Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010

MÚCIO CARDOSO LEITE

                                                                        Sra. Ana Luiza Corazari Leite e seu marido.
PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF

Jornalista e Radialista

joaonassif@gmail.com

Sábado 30 de janeiro de 2010

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana

As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://blognassif.blogspot.com/

http://www.tribunatp.com.br/

http://www.teleresponde.com.br/

ENTREVISTADO: MÚCIO CARDOSO LEITE

Nascido em dois de julho de 1924 na cidade de Campinas, Mùcio Cardoso Leite é filho de Lucídio Primo Leite e Laura Cardoso Leite. Aos 85 anos de idade, Múcio esbanja saúde, bom humor. Chefe de Estação de Trem aposentado, hoje ele atua como especialista em manutenção de janelas de alumínio, que pacientemente as desmonta, faz a manutenção e as recoloca no local. Em algumas ocasiões isso implica em ficar do lado de fora de algum edifício. Para isso ele conta com sua formação técnica e equipamentos de segurança. Tudo feito á seu estilo, o mais perfeito possível e considerando cada detalhe da operação. Nada é feito sem um detalhado planejamento. Assim consegue complementar a sua aposentadoria e não permanece inativo. Expansivo, comunicativo, Múcio encanta a todos por onde passa. Parece que para ele o calendário só existe para marcar seus compromissos. O seu andar firme e rápido a sua compleição física, o raciocínio rápido, são de pessoas com algumas décadas a menos.

Em que bairro de Campinas o senhor nasceu?

Nasci na Rua Senador Saraiva hoje Avenida Senador Saraiva, no centro de Campinas. O meu pai faleceu no dia 2 de julho de 1931, era funcionário da CPFL.

Após o falecimento dele a mãe do senhor voltou a trabalhar?

Éramos três filhos, meu irmão dois anos mais velho do que eu, Milton Cardoso Leite e minha irmã Cleide Cardoso Leite, dois anos mais nova do que eu. Após o falecimento do meu pai, a minha mãe voltou a trabalhar na profissão que exercia antes de casar-se, ela era telefonista da então Companhia Telefônica do Brasil, a CTB. Eram aparelhos telefônicos que tinham uma manivela em uma de sãs laterais, girava-se e pedia-se á telefonista para fazer a ligação. Com um painel á sua frente, a telefonista completava a ligação encaixando os pinos de origem e destino da ligação. Havia a função de Corredor de Linha, que era o funcionário que fazia a inspeção das linhas telefônicas. Uma das suas atividades corriqueiras era derrubar as casinhas do passarinho joão-de-barro que provocavam indução. Um suíço, Andrea Tatti tinha um elevado posto dentro da companhia, vendo a situação da minha mãe, viúva, com três filhos, um salário apertado, pagando aluguel em um porão, onde se acomodava com os filhos, conhecendo a capacidade de trabalho dela, a transferiu para Pirassununga, no cargo de chefe do centro da CTB da cidade. Lá ela teria casa provida pela CTB, um salário compatível com o cargo.

A família mudou-se para Pirassununga?

O suíço Andrea Tatti nos levou em seu carro, não tínhamos nenhuma mudança. O seu carro era o famoso veículo Ford 1929 com o porta-malas que pode ser acessado pela enorme tampa traseira que era também um banco extra, chamado de “banco da sogra”, já que dentro só tem dois lugares. Fizemos a viagem no “banco da sogra”, a estrada era de terra. (N.J. Era como no carro do Pato Donald, que leva seus três sobrinhos, Huguinho, Zezinho e Luisinho, no banco da sogra).

O senhor foi matriculado em que escola em Pirassununga?

Foi na Escola Prof. Ascanio de Azevedo Castilho. Sempre tinha tirado nota 100. Eu era muito levado e inteligente. Ás vezes saia de casa e ia para Cachoeira das Emas, e debaixo da ponte ficava pescando! Na época havia dois bares grandes para atender aos pescadores.
Nesse período o senhor trabalhava?

Eu era engraxate em uma barbearia que existia a dois quarteirões acima do Centro Telefônico. O Centro mudou da Rua Duque de Caxias para a Rua José Bonifácio, em frente ao jardim. Havia um ponto de carro de praça (N.J. Taxi), eram veículos fabricados em 1929. 1930. Continuando essa rua bem adiante havia a raia de corrida de cavalos.

O senhor como engraxate teve um fato marcante?

Em Pirassununga havia o quartel, um oficial entrou na barbearia e eu engraxei a sua bota, na época usava-se cromo alemão, eram botas vistosas. Ele era do Segundo RCD, Segundo Regimento de Cavalaria Divisionária. Um tenente me levou para o quartel para só para engraxar as botas dos oficiais. Eu tinha entre 9 e 10 anos de idade.

O senhor foi acometido pelo tifo?

Fui, quando adoeci tinha 58 quilos e cheguei a pesar 22 quilos, minha altura é de 1 metro e setenta e três quilos. Quem cuidou de mim foi a minha mãe, que quando solteira havia trabalhado como enfermeira. Isso foi em Mairinque. O médico atendia só durante o dia, a noite era o Zé Enfermeiro quem tratava dos pacientes. O médico tinha dado o diagnóstico de tuberculose. Ela foi até São Roque conversar com o médico Dr. Júlio cujo sobrenome no momento não me lembro. Lá chegando minha mãe disse-lhem “- Dr. Eu me lembro desse cheiro que está entranhado no meu filho. Para mim é de tifo”. Na época quem tinha tifo era obrigado a ir para o hospital do Mandaqui. E lá morria. O pessoal tinha medo de contrair a doença! Minha mãe transportou a banheira de ágata de um quarto existente nos fundos de casa, meu irmão e seus amigos foram apanhar folhas de eucalipto, existia muito eucalipto, para fornecer lenhas para as locomotivas a vapor. As folhas de eucaliptos eram fervidas, á tarde quando a minha febre atingia 40, 41 grau Celsius, fervia a água na mesma temperatura. Ali eu permanecia até a febre abaixar. Meu irmão me tirava da banheira, enrolado em um lençol, me levava para a cama. A minha mãe com um pedaço de miolo de pão molhava no leite e passava pelos meus lábios. Dr. Julio veio aplicou-me uma injeção na barriga. Daí uma hora ela ligou para ele, que voltou correndo, eu estava inchando. Eu nunca irei esquecer de uma caixinha onde estava escrito Park Davis, em que ele trouxe o medicamento. Na hora desinchei. Foram mais 40 dias na rotina do banho de eucalipto. Comecei a melhorar. E assim sobrevivi.

O senhor recebia bem pelo seu serviço?

Era a coisa mais gostosa do mundo ganhar gorjeta daqueles homens. Eram todos oficiais. Se uma engraxada custava 2 eles me davam 5, 10 ! No dia de natal levei um ordenado para a minha mãe que ela se regalou!

O senhor conheceu João Guidotti?

Ele morava em Pirassununga! Tinha uma loja de “Dois mil réis”, semelhante ao que temos hoje denominado de lojas de R$ 1,99. Só que lá qualquer item custava dois mil réis. Ele morava vizinho ao centro telefônico, eu cortava molduras para fazer quadrinhos, trabalhei algum tempo com ele. O Luciano Guidotti nessa época ainda morava em Limeira.

Após permanecer por algum tempo trabalhando no quartel o senhor foi para onde?

Fernando de Souza Costa, interventor do Estado de São Paulo tinha uma chácara em Pirassununga. Ele realizava as suas ligações para lá, essas ligações sempre exigiam o auxílio da telefonista para completá-las. Minha mãe conversou com ele, e conseguiu que eu fosse me profissionalizar no Instituto Educacional Bento Quirino em Campinas.

Quais cursos o senhor realizou nessa instituição?

Fiquei lá por quatro ou cinco anos. Aprendi de tudo. Aprendi a trabalhar como torneiro mecânico, serralheria, carpintaria, mecânico de ajustagem, marcenaria, fundição, ferragem de carroça, ferreiro. Era tudo de graça, era dada a parte teórica e a prática, um dos cursos que era dado era o de escultura em barro.

O senhor após concluir seus cursos no instituto onde o senhor foi trabalhar?

Minha mãe tinha sido transferida para Limeira. Permanecemos lá por um ano e poucos meses. Fui trabalhar na Dierbergher, em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. De lá fui para a Ford, em Limeira, da Ford fui para a Chevrolet de propriedade do Lucato. Minha mãe tinha angina, e por isso foi transferida para uma cidade com um clima que era mais propício para ela, fomos morar então em Indaiatuba. Lá fui ferreiro na ferraria do Lino Lui. Um fato curioso é que o Lino era magro, porém ninguém conseguia vencê-lo na queda de braço. Eu tinha aprendido a ferrar cavalo, ferrar carroça de madeira.

Qual é o segredo para ferrar um animal?

Não há segredo! O segredo é o cachimbo. Um tipo um cabo de vassoura com um furo, nesse furo é passado um aro de couro, fica uma argola de couro, coloca-se na parte superior da boca.

E essa história de número de buracos de ferradura?

Se o animal for maior, terá um maior número de pontos de fixação no casco. Se for menor, uma ferradura com menor número de buracos.

Em média quanto tipo dura uma ferradura?

Em média um ano. Mesmo que não desgaste a ferradura, por exemplo, em estrada de terra, o casco cresce, a ferradura deve ser trocada.

Quanto tempo demorava-se para ferrar um burro?

Dependia do burro! Tinha burro que era demorado. Os de tropa, nem amansados não era, eram bravos. Demorava uma hora, meia hora.

O senhor fazia aro de ferro de carroça qual era o segredo ara fazer esse aro?

Você mede o tamanho do aro, se medir três metros, se pega uma barra de ferro com nove metros e 3 centímetros, remonta as pontas, cardeia-se, remonta cinco centímetros de cada lado

O que é cardear?

Depois do aro feito, prende-se, fura as extremidades, coloca-se o arrebite, e poõe no fogo em brasa. Quando estiver bem vermelho, coloca-se na bigorna, joga-se areia, e com o martelo liga um no outro. Fica uma peça só. Em seguida coloca-se carvão na volta inteira do aro, avermelha a peça toda. Quatro pessoas com a tenaz, e encaixa na armação de madeira. Em seguida joga-se acua em cima.

Quanto tempo dura um aro de ferro em uma carroça com roda de madeira?

Se andar na terra dura bastante tempo, em pedregulho irá comendo o ferro, e se rodar só em paralelepípedo o aro vai alargando-se, o calor do paralelepípedo mais as pancadinhas dada com o movimento natural da carroça irá alargar o aro.

A mãe do senhor arrendou um hotel em Indaiatuba?

Era o então Hotel Boseli, que passou a chamar-se Hotel Brasil a maior freqüência era de professoras de Piracicaba que lecionavam no sítio e de caixeiro viajantes. Nessa época minha mãe casou-se com o Chefe da Estação Sorocabana.de Indaiatuba. Ele colocou-me com caixeiro de armazém na estrada de ferro. Era o que hoje seria montar a cesta básica de cada funcionário. Cada funcionário tinha um tipo de pedido, tínhamos que montar o pedido.

O pai da esposa do senhor era também ferroviário?

O pai minha esposa, Ana Luisa Corazari Leite era Chefe de Trem, eu a conheci quando ela estava levando almoço para ele. Fui sendo promovido, me mandaram para Itapetininga. Por motivos de reestruturação de pessoal da Sorocabana, fui guindado a um cargo de destaque na hierarquia. Já me deram farda, passei ter o direito de andar na primeira classe.

O senhor casou-se em que dia?

Foi no dia 7 de março de 1948, em Mairinque, o padre era de origem oriental, ele falou tudo em latim eu não entendi nada. As bodas de Prata foi na Igreja São Judas Tadeu. As bodas de Ouro foi na Igreja São Pedro, foi o Padre Jorge quem fez, eu gostei da cerimônia!

O pagamento dos funcionários era feito pelo trem pagador?

Havia um trem especial que corria a linha pagando os funcionários. Logo depois essa função passou para o estabelecimento bancário. Um caso verídico, foi de um caixa, extremamente meticuloso, muito detalhista, empolado em sua autoridade. No dia do pagamento ele chamava os funcionários pelo nome preservando as grafias originais e acentuando-as. Na seqüência da fila para receber ele chamou: Baptista de Assumpção, entoando todas as sílabas, ou seja, Bapitista de Assumpição. Ao que o funcionário respondeu: “Prompto!” (“prompito”.) repetindo o processo!

O que Estrada de Ferro Sorocabana tinha em Porto Epitácio?

Ficava na barranca do Rio Paraná, lá havia os barcos da Sorocabana que subia com os passageiros até Foz de Iguaçu.

O senhor chegou a fazer essa viagem?

Eu e mais alguns amigos, também ferroviários da Sorocabana íamos pescar lá. Era eu, Barini, Nicola e Micheli, morávamos em Mairinque, quando tínhamos folgas de quatro dias pegávamos os passes a que tínhamos direito e viajávamos.

O senhor estava em primeiro lugar no almanaque da Sorocabana, ou seja, seria promovido como chefe de estação de uma importante estação?

De fato. Só que por ter detectado algumas situações de desmandos administrativos, fui preterido, talvez por aqueles que se beneficiassem dessa situação. Eu já havia anteriormente chefiado mais de uma centena de homens nas oficinas de manutenção, com pleno êxito.

Existia passe livre para algumas classes?

Existia. Militares, religiosos, crianças, professores.











Sábado, Janeiro 23, 2010

IVETE D`ABRONZO RONTANI



                                                    IVETE D`ABRONZO RONTANI



PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 21 de janeiro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADA: IVETE D`ABRONZO RONTANI
Em cima de um piano, tipo armário, repousa já por algumas décadas a escultura da cabeça do artista plástico, jornalista, cartunista, radialista, radioamador, desenhista, contador e advogado Edson Rontani. Aos poucos Piracicaba parece acordar para a importância desse artista. Um reconhecimento muito maior do que obteve em vida. Parece ser o caminho trilhado por todos que se atreveram a fazer da arte e da cultura um sacerdócio. Reconhecido e respeitado pelo seu trabalho como artista gráfico conviveu com grandes mestres da pintura. Colaborou por décadas com a coluna: Você Sabia? Editada no Jornalzinho, que era o suplemento infantil do Jornal de Piracicaba. Chargista, Edson deu forma ao personagem-mascote do XV de Piracicaba, o Nhô Quim. O termo fanzine foi muito utilizado nos Estados Unidos incorporando-se à linguagem brasileira no início dos anos 1970. Ele deriva das palavras fan (fanático) e magazine (revista), entendendo-se como sendo a revista do fan, conforme explica Edson Rontani Jr. Edson Rontani criou o primeiro fanzine nacional, o lançamento ocorreu no dia 12 de outubro de 1965 com o nome de Ficção. Dona Ivete mostra um quadro onde Edson escreveu seu nome em forma de acróstico, quando ainda eram namorados.
Idolatro teu nome cheio de esperança,
Vejo-o gravado no mais lindo livro da vida
Embora o tempo devastador, que não se cansa,
Tragá-lo podia, porque firmemente
Em minha alma gravado estará eternamente
Edson


                                                        EDSON RONTANI

Ivete D`Abonzo Rontani a senhora nasceu em Piracicaba?
Nasci na Vila Rezende, a Rua Maria Elisa, na esquina com a Avenida Rui Barbosa. Aí era a nossa casa, que depois papai derrubou para ampliar a indústria. Nasci no dia 29 de abril de 1942. Minha mãe Julieta Meira D`Abronzo também nasceu no dia 29 de abril. Meu pai é o Comendador Humberto D`Abronzo.
O Comendador Humberto D`Abronzo ainda vivo já era uma pessoa lendária em Piracicaba. É muito comum visitarmos outras localidades e perguntam como vai o XV de Novembro, o Rio Piracicaba e a Caninha Tatuzinho. Quando a senhora nasceu já era uma indústria de grandes proporções?
O início de tudo foi uma fabrica de refrigerantes, que depois veio a constituir a Caninha Tatuzinho.
O casal Julieta e Humberto teve quantos filhos?
Foram: o Sérgio, eu, a Ivone, o Paschoal e a Ivana
A senhora estudou onde?
Estudei no Grupo Escolar José Romão. Meu pai colocou meu irmão Sérgio como aluno interno no Colégio Piracicabano e eu como aluna interna no Instituto Baronesa de Rezende, a um quarteirão de casa, era só atravessar o jardim e eu estava lá. Permaneci por dois anos dos 9 aos 11 anos de idade. As visitas eram no segundo domingo do mês, e eu vinha para casa uma vez por mês. Foi lá que além do estudo regular, aprendi a tocar piano, com a irmã Clemência, de origem austríaca, eu catava no coro, aprendi a bordar. Foi a melhor fase da minha vida, acordava ás cinco horas da manhã para ir á missa, voltava tomava banho, tomava o café da manhã e ia estudar.
Como era o uniforme que era usado no Instituto Baronesa de Rezende?
A saia era azul-marinho, pregueada, a blusa branca de manga comprida, gravata, e um avental xadrezinho que era usado para não sujar o uniforme. O sapato era preto e as meias eram brancas. O sapato colegial, aquele que tinha um risco no centro, uma espécie de vinco. A noite rezava-se o terço, e ia dormir.
A senhora recebia algum tratamento diferenciado por ser filha de um dos homens mais influentes da época?
De forma alguma! Eu queria ser freira, meu pai deixou que eu fosse junto com uma freira conhecer um convento em Araraquara, onde assei uns dias. Quando terminei o quarto ano do primário, passei a estudar o ginásio na Escola Assunção. Nessa época ainda morava na Vila Rezende. Meu Tio Jorge Vargas dizia: “Você vai ser freira, de dois travesseiros!”. Quando terminei o quarto ano do primário, passei a estudar o ginásio na Escola Assunção. Nessa época ainda morava na Vila Rezende. Foi quando conheci o Edson. Ele trabalhava no escritório do Posto São João, na esquina da Rua Boa Morte com a Rua D. Pedro II. Em frente ao Colégio Piracicabano. Ao lado tinha o bar de umas japonesas (hoje Restaurante Babilônia). Eu ia ás vezes até o bar para comprar leite, só para ver o Edson. Eu tinha 15 anos de idade.
Qual foi a primeira vez que a senhora viu o Edson?
Não me lembro se foi no posto ou se foi no jardim. Naquele temo era costume quadrar o jardim. Eu ia com as minhas amigas e via ele lá. Ele era amigo do Arthemio De Lello, e tinha mais uma pessoa, de estatura mais baixa que eles. Os três estavam sempre juntos.
A senhora tinha quantos anos de idade quando passou a namorar o Edson?
Até os 18 anos de idade meu pai não permitia que eu namorasse. Quando completei essa idade, ele admitiu o namoro meu com o Edson.
Qual era a altura do Edson?
Era quase um metro e noventa de altura, olhos verdes, usava um topete. Ele era muito bonito!
Qual era o nome dos pais do Edson?
Eram Seu Guilherme Rontani e Dona Maria Sartini Rontani. Meu sogro era marceneiro. Eles tiveram três filhos: O Milton, a Edna e o Edson.
A senhora e o Edson tiveram quantos filhos?
Tivemos três filhos: o Eron, Edson e Fábio. O Edson é Jornalista, o Eron é publicitário e o Fábio é artista gráfico. Tenho um neto fazendo jornalismo!
Em que igreja a senhora casou-se?
Casamo-nos em 16 de maio de 1963, na Catedral. O casamento religioso foi super simples. A festa foi no Teatro São José, lá sim foi muito chique. Foi a primeira festa de casamento realizada no Teatro São José. A grinalda e a tiara eu trouxe da Espanha.
A que horas vocês casaram?
Estava batendo seis horas, meu pai exigia pontualidade. Ele entrou me conduzindo ao altar, fiquei assustada em ver um grande número de guardas com sua roupa de gala fazendo a guarda de honra. Meu pai segredou para mim: “Fiz essa surpresa para você”. Foi muito bonita a entrada.
Quem fez o seu vestido de noiva?
Foi a minha cunhada, Elza Rontani, ela era modista.
Onde foi a lua de mel?
Fomos para Santos.
Qual é o hobby da senhora?
Piano e acordeom. Estudei ambos. Piano e só toco quando estou muito triste. Eu amo fazer tricô. Sou voluntária em uma casa de caridade, isso me deu muita força quando o Edson faleceu. Faço sapatinhos, toda noite faço um par de sapatinhos, para doar. Faço também mantas e gorros.
A senhora gosta de novelas?
Adoro! Assisto todas que são levadas ao ar pela Televisão Globo. Para mim é uma terapia.
O que mais a impressionou em Edson Rontani?
A inteligência dele me conquistou! Desde solteiro ele desenhava, pintava.
No Brasil ele foi um dos pioneiros em cartuns?
Foi, e ele sentia tristeza ao lembrar-se de que o primeiro salão de humor foi começado com ele, eu lembro-me muito bem dessa exposição De 1974 e 1976, ele realizou na Pinacoteca Municipal, o Salão de Caricaturas de Piracicaba, expondo suas charges e caricaturas, junto com outros artistas que então despontavam como Rudinei Bassete. Estas caricaturas eram exibidas semanalmente, na Galeria Brasil, localizada no centro da cidade. Denominada "O Mural", atraía a atenção dos jovens que passavam pelo local, nos anos 70. Ele tinha um grande sentimento por sentir que não deram o devido valor ao seu trabalho como precursor do salão do humor. Edson foi homenageado com a instituição de uma rua com o seu nome. O projeto de lei nº 5023, de autoria do vereador Gustavo Herrmann, foi sancionado pelo prefeito José Machado e publicado no Diário Oficial do Município, no dia 22 de setembro de 2001. O Deputado Estadual Roberto Morais (quando era vereador em Piracicaba), foi autor de uma lei criando a Sala Edson Rontani no Teatro Municipal Dr. Losso Neto. Foram homenagens póstumas. Está sendo realizado um processo para denominar com o nome de Edson Rontani, uma escola em Piracicaba. Como artista plástico, dedicou-se à pintura a óleo. Foi aluno de Frei Paulo Maria de Sorocaba, nas décadas de 40 e 50. Nos anos 70, foi aluno de Hugo Benedetti.
O Edson era radioamador?
Era! Ele falava no nosso quarto, na cabeceira da cama. Eu gostava, e ficava escutando.
O Edson era muito reservado?
Sempre foi. Só que tinha um espírito muito criativo e brincalhão. Era muito quietinho. Ele era extremamente reservado com relação a receber pessoas em casa., com exceção da família, claro.
A senhora freqüentou o Cine Plaza, que existia junto ao Edifício Luiz de Queiroz, mais conhecido como Comurba?
Freqüentava sim, era o melhor cinema que nós tínhamos. Um detalhe interessante, a minha irmã, a Ivone ia casar e o meu cunhado tinha um apartamento lá. Ela foi ver os detalhes finais, de acabamento, no dia anterior a queda do prédio. Ela ficou doente com o fato. Se o prédio tivesse desabado um dia antes provavelmente ela estaria entre os que faleceram.
A senhora ainda solteira viajou por outros países?
Junto com meu Tio Jorge Vargas, Tia Mariquinha e um casal de primos. Viajamos por três meses. Fomos para Os Estados Unidos, Portugal Espanha, França, Suíça, Itália, Egito, Jordânia, Jerusalém, Belém, Nazareth. A Jordânia estava em guerra, víamos muitos soldados, um grande número de pessoas mutiladas andando pelas ruas. Minha prima é dois ou três anos mais velha do que eu. Ela estava namorando firme. Só que o namorado dela não tinha o habito de escrever muito. Em cada hotel que eu chegava já havia três ou quatro cartas do Edson para mim! Ainda guardo as cartas que ele remeteu e as que eu escrevi.
Essa escultura da cabeça do Edson quem a fez?
Foi o artista plástico Dr. Jairo Ribeiro de Mattos, que a fez e nos deu no nosso casamento. Eles trabalharam juntos na Casa da Lavoura. O Jairo era engenheiro e o Edson desenhista. Nós casamos no ano de 1963. A escultura é tão perfeita que até os óculos do Edson se colocada nela para direitinho!


ESCULTURA DE EDSON RONTANI FEITA PELO ARTISTA PLÁSTICO JAIRO RIBEIRO DE MATTOS
A senhora tinha algum contato com as revistas que o Edson colecionava?
Eu não gostava de revistas em quadrinhos. Minha irmã Ivone uma vez pediu e ele emprestou, mas ela não gostava nem de mostrar de medo que fizessem uma orelha na revista. Ele não admitia que dobrasse as folhas da revista para ler a pagina. Tal era o seu zelo. Ele era amigo do Seu Silas, dono do sebo mais antigo da cidade.
A senhora é devota de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora Desatadora dos Nós?
Sou sim, muito devota! 
A senhora ia com o Edson em bailes de carnaval?
Um dos carnavais que marcou muito foi quando voltei da viagem ao Líbano e trouxe trajes típicos para mim, para o Edson. E para mais três primos. Ganhamos o prêmio, de melhor bloco, isso foi em 1962, foi no Club Coronel Barbosa.
O que a senhora achava da participação do seu pai Comendador Humberto D`Abronzo como Presidente do XV de Novembro de Piracicaba?
Acho que havia um grande interesse na participação do meu pai, principalmente por ver na sua empresa a capacidade de investir recursos no time.
A senhora torce por algum time?
Quando há jogo do Brasil, torço pelo Brasil. Meu neto diz que eu torço roupa!
O Edson era quinzista?
Eu creio que sim. E corintiano também.



A senhora e seus irmãos tratavam seus pais de você ou senhor e senhora?
Não! Imagine! Se os chamasse de você eles nos quebrariam os dentes! Como a grande maioria dos pais da época o faria. Tínhamos que tomar a benção, mesmo depois de casada. Meu pai fazia questão. Eu tive uma infância maravilhosa. Brincava de carrinho de rolimã, bolinha de gude. Empinava papagaio isso na Vila Rezende. Nós morávamos em uma casinha tão linda, com terraço, dois quartos, sala, cozinha e banheiro, e a dispensa. Eu dormia na sala, porque não havia mais quartos. Quando ele comprou a primeira televisão, vinha muitas pessoas para assistir, era pequeno o número de pessoas que tinham televisão. Eu tinha que esperar todo mundo ir embora para poder deitar. Eu não via a hora de ver o povo ir embora, porque no dia seguinte tinha que levantar cedo para ir de bonde até o Colégio Assunção.
O que levou o pai da senhora a mudar para o centro de Piracicaba?
O terreno em que situava a casa era necessário para ampliar a indústria.
A senhora praticava algum esporte?
Gostava de nadar. No Clube de Campo, o meu Tio Jorge amarrou uma corda na minha cintura e me fez dar a volta nadando. Ele ia todo dia de madrugada nadar no Clube de Campo, ele geralmente estava saindo quando eu chegava. A primeira vez em que entrei na piscina, vi todo mundo pular e sair nadando achei aquilo muito fácil. Quase morri!

Sábado, Janeiro 16, 2010


JANDYRA SILVEIRA RAMOS
PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 16 de janeiro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADA: JANDYRA SILVEIRA RAMOS
Bisneta de Prudente de Moraes, a sua avó Maria Amélia casou-se com seu avô João Batista da Silveira Mello. A Professora Jandyra casou-se com o Professor Algemiro Coelho Ramos. Muitas gerações de piracicabanos devem a ambos não só o aprendizado formal de música, português, latim. Formaram um casal que sempre honrou e dignificou o nome de seus antepassados ilustres. Que educou antes de tudo, com o exemplo.
A senhora nasceu onde?
Nasci em Brotas no dia 12 de fevereiro de 1932. Meu avô materno tinha uma fazenda de café no Alto da Serra. Meu pai Silvio Silveira Mello tomava conta dessa fazenda. O pai dele João Batista da Silveira Mello que tinha o cognome carinhoso de Lalau foi um dos primeiros médicos de Piracicaba, ele foi casado com a filha mais velha de Prudente de Moraes, Maria Amélia. Era o genro para quem ele escrevia. Foi ele quem tomou as providencias necessárias para realizar a mudança de Prudente de Moraes quando este terminou seu mandato como presidente da república. Meu avô João Batista Silveira Mello foi um dos primeiros médicos da Estrada de Ferro Sorocabana. Lembro-me da família Martins comentar que ele foi médico deles. Minha mãe era da família Camargo Simões, seu nome é Jandyra Simões Silveira Mello. Os Simões de Brotas abriram fazendas, era sertão, viam-se onças.
Seus pais tiveram quantos filhos?

O João. A Maria Amélia, conhecida por Lia, era muito bonita. Não havia colegial em Piracicaba, ela fez um pouco em Limeira, um pouco no Colégio Piracicabano, e quando abriu no Sud Mennucci só tinha ela de mulher, a classe era de 33 alunos. Eram todos muitos amigos. Ela conheceu seu marido, Hélio Candido de Souza Dias, da família Souza Dias de São Paulo. Ele foi um dos maiores agrônomos que conheci. Eles tiveram nove filhos. Depois vinha o Silvinho, eu, Josette, e a Maria da Glória. É interessante observar que a Josette era muito amiga de Monteiro Lobato, ainda moça ela já escrevia. Monteiro Lobato quando escreveu Os Doze Trabalhos De Hercules, estava na Argentina, de lá ele mandou para ela os fascículos. Antigamente as frutas de Piracicaba eram maravilhosas, e a minha mãe mandou para Monteiro Lobato uma caixa de mangas Bourbon. Ele escreveu uma carta interessante dizendo que ele sempre pensou que a Bahia fosse a rainha das mangas, mas que ele descobriu que Piracicaba era a rainha das mangas!
A senhora conheceu Monteiro Lobato?

Conheci! Foi em uma visita em que a minha irmã Lia foi fazer a ele. A única coisa, que me lembro de ele ter dito foi quando ele me olhou e disse: “–Você é pernilonga quem nem o seu avô!”. Ele e a esposa dele gostavam muito da minha irmã Josette. Quando ele faleceu, sua esposa mandou de presente para a minha irmã Josette uma tesourinha que ele utilizava para abrir suas correspondências.
O Dr. João Batista da Silveira Mello morava aonde em Piracicaba?

Ele morou na Rua Treze de Maio, entre as ruas Santo Antonio e Alferes José Caetano, em frente aonde foi posteriormente o consultório do médico Dr.Tito. O meu pai tinha um grave problema de visão, e mesmo assim ele tomava conta da contabilidade da fazenda, com grande competência. Essa sua deficiência visual o impediu de prosseguir nos estudos. Seus irmãos prosseguiram nos estudos, um deles, João Batista também, foi juiz, o Otávio da Silveira Mello tomava conta do Jardim Botânico.
A senhora teve uma tia que foi prefeita em Limeira?

A minha tia, também neta de Prudente de Moraes, Maria Thereza Silveira Mello de Barros Camargo foi prefeita em Limeira, foi uma das primeiras deputadas.
A mãe da senhora, Dona Jandira Simões Silveira Mello estudou onde?
A família dela era muito grande, minha avó teve muitos filhos e a minha mãe era a mais velha. Com o tempo minha mãe entendia o francês ela lia francês, em espanhol. Ela lia para o meu pai que tinha sua visão deficiente. Eles leram todos os clássicos portugueses. O mais engraçado era quando eles iam ao cinema, com o tempo minha mãe passou a ter uma pequena deficiência auditiva. Ambos iam até o cinema, sentavam-se bem á frente da tela para não incomodar as pessoas que ali estavam. Era um horror para quem se sentava perto deles, porque minha mãe ia lendo as legendas para o meu pai. Quem se sentava sempre por perto era Erotides de Campos e sua esposa. Uma das lembranças que guardo da minha mãe era ela mexendo as panelas com um livro na outra mão: lendo! Ela lia o tempo todo! Discutia qualquer assunto. A família do meu pai era muito ligada a leitura. Ela tinha um tio-avô, o Tio Nhô-Nhô, ele era irmão da Carolina Ferraz Barbosa, esposa do Coronel Barbosa, que deu origem ao nome do Clube Coronel Barbosa. Nós morávamos na Rua Prudente de Moraes, na direção da cadeia, e o Tio Nhô-Nhô morava em uma casa que existe ainda na esquina da Rua Prudente de Moraes com a Rua Tiradentes. No tempo da Segunda Guerra Mundial ele descia até a nossa casa para ouvir o Reporte Esso. Já velhinho, ele entrava, e dizia: “Ó de casa!”. A criançada respondia: “Entra Tio Nhô-Nhô!”. Começava o Repórter Esso tínhamos que fazer silêncio. O apresentador entrava no ar e dizia aos ouvintes: “-Boa Tarde!”, Tio Nhô-Nhô respondia: “-Boa Tarde!”. Ele era lúcido. Todo dia ele ia a nossa casa para a minha mãe ler as Notas e Informações do Jornal O Estado de São Paulo. Ele estava tão acostumado, que para ele só a minha mãe é que sabia ler essas notas e informações! Ela lia bem, entendia o que estava lendo. Em casa, o castigo era quando a minha mãe viajava para acudir um parente doente, alguém era escalado para ler as Notas e Informações do Jornal Estado de São Paulo.
A senhora estudou o primário onde?

Fiz o primário aqui no Prudente, que funcionava onde é hoje o Museu Pedagógico Prudente de Moraes. Antigamente o ginásio era no Sud Menucci, a relação dos alunos que passavam ficavam expostas no Jornal de Piracicaba. Quando entrei na sala de aula a primeira coisa que o Professor Benedito Dutra fez foi fazer a chamada dos alunos, quando chegou o meu nome ele me disse: “- Dona Simões! Vamos ver se não derruba a peteca!”. Por causa dos meus tios que eram muito bons.
E piano, onde a senhora fez seus estudos?

Próximo da minha formatura foi incluído o curso de música no currículo escolar. Os conservatórios só existiam no Rio de Janeiro, em São Paulo e Campinas. Miguel Zigggiate ele vinha para Piracicaba procurando levar alunos para o conservatório. Eu, Cidinha Mahle, que estudava com Dona Dulce Rodrigues de Almeida, ela tinha uma formação excelente como pianista. Eu estudei com Dona Maria Wagner, uma senhora austríaca que tinha vindo ao Brasil para dar aulas á filha de um fazendeira de café
Quantos filhos os pais da senhora tiveram?

Éramos seis. Tínhamos um irmão que faleceu em Jacareí. O mais velho, João Batista Silveira Mello, é vivo ainda, mora em Curitiba, ele era conhecido como João Fazendinha. Ele tem filhos maravilhosos.
Ainda na fazenda a senhora teve aulas de canto?

A Dona Dirce Rodrigues nos ensinava a cantar, na época eu deveria ter de cinco a seis anos de idade. Quando viemos morar em Piracicaba ela tornou-se nossa amiga. Ela era muito amiga. da minha irmã Josette. Essa minha irmã foi pioneira no ensino de musica para bebês a partir dos 10 meses. No ano passado a Universidade Federal de São Carlos implantou esse curso de música.
A senhora tem algum parentesco com o Sr. Rubens Silveira Mello?

Eles são parentes do meu pai. Meu pai conhecia bem Dona Diva, irmão do Silas e do Celso Silveira Mello.
A senhora tem quantos filhos?

A mais velha é a Esther, médica, professora de genética, trabalha com pesquisa na USP. Ela tocava vilino e depois tocou viola na orquestra do Maestro Ernst Mahle. Por três vezes ele foi á Bahia para completar a orquestra da Universidade da Bahia. Depois dela nasceu a Ruth, já falecida. Em seguida a Rachel que é engenheira química, ela trabalhou por treze anos na Gessy Lever. Hoje ela está na Itália com o marido. Conseguimos formar os quatro filhos, dois na USP e dois na Unicamp. O Caio fez direito na São Francisco em São Paulo. Hoje ele é um dos diretores mais novos da Assembléia Legislativa. Ele gosta muito de escrever. Ao conhecer as músicas de Germano Mathias, gostou muito. Descobriu que Germano estava vivo. Ele conseguiu fazer com que o Germano voltasse á mídia, tendo inclusive escrito um livro sobre ele.
A senhora toca instrumento de teclado?

Por 30 anos toquei na Igreja Bom Jesus.
A senhora lecionou em Paraguaçu Paulista?

Lecionei e na a casa onde eu morava pertencia a um alfaiate, Sr. Adolfo Grilli. Para ele eu era a filha mais velha.
A senhora tinha algum grau de parentesco como interventor Fernando Costa?

A esposa dele era prima do meu pai.
Houve um período em que o gado, cabra era tratado com carrapaticida?

Existiam em Piracicaba os banheiros carrapaticidas. Havia um lá adiante da Metalúrgica Dedini e outro na Paulista. A cada vinte dias o gado tinha passar por aquele banho. Era composto por corredores, onde cada pessoa que tivesse gado, cabra levava seus animais para passar por esse corredor. O serviço que o meu pai desenvolveu na escrituração dessas atividades serviu como modelo para a Água Branca, São Paulo.
A senhora lecionou em Londrina?

Quando eu me formei embora estivesse com os devidos registros, não tinha a idade obrigatória para prestar concursos, quer era de 21 anos. Meu irmão trabalhava no Paraná, e eu fui ajudar a minha cunhada a preparar uma festa de formatura. Era obrigatório ter registro para lecionar, o que no caso eu tinha. Com isso dei aulas no colégio particular, do estado.
Qual condução a senhora usou para ir á Londrina?

Fui de avião. Meu tio veio para cá e eu fui com ele. A comunicação entre Londrina e Piracicaba era quase inexistente, o telefone levava horas para poder completar uma ligação. A viagem de trem era constantemente interrompida por queda de barreira. Quando chegava á Sorocaba era um alívio. Em Londrina dei aulas de piano no conservatório de lá.
A senhora chegou à idade de poder prestar concurso, para onde foi designada?

Os concursos eram como provas de mestrado. Havia uma prova de erudição. Uma prova em que a pessoa cantava Lá-rá-rá-rá e você tinha que fazer as notas musicais correspondentes. Depois tinha uma prova com o tempo de 40 minutos, sobre um tema sorteado 24 horas antes. Uma aula dada em escola do Estado, sorteada também 24 horas antes. Na Alta Sorocabana era o local mais próximo da minha irmã. Eu saía de São Paulo ás 4 horas da tarde e chegava a Santo Anastácio no dia seguinte ás 7 horas da manhã. De presidente Prudente vim para Palmital, que é pertinho de Assis. De Palmital eu fui Paraguaçu.
Quando foi que a senhora conheceu o seu marido Professor Algemiro Coelho Ramos?

Ele lecionava latim em Paraguaçu. Ele morava com seus parentes em uma casa que ficava em frente onde eu morava. Então eu ia e voltava com, nós éramos muito amigos, ele tinha as namoradas dele. Depois ele foi para São Paulo. O pai do Algemiro era de família tradicional de Itapetininga, daqueles tradicionais coronéis, uma figura imponente, tinha muita semelhança com Washington Luiz. Na época de Getulio Vargas ele foi preso, pensaram que estavam prendendo Washington Luiz! E ele com maior orgulho! Aos 7 anos de idade a mãe de Algemiro teve morte súbita. Ele foi morar com uma tia em Itu. As Irmãs de São José perceberam que o Algemiro gostava muito de estudar, a madre o aconselhou a entrar para o Seminário em Pirapora dos Padres Premonstratenses. Só que ele não tinha a vocação sacerdotal. Quando teve que passar para o Seminário Maior em São Paulo, ele estava desapontado, conversou com os padres, que o apoiaram na sua decisão. A sua tia foi informada da sua decisão, e como ela tinha mudado para São Paulo ele foi morar com ela. Prestou exame para a Faculdade de Filosofia, entrou, e arrumou emprego em um banco. Quando ele concluiu a faculdade conseguiu uma substituição grande para dar aula de latim em Paraguaçu.
Onde foi o casamento da senhora com o Professor Algemiro?

Foi na Igreja São Judas Tadeu, em São Paulo, no dia 10 de janeiro de 1962. Foi um casamento muito simples.
Ele era uma pessoa muito franca?

Era de uma grandeza, muito preocupado com os outros. Tinha muitas pessoas que o adoravam.
Em que ano ele faleceu?

Foi dia 4 de maio de 1995. Quanta gente ele ajudou, quantas apresentações por carta ele fez! Quantas bolsas ele conseguiu no CLQ, com o Turcão, com Wilson Saito. Em Paraguaçu o Banco do Brasil estava construindo uma agencia, a moçada animou-se, lá não havia muitas oportunidades de trabalho. Pediram ao Algemiro que os preparasse para o concurso do Banco do Brasil. Todo dia ás 6 horas da manhã estava abrindo a escola, deu as aulas pra eles. Passaram todos! Uma vez Algemiro e eu fomos passear em Paraguaçu, passamos pela porta do Banco do Brasil, quando um dos funcionários nos viu, saíram todos de dentro do banco. Aqui em Piracicaba ele era procurado por pessoas das mais diversas faixas etárias para conversar com ele quando tinham problemas.


LAZARO ANTONIO DE ALMEIDA
PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 09 de janeiro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: LAZARO ANTONIO DE ALMEIDA
Lázaro Antonio de Almeida nasceu em Porto Feliz, no dia 03 de maio de 1944, é o filho mais velho dos oito filhos de João Augusto de Almeida e Irene Barreiros de Almeida. Logo após o seu nascimento, a sua família transferiu-se para a cidade de Assis. Trabalhou como ferroviário, chegando a Chefe da Agencia de Piracicaba do IBGE, onde se aposentou. Ele lembra-se dos tempos da Sorocabana, onde a cada mudança de administração do alto escalão mudavam-se as diretrizes da empresa, muitas vezes ocasionando perdas incalculáveis. Se não havia uma remuneração satisfatória, havia a dedicação integral dos funcionários efetivos. Trabalhava-se com amor. Motivado por busca de melhores condições, prestou concurso e entrou no IBGE. Assumiu a chefia em Piracicaba, onde desenvolveu seu trabalho sendo até questionado por facções que queriam superestimar a população da cidade buscando benefício pessoal. Desde 1992 ele está aposentado, Lázaro tem uma visão cristalina da realidade brasileira.
O senhor estudou em Assis?

Comecei a estudar em Assis, no Grupo Escolar Lucas Thomaz Menk. Pelo período de um ano estudei em Porto Feliz, no Grupo Escolar Coronel Esmédio, onde fui aluno da professora Lígia. No período em que realizei meus estudos de ginásio e colégio em Assis, fui aluno do Curso de Formação em Transportes, CFT, ministrado pela Estrada de Ferro Sorocabana. Estudava durante o dia na Sorocabana e a noite na escola estadual. No curso do CFT as aulas eram dadas alternando-se um dia era aula prática outro dia aula teórica. Como em Assis havia oficinas da Estrada de Ferro Sorocabana, havia duas modalidades de cursos, um que era voltado para quem iria trabalhar nas oficinas e outro voltado para quem iria trabalhar nas estações. Eu fiz o curso para exercer as atividades nas estações. Além do curso de telegrafista, conferente, formação de composição de trens.
As composições que saiam de Assis eram de trens de cargas, passageiros?
Tinha de tudo. Trem só de carga, só de passageiros, de passageiros e cargas. Existiam quatro divisões na Sorocabana. A Quarta Divisão era sediada em Assis. Ali se controlava os trens dos trechos que iam de Ourinhos até Presidente Epitácio. O ramal Dourados não chegou a concluir o seu projeto na integra, que seria de ir até Dourados.
A linha de trem que passava por Assis saía de onde?

A chamada linha-tronco saía da Estação Julio Prestes em São Paulo e ia até Presidente Epitácio. Piracicaba era um ramal da Sorocabana, que tinha seu ponto final em São Pedro.
Aproximadamente, quanto tempo levava a viagem de São Paulo á Assis?
O trem de passageiro levava onze horas, se não me falha a memória, de Assis á São Paulo o percurso ferroviário era de 580 quilômetros, a velocidade média era de 50 quilômetros por hora. O trem de carga levava mais tempo.
O ramal da Sorocabana que passava por Piracicaba era mais lento?

Era outra situação, a viagem era mais demorada. A linha de São Paulo á Presidente Epitácio tinha um trecho entre São Paulo até Sorocaba onde o trem corria muito, a linha era dupla, não havia parada para aguardar a chegada da composição que vinha no sentido contrário.
Quando o senhor passou a trabalhar na Sorocabana ainda existiam as famosas Maria Fumaça?

Tinha uma ou outra que era utilizada para manobras em pátio. Em Assis não havia o virador de locomotiva, para virar a máquina era utilizado o conhecido sistema chamado triangulo.
A eletrificação da linha chegou a funcionar em Assis?

Eu saí da Sorocabana em 1973, se não me engano a eletrificação da linha até Assis chegou em 1970. Hoje o sistema eletrificado está totalmente desativado. A linha permanece funcionando até hoje.
O senhor tem saudade dessa época?

Eu entrei na Sorocabana quando ainda era menino, fiquei bastante tempo, e só sai porque as condições oferecidas pela Sorocabana não permitiam que eu permanecesse, o salário era baixo. O trabalho em si deixava-nos orgulhosos, todos que trabalhavam lá ganhavam pouco, mas exerciam suas funções com amor pelo serviço.
O uso de farda era para alguns cargos?

O maquinista, o chefe de trem, o chefe da estação, eles tinham um fardamento. Os demais funcionários usavam roupas comuns.
O senhor foi telegrafista, quais foram os equipamentos que chegou a usar?

Na escola aprendemos o alfabeto Morse, onde as letras e números são transformados em código utilizando as grafias de traço e ponto. O telegrafo era uma caixa de madeira com uma campainha em cima e duas pequenas tábuas onde batíamos o código. Outro aparelho era só com o toque. Mudava a sonoridade, a aplicação, embora o código fosse o mesmo.
Havia um apelido para o telegrafista que não operava com muita agilidade?

Era denominado em tom de brincadeira como pica-fumo. Uma referencia ao habito comum na época de picar fumo de corda. Nós tínhamos que receber, decodificar e escrever manualmente a mensagem.
O senhor trabalhou em estações pequenas?

Trabalhei em Presidente Epitácio, Álvares Machado, onde eu fazia praticamente todo tipo de trabalho referente á estação. Quem trabalhava á noite atendia o telegrafo, fazia o recebimento de despacho de trens, vendia bilhete de passagens, recebia os trens que chegavam.
Como eram formadas as composições de passageiros?

De Presidente Epitácio o trem não saia completo, ao longo do percurso ia agregando mais carros á composição. De lá saia uma locomotiva, o primeiro carro que era o de bagagem, depois vinha o carro de segunda classe, o carro restaurante e depois o carro de primeira classe, no meio do caminho eram agregados os carros dormitórios, que eram os últimos da composição.
Como era um carro dormitório?

Era divido em cabines, e cada cabine tinha dois leitos, um em cima do outro. Havia em cada uma delas o vaso sanitário, era isolado, porque poderia ocorrer de viajar com pessoas que não eram conhecidas. Normalmente quem viajava nesse tipo de carro eram pessoas com poder aquisitivo mais alto, pelo próprio preço da passagem.
Dormia-se com a roupa que estava no corpo?

Casso o passageiro desejasse poderia trocar de roupa no banheiro, na própria cabine, se estivesse com pessoa que possibilitasse tal liberdade.
Se quisesse viajar de pijama poderia?

Com certeza sim! É interessante observar que no caso das cabines não havia o que era comum nas primeiras e segundas classes, aonde de trecho em trecho vinha o chefe do trem, acordar o passageiro para conferir a passagem. Cada vagão de cabines tinha um responsável, que sabia onde cada passageiro iria descer, chamava-se camareiro. Ele batia na porta avisando o passageiro que o seu destino de viagem estava próximo.
Quantos funcionários geralmente compunham um trem de passageiros?

Havia o maquinista, o auxiliar do maquinista também chamado de foguista, por ter sido no tempo do trem á vapor a pessoa que alimentava a maquina. Viajavam ainda o chefe de trem, o ajudante de chefe de trem, se tivesse cabines havia o camareiro. Quem picotava o bilhete da passagem era o chefe de trem ou seu auxiliar. No caso do carro restaurante era explorado por terceiros. Como os bares das estações também eram explorados por particulares. No carro restaurante havia o cozinheiro, o garçom. Havia um balcão para lanches ou para tomar algum refrigerante. Nas mesas eram servidas as refeições. Em determinadas épocas do ano, poderia ocorrer da pessoa não conseguir passagem para viajar, por causa da grande procura. O excedente ia de ônibus. Havia um trem com características de trem de carga, onde havia um carro de passageiros, os demais eram vagões de cargas. A sigla desse trem era BG. Passageiro que não tinha muita presa ia nele. No trem superluxo havia o carro chamado Pullman de um lado havia uma poltrona e do outro havia duas poltronas, reclinava ficando um semi-leito. Todo trem superluxo tinha ar condicionado.
Por quanto tempo o senhor permaneceu trabalhando na Estrada de Ferro Sorocabana?

Eu comecei a trabalhar mesmo, quando conclui a escola, em 1963 e permaneci até 1973. Foram 10 anos. Quando estava na fase de transformação para a FEPASA eu sai.
O motivo alegado para desativar o transporte ferroviário era o fato de ser deficitário?

Deficitário como quase todas as estatais no Brasil. A Sorocabana tinha uma revista mensal aonde vinha o balancete, era considerada como décimo segundo estado do Brasil em termos de arrecadação. A administração mudava conforme a mudança de governo. Cada governo eleito nomeava o presidente, a diretoria como cargos de sua confiança. Tive a oportunidade de ser chamado em São Paulo, onde conversei com um diretor e pude constatar seu total desconhecimento e despreparo para a função que exercia. O pessoal que ocupava a chefia de estação, de divisão, era efetivo, os cargos não eram de natureza política.
O senhor desligou-se da Sorocabana e foi trabalhar onde?

A baixa remuneração feita pela Sorocabana me levou a prestar um concurso no qual passei, e fui trabalhar no IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Fui nomeado para trabalhar em Ourinhos onde permaneci por um ano. Em 1973 fui para Assis, onde permaneci até o inicio de 1976. Na época me ofereceram a chefia do IBGE em Piracicaba, e assim vim para cá, onde assumi o cargo de Chefe da Agencia de Piracicaba.
Onde se localizava IBGE na época?

Funcionava na Rua Moraes Barros, ao lado de onde era a garagem da CPFL.
Quantos funcionários trabalhavam lá?

Existiam 11 funcionários.
Qual é a função básica do IBGE?

É fazer levantamento de todas as estatísticas possíveis. É comum associar o nome IBGE com estatística populacional. As pesquisas são em diversos campos: industrial, agrícola, estatísticas realizadas em cartórios, prisões.
A sede do IBGE fica aonde?

Fica no Rio de Janeiro.
O senhor permaneceu quanto tempo no IBGE?

Aposentei-me em 1992. Quando cheguei em Piracicaba , havia um censo qüinqüenal, que era o econômico e o agrícola, e estava em pleno andamento. Fiz o censo demográfico em 1980, depois em 1985 o censo agrícola e econômico e o censo demográfico de 1990.
Qual são as principais finalidades de um censo?

O censo é desde a época de Jesus Cristo. Quando ele nasceu, José e Maria iam prestar informações para o recenseamento. No Brasil começou por volta de 1910. É importante para conhecer a realidade de um país. Tem que haver estatística, embora nem todos reconheçam essa importância, na época tínhamos muitas dificuldades em obter informações. Tínhamos uma retaguarda legal que se a pessoa se negasse a prestar informações ela poderia ser intimada a fornecer os dados exigidos. Hoje a pessoa ao ser recenseada se negar a prestar informações ninguém pode obrigá-la a fazer.
As informações mais distorcidas são as de natureza econômica?

Isso sempre existiu, mesmo quando havia na época a garantia de sigilo total. A estatística no Brasil é relegada a um segundo plano. Quando houve a transição de governo, em que o Sarney assumiu a presidência, o censo demográfico de 1980 foi feito em 1981. Porque na fase de transição, percebendo que havia recursos alocados para o censo, os mesmos foram utilizados para outras finalidades. Com isso perdeu-se a série histórica de 10 anos. Até então, todo censo demográfico tinha sido feito com o ano terminado em zero.
De 1973 até os dias atuais o Brasil praticamente duplicou sua população. Isso é positivo?

Eu acho que o crescimento demográfico em certas regiões é necessário.
O senhor é formado pela UNIMEP?

Sou formado em Ciências Contábeis.
Tecnicamente a emancipação de pequenas localidades é um fator positivo?

Depende da cidade. Tem lugar, como por exemplo, Hortolândia e Sumaré. Hortolândia é maior do que Sumaré, no entanto era distrito de Sumaré. Nesse caso é justificável a emancipação. No Brasil há casos em que se cria um município, e o que se arrecada é insuficiente para pagar o salário do próprio prefeito! Há sinais de que vem uma nova onda de criação de novos municípios. Existem certas situações onde são claros os níveis de dificuldades para que o IBGE faça uma pesquisa. Em grandes centros, onde há regiões de alto índice de violência, é impraticável a realização de pesquisa! Quem se arrisca a entrar nesses locais? Não se trata de preconceito e sim de realidade. O Estado não sabe como atuar em situações dessas.
O fato do IBGE estar sediado no Rio de Janeiro e o centro do poder estar em Brasília podem afetar em alguma coisa?

Acredito que não. Atrapalharia mais se a sede localiza-se em Brasília!
Das diversas classes sociais e econômicas existentes qual é a mais propícia a dar informações corretas?

Acho que encontramos maiores facilidades com as classes menos elevadas. A informação é mais pura, mais real. A classe média e a alta trabalham as informações. Acho que falta uma conscientização por parte dessas pessoas, quando se apura o censo não aparece o nome de ninguém.




















Sexta-feira, Janeiro 01, 2010

BABALORIXÁ AZOANE J`LOLÁ



PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 02 de janeiro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: BABALORIXÁ AZOANE J`LOLÁ (Diz-se: Azoane Jilolá)
Conhecido em Piracicaba como J`Lolá (pronuncia-se Jilolá), palavra que em iorubá quer dizer “Rei do Sol” ou “Supremo de Dignidade, Virtudes, Qualidades”. É o nome de Obaluaê que é o Universo. Nascido em Salvador, Bahia, no dia 26 de agosto de 1941. Babalorixá, conhecido popularmente como Pai de Santo, que deveria ser chamado de Zelador de Orixá
O senhor é católico?
A minha família sempre foi católica, fui batizado na igreja católica. Eu sou Católico Apostólico Romano, vou á igreja, freqüento a missa. Eu sou o único da família que se interessou pelo candomblé.
Como o padre vê a sua espiritualidade?
Aqui em Piracicaba acredito que eles não sabem a respeito da minha espiritualidade, pelo fato de eu não ter contato com nenhum deles. Em Salvador na Igreja do Bonfim, a Lavagem da Igreja do Bonfim é o candomblé. Lá não existe essa divergência entre o candomblé e o catolicismo. Quando eu tive que fazer uma romaria na Igreja do Bonfim, como uma atividade do candomblé, fui á Igreja do Bonfim com toda a indumentária do candomblé. O Senhor do Bonfim no candomblé é Oxalá! As baianas quando lavam as escadas estão todas de branco, que é a cor de Oxalá. Quem é adepto do candomblé no dia de Oxalá, que é toda sexta feira, não usa roupa de cor, não come comida com sal.
Que idade o senhor tinha quando se despertou para o candomblé?
Eu estava mais ou menos com sete para oito anos de idade. O sentimento espiritual já nasce conosco. É o nosso anjo da guarda. Se ele permanecer abafado ele não se desenvolve. Minha mãe era professora na Ilha de Maré, nessa época eu tinha cinco a seis anos de idade. O dia 16 de agosto é dia de São Roque, nesse dia havia uma procissão marítima. Eu enlouquecia, saia de casa e entrava no mar, os pescadores me acolhiam. Com o passar do tempo, começou a manifestarem-se certas coisas em mim, que apesar de seu ser baiano era leigo no assunto. Eu tinha medo, não aceitava, era completamente contra essas manifestações espirituais.
Como eram essas manifestações?
De repente eu “sumia”, perdia totalmente a noção de tudo que me cercava. Os médicos classificaram “essas ausências” como uma doença clássica. Receitavam remédios fortes. Depois que entrei no candomblé isso tudo passou.
O senhor passou a freqüentar algum local específico em Salvador?
Freqüentei a casa do meu Pai de Santo, Waltinho de Iroco. O local do seu Pai de Santo é denominado Ilê Axé Iba Faromi. Estive lá no mês passado. Lá é que fui feito.
O que é “ser feito”?
É a firmeza daquela entidade. A gente é raspado, é pintado é catulado.
Qual é a diferença entre catulado e raspado?
O catulado é o corte do cabelo com uma tesoura, o raspado é com a navalha.
Esses detalhes que o senhor está fornecendo eram de conhecimento restrito?
Antigamente não era permitido fornecer esse tipo de informação, hoje está aberto. É importante que sejam divulgados para que a cultura seja preservada na sua forma correta.
Como é denominado o seu local, onde o senhor é Pai de Santo?
Quando passei a ser babalorixá recebi a denominação Ilê Axé Iba Tolu.
Quais são as diferenças entre a umbanda e o candomblé?
As diferenças estão nos toques, nas preparações para o axé. O candomblé tem sua origem na África. A umbanda foi desenvolvida no Brasil. A umbanda segue a linha de trabalho com espíritos. O candomblé trabalha com divindades.
Existe a atividade desenvolvida para produzir o bem como também para produzir o mal?
Existe! Isso é lógico! O babalorixá é um conselheiro geral. No mundo existem pessoas querendo fazer de tudo. Cabe ao babalorixá fazer o que melhor decidir que deve ser feito. Já houve caso em que fui procurado para desenvolver um trabalho extremamente prejudicial a uma pessoa. Eu não aceitei. Eu aprendi dentro da seita, que não se pode simplesmente fazer o mal ás pessoas, isso pode voltar contra mim mesmo, o meu anjo da guarda me devolve aquilo.
Existe algum tipo de pessoa que deseja provocar o mal para outra pessoa?
Os mais interessados nesse tipo de ação são pessoas envolvidas na política. Desejam que o seu adversário que se lasque! Procuram travar, enfraquecer, impedir o adversário de ter sucesso.
Pessoas com problemas sérios de saúde procuram suas orações?
Procuram! Somos impedidos de fazer certas coisas na vida, por ser uma afronta com o nosso espírito, com o nosso anjo da guarda. Por desconhecimento muitas vezes as pessoas agem de forma errada. Dentro do nosso ritual, das origens, quem manda em nossa cabeça é Iemanjá. Dia primeiro de fevereiro nas praias são feitas as homenagens á ela.
O senhor ficou até 25 anos de idade em Salvador?
Permaneci em Salvador, porém não me dedicava apenas a religiosidade, trabalhava como professor. Por parte da família da minha mãe todos foram professores, existe em Salvador colégio em nome do meu avô. Meu pai era policial. Toda a minha cultura foi para o lado da minha mãe. Antes de entrar no candomblé eu tinha medo, eu ficava assustado. Existia uma Mãe de Santo que passava sempre na porta da minha casa, quando eu a via, corria. Escondia-me, tal o medo que aquela mulher me dava. Quando entrei para o candomblé eu já não podia fazer mais isso, até que um dia, isso foi em 1961, ela disse-me: “Meu filho, você terá os melhores empregos em sua vida, mas a sua vocação é o candomblé”.
O senhor conheceu Mãe Menininha do Gantois?
Conheci. Ela fazia trabalhos com o meu Pai de Santo.
O senhor veio para São Paulo?
Vim para São Paulo, trabalhei na RCA VICTOR. Depois de certo tempo voltei para Salvador. Voltei para São Paulo, fui trabalhar em Congonhas, na Transbrasil Linhas Aéreas. Descobriram lá dentro que eu era espírita. Passou a ter um afluxo de funcionários da empresa, buscando comigo soluções para problemas afetivos, domésticos. Não havia a história de ver se poderia voar! (risos). É interessante, mas quanto maior o nível de cultura da pessoa maior é o seu gosto em buscar as respostas. É natural do ser humano. Acabei pedindo a conta da Transbrasil, voltei para Salvador. Permaneci mais um tempo lá. Voltei para São Paulo, fui trabalhar na Enciclopédia Britânica. Jogaram-me em Rio Branco, no Acre. Tinha a responsabilidade de realizar cobranças jurídicas. Eles me ofereciam boas condições de trabalho, passagens de avião.Eu morava em uma casa que a companhia me oferecia. Certo dia chegou uma mulher com uma criança e disse-me: “Benza o meu filho!”. Eu disse-lhe: “- A senhora está fora do seu juízo! Eu nem sei o que é isso!”. De tanto ela insistir, para satisfazê-la acabei atendendo o seu pedido. Noutra semana eu não dormia mais era muita gente na minha porta. Comecei a dispensar as pessoas. Voltei para São Paulo e pedi a minha conta. Voltei á Salvador.
E Piracicaba como surgiu na vida do senhor?
Vim em 1992 vim para passar uns dias e já faz 17 anos que estou aqui! Tenho 47 anos de espiritismo, reconhecido pela Federação Baiana de Culto Afro-Religioso.
O que é Ikiri?
É um coquinho. Nele eu consigo ver a trajetória de um ser humano. Só oito pessoas fazem essa leitura no mundo, sendo que mulher não tem acesso ao ikiri, assim meu Pai de Santo me orientou. O verdadeiro fundamento do ikiri está no fundamento branco do meio dos coquinhos. Quem estará presente é o seu anjo da guarda. É essencial que a pessoa esteja presente durante o ritual de leitura do ikiri, não pode ser feito via Embratel e também deve ser guardado o devido respeito, não podendo ser transportado de um lado para outro.
Como o senhor chama uma entidade?
Balançando um sino com duas bocas, ou campânulas, J`Lola explica: “O som produzido pelo adjá é a forma de chamar o Orixá. Não existe como eu falar venha cá”.
O senhor consegue visualizar acontecimentos próximos?
O falecimento da Kassia Eller eu vi aqui. A eleição do Lula eu vi aqui.
O senhor permite fazer duas perguntas que estão na cabeça de muitos brasileiros?
Claro, pode perguntar!
Quem será eleito presidente do Brasil?
(Nesse instante J`Lolá passa a jogar o Ikiri).
O Presidente Lula será o Fidel Castro só que discretamente, mesmo que ele coloque outra pessoa continuará governando na sombra. Ele não irá permanecer se reelegendo, irá colocar alguém, depois essa pessoa sairá, ele entrará de novo. Enquanto ele existir será presidente. Eu vejo isso. A futura presidente é uma mulher.
O Governador José Serra terá alguma chance?
O Serra poderá até atrapalhar ele.
Se a pessoa tiver muita fé em Deus ela estará totalmente protegida?
Lógico que estará. Primeiramente é Deus! Ele é o Ser Supremo.
Se alguém deseja a outro algum mal pode haver uma blindagem?
Se houver fé e um anjo de guarda fortalecido nada te acontecerá!
O senhor recomenda que as pessoas façam suas orações?
Lógico! Todo dia antes de dormir eu rezo, peço a Deus.
A oração é um escudo que o senhor recomenda para que as pessoas pratiquem no ano que se aproxima?
As pessoas devem rezar, ter fé.
O senhor tem uma oração especial para recomendar?
Quando vou deitar rezo: “Com Deus me deito, com Deus me levanto. Com a Graça de Deus, do Divino Espírito Santo. Rezo por três vezes. Amem. Deus me proteja e protegei meus inimigos”. Ás vezes eu rezo uma Ave Maria para as almas dos mortos, dos conhecidos.
Há uma falta de espiritualidade nos dias atuais?
Falta, há uma busca pela satisfação material. Há pessoas que esquecem que Deus está em toda parte e em todos os momentos. Não se podem cometer barbaridades, depois ir até um brechó, comprar um paletó e ir todo comportado a um culto qualquer e ficar perfeito. Sou do candomblé há 47 anos, venho de uma família católica, me considero católico, entro na igreja oro. Isso não é uma mistura, Deus é um só!
A cultura trazida da África mesclou-se com a religião católica?
Os escravos foram quem trouxeram isso tudo. A comida, a dança. Na Bahia teve uma época, que eu não cheguei a ver, mas que o candomblé era proibido. Eu peguei uma época em que para fazer um toque na sua casa precisava pedir licença na polícia.
O que é toque?
É uma festa com atabaque. Para realizar isso nos anos 50 era necessária a autorização policial.
Quando o senhor passa perto de uma pessoa “carregada” o senhor sente?
Sinto! Começo a abrir a boca, a bocejar.
Quem será o ganhador da Copa do Mundo em 2010?
Vai ter muita briga. O fato da representação brasileira sentir-se poderosa irá facilitar ao adversário. Eles estão muito convencidos. Tem graveto que derruba panela. Algum time fraco pode derrubar o grande, e isso pode acontecer ao Brasil. A África do Sul poderá ganhar a copa. A única coisa que pode favorecer o Dunga é que o anjo da guarda dele é da justiça.
Já pediram a ajuda do senhor para que fornecesse os possíveis resultados da Mega Sena?
Já! Eu digo que se eu soubesse não iria contar, iria eu mesmo jogar! Outra coisa, sorte a gente não adquire na vida, já nascemos com ela. Uma criança que nasce no chamado berço de ouro, tem de tudo. Muitas vezes essa pessoa tem um problema. Outra pessoa nasce á mãe joga no lixo, alguém a acolhe, ela um dia será um médico, um doutor. É a sorte!
Existe destino?
Quem faz é gente! Nesse mundo tudo que está na face da terra é o que Deus quer. Se nesse momento estou aqui fazendo isso é por ordem Dele. Não podemos discriminar nada. Ninguém quer ser ladrão, assassino, ou usar droga. Não por vontade própria. São conseqüências.
Uma família que tenha uma pessoa problemática, um dependente químico, por exemplo, há uma razão para a existência desse problema na família?
Tem alguma razão para que exista isso na família.
Um comentário sem fundamento, uma risada maldosa pode trazer conseqüências futuras?
Pode trazer conseqüências graves inclusive. Que acompanhará a pessoa até o final dos seus dias. Dependendo do que você vai falar a palavra é mais forte, em outras ocasiões a mente é mais forte.
O senhor tem discípulos?
Tenho muitos, alguns em grau avançado. É o que me deixa firme. Temos que saber espalhar, dividir.

FELIZ 2010 !




Ainda menino, lembro-me que na escola fazia o cabeçalho das provas, colocava o nome da cidade, o dia o mês e o ano...1965...1972...O ano 2000 era um tempo tão distante!

Hoje é dia 1 de janeiro de 2010, já não faço mais cabeçalhos em folha de papel almaço pautado. Penso apenas: como passou rápido! Hoje se não uso mais calças curtas, uso bermudas compridas. A tela e o teclado do computador substituíram a folha de papel almaço pautada. A letra era desenhada caprichosamente, e, acredite, usei caneta tinteiro com a tinta cor Azul Royal! Ainda não conhecíamos a caneta esferográfica! De uns tempos para cá, passei a observar que as pessoas com mais anos de vida, estão muitas vezes olhando para o vazio. Isso me intrigou muito, até descobrir que eu simplesmente não estava entendendo nada. Á frente dos seus olhos há uma tela de projeções virtuais. Suas recordações são projetadas ali, como um diretor de um filme, ela escala quem participa de suas lembranças. Geralmente os atores principais não podem mais serem escalados para novas produções. Mas é tão gostoso lembrar-se de desempenhos memoráveis, detalhes que passaram quase imperceptíveis. Quadro a quadro ela analisa os mínimos detalhes. Ás vezes sorri outras vezes deixa escorrer uma lagrima no canto dos olhos. São emoções legitimas dos anos que se passaram. E o mais interessante é que cada indivíduo produz seu próprio filme, escolhe o gênero: romântico, de aventuras, comédias, dramas e até...novelas! Dizem que a vida imita a arte.

Desejo que em 2010 e todos os anos que você tiver pela frente, realize suas mega produções, com os grandes astros que são as pessoas de sua convivência. E que escolha o gênero que mais lhe agrade. Desejo mais, que no dia em que seus olhos estiverem fixos no horizonte, projetando seus filmes virtuais, todos vejam um sorriso nos seus lábios!
João Umberto Nassif
Autor:

Sexta-feira, Dezembro 25, 2009

FREI SAUL PERON


FREI SAUL PERON
PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 26 de dezembro de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: FREI SAUL PERON
O Natal é uma data em que comemoramos o nascimento de Jesus Cristo. O Papai Noel, a figura do bom velhinho foi inspirada num bispo chamado Nicolau, que nasceu na Turquia em 280 d.C. O bispo, homem de bom coração, costumava ajudar as pessoas pobres, deixando saquinhos com moedas próximas às chaminés das casas. O presépio também representa uma importante decoração natalina. Ele mostra o cenário do nascimento de Jesus, ou seja, uma manjedoura, os animais, os reis Magos e os pais do menino. Esta tradição de montar presépios teve início com São Francisco de Assis, no século XIII. Essas informações são bem conhecidas. O que desperta a atenção é a de a cada dia a figura do Papai Noel estar mais próxima ao recorde do Guiness Book como “Maior Vendedor do Mundo”, sendo relegado a um segundo plano o verdadeiro sentido Natal. Só os pequeninos, e nem todos, acham que Papai Noel existe, mas a voracidade do consumo o materializa na mente de muitos adultos. O nosso entrevistado é muito estimado pelos piracicabanos que o conhecem. Pela sua franqeza e forma lúcida com que expõe suas convicções torna-se um baluarte em defesa do sentido original do Natal.
O nome civil do senhor qual é ?
Saul Peron, sou filho de Guerino Peron e Cezira Cadari Peron, uma família muito conhecida em Piracicaba, especialmente na Vila Rezende. Nasci no dia 5 de novembro de 1934, potanto já fiz 75 anos na localidade rural onde uns chamam de Guamiun por causa do córrego, também conhecida por Santa Fé que fica entre Vila Nova e Cruz Caiada.
Quantos filhos seus pais tiveram?
Cinco filhos. Até os quarenta anos de idade meu pai trabalhou na agricultura, mudando depois para Piracicaba, onde montou um armazém de secos e molhados, me parece que se chamava Empório São Benedito, na Avenida Dona Francisca, Vila Rezende, proximo onde hoje é o Restaurante Monte Sul.
Era uma zona praticamente rural?
Da casa do meu pai, quando se olhava na direção de onde hoje é o bairro Jardim Monumento, onde está o Mosteiro, a Igreja Nossa Senhora dos Prazeres, plantava-se arroz. Onde hoje é o Hospital dos Fornecedores de Cana praticamente determinava o limite das casas construídas. Quando menino eu conheci a Avenida Dona Francisca com meia dúzia de casas, era piso de terra, cercas de pau a pique. A única rua calçada era a Avenida Rui Barbosa, o bonde ia até o seu ponto final, passava pela Casa Valler e fazia seu ponto final onde hoje é um Posto de Saúde Municipal, pena que não tenha sido preservado. Hoje são mais rigorosos com relação á preservação das obras edificadas. Tomba-se um patrimônio, passando a responsabilidade integral de preservação e manutenção ao seu proprietário. É um procedimento comum pelo que sei no Brasil. Algumas experiências em Minas Gerais fizeram com que o bispo pedisse o apoio dos padres para que fosse feito o “destombamento” que permitisse que ele cuidasse das igrejas que estavam prestes a caírem.
O senhor estudou no Grupo Escolar José Romão?
Estudei por dois anos em um grupo escoar que ficava onde na época denominava-se Bimbóca, hoje Avenida Manoel Conceição. Era uma escola mista, e a escola ficava situada entre uma dúzia de casas, inclusive do Vitti. O Romão já existia, mas nós morávamos ali em baixo nessa época.
Ainda menino o senhor chegou a trabalhar na lavoura?
Trabalhei no sítio. Naquela época não havia impedimento para que o menor trabalhasse.
O senhor é favor ou contrário ao trabalho do menor de 16 anos de idade?
Eu acho que o menor não deve ser explorado. A criança não deve ser usada, manipulada. Há a possibilidade de se adquirir uma mão de obra barata sem oferecer segurança, muitas vezes obstruindo a ida da criança para a escola. No meu tempo não havia isso, ia-se á escola, na volta ia para a roça. Era uma atitude comum na época, em todos os lugares. O menor não ser explorado é uma situação evidente, que ele tenha uma oportunidade para estudar é mais evidente ainda. O poder público deveria providenciar uma maneira que permita á família uma sustentação. Um pai com dois ou três filhos pequenos, não tem um bom emprego, fica difícil. Em contrapartida o trabalho do menor proporciona a evasão das escolas.
O senhor acredita que essa proibição do menor de 16 anos de idade ser proibido de trabalhar, sem que o Estado ofereça a contrapartida é uma solução pela metade?
É sempre assim! É difícil uma solução total.
O senhor foi para O seminário Seráfico São Fidelis com que idade?
Eu devia ter de 15 para 16 anos de idade.
Foi uma mudança de vida radical?
Eu procedo de uma família muito religiosa. Nós morávamos no sítio, os meus avôs eram lideres da comunidade, quando havia missa lá, os celebrantes eram a maioria das vezes eram acolhidos em casa. Desde pequeno tive sempre um bom relacionamento com os frades, e a boa maneira de ser deles me encantou. A experiência familiar para o jovem é fundamental.
Ao ir para o seminário os estudos do senhor iniciaram-se como?
Começava-se com o ginásio, depois o equivalente ao colegial, nós denominávamos de Clássico. Antes de ingressar havia dois anos de preparatório, era a base. Três anos de ginásio, dois anos de curso clássico, e o noviciado, onde era feita a formação religiosa. Em seguida mais três anos de filosofia pura. Estudamos francês, italiano, grego clássico, grego bíblico, latim. Naturalmente se dava grade importância ao português.
Quantos anos o senhor estudou?
No Seminário Seráfico foram quatro a cinco anos, de lá fui para Mococa por dois anos, um ano em Taubaté, voltei ara Mococa onde permaneci por três anos, depois mais quatro anos e meio em São Paulo.
Era um longo período de estudos!
Naquele tempo do começo ao fim passava-se por 13 a 14 anos de estudos.
A oratória é importante na função religiosa?
No meu conceito a oratória é um dom pessoal, um carisma.
Qual é o segredo de um bom orador?
Eu penso que é a habilidade e convicção daquilo que você vai falar. É claro que tem que ser usada técnica específica. Quando você está fora do seu ambiente é natural ocorrer um pouco de inibição. Tenho facilidade em falar, desde que seja dentro do meu campo. Tem pessoas que fala sobre tudo de forma bastante natural, e pode ocorrer em erros.
Quando você está expondo um assunto, naquele assunto provavelmente seu domínio é acima da grande maioria que o escuta. Pode ocorrer de haver entre os ouvintes alguém que está com posições divergentes, e que nem sempre quem está apresentando tem uma resposta convincente. Em palestras de um nível mais elevado isso pode ocorrer com mais freqüência. Temos pessoas muito cultas, com grande capacidade, mas quando se apresentam em público pronunciam-se muito acima do entendimento da platéia.
Porque a Missa do Galo acabou?
As coisas mudam! Por que Missa do Galo? Porque era celebrada á meia-noite, hora do galo cantar. Naquele tempo ao se celebravam missas á noite, elas eram celebradas a noite. A missa tinha todo um encanto, por ser rezada a meia-noite. Era a missa festiva do Natal. Há padres que guardam essa tradição até hoje, se não me engano a Matriz da Vila Rezende manteve esse costume até muito pouco tempo. Naquele tempo você rezava a missa e ia embora para casa á pé. Quando eu era menino por muitos anos participei da Missa do Galo, celebrada pelo Monsenhor Gallo! Na nossa igreja será ás 20h00 minutos, vem uma enormidade de fiéis. Depois irão para sãs casas onde celebrarão em família com a ceia. Fato que acho muito importante, por reunir os membros da família.
Um fato que tem ocorrido ultimamente é a dificuldade de se adquirir presépios, e a farta variedade da figura de Papai Noel em situações inimagináveis.
O Natal está totalmente descaracterizado. O que vale hoje é o consumismo. Praticamente tudo que se encontra “brilhando” no comércio vem da China. Qual é o Natal na China? O cristianismo tem uma pequena parcela da população que pratica e sofre perseguições. É comércio e acabou. Isso existe em todas as partes do mundo. Se você for ao Japão poderá ter a impressão de que é o país mais cristão que existe! Natal para nós não é comércio! Sempre trabalhei, e consegui obter sucesso principalmente em cidades menores, incentivando os comerciantes a montarem presépios em suas vitrines. Inclusive alguns comerciantes chegaram a fazer a novena de Natal. Em uma cidade grande como Piracicaba isso se dilui. Eu tentei dar um colorido diferente á igreja, através de enfeites, de presépios, mensagens. Tentei fazer um pouco de frente aquilo que está ai. É um consumismo desnecessário.
Isso tudo empurra a pessoa para uma situação caótica?
De angústia inclusive! Os pais que não têm poder aquisitivo para adquirir presentes, as crianças que não irão receber praticamente nada, o vizinho que mora ao lado, tem coisas muito boas. O que deveria ser motivo de grande alegria para todo mundo para grande parte acaba sendo motivo de angustias e frustração. Até que ponto que as pessoas que estão nessa situação financeira, econômica e social têm condições religiosas de superar o problema e ter uma visão diferente do sentido do Natal.
A impressão de que se tem é que os confessionários á medida que esvaziam, enchem salas de psicólogos e psiquiatras. Qual é a opinião do senhor?
Fala-se. Comenta-se. São opiniões. Desconheço uma estatística que comprove isso cientificamente. É evidente que hoje a problemática é tão grande, que é importante que haja a confissão, mas é importante também que haja psicólogos, psiquiatras. Muitas vezes alguma pessoa que me procura para uma confissão, eu mando para o psiquiatra, para o médico. O problema da pessoa é muito mais de saúde psíquica do que problemas de pecado. Muitas vezes as pessoas não têm condições para pagar um psiquiatra, ela confessa seus pecados e eles são resultados de desajustes emocionais, familiares, sociais. Na nossa paróquia não diminuiu o número de confissões, pelo contrário, aumentou. Na última segunda feira fizemos uma confissão comunitária, havia praticamente 900 pessoas! É um rito especial. Vem pessoas de todos os cantos da cidade inclusive de outras cidades.
O senhor é um capuchinho convicto?
Sou convicto de que sou um verdadeiro frade!
Nas madrugadas, particularmente na televisão, há uma profusão de programas de cunho religioso, alguns até certo ponto hilários. Como o senhor vê isso?
Está profetizado na Bíblia! Haverá tempos em que surgirão falsos profetas de todos os lados que enganarão inclusive os santos.
O que significa no ano de 2009 o Natal, o nascimento de Jesus Cristo?
Significa tudo! Se Jesus Cristo não tivesse nascido nós não seríamos remidos. Nascimento, a vida Dele, a mensagem Dele, a morte e a ressurreição. O Natal é tudo, complementado com a Páscoa. Nada adiantaria Cristo ter nascido se não tivesse ressuscitado. Qual é o crédito da divindade de Jesus Cristo? É a fé na ressurreição! Ela não é a retomada de um cadáver, é o passar a existir em uma dimensão nova, fora do espaço, fora do tempo, fora da realidade humana concreta.
O senhor foi Frei Guardião aqui na Igreja dos Frades, e era tido como “durão”.
É meu caráter. Eu não mostro os dentes com muita facilidade. Se mudar, não sou eu. A incapacidade de gerenciar as próprias emoções são defeitos, limites do próprio caráter. Temos que trabalhar nosso caráter. São meus pontos de vista, se você me provar o contrário eu não tenho dificuldades em aceitar. Eu peço muitos conselhos ás pessoas! Não tenho também muita preocupação em ficar agradando, ou deixar de fazer alguma coisa porque o outro não concorda. Na minha vida nunca deixei de ter nenhuma iniciativa por medo do fracasso. Nem tudo deu certo. O fracasso é não tomar uma iniciativa por medo do fracasso.
O senhor escreveu algum livro?
Não. Tenho muitas palestras e conferências escritas. Acho que existe muito livro para ler hoje, eu não venço ler tanta coisa!



Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

BRUNO PRATA


                                                     BRUNO PRATA
PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 19 de dezembro de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: BRUNO PRATA
Os dois bairros rurais vizinhos, Santana e Santa Olímpia, é formado em sua grande maioria por descendentes de tiroleses (trentinos). Bruno Prata nasceu no bairro de Santana, no dia 7 de setembro de 1947. Seus pais João Paulo Prata e Maria Balarim Prata tiveram seis filhos. Bruno Prata está cumprindo seu segundo mandato como vereador em Piracicaba. Além da sua atuação no legislativo ele reúne grande experiência acumulada na assessoria á prefeitos de Piracicaba. É tesoureiro da Pastoral da Caridade da Diocese de Piracicaba.
Onde o senhor realizou seus primeiros estudos?
Foi na Escola Rural da Fazenda Glória. Em Santana permaneci até um ano e meio de idade, depois fomos para Tabela. Lá a escola mais próxima ficava no Bairro do Recreio, uns quatro a cinco quilômetros da fazenda onde nós morávamos. A Escola da Fazenda Glória ficava um pouco mais longe, nós íamos de charrete. Na época havia a necessidade de alguém conduzir a charrete, inclusive porque era a condução que levava a professora depois que ela descia do ônibus que parava na Tabela.
Quem dirigia a charrete levando a professora?
Eu dirigia, na época tinha sete anos de idade, o percurso era de uns oito quilômetros aproximadamente.
Qual é a origem do nome do bairro Tabela?
Havia no local uma placa indicativa para o bairro Recreio. Então dizíamos que ali era Tabela do Recreio. Assim como Santa Luzia, foi o nome dado pelo Seu Pedro Mariconi, que tinha problemas de visão e foi curado, fato que ele atribuiu á Santa Luzia. Quando ele resolveu prestar essa homenagem á Santa Luzia ele procurou meu pai para ajudá-lo a conseguir mais adeptos ao seu propósito.
O pai do senhor exercia qual profissão?
Ele trabalhou na lavoura de café, aos vinte e cinco anos de idade, passou a trabalhar como barbeiro, acumulando a função de fabricar sapatos e arreios. Meus pais levantavam bem cedo e trabalhavam até as 10 horas da noite, inclusive aos sábados e domingos. Eles faziam arreios, tranças, laços, para serem usados em animais que trabalhavam na preparação da terra, na colheita. Não existia o processo mecanizado. Havia muitas encomendas dos engenhos, das usinas.
O senhor trabalhou na fabricação desses produtos?
Aos sete anos de idade eu comecei a trabalhar com selaria. Voltava da escola e já ficava trabalhando. Fabricávamos sapatões para serem utilizados no trabalho rural, não usávamos pregos, eram utilizados os “tornos” feitos de pinho, era um quadradinho com pouco menos de um centímetro. Com a água ele dilatava e nunca despregava, nem enferrujava. Após furar o sapato batíamos com o martelo sobre esses pinos de madeira, fixando-os como se fosse um prego normal. Não havia colas com a qualidade que encontramos hoje. Eu fui me especializando em calçados, fazia sapatos ortopédicos, sapatos femininos. Fazia o modelo, criava os moldes. A fabricação era feita sob encomenda.
Quem usava sapatos era considerado como privilegiado?
Isso acontecia principalmente na zona rural.
Como o seu pai conseguia ter duas atividades tão distintas, a de sapateiro e a de barbeiro?
É interessante! Quando a pessoa vinha procurar os seus serviços de barbeiro ele tinha que inclusive trocar de camisa, além de uma rigorosa limpeza das mãos. Na época a barba era feita com o uso da navalha.
O senhor chegou a aprender o oficio de barbeiro?
Sim! Cortei alguns cabelos, fazia a minha barba com navalha. A melhor navalha era a alemã solingen.
Acertar o fio da navalha é uma arte?
Como tínhamos a sapataria havia a facilidade de amolar na lixadeira, usava-se o rebolo, depois tinha uma pedra mais fina e por último o assentador.
Ao término do corte o cliente gostava de um perfume?
Utilizava-se Água Velva Royal Brilhar. A Bozzano veio depois.
Dizem que barbearia é um ponto fantástico de informação, é verdade?
É o núcleo da fofoca! Fala-se de tudo!
O senhor lembra-se da primeira “vitima” em quem fez a barba?
Lembro-me sim! Foi um primo meu, Renato Prata Garibaldi, falecido recentemente.
O barbeiro era uma figura de destaque na comunidade?
Muitos iam para a barbearia para conversar. Alguns faziam consultas ao me pai, relatavam intimidades, algumas vezes o meu pai tinha que auxiliar a família.
O gosto do senhor por política nasceu ali na barbearia?
Creio que sim! Porque se falava muito em política na barbearia, sobre Janio Quadros, Adhemar de Barros, Luiz Dias Gonzaga. É interessante essa observação, porque meus irmãos não se interessaram por política. Eu era muito curioso, procurava sempre ouvir o que diziam a respeito do que era dito ali
Em que ano a família mudou-se para Piracicaba?
Foi em 1964, tínhamos uma sapataria chamada Casa Prata. Era na Travessa Francisco Faria, 32 na Vila Rezende. A casa existe até hoje. Lá foram realizados os melhores natais das nossas vidas. Meu pai era vivo, tios, havia muitos amigos. Nossa casa era um ponto de referencia, á noite, na passagem do Natal, havia muitas pessoas, até mesmos os vizinhos iam até lá. As pessoas cantavam, a alegria era muito grande. Hoje não existe mais esse tipo de comemoração de Natal.
Era na época uma região menos urbanizada?
As ruas eram de terra, uma ocasião caiu uma carroça com animal e tudo em uma vala produzida pela erosão, decorrente do escoamento constante de águas servidas de uma empresa próxima. Ali era uma região freqüentada predominantemente por pessoas vindas de Santana, Santa Olímpia, Santa Terezinha, Charqueada.
Nessa ocasião a Casa Prata fornecia sapatões para os operários da Dedini?
Fabricávamos sapatões com solas grossas de pneus, para as pessoas poderem trabalhar com os lingotes de ferro, era comum o funcionário trabalhar por meia hora no manuseio dos lingotes e depois ir tomar leite gelado. Havia um constante revezamento de funcionários. A temperatura era muito alta. Trabalhávamos em quatro pessoas na produção da sapataria.
Com quantos anos o senhor casou-se?
Aos 22 anos de idade me casei com Eurides Barbosa Prata, nós tínhamos nos conhecido na escola, no bairro Recreio. Na época o pai dela era frangueiro. O trabalho dele era percorrer a zona rural, levando miudezas, armarinhos, tecidos, produtos industrializados, que muitas vezes eram permutados por ovos, frangos. Embaixo do carrinho de tração animal havia uma gaiola, onde eram transportados os frangos vivos. Meu sogro chamava-se Benedito Barbosa de Oliveira. A Eurides tinha mudado para Piracicaba, quando mudei para Piracicaba a procurei.
Onde foi realizado o casamento do senhor com Dona Eurides?
Foi na Igreja da Imaculada Conceição, na matriz antiga ainda, o celebrante foi Monsenhor Jorge Simão Miguel. Tivemos cinco filhos.
Após casarem-se onde foram morar?
Fizemos uma casa nos fundos da sapataria, nessa época já não havia mais barbearia. Permanecemos lá até 1983. Depois eu e a Eurides mudamos de lá.
Qual é a religião do senhor?
Sou católico, fui inclusive Procurador da Diocese por uns oito ou nove anos, é um cargo normalmente exercido por um padre. O Bispo na época era Dom Eduardo Koaik
Após exercer suas atividades na Casa Prata, o senhor seguiu outra profissão?
Em 1973 comecei a trabalhar como corretor imobiliário, sou um dos corretores mais antigos de Piracicaba. Na ocasião a Nova Piracicaba começou a ter seus lotes vendidos. O responsável pelo loteamento era o Coronel Antonio Bruno e o Capitão Laurival Oliveira, eram funcionários da City, empresa incorporadora. O escritório ficava na Rua Dona Francisca, onde é o Liceu hoje.
Até então a região onde hoje é a Nova Piracicaba era o que?
Era canavial. O loteamento lá começou em 1972 com Ludovico Trevisan, eram lotes padrões de 10 metros de frente por 30 metros de fundo. A City comprou essa área, e o padrão por ela adotado era de no mínimo 12 metros de frente.
A quem pertencia essa área?
Acho que pertencia também á Mário Áreas Vitier, conhecido como Mário da Baronesa.
Onde ficava a casa da Baronesa de Rezende?
Ficava em uma chácara situada no meio do canavial. Próxima onde hoje é a Igreja São Francisco.
Com a atuação do senhor na imobiliária os negócios evoluíram bastante?
Em um período houve uma evolução.
Havia desconfiança por parte do piracicabano de que a Nova Piracicaba poderia não ter o sucesso que teve?
Era difícil vender. Tinha-se que argumentar bastante, os lotes de terreno tinham ruas sem saída, as pessoas ficavam temerosas. O Coronel Bruno era um entusiasta do empreendimento, mostrava os padrões europeus. Quando os compradores passaram a sentir segurança no empreendimento houve uma grande procura pelos lotes. Nessa época trabalhava na imobiliária meu pai e eu, funcionava no mesmo local da Casa Prata.
O mercado imobiliário mudou daquela época para cá?
Não havia tantas exigências como existe hoje, zoneamento, a escritura era passada de forma bastante rápida e simples Hoje há a necessidade de tirar certidões, verificar se o imóvel não tem pendências jurídicas ou comerciais.
A negociação entre comprador e vendedor era mais confiável?
Muito mais confiável!
Quando foi o seu primeiro contato com a política?
Com a abertura política em 1979, 1980 passou a existir a possibilidade de criar-se partidos políticos. Criou-se o Partido Popular, PP, Francisco Salgot Castillon que havia sido injustamente cassado readquiriu seus direitos políticos. Houve a incorporação do PP pelo PMDB para derrotar Paulo Maluf na célebre eleição indireta onde Tancredo Neto venceu as eleições. Fui para o PMDB, e eu saí candidato a vereador foi em 1982, a primeira eleição da qual participei. E ganhei, fui o quarto mais votado de Piracicaba. O prefeito na época era Adilson Maluf. Fui bastante combativo, com atuação efetiva á favor da população. Algumas das minhas atuações tiveram grande repercussão na cidade. Após encerrar meu mandato fiquei um período fora da política. Quando o prefeito Antonio Carlos Mendes Thame foi eleito me convidou para ser seu assessor, meu trabalho era o de acompanhamento de projetos do legislativo.
Como era o Thame como prefeito?
Muito rígido e muito trabalhador. Ás vezes, duas horas da manhã tocava o telefone na minha casa, era o Thame ligando. Não tinha horário, não almoçava, não jantava. Mesmo quando fazia campanha, saia de madrugada com ele, as quatro cinco horas, voltávamos meia noite, uma hora da madrugada seguinte, não almoçávamos, comíamos alguma coisa, e trabalhavamos sem parar. Com isso adquiri o vício de não ter refeições regulares. Hoje eu mudei.
Quando o Thame terminou o mandato o senhor também deixou a assessoria?
Sai quando terminou o período do mandato do Thame. Foi eleito como prefeito Humberto de Campos. Ele me convidou para realizar o mesmo trabalho, o que fiz durante sua gestão. Com a eleição do prefeito José Machado, passei a trabalhar como assessor do deputado Thame. Quando o prefeito Barjas Negri foi eleito exerci a função de seu assessor. No segundo mandato do prefeito Barjas Negri, seis meses antes do período eleitoral sai como candidato a vereador. Fiquei como suplente da vereadora Rosangela Camolesi. Ela assumiu a secretaria municipal de Ação Cultural eu assumi a suplência.
Como é trabalhar com o prefeito Barjas Negri?
Trabalhar com o prefeito Barjas Negri é bom por ser uma administração que tem uma boa referencia popular, ele tem uma aprovação recorde.
Hoje, como vereador qual é a sua bandeira principal?
Meu trabalho principal é o combate as drogas.
O senhor é um político por vocação?
Toda vez que me candidato a minha família é contra.
O que é Pastoral da Caridade?
Pastoral do Serviço da Caridade foi criada por Dom Eduardo, abrange a todos os benefícios que a diocese faz: Pastoral da Criança, Ceame, que trabalha com dependentes químicos, Projeto Recrear, Banco dos Remédios, que distribui gratuitamente remédios á quem não tem condições para adquirir. Essa farmácia existe há 20 anos.
Quando o senhor assiste as imagens transmitidas pelas redes de televisão, mostrando os descalabros que ocorrem em determinados meios políticos qual é a sua reação?
Revolta muito, isso não é política!
Na sua concepção o que é política?
Política é o que definiu Thomaz de Aquino no século XIII: “A arte do bem comum”. Pio XII disse algo formidável: “Uma das maneiras mais belas de se praticar a caridade é através da atividade política”.
A Igreja Católica tem uma grande força junto á população, ela movimenta forças dentro do quadro político que se apresenta?
Ela movimentava mais no tempo de João Paulo II, ela era mais ousada. Com Ratzinger ele ceifou esse ímpeto revolucionário da igreja. A CNBB se pronunciou, condenou atos reprováveis, mas não dita ao clero qual deve ser a ação a ser tomada.
Qual é a saída para a política nacional?
A adoção do voto distrital, que infelizmente não ocorre por falta de interesse de alguns políticos, por motivos óbvios. O Parlamentarismo é outra solução. Hoje, em tese, um analfabeto pode ser eleito.

Domingo, Dezembro 13, 2009

LUIGINO (LUIS) ZAVA


                                           LUIGINO (LUIS) ZAVA



PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 12 de dezembro de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: LUIGINO (LUIS) ZAVA
Nasci no norte da Itália, em Pistóia, em 21 de setembro de 1920, filho de Hermelinda e João Zava. Aos dois anos de idade perdi a minha mãe. Meu pai aos 15 anos de idade tinha saído da casa dos pais dele, permanecendo por 15 anos no Canadá. Ele conheceu a minha mãe por carta. Ela era amiga da minha tia, irmã de meu pai. Minha mãe e a minha tia freqüentaram uma escola de obstetrícia. Essa minha tia escreveu uma carta para o meu pai, onde apresentou a sua amiga, que depois veio a ser a minha mãe, e a partir daí começou o namoro entre o meu pai e a minha mãe, um namoro por carta que durou anos. Em 1914, quando a Itália entrou em guerra meu pai tinha saído da Itália, voltado para o Canadá para providenciar a ida da minha mãe e minha irmã que tinha nascido. O ataque dos submarinos alemães aos comboios comerciais suspendeu a navegação que atravessava o Oceano Atlântico. Minha mãe não pode ir para o Canadá, e permaneceu esperando na Itália até o termino da guerra. Em 1918 meu pai voltou á Itália, em 1920 eu nasci.
Qual era a atividade do pai do senhor no Canadá?
Ele era ebanista, marceneiro que trabalhava em ébano e outras madeiras finas, ele fazia mobiliário fino. Profissionalmente sua formação foi nos estaleiros de Veneza.
Como o senhor veio ao Brasil?
Quando eu tinha três anos de idade a minha tia perguntou ao meu pai se ele não queria vir para o Brasil, na Itália não se encontrava trabalho, era só brigas de fascistas pelas ruas. Ele concordou, e veio para São Paulo com essa minha tia, Ursulina, trazendo minha irmã Vilma, hoje com 96 anos de idade e que mora em São Paulo. Fizeram a carta de chamada, que permitia que ele entrasse no país como profissional na sua área. Chegamos ao porto de Santos, em seguida fomos a São Paulo, onde dirigimo-nos á casa da Tia Ursulina. Essa minha tia era parteira, tinha conhecimento com grande parte das famílias moradoras no bairro de Santana, era a única parteira por perto. No dia seguinte meu pai já foi trabalhar no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.
Em que local de São Paulo morava a tia do senhor?
Morava em Santana, na Rua Voluntários da Pátria, próximo aonde hoje é a Avenida General Ataliba Leonel. Quase em frente onde eu morava havia uma escola pública foi lá que fiz o curso primário. Após quatro anos nessa escola, eu tinha 11 anos de idade, fui estudar Desenho Geométrico no Liceu de Artes e Ofícios onde estudei por dois anos geometria plana. Ocorreu um fato interessante, quando entrei para o curso de Desenho Geométrico, tinha 12 anos de idade, porém só com a idade de 14 anos era permitido o acesso do aluno, foi aberta uma exceção e passei a estudar regularmente. Tive meu interesse despertado em fazer um curso profissional, fiz o Curso de Tecnologia Mecânica lá mesmo no Liceu de Artes e Ofícios. As oficinas onde eram ministradas as aulas práticas de mecânica ficavam no fim da Rua João Teodoro, próximo a Rua da Cantareira. Das 7 horas da manhã até as 3 horas da tarde eram dadas as aulas práticas. Á noite eram dadas as aulas teóricas, das 19 horas até 21 horas e 30 minutos. Nas aulas práticas era ensinado desde picar carvão para acender a forja até forjar as peças, aprendíamos a dar o acabamento ás peças, era o único curso nesse setor em São Paulo.
Em que ano o senhor formou-se no Liceu de Artes e Ofícios?
No fim de 1938, eu tinha 18 anos. Fui trabalhar como ferramenteiro. Meu primeiro dia de trabalho, já como profissional, foi no dia 25 de dezembro de 1938.
Mas 25 de dezembro é comemorado o dia de natal!
Era Dia de Natal! Entrei ás sete horas da manhã e saí ao meio dia. Naquela época não existia carteira de trabalho, não se falava em Cédula de Identidade! Aos sábados trabalhávamos o dia todo, no Natal trabalhava-se até o meio-dia. Não havia esses feriados todos que existem hoje.
Como se chamava a primeira empresa em que o senhor trabalhou?
Chamava-se Metal Ars Natale. Era um gravador de aço, fazia medalhas, chatilene, que era uma corrente com uma plaqueta com os dizeres que a pessoa queria usar, o nome da pessoa, uma frase. Era gravado com buril no latão, mandava-se niquelar. Eram feitos porta-chaves de casas. Ele fazia em aço, depois temperava o aço e estampava em latão.
Logo que o senhor formou-se adquiriu uma motocicleta?
Logo no começo que me formei adquiri uma motocicleta da marca Triumph, inglesa, usada. Meu objetivo era melhorar minha pontualidade no trabalho. Nessa época a Rua Voluntários da Pátria não era asfaltada, era calçada com paralelepípedo, com o tempo a passagem do bonde afundava os dormentes e os trilhos ficavam salientes, se tivesse que cortar a via eram grandes as possibilidades de cair. O número dos bondes que iam para a Voluntários eram os 43 e o 44.
A empresa ficava onde?
Ficava na Praça Princesa Isabel, na Luz. Permaneci nessa empresa por dois anos.
O senhor morava em Santana?
Morava com a nossa família em Santana, ia trabalhar de bonde.
Já existia a Ponte das Bandeiras?
Não existia ainda. Havia a Ponte Grande, era uma ponte de madeira. Nessa ponte havia trilhos só para um bonde passar, muitas vezes um dos bondes esperava em um desvio o outro passar para ele seguir a viagem.
O bonde era fechado?
Era bonde aberto! O único bonde fechado era o que fazia a linha do centro da cidade da Praça da Sé até o Largo do Socorro em Santo Amaro. Só esses bondes eram chamados de “camarão” por serem pintados de vermelho.
O senhor andava no estribo do bonde?
Não havia outro jeito! Tinha que me agarrar onde dava, para não perder hora de trabalho. Quando chegava à Ponte Grande, muitas vezes acontecia de encontrar com os bondes que traziam soldados da Força Pública, hoje Polícia Militar. Eles saiam do quartel situado na Avenida Tiradentes e iam para uma área de treinamento lá pelos lados de Santana. Tínhamos que esperar passar aquele tremendo batalhão de soldados!
O senhor almoçava onde nessa época?
Nesses dois anos em que trabalhei no Natale, almoçava em uma lanchonete, na Rua Santa Efigênia, o proprietário era um português, havia dois pratos, o completo que geralmente nós dispensávamos e outro prato mais simples. A verdade é que não podíamos gastar muito dinheiro por isso não pedíamos o prato completo!
Da empresa Metal Ars Natale o senhor foi trabalhar onde?
Fui trabalhar na Laminação Nacional de Metais, uma empresa de propriedade de Francisco (Baby) Pignatari, neto do Conde Francisco Matarazzo. Entrei já como desenhista mecânico. A empresa fazia laminação e extrusão de latão. Eram feitos tubos de latão por extrusão, laminadas as chapas de latão. Essa empresa ficava em Utinga, no município de Santo André. Tinha que tomar o trem na Estação da Luz. Quantas vezes eu não corri para apanhar o trem? Permaneci lá por uns três anos. Por algum tempo me interessei por tecelagem, queria abrir um caminho para me especializar em manutenção nessa área. Infelizmente não deu certo. Com isso fiquei conhecendo malharias, fiações. Era um trabalho mais voltado á parte comercial, eu não me adaptei. Preferia permanecer na área técnica.
O senhor foi trabalhar em outra empresa?
Fui trabalhar em uma indústria que fundia tarugos e mancais de bronze. A usina era no Ipiranga, o escritório, a parte técnica ficava no centro de São Paulo, na Rua Marconi. Permaneci lá por uns dois anos.
Após esse período onde o senhor trabalhou?
Fui trabalhar na então Rua Ataliba Leonel, em um ponto em que cruzava com uma Rua chamada Nelson, são ruas que vem do alto do morro e descem até Santana. Ali tinha a Fabrica de Maquinas Para Beneficiar Madeiras Raiman. Apresentei-me como projetista de ferramentas e máquinas, a matriz da empresa ficava em Santa Catarina. O diretor da indústria me transferiu para chefiar a usinagem, tornearia, retificação. Permaneci por sete anos como chefe da oficina. A Rua Ataliba Leonel já era calçada. Diziam que era porque uma importante figura do cenário nacional tinha nessa rua interesses de cunho afetivo.
Após a Raiman o senhor trabalhou onde?
Trabalhei na Columbia por 30 anos. Era uma empresa de autopeças, fazia buzinas, bombas d’água. Ficava na Lapa, depois mudaram para a Vila Leopoldina. Aposentei-me e permaneci trabalhando lá mesmo por mais alguns anos. O que eu me orgulho não é o que eu fiz na minha profissão, mas o que eu fiz com os profissionais que dirigi. Proporcionei a possibilidade para que os profissionais de destaque fizessem cursos, como o TWI, (“Training Within Industry”) ou Treinamento Dentro da Indústria, onde é abordado o aspecto de como se explica um serviço para um aprendiz. Também mandei fazer o curso de Supervisor pelo SESI. Formei supervisores, coordenadores de máquinas. A linha de montagem não podia parar.
Quantos funcionários havia no total?
Uns 350 funcionários. Havia prensas desde 5 toneladas até 150 toneladas. Eles preparavam, punham as ferramentas, as estampas. Os estampos eram feitos de tal maneira que era necessário pisar no pedal e a prensa descia. Com as mãos o operador tinha que puxar dois manúbios e disparar a prensa, para evitar que as mãos corressem riscos de acidentes. Todas as máquinas tinham recomendações prevenindo contra acidentes.
O senhor é uma testemunha do crescimento da cidade de São Paulo?
Lembro-me que no final do ano de 1936, com um grupo de amigos do curso do Liceu fomos acampar no Pico do Jaraguá Era um mato total! Permanecemos por uma semana, acampados. Foi uma semana de chuva! Á noite nós víamos o Edifício Martinelli com a propaganda da Bayer. Aquele círculo escrito: Bayer. Ele acendia e apagava. Era o único prédio de São Paulo!
O senhor freqüentava cinema?
Freqüentava cinema. Mas freqüentei teatro, adoro ópera. Durante 20 anos não perdi uma temporada. Freqüentava o Teatro Municipal onde eram encenadas essas óperas, assisti ali a apresentação com o grande trágico italiano do século passado Ermete Zacconi, ele estava com 80 anos quando apresentou Rei Lear de Shakespeare. Na Rua Barão de Itapetininga havia a Vienense, com chás e doces finos.
O senhor chegou a freqüentar o famoso Táxi Dancing Avenida?
Sim! Na Avenida Ipiranga! Freqüentei, mas gastava-se muito dinheiro. Elas dançavam muito bem, sabiam quando o individuo não sabia dançar, elas facilitavam os passos. Eu nunca fui bom de dança.
O senhor chegou a ver as pessoas nadarem, pescarem no Rio Tietê?
Quantas vezes eu fui nadar nos cochos que tinha no Tietê! No verão, a noite, descia a Voluntários e ia nadar no Tietê. Antes de o Esperia fazer a piscina. A primeira piscina construída tinha o formato oval, com uns 15 metros de comprimento, por 10 de largura. Foi feito pelo clube Sociedade Paulista de Esportes. A piscina era toda de cimento, não era azulejada. Era a única de São Paulo!
O que eram os cochos existentes no Tietê?
Eram uns quadrados de madeira, enterrados no leito do rio, amarrado nas margens com cabos. Era como se fosse uma piscina. Nadava-se no rio também. Tinha peixes, havia pessoas que pescavam diariamente.
Isso era onde hoje é a Ponte das Bandeiras?
Chamava-se Ponte Grande, a Ponte das Bandeiras foi feita depois.
O senhor nadou no Rio Pinheiros?
Eu tinha um amigo que morava próximo ao Rio Pinheiros, íamos a pé nadar no Rio Pinheiros.
Do que o senhor tem mais saudade em São Paulo?
Eu adoro São Paulo! Gosto de andar no centro, eu sou citadino! Onde há atividade artística, cultural. Adoro teatro, “Deus Lhe Pague” com Procópio Ferreira é uma das peças que assisti.
O senhor andava muito de trem?
Com a idade de 12, 14 anos saia de São Paulo ás sete horas da manhã e ia para Santos pelo trem expresso. Existiam o “Cometa” e o “Planeta” eram trens com três carros de passageiros. Passava as férias na casa de uma prima que morava em Santos, no bairro Gonzaga. Existia o Parque Balneário. Assisti a inauguração do Atlântico Hotel.
Como o senhor resolveu mudar-se para Piracicaba?
Li uma reportagem sobre o Lar dos Velhinhos de Piracicaba, qual era a área, toda arborizada, com a possibilidade de se construir chalés por preços convidativos. Vim para cá, conversei com o Dr. Jairo Ribeiro de Mattos, ele me expôs o que realmente era o Lar dos Velhinhos.
Entre o que foi exposto e hoje oito anos já morando no Lar qual é sua opinião?
Não acredito que exista um lugar melhor do que este. Pode ter igual, mas melhor não!
Atualmente o senhor dedica parte do seu tempo na área de venda de livros usados que o Lar dos Velhinhos recebe em doação.

O que o motivou a participar desse trabalho?
É uma paixão!

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

HUGO PEREIRA DE LIMA







HUGO PEREIRA DE LIMA




PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 05 de dezembro de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: HUGO PEREIRA DE LIMA
A frase "O sertanejo é, antes de tudo, um forte" foi escrita por Euclides da Cunha, que se tornou famoso com a publicação do livro Os Sertões, em 1902. O mestre Hugo Pereira de Lima é uma forma viva dessa frase. Sua vida é um retrato do migrante nordestino, com as cores mais marcantes que a realidade nua e crua pode oferecer. A determinação, a luta pela sobrevivência, a incansável maratona para avançar passo a passo, sem renegar seus princípios. Realizou trabalho rude, pesado, suas mãos foram embrutecidas pelo esforço físico. A sua fome por cultura o levou a tornar-se um respeitado poliglota, é reconhecido pelo seu saber, e muito requisitado por pessoas que cursam mestrado, doutorado. Sua marcante simplicidade é natural dos verdadeiros sábios. Mestre Hugo Pereira de Lima é, antes de tudo, um forte!
O senhor nasceu em que cidade?

Sou natural de Maraial, na Zona da Mata de Pernambuco, nasci no dia 30 de novembro de 1940. Meus pais são José Manuel de Lima e Maria Pereira de Lima. Fui criado em Garanhuns, que é uma cidade aonde a temperatura chega até os cinco graus centígrados. Muitas pessoas pensam que no nordeste do país todo lugar é quente, há lugares frios. O nome Maraial originou-se de uma palmeira espinhosa que existia em grande quantidade quando a cidade foi fundada. Embora eu tenha morado lá por três anos e meio nunca vi uma dessas palmeiras. Há muito tempo elas já tinham sido extintas. As pessoas que moram lá sabem a origem do nome da cidade, mas não conhecem a palmeira.
De Maraial o senhor foi morar onde?

Aos dois anos e meio de idade fui levado para Miracica, que faz parte de Garanhuns. Lá eu morava com meus avôs maternos Joaquim Pereira de Araujo e Laura Pereira de Araujo. O meu avô era carpinteiro, marceneiro, ferreiro e tanoeiro. Até hoje o seu nome é famoso na localidade. Era conhecido como Mestre Joaquim, além da sua habilidade, inteligência, era muito afável. Ele era muito respeitado pelos moradores de Miracica.
O senhor herdou um pouco do caráter dele?

Eu creio que herdei quase tudo que sou praticamente! Por mais nefasto que fosse um fato ele não ficava triste. Na época em Miracica não havia funerária, ele fazia muitos ataúdes. Ás vezes ele era acordado por alguém dizendo: “Tem que fazer um ataúde, fulano morreu!”. Ele levantava, me chamava, eu ia junto.
O senhor ajudou a fabricar ataúdes?

Ajudei muito! Era feito com tábuas e revestido com tecido na cor correspondente ao perfil do falecido. Se a pessoa era viúva usava-se pano roxo, se fosse uma pessoa de idade avançada usava-se tecido preto. No caso de crianças, o caixão era revestido na cor azul clara. Quando era feito um caixão para uma criança, dizia-se que era caixão para anjo. Havia uns enfeites prateados, na forma de cruz, de anjo com asa, anjo sem asa. Ficava até bonito!. Como ali era uma região pobre, havia um caixão na Igreja São José, era preto, grande, recebia a denominação de “Caixão de Caridade”. Quando a pessoa muito pobre morria, a igreja emprestava aquele caixão. Era colocada uma mortalha (um pano que cobria a pessoa morta), o caixão era conduzido até aonde a pessoa seria enterrada, era então retirado o corpo, sepultado, e o caixão voltava para a igreja. Esse costume não existe mais nos dias atuais. Na época havia muito o enterro de rede, o corpo era conduzido e sepultado envolto em uma rede. Meu avô se sabia que a pessoa não tinha condições financeiras ele não cobrava pelo caixão. No período em que ele estava fazendo o caixão, isso poderia ocorrer durante o dia ou á noite, era um habito dele contar piadas, rir, para amenizar o ambiente de tristeza da família.
Durante o velório, onde era apoiado o caixão?
Sobre dois cavaletes. As pessoas ficavam cantando as ladainhas, os Bem-Ditos, as excelências, hábitos do folclore, acendiam velas, lá não havia carpideiras. (Mulheres que recebem dinheiro para rezar e chorar por mortos desconhecidos). Minha avó era “tiradeira de excelência”, as pessoas cantavam aquelas excelências. Lá não se chama velório, é Sentinela. Uma característica era o repique do sino da igreja. Quando falecia uma criança havia uma seqüencia de toques. Se a falecida era uma moça solteira era outra seqüencia de toques. Conforme tocava o sino sabia-se as características da pessoa falecida.
O senhor mudou-se de Miracica quando?

Aos quatorze anos de idade voltei a morar em Maraial, onde permaneci até dezessete anos e meio. Não nutria por lá a satisfação que tinha quando morava em Miracica. Resolvi ir sozinho para Maceió.
O senhor já conhecia Maceió?

Não conhecia nada! Fui de trem, era a Rede Ferroviária do Nordeste, antiga Great Western. A Great Western do Brasil Railway Co., empresa inglesa, tinha sido encampada pelo Governo da União. Só que as pessoas mantinham o nome original quando se referiam ao trem. Cheguei a Maceió, fiquei andando pelas ruas da cidade, acabou o meu dinheiro, não tinha como voltar para casa. Eu tinha fraturado a clavícula durante o percurso da viagem de trem Quando já fazia cinqüenta horas que eu não tinha comido nada, fui até uma pensão, subi uma escada, e disse para a dona da pensão: “- Faz 50 horas que eu não como, estou muito faminto, não tenho dinheiro para ir embora, não tenho nada!”. Ela respondeu-me: “-Certo!”. Não me deu comida, não me deu nada. Desci a escada, fraco de fome, segui por uma rua chamada Dias Cabral, quando cheguei ao número, 217 não conseguia andar mais. Só que não era por estar fraco, embora não seja espírita, sentia alguma coisa que me impedia de prosseguir caminhando. Coloquei a mala no chão e sentei sobre ela. Algumas portas têm uma pequena janela, que lá é chamada de postigo, uma jovem senhora abriu essa janelinha e falou: “-Moço! O que você deseja!”. Contei a história. Ela fez um bom prato de comida. Após eu ter me alimentado, ela disse-me: “Meu marido é do Exército Brasileiro, ele está trabalhando. Guarde a mala aqui.”. Ela então me deu algum dinheiro para pagar ônibus e recomendou-me que andasse pela cidade, e quando fosse 4 horas da tarde o seu marido retornaria para casa e eu falaria com ele. Voltei no horário que ela disse, ele havia chegado. Recebeu-me como se fosse uma pessoa conhecida há muitos anos. Ele era Primeiro-Sargento do Vigésimo Batalhão de Maceió. Isso foi em junho de 1958, havia a Copa do Mundo, ia ter um jogo Brasil e França. Ele tinha um rádio que estava sem funcionar. Eu disse-lhe que entendia um pouco de rádio, como eu estava com a mão imobilizada por causa da clavícula, fui orientando como ele deveria desmontar e proceder para consertar. Era rádio á válvula. Consegui consertar o rádio, e ele pode ouvir o jogo. Permaneci oito dias sendo hospedado pelo casal. Voltei para Pernambuco, até a minha casa, onde morava com minha mãe e padrasto. Disse á minha mãe que iria até Miracica, onde morava meu avô. Tomei o trem e fui para Lourenço de Albuquerque, em seguida fui para Propriá, que é na divisa de Alagoas com Sergipe. De lá atravessei o Rio São Francisco em um barco, tomei um trem até Muribé e ai acabou o dinheiro. Naquele tempo guarda-chuva não era como hoje, um bom guarda-chuva tinha valor. Eu tinha um guarda-chuva bom. Vendi esse guarda-chuva e com o dinheiro consegui chegar até Aracaju. Fiquei andando pela cidade, com uma mala na mão. Era de madeira. Permaneci por 3 dias em um albergue de um centro espírita. Fui orientado para que procurasse o Departamento de Migração. Eu não tinha completado 18 anos ainda, e a diretora da instituição por esse motivo não me concedeu a passagem. Permanecei mais algum tempo na cidade, dormindo na beira do mar, no aeroporto.
E como o senhor fazia para alimentar-se?

Conheci um amigo que era gago, chamava-se Gabriel. Saiamos juntos e ele pedia o alimento ás pessoas. Eu não pedia. Fomos para São Cristóvão, que é uma cidade histórica, fomos para Salgado, em seguida para Estância. Sentados em um banco na Praça Rio Branco, decidi que devíamos ir á delegacia como ultimo recurso. Na época o cargo de delegado de policia no Nordeste era ocupado por militares. Um sargento nos acolheu, alimentou e arrumou emprego para nós dois. Fui trabalhar em uma padaria, onde também iria morar. O Gabriel foi trabalhar em uma serraria, brigou com o dono pegou o ônibus, que lá chamavam de marinete e saiu da cidade. Permaneci em Estância por quase dois anos. Fui para Salvador, onde trabalhei em tudo, até pegar caranguejo na loca.
De Salvador o senhor dirigiu-se para onde?

Na época a Irmã Dulce deu uma autorização de passe, que era para retirar a passagem na prefeitura. Fui para Minas Gerais, onde permaneci algum tempo trabalhando no campo. Em seguida passei pelo Rio de Janeiro, São Paulo e fui morar no meio da selva no Mato Grosso. Trabalhei seis meses, o dia inteiro cortando madeira com o machado. Voltei para São Paulo e fui trabalhar em uma empresa cuja sede era em Piracicaba. Chamava-se Sobar, Sociedade Bandeirante de Reflorestamento. Fui trabalhar como braçal, carpindo. Um rapaz que hoje mora próximo á minha casa, chamado Irineu Camargo Peixoto, era meu supervisor, na época era chamado feitor. Nós morávamos em pequenos barracos. Eu ficava ali com muita saudade do Nordeste. Escrevia cartas que jamais mandei, eu as dependurava em um prego. Um dia o administrador, Álvaro Wingeter entrou para fiscalizar o barraco. Ele viu as cartas, leu uma a uma, perguntou quem tinha escrito. Apresentei-me, ele então disse: “-A partir de amanhã você será inspetor!”. Deu-me o material necessário para fazer as anotações. Recebi diversas promoções até passar a administrador.
O senhor fez seus estudos onde?

Até o terceiro ano do curso primário estudei em Miracica. O quarto ano, eu estudei na Usina Água Branca. Voltei para Marial, quando sai de casa tinha o quarto ano primário. O curso de rádio eu fiz por correspondência no Instituto Monitor.
O senhor está concluindo um livro?

O nome do livro é “Histórias Que A Vida Me Contou”. Relata histórias verídicas. Mantenho o nome real das pessoas quando o fato é positivo para a personagem. Quando o fato é negativo dou um nome fictício. As histórias são fatos acontecidos em Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo. Cada lugar tem um capítulo, gerando cem histórias.
Quantos idiomas o senhor domina?

Falo o inglês, italiano e espanhol, fluentes, e tenho boas noções de francês. Estudei esperanto com a professora Nair Barbosa.
Como o senhor chegou a Piracicaba?

Pelo fato da empresa ser de Piracicaba, vim para fazer o acerto de contas aqui. Fiquei hospedado em uma pensão. Quando cheguei á Piracicaba tive muito problema com uma palavra: unspardela. Diziam: pegue unspardela! Ou seja: Pegue uns pares dela!
Lembra-se do dia em que o senhor chegou á Piracicaba?

Foi no dia 15 de fevereiro de 1963, entrei na pensão umas três horas da tarde. Essa pensão hospedava muitas pessoas que trabalhavam nessa empresa de reflorestamento.A partir dessa fase eu iniciei uma nova etapa na minha vida. Nessa pensão aconteceram fatos típicos, um deles foi com um mineiro, funcionário da Dedini que ganhou por cinco vezes na loteria esportiva, era uma quantia de dinheiro muito expressiva. Ele acabou torrando tudo e morreu como indigente.
Qual foi o seu primeiro trabalho em Piracicaba?

Fui trabalhar na Usina Monte Alegre, trabalhar no guincho. No meu emprego anterior eu era administrador da fazenda, tinha secretária, era uma estrutura bem montada, onde chefiava 120 pessoas. Todo meu conhecimento na empresa de reflorestamento de nada valia nas atividades da usina. Trabalhei o período da safra por seis meses. Fui trabalhar com raspagem de taco, aprendi com a necessidade! Um dia comprei o Jornal de Piracicaba e vi que a Eneo, que era uma empresa de contratação de mão de obra, estava oferecendo vagas para trabalhar na Dedini. Eu tinha 23 anos. Fui contratado para trabalhar na Dedini, entrei pintando peças. Logo eles perceberam que eu sabia ler e escrever bem, passei a ser apontador, Em 1963 houve um período muito conturbado na nossa história. Com isso muitos funcionários foram dispensados da Dedini. Após algum tempo, esse meu amigo que tinha ganhado na loteria tinha perdido tudo e voltado a trabalhar na Dedini. Ele falou com o chefe e me levou de volta para trabalhar na Dedini. Ao analisarem a minha ficha fui designado para ser inspetor de qualidade, fui promovido a programador de produção, supervisor de programação e depois fui transferido outro departamento como tradutor. Nessa época eu já acompanhava os estrangeiros em visita á empresa.
O senhor conheceu Armando Dedini?

Conheci. Era uma pessoa de um coração maravilhoso, muito humano.
Como o senhor, migrante nordestino falava inglês fluente?

Quando eu morava com meu avô ele dizia: “-Quando esse menino crescer, eu quero que ele fale três idiomas, como Rui Barbosa”. Eu estava fazendo o Tiro de Guerra em Sergipe, havia na cidade um rapaz tido como intelectual. Ele soube que eu havia feito o curso de taquigrafia. Apresentou-me a um professor de inglês, que tinha sido marinheiro e me ensinou conversação. Em minhas andanças, nos períodos de folga eu lia muito. Já em Piracicaba, passando pela Livraria Brasil vi um cartaz: “Aulas de inglês grátis, ministradas por professores americanos”. Era da Igreja Mórmon. Eu já tinha um vocabulário grande. No dia 25 de agosto de 1965 fiz um discurso em inglês, sobre Luiz Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias. Fui muito aplaudido. Permaneci por quatro anos estudando.
E italiano como o senhor aprendeu?

Li no Jornal de Piracicaba um anúncio: “Aulas de italiano grátis”. Inscrevi-me, a professora era Dona Ada Cavioli. Aprendi muito bem o idioma. Na Dedini tive um chefe argentino, José Luiz Castelioni. Combinamos que eu ensinaria inglês para ele e sua esposa e eles me ensinariam o espanhol. Foram dois anos, três horas por semana, dedicados ás aulas. Depois Estudei na Aliança Francesa, com Dona Janine estudei francês. Estudei alemão por dois anos com Dona Briguitte. Simultaneamente dava aula no Lessa, Inglês para brasileiros. No Instituto Piracicabano lecionei inglês em 1978.




























ELIZEU DAMASCENO GOIS


                                                    ELIZEU DAMASCENO GOIS


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 28 de novembro de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: ELIZEU DAMASCENO GOIS
O Presidente da Câmara Municipal de Rio das Pedras, Elizeu Damasceno Gois é natural da cidade de Marcionílio Souza, na Chapada Diamantina, próxima a Itaberaba, Estado da Bahia. Nascido em 25 de julho de 1970 é filho de Antonio Pereira Gois e Regina Damasceno Gois. Elizeu é um dos 8 filhos do casal, seu pai exerceu a atividade agrícola onde criou boa parte dos filhos, com o tempo mudou-se para um centro urbano, acabando por entrar no meio político, fez parte da administração pública, colaborou na eleição de um sobrinho como prefeito, isso no município de Marcionílio Souza.
Quem nasce em Marcionílio de Souza recebe qual denominação?
O natural de Marcionílio de Souza é marcionilense!
Esse gosto pela política demonstrado pelo pai do senhor o contagiou?
Eu acredito que sim. O político tem uma atuação social muito importante. Sou contra o assistencialismo, acredito que o bom administrador dará á população uma condição de vida melhor, a qualidade de vida depende muito da atuação de quem administra. Acompanhando a atuação do meu pai, pude ver a criação de novos projetos, desde o seu início até o seu desenvolvimento.
O senhor mudou-se para São Paulo em que ano?

Foi em 1989, eu estava já com 18 para 19 anos de idade. Trabalhei em uma empresa de terraplanagem, na área de construção civil, fazia sondagem de solo, com isso viajei muito pelo Estado de São Paulo. Eu sentia a necessidade de me fixar em algum lugar. Não me adapto em cidade muito grande, foi por isso que ao chegar á Rio das Pedras decidi que aqui deveria permanecer. Eu casei-me na Bahia, tenho dois filhos nascidos em Marcionílio de Souza e aqui em Rio das Pedras tivemos mais um filho. Vim para Rio das Pedras em 1993, tinha o desejo de fazer parte da administração pública. Em 2004 participei do pleito como candidato a vereador, tendo recebido 152 votos, não consegui ser eleito, mas fui convocado pelo prefeito Marcos Buzetto para assumir a pasta da Secretaria de Esportes. No dia 2 de janeiro de 2005 assumi a função de Secretário de Esportes. Até então eu tinha concluído apenas o ensino médio, fiz o vestibular na UNIMEP para a carreira de Gestão Pública, com o propósito de exercer a função de fato. Eu sabia que precisava me qualificar para exercer a atividade. Sabia que se fosse eleito no pleito seguinte deveria ter conhecimento técnico e prático. Em 2007 o prefeito sentiu a necessidade de que eu realizasse meu trabalho na Secretaria da Comunicação. Permanecei como Secretário da Comunicação até meados de 2008, quando me afastei do cargo para participar das eleições.
Quais são as atribuições do Secretário de Comunicação de Rio das Pedras?

Os atos administrativos têm que ser divulgados. O Prefeito Marcos Buzetto construiu muitas obras, que foram divulgadas pela Secretaria da Comunicação. Eu consegui acompanhar no período em que estive ocupando a função de secretário, foram 91 obras. Uma administração, mantidas as proporções de cada município, quase igual a do prefeito de Piracicaba, Barjas Negri.
Rio das Pedras construiu um portal monumental em uma de suas entradas, a função desse portal simboliza o que para a cidade?

Trata-se de um portal receptivo para quem chega á cidade. A primeira impressão é sempre a que permanece. Nós tínhamos uma entrada que não era tão bonita, pela SP-127, que vinha no sentido da Usina Santa Helena para Rio das Pedras, e tem outra entrada pela Rodovia Julio Bassa, que vem do sentido da Usina São José para a cidade. São as duas entradas principais da cidade. Nesta segunda entrada temos o problema de uma pequena comunidade morando á beira da pista, em habitações precárias. Foi feita a opção de construir o portal Pilé Degaspari na SP-127. Ao que consta Pilé é um apelido de origem italiana, que significa doçura, coincide com o cognome de Rio das Pedras de Cidade Doçura.
A situação dos moradores dessa comunidade está sendo estudada?

Pedi ao prefeito, inclusive mandei a minuta do projeto, para que se crie um auxilio moradia para as quinze famílias ali residentes. É um desejo meu, que essas famílias possam passar o natal em melhores condições. Hoje eles vivem em situações subumanas, correm risco de contraírem doenças, sofrerem atropelamentos. O prefeito já está remetendo o projeto de lei e estaremos aprovando esse ano ainda. A sobrevivência deles vem da reciclagem, atualmente existe o espaço onde eles moram e o local onde depositam os materiais. Vamos deixar uma área especifica para que eles façam essa armazenagem.
O senhor considera que todo político deve se qualificar tecnicamente antes de candidatar-se á um cargo?

Independente do tamanho da cidade, o legislador, o administrador público, tem que ter qualificação técnica.
O senhor foi eleito vereador em que ano?

Fui eleito em 2008.
Quantos vereadores compõem a Câmara Municipal de Rio das Pedras?
É constituída por nove vereadores.
O senhor foi eleito Presidente da Câmara já em seu primeiro mandato?

Fui eleito por unanimidade. A composição da Câmara foi praticamente reformada nas ultimas eleições. Da gestão anterior só permaneceram dois vereadores. Como faço parte dos sete novos eleitos, pelo fato de já ter assumido duas secretarias anteriormente, acredito que encontraram condições para que eu possa presidir uma câmara municipal. Não houve resistência contra a indicação de meu nome, e nem houve a necessidade de que eu pedisse algum voto de algum vereador a meu favor. Eu achava que um dos dois vereadores reeleitos deveria assumir a presidência, mas ambos declinaram.
As sessões da câmara municipal ocorrem em que dia?

Todas as quarta feiras a partir das 19 horas são transmitidas ao vivo pelo site www.camarariodaspedras.sp.gov.br Nós temos o auditório com capacidade para 100 pessoas, as sessões são abertas para quem deseje freqüentá-las.
Como é o dia a dia de um vereador em Rio das Pedras?

Pelo fato de ser uma cidade pequena, o cotidiano do vereador não é conturbado. A posição ocupada pelo Presidente da Câmara é pior, por ser responsável pela parte administrativa e legislativa da Câmara e a vereança para qual fui eleito. Com isso tenho que me desdobrar, cumprindo o mandato de vereador, falar e cobrar em nome do povo, e administrar a instituição.
A tradicional burocracia normal aos órgãos públicos envolve muitos papéis?

Em todos os setores a burocracia é grande, fato que não é privilégio da nossa cidade, mas de toda a nação. Pretendemos nas novas instalações evitar ao máximo o volume de papéis, usando os recursos da informatização. Vamos evitar a tramitação desnecessária de papéis.



No imaginário popular a figura do vereador é quem resolve todo e qualquer tipo de problema. Se a atividade própria á um assistente social garante votação eleitoral, traz também uma carga de atividades e problemas alheios a função?

A função do vereador é a mesma de um trabalhador. É uma forma de trabalho. Para a população não basta que o vereador fiscalize e cobre a aplicação dos investimentos da melhor forma possível, de tal forma que reverta em beneficio da própria população. O vereador é pago pela população para acompanhar a administração publica do executivo, para saber se realmente estão sendo aplicados os recursos naquilo que foi projetado. É um fiscal do povo. Não é um assistente social! Em Rio das Pedras a cultura assistencialista está mudando. É feito um rastreamento por uma assistente social, onde é verificada a necessidade de quem precisa participar dos programas do governo. Os que realmente necessitem serão beneficiados. Há um impulso natural do vereador em querer fazer esse papel, movido por simplicidade ou até por falta de conhecimento. Quando ele passa a atender e a contribuir com as exigências dos pedidos de alguns eleitores, ele passa a ter problemas pessoais de ordem financeira. Ele descobre que o seu salário não é suficiente para atender as solicitações.
O senhor acredita que a Câmara dos Vereadores de Rio das Pedras não dá espaço para o assistencialismo?

Não dá! Todas as pessoas que chegam com suas necessidades, nós encaminhamos para a assistência social. Lá é feita a triagem e verificada a real necessidade do solicitante.
Rio das Pedras cresceu nos últimos anos?

Cresceu bastante, em população e em orçamento municipal. A migração em si é um problema existente no Estado de São Paulo. A mudança ainda está muito lenta em outros estados. Em um passado mais remoto, Rio das Pedras teve um período em que ocorreu o incentivo de migrantes, com isso uma nova onda de possíveis eleitores, só que a justiça eleitoral se fez presente barrando as ilegalidades, principalmente quanto a domicilio eleitoral.
Como anda o orçamento da cidade?
Dobrou e está quase triplicando. Não só em função de indústrias, mas da própria administração do prefeito Marcos Buzetto.
Há algum projeto de trazer novas indústrias á Rio das Pedras?

Hoje está bastante difícil recepcionar novas indústrias em função da Lei de Responsabilidade Fiscal. Não se permite mais as doações de áreas, as empresas não se contentam com a concessão de áreas, elas querem receber em doação com escritura definitiva.
A formação básica escolar feita pelo município em Rio das Pedras é tida como modelo?

São escolas com nível das escolas particulares de primeira linha. O sistema municipal de ensino público atraiu as pessoas interessadas em um ensino com qualidade.
Existe alguma perspectiva de instalação de indústrias que necessitem de funcionários especializados em Rio das Pedras?
Acredito que isso irá acontecer de forma natural. A implantação de grandes empresas em Piracicaba irá motivar a busca de novos locais para a instalação de empresas fornecedoras de componentes integrados aos produtos dessas grandes empresas. A própria saturação da cidade de Piracicaba fará essa distribuição, o valor imobiliário é um fator favorável a Rio das Pedras. O ISS, Imposto Sobre Serviços em Piracicaba é 5% em Rio das Pedras é 3%.
Há uma tendência de Piracicaba e Rio das Pedras a exemplo do ABCD paulista tornarem-se cidades sem delimitações aparentes?

Irá chegar essa hora, só que acredito que isso não irá interferir muito na administração de ambas as cidades, a exemplo do que ocorre no ABCD.
O que é o projeto de Moeda Circulante Local?

É criação minha! Fui visitar um projeto semelhante, que já existe a 12 anos no Bairro das Palmeiras, em Fortaleza, Ceará, criaram a moeda circulante local para evitar que a economia migrasse para o centro de Fortaleza. Tentei implantar em Rio das Pedras, porque percebemos que as grandes cidades sugam nossas economias, e o comércio local fica patinando. Lancei o projeto da moeda local. O prefeito atendeu a reivindicação.
Como chama essa moeda adotada por Rio das Pedras?

Lá em Fortaleza chama “Palmas”, tomou o nome do bairro Palmeiras.
Em Rio das Pedras será “Pedras”?

Seria talvez. A solução adotada foi diferente. O município adquiria cesta básica através de concorrência pública e os ganhadores eram sempre de outras cidades. Até então Rio das Pedras adquiria cestas de uma empresa de Corumbataí, quase 1.000 cestas por mês, a R$ 78,00 cada uma. É muito dinheiro! Os tributos eram recolhidos pela prefeitura de Corumbataí. O prefeito decidiu passar as cestas de R$ 78,00 para o vale alimentação no valor de R$ 150,00 praticamente dobrou o valor. Será licitado um cartão vale alimentação onde será credenciado o comércio local. Esse dinheiro será investido em Rio das Pedras. Dentro do período de 3 anos de administração do prefeito Marcos Buzetto ele irá investir no comércio local mais de 4 milhões de reais. Isso passará a vigorar a partir de janeiro. Eu acho que essa medida substituiu o projeto da Moeda Circulante Local.
Rio das Pedras tem um potencial turístico?

Eu acredito que existe. Quem explora o turismo é a iniciativa privada, o poder público contribui para o desenvolvimento inicial. Até hoje na administração municipal ninguém se interessou pela Rua Torta. Tanto é que não existe nenhum processo de tombamento, porque a partir do momento em que é feito um tombamento, a responsabilidade pelo patrimônio tombado é do poder publico. A Rua Torta já está desfigurada, pelo fato das administrações anteriores não terem atentado para isso. O que não impede que possa vir a ser feita alguma ação no sentido de dar o devido valor á Rua Torta. Isso depende não só do poder público, tem que haver a participação da iniciativa privada.































Quinta-feira, Novembro 26, 2009

Marcelo de Castro Meneghin



                                          Marcelo de Castro Meneghin







PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 21 de novembro de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: Marcelo de Castro Meneghin
Esse é um ano especial para a Faculdade de Odontologia de Piracicaba, que comemora o centenário do nascimento do Prof. Dr. Carlos Henrique Robertson Liberalli, instalador e primeiro Diretor dessa instituição de ensino. O dentista Marcelo de Castro Meneghin é vice-diretor da Faculdade de Odontologia de Piracicaba – FOP, unidade integrante da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e professor da área de odontologia preventiva e saúde pública, do Departamento de Odontologia Social. Formado pela FOP, fez a pós-graduação, mestrado e doutoramento na Faculdade de Odontologia de Araçatuba – UNESP.
O senhor é natural de qual cidade?
Sou nascido em Botucatu em 11 de maio de 1965, vim para Piracicaba em 1986, como calouro da FOP.
Os seus pais tinham alguma relação com a odontologia?
Não. Meus pais não cursaram o ensino superior, fui aluno dos bons tempos da escola pública até a oitava série. Tive a oportunidade de fazer o colegial no Colégio Arquidiocesano, após concluir o colegial fiz o exame da FUVEST e tive a honra de vir para Piracicaba. Foi aqui que encontrei Zuleica Pedroso, na época também aluna da FOP, hoje minha esposa e mãe das nossas três filhas.
Como estudante onde o senhor morou?
Inicialmente morei em república onde permaneci até a minha formatura. Passei a trabalhar no meu consultório, e morava no consultório. O dinheiro era curto, nesse inicio ingressei no setor público como dentista. Trabalhava na clínica privada e no setor público, isso me ajudou muito no desenvolvimento das minhas atividades na FOP, por ter a oportunidade de trazer a experiência do setor público para dentro do ambiente acadêmico. O desenvolvimento das atividades de pesquisa dentro da academia foi importante, para sustentar a dinâmica com os alunos, o relacionamento com o setor público. Diversos convênios sou eu quem discute com o Dr. Fernando Cárdenas, com o Prefeito Barjas Negri.
O que o levou a escolher a profissão de dentista?
A escolha não tem um motivo muito definido. Não tenho ninguém na família que tenha sido cirurgião dentista. Sempre gostei muito da área de biológicas como um todo. O que me encantava na profissão de dentista é a questão do sorriso, da estética do ser humano. Hoje a minha área é para preservar, recuperar através de um trabalho estético, como se fosse uma plástica. O sorriso como um cartão de visita das pessoas me instigava. Na escola fui descobrindo a importância da prevenção com relação á saúde. Essa pergunta é interessante, porque sou natural de Botucatu, onde há uma das melhores escolas de medicina do país e meus pais nunca esconderam que gostariam que eu seguisse a carreira de medicina. Só que eu tinha o sonho de fazer a odontologia. Até hoje, meus pais dizem de forma carinhosa: “Você tinha conquistado os pontos necessários para formar-se como médico”. Eu acho que fiz uma boa escolha, formei uma família bonita, escolhi uma boa cidade. Entendo que estou em uma posição bem situada profissionalmente.
O receio do paciente com relação á ida ao dentista é uma característica que ainda persiste?
Esse receio existe por diversos fatores, o próprio desenvolvimento tecnológico da profissão. Antigamente os equipamentos utilizados pelo profissional não eram equipamentos confortáveis ao paciente. Nem mesmo a cadeira oferecia conforto. O receio surge também pela própria dinâmica dos materiais utilizados. O processo de anestesia não tinha a eficiência que hoje existe. A nossa cultura sempre fez a ligação do profissional com um problema existente, e geralmente acompanhado de dor. O tratamento a ser feito não era fácil, era traumático, onde o paciente sofria. Nós temos uma política de saúde bucal a partir da ultima constituição, de 1988. Até então tínhamos o dentista que atendia nas escolas, sendo que muitas vezes era dito ao aluno mais travesso: “-Se você não se comportar eu te mando para o dentista!”. Era uma ameaça, com isso o dentista não era uma figura ligada á questão de saúde. Nesse aspecto abro parênteses, o Professor Miguel Morano Júnior já há 20, 25 anos, falava na questão da preservação da saúde, dentro da sua disciplina Educação Para a Saúde. O resgate do cirurgião dentista como profissional de saúde vem sendo feito aos poucos. Hoje a situação já está se tornando mais agradável, você vai ao dentista para preservar a saúde. É feita uma manutenção da saúde, um diagnóstico precoce de algum problema, o que resultará em tratamento sem o sintoma doloroso. Seguramente deverá levar ainda alguns anos para que essa mudança ocorra de forma mais abrangente.
A popularização do aparelho ortodôntico é positiva?
Como fator estético eu encaro de maneira positiva, enquanto o fator estético não atrapalhe a função saúde. Trabalho na periferia de Piracicaba e vejo a preocupação do jovem sobre a necessidade de usar um aparelho ortodôntico. Muitas vezes eles esquecem que se prevenirem uma carie dentaria terão uma aparência estética muito boa. Aproveito para associar a essa preocupação com a estética indicando um clareamento dental. Sempre que você devolver a auto-estima, confiança a uma pessoa, com seu sorriso bonito, isso será muito importante. Tudo isso deve ser sempre muito bem indicado e controlado.
Há uma faixa da população que luta muito para obter o mínimo necessário á sua sobrevivência. De que forma imagina-se que ele consiga cuidar da sua saúde bucal?
Essa questão é interessante porque muitas condições são oferecidas para que eles cuidem de sua própria saúde. Nossos alunos fazem estagio em um projeto desenvolvido junto com a prefeitura de Piracicaba, com o Ministério da Saúde, sendo que os 80 alunos do curso de graduação estão envolvidos nesse projeto. Muitos dos alunos de pós-graduação também estão envolvidos nesse processo. É importante salientar que entre os alunos de pós-graduação temos alunos de diferentes áreas: farmacêuticos, fonoaudiólogos, psicólogos. O curso é o Programa de Pós-Graduação em Odontologia, abrange algumas áreas específicas desse programa: bioquímica onde há a área de cariologia, de fisiologia, de saúde coletiva, de odontopediatria. Cada um desenvolve a sua linha de pesquisa de uma forma. Temos linhas de pesquisas na área de epidemiologia, que é o estudo da saúde publica. Temos a oportunidade de desenvolver estudos como, por exemplo, quanto um problema de desigualdade ou exclusão social interfere na questão de ter mais chances de desenvolver mais caries. Com relação aos cuidados da saúde bucal, a prefeitura tem seus programas de distribuição de escovas, pasta dental, palestras. O nosso foco é melhorar as condições de acolhimento, ou seja, como conseguir fazer com que essas pessoas procurem o serviço. O paciente idoso tem uma dificuldade maior em procurar o serviço. Uma adolescente gestante a partir do momento em que ela tem o nenê entra toda uma parte odontológica. Os pacientes diabéticos aumentam o risco de desenvolverem certas doenças, se estiver junto com o seu médico uma equipe odontológica é possível desenvolver ações para minimizar ou até evitar transtornos odontológicos. Ajudamos também na questão de organizar e qualificar as demandas, qual é o paciente que deve ser chamado com mais urgência. Qual é o setor que devemos dedicar maior atenção para os problemas não se agravarem. Encaminhamentos para unidades de especializações, um tratamento de canal para onde pode ser encaminhado.
No antigo prédio da faculdade de odontologia funciona uma clinica?
Desde 1998 funciona uma clínica grande onde atendemos uma média de 2.000 crianças por ano. É um projeto em conjunto com a prefeitura de Piracicaba, a Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas, a Fundação Belgo do Grupo Arcelor Mittal. O trabalho é realizado com as crianças das escolas municipais de Piracicaba. Com as crianças da escola estadual algumas incursões estão ligadas á área da Educação Para a Saúde do Departamento de Odontologia Social, onde atuam o Professor Fábio Luiz Mialhe e Professor Miguel Morano Junior.
A Unicamp e o CNPq têm um projeto em conjunto?
É o Programa de Iniciação Científica Júnior, que nós chamamos de PIC Jr., temos 25 jovens do ensino médio que fazem iniciação cientifica, o Prof. Miguel Morano Jr. é que coordena mais essa ação. Recebem aulas e treinamento em diferentes setores da faculdade, e recentemente dentro do Congresso Internacional de Odontologia da FOP apresentaram trabalhos de pesquisas desenvolvidos por eles, foram muito bem avaliados. É um segmento nosso de despertar nesses jovens o interesse pela academia, pela pesquisa, pelo o que é ciência, sem a pretensão de que eles sigam nem a área odontológica ou a área de pesquisa, mas sim despertar essa curiosidade que irá auxiliá-los em suas vidas. Eles recebem uma bolsa do CNPq, estão vinculados á FOP e também a Pró-Reitoria de Pesquisa da Unicamp.
A saúde bucal reflete no estado geral de saúde do indivíduo?
O que está claramente estabelecido é que a boca não é uma estrutura, um órgão separado do corpo humano. Há uma relação de saúde bucal com saúde geral. Algumas pesquisas já estabeleceram a relação da saúde bucal com a saúde de outros órgãos do ser humano, inclusive com o coração. Na há como ignorar a saúde bucal. Antigamente parecia um curso natural ter os dentes, e ao passar do tempo perdê-los. Isso não é um curso natural, é conseqüência de uma doença! Ao cuidar da saúde bucal estará sendo cuidada a saúde geral.
Quando o dentista deve ser procurado?
Vai depender de como a pessoa mantém a sua saúde bucal. Quais são os riscos de cada indivíduo. Uma pessoa diabética tem mais chances de ter uma doença na gengiva, então deve fazer um acompanhamento com o seu dentista. Quem tem pouca salivação aumenta a chance de desenvolver alguma doença. Quem pode orientar é o dentista, ele irá indicar a medicação e procedimentos necessários. Algumas pessoas precisam escovar mais vezes os dentes. Outras têm uma raiz exposta, é um local mais sensível para desenvolver uma carie. Há aqueles que têm os dentes mais agrupados, isso dificulta a higienização, aumenta a chance de desenvolver alguma doença. O retorno ao dentista que era pré-estabelecido de seis em seis meses, pode variar muito de individuo para individuo.
Qual é o numero ideal de escovação a cada dia?
O ideal é que seja sempre após as principais refeições diárias. E também antes de dormir, por ser um período onde há diminuição do fluxo salivar.
A escovação da língua é importante?
É importante como mais um meio de se fazer uma higienização. Temos que observar que a carie está no dente, á placa bacteriana forma-se no dente. Portanto escovar a língua sem escovar o dente não irá resolver nada. O consumo inteligente, controlado do açúcar, é importante. Há mães que para cessar o choro de uma criança mergulham a chupeta em açúcar e dão para que o choro termine isso proporciona o risco dessa criança desenvolver a carie. Ou mesmo os produtos líquidos como leite, achocolatados, que são oferecidos para essas crianças, com muito açúcar, para ficar bem docinho, é uma forma de carinho, só que aumenta o risco do aparecimento de carie.
Qual é a importância do flúor na água?
Os últimos levantamentos realizados no Estado de São Paulo mostram que as cidades que utilizam flúor na água têm menos caries do que aquelas cidades que não utilizam flúor. Bem controlado, essa é a questão, o flúor não traz nenhum tipo de problema. Piracicaba tem um histórico muito positivo nesse controle. A água traz um benefício direto para a população de baixa renda, é mais um veículo barato, que traz um resultado significativo. A FOP tem um mérito muito importante, é na questão da quantidade do flúor na pasta de dente.
Quando irá acabar o barulho do motorzinho no consultório dentário?
Boa pergunta! Um bom engenheiro poderia responder por que não acaba esse barulho!
A raça negra é conhecida no conceito popular por ter dentes bons. Isso é folclore?
É folclore! A estrutura de mineral é a mesma. Se forem submetidas ás mesmas condições terão idênticos desenvolvimentos. O dente dentro do ambiente da boca tem um equilíbrio dinâmico.










Quinta-feira, Novembro 19, 2009

CORCOVADO ANTES DO CRISTO REDENTOR


RARIDADE: FOTO DO CORCOVADO ANTES DO CRISTO REDENTOR
by J. Eduardo

Independente da coloração política, todo trabalho sério merece o apoio da população, em especial do eleitor. Transcrevemos aqui a mensagem do Veredor, militar reformado do Exército Nacional, que tem buscado exercer seu mandato de forma efetiva:
"Na enquete que realizamos no mês de outubro contamos com a participação de 1.600 amigos internautas, dos quais, 864 (54%) responderam que a segurança é o fator que mais preocupa a população, nos dias de hoje.
Na primeira quinzena de novembro, em uma nova enquete, contamos com a participação de 891 participantes, dos quais, 222 (25%) responderam que o desemprego é o fator que mais reflete na violência, seguidos da falta de ensino (25%) e da impunidade (21%).
Pois bem, nesta segunda quinzena de novembro, em uma nova enquete perguntamos se o internauta já foi vítima de algum tipo de violência.
Nesta nova enquete que é fundamental para o relatório que apresentaremos as autoridades governamentais (municipais, estaduais e federais) responsáveis pela segurança da nossa população.
Aos amigos internautas desde já, agradecemos a participação na enquete que está no nosso site
www.camarapiracicaba.sp.gov.br/capitaogomes
Ao término desta relevante pesquisa encaminharemos o nosso relatório final.
Capitão Gomes - Vereador"





Sábado, Novembro 14, 2009

Traditional Jazz Band

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 07 de novembro de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADOS: Traditional Jazz Band




Alcides de Oliveira Lima “Cidão”


O que é Jazz? Ainda que muitos dicionários e estudiosos tentem definir, talvez a melhor definição esteja na frase atribuída a Louis Armstrong: "Se você pergunta o que é jazz, você jamais saberá o que é". De 1618 até 1808, quando foi legalmente proibida á comercialização de escravos na América, milhões de africanos foram trazidos, sendo a maioria levada aos estados do sul dos Estados Unidos. Grande parte dos escravos vieram do oeste da África e trouxeram fortes tradições da música tribal. No porto de Nova Orleans, estivadores negros ficaram famosos pelas suas canções de trabalho. Essas canções mostravam complexidade rítmica, na tradição africana eles tinham uma linha melódica com o padrão pergunta e resposta. No começo do século XIX, um número crescente de músicos negros aprendiam a tocar instrumentos do ocidente, particularmente o violino. A música era vibrante, quase sempre, improvisada. Diferente do nosso samba, também de origem afro, o jazz sempre se notabilizou, principalmente, por seus instrumentos clássicos: sax, trompete, piano, bateria, trombone, baixo Enquanto no Brasil era permitido aos negros cantarem e dançarem nas senzalas, o mesmo não acontecia nos Estados Unidos. Várias bandas marciais foram formadas, aproveitando a disponibilidade dos instrumentos usados nas bandas do exército. Um pianista negro não podia ser aceito em salas de concertos, mas poderia ser encontrado tocando na igreja ou tinham oportunidades de trabalho em bares, clubes e bordéis. Diversas bandas marciais, encontraram serviço particularmente em funerais luxuosos. Neles, se tocava música solene no caminho do cemitério. Alcides de Oliveira Lima, carinhosamente chamado de “Cidão” relata um pouco da história desse fenomeno musical brasileiro que já dura 45 anos, o Traditional Jazz Band, ou TJB para os seus admiradores.
Cidão você nasceu em que cidade?
Nasci em Sorocaba no dia 7 de julho de 1940, estou com 69 anos de idade mas com um corpinho de 68 anos! Cursei o Primário no Grupo Escolar "Visconde de Porto Seguro" minha primeira professora foi Dona Messias, era muito boazinha. Depois fiz a OSE. Eu fazia teatro amador em Sorocaba, fizemos a peça “Eles Não Usam Black-Tie” de Gianfrancesco Guarnieri. O Guarnieri foi assistir, gostou da minha atuação e me convidou para substituir o Flávio Migliacio que hoje está na Rede Globo. Era para fazer o papel do Chiquinho na peça. Fui, gostei da experiência e com 18 anos de idade, incompletos, eu mudei-me para São Paulo para fazer teatro. Fiz algumas peças, mas vi que a coisa era difícil para manter uma vida financeiramente estável. Acabei concluindo meus estudos e me formei em economia indo trabalhar na indústria automobilística.
Logo que você mudou-se para São Paulo foi morar onde?
Fui morar no bairro Ipiranga. Minha tia tinha a Padaria Silva Bueno, ficava perto do Grupo Escolar Visconde de Itaúna, quando tinha de 11 a 13 anos de idade , ia com meu irmão passar as férias na padaria. Era a minha diversão! As minhas férias mais maravilhosas era ajudar a minha tia na padaria. Eu tenho um carinho especial pelo bairro do Ipiranga.
Em qual escola você formou-se?
Fiz a Escola de Administração de Negócios na FAAP Fundação Armando Álvares Penteado, do Largo São Francisco. Eu já tinha feito contabilidade na OSE Organização Sorocabana de Ensino.
Você já tocava algum instrumento musical nessa época?
Eu tocava bateria desde os 16 anos de idade. Na Orquestra Irmãos Cavalheiro formada por quatro irmãos eu tocava bongô, como se dizia na época eu era “de menor”. O Comissário de Menores ia até o local do show para ver se havia algum menor presente. Os músicos eram pessoas com altura superior a um metro e noventa, eles ao perceberem a presença da autoridade, ficavam em pé e com isso ninguém me via. Dava-se o inusitado acontecimento do “bongô mágico”, ouvia-se o som do instrumento sem que soubessem quem era o artista que estava tocando! Depois passei a tocar tumbodora, que são dois bongôs maiores, juntos. A banda explorava um show de meia hora durante o baile, era um show de chá-chá-chá, mambo. Estava no auge! Passei a tocar tumbadora, maraca, durante o show eu usava aquelas roupas todas coloridas. Com isso passei a ter cada vez mais ritmo. O baterista, João Cavalheiro disse que iria me ensinar a tocar bateria. Aos 16 anos de idade comprei a minha primeira bateria, nacional, marca Gope. Logo depois adquiri uma bateria Pingüim. Um dia o João Cavalheiro me disse: “Cidão, você está pronto para apresentar-se como um bom baterista, já tem 18 anos de idade. Eu gostava muito de um tema do filme “O Homem do Braço de Ouro” é um tema específico para bateria, fiz, e no final chorei de emoção por ter realizado aquele solo.
Em seguida você mudou-se para São Paulo?
Cheguei a São Paulo para fazer teatro, fui fazer a peça “Arena Conta Zumbi”, e nessa peça precisava fazer uns batuques, umas músicas meio misteriosas da África. Disseram-me: “- Batuque você pode fazer, mas precisamos de um clarinete, saxofone, algo assim”. Deram-me uma indicação de que o Tito Martino tocava clarineta, ele já fazia jazz em um quarteto. Ele me convidou para fazer parte de um grupo de jazz. Disse-lhe: “- Só que não tenho bateria, eu vendi a minha quando vim para São Paulo”. Ele então respondeu: “- Vamos até o bairro Ipiranga, tem uma pessoa que tem uma bateria, ele pretende ser o baterista, mas acho que não reúne as condições necessárias”. Fomos até lá, peguei a bateria, passei a tocar, a impressão é de eu já a tocava por uns quinhentos anos! A pessoa emprestou a bateria, eu fazia teatro ao mesmo tempo. Estava concluindo meus estudos, passei a trabalhar no meu primeiro emprego, foi na Ford. Logo depois comprei a minha própria bateria e começamos a tocar.
Você é filho único?
Somos quatro filhos: meu irmão mais velho, com 10 anos a mais do que eu, falecido, outro é o Armando de Oliveira Lima, jornalista em Sorocaba, foi professor de filosofia pura na Faculdade de Filosofia. Outro irmão, nascido dois anos antes de mim, e que é promotor público aposentado. Eu sou o irmão caçula!
Como é o nome dos seus pais?
Meu pai é  Antenor de Vieira Lima e minha mãe Amélia Marchesini Lima.
Seu pai era músico também?
Só o meu tio Agenor, irmão do meu pai é que tocava violão. Mais ninguém na família era músico. Não tenho essa veia musical da família, acho que a inaugurei! Meu filho já toca bateria.
E o músico que faz parte do TJB, o Carlos Lima, é seu parente?
Não é meu parente, mas é meu compadre! Tive o prazer de batizar o filho dele.
Em que ano você casou-se?
Foi em 1964, na cidade de Santos. A minha esposa Vera Lúcia é de Santos. Tudo começou quando fui com um dos meus irmãos fazer uma palestra, eu estava no palco, com meu irmão, na platéia estava a Vera. Olhei para ela e um ano e nove meses depois casamos. Foi em 19 de dezembro de 1964. Dia 19 de dezembro próximo estaremos completando 45 anos de casados. Um único casal completar esse período de tempo casados é marcante. Casar diversas vezes e somar esse tempo de casado é fácil. Temos três filhos maravilhosos: Miriam, Márcia e Marcelo.
Você continua viajando muito ainda?
Trabalho em uma empresa de consultoria, eu visito as distribuidoras Toyota. Acabei de chegar de Feira de Santana. Isso sem falar que viajo com a banda.
Quem fez o logotipo da banda?
Foi João de Deus Cardoso, ele é um artista gráfico. O piston é um instrumento líder da banda e o verde e amarelo são as cores do Brasil. Viajamos bastante com a banda para o exterior.
Como a sua esposa Vera encara a sua profissão de músico?
Quando nos casamos eu já era músico. Voltava tarde para casa, ela foi muito compreensível, sei que não foi fácil para ela, ter um marido que chegava de madrugada. Quando as crianças nasceram, o intervalo de tempo de nascimento entre uma e outra foi próximo. Da Miriam para a Márcia foram 18 meses, da Márcia para o Marcelo foram 13 meses. Com isso eu fiquei afastado da música por um período de sete anos.
Você pratica algum esporte?
Lá no passado, bem no passado, eu joguei futebol na posição de meia-direita, jogava bem mal. Joguei o que chamávamos de pingue-pongue, hoje tênis de mesa. Pouca gente sabe, mas eu fui campeão paulista de futebol de botão! Na Ford tínhamos um clube dos funcionários, cheguei a ser diretor social desse clube e começamos a fazer competições com times de outras indústrias automobilísticas. Existia a Federação Paulista de Futebol de Mesa, envolvendo uma série de outros clubes.
Além do jazz você gosta de outro tipo de música?
Gosto de todas as músicas, para mim só existem dois tipos de música: de boa qualidade e de má qualidade.
Grandes nomes da música nacional estão movimentando-se para diminuir a carga tributária que incide sobre as mídias (CD, DVD), com o intuito de tornar mais acessível para o grande público as obras gravadas. Qual é a sua opinião a respeito?
O problema que existe no Brasil é de natureza cultural. Nós estamos disponibilizando os nossos CDs na internet, no portal UOL. Praticamente paramos de gravar CDs para a venda. Na minha opinião, mesmo diminuindo a carga tributária não irá resolver o problema.
Você ja escreveu algum livro?
Não. Ainda não. Estamos com o projeto de escrever.
O que você sente ao executar uma música de jazz?
Eu não sei explicar. Na primeira vez em que estive em New Orleans me senti em casa. Com essa sensibilidade, quando faço jazz me sinto transportado para essa época, 1910, 1912, 1915, 1930. Acho que sempre fui jazzista e não sabia disso. Executando jazz sinto que preencho a minha vida, não consigo me imaginar sem o jazz tradicional. Quando eu parei de tocar por sete anos, disse para mim mesmo, agora pretendo não parar nunca mais. Após trabalhar por 35 anos na indústria automobilística, me aposentei. Disse a minha mulher: “- Vera! Vou fazer o que eu gosto!”. E comecei a trabalhar com música, 90 dias depois eu estava tocando, fazendo música e infeliz! Perguntei a Vera o que estava acontecendo. Ela disse-me: “- Você precisa fazer uma coisa diametralmente oposta a música para que você possa merecer a música!”. As mulheres são sabias. Passei a trabalhar com consultoria, nunca mais tive esse tipo de problema. Merecendo a música, eu me transportava de novo!
Qual foi a sua mais grata surpresa?
A minha mais maravilhosa surpresa são os meus netos! Filho é maravilhoso, mas netos...
Quantos netos você tem?
Sou um avô babão, tenho três netos, uma menina de 12 anos, a Priscila, um menino de 10 chamado Henrique e uma pequenininha, o nosso encanto, chamada Isabella, que fez um ano em 13 de novembro. No mundo musical a grata surpresa é nós da banda termos conseguido realizar 70 por cento da escola jazzistica.
Qual foi o show mais contagiante?
Existem vários, citar especificamente um é dificil. Um muito marcante foi quando fomos tocar para um hospital nos Estados Unidos, eram crianças com necessidades especiais, montaram tudo para nós, fizeram botons, lembro-me perfeitamente que ao término do show uma criança com um braço muito fininho começou a carregar a cadeira para guardar no lugar correto. Eu quiz ajudar, ao que a menina respondeu: “- Você fez a sua parte muito bem feita, agora é a minha parte!”. Isso foi tocante.
Durante um show sempre tem o indivíduo incoveniente. Você lembra-se de algum?
Tem! Há uma história de tres mulheres incovenientes. Adoro fazer trocadilhos, é um humor inteligente. Nós estavamos tocando no Opus 2004 e dissemos assim: “-Vamos fazer 15 minutos de intervalo e voltaremos mais bebados do que nunca!”. Diziamos isso em tom de brincadeira. Os 15 minutos de músicos não deve ser levado a sério. Foram 35 minutos! Quando voltamos, peguei o microfone, tinha três senhoras, aquelas de tailleur, aspecto de executivas, uma delas passou a mão no meu microfone, não pediu licença e disse para mim: “-Olha, nós consumidores estamos sendo enganados! Esta figura que está aqui no palco mentiu para nós! Disse que o intervalo seria de 15 minutos, eu marquei no relógio exatos 37 minutos! Isso é uma afronta! Eu de posse do microfone disse-lhe: “A senhora tem razão! Em homenagem a senhora daqui para frente vamos fazer menos pausa!” O público não se conteve! Temos também os chatos de plantão.
Tem aquela figura que pede para tocar uma música que não tem absolutamente nada a ver com jazz?
Têm! A música que esse tipo sempre pede é o “Parabéns Á Você”! Nós tivemos até que fazer um arranjo especeial. Dizem: “-Toca poque hoje estou com a minha namorada e é aniversário dela! Ou é a mãe, a sogra. Fazemos jazzisticamente o “Parabéns Á Você”. Os que não entendem de jazz pedem músicas que estão nas paradas de sucesso! Isso nós não fazemos. Em Nova Iorque pediram que fizesemos um sambinha. O Edo Callia sugeriu que fizessemos o “In the Mood” que é o “Edmundo”, a letra em português. Saimos durante o dia, fomos comprar tamborim, pandeiro, e a noite apresentamos. Acabamos incluindo em nossos shows até hoje.
Onde foi o local mais exótico onde vocês tocaram?
Foi em Porto Velho, em um restaurante que ficava em cima de uma árvore. Colocaram entre duas árvores um tabladão, era um restaurante, tocamos lá. Outro local exótico foi dentro do avião da VASP.
Em New Orleans há a tradição de uma banda de jazz acompanhar um enterro. Já ocorreu isso com vocês no Brasil?
Já acompanhamos três enterros e uma missa de sétimo dia. Dois enterros foram no Cemitério da Consolação. Outro falecido deixou em testamento que fosse enterrado nos moldes dos funerais de New Orleans.

Sábado, Novembro 07, 2009

A presença masculina no ballet

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 07 de novembro de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
http://blognassif.blogspot.com/




Legenda da Fotografia:
Da esquerda para a direita:
Sentadas: Cinthia Andriota Corrêa, Giulia Achek Torquetto, Mariana Etezarife de Toledo Ferreira. Logo atrás seus pares: Danilo Chiodi, Cesar Augusto Stenico da Silva, John Albert Almeida Machado da Silva. Em pé os professores: Marcelo Rodrigues de Moraes, Jussara Maria Siqueira Sansígolo e Dayane Keller Ribeiro . Foto: João Umberto Nassif.
ENTREVISTADOS: ALUNOS DO BALLET CLÁSSICO JUSSARA SANSÍGOLO
(A presença masculina no ballet)
Em Piracicaba a escola Ballet Jussara Sansígolo se empenha em desmistificar o balé para os rapazes. É emocionante ver a compenetrada Mariana Etezarif dançando com o pequeno John Albert. A dupla formada por e Giulia e Cesar Augusto parece estar dançando em meio a nuvens, hipnotizam a atenção de quem assiste. A sincronia de movimentos precisos, técnica perfeita da dupla Cinthia e Danilo mostra uma dança de muita expressão, grande vigor, fruto de provavelmente muitas horas de ensaio. Os professores de ballet Dayane e Marcelo formam um belo casal, já na fase dos preparativos para o casamento, entreolham-se de forma apaixonada na vida real, retratando o que ocorre no palco. John Albert Almeida Machado da Silva nasceu em 28 de julho de 2001 em Salvador, Bahia, é soteropolitano como faz questão de afirmar. Em poucos instantes percebe-se que é um garoto espontâneo, desinibido. Cesar Augusto Stenico da Silva nasceu em Piracicaba em 13 de abril de 1995, está em plena fase de adolescência. Danilo Chiodi é natural de Piracicaba, nascido em 8 de março de 1992, já planeja seu futuro com todas as opções que visualiza.
John Albert você é um bom aluno?
Sou! Estudo na segunda série. Sou capoeirista, jogo futebol no Pinta de Craque, onde sou meio de campo. Terça-feira meu time ganhou de 3 a 1, eu fiz 2 gols. Sou surfista, tenho uma prancha de um metro e meio, ela é vermelha e branca. Pratico o surf quando vou á praia, costumo freqüentar Iguape. Treino judô também.
O que você pensa em ser quando crescer?
Jogador de futebol da Seleção Brasileira, e pretendo continuar a dançar ballet.
Cesar Augusto como você descobriu o ballet?
Eu fazia dança de salão, quando a minha amiga e colega de escola, Luana, começou a falar sobre ballet. Faço a oitava série do estudo fundamental.
Danilo quando você conheceu o ballet?
Eu já nasci dançando! Desde que me conheço por gente eu já dançava, em casa, era só tocar uma música eu já estava dançando. Minha mãe conta que ainda muito pequeno eu gostava de dançar. Praticamente dançava dentro do berço! A minha atenção despertou para o ballet quando eu tinha 15 anos de idade, ao assistir a uma apresentação pela televisão. Passei a procurar uma escola de ballet, estou aqui com a professora Jussara já faz um ano. Estudo no terceiro ano colegial. Quando estou praticando o ballet despejo toda a pressão, stress do dia-a-dia. Se eu ficar uma semana sem ensaiar passo a me sentir estressado. A minha relação com o ballet é muito intensa. Eu trabalho dançando! É só estar tocando uma música que eu gosto e passo a ensaiar algum passo, não de forma tão explicita como na escola de ballet. Ao ouvir uma música posso criar um passo, e naquele exato momento tento ensaiar esse passo, se não fixar no momento exato mais tarde é difícil de lembrar. Isso as vezes pode ocorrer em meio a uma multidão!
Ao ouvir uma música sertaneja você acompanha os compassos da música dançando ballet?
Acompanho! Não que seja a minha música preferida para dançar, mas sou bem eclético.
Danilo, nessa fase da sua vida, existem inúmeras opções de carreiras a seguir, você já definiu alguma?
Há um leque de opções, tenho alguns planos. Para tomar a decisão acertada tem que ser fruto de uma análise cuidadosa. Trabalho em uma empresa já há dois anos.
Danilo, você percebe algum tipo de preconceito pelo fato de praticar ballet?
É interessante observar que da parte dos jovens da minha idade eu não sinto um preconceito efetivo, isso não significa que foi totalmente eliminado, mas as manifestações de preconceito são quase inexpressivas. Houve uma evolução da cultura, a geração atual está mais liberal. Algumas pessoas de gerações anteriores ainda conservam certos conceitos da sua época, onde havia um forte preconceito em relação ao ballet.
Cesar você recomenda o ballet como atividade física?
Para quem gosta de dançar eu recomendo. Para mim o ballet é mais do que uma dança.
Quando pratico o ballet me desligo bastante dos problemas do cotidiano.
Você já se pegou distraidamente ensaiando algum passo em plena rua?
Já! E bastante. Quando eu saio da aula de ballet, vou embora á pé, caminho ainda “viajando”!
Quando você está em casa, ao surgir uma cena de dança na televisão seus familiares o chamam para ver?
Esses dias em uma novela a Ana Botafogo, primeira-bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro estava participando. Minha avó e meu pai me chamaram para ver a apresentação dela.
John quem foi a primeira pessoa que você viu dançando ballet?
A minha mãe, que é professora de ballet. Eu disse que também queria dançar, isso foi em Salvador, só tinha eu como aluno, o resto da turma era formada por meninas.
Você achou bom em ser o único garoto entre tantas meninas?
Achei. Elas falavam que eu era bonitinho.
Quando você realizou sua primeira apresentação pública?
Eu tinha três anos de idade, foi “Soldadinho de Chumbo”. Dançar ballet me deixa muito feliz.
É fácil apoiar-se nas pontas dos dedos dos pés?
É só ficar na ponta dos dedos dos pés e ter postura, deixar á costa reta.
Mariana Etezarife de Toledo Ferreira, você nasceu em 1 de agosto de 2002, hoje tem sete anos de idade.
O John é seu parceiro de dança, qual é sua opinião sobre ele?
Ele é legal, muito divertido, acompanha meus movimentos.
Giulia Achek Torquetto você nasceu em Piracicaba em 18 de março de 1999. Quando você descobriu o ballet?
Eu sempre gostei muito de dança, a minha mãe freqüentava um curso, comecei a fazer-lhe companhia, foi quando vi uma moça dançando ballet. Curiosa, perguntei que dança era aquela. Logo depois passei matriculei-me na escola Jussara Sansígolo, e estou aqui já faz sete anos. Estudo na quarta série escolar.
Como é o Cesar Augusto como parceiro de dança?
Muito legal! Uma simpatia imensa.
O que as suas amigas acham do fato de você dançar ballet?
Todas as minhas amigas praticam algum tipo de dança. Elas me prestigiam bastante, vão assistir ás minhas apresentações.
Você faz algum tipo de regime alimentar?
Não faço nenhum tipo de regime. Como de tudo.
Você recomenda o ballet para manter a forma física?
Recomendo!
Cinthia Andriota Correa, você nasceu em Piracicaba a 31 de março de 1989, é parceira de dança do Danilo. Qual faculdade você freqüenta?
Estou cursando o terceiro ano de Direito.
Seus colegas de faculdade sabem que você dança ballet?
Sabem, eles adoram! Sempre me perguntam quando será a minha próxima apresentação.
Você pretende exercer a profissão de advogada?
Quero atuar na área, mantendo a também a minha dedicação ao ballet, pretendo ser professora de dança.
Em sua opinião, a atuação masculina no ballet tem alguma descriminação?
Acredito que o fator cultural influencia muito, mas vejo que há um preconceito, são pessoas que falam de um assunto que não conhecem.
Como é o ambiente com a participação dos rapazes?
É uma delícia! A cada dia sentimos sentimo-nos em uma família. Somos amigos em todos os momentos, nos dias felizes, em nossos desabafos.
Seu namorado não é uma pessoa que pratica ballet. Qual é a opinião dele?
Ele me apóia muito.
Qual é a sensação de se apresentar em um palco como bailarina?
É uma sensação inexplicável. Sinto tudo ao mesmo tempo, medo de errar, alegria, cada coreografia passa um sentimento.
A vida de uma bailarina é disciplinada?
Os hábitos devem ser os mais saudáveis possíveis. O consumo de álcool e o uso do tabaco são totalmente excluídos. Durmo cedo. O ballet reflete o estado de saúde da pessoa.
Como é o Danilo, seu parceiro de dança?
Faz tudo certinho! Ele tem uma estatura ótima para dançar com um metro e oitenta e cinco centímetros de altura.
Marcelo Rodrigues de Moraes, você é nascido em São Paulo, em 28 de novembro de 1973. Você chegou a Piracicaba quando?
Minha família veio residir em Piracicaba quando eu tinha 3 anos de idade. Fiz os estudos básicos, fui aluno da escola Sud Mennucci, fiz o curso de Tecnólogo em Sistemas Produtivos, conclui o curso de pós-graduação na área.
Como você conheceu o ballet?
Houve uma apresentação para os funcionários do então Banespa, no Teatro Municipal de Piracicaba, a minha tia era funcionária do banco e me convidou para assistir o espetáculo. Eu gostei do desempenho do artista, saltando, girando, até então eu tinha praticado caratê, jogava futebol. O que me despertou a atenção foi o fato de perceber que não era apenas uma seqüencia de movimentos mecânicos, a pessoa colocava a alma naquilo que estava apresentando. É inexplicável. Em 1992 iniciei o curso de ballet, em 1995 a Jussara precisava de um bailarino e eu vim para esta escola.
No inicio, passou pela sua cabeça o fato de haver quase que só mulheres como alunas?
No começo, que foi em outra academia, eu não comprei nenhum dos itens necessários á prática de ballet. Eu queria ter a certeza de que era isso mesmo que eu queria. Após 3 meses, percebi que o ballet estava me beneficiando, fui fazendo aulas, gostando. Em 1992 o preconceito era muito mais pesado do que é hoje, nem se compara. Senti isso até por parte do meu pai. Ele dizia que isso não é coisa que homem faz.
Isso é coisa que homem faz?
É. Qualquer coisa é permitida ao ser humano realizar. Temos mulheres dirigindo ônibus, jogando futebol. Para a pessoa fazer sua opção sexual ela não tem a necessidade de dançar ballet.
Dayane Keller Ribeiro com quantos anos você iniciou o ballet?
Eu tinha seis anos de idade, foi em 1985. Meu tio que também era meu padrinho me fez estudar ballet clássico, violão, depois me matriculou no curso de piano. Aos dez anos de idade ele achou que eu deveria fazer uma opção, pois eu estava já com muitas atividades simultâneas. Eu escolhi o ballet clássico. Meu inicio já foi na Academia Jussara Sansígolo.
O ballet é uma atividade que exige muita disciplina?
O ballet motiva tudo: disciplina, postura, educação. Amo o ballet, a minha terapia é a dança. Limpa o corpo, a alma. Não é apenas dançar, tem que ser trabalhado o corpo e a mente, é necessário o uso do raciocínio. Ballet é saúde, paz de espírito.
Você e o Marcelo são professores da escola, como é conviver com essas idades tão diferentes que freqüentam os cursos?
Eu dou aula para pequenos como o John, para adolescentes, e é interessante observar que os adolescentes que são nossos alunos não se enquadram na denominação “aborrecentes”. Isso dentro e fora da escola.
Quando você conheceu o Marcelo?
Foi em 1995, quando ele foi convidado para dançar aqui na academia, eu fazia o papel principal e era necessário ter um bailarino. Na época ele tinha uma namorada. Em 1996 dançamos o ano todo juntos, no final do ano, em novembro ele deixou a namorada. Até então éramos apenas bons amigos. No dias 26,27 e 28 de novembro de 1996 dançamos juntos. Em 1997 começamos a namorar.
Marcelo como você idealiza a cerimônia do seu casamento com a Dayane?
Nós queríamos dançar Pas de Deux de Quebra Nozes no Teatro Municipal. Hoje existe uma burocracia na igreja que impede a vinda do padre até o local. Há também a questão financeira relativa á locação do teatro. Nem que seja necessário ensaiar por seis meses, eu desejo realizar meu sonho.

Domingo, Novembro 01, 2009

PALESTRA IMPERDÍVEL

Dia 28 de Novembro, palestra de Jean-Claude Relegieux tendo como tema: “Engenho Central e Presença Francesa na Região de Piracicaba”



Local: Museu Pedagógico Prudente de Moraes, Rua Santo Antonio, 641


Horário: 9:00 horas da manhã. Entrada Franca.



                                          PEDRO CALDARI



PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 31 de outubro de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
http://blognassif.blogspot.com/

ENTREVISTADO: PEDRO CALDARI

O presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, Pedro Caldari narra parte de sua trajetória desde o seu nascimento no bairro da Vila Rezende até os dias atuais. Pesquisador, escritor, cronista, carrega em sua memória os tipos e locais característicos de uma Vila Rezende que segundo ele afirma em sua apaixonada narrativa “por muito tempo foi a locomotiva de Piracicaba no aspecto econômico e financeiro”.



O umbigo de Piracicaba está na Vila Rezende?



Sim! Quando o Capitão Povoador Antonio Correa Barbosa veio á Piracicaba já existiam alguns moradores no local onde mais tarde foi construído o antigo Engenho Central. Eles aproveitavam as benesses do Rio Piracicaba, às facilidades ali existentes, entre elas as de pesca e caça.



A sua paixão pela Vila Rezende resultou nos seus dois volumes escritos sobre o bairro?



A minha paixão pela Vila é natural, eu nasci lá em 5 de setembro de 1938 sou filho de Catarina Furlan Caldari e Ricieri Caldari, ambos brasileiros e filhos de italianos. Sou formado em Contabilidade pela “Faculdade” do Prof. Antonio Zanin, a Escola Técnica de Comércio Cristóvão Colombo, nós dizemos que era uma faculdade porque a escola foi sempre um referencial na formação profissionalizante. Na época Piracicaba contava apenas com a Escola de Agronomia Luiz de Queiroz como curso de ensino superior, a faculdade de odontologia havia desaparecido para depois ser reinstalada. O curso primário eu fiz no Grupo Escolar José Romão, na época o diretor era o Prof. Leontino Ferreira de Albuquerque , mais tarde fomos companheiros de Rotary Club, ele no Rotary do centro e eu no Rotary da Vila Rezende, clube que ele foi um dos fundadores, junto com Losso Netto. Embora eu não tenha sido um dos fundadores do Rotary da Vila Rezende, eu fui um dos primeiros a serem admitidos no seu primeiro ano de existência. Aos dezessete anos de idade formei-me na Escola de Comércio. Um dos colegas de turma, de carteira escolar, é Tarcisio Mascarim, ele nasceu dois anos antes de mim, convivemos durante todo esse período até hoje como quase siameses. Ele trabalhou na Dedini eu trabalhei na filial ou filhote da Dedini, que é a Codistil. Permaneci na Codistil por 52 anos!



Com qual função o senhor entrou na Codistil?



Tanto eu como o Tarcísio entramos na mais humilde função, o que hoje se denomina office boy . Éramos entregadores de correspondência, ajudante de telefonista, naquela época ficávamos atrelados a telefonista. Os telefones eram muito poucos, precários. Não havia a profusão de ramais telefônicos como existem hoje. A telefonista era uma figura de proa dentro de uma empresa.



Com quantos anos de idade o senhor passou a trabalhar na empresa?



Eu tinha uns 10 anos de idade, usava calças curtas, pés descalços. Hoje falando que iniciei trabalhando dentro de uma oficina de caldeiraria de pés descalços, os defensores da política de erradicação do trabalho infantil encontrariam motivos para realizarem um tremendo processo. Essa postura dos que bradam contra o trabalho infantil é um grande mito. O trabalho sempre foi salutar e dignificante e continuará sendo.



Por quanto tempo o senhor trabalhou descalço?



Logo depois que entrei ganhei um par de alpargatas, porém continuava utilizando as calças curtas. Na naquela época a Vila Rezende era um bairro de operários, a hoje Avenida Rui Barbosa, era uma rua de terra, os trilhos dos bondes estavam assentados em dormentes a flor da terra, com pedriscos, pedregulhos. Sobre o leito da Avenida Rui Barbosa trafegava o bonde, logo abaixo existiam os trilhos da Sorocabana, e mais abaixo os dois trilhos da via férrea do Engenho Central.



Havia tempo para o lazer?



Para as crianças de hoje, rua é um perigo e os pais se preocupam muito com isso. No meu tempo de infância, a rua era a extensão da casa. Permanecíamos praticamente dia e noite na rua, com liberdade total. Era o local de convívio entre amigos e familiares. Nas noites de verão, em frente ás casas, nas calçadas ficavam rodas de famílias conversando, trocando idéias.



O senhor ainda criança nadou no Rio Piracicaba?



Nadei.



O senhor pertencia ao grupo que deixava as roupas á beira do rio, para não molhá-las e nadavam de forma naturalista?



Pertencia também!



Algum dia sumiu as suas roupas das margens do rio?



Isso era comum acontecer! Naquela época a criançada não se apertava muito, não havia nenhum atentado ao pudor. A Vila Rezende era um bairro operário.



Quando o senhor menciona Vila Rezende, na época como era delimitada?



Os traçados das principais avenidas permanecem até hoje, foram encomendados pelo próprio Barão de Rezende, isso permitiu com que a Vila Rezende surgisse como um bairro de Piracicaba e se desenvolvesse. Havia a Igreja Matriz, o Instituto Baronesa de Rezende ao lado, a igreja primitiva foi tristemente demolida. Era um monumento histórico. Eu mesmo ali fui batizado e ali também me casei. A maioria dos vilarezendinos teve a assistência religiosa do Monsenhor Gallo e depois do Monsenhor Jorge, nosso eterno Padre Jorge. Monsenhor Gallo morreu sendo chamado pela maioria dos fiéis como padre, uma questão de habito adquirido pela comunidade. São figuras que tiveram uma atividade espiritual e social muito acima da média, são verdadeiros exemplos.



Como surgiu essa sua vontade de escrever?



Sempre gostei de escrever, fazia meus artigos e publicava no Jornal de Piracicaba, do qual sou um dos mais antigos colaboradores. Em determinada ocasião fui solicitado pelo jornal para fazer uma matéria sobre a Vila Rezende. Fiz despretensiosamente um artigo sobre a Vila Rezende, nessa época eu já era integrante do Rotary Club, Diretor Financeiro e Administrativo da Dedini, á essa altura dos fatos eu já pertencia a diversas instituições de benemerência. O piracicabano tem muito dessa vocação de pertencer, integrar, participar de entidades de benemerência, filantropia, instituições culturais. Após escrever essa matéria, em trinta dias escrevi o primeiro volume de “Memória da Vila Rezende”, o primeiro volume foi publicado em 1980, depois de nove anos fiz o segundo volume. Mais dez anos completei o terceiro volume, ainda não publicado. Já está pronto para ser editado, e aí vem outra dificuldade, a de financiamento.



Como presidente do IHGP o senhor encontra dificuldade em ter seu livro publicado?



O meu livro passa uma enorme dificuldade em ser editado, e não poderá ser editado pelo IHGP, embora seja um livro histórico. Por uma questão de ética, não posso publicar um livro sob os auspícios do IHGP. Deverá levar a chancela do Instituto.



Esse princípio ético é aplicado á diretoria da gestão do senhor?



Não. O IHGP sob a minha presidência e graças aos companheiros de diretoria que tenho hoje, profissionais da mais alta competência, historiadores, escritores, de uma cultura bastante privilegiada, que bem dignifica e exemplifica o que é Piracicaba no meio cultural, nos permitiu instituir uma comissão de publicação, que rege e disciplina todas as publicações do IHGP. As matérias são passadas por um crivo de análise e avaliação feita por uma comissão. Com isso passamos a ter um alto nível nas publicações, aumentamos e consolidamos as obras editadas pelo IHGP. Quando se vê uma matéria com a chancela do Instituto, independente do autor pode ter-se a segurança de que se trata de um trabalho merecedor de crédito e será referencia bibliográfica a partir da sua publicação. Trata-se de um critério utilizado pelas mais conceituadas instituições do gênero.



Qual é a forma predileta do senhor escrever, utilizando máquina de escrever, computador?



É uma mania minha, faço tudo manuscrito. Prefiro escrever á lápis ou com caneta tinteiro. Sempre fui exímio datilógrafo, entrei para a Escola de Datilografia Moraes Barros aos 10 anos de idade, a professora era a Dona Rosinha do Canto Braga. Fui companheiro do Sr. Ricardo Ferraz de Arruda, hoje nome da nossa biblioteca municipal.



Ele era oficial maior, dono de cartório em Piracicaba, e não sabia datilografar! Embora já tivesse até sido prefeito de Piracicaba, á essa altura fomos colegas de escola de datilografia. Eu com meus dez anos de idade e ele com setenta e tantos anos de idade! O Sr. Ricardo era de uma personalidade marcante, que dá orgulho de sermos piracicabanos e lembrar esse episódio.



O senhor tem um livro de crônicas?



Meus amigos dizem que sou um bom cronista, embora eu me considere um aprendiz de cronista, e serei sempre. Foi quando escrevi “O Cantar Do Passarinho”. Revela o lado do cronista para os aspectos do cotidiano. Ao meu entender, o cronista é o historiador nato, ele é o grande colaborador da história de todo e qualquer povo. Retrata com uma sutileza fenomenal os aspectos do cotidiano. Capta aquilo que escapa para a maioria das pessoas, que vê, mas não enxerga. O cronista vê enxerga e sente, e passa para o papel essa sua visão.



Embora o senhor seja um homem de números, demonstra ter uma sensibilidade aguçada.



Á medida que você trabalha com números, surgem números que não são de expressão monetária. Esses números podem representar vidas humanas, feitos humanos.



O senhor publicou um quarto livro?



Foi sobre os 50 anos de vida do Clube de Campo de Piracicaba. Como sócio assíduo, fui convidado a escrever esse livro. Abordei não só os aspectos esportivos e recreativos, mas também os aspectos culturais do Clube de Campo de Piracicaba. Eu já tinha sido diretor cultural do clube, ocasião em que dei a minha contribuição ao clube com a realização de eventos e instituição de eventos que passaram a ser oficiais do clube. Tive o privilégio de me responsabilizar pela reconstrução e preservação do palacete do Conde Rodolfo Lara Campos.



Como era o Conde Lara Campos?



Foi um fazendeiro, um homem de posses, era carioca, estabeleceu-se em Piracicaba, casou-se por duas vezes, construiu esse palacete que é uma bela obra arquitetônica, com o apoio da diretoria procedemos ao tombamento do imóvel justamente para preservá-lo, para que não corresse o risco futuro de vir abaixo, como já houvera intenção nesse sentido, só não foi por intervenção nossa. Foi alegado que o espaço após a demolição seria útil para outro tipo de construção. Como lamentavelmente ocorreu com a casa do Barão de Rezende, antiga prefeitura, veio abaixo a troco de nada. Hoje o que existe naquele local? Um estacionamento ridículo, que fica ao lado da Câmara Municipal e atrás da Igreja Matriz de São Benedito. Colocou-se abaixo uma obra digna de ser tombada não só pelo patrimônio histórico de Piracicaba, mas do Estado de São Paulo.



Como artista plástico, quantos quadros o senhor já pintou?



Essa é outra faceta minha. Devo ter duas centenas!



As suas obras têm um tema central?



Sempre fui passarinheiro. Acho que todo vilarezendino por influência herdada dos próprios índios paiaguás tem gosto pela natureza. Os animais silvestres são a grande riqueza nacional. Todo piracicabano, e em especial o vilarezendino tem paixão pelo papa-capim. Para minha surpresa, um vereador, que não sei se é piracicabano, tomou a iniciativa de formalizar por lei municipal, elegendo a ave símbolo de Piracicaba o curió.

A derrubada de matas para dar lugar aos canaviais, e o uso indiscriminado de herbicida e inseticida, pôs fim a maioria dos animais silvestres.



Qual é a árvore símbolo de Piracicaba?



A árvore símbolo de Piracicaba chama-se Tamboril (N.J. Enterolobium contortisiliquum. Nome Popular: Tamboril, timburi, timbaúva, tambori, timbíba, timbaúba, timboúva, timbó, tambaré, ximbó, tamburé, tamboi, tambor, tamburil, tamburiúva, tambuvé, tambuvi, timbaíba, timbaúva, timbori, timboril, timboúba, timbuíba, timburil, timbuva). Madeira de lei, frondosa, historicamente foi umas das responsáveis pela fixação do povoamento de Piracicaba, porque essa madeira presta-se para a construção de barcos. Os próprios indígenas faziam suas embarcações dessa madeira. È uma árvore frondosa, imprópria para calçadas, mas ideal para praças públicas. A Dra. Waldiza Capranico, é ambientalista, nossa associada, proporcionou nosso primeiro contado com o Sedema, através do Dr. Rogério, presidente do Sedema e a bióloga do Sedema Dra. Gisele, e já em janeiro será iniciada uma campanha de plantio do tamboril, as mudas já estão reservadas.



Sob a presidência do senhor, o IHGP instituiu uma série de palestras pré-determinadas?



Eu e meus companheiros! Fiz questão de ao postular pela segunda vez a presidência do instituto que nós constituíssemos uma diretoria bastante aberta ao diálogo e transparente, para imprimir ao instituto uma idéia de atividade em grupo, desenvolvida coletivamente. Sem a individualidade de impor na condição de ser o presidente.



Embora tome dianteira a decisão do senhor nunca é a única?



Ao assumir a presidência a diretoria constituída passou a ser convocada em reunião permanente, os oitos diretores devem atuar determinar e deliberar as providencias a serem tomadas pelo IHGP.



Porque cultura tem dificuldades em obter recursos?



O primeiro aspecto é que não dá votos ao político! O nosso país está dirigido por grupos que não condiz com o anseio popular, anseio do brasileiro em si. Todos os escândalos que hoje se vê na política nacional, esta vergonha chamada Congresso Nacional, que incorpora o Senado e a Câmara dos Deputados Federais, a base da legislatura brasileira, passa por um período crítico da sua história. Nunca foi tão crítico como hoje! A corrupção que se ouvia antigamente eram migalhas, perto do que vemos hoje, em termos de valores, de efeito social, de mortalidade. Da desgraça da humanidade sai a riqueza de uma minoria. As grandes potências mundiais não estão preocupadas em erradicar os males que acometem o mundo. Grande parte de seus governos são corrompidos. As guerras no mundo não ocorrem por acaso.



Onde entra a cultura nessa história?



Á medida que o povo evolui culturalmente, á medida que se têm melhores escolhas melhores índices educacionais, profundidade na qualidade de ensino, incorpora-se tudo na cultura. Há interesse de quem prima pelas pequenas coisas que ocorrem no dia a dia, há interesse dos cidadãos responsáveis, conscientes, para quem deseja um mundo melhor.



Um psiquiatra da USP afirmou recentemente que o consumismo está empurrando os jovens em uma direção desenfreada enquanto um conhecido economista defendeu o consumo como maquina geradora do progresso. Qual é a visão do senhor?



Formei-me em Economia em 1967, na primeira turma da ECA, por oito anos fui professor de Introdução á Economia e Macroeconomia. Do ponto de vista econômico o consumismo é uma forte alavanca para o desenvolvimento econômico do país. Através do consumo movimenta-se a riqueza. O consumo não exagerado pode trazer benefícios á todos. A crise de 1929 foi saneada pelo Presidente Roosevelt da mesma forma que hoje é feito no Brasil: a distribuição de subsídios á população. Nada se cria tudo se copia.



CICLO DE PALESTRAS:



Hoje, sábado, 31 de outubro, palestra do médico oncologista DR. Rodrigo Ribas Dias Reis tendo como tema: “A Importância do Brasil nas Grandes Navegações do Século XV”.



Local: IHGP á Rua do Rosário, 781



Horário: 9:00 horas da manhã. Entrada Franca.











Dia 28 de Novembro, palestra de Jean-Claude Relegieux tendo como tema: “Engenho Central e Presença Francesa na Região de Piracicaba”



Local: Museu Pedagógico Prudente de Moraes, Rua Santo Antonio, 641



Horário: 9:00 horas da manhã. Entrada Franca.















                               Prof. Dr. Francisco Haiter Neto


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista / joaonassif@gmail.com
Sábado 17 de outubro de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
http://blognassif.blogspot.com/

ENTREVISTADO: Prof. Dr. Francisco Haiter Neto



A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Piracicaba, realizou, entre 5 e 9 de outubro próximo passado, o 5º Congresso Internacional de Odontologia. Paralelamente, ocorreu a 16ª Jornada Odontológica de Piracicaba. O evento prestou uma homenagem ao Prof. Dr. Carlos Henrique Robertson Liberalli, primeiro diretor da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), em comemoração ao centenário de seu nascimento. Ele foi nomeado por Jânio Quadros em 21 de setembro de 1955 para exercer as funções de instalador e diretor da faculdade onde permaneceu até o final de 1967. Faleceu no dia 26 de setembro de 1970.


O Prof. Dr. Francisco Haiter Neto é o atual diretor da FOP.


Dr. Haiter o senhor é natural de Piracicaba?


Sou de Leme, adoro Piracicaba e principalmente a faculdade. Vim á Piracicaba para fazer mestrado, fiz doutorado em Bauru, o pós-doutorado eu realizei nos EUA. Voltei á Piracicaba, passei a ser o professor titular da área de radiologia odontológica e estou no cargo de diretor da FOP já há três anos e que deve se estender até dia 29 de agosto de 2010.


Qual é a idade do senhor?


Nasci no dia 12 de março de 1964, tenho 45 anos de idade. Para registro, sou o diretor mais novo a ocupar o cargo. Assumi a função aos 42 anos. Desde quando surgiu a FOP sou o décimo primeiro diretor. Sempre gostei da parte administrativa, em 2005 quando estava na defesa do meu concurso de titular, fui questionado quais seriam os meus projetos futuros, visto que estava alcançando o grau máximo dentro da escola, o de professor titular, com pouca idade. Na ocasião eu disse que meu objetivo era de ser o diretor da FOP. Eu adoro a escola, considero que ser diretor muito mais do que conferir importância ou poder, é ter a oportunidade de servir a unidade que tanto prezo.


A atuação do diretor da FOP é semelhante á de um prefeito de uma pequena cidade?


Praticamente é isso! Temos um orçamento, funcionários, dificuldades, a parte administrativa política, a nossa participação junto a toda administração da universidade em Campinas. Além das necessidades fundamentais para o funcionamento físico da unidade, existem os problemas acadêmicos, funcionais, de relacionamentos interpessoais.


Um bom administrador tem que escolher colaboradores com elevado grau de competência?


É importante que o administrador saiba sempre ouvir. Ter calma, ponderar. Toda história tem sempre três versões: a versão do narrador, uma segunda versão de outra fonte, e a terceira que é a de fato o ocorrido. Nessas situações a ponderação é fundamental para conseguir o discernir a versão correta. È essencial ter excelentes auxiliares. Não há tempo suficiente para o administrador abraçar todas as áreas e fazer tudo que deve ser feito.


A clássica figura do “chefe”, diretor de empresa, que passa junto aos subordinados ignorando-os formalmente, é uma postura ultrapassada?


Totalmente ultrapassada! Recebo em meu gabinete o aluno, o funcionário, o professor, a qualquer momento, desde que a agenda esteja livre. Hoje não existem funcionários, são colaboradores. A faculdade gira em função dos docentes, dos funcionários e dos alunos. Considero que é um tripé impossível de ser dissociado. A faculdade não existiria se não tivessem os alunos, funcionários e docentes.


O senhor concentra poder e delega poder, Um ditado popular diz que: “Se quiser conhecer uma pessoa dê-lhe poder”. Isso acontece de fato?


Sim, muito! Esse é um ditado extremamente verdadeiro! Nessas ocasiões é que você realmente conhece as pessoas. Muitas vezes, com um mínimo de poder a pessoa começa a extrapolar, julgam-se donas do mundo, que podem passar por cima das pessoas. Inclusive desrespeitando seus subordinados. Por outro lado, pessoas extremamente humildes, que apesar de deterem poder de decisão, ela não usa da sua posição para obter benefícios pessoais. Isso é próprio da personalidade do indivíduo.


O primeiro diretor da FOP foi o professor Liberalli?


O primeiro diretor foi o Prof. Dr. Carlos Henrique Robertson Liberalli. A história da FOP é muito bonita. Já tínhamos uma faculdade de odontologia. A 18 de novembro de 1914, em reunião no Theatro Santo Estevão, foi fundada a Escola de Pharmácia e Odontologia de Piracicaba, posteriormente chamada de Escola de Odontologia Washington Luiz. Depois de funcionar em vários locais, funcionou na Rua Santo Antonio, 641, antiga casa de Prudente de Moraes, hoje Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes, passando então a chamar-se Escola de Odontologia Prudente de Moraes. Após a Revolução Constitucionalista de 1932, Getúlio Vargas mandou fechar a Escola de Odontologia que funcionou até 1935, formando a sua última turma. Na década de 50 a sociedade piracicabana se mobilizou para que voltasse a ter uma faculdade de odontologia na cidade. A FOP veio de um ensejo, da vontade das forças vivas da época, de voltar a ter uma faculdade de odontologia. Na época ela chamava-se Faculdade de Farmácia e Odontologia, mas nunca chegou a ter o curso de farmácia. Considero como sendo os fundadores todas as entidades e pessoas envolvidas no processo de criação da faculdade: o Jornal de Piracicaba, com Losso Netto, o prefeito Luciano Guidotti, entidades de classe, que batalharam para que a faculdade fosse fundada. O Prof. Liberalli foi chamado para ser o primeiro diretor. Na época o Prof. Liberalli já era um expoente, uma pessoa muito culta, um líder na parte acadêmica, tinha muita credibilidade.


Colocaram a pessoa certa para evitar desacertos?


Exatamente. Foram buscar a pessoa certa porque na fase de iniciação era necessário ter uma pessoa com punho, com respeito, reconhecidamente com poder dentro da sociedade acadêmica.


O prédio utilizado fica na esquina das Ruas D, Pedro I com Rua Alferes José Caetano?


O prédio foi uma doação do prefeito Luciano Guidotti, a prefeitura adquiriu o prédio e passou para a faculdade. A própria faculdade em si era um instituto isolado. Somente após 10 anos de funcionamento ela acabou sendo incorporada a Unicamp. A FOP é um caso bastante peculiar, ela é 10 anos, mais velha do que a própria Unicamp! Quando foi criada a Unicamp existia a Faculdade de Medicina em Campinas e a Faculdade de Odontologia em Piracicaba, na época o Prof. Zeferino Vaz que é o criador da Unicamp junto ao governo estadual, decidiram que iniciariam a Unicamp já com as duas faculdades. O início da Unicamp foi com essas duas faculdades. A FOP sempre foi, e acredito que sempre será uma das unidades mais fortes dentro da Unicamp.


O prédio onde anteriormente funcionava a faculdade pertence a quem?


O prédio da Rua Alferes com a Rua D. Pedro I, foi doado á Unicamp. Ali hoje se realizam dois trabalhos: o curso de Prótese Dentária, gratuito, para a formação de protéticos. E temos a parte social, que é um convenio entre a FOP, a APCD, Arcelor Mittal e a Prefeitura Municipal de Piracicaba, aonde são atendidas 3.000 crianças na faixa etária de 6 a 10 anos de idade, que pertencem á rede municipal de ensino. É um projeto muito interessante, as crianças vão de ônibus fretado para o prédio, lá existe uma sala de aula, a professora vai junto. A matéria do dia é ensinada normalmente, os alunos se revezam na saída da sala de aula dirigem-se até o consultório onde tratam dos dentes, e voltam para a aula normal. A classe inteira trata dos dentes. Há uma merenda que é servida para eles. Esta sendo construído no prédio um novo centro de especialidades odontológicas e faz parte de um projeto grande, que começou com o projeto Pró-Saúde do Governo Federal. A FOP foi contemplada com recursos, estamos atuando com sete Unidades Básicas de Saúde, as UBS, onde colocamos consultórios, nossos alunos vão até lá para atender, fazer parte dos atendimentos á família. Os atendimentos básicos são feitos nas UBS. Os atendimentos mais complexos deverão ser encaminhados para a unidade do centro, onde dentistas e alunos estarão trabalhando em 20 consultórios recém adquiridos.


Nesse prédio deverá existir um museu?


Temos um acordo com a APCD, que já tem um museu odontológico. Estamos cedendo um espaço para a instalação desse museu naquele prédio. A parte superior do edifício está precisando de alguns reparos que estão sendo providenciados pela faculdade e pela diretoria do museu.


O senhor considera relevante a existência desse museu?


Considero que o povo que não tem história não tem futuro. O museu sempre trás ensinamentos. É possível conhecer a odontologia do passado, os equipamentos que eram utilizados assim é que podemos projetar o que existirá no futuro.


Entre as atividades executadas pela FOP existem várias especialidades, uma delas é a Identificação Humana?


Temos diversos setores que presta serviços que chamamos de extensão a comunidade. Um deles é a Identificação Humana, que implica em exames de DNA, de ossadas encontradas em cemitérios, valas. É um processo muito interessante realizado pela área de Odontologia Legal. Temos o atendimento ás gestantes e bebes, até mesmo antes do nascimento é dada a orientação necessária ás gestantes. O Centro de Radiologia Odontológico, que faz exames radiológicos, para os dentistas externos. Atendemos pacientes especiais Em outra área há tratamento oncológicos e de doenças infectocontagiosas, portadores de AIDS, sífilis. Há uma prestação de serviços onde são feitas medições de flúor na água e em dentifrícios. São feitas analises de flúor em água para mais de 40 cidades.


A FOP é o “Hospital de Clinicas” odontológico?


É! Temos uma área de cirurgia bastante atuante, que atende aos pacientes poli-traumatizados, pacientes que colocam implante, pacientes que tem a necessidade de fazer alterações da face. Correções de mandíbulas.


O aumento expressivo de condutores de motocicletas teve como conseqüência um maior número de intervenções?


Temos convênios com hospitais de Piracicaba e região. Nosso serviço é bastante atuante, temos convênios com hospitais de Limeira, Rio Claro, Piracicaba.


O senhor disse que faz parte de seus planos, ao encerrar o período na direção da FOP voltar as suas atividades acadêmicas. Existe a possibilidade de o senhor considerar um convite para ser reitor da Unicamp?


Reitoria! Todo dirigente que gosta de dirigir, gosta de estar presente. Nunca digo não. Digo talvez! Gosto do que faço, sinto-me extremamente realizado como diretor.


Como é a relação da FOP dentro da Unicamp?


A FOP sempre foi muito forte dentro da Unicamp, o nosso segundo diretor o Dr. Plínio Alves de Moraes foi o segundo reitor da Unicamp. Temos um excelente relacionamento com o atual reitor, Dr. Fernando Ferreira Costa, com os pró-reitores, chefes de gabinetes, isso tem trazido um bom andamento dentro dos serviços. Eles costumam dizer que se a administração de um diretor for positiva reflete na própria Unicamp e se for negativa irá refletir também na administração da Universidade.


Existe a construção de uma obra no campus da FOP?


Estão sendo construídas mais duas clínicas, visando a aumentar o atendimento á população carente da região. Como somos uma entidade mantida por recursos arrecadados através de impostos no Estado de São Paulo, temos que dar o retorno para a população mais carente. Posso afirmar que a parte de recursos que são encaminhados ás universidade são muito bem empregados.


O senhor permaneceu por dois anos nos EUA, quais são os comparativos que podem ser feitos tanto de recursos materiais como formação profissional?


Morei na cidade de Seattle trabalhando na Universidade de Washington, de 1997 a 1999. No meu departamento não tínhamos nenhum equipamento tão avançado que nós não teríamos aqui. O que tínhamos era um pouco mais de organização e mais tranqüilidade para trabalhar. Lá tínhamos mais funcionários do temos aqui. Uma das coisas que acredito que ajudou muito o Brasil no desenvolvimento das universidades é a estabilidade da moeda. Principalmente na área odontológica não devemos nada a nenhum país. As faculdades possuem equipamentos de ponta para pesquisa em relação ao mundo. A odontologia no Brasil produz mais de dez por cento dos trabalhos publicados no mundo! Isso mostra o quanto á odontologia brasileira é desenvolvida.


Há estrangeiros estudando na FOP?


Cada vez mais está havendo esse intercambio de estrangeiros. Temos muitos alunos latino-americanos que vem fazer pós-graduação, mestrado, doutorado. Temos alguns alunos latinos americanos e africanos na própria graduação. Cada vez estamos aumentando esse intercambio.


O material utilizado na odontologia em grande parte ainda é importado?


Ainda é importado. O grande problema na odontologia é que o material utilizado ainda é caro. A indústria nacional ainda não consegue fornecer. Na graduação cada vez mais estão ingressando pessoas de baixa renda. A Unicamp tem um programa de afirmação social chamado PAAIS que é um programa de apoio a inclusão social, porém isso gera outro problema, o curso de odontologia é um curso caro, o estudante precisa adquirir seu ferramental. Em conjunto com a reitoria, conseguimos recursos para adquirir kits que são emprestados para esses alunos pelos quatro anos que permanecem aqui. É uma ajuda muito significativa. Em conjunto com a reitoria foi criado para a FOP um auxílio moradia. Após uma triagem, os alunos reconhecidamente carentes recebem esse incentivo.


A Unicamp estabelece cotas para o ingresso do aluno conforme sua ascendência?


Não existem cotas. Acredito que a Unicamp tem o processo de inclusão social mais inteligente possível. Ela fornece para os alunos carentes, que tem toda sua formação na rede pública, são pardos, negros, de origem indígena, pode ser branco mais tem que ser carente. Na média é necessário que o aluno atinja 500 pontos para ingressar na Unicamp, para essas pessoas a universidade oferece de 30 a 40 pontos. Essas pessoas entram para a universidade porque realmente merecem. Um estudo mais interessante é feito pela Unicamp, que acompanha esses alunos depois que entraram. Um ano após o seu ingresso eles não têm nenhum tipo de defasagem com relação aos que entraram sem nenhum tipo de pontuação inicial. Inclusive a maioria esforçou-se tanto que passam a ser os primeiros alunos da sala.





Segunda-feira, Outubro 19, 2009

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS



JOÃO UMBERTO NASSIF


Jornalista e Radialista


joaonassif@gmail.com






Sábado 17 de outubro de 2009


Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana


As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:


http://www.tribunatp.com.br/


http://www.teleresponde.com.br/














ENTREVISTADOS: ALINE INOCÊNCIO E SILVINO INOCÊNCIO


























A alma básica do ser humano é uma alma nômade. O espírito de busca do desconhecido sempre foi uma mola propulsora da humanidade. Quantos já não se colocaram a olhar para a lua, para o mar, para o infinito, dando corda á imaginação. Nos dias atuais, as notícias correm o planeta no momento em que ocorre o fato. Convivemos com o cotidiano de pessoas das mais diferentes nações. Essa familiaridade nos aproxima de nossos sonhos, e cada ser humano tem o seu. Os cruzeiros marítimos que até pouco tempo eram exclusividades de milionários tornaram-se acessíveis em até suaves prestações mensais. Há algumas décadas o programa de muitos paulistanos era ir até o Aeroporto de Congonhas para ver os aviões saírem ou chegarem. Tornam-se cada dia mais comum embarcar nos aviões e não apenas admirá-los. Algumas passagens de determinados vôos domésticos são mais baratas do que o mesmo trajeto de ônibus. Ir á Europa, Estados Unidos, Oriente, era apenas para os ungidos pela fortuna. Hoje temos muitos conhecidos, que graças a uma programação bem elaborada, conhecem dezenas de países. A similaridade de condições de vida, transporte, alimentação, hotelaria, hospedagem, propiciou a quebra de muitas barreiras estabelecidas pelos idiomas. É interessante falar a língua de outro povo, mas não é fator que impeça uma viagem á qualquer parte do mundo. Profissionais com experiência decidiram oferecer para a cidade de Rio das Pedras e região a possibilidade de acessarem as maravilhas do nosso país e concretizar o sonho de conhecer o exterior. Entre os pioneiros desse empreendimento, destacamos Silvino Inocêncio e Aline Inocêncio.


Silvino você é natural de qual cidade?


Nasci em Piracicaba, no dia 30 de setembro de 1960.


Aline e você?


Sou mineira de Poços de Caldas nasci no dia 12 de junho de 1980. Aos dezoito anos de idade fui ser comissária de bordo, anteriormente denominada aeromoça. Meu início foi na Varig, vim para Piracicaba onde fiz o curso de pós-graduação em Administração Hoteleira no Senac em Águas de São Pedro. Trabalhei em gerencia de hotel, em seguida fui trabalhar em uma conhecida agencia de turismo de Piracicaba. Com isso acumulei 10 anos de experiência na área de turismo.


Aline, seus pais são da área de turismo?


Não, meu pai é oficial do Exército Brasileiro e minha mãe dona de casa.


Qual foi a reação da sua mãe quando você disse que iria ser comissária de bordo?


Minha mãe quase morreu! Ela não gostou, achou que eu não teria família, que era um trabalho muito perigoso. Só que eu não me via fazendo outra coisa.


Quais são os pré-requisitos para exercer a atividade?


É feita uma pré-entrevista, é necessário ter um conhecimento básico de inglês, no mínino 18 anos de idade, 1,60 metros de altura. Muitos vêem o glamour da profissão, acham que são moças simpáticas e sorridentes atendendo as solicitações gastronômicas do viajante. E não é nada disso, o carrinho onde são conduzidos os lanches e bebidas é muito pesado. A chefia geral da aeronave é do comandante, mas as situações de pânico, de atendimento á alguém que está se sentindo mal, situações corriqueiras, isso fica a cargo da comissária. O próprio curso de formação de comissária implica no ensino de primeiros socorros até situações de maiores dificuldades. A profissão exige um controle emocional muito grande.


Antes só os ricos voavam?


Era muito elitizado, hoje voar é um turismo de massa. A relação custo-benefício é muito importante. Até Fortaleza se gasta via terrestre três dias. De avião gasta-se menos tempo e menos dinheiro.


Você realizou muitas viagens ao exterior?


Trabalhando em agencias de viagens, além das viagens de natureza pessoal, já estive em muitos países. Existe um programa chamado fantur aonde eu ia para conhecer os hotéis, os locais em que ficariam hospedados os viajantes clientes da nossa agencia.


Silvino, o brasileiro viaja muito?


Não sei precisar exatamente qual posição ele ocupa na escala de turistas, mas sei que está entre os cinco povos que mais viajam. Nós tivemos a oportunidade de fazer novas amizades, na França, na Itália, em Mônaco, Buenos Aires, sendo que nessas viagens também encontramos pessoas de Rio das Pedras, Piracicaba. Na hora pensamos: Nossa! Aqui encontramos essas pessoas da nossa cidade!


È clássico o turista brasileiro tentar fazer entender-se de qualquer maneira?


Isso é um fato que ocorre muito. Temos um amigo que chegou á uma loja, e em portunhol mostrou ao dono da loja que ele queria um tênis e tentava usando de todos s seus recursos comunicar-se com a pessoa. O dono da loja permaneceu quieto, escutando. Meu amigo disse para mim: “Ele não está me entendendo!”. Eu disse-lhe: “fale de novo!”. Até que o proprietário da loja falou no mais perfeito português: “Eu falo português!”.


Qual é de uma forma geral a sensação do brasileiro em viagem?


Vou dizer pelo que sinto. Primeiro que dá saudade do Brasil. Mas é uma sensação gratificante estar no Champs Elysée, em Paris. Mesmo sabendo que ali para tomar um café e uma água você paga 18 euros, equivalente a 54 reais! O que irá permanecer será a lembrança de que um dia você esteve no Camps Elysée, sentou em um bistrô e tomou um café!


Silvino você já esteve na China?


Já! Estive em Cantão, Dongwan, Hong Kong, Macau. (ex-colônia portuguesa na Ásia), na China o transito é extremamente complicado. Não existe contramão, não há conversão proibida, não tem placa pare, o semáforo tem as três cores mais ninguém respeita nenhuma. A primeira vez em que pegamos um taxi era uma van que nos conduzia do aeroporto para o hotel, o motorista chinês não conhecia a localização do hotel. Quando chegou ao pedágio ele perguntou. A pessoa informou-lhe que ele tinha que voltar, o hotel ficava do outro lado. O motorista simplesmente deu marcha ré por uns trezentos metros! Outra característica curiosa, o pedágio não tem cancela, o responsável pela cobrança após o pagamento feito sinaliza com a mão para seguir em frente. Do hotel onde estávamos filmávamos os carros, as manobras são feitas de tal fora que em determinada hora para tudo! E é interessante que dificilmente você vê uma batida de carros.


Você comeu algum prato típico na China?


Comi. Até por curiosidade. Foi uma serpente, que eles preparam á sua vista.


Cada país tem um aroma característico?


De certa forma sim. Os restaurantes chineses, eu acredito que por usarem óleo de soja não refinado, deixam um forte cheiro de óleo de soja. Em Paris sente-se uma fragrância de perfume. Na Itália, o aroma de pizza, que por sinal é bem diferente da nossa, eu prefiro a nossa!


Aline qual foi o motivo que a levou deixar de ser comissária de bordo?


Eu era muito jovem quando entrei quase uma menina ainda, a imagem que se tem é de um glamour, uma coisa muito linda. Na realidade é uma vida de muito sacrifício. Além de deixar a sua família, não existem dias certos para estar em casa. Você tem que abrir mão da sua vida pessoal.


Em determinada hora a pessoa cansa de ouvir turbinas de avião?


Cansa. Vira uma rotina Muitas vezes você vai até o local de destino, dorme em um hotel e volta. Não há a possibilidade de conhecer o lugar, passear. Hoje trabalhando com turismo, vamos a determinado local conhecer hotéis, ou conhecer um navio. Há pessoas que dizem: “Nossa que gostoso, que delícia!”. Só que nossa atenção está toda voltada para os detalhes do que é oferecido ao cliente. Temos que preencher relatórios é uma vista técnica. Conhecer o tamanho do quarto, a qualidade dos serviços oferecidos. Nós temos que estar super atentos, porque há locais que fazem uma maquiagem para nos impressionar. O que eles nos oferecem durante o período em que estamos avaliando o local não é oferecido ao nosso passageiro.


A capacidade da agencia de avaliar e selecionar torna-se muito importante?


Vemos muitas pessoas vendendo viagens como se vende calça jeans. Isso não existe. Há a necessidade de sentir o que realmente o passageiro precisa, do que ele gosta. O que pode ser um sonho para uma pessoa, para outro pode ser um pesadelo. É interessante não vender baseando-se somente pelo destino para onde todos estão indo. E sim o que ele quer o que irá gostar. Muitas vezes eu gasto duas horas com um passageiro só, entrevistando, pesquisando o que ele realmente espera da viagem. É um trabalho que exige uma psicologia muito grande da parte do profissional da agencia. Não basta mostrar uma imagem de um local, de um hotel. Tem que ser traçado um perfil do viajante, um filtro para saber se ele gosta de um hotel fazenda, onde há múltiplas atividades. Pela própria natureza da pessoa, às vezes ela não quer simplesmente permanecer em estado contemplativo da natureza. É importante satisfazer o passageiro, e não simplesmente atender aos apelos da mídia.


O perfil dos clientes da agencia é para viagem doméstica ou internacional?


Temos tido um pouco de tudo. Hoje saiu um grupo grande para a visita á Maria Fumaça. Viagem para Europa tem vendido bem.


Porque a agencia foi criada na cidade de Rio das Pedras?


Rio das Pedras abriga pessoas naturais de outras localidades e que precisam adquirir passagens para seus locais de origem. Boa parte da população que trabalha nas empresas de Rio das Pedras viaja para outras cidades, outros estados.


Há muita procura de passagens para o Rio de Janeiro?


Bastante, e com o Brasil sediando as Olimpíadas deverá haver uma procura maior. Uma das conseqüências deve ser o aumento da infra-estrutura para o turismo.


O europeu ainda tem a imagem de que no Brasil há cobras atravessando as ruas?


Infelizmente ainda pensa! Acha que só existem índios, carnaval, mulheres nuas. Essa imagem do Brasil com o evento das Olimpíadas deve melhorar. O turismo no Brasil tem que crescer muito, principalmente na mão de obra qualificada. O turismólogo não tem a sua profissão reconhecida.


O que é um turismólogo?


É a pessoa que faz a Faculdade de Turismo, um curso com quatro anos de duração. Fiz a faculdade de turismo em Minas Gerais. O turismólogo planeja os roteiros. Quando escolhemos a cidade de Rio das Pedras para montar a nossa agencia de viagem, fizemos um estudo, pesquisamos estradas, meios de transportes. O turismólogo qualifica as pessoas que vão trabalhar em hotéis, dá o treinamento, gerencia alimentos e bebidas. Se em um hotel os eventos não estão apropriados ele irá formar uma equipe para melhorar esses eventos. É uma faculdade muito abrangente, onde se aprende economia, administração, geografia, história, direito.


Aline, cada povo tem seu habito, isso é muito importante que o turista saiba?


Se uma turista brasileira for a Dubai, não poderá usar o seu habitual biquíni. No curso de comissária foram dadas aulas sobre costumes de alguns países, teve uma comissária que uma vez viu uma linda criança, e passou a mão no rosto dela, um habito nosso de mostrar carinho. Essa comissária levou um tapa no rosto, porque para a cultura daquela mãe a criança é pura, uma pessoa adulta é impura, não pode passar a mão no rosto da criança.


Aline é comum o brasileiro que viaja querer ingerir alimentos semelhantes ao que come aqui?


Tem muitas pessoas que desejam viajar e não querem usufruir da comida do local para onde vão, não querem saborear novos paladares. A idéia de viajar é sair da sua rotina e vivenciar coisas novas. Você deve experimentar o que o local está oferecendo, depois de determinado tempo, se quiser pode comer um arroz, feijão, para matar a vontade.


Silvino completa: “- O prato mais famoso que você encontra em diversos países é a feijoada.”


É uma feijoada igual a que se faz no Brasil?


Não! Em Macau as ruas e alamedas são todas escritas em português. Mas são muito poucos habitantes que falam português. Encontramos dois gaúchos que trabalhavam em um restaurante, fomos lá para comer feijoada. Não dá para dizer que se tratava de uma feijoada. É o mesmo que querer comer acarajé em Macau. O nome pode ser acarajé, só que não é o acarajé que conhecemos. Aline diz: “-Procuramos dar orientações sobre tudo, vestuário, que lugares que são interessantes para conhecer, os passeios que nós denominamos de “tabajara”, é aquele passeio que você perde tempo e é horrível.


O turista gosta de vez em quando fazer um passeio “tabajara”?


Não é por gostar, mas para dizer que esteve lá! Para visitar o Arco do Triunfo em Paris, você paga, sobe uma escada razoável, quando está lá em cima não tem mais nada para ser visto. É uma canseira, um lugar escuro e frio. Se me perguntarem se subiria de novo eu diria que não. Mas existem sempre os que vão pela primeira vez, pagam sete euros e sobem. Se você subir no portal que existe na entrada de Rio das Pedras deve ser mais bonito. Só que lá você está na França!


Silvino, o visto no passaporte de um viajante para a China tem uma particularidade?


Há uma observação, de que se o turista for pego portando droga sofrerá pena de morte.


Já há algum projeto para atender o publico que irá assistir á Copa de Futebol e para as Olimpíadas?


Trabalhamos em conjunto com as operadoras, e elas devem começar a montar os roteiros, a estrutura.


O ex-prefeito Galvão afirma com muito bom humor, que Piracicaba faz parte da Grande Rio das Pedras, assim como Saltinho, Mombuca e localidades próximas. Vocês irão montar uma programação especial envolvendo essa população?


A idéia é dar a oportunidade para que todos que puderem usufruam dessa estrutura, e desfrutem dos grandes eventos que devem se realizar no Brasil. Nunca foi tão fácil viajar. O parcelamento das viagens dá a oportunidade para viajar sem comprometer o orçamento.

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

“ZÉZINHO DA FARMÁCIA DA VILA REZENDE”





PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF

Jornalista e Radialista

joaonassif@gmail.com



Sábado 10 de outubro de 2009

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana

As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://www.tribunatp.com.br/

http://www.teleresponde.com.br/

http://blognassif.blogspot.com/



ENTREVISTADO:
JOSÉ ARANTES DE CARVALHO - “ZÉZINHO DA FARMÁCIA DA VILA REZENDE”










Há duzentos anos não havia escolas de medicina e nem de farmácia no Brasil. Quando alguém precisava de tratamento, procurava os boticários ou os hospitais dos jesuítas, que mantinham boticas e produziam medicamentos com produtos que vinham de Portugal e fórmulas aprendidas com os pajés, feitas a partir de plantas medicinais. As primeiras escolas de medicina e farmácia foram fundadas com a vinda de D. João VI e a família real, em 1808. Os médicos a principio aprendiam com os farmacêuticos a arte de formular e manipular cientificamente. Todas as receitas de fórmulas manipuladas traziam a sigla FSA, que significa “Faça-se Segundo a Arte”. Nas cidades tradicionais brasileiras, a farmácia era um ponto de encontro, o lugar de conversa onde se reuniam os "homens bons da terra", as pessoas representativas da administração municipal, o padre, o juiz, funcionários públicos. A farmácia foi, sem dúvida, o embrião de clubes, de sociedades literárias, de partidos políticos etc. Alguns participavam visando melhorar seu status social, estando e sendo sempre visto na roda de conversa dos "importantes" da terra. Com o aparecimento do cinema, e outras formas de diversão esses encontros foram rareando.


Em Piracicaba uma das pessoas mais populares é o Zezinho da Farmácia. Hoje com diversas unidades espalhadas pela cidade, Zezinho com seu carisma pessoal conquistou com sua equipe de farmacêuticos, um grau elevado de confiabilidade da população. O exercício da ética profissional o faz respeitado entre seus pares e junto à classe médica.


Zezinho você nasceu em Piracicaba?


Não. Eu sou de Monte Aprazível, na época a comarca era Mirassol. Meus documentos todos são de Mirassol. Sou filho de Antonio Lopes de Carvalho e Nair Arantes de Carvalho. Meu pai era lavrador, tenho um irmão e quatro irmãs. Nasci no dia 5 de abril de 1930. Fiz o curso primário em Monte Aprazível, depois meu pai comprou um sítio em Tupã para onde nos mudamos. Lá estudei no Instituto de Ciências e Letras Guarani, cujo diretor era o Dr. Sebastião Lins, um advogado.


O seu primeiro emprego foi onde?


Fui trabalhar em uma farmácia, tinha doze anos de idade, usava calça curta ainda. Iniciei como varredor da farmácia, lavador de vidros, naquela época lavava-se muitos vidros para fazer manipulações, lavava-se cálices, grals, gral (terrina, pequeno vaso) de vidro, gral de porcelana com pistilo (espécie de pequeno pilão), eram utilizados para fazer pílulas, pomadas. Havia um jacaré de ferro, com diversas ranhuras em medidas diferentes, com uma dobradiça junto a sua cabeça, usando a sua cauda como alavanca, nós amassávamos rolhas de cortiça para caber no vidro. Isso porque na época havia diversos tipos de vidros e de rolhas e nem sempre o tamanho da rolha era idêntico á boca do vidro á ser tampado. No início pede-se dizer que comecei como servente dos manipuladores.


Qual era o nome dessa primeira farmácia onde você trabalhou em Tupã?


Era a Farmácia São Jorge, o proprietário era Juvenal Arantes Dias, apesar de ser Arantes, não era meu parente!


Com isso você passou a ir aprendendo o ofício?


Fui aprendendo, ajudando os farmacêuticos a fazerem os medicamentos, observando como eles trabalhavam. Após dois anos, um dos farmacêuticos, chamado João Machado Lopes, conhecido como Jango, disse-me: “-Zé você tem condições de fazer esta fórmula?”. Respondi “-Tenho!”. Fiz como ele costumava fazer, ele gostou, eu então fui promovido, passei a ser o titular daquela fórmula. Toda vez que era receitada eles a passavam para que eu fizesse. Era uma fórmula que muitos não gostavam de fazer, dava trabalho, tinha que triturar os sais, triturar a goma, colocar as tinturas, extratos, era bem trabalhosa. Com isso fui me aprimorando e passando a fazer praticamente todo tipo de fórmula.


Com que idade você passou a aplicar injeção?


Acredito que tinha quatorze anos.


Como os adultos viam uma criança aplicando injeção?


A cidade era pequena, todos se conheciam. A farmácia era muito conceituada, e os adultos tinham confiança. Por volta de 1943 a 1944, apareceu a penicilina, com isso a pneumonia, doenças venéreas, tiveram um tratamento mais eficaz. Na época a penicilina era sódica administrada de três em três horas. Passei muitas noites sem dormir, tinha 10 a 12 casas para aplicar injeções. Em determinada época houve um surto de pneumonia em Tupã, com isso eu passava a noite toda trabalhando. Ás seis da manhã, outro funcionário vinha me substituir. Em Tupã começaram a desbravar uma região, inclusive onde meu pai comprou o sítio, quando passaram a derrubar a mata, onde havia o Córrego de Iacã, começou a dar tanta maleita que morria gente na calçada. O hospital estava em construção, a pessoa que já estava doente, caia na calçada e lá morria. Não havia remédio para maleita. Aplicava-se Maleitosan, Maleisin Azul, uma injeção de quinino com azul de metileno, as nádegas da pessoa ficavam toda roxa. Alguns reagiam, mas a maioria morria. Hoje cura-se maleita com apenas cinco comprimidos!


Na época havia médicos em Tupã?


Existiam bastantes médicos, um deles Dr. Valter Montanha Peixoto da Silva, era um baiano, ele fez um ambiente em seu consultório, que era hermeticamente fechado, esterilizado, e operava ali apendicite, cirurgias mais simples, ou de urgências. Ele me chamava para ajudá-lo nas cirurgias.


Você nunca pensou em ser médico?


Pensar, eu pensei. Querer eu queria. Mas não tinha condições financeiras. O curso de medicina exige dedicação de tempo integral e infelizmente meu pai não tinha condições para me manter.


Quantos anos você permaneceu na atividade farmacêutica em Tupã?


De 1942 a 1946, de lá mudamos para Charqueada. Um primo da minha mãe, Seu Cristiano, era farmacêutico, proprietário da Farmácia Luz em Charqueada, ele que nos trouxe. Trabalhei três anos em Charqueada. Após esse período eu vim trabalhar com o Dr. Abério Sampaio, era dentista, professor da faculdade, químico e físico. Era uma pessoa muito importante. Isso foi em 1950.


Qual era a sua atividade?


Era a de manipular fórmulas. A farmácia do Dr. Abério ficava na Avenida Rui Barbosa, na Vila Rezende, chamava-se Farmácia Nossa Senhora Aparecida. Em 1954 ele mudou-se para São Paulo e vendeu a farmácia para mim. Arrumei um sócio e continuamos a trabalhar. Até 1959 continuamos com a Farmácia Nossa Senhora Aparecida.


Foi quando você montou outra farmácia?


Montei a Droga Vila.


Você é uma pessoa conhecida e estimada por muitos habitantes de Piracicaba, particularmente os da Vila Rezende.


Construímos um nome, procuramos sempre tratar as pessoas com bastante amizade, não temos tratamento diferenciado, sempre procurando atender com cortesia, lealdade, honestidade.


Você conheceu a família Papini?


O local onde é a farmácia da Avenida Rui Barbosa, eu comprei do Papini. Quando ele fechou o restaurante eu adquiri os fundos do restaurante e instalei a Droga Vila lá. O restaurante do Papini era ao lado, onde havia o restaurante, o jogo de bocha. Conheci a esposa dele, a Dona Gigeta.


Você conheceu personalidades ilustres da Vila Rezende?


Conheci o Comendador Mário Dedini. Comendador Humberto D`Abronzo vinha ás vezes até a farmácia.


Monsenhor Jorge é seu cliente?


É meu cliente e meu amigo! Ambos somos corintianos!


Você tem lembranças do bonde que passava na Avenida Barbosa?


Lembro-me sim. Havia o trem da Sorocabana passava no fundo da farmácia. O trem do Engenho Central cuja linha ficava abaixo, mais próxima do Rio Piracicaba. A estação do trem Sorocabana mais próxima era a Barão de Rezende.


Você chegou a conhecer os franceses que administravam o Engenho Central?


Fui fornecedor deles por muitos anos.


Conheceu Mário Áreas Vitier?


Conheci muito, era meu cliente.


Você conheceu a Avenida Manoel Conceição no tempo em que era um descampado?


Eu ia fazer injeções de bicicleta. Saia ás sete horas da manhã, levava o álcool para ferver. Era um estojo de metal com um suporte onde acendia o fogo e esterilizava a seringa de vidro.


Você chegou a fazer ou auxiliar algum parto?


Quando vim para Piracicaba Dona Maria (Mariquinha) Caldari, tia do Dr. Pedro Caldari, estava para dar a luz. Quem veio fazer o parto foi o Dr. João José Correa. Ele então orientava: “Zé aplica pituitina”, ou então “Zé aplica orastina”, que são medicamentos indicados para estimular a contração uterina, para facilitar o parto. Ele fazia o parto eu aplicava os medicamentos. Em Charqueda quando as parteiras tinham um parto complicado pela frente chamavam o Dr. Correia, meia hora depois ele estava lá, não tinha chuva ou temo ruim que o detivesse. Eu ia com ele na casa do paciente. Ele nunca deixou de me atender quando eu o chamei. Na época a maioria dos partos era feita em casa.


Quais são as doenças que hoje mais atormentam a humanidade?


A AIDS, o câncer. No momento a H1N1, popularmente conhecida como gripe suína é uma doença perigosa, principalmente para quem adquire o vírus sem estar com suas condições físicas satisfatórias. As pessoas que faleceram já tinham algum tipo de problema, de deficiência. Os demais que contraíram o vírus após o tratamento próprio, saram.


Qual é a sua opinião sobre a homeopatia?


Tenho um amigo, médico, que é grande defensor da homeopatia. Ela produz reações no organismo. É uma medicação centenária, mas é valida, porque ainda funciona.


O principio ativo dos remédios são derivados das plantas?


Nem todos. Hoje existem sintéticos. Mas a maioria é das plantas. A Ipeca (Psychotria Ipecacuanha), por exemplo, é muito comum no Mato Grosso. Ela tem várias ações: expectorantes, diarréicas e tem ação para provocar o vomito. O confrei (Symphytum officinale), utilizado muito pelo Dr. Walter Radamés Accorsi, a canela (Cinnamomum zeylanicum), servia muito para fazer poções.


Atualmente há uma procura muito grande por farmácias de manipulação?


O sal é o mesmo que é utilizado no produto ético. Só que sai bem mais barato. Com isso cresceu muito o número de farmácias de manipulação.


Qual é a receita para a pessoa ter uma boa saúde?


Em primeiro lugar evitar o uso do tabaco e da bebida. Saber comer, e comer regularmente.


O que é saber comer?


É não comer aquilo que possa lhe fazer mal, como carnes muito gordurosas. A digestão a noite é mais difícil. Comer com moderação. Comer muitas frutas, legumes, verduras. A carne tem proteína, só que a soja também tem muita proteína. Tenho amigos que não comem carne de forma alguma, só que eles repõem as proteínas com outros tipos de alimentos. Sabendo comer adquire-se mais saúde.


Está havendo uma conscientização da juventude a respeito?


Acho que a nossa juventude está melhorando. Há exceções.


Existe uma corrente de pensamento afirmando que a o ser humano está doente motivado pela velocidade com que a vida lhe imprime. É comum que as pessoas acometidas por sintomas típicos de ansiedade o procure?


Pelo fato de eu ser muito conhecido na cidade eles vem pedir a opinião da gente. Hoje o stress é muito grande. Aconselho que procurem um psiquiatra.


No conceito popular ainda persiste para alguns desinformados a idéia de que psiquiatra é “médico de louco”?


O psiquiatra é um médico que atende ao paciente procurando conhecer o intimo da mente da pessoa.


Quando a pessoa sofre uma fratura óssea procura um ortopedista, um problema ocular procura um oftalmologista, o brasileiro é muito preconceituoso, e quando está com stress, fica sem saber o que fazer?


Aconselho sempre que procure um médico psiquiatra.


O povo tem condições de ser atendido por médicos psiquiatras?


Infelizmente não tem. Nem todos possuem um sistema particular de saúde. O INPS oferece esse tipo de assistência, mas pela demanda torna-se muito demorado o atendimento.


Você acredita que a paz de espírito adquirida em uma crença religiosa, filosofia de vida, pode suprir a necessidade de um atendimento psiquiátrico?


Pode ajudar muito. A pessoa que acredita em Deus tem uma força muito grande.


Como surgiu o Cesário Mota em Piracicaba?


Teve muito da participação da minha mãe que era espírita.


Abrigava quem?


Pessoas com necessidade de tratamento mental.


O alcoolismo ainda é um dos fatores que provoca doenças mentais?


Cigarro e alcoolismo continuam sendo fatores de grande relevância. O alcoolismo é motivado por ser muito barato, e ambos, tabaco e alcoolismo são socialmente aceitáveis.


Hoje já se inicia uma conscientização, as famílias pressionam. Os médicos ajudam muito.


O terror do farmacêutico é a letra escrita pelo médico na receita?


Era! Hoje vem tudo digitado. Dr. Samuel Neves tinha uma caligrafia terrível, nem ele lia o que ele mesmo escrevia.



Qual é o seu hobby?


Pescar! No ano que vem vamos pescar no Rio Paraguai.


Qual foi o maior peixe que você pescou?


Foi um jaú de uns 40 quilos, no Mato Grosso, Rio Paraguai, eu e meu amigo que estava junto pescando levamos meia hora para tirar ele da água.



Domingo, Outubro 04, 2009

Grupo Oficina Literária de Piracicaba

Caros escritores, amigos e membros do Golp







O Grupo Oficina Literária de Piracicaba - Golp - tem a honra de inaugurar seu blog, um espaço virtual para divulgar a produção literária do grupo que completa vinte anos de atividades em 2009.


O blog também está aberto aos escritores que desejarem publicar seus textos em prosa - contos, crônicas ou artigos - que passarão por uma seleção prévia.






http://golp-piracicaba.blogspot.com/
 





PROFESSORA CONCEIÇÃO WALDIRA BRASIL VIEIRA JOSÉ




PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com


Sábado 3 de outubro de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
http://blognassif.blogspot.com/


ENTREVISTADA: PROFESSORA CONCEIÇÃO WALDIRA BRASIL VIEIRA JOSÉ


O Rotary Club congrega líderes das comunidades em que vivem ou atuam ajudando a estabelecer a paz e a boa vontade no mundo, prestam serviços voluntários não remunerados em favor da sociedade. Fundado por Paul Harris, em Chicago USA, em 23/02/1905, tem hoje representação em 207 países congregando 1.228.910 sócios. É membro permanente das Nações Unidas. Uma Assembléia Internacional de países, só tem três membros que não são países, mas que, pela sua importância, têm assento naquela Assembléia: a Cruz Vermelha, o Vaticano e o Rotary. (Fonte: Haroldo Rodolfo Zacharias, do Rotary Club de São Paulo – Leste. - Distrito 4430). O Rotary Club Piracicaba – Paulista tem como seu presidente Walmir José Rodrigues. Um dos seus diretores é Adalberto Barrichello. Em uma brilhante iniciativa, O Rotary Club Piracicaba – Paulista decidiu homenagear uma personalidade que através do seu trabalho impecável e dedicação exemplar exerceu influência de forma efetiva no aprimoramento moral e intelectual de muitos profissionais que hoje atuam não só em Piracicaba, mas também muito além de nossos limites geográficos. Agraciada pelos méritos dos seus excelentes serviços prestados, tem uma presença marcante, profissionalismo incomum, e que de forma indelével marcou a trajetória dos seus mais de 10.000 alunos. Trata-se da Professora Conceição Waldira Brasil Vieira José, a Da. Conceição, assim que todos a chamavam durante as aulas.
Professora Da. Conceição, onde a senhora nasceu?
Sou filha de Mario Vieira que pertencia á família tradicional de Capivari, minha mãe é Zoraide Brasil Vieira, sou nascida em 29 de setembro, na parte central de Piracicaba, na Rua Santa Cruz.
A senhora foi a única filha do casal?
Tenho a minha irmã Clélia, também professora, hoje aposentada, e meu irmão Waldemar formado como engenheiro agrônomo e que reside em Fernandópolis. Meu outro irmão é o Dirceu, também engenheiro agrônomo e que mora em Limeira.
Qual era a atividade do pai da senhora?
Ele trabalhava na Companhia Telefônica e mamãe era professora primária, lecionava em Taquaral. Primeiro ela foi lecionar em Itu, em uma linda fazenda.
Seus primeiros estudos foram feitos em que escola?
Comecei fazendo o jardim de infância no Assunção, em seguida fui estudar com a minha tia Hermantina Brasil. A minha primeira professora, foi a minha mãe. Pela pouca idade, eu era considerada como ouvinte, até que o inspetor resolveu me matricular na escola. De lá saí e fui para o Sud Mennucci. Depois fui para o Assunção outra vez.
A senhora conheceu Thales Castanho de Andrade?
Ele era amigo do meu tio. Tive aula com Benedito Dutra, Seu Rossini.
O que a levou a seguir a carreira de professora?
Foi por influencia do meu tio Dario Brasil. (N.J. Advogado e professor de latim, Dr. Dario Brasil foi o primeiro presidente do Centro Cultural e Recreativo Cristóvão Colombo de Piracicaba.) Ele que me levava ao seu escritório e fazia ler as lições em latim. Isso me motivou a ir estudar Letras na Pontifícia Universidade Católica em Campinas, onde tive um grande professor de latim, Francisco Ribeiro Sampaio.
A senhora é uma das poucas professoras que na época cursaram uma faculdade?
Daqui era eu e a Maria Tereza Coelho, que atendeu a um convite que fiz á ela.
Durante o período em que estudou na PUC em Campinas, onde a senhora residia?
Morava no Pensionato Nossa Senhora de Lourdes. Por quatro anos freqüentei a faculdade. Já que eu saí de lá prestei o concurso para lecionar, quem fez a escolha do local onde eu iria dar aulas foi o Sr. Luiz Schimidt, que foi até São Paulo, levando uma procuração minha autorizando-o a escolher a localidade. Acho que ele gostou do nome Santa Rosa de Viterbo e escolheu lá. Uma cidade boa, gente muito acolhedora. Permaneci por uns três anos em Santa Rosa do Viterbo. Nessa época saiu à relação de vagas em Piracicaba, e uma das cidades com vaga disponível era Porto Feliz. Meu tio Dario Brasil disse: “Porto Feliz é um porto feliz! Meus antepassados nasceram lá, gostaria que você escolhesse essa cidade”. Eu disse-lhe: “– Eu não gostaria!”. Na verdade eu não queria sair de Santa Rosa de Viterbo. Para agradar o padrinho, escolhi Porto Feliz. E foi meu porto feliz! Lá eu permaneci mais tempo, eu sempre gostei de lá!
Antes de ir lecionar em Santa Rosa do Viterbo, por indicação do Sr. Mello Ayres, eu fui dar aulas no Externato São José, que funcionava no prédio onde mais tarde foi a Faculdade de Odontologia. Quando eu estava subindo as escadarias logo na entrada, uma irmã disse-me que eu era ainda muito criança para lecionar. Eu disse-lhe: “- A senhora é tão jovem e já é diretora!”. Não sei de que forma ela resolveu o assunto, mas passei a ser professora da escola.
Por qual motivo Porto Feliz a conquistou?
Achei o Jamil! Foi lá que eu conheci o Jamil. Ele tinha um sistema de alto falantes. Depois ele mudou-se para Aparecida, onde ficou por vários anos.
Como foi o seu encontro com o Jamil?
Foi bonitinho! Éramos várias professoras que morávamos em uma casa, na rua principal, inclusive a Professora Flordelis morou lá. Havia um restaurante quase em frente a nossa casa, nós tomávamos nossas refeições lá. Tínhamos uma empregada que cuidava da casa. Era uma casa grande de uma senhora que a repartiu e alugou metade para nós. Na frente morava uma família de sírios. Muitos amigos dessa família iam visitá-los. O Jamil José Neto era parente dessa família, um dia ele veio de Aparecida. Foi assim que o conheci.
Assim começou o namoro, conforme as regras da época, que eram bem rígidas?
O Jamil morava em Aparecida, aos sábados eu vinha para Piracicaba. Casamos depois de um ano.
O que a impressionou mais no Jamil, a voz ou a aparência física?
O coração dele!
Onde foi o casamento?
O casamento civil foi em Piracicaba e o religioso na Basílica de Aparecida do Norte, o celebrante foi o Padre Galvão, do mesmo ramo da família de Frei Galvão. Foi um casamento muito bonito, obedecendo aos rigores da liturgia.
A senhora sentiu-se realizada?
Eu me senti realizada. Digo sempre ás crianças (filhos), que eu tive uma infância feliz, meus pais era muito bons, adolescência também, embora tenha ido muito nova para Campinas, de 15 a 16 anos de idade.
Para a época a senhora era destemida?
Eu era porque o meu tio Dario dizia que se tinha idade para fazer o curso deveria fazer, se não tinha idade iria fazer o curso do mesmo jeito! Ele providenciou a minha emancipação para que eu pudesse estudar.
Em Aparecida do Norte a senhora permaneceu quanto tempo?
Por dois anos aproximadamente. A seguir vim para Piracicaba, lecionei no Sud Mennucci, substituindo meu tio Dario Brasil. Depois prestei concurso, passei, e escolhi o Colégio Dr. Jorge Coury, que funcionava no prédio ao lado da Igreja dos Frades. Depois de uns meses chegou o Seu Arlindo Rufatto como diretor.
A senhora é uma das pioneiras do Colégio Dr. Jorge Coury?
Acho que das professoras efetivas devo ser.
O Diretor Arlindo Rufatto era muito rígido?
Era sim. Eu gosto disso, acho que precisa para andar tudo na linha. Comecei lecionando para a quarta série, depois passei a dar aulas para o colegial, e assim sempre dei aulas no colegial.
A senhora tem noção de quantos alunos já teve?
Eu tinha as anotações com o nome dos alunos, mas na mudança de residência extraviou-se. Cada classe tinha em média quarenta alunos, eram várias turmas, eu lecionava de manhã e a tarde, quarenta anos trabalhando, eu acredito que foram mais de 10.000 alunos.
Como era a relação da senhora professora de português com o seu marido Jamil que sempre trabalhou na área de comunicação?
Interessante! Eu admirava no Jamil a sua capacidade de se expressar muito bem, falava muito bem. Ás vezes ele titubeava um pouco quando escrevia. Mas como ele falava bem!
A senhora ficava ouvindo-o?
Eu ficava! Eu gostava muito do programa que ele apresentava na rádio em Aparecida. Era música ao entardecer. Esse programa eu ouvia desde Porto Feliz.
A senhora morava em Porto Feliz e sintonizava o Jamil Neto transmitindo pela rádio em Aparecida do Norte?
Era isso. Só que não éramos casados ainda.
Ele dizia-lhe algo no ar, durante as suas transmissões?
Quando ia a algum lugar longe ele dizia sim.
Era do seu agrado as narrações de futebol feitas pelo seu marido Jamil Neto?
Eu gostava muito, achava que ele narrava muito bem.
Ele torcia para que time?
Ele torcia pelo Palmeiras e eu pelo São Paulo. Cheguei a visitar o Maracanã.
E carnaval a senhora gostava?
Ah! Carnaval! Gostei de carnaval, dançava. O Jamil foi diretor da escola de Samba Equiperalta, juntamente com meu irmão Dirceu, mais tarde foi diretor da Zoom-Zoom.
Alguns dos seus alunos eram orientados para se apresentarem em público?
Tenho muito a agradecer ao Dr. Jairo Ribeiro de Mattos, eu levava os alunos para apresentarem peças no Lar dos Velhinhos. Acredito que isso ajuda a educar. Ele foi muito atencioso, colocou o Lar a disposição para levar os alunos para as apresentações. Há pouco tempo recebi a visita de uma aluna que mora em uma cidade do sul do país, ela não sossegou enquanto ela não fez uma apresentação na cidade onde reside da peça Os Saltimbancos. Isso de tanto que ela gostou quando se apresentou no Lar dos Velhinhos.
Seus ex-alunos a visitam muito?
Após a minha mudança de residência diminuiu o número de visitas, acredito que seja por não conhecerem o meu novo endereço. Gosto de receber os amigos.
Nos dias atuais, lecionar em algumas escolas tornou-se uma tarefa quase impossível, o que mudou?
Acho que um pouco da culpa é dos pais. Eles não ensinam aos filhos que devem respeitar o professor, sobre a necessidade de estudar direitinho. Isso vem do berço, as famílias têm que amparar as suas crianças. Estabelecer liberdade com limites.
Qual é a visão da senhora sobre as mudanças gramaticais?
Sinceramente só li o comentário de um professor dizendo que essas mudanças foram desnecessárias.
Temos uma figura pública de grande destaque, que em suas falas comete erros grosseiros, isso é reflexo da cultura popular?
Em parte sim. Mas acho que também depende da própria pessoa. Se eu ocupo um cargo importante eu tenho a obrigação de me preparar para exercê-lo.
O brasileiro gosta de ler?
Infelizmente não. Eu sempre fiz meus alunos lerem, para despertar o costume da leitura.
Os jovens atualmente preocupam-se em comunicarem-se em mais de um idioma, motivados pela concorrência profissional. Alguns não conhecem o próprio idioma. É uma atitude sem sentido?
Acho que devemos trabalhar primeiro a nossa língua. Tem alguns dizendo “Nóis vai” e depois falam inglês! Será que os naturais de outros países fazem isso por lá? Tive vários correspondentes quando estava na faculdade, inclusive uma do Hawai, o nome dela era Eisel, ela escrevia alguma coisa em português e não errava. Falta dedicação de nossos alunos.
Quem são seus autores brasileiros prediletos?
Primeiro Machado de Assis. Tenho outros. Em cada autor encontro alguma coisinha. A leitura faz com que o leitor imagine os personagens e dê vida á eles.
O livro é sempre melhor do que o filme?
O livro é melhor! Tem que fazer a imaginação trabalhar.
Dizem que a língua portuguesa é complexa para quem não a conhece, a senhora concorda?
Eu acho que sim. Realmente é uma língua difícil, mas é tão bonita! Um autor que eu sempre admirei foi Camões, o professor exigia que lêssemos Os Lusíadas.
Lembra-se de um trechinho?
“As armas e os Barões assinalados / Que da Ocidental praia Lusitana”, e ai vai! Gosto do episódio da Inês de Castro, Adamastor. Para mim Camões foi o autor completo. Ele conhecia bem a métrica, para fazer aquelas rimas, conhecia bem o português, conhecia geografia, história, conhecia a humanidade. Eu sempre admirei Camões.
A senhora tem algum hobby?
Até pouco tempo me apaixonei pelas orquídeas. Adoro mexer com plantas.
A senhora gosta das novelas transmitidas pela televisão?
Geralmente não assisto. Quando passou a novela “Caminho das Índias” eu assisti, achei muito interessante.
A senhora sempre foi considerada uma professora “linha dura”, qual sua visão a respeito?
Eu tinha prazer em ensinar, e ficava feliz quando o aluno se interessava pela matéria. Tive excelentes alunos.
O que a senhora acha dos autores Jorge Amado e Paulo Coelho?
Uma vez eu estava na biblioteca do Colégio Jorge Coury, juntamente com a professora Bernadeth Balás, chegou uma professora e disse para ela: “Porcaria esses livros aqui! Isso para “O Tronco do Ipê” de José de Alencar, outro era “O Guarani”, do mesmo autor. Eu disse-lhe: “- Você já escreveu algum livro?”Ela respondeu: “-Não!”Eu falei: “Eu também, nunca escrevi um livro, mas como gostaria de escrever! Se eu tivesse um pouquinho do José de Alencar, seria tão bom!”. Acho que se a gente não é capaz de escrever um livro de tal monta, não deve criticar.





ANTONIO CELSO RIBEIRO DA SILVA

                                                      



PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com


Sábado 26 de setembro de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
http://blognassif.blogspot.com/


ENTREVISTADO: ANTONIO CELSO RIBEIRO DA SILVA


O Dicionário da Comunicação de Carlos Alberto Rabaça e Gustavo Barbosa define como sonoplasta: “o profissional responsável pela sonoplastia, que por sua vez consiste na seleção e adequação de todas as sonorizações e efeitos sonoros, editados previamente, gravados ou montados ao vivo, necessários à produção de filme, peça teatral, programa radiofônico ou de TV, de acordo com as exigências do roteiro”. A grande magia do rádio que tanto encanta o ouvinte é a sua própria imaginação. Ao ouvir o locutor, os efeitos sonoros executados no momento correto e de forma adequada, a incrível e pouco conhecida atividade do cérebro humano cria um mundo imaginário indescritível e peculiar, único para cada um dos milhares de ouvintes. O número de ouvintes será sempre maior quanto maior for sua identificação com o programa apresentado. Um conceito simples, que exige uma boa produção, momentos corretos de intervenções, sincronia perfeita entre o locutor e o sonoplasta. Antonio Celso Ribeiro da Silva, o Celso Ribeiro, é uma figura lendária do rádio piracicabano. Com criatividade está sempre procurando algo de novo. Respeitada as dimensões de cada veículo de comunicação Celso Ribeiro é o Hans Donner piracicabano, que criou a marca da Rede Globo e é o responsável pelas vinhetas e peças de abertura de muitos dos programas da Rede Globo. Em um clássico programa da Rádio Difusora de Piracicaba, Celso criou para a abertura o ranger de uma porta se abrindo. Apareceram várias empresas querendo colocar seu nome “colado” ao ruído.
Celso Ribeiro você nasceu onde?
Nasci em 25 de março de 1948, aqui em Piracicaba, bem em frente a Igreja dos Frades. Tive o previlégio de ser batizado logo que nasci, pelo fato da proximidade da igreja, Frei Evaristo foi quem me batizou. A casa do meu pai ficava onde hoje é o jardim defronte a Igreja dos Frades, era uma pequena praça com algumas casas ao fundo. Meus tios cuidavam das roupas, tanto dos frades como da igreja. Eles tinham uma casa cedida pelos frades para residirem. Eu sou filho de Antonio Ribeiro e Ana Luiza Ribeiro. Meu pai era pedreiro, com o tempo passou a ser empreiteiro de obras. Em 1968 ele foi convidado para fazer uma reforma na igreja da Penha, em São Paulo. Depois passaram a construir a matriz nova da Penha, ele passou a morar em uma casa atrás da igreja com uso vitalício. Lá ele faleceu assistido pelos padres.
Você chegou a residir lá?
Não, porque eu já tinha minha vida profissional encaminhada aqui em Piracicaba. Eu ia visitá-lo regularmente.
Você tem algum apelido?
Tive quando era moleque, eu jogava “bem” bola! Me apelidaram de Pé-de-Rodo. Quando chegava aos meus pés eu chutava, e a bola saía, indo as vezes parar em um riacho próximo. Quem me colocou esse apelido foi o Ademar Lorenzi que era colega de infancia.
Você estudou onde?
Estudei no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, juntamente com Edirley Rodrigues, famoso jornalista e radialista de Piracicaba. Estudei por um período também no Dom Bosco.
Com quantos anos você começou a trabalhar?
Com oito anos de idade eu era obrigado a sair do Grupo Barão do Rio Branco, vir para casa, coletar esterco para a horta mantida pelo meu pai na Rua Riachuelo. Depois pegava um carrinho de pipoca e ficava vendendo em frente a Catedral até umas cinco horas da tarde. Aos doze anos de idade fui trabalhar na Fábrica de Bebidas Del Nero, de propriedade do Seu Armando Del Nero, alí na Rua Boa Morte, em frente ao Lar Escola .
Fui designado para engarrafar a Caninha 21. Existia uma espécie de cone que era aberto por um mecanismo, as garrafas vinham por uma esteira. Muitas vezes o cone enroscava, eramos obrigados a submeter o cone a uma determinada pressão, isso feito com a boca!
Das sete horas da manhã até as onze horas quando minha mãe trazia o amoço, involuntáriamente eu já tinha ingerido uma boa dose de aguardente pelas vezes que tinha que intervir no sistema de engarrafar.
Em seguida você trabalhou onde?
Do Del Nero fui trabalhar em uma fábrica de beneficiar algodão, propriedade do Seu Benedito Grisotto, a fábrica ficava na Rua Alfredo Guedes, próximá Rua Riachuelo. Isso foi em 1961. Em 1963, um amigo, o Jair Lacava trabalhava como operador de som na Rádio Voz Agrícola do Brasil, que ficava na Rua XV de Novembro, bem na praça, onde hoje funciona um supermercado. Na época era uma padaria, a rádio ficava no andar superior. Eu fui visitá-lo. Ele perguntou-me se eu gostaria de trabalhar em rádio. Disse-lhe que sim. O gerente era o famoso José de Oliveira Garcia Neto. O Jair, em uma brincadeira, colocou-me ao telefone, falando com um seu amigo, da Rádio Difusora de Piracicaba, imitando a voz de Garcia Neto. O pseudo Garcia Neto disse-me: “-Você quer trabalhar comigo na Rádio Voz Agrícola, lá pelas duas e meia, tres horas da manhã, você vem e me espera que eu logo chego”.
Qual foi a sua reação?
Voltei para minha casa, muito entusiasmado, dizendo para a minha mãe: “-Vou trabalhar em rádio”. E fui dormir, Á meia noite minha mãe me acordou, deu a minha melhor roupinha, e ás duas horas da madrugada eu estava na Rua XV de Novembro, esperando o Seu Garcia, que chegou por volta das dez horas da manhã! Quando ele chegou, contei á ele, que tinha recebido a sua ligação convidando para trabalhar na rádio. Foi uma risada só! Provavelmente comovido pelo fato ele disse-me: “Pode começar a trabalhar hoje mesmo!”. O prefixo da Rádio era “ZYR 209 Rádio A Voz Agrícola do Brasil de Piracicaba uma das emissoras da Rede Piratininga”.
Qual foi a sua primeira função?
Aprendi a operar a mesa de som, e logo em seguida o Dalgo Migliori que fazia o famoso programa chamado “Manhã na Roça” me colocou fazendo a mesa e ao mesmo tempo a locução. Passei a exercer mais a locução do que a mesa. A música que fazia maior sucesso era “Banho de Lua”!
A rádio mudou de local?
Isso foi um pouco antes do Comurba cair, a rádio mudou para a Rua Moraes Barros, 1191. A Voz Agrícula era da Rede Piratininga de São Paulo, que competia na época com a Rede Panamericana de Rádio, hoje Jovem Pan, com a Rede Tupi de Rádio, 1040 e com a Rede Bandeirantes.
Quando você decidiu dedicar-se á sonoplastia?
Eu era muito jovem tinha 17 anos de idade, havia um rigoroso critério para as palavras ditas no ar. O que provavelmente hoje passaria como brincadeira, na época foi motivo de critica de alguns companheiros. Troquei as palavras “tomar sopa” por “comer sopa”.
Foi o suficiente para que eu me sentisse pouco a vontade diante do microfone. Passei então a dedicar-me a mesa de som, a ponto de ser classificado por Roberto Moraes Sarmento como o primeiro sonoplasta da cidade. Eu gostei tanto que permaneço até hoje.
Celso como eram os discos da época?
Peguei o período do acetato, do 78 rotações, compacto duplo, compacto quadruplo que eram duas músicas de cada lado.
E para achar o ponto certo, onde iniciar a música?
É onde entra a arte! Lembro-me de uma ocasião em que Roberto Moares Sarmento me chamou, assim como a Enedes Faustino e o Jean Baron. O pai do Jean Baron passava filmes aos domingos no Oratório São Mário. A proposta do Roberto Moraes Sarmento era a de fazer a primeira rádio-novela do interior do estado. Fiquei encarregado da sonoplastia, os capitulos eram feitos ao vivo. A Enedes Faustino fazia diversos papéis femininos. Isso foi em 1964. Eu fazia a sonoplastia, fundo musical, isso que hoje vemos nas novelas de televisão. Havia o improviso, por exemplo um cavalo. (Celso com muita habilidade batuca com as mãos o trote de um cavalo). No estúdio criávamos chuva com o barulho de papel celofane. Era tudo improvisado. Isso foi na Voz Agricola, onde permaneci até 1967. Depois fui trabalhar no Frigorifico Piracicaba , do Seu Altamiro Garcia doNascimento, como faturista, o Rui Fernando Coutinho que trabalhava na rádio comigo foi quem me levou para lá.
Quando você voltou para o rádio?
Waldemar Bilia era o diretor artístico da Rádio Difusora e eu fui pedir serviço para ele em 1968. Ele disse-me que eu era bem indicado, havia trabalhado com Ari Pedroso, Moraes Sarmento, Dario Correia. Em 1 de abril de 1969 entrei na Rádio Difusora de Piracicaba, onde estou até hoje. São 40 anos de Rádio Difusora. Quando entrei a diretora era Dona Maria Conceição Figueiredo, depois ela passou a rádio para o seu sobrinho José Roberto Soave, falecido em 1997 e atualmente suas filhas Daniela, Andréia e Roberta comandam a rádio.
A Difusora teve um período onde os programas de auditório ficaram famosos?
Trabalhamos juntos com Nhô Serra, Pedro Chiquito, Parafuso. A minha falecida sogra adorava ver Pedro Chiquito cantar a bíblia. Ele escolhia um trecho da bíblia e cantava. Eu o levava para a minha casa, minha sogra fazia o jantar para ele, e não o deixava sair antes das 10 a 11 horas da noite. Ele morava no Jupiá, eu o levava para a sua casa. Outros também frequentavam o auditorio da rádio, como Barbosinha, Moacir 70, que é o Moacir Siqueira.
Por que o chamavam de Moacir 70?
Ele era jovem na éoca, diziam, está ai o homem da virada da década!
Quais eram os programas de grande sucesso na época?
Eram o cururu, o programa do Waldemar Bilia “Rádio Atrações Morro Grande”, que distribuia muitos premios, havia um conjunto musical. O programa infantil que o Atinilo apresentava aos domingos pela manhã, foi onde surgiram muitos talentos, conjuntos, o Som Eco 2000 apareceu ali, assim como o The Finders.
Voce tomou lanches no Karamba`s?
Ficava embaixo do Clube Corenel Barbosa, na esquina. Era do Celsinho Elias, da Renata Elias, do Toninho Elias. Existia o Bar Nova Aurora, do Chacrinha, fechavamos a rádio a uma hora da manhã e íamos para lá. O Bola Sete que ficava na Rua São José entre a Rua Governador Pedro de Toledo e a Rua Benjamin Constant. O Bar do Tanaka, que ficava na Rua São José, em frente ao Teatro São José, foi um dos bares mais famosos, além das boas companhias, tinha o famoso: “Tanaka marca ai pra mim”. Em 1969 fui ver a descida do homem na lua no Restaurante Brasserie. Era talvez o único restaurante da cidade que tinha televisão, ainda no sistema preto e branco. Coloquei um LP para rodar na rádio e fui correndo ver.
O que você diz do gravador de rolo?
Lembro-me do gravador Akai 4000 DS. Em uma partida de futebol, cada vez qua era marcado um gol colocavamos na fita do gravador um papelzinho, para ter a noção do lugar da fita onde tinha sido narrado o gol. Depois veio o gravador com o conta giro. Zerava o conta giro e marcava, no giro 400 tem o gol do XV. Tem uma passagem curiosa, um operador de som que eu ensinei, hoje ele exerce a função de advogado, durante uma partida de basquete ele marcou com papelzinho cada cesta, voce pode imaginar a quantidade de papelzinho que havia no rolo de fita. Rádio era uma diversão, não existia rádio em FM, a televisão era em preto e branco e pegava mal, muitas antenas tinham um bombril em cima para sintonizar melhor. O profissional de rádio era bem quisto, e nós tinhamos que corresponder á esse respeito.
Hoje você continua trabalhando na Rádio Difusora?
Estou trabalhando no horário da meio dia ás seis da tarde, já uns 32 anos. Faço a mesa de som e ajudo a produzir o programa. Crio teste musical, piadas. Infelizmente muitos programas deixam muito a desejar na parte artística. O lucutor faz a locução e opera a mesa. Como pode ainda exercer a sua criatividade? Eu, Robson Valério e Dinho Morelli, fazemos horários juntos, criamos diversas formas de interagir com o ouvinte. Esse diferencial é que atrai o ouvinte e eleva o nível de audência.
Você é perfeccionista?
Sempre fui e continuo sendo até hoje. O conceito social de rádio mudou muito.
Provavelmente voce deve ter conhecido muitas pessoas em início de carreira e que tornaram-se astros?

Conheci sim, entre eles Francisco Milani , Fiori Giglioti que chegou a transmitir vários jogos para a Difusora, Gil Gomes que morava em uma pensão na Rua Boa Morte, foi embora de trem para São Paulo. Ari Pedroso, Waldemar Bilia, Antonio Sérgio Piton, Idalício Castellani, Ulisses Michi, Roberto Cabrini, Julio Galvão, o famoso Trio Itujuval.. O Atinilo José tinha o Show das Três, em uma época o programa passou a premiar quem cumprisse uma tarefa. A disputa foi tomando tal proporção que se formaram até escuderias para participar, criando equipes com a EkypéXato, Zoom-Zoom, EkyPeralta e Ekypelanka, que passaram a disputar a Gincana Difusora.. De escuderias passaram a formar escolas de samba. A Banda do Bule foi criada embaixo da Rádio Difusora, tanto que se chamava Banda do Bule porque o Balassini, que era um dos sócios da Agencia Gianetti, tinha também uma lanchonete chamada Café “O Bule”. O falecido Alceu Righetto, o Fagundinho, João Sachs, criaram ali a Banda do Bule.
Na Praça José Bonifácio, na esquina com a Rua Prudente de Moraes havia a Sorveteria Paris?
Era do Keiji e do Show, são nomes de origem japonesa, mas que pronunciavamos assim por ser mais próximos da nossa lingua. Era sorveteria e pastelaria. Onde hoje é o Edifício Canadá havia a Padaria Vosso Pão.
Você conheceu Roberto Carlos?
Ele adquiriu um rancho em Artemis, era muito amigo da família Rossi de Piracicaba, Seu Narciso Rossi e Dona Semiramis Rossi eram proprietários do Bar e Café Seleto, na Rua Prudente de Moraes entre a Praça José Bonifácio e a Rua Governador Pedro de Toledo. Eles eram tios da Eunice Rossi que foi a primeira esposa de Roberto Carlos. Na época ele chegava em Piracicaba, parava na Agencia Gianetti, isso por volta das oito a nove horas da noite, comprava as revistas que falavam dos artistas. Ele vinha de Cadilac. Muitas vezes trazia a Wandeléia, a Martinha, Erasmo Carlos que é uma pessoa muito atenciosa. O Gato que era o baterista do conjunto RC-7. Eu apresentei uma tarde de autografos do Don da dupla Don e Ravel no Clube Regatas.

Domingo, Setembro 20, 2009

"Não é o tempo que nos falta - é a serenidade para pensar noutra coisa além do alarmante assunto de todos os dias."
Euclides da Cunha

Sábado, Setembro 19, 2009


ORIVALDO TRIMER




PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS


JOÃO UMBERTO NASSIF

Jornalista e Radialista

joaonassif@gmail.com



Sábado 19 de setembro de 2009

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana

As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://www.tribunatp.com.br/

http://www.teleresponde.com.br/

http://blognassif.blogspot.com/



ENTREVISTADO: ORIVALDO TRIMER





Orivaldo Trimer é descendente de russos que imigraram para o Brasil, mantém características físicas típicas, com um metro e oitenta centímetros de altura, conserva o corpo em forma, dono de uma grande força física. Os imigrantes da Letônia, considerados russos eram bons agricultores. A vinda dos primeiros contingentes de Letos para Nova Odessa foi em 24 de junho de 1906, abrangia terras que hoje compõem Nova Odessa e municípios vizinhos. A saga da família Trimer se assemelha a de muitos imigrantes que lutaram contra muitos obstáculos: língua, costumes, clima e a luta infindável pela sobrevivência. Orivaldo é filho de Alfredo Trimer e Paschoa Grivol Trimer. Nascido em Tupi, em 22 de julho de 1939 é casado com a piracicabana Neusa Helena do Amaral Trimer desde 1968, casamento realizado na Matriz da Vila Rezende pelo Monsenhor Jorge.


Seu pai Alfredo Trimer foi proprietário de um estabelecimento em Caiubi?


Meu pai tinha um armazém em Caiubi, Foi lá que ele se tornou um grande amigo de José Nassif. O Seu José transportava açúcar da Usina Furlan e passava diariamente pelo armazém do meu pai. Eu saí de Caiubi com 11 anos de idade e fui para a Fazenda Cachoeira em Artemis. A nossa família toda se mudou para lá, fomos plantar cana de açúcar, a propriedade era do Dr. Freitas. Em 1956 fui campeão de ciclismo em Artemis, com uma bicicleta suíça, marca Nata, acho que foi a única que existiu no Brasil! Nós vínhamos de Artemis até Piracicaba de trem, descíamos na Vila Rezende e apanhávamos o bonde para economizarmos. O preço do trem da Vila Rezende até o centro era mais caro do que o bonde. Essa economia era importante para nós naquela época.


O armazém em Caiubí não prosperou?


No início era um bar, ia indo bem, vendia-se muito bem pão, “frangava” (negociava com os famosos “frangueiros”, comerciantes que percorriam as localidades rurais levando principalmente armarinhos, pães doces, muitas vezes até cortes de tecidos. Uma característica peculiar é que o carrinho de tração animal tinha abaixo do seu piso uma gaiola, onde eram transportados os frangos vivos. As negociações eram feitas por permutas com frangos, ovos, queijos, produtos da roça Seu Alfredo abastecia esses frangueiros). O que definiu o fim do armazém foi quando meu pai decidiu ampliar as instalações e infelizmente o investimento não deu o retorno esperado. Outro fator que pesou muito foi o excesso de confiança que ele tinha na honestidade das pessoas que compravam a crédito. Muitos não corresponderam a essa confiança.


Tem uma passagem pitoresca, que mostra a determinação do seu pai para o trabalho?


Meu pai era muito trabalhador. A lavoura dele era equivalente a lavoura cultivada por uma família com maior número de pessoas. Ela plantava algodão, na época o serviço na terra era feito com a utilização de burros, até ao meio dia ele trabalhava com uma parelha de burros, minha mãe levava o almoço e outra parelha de burros descansada, e quando era tempo de lua cheia ele ia até mais tarde. Meu pai levantava sempre ás quatro horas da madrugada, era ele quem fazia o café e tirava leite. Minha mãe tinha o costume de por uma pitada de sal no leite. Quem bebia dizia: “-Que leite gostoso!”.


Como a família Trimer passou a tomar conta da Chácara Morato?


Meu estava procurando um lugar para morar. Encontrou um conhecido que morou na Fazenda Cachoeira, e que lhe disse: “Estou morando em tal lugar, lá está muito bom, vamos lá você vai ver”. Meu pai veio, encontrou o administrador Antonio Massoca. Ele então disse ao meu pai: “Estou saindo Alfredo, aqui é bom para você que é trabalhador”.


Na época que idade você tinha?


Eu tinha uns 18 anos de idade, mudamos para lá no final da década de 50 e saímos em 1978.


Quem era o proprietário da Chácara Morato?


Era do Dr. Celso Leme, ele era casado com Dona Cenira Leitão, filha do Dr. Francisco Morato.


Qual era a área da Chácara Morato?


Eram 50 alqueires paulistas. (Cada alqueire paulista mede 24.200 metros quadrados). Hoje é cidade! Está ali o Carrefour, o condomínio Terras de Piracicaba.


A Chácara Morato abrangia que região?


Em uma extremidade ficava a uns 100 metros abaixo do Castelinho (Propriedade em forma de castelo, projetada pelo arquiteto Dr. João Chadad, que deu origem ao nome do Bairro Castelinho). Pela antiga Estrada Boiadeira ia até o café da Chácara Nazareth.


Uma das características próprias da Chácara Morato, eram suas frutas, em especial a variedade de tipos de mangas?


Tinha muitas espécies de mangas, não sei dizer quantas, mas chegamos a estimar em trinta espécies diferentes. Tinha pé de manga enorme, que precisava de três a quatro homens para abraçar. Havia uns pinheiros que tinham sido plantados e que naquela época (1970) os registros dos mesmos marcavam 105 anos de existência.


Para chegar á “cidade” qual era o caminho percorrido?


O lugar mais próximo era a Paulista, passávamos pelo pasto, pela invernada, iamos até a Igreja dos Frades. Minhas irmãs e eu íamos assistir a missa bem cedo. Era um trilho, só se passava a pé, Lá em cima havia uma porteira fechada com cadeado, nós passávamos entre os fios de arame da cerca e saíamos no aterro da Estrada de Ferro Paulista, onde hoje existe uma empresa de terraplanagem, próxima a rotatória da Avenida Dr. Paulo de Moraes com Avenida Nove de Julho.


Foram feitos bailes no tempo em que a família Trimer trabalhou na Chácara Morato?


Eram realizados bailes no terreirão, fazíamos o palizado. A Cerâmica tinha uma colônia de trabalhadores cujas casas ficavam onde hoje há uma padaria em frente ao Condomínio Colinas, próximo ao Carrefour.


Quem cuidava do casarão da Chácara Morato?


Era uma funcionária, Dona Nerina. A família do Dr. Celso vinha passar as férias no casarão.


Havia construções remanescentes de uma senzala que existiu no passado?


Nós morávamos na casa que foi habitada pelos escravos. Era uma casa em forma de “Z”, muito comprida mais de cem metros de comprimento, paredes feitas com pedras com a espessura das paredes de quase um metro de largura, os caibros do telhado feitos com coqueiros, telhas feitas nas “coxas” (Telhas fabricadas com barro moldado nas coxas dos escravos). Algumas vezes minhas irmãs iam ver uma novela na televisão do casarão, era preciso que uma pessoa as acompanhasse, quando voltavam, no escuro da noite era muito fácil imaginar vultos ou ruídos assustadores.


Você chegou usar que tipo de condução para entregar algodão que era plantado pela família?


Meu pai, Alfredo, tinha muita experiência no plantio de algodão. Existia uma terra vermelha, em um pedaço da chácara, lá pelos lados da Paulista, o terreno era bem plano. Deu um algodão muito bom, foi à primeira planta que “endireitou a costela nossa”. Foi vendida para o Seu José Nassif, na primeira vez que fiz a entrega, engatei dois burros na carroça e subi para a Paulista, era o trilho da invernada, o administrador da chácara me deu a chave do cadeado e passei pela porteira do Jaraguá. Ali havia uma estrada que chegava até a Rua do Rosário, levei nessa viagem umas 50 arrobas (Cada arroba pesa 15 quilos).


Vocês plantaram cana de açúcar na Chácara Morato, como era carregada essa cana?


O carregamento era manual. A terra sempre foi muito boa, resultando em uma cana bem desenvolvida. Chegamos a colher até 2.000 toneladas de cana que eram entregues no Engenho Central.


Quantos feixes de cana você cortava por dia?


Eu cheguei a cortar e amarrar 411 feixes. Em uma cana boa, a “77-Brasil”, até o meio dia eu tinha 300 feixes amarrados. Depois do meio dia eu ia para 500 feixes. Ninguém nunca conseguiu cortar essa quantidade. O meu podão de cana eu amolava dos dois lados. O administrador Luiz Trevisan dizia que não conhecia alguém que cortasse aquela quantidade. Comia e já ia mastigando trabalhar. Naquele tempo o Engenho Central não aceitava que a cana fosse queimada.






Onde era o local chamado Matão?


Iniciava nas Glebas Califórnia e ia até a Pedreira Equipav.


Você atravessava a estrada em frente á Chácara Morato e já estava no Rio Piracicaba?


Meu pai gostava de pescar. Quando moramos em Artemis não saia do rio. Era bom nadador e mergulhador. Quando o Rio Piracicaba enchia, subia no então trampolim do Clube de Regatas, pulava, e ia até a Barra do Rio Corumbataí nadando, sem bóia, sem nada. O corpo acostumado a trabalhar no pesado desenvolveu uma disposição física impressionante.


Quando a família comprou o primeiro veículo automotor?


Foi uma Kombi. Fomos para Santos, a família toda, oito pessoas, que alegria! Isso foi na década de 62 a 63. Era de segunda mão. O teto era branco, e o resto da pintura na cor café com leite. Deu problema na volta, o relê não funcionou mais, e de Americana á Piracicaba viemos sem luz! Na época o movimento nas estradas era pequeno.


Quando encerrou o período de trabalho na Chácara Morato qual atividade você passou a exercer?


Com meu primo montamos uma pequena empresa de terraplanagem. Fomos para a cidade de Itapeva, aqui havia muita concorrência. Na época o então proprietário da Padaria Jacareí tinha uma fazenda em Itapeva, fomos realizar um serviço para ele, começaram a aparecer serviços bons.


Você tem muita habilidade para o conserto e manutenção de máquinas pesadas?


Ainda aqui na Chácara Morato, trator, caminhão eu mesmo consertava. Em Itapeva eu tinha uma oficina onde eu recondicionava do motor até a parte rodante dos tratores de esteira. Quando descobríamos defeitos de fabricação em uma máquina escrevíamos ao fabricante sobre o assunto. Na máquina Fiat a bomba de embreagem fundia muito pela sua localização. O modelo seguinte já veio com a bomba melhor localizada. Esse é um exemplo, muitos outros aconteceram, inclusive com outros fabricantes de máquinas pesadas. Chegamos a retificar motores em pleno mato fechado. Isso foi uma grande vantagem para a nossa empresa, que ganhava muita agilidade. Tínhamos um veículo que era praticamente uma oficina completa, e sempre mantivemos prontas para o uso reservas de partes e peças mais estratégicas para o funcionamento das máquinas.


No início da cultura de cana na Chácara Morato você transportava a cana de açúcar com qual veículo?


Era um caminhão “toco” á gasolina, F-600 ano 1958.


Os caminheiros ficavam esperando em uma fila, a vez de descarregar a cana na usina. Era comum tomarem um aperitivo antes do almoço?


Existia esse hábito na época. O caminhão F-600, tinha um espaço atrás do banco onde podíamos levar nossos pertences pessoais. Eu costumava levar dois vasilhames. Em um deles tinha o aperitivo para meu consumo. O outro era para aqueles caminhoneiros que vinham “serrar”. No trajeto que fazíamos para ir até o Engenho Central havia um local onde era habito serem feitos os chamados “despachos” com diversas oferendas para as entidades, entre elas aguardente. Eu e meu ajudante abastecíamos com a pinga deixada ali o vasilhame destinado aos colegas que gostavam de filar um aperitivo. Por muitos anos eles se deliciaram com essa cachaça, até que acabei contando á eles a origem do que eles consideravam um produto de sabor excepcional! Na época a fila era enorme, as últimas viagens iam até de madrugada. Cheguei a ficar esperando por oito horas na usina para descarregar a cana de açúcar. Isso no Engenho Central. O caminho que eu fazia seguia pela Rua do Porto, era estrada de terra. Onde foi o Clube Regatas o caminhão não passava, era obrigado a ir por cima, pela Rua do Sabão.


A subida que há na Rua do Porto atrás do Palacete Boyes não existia?


Não havia, era tudo propriedade da Fabrica Boyes. Onde hoje é a Nova Piracicaba era plantação de cana. No bairro Nhô Quim, hoje existe a Avenida Manoel Conceição, foi propriedade do Mário Áreas Vitier, conhecido como Mário da Baronesa, por ter sido criado por ela.


Você chegou a transportar cana com o bonde ainda funcionando em Piracicaba?


O caminho para levar a cana para o Engenho Central obrigatoriamente tinha que ser pela Ponte do Mirante, hoje Ponte Irmãos Rebouças. Quando o bonde ia, nós íamos atrás do bonde. Quando ele vinha da Vila Rezende para o centro, na cabeceira da ponte havia um funcionário em cima de um poste, sentado em uma cadeirinha com uma manivela ele apagava o farol de um lado e acendia de outro lado. Tínhamos que esperar, não havia porteira, entravamos pela Avenida Maurice Allain. Descíamos até o local próprio para descarregar e lá o guincho descarregava. O pai da minha esposa, Seu Osvaldo do Amaral, trabalhou muitos anos lá como cosedor de vácuo, que é uma etapa onde passa a garapa para ser processada. Um dos balanceiros era o Seu Joaquim.


No hoje Bairro Jaraguá como era?


A Chácara Nazareth era toda formada por invernada, existia só gado praticamente. Havia muita codorna. O plantio de café era feito só mais para cima, e dava serviço para muita gente, eles apanhavam o café escolhido, selecionado, eu até acredito que era para servir como semente. As mulheres e as crianças quando passavam para fazer a colheita era um número muito grande de pessoas, duzentas a trezentas pessoas. Quando voltavam do trabalho apanhavam do nosso canavial, uma ou duas canas, isso todos os dias, você pode imaginar ao final de um mês quantas toneladas eram apanhadas para consumo deles.


Havia roubo de gado na época?


Existia sim, perdemos um cavalo e uma parelha de mula.


Alguns ciganos eram negociantes de animais?


Houve uma época em que apareceram uns ciganos, com tropa de animal. Meu pai trocou uma égua velha e Seu Clemente que era da Gleba Califórnia, ele tinha um barzinho lá, com jogo de boche, era muito conhecido, também fez uma troca de animal com os ciganos. Os dois foram para a Paulista. Meu pai disse: “Clemente, essa aqui eu comprei do cigano.” O Clemente disse: ”Eu também comprei essa”. Na outra semana deu uma chuva e lavou os animais. Os ciganos passavam algum produto, talvez cinza de fogão nos pontos estratégicos das montarias. Isso porque quando é velho o queixo dos animais fica branco. Eles tinham maquiado os animais! Meu pai e o Clemente deram boas risadas.




Quinta-feira, Setembro 10, 2009

GASOGÊNIO,


um quebra-galho do tempo da guerra para a falta de gasolina
Muitos ainda se lembram do trabalho exercido pelos automobilistas do tempo da guerra, misto de carvoeiros e mecânicos; às voltas com sacos de carvão, grelhas, filtros, ventoinhas, tudo sob uma densa poeira negra.
Havia gasogênios de todos os tipos: traseiros, tipo reboque; dianteiros, à lá Cirano de Bergerac; enormes, como caldeiras; compactos, tipo apartamento; escondidos no porta-malas. Alguns bons. Outros, deficientes. Demonstrando que seus construtores desconheciam por completo os princípios de seu funcionamento.
A LENHA
O produtor do gás pobre era o carvão vegetal. Sua fabricação era feita primitivamente. A lenha, cortada em pedaços de 50cm de comprimento, aproximadamente, após ter sido amontoada na forma de cupim, é coberta com grossa camada de terra ou barro úmido. O fogo é ateado pelo furo “A” (veja a figura 1) onde foi deixado um espaço vazio.
A Arte do fabricante de carvão reside em deixar queimar somente a quantidade de lenha suficiente para a produção do calor necessário para que a “matéria-prima” carbonize. Obtém-se isto, regulando a tiragem através dos furos “B”, que permitem a entrada de ar. Este processo é uma verdadeira destilação a seco da lenha, durante a qual a quase totalidade da umidade, bem como de ácidos e resinas, evapora. Perdem-se assim grande quantidade de “gases” que não podem ser aproveitados no processo.
Para que se tenha uma idéia do que representa a parte perdida, é bom que se conheça o que um metro cúbico de boa lenha, destilada por um processo mais perfeito pode produzir: 120kg de carvão de primeira; 150 kg de ácidos diluídos; 20 kg de produtos alcatroados e uns 90 metros cúbicos de gases, à pressão atmosférica.
para cima, para baixo e transversal (veja a fig.2). Examinaremos apenas o primeiro (2A), por ser de mais fácil compreensão.

A preliminar é enche-lo de pedacinhos de carvão, de dimensões as mais uniformes possíveis, bem “socados”. Em seguida fecha-se a tampa da grelha pela qual as cinzas serão eliminadas. É necessário, de início, provocar a tiragem com a ventoinha “V”.
Forma-se assim uma zona de queima onda o oxigênio do ar e o carbono do carvão reagem, formando dois gases: o bióxido e o monóxido de carbono. Este último, insaturado, queima facilmente numa bela chama azul, igualzinha à do gás engarrafado ou de rua, que são seus primos ricos.
O bióxido de carbono, por se encontrar próximo ao fogo e em contato com mais carvão, é reduzido, isto é, transforma-se novamente em monóxido. Este fato permite melhorar o rendimento da produção do gás pobre e deve ser levando em conta no projeto dos geradores.
Um dos principais problemas do sistema é a presença do oxigênio, um sujeitinho muito ativo. A única maneira de evitar que faça estrepolias é agir como o fabricante de carvão: regular o fluxo do ar que ativa a zona do fogo. Nos motores de regime constante, como os estacionários, isto é um pouco menos difícil, se bem que as cargas a que estão sujeitos também variam. Nos automóveis, porém, a coisa é bem mais difícil pois além da variação das cargas, varia também, e enormemente, o regime de rotações.
Daí se conclui que, nos motores estacionários, o controle de ar deveria ser feito por um dispositivo automático, ao passo que nos motores de automóveis tal controle somente poderia ser efetuado a “ouvidômetro”.
Os dispositivos que geram o gás pobre, basicamente, podem ser de três tipos: tiragem para cima, para baixo e transversal (veja a fig.2). Examinaremos apenas o primeiro (2A), por ser de mais fácil compreensão
Quando alguém vai descer de um ônibus muito cheio, costuma levar consigo outros passageiros. Assim, o nosso gás pobre, ao sair do gerador, carrega pó de carvão, cinzas e destilados ácidos, além de vapor d’água. Sua temperatura, inclusive, é de cerca de 800º C nessa situação, sendo mister esfria-lo.

Em primeira instância, o gás pobre atravessa um “ciclone”, (veja fig. 3) no qual as impurezas mais pesadas depositam-se pelo efeito da força centrífuga, sofrendo, inclusive, abaixamento de temperatura.
Em seguida, passa por um ou dois filtros, que retêm as impurezas menores, resfriando-o ainda mais.
Na figura 4 vemos o esquema de um filtro, grande saco de algodão ou flanela, que deve ser facilmente acessível para limpeza. Outros tipos existiam, como os de banho de óleo, análogos aos filtros de ar.

Finalmente, o gás pobre, limpo, está pronto para ser aspirado pelo motor, estando a aproximadamente uns 20º C acima da da temperatura ambiente.
peso de ar, para formar a mistura combustível e isto é feito pelos “misturador”, de funcionamento análogo ao carburador. Deve, porém, receber de 1 a 1,5 partes em peso de ar, para formar a mistura combustível e isto é feito pelos “misturador”, de funcionamento análogo ao carburador.


Existiam vários tipos de misturadores, sendo o que aparece na fig. 5, de mistura anular, bastante eficiente. Observemos que o motor a gasolina ao ser adaptado para gasogênio, devia ter seu avanço aumentado, porque o gás pobre queima mais devagar. Inclusive, a taxa de compressão devia ser acrescida. Mesmo assim, o motor a gasogênio produz até pouco mais de 60% de sua potência original.



                                            Veículo andando com gasogênio (São Paulo, década de 40)


                                         Ônibus (Chevrolet Tigre) com gasogênio (Rio, 1944)


Ônibus da Empresa Viação Garcia, utilizando gasogênio (Londrina-PR, década de 40)






Banco Central adota medida para elevar a oferta de troco


A distribuição de notas de baixa denominação e de moedas será ampliada para melhorar a qualidade do meio circulante e a disponibilidade de troco
Brasília – Com o objetivo de ampliar o volume e melhorar a qualidade das notas de R$ 2 e R$ 5 em circulação e também facilitar a distribuição de moedas metálicas, o Banco Central, durante o mês de setembro, vai fornecer às instituições financeiras cédulas e moedas por meio de trocas diretamente em suas dependências. Os bancos terão acesso a esse serviço, excepcionalmente sem custo, durante esse mês. As cédulas de R$ 2 e de R$ 5 são as que mais se desgastam, em função da intensa circulação. Em relação às moedas, o hábito de entesouramento da população faz com que, em algumas regiões brasileiras, os comerciantes reclamem da dificuldade para fornecer troco.
Aos comerciantes também será disponibilizado atendimento especial. A partir do dia 14/09, haverá, em todas as capitais do país, guichê de fornecimento de moedas e de notas de R$ 2 e R$ 5 em kits de R$ 100, de modo a facilitar e agilizar o atendimento. Os endereços serão divulgados no site do Banco Central. Essa medida visa a dar acesso a troco aos pequenos comerciantes. Os grandes comerciantes devem recorrer aos bancos comerciais que os atendem.

As solicitações de troca, por parte dos bancos, ao Banco Central devem ser feitas por telefone com, no mínimo, 48 horas de antecedência, quando serão informadas as quantidades de cédulas ou moedas demandadas. Em Porto Alegre e Salvador, onde não é possível realizar as operações diretamente no BC, as trocas serão efetivadas pelo Banco do Brasil. Para os bancos, a unidade mínima para fornecimento de cédulas será o maço, constituído por cem unidades de cédulas de R$ 2 e/ou R$ 5. No caso das moedas, a unidade mínima é o saco, com quinhentas ou mil unidades, dependendo da denominação, de R$ 0,05 a R$ 1,00.

O BC possui estoque suficiente de moedas para esses atendimentos, já que encomendou dois bilhões de moedas a mais para 2009, volume 56% maior que em 2008. O volume de cédulas também é superior ao do ano passado. Em 2009, houve um aumento de 67% na produção de cédulas de R$ 2, passando de 420 milhões para 700 milhões. A produção de cédulas de R$ 5 saltou de 255 milhões em 2008 para 400 milhões em 2009, um aumento de 57%. Mais da metade dessa produção já foi entregue pela Casa da Moeda e se encontra pronta para fornecimento ao público mediante troca.

As medidas adotadas visam não somente aumentar a oferta de troco mas também melhorar a qualidade do meio circulante, em especial das notas de baixa denominação que circulam muito e têm vida útil mais curta. O desgaste nas notas também torna mais difícil o reconhecimento das marcas de segurança.








Quarta-feira, Setembro 09, 2009

VEÍCULO DIFERENTE


ESTE "VEÍCULO" FOI DE UM PROPRIETÁRIO DE PIRACICABA.

É UM DOS RAROS, SE NÃO FOR O ÚNICO EXEMPLAR QUE CIRCULOU NO BRASIL.

ALGUÉM  SABE  O 

NOME DO "VEÍCULO"  ?




O estagiário justiceiro

Mauro Tavares Cerdeira*
Conhecido como Ricão, era um dos milhares, talvez milhões de estagiários dos cursos de Direito deste Brasil que já se disse varonil. Carreira que serviu a galgar pessoas ilustres à história desse País e do mundo todo, como o célebre Rui Barbosa, o fato é que Ricão, hoje em dia, não se sentia lá com a bola toda, nem com ela pela metade.
Saído do interior para a Capital de São Paulo, tinha em seu peito até então era um bastião de saudades, algumas misérias, umas raivas ou outras, umas pernas já engrossadas de tanto andar de cartório em cartório pra ver e pegar processos, quando não pra tomar broncas e nãos de respostas, e bem na sua lida profissional ficava sempre em dúvida quando lhe perguntavam o que é que fazia lá no escritório e onde iria chegar nessa vida.
A esperança remoçou, no entanto, quando Ricão encontrou uma oportunidade em uma grande empresa, do setor de telefonia móvel, destas que saem a toda hora na televisão e no mundo. Coisa grande, muita gente, salário para mais de duzentos maior; agora a coisa vai que vai!
Contratação imediata, pois que os negócios nestas empresas grandes andam como anda mesmo o mundo todo. Não há tempo para nada. Faz um ano a vida nova começou. Parece que foi mesmo ontem. E não deu tempo de nada. Ao Ricão não apresentaram nem o pessoal da empresa. Aliás, não tinha empresa. Era um escritório mesmo, mais ou menos igual àquele em que trabalhara antes, pois disseram que o jurídico funcionava ali mesmo, e a empresa, lá dentro, ele nunca viu, nem ninguém viu também.
E chegavam pilhas de processos, todos iguais, ou muito parecidos. Parecia que os demandantes combinavam entre si as demandas. E não havia tempo para nada. O Ricão fazia contestações, que eram iguais as outras contestações, e recebia "da central" propostas para acordos, que eram iguais a outras propostas para acordos, e corria para audiências, que eram iguais a outras audiências. E algumas vezes "era preposto", e outras vezes "era advogado", e corria por tribunais de bagatela por toda São Paulo, conhecia cada vagão de metrô e cada ônibus.
Passava o tempo e vez em quando chegavam regras novas. Agora Ricão não era mais preposto ou advogado, mas "preposto e advogado", tudo isso concentrado em um "estagiário", já que a lei agora isso permitia. E o Ricão, vez em quando, passava o dia rodando cartórios na lida de retirar e devolver processos. E vez em quando o dia passava mas parecia que não tinha passado, e por vezes o Ricão chegava à faculdade, à noite, e ficava em dúvida se tinha mesmo ido trabalhar durante o dia. E outro dia, na quinta, se dava conta de que estava no escritório desde segunda sem ter ido para casa ainda, mas não sabia mesmo muito bem se isso era verdade ou não, mas não confiava em ninguém para perguntar se realmente estava acontecendo.
E foi em fevereiro que uma coisa começou a mudar. Não eram só os juízes e cartorários que começaram a repetir. Nem as causas todas. Parecia que os demandantes, irritadiços, cansados, sempre olhando para ele com cara de "saco cheio", começaram a se repetir. Eram sempre os mesmos, todos os dias. E isso era ruim demais, pois passara a ter receio de encontrá-los. Era como se estivessem a cobrar-lhe uma mesma conta todos os dias. A conta do leite ou do pão, ou do telefone, no caso.
Em uma madrugada de março, já bastante esgotado, e depois de assistir umas palestras sobre contabilidade e balanço e economia das empresas, teve a nítida impressão de que todo mundo estava sendo enganado. Ele estava sendo enganado, o judiciário estava sendo enganado, incluindo a cartorária bonitinha que um dia lhe ofereceu um chocolate, o cara do estacionamento em frente ao fórum, o consumidor, os próprios autos, todo mundo! Na verdade, todo aquele seu mundo profissional talvez sequer existisse e fosse apenas a representação de um drama mesquinho para ocupar o cotidiano!
Na realidade, pensara, aquele teatro é apenas uma farsa, como qualquer outra! E sua razão não poderia ser facilmente descartada. A sua cabeça girava com a seguinte equação:
1) a empresa tem como certo, em um País com instituições falhas, a lesão recorrente de consumidores;
2) a empresa tem como certo também, em um País como o Brasil, com excesso de tarifação, mão de obra barata e baixa concorrência – alto grau de monopólio – alto grau de corrupção, uma elevada rentabilidade;
3) as indenizações no País, oriundas do Judiciário, por tradição e jurisprudência, e dada a média de renda da população, e considerando que em geral são oriundas dos tribunais de pequenas causas, são de nível muito baixo, ou muito inferior às de países democráticos desenvolvidos;
4) as despesas com o setor jurídico de massa, defesa – acompanhamento de audiência etc, são baixas e controladas
5) conclusão: a prestação e manutenção, pelas empresas, de um serviço de péssima qualidade, nestas circunstâncias, é altamente compensatório, mesmo com um elevado índice de resultados negativos nos processos de reclamação judicial, bastando para isso manter uma pequena (em relação ao passivo total) provisão de risco no passivo.
E a conclusão final do Ricão : para a companhia em questão, não interessa e nunca interessou o que o juiz vai decidir ou o que eu vou fazer ou se alguém vai reclamar ou se vai processar ou se o prédio da justiça vai terminar de cair. Está tudo contabilizado em uma pequena nota de passivo. Nós, de fato, não existimos. O que existe é um "numerinho" insignificante dentro do passivo. Eu, se existir, sou um pedaço microscópico da perna de um número do passivo escrito no balanço daquela empresa que está me matando.
E foi nessa madrugada que tocou o telefone da casa do Miltão, o único filósofo que o Ricão conhecia, apesar do Miltão ser meio beberrão e meio "amaconhado", e ainda estar, há uns quatro ou cinco anos, no primeiro ou segundo do curso da Unicamp; mas falar o que é, o Miltão sabe um tanto das coisas da vida, e serve a dar uns conselhos, daqueles de se ficar pensando.
O Miltão ainda estava acordado, que de fato dormia melhor durante o dia. E foi escutando toda a história do amigo, não deixando de se impressionar com aquela revolução que se passava na cabeça do Rico. Como é que nunca havia percebido a existência de vida inteligente dentro daquele projeto de engravatado? E o Ricão narrava suas conclusões e se indignava cada vez mais até que, num inesperado, narrou seu plano para o amigo, o plano para o qual precisava da opinião do Miltão, do seu aval, para o qual não sabia muito bem se tinha coragem ou se poderia fazer ou se era certo ou errado. Aquele negócio de linha ética que aprendera na faculdade, ou medo mesmo de ser preso ou coisa parecida, justo neste país que todo mundo faz bem o que quer, e uma raiva danada do danado do Renan, e do Palocci, enfim.
O Miltão ouviu o interlocutor, que amigo que não faz nada é mesmo para estas coisas, localizou a situação no tempo e no espaço, se permitiu uma pergunta, sobre se o amigo estava seguro das consequências do que faria, e sem resposta disse o seguinte :
"Sócrates tomou cicuta sem medo, pois em sua consciência, sabia o que encontraria após sua morte ! Caso você esteja em paz com sua consciência, siga o caminho traçado e você será feliz."
E o porra do Miltão desligou o telefone.
"Grande merda esse Miltão! Deu na mesma e ainda atrapalhou um pouco. E quem é que quer morrer ! Mas quer saber; se tem alguém que tem de resolver a vida da gente é a gente mesmo, e eu tô nessa !"
A partir dali, o plano foi seguido meticulosamente. Ricão esperou o dia em que teria seis audiências no mesmo dia, no Fórum Vergueiro, na mesma Vara, e em que estava escalado para fazer as seis sozinho, e mais, nenhuma audiência mais haveria naquele Fórum naquele dia, ou seja, somente ele, da sua companhia ou escritório, estaria lá. Esse dia demorou uns 40 dias e mais umas quarenta noites para chegar.
Chegou cedo, com seu melhor terno, e também o único, e um bolo no estômago. Ficou lá em pé, pois lugar para sentar pra variar não tinha. Esperou ser chamado. Entrou. Sentaram do outro lado uma moça e seu advogado. A Juíza se virou para ele e perguntou, como sempre: "Tem proposta doutor?" E ele disse: "Sim, Excelência, hoje as propostas são boas, e são por minha conta!". Ela sorriu, mas sem entusiasmo, logicamente pensando que era só uma brincadeira. Ela disse: "De quanto é?" E o Ricão:
"A proposta é de R$ 15.000,00 para a Requerente, e caso aceita, a Companhia estará também doando R$ 15.000,00 à Casa da Criança Feliz, R$ 15.000,00 ao Juizado para aquisição de novos equipamentos de informática, e R$ 15.000,00 para que o Juizado direcione a uma instituição de beneficência de sua preferência."
O susto foi mesmo grande e a Juíza perguntou se o estagiário tinha certeza daquilo antes de confirmar o aceite da requerente, que foi imediato. A ata foi feita e assinada rapidamente, e o estagiário requereu se seria possível adiantar a sua próxima audiência, fazendo todas em sequência, o que foi deferido. A escrevente foi ao toalete e a Juíza somente pediu licença para dar um telefonema. O advogado presente pediu para cumprimentar um colega lá fora antes mesmo da ata ter ficado pronta, tendo voltado após alguns minutos, e a autora da ação passou a fazer algumas ligações no celular, sem que ninguém se importasse. O Ricão ficou lá, conferindo se cortara mesmo as unhas naquela manhã. Naquele momento lhe passou pela cabeça um pensamento engraçado: era a primeira vez que realmente sentia, por alguns momentos, fazer jus ao seu apelido, ainda que com o dinheiro dos outros, sabe-se lá de quem.
A segunda audiência foi apregoada, antes mesmo da escrevente retornar do toalete. Lá fora o movimento já parecia bastante anormal. Pessoas agora se aglomeravam e se acotovelavam. Funcionários de outras varas conversavam em frente aos elevadores e muitas pessoas chegavam a todo momento pelas escadas. Outros demandantes e advogados que teriam audiências naquele dia contra a mesma companhia falavam alto e animados ao celular.
A Juíza, uma jovem de nem trinta anos, bastante simpática, deu sequência à sessão, iniciando a audiência seguinte, indagando animada ao estagiário se havia proposta no caso e se seria tal e qual ousada. O Ricão disse que sim, que aquele era um bom dia na companhia, que passara a rever alguns dos seus conceitos:
"Neste caso estamos sugerindo R$ 25.000,00 para a cliente da companhia, que mesmo em face da demanda não nos abandonou até hoje, continuando fiel, e caso haja concordância mais R$ 20.000,00 para o Lar de Idosos sediado aqui no bairro; R$20.000,00 para uma confraternização dos servidores deste Fórum, e R$ 35.000,00 para "a" ou "as" instituições indicadas pelo Juízo."
A escrevente engasgou com uma barra de cereais que comia, passou a tossir, encheu os olhos de lágrimas, e saiu correndo da sala se desculpando com a Juíza com uma expressão de "não tem outro jeito" e abanando as mãos. A Juíza confirmou o aceite com uma requerente boba-alegre e um advogado nas nuvens, uma funcionária da secretaria entrou para conferir a informação; a Juíza então disse que agora ela que precisaria usar o banheiro, antes pedindo para a mesma funcionária presente indicar outra instituição beneficente diferente da anterior, e umas onze ou doze pessoas que estavam na sala assistindo a audiência saíram e abriram seus celulares. Quem passou a fazer ligações animadas foi também a cliente do advogado, que ganhou um beijo desse e deu também uma beijoca no Ricão.
Nessa altura, em que a Escrevente voltava para fazer a ata, com muita dificuldade para entrar na sala, e a Juíza falava ao celular no meio das escadarias entre os andares, já havia um congestionamento em uma das vias