado naquela época não era tido como um bom partido, meu pai disse que se ele quisesse me namorar não poderia continuar no Exército. Meu pai arrumou um emprego para ele na Estrada de Ferro Sorocabana. 



Meu então namorado era muito criativo, ele fez um simulacro de um telegrafo e passou a treinar o código Morse. Ele fez os testes, entrou em primeiro lugar como telegrafista na Estrada de Ferro Sorocabana. Foi trabalhar em Santos, que era o único lugar onde tinha vaga. Ele sempre mandava telegrama para mim. Eu não mandava nada para ele. Meu pai não admitia que tivéssemos muito entrosamento. No fim ele fez carreira na Sorocabana onde permaneceu por 40 anos.
Vocês casaram-se em qual cidade?
No civil casamos em Itapetininga e no religioso casamos em Botucatu. Moramos em Botucatu uns quatro meses, meu marido foi removido para Itapetininga. Lá ele fez o curso ginasial, colegial. Prestou concurso para trabalhar no escritório da Estrada de Ferro Sorocabana. Entrou como telegrafista, trabalhou uns anos em Itapetininga e daí foi removido para São Paulo, lá cursou a faculdade e prestou concurso para administração. Ele aposentou-se como Oficial Administrativo. A Sorocabana era uma família. O termo portador era utilizado para denominar quem fazia a faxina.

A senhora morava em que local de São Paulo?
Morei em Barueri. Meu marido trabalhava na Estação Julio Prestes, hoje Sala São Paulo.


                 Estação Julio Prestes antiga Estrada de Ferro Sorocabana Ponto Turistico


INTERIOR DA ESTAÇÃO JULIO PRESTES


 Pegava o trem em Barueri e descia em São Paulo, era só subir a escada e ele já estava no seu local de trabalho. Nesse tempo eu já estava começando a costurar para alfaiate. De Barueri eu ia até o Brás, São Paulo era muito diferente, saíamos tranqüilos, eu ia ao Brás sozinha, era longe, eu ia de trem até a Estação Julio Prestes, lá pegava o ônibus e ia até o Brás. Pegava as calças, todas cortadinhas, trazia para minha casa, só costurava. Eram alfaiates finos, trabalhavam para artistas de rádio e televisão. Trabalhei uns dez anos com costura. Naquela época usava-se muito linho, tergal. Costurar linho é complicado, mas acaba aprendendo-se. Os alfinetes ajudam muito. Com isso fomos ajuntando dinheiro para adquirir uma casa, lá nós pagávamos aluguel. Com nossas economias adquirimos uma casa em Sorocaba. Meu marido estava para aposentar-se. Meus pais moravam em Sorocaba, eu tinha um circulo de amizades com pessoas da cidade.
De Sorocaba a senhora mudou-se para que cidade?
Eu vim para Piracicaba, residir no Lar dos Velhinhos. Vim para fazer uma visita a uma amiga, a Hermínia, que morava aqui, ela tinha uma filha que sofreu um acidente e ficou paraplégica, na época eu tinha muitas pessoas que eram conhecidas e moravam no Lar. A Hermínia pediu se eu não podia vir morar aqui e assim eu dava uma ajuda a ela. Meu marido e eu viemos. Naquela época o Lar dos Velhinhos era bem menor, passado um mês nós viemos. Eu tinha 50 anos, meu marido era mais velho, faz 49 anos que eu moro aqui no Lar dos Velhinhos de Piracicaba. Eu acredito que tem uma moradora mais antiga do que eu aqui no Lar, a Therezinha Monteiro. Com o dinheiro que ganhamos em Barueri adquirimos uma casa bem no centro da cidade de Sorocaba, só que fizeram um prédio em frente da casa, além de tirar a visão perdemos a liberdade de irmos para o quintal, vendemos a casa lá e construímos uma casa no Lar dos Velhinhos.
Após parar com a costura a senhora fez alguma outra coisa?
Trabalhei com artesanato, fiz chinelos de quarto, em Sorocaba trabalhei com arte culinária, fiz curso de comida natural, fiz na LBA- Legião Brasileira de Assistência que havia naquele tempo. A soja estava em voga, aprendi a fazer centenas de pratos tendo a soja como matéria prima. É um alimento que gosto muito. Aprendi a fazer leite de soja, carne, feijoada vegetariana, tofu, quibe, pastel. Eu ensinava em hospital, creche e igreja. Nós fazíamos os produtos, dávamos uma espécie de festinha e convidávamos as pessoas interessadas em aprender. Elas experimentavam os produtos, se gostassem faziam o curso para aprender a fazer. Foi um sucesso, eu era funcionária da LBA. Fiquei dez anos nessa atividade. Eu dava cursos desde Iperó até Itararé. Trabalhei muito com hospitais.















Hoje o leite de soja que é comercializado tem conservantes, isso altera o produto?
Isso adultera o produto. Após tirar o leite de soja, o bagaço nós aproveitamos para fazer outros alimentos como quibe, cocada, que por sinal fica muito gostosa. Primeiro colocamos de molho a soja, na véspera, no dia seguinte batemos no liquidificador, com um pano bem fininho vamos espremendo, hoje já até existe um espremedor especial. Sai o leite. O bagaço põe na panela com um pouco de leite de soja e vai engrossando, Poe um pouco de leite condensado. Fica uma delicia. Infelizmente temos muitas pessoas que são acomodadas, não querem ter o trabalho de fazer alguma coisa com as próprias mãos. Preferem ir a um supermercado onde todos os produtos têm conservantes adicionados. Eu evito consumir esses tipos de produtos.
Essa sua preferência por produtos naturais é responsável pelo fato da senhora com 89 anos estar com a saúde perfeita?
Graças a Deus! Sou muito metódica em todos os meus hábitos. Isso facilita a minha vida. Sempre gostei muito de bordar, depois que comecei a pintar dei preferência a pintura. Bordava tela. Aqui no Lar fiz muita coisa para exposição.
A senhora conhece a artista Denise Storer?
Conheço muito! Fiz uma excursão para Campos do Jordão com ela. Pintei flores, paisagens. Fiz umas oito exposições, ganhei certificados de Honra ao Mérito. É uma terapia. A amizade que fazemos é muito boa.
Quando a senhora e seu marido mudaram-se para Piracicaba o seu marido estava aposentado pela Estrada de Ferro Sorocabana.
Aqui no Lar dos Velhinhos ele fazia serenatas.
A senhora assiste noticias na televisão?
Com relação a televisão só assisto uma novela bíblica. Tem o canal da Igreja Adventista. Assisto mais noticiários, tenho acompanhado a situação política atual, o Brasil já passou por muitas situações. Quando eu era criança meus pais contavam que ocorreu uma revolução no Estado de São Paulo, a Revolta Paulista de 1924, também chamada de, "Revolução do Isidoro", Comandada pelo general reformado Isidoro Dias Lopes, a revolta ocupou a cidade por 23 dias.




 A cidade de São Paulo foi bombardeada por aviões do Governo Federal. Meus pais moravam em Itapetininga. Foi feio, não podíam sair ás ruas. Os aviões passavam a todo instante. Passei a ter um enorme medo de avião. Hoje não tenho mais. Tenho algumas poucas lembranças da Revolução Constitucionalista de 1932. Eu nasci em 1927. Na Segunda Guerra Mundial meu marido foi convocado para servir, ele deveria ir para a Itália. Pelo fato dele trabalhar como foguista na locomotiva, ele serviu transportando soldados para Santos, muitas vezes ficava dia e noite trabalhando. Nós éramos recém-casados. Graças a Deus ele não foi pelo fato de ser foguista, não podia deixar a locomotiva sem lenha.
Vocês tinham o espírito de aventura?
Qualquer feriado nós já saiamos, no caminho decidíamos para onde iríamos. Tivemos um Fusca, com esse carro fomos à Argentina, Paraguai, Uruguai, lembro-me de que a Argentina estava no período da Guerra das Malvinas, havia restrições para locomover-se pelo território argentino. Teve um período em que tivemos uma Kombi, se não achássemos hotel parávamos em algum posto policial ou pedágio, naquela época já existiam alguns não tantos como hoje. Armávamos uma barraca ou dormíamos dentro da Kombi. Com isso chegamos a conhecer até São Luiz, no Maranhão. Fomos de Fusca, levamos sete dias para chegarmos. Tinha estrada, mas não era asfaltada. O Fusca era verdinho bem clarinho e a Kombi era branca. Íamos só nós dois. Os filhos ficavam em casa. Nessa época eles já estavam estudando. Ficavam sozinhos, os dois, havia uma diferença de cinco anos entre a idade de um e de outro, eu ensinei-os a cozinhar eles se viravam. Quando telefonávamos avisando que íamos chegar eles preparavam até o almoço para nós. Naquela época o telefone era muito precário, não havia a facilidade de comunicação que temos hoje. Íamos muito para Caldas Novas para passar uns dias. Isso faz uns vinte anos. Às vezes levávamos alguém daqui junto, para conhecer. Chegamos a acampar por até três meses. Às vezes parávamos em uma estrada, meu marido tinha feito uma cozinha que levávamos dentro da Kombi, armávamos umas redes em árvores para descansar. A natureza era mais rica. Não tínhamos tantos recursos de tecnologia que hoje são considerados essenciais, muito do que se compra são bens supérfluos. Infelizmente as pessoas chegam a ficar enfurecidas se dissermos algo a respeito. Os jovens levam uma vida desregrada, freqüentam as “baladas”, muitas moças saem e voltam no dia seguinte algumas chegam para o almoço. Ninguém sabe onde elas estiveram. Para se viver bem temos que ter uma vida regrada. Sermos pacientes. Querer tudo na hora acaba com as pessoas.
A senhora pratica alguma atividade física?
Atualmente não. Mas já pratiquei muito, na ACM – Associação Cristã de Moços fiquei por dez anos, em Sorocaba. Também freqüentava o SESI. Com isso fiz diversas atividades físicas. Caminhadas a distância, natação, ciclismo. Aqui em Piracicaba meu marido e eu íamos cada um em uma bicicleta, da Rua do Porto até a ESALQ. Sempre ganhamos prêmios, ultimamente pela participação com a nossa idade. Nunca fiquei doente.
A senhora é religiosa?
Sou adventista. Tenho muita fé em Deus. Acredito nas promessas que Ele fez.
Essa volúpia que o ser humano tem por poder e por dinheiro é um desvio?
É desvio! O ser humano se apega mais ao dinheiro do que a Deus. Dinheiro é tudo para a pessoa. O poder também. O mundo está envolvido só por isso, não se lembra que teremos um fim e que não sabemos quando será.
Os adventistas têm um principio de alimentação e conduta bastante metódica?
Tornei-me adventista depois de me casar. Meu marido era adventista. Evitamos determinados tipos de alimentos, aos sábados procuramos visitar as pessoas enfermas. A regra da nossa vida é a Bíblia. Visitamos doentes, hospitais, não praticamos a violência, a inveja prejudica mais a pessoa que tem inveja do que aquela que é invejada. Ela cria um inferno para ela mesma. Ciúmes e inveja a Igreja procura consertar.  

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Isidoro Dias Lopes

O velho "cabo de guerra" é uma das personalidades nacionais mais importantes do século XX. Gaúcho de Dom Pedrito (RS) - 30/6/1865 - ingressou no Exército em 1883, na arma de Artilharia. Republicano, conspirou contra o Império. Em 1893, abandonou o Exército Brasileiro e se integrou às tropas guerrilheiras federalistas que lutavam contra a tirania de Floriano Peixoto. Preso, foi para o exílio, em Paris. Anistiado, voltou ao Brasil em 1896, sendo reintegrado ao Exército.
Em 1924, já general-de-brigada reformado, foi escolhido para chefiar a Segunda Revolta Tenentista, que teve a cidade de São Paulo como palco principal. Ao lado do major Miguel Costa, da Força Pública, e dos capitães do Exército Brasileiro, os irmãos Joaquim e Juarez Távora, comandou a revolta contra o governo de Artur Bernardes. Com o impiedoso bombardeio da cidade de São Paulo efetuado pelo governo federal, que pretendia desalojar os insurretos, e que provocou a morte de mais de 700 civis, o general retira sua tropa da Capital. Queria evitar um massacre ainda maior. Instalado em Foz do Iguaçu (PR), os revolucionários recebem, em abril de 1925, a adesão da coluna rebelde gaúcha, comandada pelo capitão Luis Carlos Prestes. Izidoro é promovido pelos seus pares a "Marechal da Revolução" e vai para a Argentina e Paraguai como a missão de comprar armas e divulgar a Revolução no exterior. A chefia da Divisão Revolucionária é entregue Miguel Costa, promovido a "general", tendo o "coronel" Prestes como chefe do Estado Maior. Em fevereiro de 1927, a 1ª Divisão Revolucionária (conhecida como Coluna Prestes), se interna na Bolívia após 2 anos de marchas e combates pelos sertões de treze estados brasileiros, encerrando suas atividades como tropa combatente. Contudo, seus oficiais continuam conspirando do exílio.
Em 3 de outubro de 1930, estoura Revolução Liberal, e os "tenentes" marcham ao lado de Getúlio Vargas, governador do Rio Grande do Sul e chefe do Movimento, depondo Washington Luiz da presidência República. Izidoro, promovido a general-de-divisão, está entre os revolucionários e assume do comando da Segunda Região Militar, com sede em São Paulo. Mas logo se desencanta com os rumos da Revolução de 30. Em 28/5/31 pede demissão do Comando da Região e do Exército, abrindo mão de todas as vantagem e gratificações que Getúlio lhe oferecera para permanecer o cargo, inclusive a patente de marechal. Ao deixar o Comando, disse que preferia viver da caridade pública do que trair sua consciência de revolucionário e democrata.  Ainda em 1931, ao lado de oficiais do Exército Brasileiro e da Força Pública, passa conspirar contra Vargas.

Em 9 de julho de 32, foi nomeado por lideranças civis e militares, chefe militar supremo do Movimento Constitucionalista, que acabara de irromper. Com a derrota dos paulistas, em 2 de outubro, foi para seu terceiro exílio, desta vez em Portugal, retornando, anistiado, em 1934. Em 1935, foi sondado pelos comunistas para participar do Movimento que acabou desaguando na chamada Intentona de 27 de novembro. Mas rejeitou o convite, alegando que tinha horror às ditaduras. Em 1937, foi um crítico feroz do Estado Novo, implantado em 10 de novembro daquele ano por Getúlio Vargas, que acabou se tornando o ditador absoluto do Brasil até o final de 1945. Izidoro Dias Lopes faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 27 de maio de 1949, aos 84 anos. Em 1957, quando São Paulo comemorou os 25 anos da Revolução de 1932, seus restos mortais foram transladados para a capital paulista onde repousam hoje do Mausoléu do Ibirapuera


domingo, maio 01, 2016

QUIMIE KAMIYAMA

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 30 de abril de 2016.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/ 

ENTREVISTADA: QUIMIE KAMIYAMA



Quimie Kamiyama é metódica, determinada, esbanja simpatia. Quem a vê pela primeira vez imagina que se trata de uma pessoa com temperamento oriental, reservado. De fato é muito discreta. Mal se pode imaginar que ela integra um conjunto de musica popular brasileira, tocando seu inseparável pandeiro. Horas, isso mesmo, horas a fio ela acompanha as mais diversas musicas, sempre com o mesmo entusiasmo e alegria. Atleta, ela cuida de seu físico realizando longas corridas. Nascida no Noroeste do Estado de São Paulo, na cidade de Onda Verde,


                                               ONDA VERDE CIDADE DOS APELIDOS
Com dois anos de idade veio para São Paulo. Nascida a 1 de abril de 1951. Quimie é filha de Tojiro Kamaiyama e sua mãe Kiyo Kamaiyama que tiveram nove filhos: Koiti, Midori, Usio,Tokugi, Tetsuso, Naoki, Miriam, Quimie e Hissashi.
Quando a família mudou-se para São Paulo foi morar em que bairro?
Fomos morar na Rua Pitangueiras,323, apartamento 74.  próxima a Praça da Árvore. Nessa ocasião meu pai já estava aposentado, ele faleceu cedo, aos 67 anos. Isso foi por volta de 1975.
Como foi o meio de sobrevivência da família em São Paulo?
Dois dos meus irmãos abriram casas de móveis. O Naoki começou a estudar e formou-se em engenharia na Escola Politécnica. Eu também me formei em enfermagem.  O curso primário fiz no Grupo Escolar Professor Arthur Marret, ginásio e colegial fiz no Carlos de Campos. No Brás.
A senhora chegou a utilizar bonde como meio de locomoção?
Cheguei a utilizar o bonde como meio de transporte, subia a Rua São Caetano. Era na época do bonde aberto, depois é que veio o bonde fechado nas laterais, o “camarão”, assim denominado pela cor vermelha.
Após concluir o curso colegial a senhora foi estudar enfermagem em qual escola?
Fui estudar enfermagem na UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo, entrei em 1972 e sai como enfermeira padrão em 1975.
A senhora foi trabalhar em qual hospital?
Eu gostava de trabalhar em hospitais públicos. Primeiro fiquei no Hospital São Paulo, por um ano. Depois fui para o Hospital das Clínicas onde permaneci por 13 anos, no setor de ortopedia. Na época em que eu estava pedindo demissão o governador era Paulo Maluf. Ele tinha congelado o salário de todos os “hagaceanos”, de todos que trabalhavam em hospitais estaduais.
O Hospital das Clínicas de São Paulo é um universo da medicina.
Na época o INCOR- Instituto do Coração estava ainda em construção. Depois que foi construído o Hospital do Câncer ficou maior ainda. Toda emergência de maior gravidade era direcionada ao Hospital das Clínicas. A atriz Elis Regina foi internada lá, não a vi, mas os colegas comentavam.
Como era a rotina da senhora no setor de ortopedia?
Eu circulava entre os setores: setor feminino, adulto, masculino, setor de paraplégicos. Circulava no PI que é a Paralisia Infantil. Quando eu estava no setor de Paralisia Infantil recebi a visita do Ayrton Senna, era uma pessoa bem simples, não falava nada, ficamos sabendo depois que ele trocou todos os aparelhos respiratórios das crianças do setor de Paralisia Infantil.

Esses pormenores nunca foram divulgados na mídia. Na Paralisia Infantil tinha alguns leitos reservados para casos especiais, como foi o caso do João Carlos de Oliveira, conhecido como João do Pulo, um atleta, especializado em saltos, sendo ex-recordista mundial do salto triplo,   Teve a carreira de atleta interrompida em 22 de dezembro de 1981, quando sofreu um grave acidente automobilístico na Via Anhanguera, no sentido Campinas-São Paulo. Após quase um ano de internação na UTI, sua perna direita teve de ser amputada.






  


A senhora chegou a ter contato com João do Pulo?
Às vezes tinha, ele era uma pessoa que não estava deprimido, o acidente tinha sido recente. Era uma pessoa maravilhosa.
Era muito comuns acidentes de trânsito?
Era. Mas não tanto como ocorre atualmente.
Qual é o requisito principal para um profissional trabalhar nessa área?
Além dos conhecimentos técnicos, tem que ter muita paciência, tolerância, carinho. Cada caso é um caso especial. Na época os pacientes eram mais tolerantes. Eu achava que eram menos revoltados. As pessoas eram diferentes naquela época, a educação era outra.
Nessa época a senhora morava em que bairro?
Em 1978 adquiri meu apartamento na Rua Artur Prado, paralela a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio. É um ponto estratégico, vou para o Shopping Paulista a pé, vou até a Liberdade a pé, às vezes eu vou a pé para o centro. Vou até a Avenida Paulista em quinze minutos.
Em que ano a senhora saiu do Hospital das Clínicas?
Sai em 1988, eu disse à minha vizinha, que também era minha colega: “-Vou pedir demissão porque com esse ordenado prefiro ficar de braços cruzados”. Fui viajar para o Japão. Fiquei em Tokio, em Yamanashi, trabalhando na área hospitalar. Falo fluentemente o japonês, escrevo um pouco  e leio qualquer artigo.




Como a senhora conseguiu esse emprego no Japão?
Na época estavam começando a recrutarem pessoas para levar para o Japão, havia umas empresas que atuavam nessa área, ficavam lá no bairro da Liberdade. Eu me candidatei e fui. Tinha uma hospedaria certa e já tinha onde trabalhar. Já sai do Brasil com destino certo.
No Japão a senhora morou quanto tempo?
Foram uns cinco anos. Nesse tempo eu vim várias vezes para o Brasil.
Lá a senhora trabalhou na área de ortopedia?
Não. Lá eu trabalhei bastante com idosos, Trabalhei um pouquinho com ortopedia também.
Como é o idoso japonês?
É um pouquinho diferente dos nossos idosos. Dependendo do problema podem ser mais bravos. Às vezes a pessoa que sofre um AVC- Acidente Vascular Cerebral, a pessoa perde a paciência.
A senhora pode fazer um comparativo entre a medicina no Brasil e no Japão?
A medicina de uma forma geral não é diferente.
O tratamento com relação aos pacientes, lá são mais bem cuidados?
São! Recebem mais cuidados lá. São mais respeitados.
O idoso no Japão recebe um respeito maior do que o idoso no Brasil?
Qualquer idoso merece respeito. No Japão ele recebe muito mais respeito, não dá nem para comparar.
As doenças mais comuns com idosos no Japão são semelhantes às doenças com idosos no Brasil?
Tem Alzheimer, Parkinson, a seqüela de AVC é bastante comum.
O habito alimentar japonês difere muito do brasileiro?
Acho que o habito alimentar japonês é um pouquinho menos gorduroso, mais saudável. Os idosos têm atividades físicas conforme a capacidade e necessidade de cada um. Tanto dentro do hospital como fora, em passeios. Para mim foi uma experiência muito importante.




A senhora decidiu voltar ao Brasil por algum motivo em especial?
Eu não fui para ficar definitivamente lá. Voltei. Quando estava com quase 40 anos fui acometida de uma doença. Fui fazer tratamento lá, porque aqui não havia o tratamento que eu queria. Tratei-me, me curei totalmente. Depois voltei para o Brasil. É uma doença que não faço questão em evitar em falar, tive câncer de ovário. Permaneci em tratamento por quatro meses, no primeiro mês tive um tratamento convencional, tanto no Brasil como no Japão o médico tinha estimado que eu teria só mais três meses de vida. O hospital em eu estava no Japão trabalha em conjunto com a medicina americana. Resolvi parar com essa terapia convencional. Fui fazer um tratamento chamado imunoterapia. ( A finalidade da imunoterapia é incentivar o sistema imune do paciente a reconhecer o tumor e eliminá-lo). Eram duas vacinas diferentes que eu aplicava a cada cinco dias, subcutânea, quando recebi por seis meses essa vacina, eles me chamaram para fazer um check-up total e fazer uma auto vacina. Foi colhido material, com esse material foi feita vacina com dose para um ano. Isso foi em Tokio. Eles tem hospital, consultório e laboratório em três lugares diferentes de Tokio. Junto com as duas ampolas que eu tomava adicionei a auto vacina. Assim que comecei a tomar a auto vacina a recuperação foi surpreendente.
Isso foi há quantos anos?
Já faz quase 25 anos. Se eu não tivesse feito o tratamento lá eu não estaria conversando com você. Essa vacina quem está trabalhando é o filho do pioneiro, é a segunda geração do professor. O nome dela é Vacina Hassumi. Ele começou a pesquisa durante a Segunda Guerra Mundial, acredito que tenha sido até um pouco antes da Segunda Guerra. Se não me engano foi na década de 30, esta relatado em um livro escrito em japonês.
E quem pagava todas essas despesas?
Eu tinha algumas economias. Mas tenho dupla nacionalidade, sou cidadã brasileira e japonesa, tenho os dois passaportes. Nessa condição de cidadã japonesa obtive bons benefícios médicos. Primeiro você paga com seu dinheiro, quando o tratamento é de alto custo ai eles devolvem 70% do que você gastou. Eu recebi na hora.

                                                        MONTE FUJI - JAPÃO

Ou seja, o Estado cuida do cidadão?
Cuida! Há um grande respeito pela vida humana. Cada um respeita seu semelhante. É interessante, muitas vezes respeita mais o próximo que a si mesmo.
Os seus laços com o Brasil a trouxeram de volta?
Minha família toda está em São Paulo. Meus amigos. Minha profissão. Eu nasci, estudei e trabalhei aqui.
Após curar-se a senhora voltou a trabalhar?
Voltei a trabalhar no Hospital Santa Cruz, fui convidada a trabalhar lá. O Hospital Santa Cruz foi inaugurado em 1939, e sua história está intimamente ligada à da imigração japonesa. Trabalhei um ano. 



                                                      HOSPITAL SANTA CRUZ
Eu voltava ao Japão uma vez por ano. Após cinco anos parei de tomar a vacina.  Eu tinha feito um concurso para ingressar no Hospital do Servidor Publico Municipal, fui aprovada, quando voltei do Japão passei a trabalhar. Ali permaneci até me aposentar. Cinco anos antes de me aposentar me chamaram para trabalhar em uma pesquisa clinica, um serviço que eu nunca tinha feito. Em 2011, aos 60 anos, aposentei-me. Eu não via a hora de chegar aos 60 anos, minhas colegas achavam isso um absurdo! É que eu tenho algumas atividades a mais do que as minhas colegas. Leio em japonês, gosto de astronomia, história. Em 2008 eu resolvi voar de balão, eu gosto de umas aventurazinhas, não muito radicais. Marquei com uma colega de profissão, vim aqui em Piracicaba voar, decolando da ESALQ. Fiquei um dia hospedada no IBIS Hotel, perto do Shopping Piracicaba, voamos por uma hora e depois descemos em um campo onde tomamos um delicioso café da manha com champanhe. Nesse dia que fiquei sabendo do Lar dos Velhinhos. Resolvi marcar com o Serviço Social para conhecer o lugar, a Irmã Hilda nos acompanhou pessoas maravilhosas, fiquei encantada com o lugar e tudo. Em 2009 eu comprei o flat em que resido.
A senhora tem uma particularidade que são suas famosas caminhadas.
Na verdade eu pratico corridas já faz 19 anos. Em São Paulo eu corria no Parque Ibirapuera. Após tirar essa doença, achei que a corrida era a melhor opção para manter a minha saúde. Eu vou praticando e vou analisando. Não pratico corrida de curta distância onde tenho que desenvolver a velocidade. Corro lentamente, mas longa distância. No Parque Ibirapuera tem uma trilha de seis quilômetros, eu dava duas voltas, são doze quilômetros, demorava mais ou menos uma hora e meia. Hoje continuo correndo na ESALQ onde corro aproximadamente dez quilômetros. Por semana eu sinto que tenho que ir umas quatro vezes.



Existe outra particularidade da senhora que nos chama muito a atenção, a senhora é uma exímia pandeirista!A sua execução de pandeiro permanece por horas!
São duas horas. Quando cheguei aqui no Lar convidaram-me para ir a uma Feijoada do Gordo, fui, na ocasião o Laerte do Vinil colocava seu material de som e me orientou nas primeiras batidas de pandeiro. Eu gostei! Um dia o Seu Antonio me convidou para tocar na festa. Foi assim que comecei.









                                   
Qual é o sentimento que a senhora sente ao tocar esse instrumento?
É uma delicia ! Eu tento acompanhar!
Há um pouco de contradição em uma pessoa com forte formação oriental tocar um instrumento popular brasileiro?
Acho que a minha relação com o pandeiro foi de amor a primeira vista!
É uma atração inusitada, algo muito bonito, e não deixa de ser um exemplo de otimismo!Percebe-se que seus sentimentos estão nas pontas dos dedos ao tocar pandeiro de forma tão concentrada!
Nosso objetivo, do conjunto musical, é beneficiar as pessoas, levar alegria.
A senhora já saiu em algum desfile de carnaval?
Não! Acho que não tenho samba no pé! Mas se me mandarem tocar pandeiro eu toco sim!
A alimentação da senhora é normal?
Eu evito frituras. Tenho colesterol alto, é genético, mesmo sendo magra o índice de colesterol é acima do normal.
A senhora gosta de literatura, sua preferência é pela literatura brasileira ou japonesa?
Ultimamente estou lendo mais em japonês. Mas gosto de literatura ocidental também.
A senhora gosta de História, a seu ver é importante conhecer História.
Você conhecendo História pode prever muitas coisas do futuro. Com a História você pode aprender.
Quem quiser conhecer a sua arte em tocar pandeiro qual é o horário em que o conjunto se apresenta?
O Conjunto se apresenta todas as quintas feiras das duas horas até as quatro horas da tarde, no Lar dos Velhinhos.