Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

sexta-feira, agosto 28, 2015

CELIO SOARES MOREIRA

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 29 de agosto de 2015.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO:  CELIO SOARES MOREIRA
                                                                                                    Foto by J.U.Nassif
O professor doutor Célio Soares Moreira nasceu em Jaú, a 1º de março de 1930. É filho de Silvio Moreira e Minica que tiveram os filhos: Iná, Célio, Sonia, Raul e Fábio.
Qual era a atividade principal do pai do senhor?
A sua atividade principal iniciou-se por volta de 1932, em Cordeirópolis. Ele era agrônomo, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiro em 1923. Ele é da terceira ou quarta turma que se formou pela ESALQ. Naquele tempo a turma com a qual ele se formou era composta por cerca de 10 formandos, sendo que ele formou-se em segundo lugar. A Salitreira comercializava salitre do Chile. É uma empresa grande, que existe até hoje. Meu pai foi contratado pela Salitreira para trabalhar em Jaú. Naquela época Jaú tinha uma posição de muito destaque. O café trazia muito dinheiro para a cidade. Eu já era adulto, quando um dia perguntei-lhe: “-Pai, como foi chegar a Jaú, terra de coronéis?”. Ele respondeu que tinha sido muito bem recebido. Muito fidalgamente. Quando a Salitreira o contratou, deu-lhe um “Fordeco”, um carro Ford do ano para ir trabalhar. Quando ele chegou a Jau chamou a atenção de seus moradores. Eles não sabiam o que era um agrônomo! Diziam que se esquecessem um grão de café na terra virava árvore! Após a formação e Jaú ficar um lugar conhecido, alguém mandou para a França uma amostra de terra para analisar. De lá veio uma resposta: “Aquilo não era terra, devia ter adubo misturado”. Era terra roxa.
Qual é a função do salitre para a agricultura?
Ele é estimulador, principalmente da clorofila. Ele tem que estar associado ao potássio e fósforo.
Naquela época não havia adubo composto, eram elementos isolados que eram colocados junto ao solo?
Eu já era mocinho quando fui com meu pai até a primeira fábrica de adubo composto que conheci, era fabricado pela Manah, estava começando suas atividades, o Dr. Fernando Penteado Cardoso, agrônomo formado pela ESALQ é quem estava desenvolvendo o projeto, ficava em um barracão, antes de chegar a São Paulo, nessa época meu pai já estava trabalhando na Estação Experimental de Cordeirópolis.  Ele tinha saído da Salitreira, foi trabalhar em Guatapará, ficou algum tempo e depois  foi para a Estação Experimental de Cordeirópolis. Meu pai nasceu em 1900 e faleceu em 1986.

Em que cidade o pai do senhor conheceu a sua mãe?
Foi em Jaú. Meu avô chegou a Jaú com o diploma de farmacêutico, ele era descendente de franceses, estabeleceu uma vida comercial, casou-se com a minha avó,da família Prado, uma das filhas do casal era a minha mãe. Meu pai e minha mãe se conheceram, casaram-se e foram morar em Guatapará. De lá que vieram para Cordeirópolis, por volta de 1932. Ali ficava a bifurcação da linha-tronco da Paulista que seguia para Barretos e Colômbia, no rio Grande, e a linha do ramal de Descalvado. Existia a estação, uma colônia dos funcionários da Companhia Paulista, não havia mais nada. Naquele tempo o governo estava formando essa rede de estações experimentais. Tinha uma em Sorocaba, em Cordeirópolis, em Campinas. Quando meu pai aposentou-se era chefe da divisão de Estações Experimentais do IAC- Instituto Agronômico de Campinas. 



O curso primário o senhor estudou em qual escola?
Minha irmã e eu íamos de automóvel até a Escola São José em Limeira, era colégio de freiras. Lá estudei até o terceiro ano primário. Por volta de 1940, mudamos para Campinas, papai foi transferido como chefe. 
Foi um choque para o senhor sair de Cordeirópolis e ir morar em Campinas?
Campinas era uma cidade muito rica, que por determinada época chegou a rivalizar com São Paulo. Era uma cidade muito orgulhosa. Campinas ainda era terra roxa. Teve o período da era dos Barões do Café. Era toda região que se estendia por Jaú, Amparo, Pirassununga, Araraquara. Veio até aqui, daqui para frente temos terra de qualidade inferior. Quem tinha posse ia para terra boa, terra roxa, para ficar rico rapidamente. As principais peças de teatro vinham da Europa para Jaú! Não ia para Campinas que era uma cidade que tinha dinheiro, mas estava todo mundo alvoroçado para sair de lá, precisavam progredir! Campinas tinha e tem ainda terra boa, mas é pouca. Jaú já era uma área bem mais extensa.












 Quando mudamos para Campinas, saímos da Estação Experimental de Limeira, que ficava na Rodovia Anhanguera, era estrada de terra, e mudamos para uma casa de um italiano, proprietário de um cortume, ele estava muito bem financeiramente, construiu uma casa na esquina, em frente ao Clube de Campo.  Ele não podia morar ali, era a época da Segunda Guerra Mundial havia pessoas que o hostilizavam, pelo fato de ser italiano. Meu pai acabou alugando a casa, era finíssima, muito bem acabada, tinha um belo jardim em frente. Ficamos sócios do Clube de Campo que ficava bem em frente. Éramos cinco irmãos entre os grã-finos! Tinha piscina, quadra de tênis, quadra de vôlei, instalações para ginástica. Morávamos na Rua Guilherme da Silva esquina com a Rua Coronel Quirino. O bonde passava ali! Ao lado havia o Clube Regatas. Na época um clube modesto, mas com bons esportistas. Passei a freqüentar a natação do Clube de Campo. Os bailes eram memoráveis, freqüentados pela fina flor de Campinas. Eu tinha uns 15 anos. Em frente a nossa casa morava um juiz cujos filhos iam ao clube. Outro vizinho era o proprietário da Piccolotto Calçados e Roupas eles tinham dois filhos e uma filha. Fomos grandes amigos.
Em Campinas o senhor fez seus estudos em que escola?
Fiz o curso preparatório para exame de admissão ao ginásio. Prestei o concurso, entrei em uma escola do Estado, era uma Escola Normal, o prédio inclusive muito semelhante a nossa Escola Normal, hoje Instituto de Educação Sud Mennucci. Lá eu cursei o ginásio, a primeira professora que tive era professora de música, regente, era muito conhecida, Dona Dulce. Ela formava um orfeão, entrei no primeiro ano, ela foi selecionando. Tive professores marcantes, inclusive o de inglês, que graças a Deus era de uma exigência muito rigorosa. Ele tinha sua cartilha. Era o Professor Coriolano. Tinha que estudar aquela cartilha, quando chegasse ao meio do ano ele só falava em inglês. Quem não estivesse a altura de conversar, ele não perguntava, mas também não molestava. Ele repetia a última nota que o aluno tinha obtido, e geralmente era baixa. Vi-me nessa situação. Conversei com os meus pais e passei a ter aulas de inglês com uma professora particular. Fiz meio semestre de inglês com ela. Um dia do mês de junho ele perguntou se alguém queria ir à lousa. Ofereci-me e fui. Fez algumas perguntas, pediu que eu respondesse terminada a argüição mandou-me sentar. Começou a me por na conversa, a conversa dele era mandar que ouvíssemos a BBC em inglês, determinava o horário, a noite e o programa que deveríamos ouvir. Na aula ele se referia ao programa. Deu uma prova escrita, fui muito bem. Estranhando o meu desempenho pediu que fosse até a lousa e fez-me uma sabatina. Eu estava preparado. A partir daquele dia passei a fazer parte do time dele. Meu primeiro ano de ginásio foi no prédio onde existe uma praça cheia de palmeiras. O intervalo das aulas era na praça em frente, não havia pátio. Havia o famoso pouso das andorinhas, que chegavam de vôo, reuniam-se antes de continuar o vôo, daí o cognome de Campinas: “Cidade das Andorinhas”. Era uma quantidade incontável de andorinhas.
Após concluir o ginásio o senhor foi fazer o colégio?
Fiz o curso preparatório e entrei para o Colégio Culto à Ciência, colégio do Estado. Concluindo o colégio vim para Piracicaba para estudar na ESALQ.
Como surgiu a vocação para estudar agronomia?
O meu pai tinha se formado na ESALQ. Eu sempre viajei com ele, gostava da profissão. Uma vez disse que gostaria de plantar feijão. Ele marcou um quadrado, disse-me: “-O arado está aí se quiser pode plantar nesse pedaço”. Coloquei o arado no pedaço, mal ou bem acabei plantando. , era arada com tração de um animal só. Na hora de colher foi uma decepção. Meu pai disse-me: “Feijão é lavoura de manutenção própria para o individuo que a planta”. Muito mais tarde tive a comprovação, depois de formado, em meu terceiro emprego, o fazendeiro que quis plantar feijão perdeu muito. Eram quatro alqueires de feijão que estavam em uma área cujo destino final era servir de pasto.
Em que ano o senhor entrou na ESALQ?
Foi em 1950. Tenho o nome de todos que se formaram na nossa turma, guardo comigo o convite de formatura. A única mulher da turma era Olga Zardetto de Toledo. Tive aulas com grandes professores: Prof. Felipe Westin Cabral de Vasconcelos, Eduardo Augusto Salgado, genética tive aulas com Friedrich Gustav Brieger, Walter Radamés Accorsi,  Edgard do Amaral Graner, Salim Simão.
Em Piracicaba o senhor morava em que lugar?
Você conheceu uma república chamada “Mosteiro”? Éramos cinco moradores, fundamos a república e alugamos uma casa, em frente onde mais tarde foi a Escola de Odontologia, ali havia um colégio de freiras. Na Rua Alferes José Caetano. Na outra esquina tinha a casa do Ex-Prefeito Luiz Dias Gonzaga, a república era no sentido bairro-centro, a segunda casa.
Quem escolheu o nome da república?
Foram as meninas internas do Colégio São José. Na verdade elas caçoavam de nós.  Colocamos cortinas nas janelas, para podermos ter mais liberdade. O pessoal da ESALQ colocou o nome de “Mosteiro”.
A diversão naquela época qual era?
Eu não tinha dinheiro para diversão! Fui equilibrar minha mesada quando mudamos para outra casa da republica, descendo a Rua Alferes José Caetano, após a Rua Voluntários da Pátria. Continuou com o nome “Mosteiro”. Nesse grupo de cinco estudantes, o único que era pobre era eu. Arrumei um emprego, uma amiga de Campinas, disse-me:” –Se você arranjar a sala, tenho como montar uma biblioteca”.
Como o senhor conheceu a sua namorada?
Acho que foi em um baile, no Cristóvão Colombo, na esquina da Rua Governador Pedro de Toledo com Rua São José. O nome dela era Rosa Maria Fleury Moreira, conhecida como “Tuia”. Filha de Aldrovando Fleury. Irmã de João Ribas Fleury. Casamos em São Paulo, tivemos três filhos: Ângela, Eduardo, Arnaldo. 
A Lua de Mel foi onde?
Foi em São Vicente, era a moda na época. Fomos em um carro do meu pai, Chevrolet 1951, azul. Fui ser agrônomo, chefe da Estação Experimental de Ubatuba. Era uma localidade ainda em desenvolvimento, não tinha o movimento que existe hoje. Chegar até Ubatuba era uma aventura, estrada de terra, tinha que ir até Taubaté, não havia a Rodovia dos Tamoios. Quando assumi a Estação Experimental de Ubatuba não estava casado ainda, me empreguei como Chefe do IAC em Ubatuba. O Instituto Agronômico fornecia alguma condução para ir para lá, geralmente a pior condução. Era muito comum ir de jipe, esse jipe era resto de guerra, americano, descia a serra, era uma aventura, havia dois horários de ônibus, quem estava descendo ficava preocupado por não ter cruzado ainda com o ônibus. Quando cruzasse não passava os dois veículos. Tinha que ajeitar.
Não havia trânsito?
Havia trânsito de caminhão de banana! Só que com o caminhão de banana era bem mais fácil de passar ao lado do jipe. O perigo era o ônibus, porque ele vinha despreocupado. Ali a cultura forte era a banana. Permaneci lá um ano e meio. Tinha uma casa na Estação Experimental, a comida era feita por uma empregada. A comida de Ubatuba é baseada em peixe. Quando havia sobra eles ofereciam de graça o camarão. O porto de Ubatuba era muito pequeno, não tinha frigorífico, toda semana passava uma barca com frigorífico. Eles pescavam e tinham que vender. Se a barca não passasse aquela semana, ou atrasasse três ou quatro dias o que tinha sido pescado podia estragar. Eu estava a sete quilômetros da cidade. Às vezes ia de bicicleta. Formei muitos amigos lá, a Cachaça Ubatubana era muito famosa, fabricada por uma família de Piracicaba que moravam na  Fazenda Velha, os Irmãos Chiéus, fabricavam a pinga Ubatubana. Fui membro do Rotary Club que já existia em Ubatuba  na época. Ia daqui para lá o especialista em genética de cana, que era o chefe das Estações Experimentais.
O senhor ficou aproximadamente um ano e meio lá?
 O Janio Quadros fez uma circular onde todo funcionário que tivesse menos de 10 anos trabalhando para o Estado até tal data estava dispensado. Dali a uns meses eu iria completar os 10 anos. Vim para Piracicaba, marcamos o casamento, depois saímos em viagem de núpcias em Itanhaem voltamos à Campinas e Piracicaba. Fui trabalhar,  arrumei um emprego para trabalhar em Xiririca, hoje se chama Eldorado. Surgiu uma vaga na Casa da Lavoura de Rio das Pedras. Rio das Pedras não tinha condução, não tinha sede,. No começo eu ia de ônibus. Existia um armazém grande, cujo proprietário era sócio da usina, ele ofereceu à Casa da Lavoura para que ocupasse uma sala no prédio dele.  Em resumo, tinha uma sala que não era de ninguém, uma mesa, eu tinha que andar a pé. Não tinha condução, não tinha nada. A opção que restava era um sitiante vir me buscar e levar para seu sítio. Mas ninguém estava interessado nisso. Tinha a cooperativa, dentro da Usina Bom Jesus. Quando eu produzia muda, plantei uma fileira de palmeiras imperiais em frente a Usina Bom Jesus. Depois de algum tempo eu ia de Lambretta para lá. Estrada de terra. Um dia que choveu muito não cheguei. A roda empastou de lama. Decidi sair, pedi demissão em Xiririca, meu irmão Raul, tinha se formado agrônomo, foi para lá onde ficou o resto da vida.
O senhor voltou à Piracicaba?
Voltei, decidi adquirir um sítio. O Bellato substituiu o Dante. Ele foi ótimo, ele gostava desse entrosamento com as famílias. Foi excelente. Adquiri um sítio em Tupi, eram 15 alqueires, adquiri junto com O Esmani Junqueira Dias e outro sócio era o João Fleury, ambos meus cunhados. Adquiri para fazer mudas, comecei a fazer mudas de laranjas, uma área que eu tinha bastante conhecimento. Cheguei a ter de 40 a 60 mil mudas de laranja. Em paralelo comecei a plantar mudas de rosas eu trazia de uma localidade próxima a São Paulo.
 O clima aqui é bom para esse tipo de cultivo?
Roseira e laranja vai bem no mundo inteiro. Fazia a enxertia. Tinha uma coleção de plantas e laranjas para tirar borbulhas e fazer enxertos. Naquele tempo era obrigado a ter árvores selecionadas, de origem conhecida, vendidas pelo governo e o governo fiscalizava. A Casa da Lavoura ia a cada três meses verificar se as plantas estavam de acordo com as normas. As minhas plantas eram garantidas pela Casa da Lavoura. A primeira viatura que adquiri era mais velha do que eu, era uma caminhonete Chevrolet, 1927. Depois tive uma Kombi. Nesse meio de tempo o Prof. Felipe Westin Cabral de Vasconcelos convidou-me para trabalhar com ele, na ESALQ. Isso foi em 1960. Entrei como professor assistente convidado. Após quatros tinha que fazer um concurso para ser professor assistente. Fui professor adjunto. Fui livre docente e depois professor titular na horticultura. Finalmente tornei-me professor catedrático.  O Heitor Montenegro foi para a FAO- Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura onde ficou um tempo. Trabalhei bastante tempo com o Professor Dr. Jairo Ribeiro de Mattos.
O senhor aposentou-se quando?
Aposentei-me como professor titular em 1990.
O senhor foi Presidente do Lar dos Velhinhos?

Entrei com o Jairo Ribeiro de Mattos em 1971, permaneci até 2.000. Ocupei os mais diversos cargos dentro da instituição, inclusive a de Presidente do Lar dos Velhinhos. 
                                                                                                    Foto by J.U. Nassif


A ESTAÇÃO: Cordeiro, ou Cordeiros, era um lugar perdido perto da histórica Fazenda Ibicaba que acabou sendo escolhida para ponto de saída da estrada do Mogy-Guassú, mais tarde chamado de ramal de Descalvado, porque, apesar do seu isolamento, apresentava condições técnicas mais favoráveis para a saída da nova linha. A estação foi inaugurada em 11 de agosto de 1876, no mesmo dia da abertura da estação de Rio Claro, como um barraco de madeira, como a maioria das estações daquele tempo. Seu nome viria da existência por ali de cordeiros - ou seja, fabricantes de cordas, embora hoje em dia se aceite como mais provável a herança do nome, pela estação, da antiga fazenda Cordeiro. Mesmo com o isolamento, somente cinco anos mais tarde se pensou nos funcionários do local, de acordo com o relato de 1881: "Em Cordeiro tambem se construiu um rancho de madeira para os empregados dalli, visto não haver commodidade alguma naquelle logar". Dois anos depois, construiu-se um botequim na estação - não seria este ainda, no entanto, aquele que foi conhecido pelos freqüentadores da estação até os anos 1990. Em 1914, o prédio foi reformado e ampliado, ganhando um botequim novo em forma de quiosque, no centro do triângulo formado pelo prédio da estação e as plataformas de embarque de cada uma das duas linhas. O quiosque tornou-se famoso pela sua beleza e arquitetura. Cordeiros tornou-se, então, mantendo basicamente o mesmo prédio de 1883, uma das estações mais belas da Paulista. Em 1916, com a modificação das linhas de bitola larga da Paulista, continuou como uma estação do tronco principal, mas a linha para Descalvado se tornou a partir daí o ramal de Descalvado, e o tronco seguia para Rio Claro e São Carlos. Nos anos 1940, a cidade emancipou-se com o nome de Cordeirópolis. A partir de fevereiro de 1977, os trens de passageiros para o ramal de Descalvado não circularam mais. Cordeirópolis continuou a atender os passageiros do tronco, com a estação seguindo ativa até 1995. O abandono pesado veio em seguida. Mesmo embarcando uma quantidade muito diminuta de passageiros até março de 2001, quando passou por ali o último trem de passageiros da nefasta Ferroban, o prédio foi sendo invadido aos poucos por mendigos, que causaram dois grandes incêndios, um, em 1993, que destruiu totalmente o belo quiosque de madeira, e teria sido causado por um funcionário da Fepasa descontente, e outro em 1995, depois do fechamento da estação no início de abril, que destruiu o interior da casa de controle, do outro lado da plataforma em relação ao prédio da estação. Aliás, ainda pode se ler no dístico pintado na casa de controle, o nome Cordeirópolis, e, por baixo dele, apagado, o nome antigo: Cordeiro. Sem portas e janelas, e um prédio totalmente vazio e depredado, a estação de Cordeirópolis parece gritar por socorro para cada trem que passa por ali (Do livro de Ralph Mennucci Giesbrecht - "Caminho para Santa Veridiana" - Ed. Cidade, 2003). Em fevereiro de 2004, a Prefeitura acertou a compra do prédio, já nas últimas, com a Rede Ferroviária Federal, sua proprietária desde a extinção da Fepasa, em troca das dívidas existentes. No entanto, desde então, a estação está cada vez mais em frangalhos. Alguns edifícios do imenso pátio foram recuperados. O belo e histórico prédio da estação e a cabine de controle, bem como o armazém das locomotivas, não foram. Notar que o prédio da estação de Cordeirópolis é o mesmo, com algumas reformas, desde a inauguração da estação, em 1876. É ele o prédio de estação mais antigo das linhas da hoje extinta Companhia Paulista. Ao que tudo indica, o milagre esteve perto: em 2009, começaram obras para a restauração do prédio da estação. Mas logo pararam e a estação degradoi-se mais ainda. Em novembro de 2014, a estação estava cercada, de forma a restringir o acesso de vândalos. Porém, continua do mesmo jeito, abandonada e arruinada.   Ralph Mennucci Giesbrecht

sexta-feira, agosto 21, 2015

JOSÉ CARLOS CATALINI



PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 22 de agosto de 2015.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: 



JOSÉ CARLOS CATALINI


José Carlos Catalini nasceu a 1 de março de 1963, a Rua Boa Morte, 1932 em Piracicaba. Filho de Luiz Catalini e Lúcia Brunelli Catalini, que tiveram também os filhos Cláudio e Marlene. José Carlos tem uma filha, Rayanna.
Até que idade você residiu a Rua Boa Morte?
Residi lá até os 35 anos. A casa existe até hoje, fica bem em frente ao Lar Escola Maria Nossa Mãe. Ali aprendi a conviver com o barulho do bonde. Tenho até um episódio pitoresco, eu era criança deveria ter uns sete anos, minha mãe estava lavando a calçada, usando a mangueira, eu peguei a mangueira e joguei água nos passageiros do bonde. A reação dos passageiros não foi muito agradável! Colocávamos nos trilhos do bonde tampinha de metal, tiradas ao abrir refrigerantes, bebidas. Gostávamos de ouvir o barulho que as rodas faziam ao passar sobre elas. Muitas vezes o motorneiro (condutor) parava o bonde para tirar as tampinhas da linha. Muitas vezes ia passear de bonde, ia até a garagem, que ficava na Avenida Dr. Paulo de Moraes, logo após a Rua da Glória, do lado esquerdo. Lembro-me do trem da Companhia Paulista. A estação ficava  aproximadamente a duas quadras da minha casa. Ao lado da minha casa ficava a fábrica de bebidas do Thomaz Del Nero, que foi meu padrinho, ele engarrafava a então famosa Caninha 18. Lembro-me de que havia dois tonéis enormes de madeira onde era depositada a aguardente.

Você morava em frente ao Lar Escola Maria Nossa mãe, um local em que abrigava meninas. Você lembra-se desse período em que o Lar Escola funcionava como internato?
Lembro-me sim! Elas moravam no Lar Escola. Inclusive tem um primo nosso que adotou uma menina que residia lá. Ele tinha sete filhos homens, queria ter uma filha. Ele foi o fundador do primeiro trailer de lanches que abriu em Piracicaba, isso foi em 1978, ficava na Rua Governador Pedro de Toledo entre  a Rua Riachuelo e Rua Floriano Peixoto. Tanto que o seu filho, Marco, mais conhecido como Sule, é proprietário do “Rei do Chope” e anuncia: “Há 37 anos o melhor lanche da cidade”.
Você estudou em qual escola?
Estudei no “Barão do Rio Branco” onde fiz o primário e o ginásio. Minha primeira professora foi Dona Maria Helena. Lembro-me ainda da Dona Mafalda, Dona Nininha, o “Cridão” que era o zelador. O diretor era José Wander Parsia. Após concluir o ginásio fui estudar o colegial no Instituto de Educação Sud Mennucci. Após concluir fui cursar Histologia (ciência que estuda os tecidos biológicos), na Unimep.

O seu pai, Luiz Catalini, foi pioneiro em uma atividade na cidade?
Na época meu pai e meu tio José Catalini fundaram uma empresa especializada em demolições. Meu avô, Giacomo Cataline era “grameiro”, vendia grama. Ele era natural da Itália. O primeiro depósito da empresa de demolição foi na Rua Joaquim André, atrás da Igreja dos Frades. Isso foi em 1957. Até então, acredito que era o próprio pedreiro quem fazia a demolição dos prédios. Não sei dizer o que era feito desses materiais todos, uma vez que não havia um depósito específico para o material que era retirado das demolições.
Como o seu pai e o seu tio retiravam os produtos frutos das demolições?
No inicio eles não tinham nenhum meio de transporte, pagavam o frete para terceiros. Após algum tempo conseguiram adquirir um pequeno caminhão. Da Rua Joaquim André eles mudaram para a Rua Benjamin Constant, onde hoje é a Casa Rosário. Antigamente ali não existia nada, era um terreno baldio. Mais tarde eles mudaram o depósito para a Rua Santa Cruz esquina com a Rua São Francisco de Assis e José Pinto de Almeida. Meu pai alugava aquele terreno, o proprietário era o Pedro Cobra. Atualmente está sendo construído um edifício no local pela arquiteta Bia Coury. Ao lado havia o Piacentini que trabalhava com álcool, que mais tarde sofreu um incêndio e atualmente é uma academia de ginástica. Hoje vejo muitas obras sendo realizadas pela arquiteta Bia Coury, quando éramos crianças ela brincava conosco no jardim em frente ao então Colégio Assunção. No Lar Escola ajudávamos as irmãs a cuidarem do jardim, fazíamos pequenos serviços. Elas nos davam às vezes pirulitos, cenouras, produto da horta que elas cultivavam.
Com quantos anos você começou a trabalhar?
Com 11 anos meu pai já me levava junto com ele, para ajudar a carregar tijolos. Na época tínhamos um caminhão GMC. Minha mãe não gostava, Dizia: “- O menino é criança Luiz! Imagine! Deixe-o brincar, quando crescer um pouco mais ele vai!”. Meu pai respondia: “Está na hora dele começar a trabalhar, tem que ensinar ele a trabalhar! Ele não deve ficar com a mente vazia e começar a fazer coisas erradas!”.
Você passou a gostar de trabalhar com demolições?
Já faz 32 anos que meu pai faleceu, eu continuo a trabalhar nesse ramo, comecei com 11 anos, hoje estou com 52, são 41 anos que trabalho nessa atividade.
O cliente que deseja demolir uma casa, qual é o procedimento?
Geralmente a pessoa quer que faça a demolição, tire todo o material, para ele construir um prédio novo. Alguns querem ficar com o material, nesse caso cobramos pela demolição realizando todo o trabalho de limpeza da área. Geralmente a pessoa não quer nada.
Com a onda de novas construções você deve ter tido muito serviço ultimamente?
Tenho bastante trabalho, mas hoje já tem muitas empresas nesse setor. Alguns até sem a devida experiência ou conhecimento.
A demolição é um serviço que deve ser feito por profissionais do ramo?
Tem que ter conhecimento para não fazer coisas erradas. Como por exemplo, causar danos ao vizinho. Tem que saber como vai demolir para evitar acidentes pessoais. Muitas construções que vamos demolir estão tomadas por cupins. O grande perigo é no alto, o madeiramento. Há casas que ainda tem o madeiramento feito com coqueiro. Se não me falha a memória, na Rua Joaquim André com a Rua José Pinto de Almeida ainda tem uma casa cujo madeiramento é com coqueiro. As telhas são aquelas feitas por escravos, “feitas nas coxas”. As telhas são desiguais, variam conforme a coxa do escravo que a fez, havia o escravo mais gordo e o mais magro. É conhecida por telha comum, telha nacional ou telha caipira.
Quando chove há a penetração de água com o uso dessas telhas?
De forma alguma! É a melhor telha que existe! O problema dela hoje é o trânsito pesado das nossas ruas. Os caminhões passam, elas trepidam e escorrega um pouquinho. De vez em quando tem que mandar uma pessoa subir no telhado e ajeitar as telhas em seu devido lugar. Ela não é como a telha paulistinha que tem uma garrinha que fica na ripa.
Você já pegou algum tijolo diferente?
Quando a casa é muito antiga sempre aparecem tijolos com algumas iniciais. Como por exemplo, LC, com uma cavidade em forma de losango no meio do tijolo. Aquele tijolo com a suástica nazista, mostrado na televisão eu nunca vi aqui em nossa região.
Quanto pesa um tijolo normal?
Cerca de um quilo e setecentas gramas.
Qual foi o tijolo mais pesado que você pegou até hoje?
Foi um tijolo de uns seis quilos e quinhentos gramas. Estava em uma fazenda, quem me arrumou esse tijolo foi o Roberto Aragon. O tijolo media uns vinte e dois centímetros de largura por uns trinta e cinco centímetros de comprimento. Os tijolos grandes que existem em Piracicaba medem vinte e nove centímetros por quatorze centímetros. Pesam em torno de quatro quilos e quinhentos gramas.
Em frente ao Lar Escola existia um sobrado, da família Aguiar, a demolição foi feita por vocês?
Foi. Isso deve fazer uns trinta anos. Sobrado dá bastante trabalho, porque o sobrado tem concreto. Quebramos tudo na marreta, hoje se usa martelete.
Qual foi a casa mais antiga que vocês demoliram?
Acredito que tenha sido a casa situada a Rua Rangel Pestana, ao lado das Lojas Marisa. Era feita de pau-a-pique ou barrote, amarrada com cipó. Inclusive teve uma parede que caiu na rua. Não houve dano maior porque tomamos a precaução de irmos bem cedo para iniciar a demolição quase de madrugada. Nós percebemos que era uma construção estranha. Inclusive o cupim conseguiu comer o pau-a-pique. Antigamente podia fazer isso. Hoje a legislação está bem mais rigorosa, não pode fazer barulho antes das oito horas da manhã.
Quanto tempo você demora em demolir uma casa com uns cento e vinte metros de construção?
Uns vinte e cinco dias mais ou menos. Isso se for tirar tudo com cuidado. Se a pessoa tem pressa a demolição é feita mais rapidamente, só que nesse caso cobramos pela demolição. Tem que colocar uma equipe maior vai haver muita perda de material, temos que colocar máquinas.
A questão da reciclagem de material está funcionando?
Funciona! O próprio descarte de entulho tem lugar apropriado para ser feito. Para o proprietário regulamentar a construção nova ele tem que apresentar a documentação referente a demolição feita anteriormente.
Há casos de pessoas que contratam um pedreiro e ele mesmo faz a demolição, se não for um contrato com uma empresa atualmente a legislação é muito rígida nesse sentido?
O risco de ocorrer um acidente de fato existe. Se não houver um contrato com uma empresa responsável o proprietário poderá ter sérios problemas.
Você tem alguma história inédita que tenha acontecido?
Tenho algumas, uma delas ocorreu em Rio Claro. A noite alguns gatunos entraram em uma loja maçônica, acenderam umas velas para enxergarem melhor, acabaram incendiando o prédio. Queimou tudo! Não tinha mais nada! Madeiramento, telhado, tudo caiu. Pratos antigos de porcelana quebraram-se todos. Não havia mais nada no local. Havia um sótão e lá tinha um caixão de defunto! Quando o empregado comunicou-me, imaginei que fosse uma brincadeira dele. Ele pediu que jogasse uma corda, joguei, quando olhei, vi que ele estava descendo o caixão de defunto, inteiro! Com visor. Só não tinha nada dentro.
Foi um susto?
Foi um susto grande, não sabíamos se tinha algo dentro. Graças a Deus estava vazio. Naquela época tínhamos uma caminhonete Toyota, trouxemos para Piracicaba o caixão dentro da Toyota. Por onde passávamos com aquele caixão o pessoal ficava assustado. Não era normal. Isso foi em 1985.
O que vocês fizeram com o caixão?
Ele ficou aqui guardado. Por uns dois ou três anos. Como todo mundo que vinha comprar material via o caixão, eu tinha que explicar a mesma história, eu fiquei enjoado. Veio uma pessoa, um vizinho, pediu o caixão acabei dando. Ele disse que iria vender, no fim transformou aquilo em um brinquedo, colocava os amigos dentro Tanto fizeram que acabaram destruindo o caixão. Outra ocasião um empregado achou uma caixinha de música, era toda de ouro, estava em um porão. Ele não sabia que era uma caixinha feita com ouro, acabou dando para a sua filha brincar, certo amigo desse empregado, espertalhão, percebeu que a caixinha era ouro. Acabou indo a uma loja, adquiriu uma boneca e trocou. Nem eu sabia que era uma caixinha de ouro. É interessante que cada casa antiga que você pega ela já vem com muitas lendas. Demolimos mais de trezentas casas. O antigo Banco do Estado de São Paulo foi demolido por nós. Meu tio, José Catalini, demoliu o Hotel Central. 
Ali havia muito material importado. Os lavatórios eram ingleses. Demolimos o Quarto Cartório, inclusive refletiu na Capela Passo do Senhor do Horto, uma construção muito antiga, de barro, foi motivo de muita preocupação para nós. A famosa lanchonete Daytona, ícone da juventude de certa época, anos 70, foi nós que demolimos.
O que mais atrapalha uma demolição?
É a chuva, o vento. Primeiro tira-se o telhado, coloca-se a bica, que é uma espécie de canaleta de madeira, muitas vezes tem que emendar várias tábuas de cinco metros, ali as telhas escorregam uma a uma, alguém segura a telha embaixo, quando é muito alto a pessoa que segura a telha embaixo usa luvas.
Você já demoliu casas sofisticadas, com lustres importados?
Já tive casos assim. Isso foi em uma época em que as coisas antigas não eram tão valorizadas. Na Rua José Pinto de Almeida, entre a Rua Prudente de Moraes e a Rua São José, havia uma casa antiga, com lustres de cristais. Os tijolos antigos do Colégio Piracicabano fomos nós que fornecemos, são frutos de demolição.
Qual é mais caro, o milheiro do tijolo antigo ou do novo?
O tijolo antigo tem um custo maior. Há pouco tempo vieram uns portões que foram feitos na forja pelo Seu Antonio Caputo, pai do Giovani Caputo, que faz até hoje esses trabalhos artesanais. Ele estava fazendo uns lustres para a atriz Regina Duarte.
Ao fazer uma demolição qual é aproximadamente o índice de perda de material?
Sabendo tirar, se for uma construção bem antiga, a perda gira em torno de sete por cento. Se for construção moderna a perda é bem maior.
Você recebe a visita de muitas pessoas famosas, interessadas em coisas antigas?
Vem muita gente famosa, o Paulinho da dupla Cesar e Paulinho já esteve aqui, Craveiro e Cravinho, Dr. Daruge. Enfim pessoas de bom gosto que procuram coisas antigas.
Qual é a sua indicação para tratamento de cupim?
Material contaminado com cupim tem o local apropriado para descarte. Alguns estudiosos do assunto às vezes solicitam se temos algum material para fornecer com o intuito de analisarem. Geralmente são estudantes da ESALQ.
Não há tratamento para exterminar o cupim?
Existem muitos produtos que dizem exterminar o cupim, a meu ver, dependendo do comprometimento da madeira é inútil tentar tratar. Se for passível de tratamento o cupinicida pode auxiliar e até resolver. Na Rua Governador Pedro de Toledo havia o Bazar do Cego, fomos demolir só que havia um enxame muito grande, era uma colméia gigante, segundo disseram ela existia há mais de quinze anos. Pedimos auxílio ao pessoal da Escola de Agronomia, eles conseguiram levar a colméia embora. Já tomei muita picada de abelha, já cheguei a pular do telhado, por causa de abelhas, aquelas caboclas, quase todos os telhados que chegávamos para demolir tinham a abelha cabocla. Antigamente noventa por cento dos telhados tinha esse tipo de abelha. Hoje parece que sumiram.
E escorpião?
Conforme a região de Piracicaba, encontramos bastante. Uma ocasião, no Jardim Colonial encontramos em uma demolição mais de quarenta escorpiões. Tivemos que colocar luvas para poder mexer nas telhas. Encontramos muitas aranhas nessas casas. Geralmente as caranguejeiras.



NORBERT BRUSCHE



PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 25 de julho de 2015.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/
ENTREVISTADO: NORBERT BRUSCHE

Norbert Brusche nasceu a 27 de junho de 1932 é engenheiro aposentado. Reside no Lar dos Velhinhos de Piracicaba desde o dia 1 de julho de 2009 é casado com Eunice Brusche, são pais de três filhos.
O que o trouxe para o Lar dos Velhinhos de Piracicaba?
Justamente pelo Lar ter uma estrutura para abrigar idosos. À medida que a idade avança sentimos que a saúde já não é mais a mesma. Há o risco de necessitar de um sistema de saúde. Como o que tem no Lar: aqui tem médicos, enfermeiros, cuidadores. Viemos para o chalé que estamos ocupando, mas temos um contrato onde está escrito que no dia em que precisarmos iremos para um pavilhão onde nós teremos todo o suporte que nós precisarmos: de saúde, tratamento e o que for necessário. Hoje como somos autônomos no sentido de não depender de enfermeiros, cuidadores, vivo aqui como se estivesse em um condomínio fechado. Tenho o meu carro e tenho toda a minha liberdade.
O senhor ocupa um cargo na administração do Lar dos Velhinhos?
Desde 2013 entrei na diretoria com a intenção de ajudar em alguma coisa no Lar, nenhum diretor recebe qualquer tipo salário, nem mesmo a presidente. Os cargos de diretoria são ocupados por voluntários. Hoje ocupo o cargo de Segundo Tesoureiro.
Qual é a função do Segundo Tesoureiro?
No nosso caso em específico, dividimos a nossa tarefa em duas partes, a nossa Primeira Tesoureira Maria Aparecida Flabio realiza todos os trabalhos contábeis. Eu me dedico mais as análises financeiras do Lar. Realizei e continuo realizando uma análise do comportamento financeiro do Lar.
É de conhecimento de muitas pessoas que o senhor realiza um exaustivo trabalho de pesquisa de campo, os dados são colocados em computador e através de programas próprios são analisados. Isso é feito pelo senhor há quanto tempo?
A parte numérica, a parte financeira, a parte de tentar descobrir no Lar os pontos que administrativamente poderiam ter algum problema eu comecei a fazer em fevereiro de 2015.
Quando o senhor decidiu participar da administração do Lar?
A administração do Lar, antigamente era feita por uma pessoa que era muito arrojada, uma pessoa fantástica no sentido de fazer gerar a riqueza e a beleza que é o Lar. Quando entrei na administração do Lar, sou engenheiro e tenho o curso de Administração de Empresa e toda a minha vida me preocupei com o problema econômico-financeiro,  principalmente análise financeira de desperdício e perdas,  no sentido de ajudar o meu chefe, aquele que era arrojado e fazia a nossa empresa funcionar. Foi assim que resolvi colocar os meus préstimos a disposição do Lar.
O senhor trouxe toda a sua experiência profissional na iniciativa privada para a administração do Lar?
Exatamente! Trouxe toda a minha experiência em administrar as empresas onde trabalhei, olhando toda parte de custos, inclusive olhando a parte de pessoal, pessoas que precisam de treinamentos, seleção de pessoal, política de salários, incentivos, são coisas que exigem um conhecimento profissional mais profundo eu vim tentar trazer para o Lar.
O que o Lar dos Velhinhos representa para Piracicaba?
Em primeiro lugar é uma entidade sui-generis, no sentido de ter aqui uma Cidade Geriátrica, há quase 500 idosos que são seus moradores. Em segundo lugar, ele tem uma estrutura para atender idosos, que impressiona. Não parece, mas essa entidade tem 215 funcionários.
Não é um número elevado de funcionários?
Essa é uma das análises que me coube fazer. Sempre quis saber se não estamos com gente demais. Por exemplo, na área da saúde teríamos que ter mais pessoas.
O que levou o Lar a estar com dificuldades financeiras?
O Lar nunca teve uma situação financeira folgada. Tanto é que o nosso presidente anterior sempre dizia que mais de uma vez ele passou por crises muito fortes. Na verdade já houve épocas em que a sociedade piracicabana, mais precisamente amigos do nosso antigo presidente, pessoas de maiores posses, que infelizmente não estão mais entre nós, ajudaram muito o Lar. Além disso, naquele tempo o Lar tinha um pouco mais da metade do número de pessoas que tem hoje. Aquelas pessoas que existiam naquela época eram mais jovens do que são hoje, e, portanto o seu estado de saúde era melhor do que está hoje. Os idosos que estão hoje nos pavilhões estão em condições de saúde inferior a que estava há 10 ou 15 anos atrás.
Isso é também em decorrência do aumento da longevidade do ser humano?
Exatamente. Chegamos a ter pessoas com 100 anos de idade.
O que o Lar está fazendo para superar a crise atual?
O Lar está tendo que enfrentar a crise que é do Brasil inteiro. Hoje temos chalés disponíveis no Lar, só que a crise imobiliária chegou ao Lar. Não há alternativa a não ser pedir socorro à sociedade piracicabana. Tem sido noticiado, por toda mídia, a situação do Lar, os piracicabanos estão de repente percebendo que dada a situação, que não é só do Lar, é geral, mas o Lar de forma alguma pode sofrer as conseqüências, os nossos idosos tem que ser tratados com carinho, cuidado, a saúde deles não pode pagar por um problema econômico que o Brasil está passando. A sociedade de repente está se movimentando, e é isso que o Lar está fazendo, pedindo socorro à sociedade. E a sociedade está começando a responder.
O senhor acredita que a sociedade piracicabana vê no Lar dos Velhinhos uma entidade representativa, tanto quanto seus valores maiores, como é o Rio Piracicaba, como é a Escola de Agronomia, o Esporte Clube XV de Novembro de Piracicaba, uma tradição tão forte que motiva a população a ter orgulho do Lar dos Velhinhos?
Isso foi a primeira coisa que me chamou a atenção quando vim para Piracicaba! Ao perguntar à alguém se conhece o Lar dos Velhinhos, percebe-se no piracicabano exatamente esse orgulho citado. Como é uma Cidade Geriátrica e ela é inusitada, eu diria até na América do Sul, há motivo de orgulho para o piracicabano. O piracicabano nunca teve qualquer noticia de qualquer dificuldade que o Lar passasse antes.
A seu ver foi aberto um canal com a mídia onde está sendo passada uma espécie de radiografia do Lar?
É o que está acontecendo no momento. Ninguém gosta de dizer que está passando por dificuldades. O Lar nunca deu a conhecer a sociedade toda e qualquer dificuldade que passasse, para não passar uma imagem que poderia até ser mal interpretada.
Quem supria o Lar nas horas difíceis eram os capitães de indústrias, os capitalistas?
Aquelas pessoas que há 30 anos eram os grandes beneméritos, gostavam de ajudar o Lar, segundo testemunho do próprio Dr. Jairo Ribeiro de Mattos, essas pessoas não estão mais entre nós. O que era uma iniciativa pessoal do Dr. Jairo deixou de existir porque essas pessoas não estão mais entre nós.
Quais são as principais fontes de renda que o Lar dispõe hoje?
A principal fonte de renda obviamente tem que partir do governo. Existe um convênio com a Prefeitura Municipal que cobre 22% das nossas necessidades. Há uma previsão de mudança na lei, eles serão obrigados a fazer uma licitação que se chama Chamamento Público. Existe uma lei que diz que toda pessoa abrigada, que recebe do INSS, e que depende dos serviços do Lar, o Lar tem o direito de reter 70% deste valor para cobrir os custos. Deixando 30% para que a pessoa use a seu bel prazer.
O fato de o Lar cuidar do bem estar dos seus abrigados, da higiene e ter um ambiente sanitariamente saudável passa a imagem de um local provido de muitos recursos?
Como temos todo um sistema de saúde, não digo que temos um ambiente hospitalar, mas sim um ambiente saudável. As próprias pessoas que moram aqui cuidam das suas próprias casas, ninguém quer viver em condições precárias.
Existe alguma forma de gerar recursos de forma permanente?
Existe sim. Eu diria que são dois tipos de recursos: externos e internos. Como é uma entidade filantrópica, sem fins lucrativos, existe a obrigação moral da sociedade de sustentar esse Lar. Isso é levado a sério em outros países. Na Suécia, Alemanha ou qualquer país de primeiro mundo, a sociedade é representada pelo governo, que cuida de entidades como esta. Sei de espanhóis que recebem aposentadoria da Espanha. E moram no Brasil. Teoricamente a sociedade representada pelo governo federal, estadual e municipal deveria e tem obrigação, até por constituição, de cuidar do Lar. Dada a precariedade de recursos, a sociedade civil tem que complementar isso. Tem o dever moral de fazê-lo.
Da mesma forma que a justiça obriga a fornecer pensão alimentícia ela poderia usar os mesmos instrumentos para assistir o idoso?
Pode! Já se pensou em tomar medidas nesse sentido. O nosso gasto mensal é em torno de R$ 650.000,00 a R$ 700.000,00. O recurso que o Governo do Estado de São Paulo destina R$ 24.000,00 por mês é uma piada e o Governo Federal é pior ainda, destina R$ 4.600,00 por mês para todos os idosos! Ou seja, esse valor para distribuir entre quase 500 idosos! O que é isso? O Governo Municipal dá quase R$ 64.000,00 ao Serviço Social e mais R$ 21.000,00 da área da saúde. A inadimplência do Estado em relação as suas obrigações constitucionais não há justiça que consiga ajustar. Uma vez que o Estado não consegue fazer isso, a sociedade complementa. É a mesma coisa que se vê no ensino, se a escola pública não está dando aquilo que você quer você vai à escola privada. Escola privada, hospital privado, existe em função da ineficiência do Estado em cobrir toda a área de educação e saúde. O que surpreende aqui na cidade de Piracicaba é a ausência da participação dos empresários no sustento do Lar dos Velhinhos. Sei que outras entidades eles ajudam. Estou acostumado ao sistema utilizado na cidade de onde vim, Indaiatuba, com um carnê de R$10,00 por mês a população ajudava as entidades. Se tivéssemos esse sistema também em Piracicaba, estaríamos bem. Existe outra forma, uma maneira interna de resolvermos o problema, transformando em fonte de renda a superfície que pertence ao Lar. Teríamos uma fonte de renda sem depender da caridade da população. Surgiram muitas idéias, e outras estão surgindo para aproveitamento dessas áreas, só que o resultado será daqui a três anos, e o nosso problema tem que ser resolvido com máxima urgência.
Qual é o déficit mensal do Lar hoje?
Ele é flutuante, depende muito da receita. Quando uma moradia vitalícia é comercializada é apurado um valor referente a ela. Tenho todos os números em forma de planilha e em gráficos. Uma pessoa que mora em um pavilhão custa mensalmente para o Lar R$ 2.400,00. 
Por que as empresas não estão ajudando o Lar dos Velhinhos de Piracicaba?
Qualquer empresário tem consciência da sua luta pela sobrevivência da sua empresa. Ele tem que saber muito bem onde ele gasta o seu dinheiro. A empresa dele não é uma entidade beneficente, ele não tem a obrigação de ajudar ninguém. Quando um empresário visualiza que é uma obrigação social da sua empresa ajudar aqui ou lá, se vislumbrar uma possibilidade de que a marca dele apareça através dessa ajuda, essa ajuda entra na conta propaganda, ele sabe que aquele dinheiro que ele gastou reverte como uma propaganda, ele irá fazer a transação.
De que forma o empresário pode associar o nome da sua empresa com o nome do Lar dos Velhinhos?
Dissemos que é publico de que o Lar é motivo de orgulho para a cidade. Já participei de diversas doações, onde o doador e empresário no dia seguinte têm a sua divulgação feita pela mídia. Ele pode agregar a sua propaganda o nome do Lar. Esse empresário irá colocar essa despesa na conta propaganda. Na verdade é um investimento.
Do alto da experiência que o senhor acumulou em suas atividades profissionais, o senhor acredita que neste momento uma empresa associar seu nome ao nome do Lar pode resultar em um ganho de marketing e financeiro?
É na época da crise que as empresas que souberem manusear muito bem a sua propaganda, o seu marketing, saem na frente das outras empresas, sobrepõem sobre a concorrência.  O Lar pode ser uma ancora para uma publicidade dessa natureza.
Poderia ser um selo com os dizeres, por exemplo: “Esta empresa contribui para o bem estar dos abrigados do Lar dos Velhinhos de Piracicaba”?
Esse é um velho sonho, para que as pessoas efetivamente enxerguem no Lar, não apenas um gasto, uma despesa, mas sim uma vantagem, um investimento.
O Lar aceita voluntários? O que é necessário para ser voluntário?
Com certeza aceitamos voluntários. Ele deverá apresentar-se ao Serviço Social, dizer quais são suas aptidões, obviamente como voluntário assinar uma documentação, depois o próprio serviço social o encaminhará dentro das suas aptidões, suas preferências.
As doações podem ser feitas de que forma?
Se a pessoa fizer uma doação única, existe a conta corrente do Lar dos Velhinhos, no banco Itaú, agência 0731, conta corrente 01291-0. Essa doação pode ser de preferência identificada, para que possamos agradecer. Se a pessoa estiver disposta, como gostaríamos que fosse, poderá simplesmente se identificar junto a nossa telefonista, fornecendo seus dados, nome, endereço, para que possamos emitir um boleto. Ele irá receber os boletos no seu endereço.
O senhor veio morar no Lar dos Velhinhos para descansar, o que o motiva a trabalhar de forma tão intensa?
Existem seres humanos que tem dentro de si o idealismo, a vontade de ajudar, a fraternidade, a generosidade. Esta entidade deveria ter também administradores profissionais, mas por falta de recursos não pode contratá-los. Sempre trabalhei como voluntários em tantas outras obras.
O senhor ocupou cargos de alto nível em multinacionais, ao analisar o currículo de um candidato o fato dessa pessoa ser voluntário em alguma entidade é importante?
Muito importante! Dir-se-ia que se pode dividir as pessoas em egocêntricas e altruístas.  No momento em que esta contratando uma pessoa para trabalhar na sua empresa, se você percebe que ela é do perfil egocêntrico, essa pessoa não terá muita facilidade em relacionar-se com os outros. Terá dificuldade em formar um grupo. Vai se tornar em alguém que quer levar vantagem em tudo em detrimento dos interesses da empresa. Já uma pessoa altruísta é ao contrário. Participa dos grupos de trabalho, e comprovadamente as equipes de trabalho produzem muito mais do que um grupo de pessoas trabalhando individualmente.
O senhor acredita que até profissionalmente é uma atitude inteligente ser voluntário?
Sem duvida nenhuma! Até profissionalmente. Comprovadamente as pessoas que dão de si acabam sendo mais felizes. É importante ressaltar que o Lar não é uma entidade comercial, existem entidades que cuidam de idosos e são comerciais, caríssimas. Existem entidades honestas e fraudulentas.O Lar dos Velhinhos de Piracicaba, com seus mais de 108 anos de existência, a meu ver, está acima de qualquer suspeita. As entidades sem fins lucartivos e de interesse público devem ser vistas com especial cuidado, pois sua prestação de serviço não ode estar sujeita ao risco de mercado.
O Lar dos Velhinhos de Piracicaba tem uma característica marcante no tratamento dos seus idosos?
Enquanto outras entidades que cuidam de idosos têm uma clientela formada por idosos auto-suficientes, ou quando muito cadeirantes, mantendo em média não mais do que uns 90 abrigados, o Lar tem uma população de perto de 500 idosos, dos quais cerca de 290 são dependentes em grau I, II e mesmo grau III, dos serviços intensos de saúde, ou seja, médicos, enfermeiras, técnicos de enfermagem, farmacêuticos, cuidadores e outros profissionais da área da saúde.