Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

sábado, fevereiro 04, 2017

WALDIR ANTONIO JURGENSEN

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 17 de dezembro de 2016.
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/



ENTREVISTADO:  WALDIR ANTONIO  JURGENSEN

Waldir Antonio Jurgensen nasceu a 26 de junho de 1953 na cidade de Americana, é filho de Waldemar Bernardo Jurgensen e Nair Roque Jurgensen que tiveram ainda os filhos Wagner e Waldemar. Seu pai foi industrial do ramo têxtil, da então Indústria Irmãos Jurgensen, atualmente tem a denominação de Indústria Têxtil Irmãos Jurgensen Ltda. Foi fundada em 1946. Seu pai tinha 21 anos, ele tinha um irmão mais velho Enzo Jurgensen. Foi a época em que a cidade de Americana recebeu todo apoio para que qualquer pessoa tivesse a chance de ser um pequeno empresário. Essas empresas começavam em fundos de quintais. Essa situação deve-se muito a colonização italiana e alemã que teve a cidade de Americana.

Qual é a origem do sobrenome Jurgensen?
Meu avô nasceu no Bairro dos Pires, em Limeira, o bisavô tinha vindo da Alemanha ou da Dinamarca, até hoje não sei. Fui diversas vezes no Bairro dos Pires, na entrada há um cemitério, um dia percorri todos os túmulos e contei 22 túmulos com o sobrenome Jurgensen. As datas giravam em torno de 1870, 1880. Imagino que vieram para a região antes da chegada dos italianos. (Eram alemães, contratados como parceiros na Fazenda Ibicaba, ainda em 1846 que pertencia ao senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro. Eles tocavam as roças bem antes da legião de italianos que tomou os cafezais paulistas nas décadas seguintes). É interessante observar que as primeiras levas de imigrantes alemães foram enviadas para o bairro rural de Parelheiros, em São Paulo, conforme descreve um jornalista que pesquisou o assunto. A segunda leva de imigrantes alemães parou em Vinhedo ou Valinhos. E a terceira no Bairro dos Pires.  Esses imigrantes tinham um bom domínio do cultivo, conseguiam produzir de forma satisfatória aos patrões. Uma característica muito particular, é que sabiam cuidar dos animais. Ninguém entendia melhor de cavalo e de cães do que os alemães. A minha avó materna era de Mantova, italiana, dizia que eles vinham para “Fazer a América”, não tinham noção de localização geográfica, os que aportaram na América do Norte, a noticia de que era um continente alastrou, só que muitos vieram para a América do Sul, pelo que imagino, não sabiam nem onde ficariam. Eram decisões políticas, o governo decidia. Os proprietários de terra tinham a propriedade de áreas inimagináveis. Nós a chamávamos de “Vó Eurides”, depois de muito tempo descobri que seu nome em italiano deveria ser Euridice. Seu marido, meu avô materno chamava-se Joaquim,de origem portuguesa. Também era agricultor, plantava café na região de Jaú. Veio a crise do café em 1929, alguém soube que haveria empregos nas tecelagens, primeiro veio o irmão mais velho da minha mãe, depois outro irmão, veio a minha mãe e meu avô após vender o sítio em Mineiros do Tietê.  Minha mãe era operaria, não concluiu o quarto ano primário. No tempo deles, quem residisse em Americana e quisesse ter um diploma tinha que estudar em Campinas. Tinha a enorme facilidade de pegar o trem da Companhia Paulista em Americana e em quarenta minutos chegar em Campinas. Muitos americanenses estudaram no Colégio São Luiz de Campinas. Formavam-se contadores, homens iam serem contadores. As mulheres iam ser professoras. Meu tio Enzo não quis estudar, meu pai foi. Minha tia Julia estudou no Colégio São José em Limeira. Como meu pai estudou,ele foi trabalhar na Nardini
Os norte-americanos, imigrantes, foram também importantes no desenvolvimento de Americana?
Sem dúvida, os sulistas norte-americanos vieram refugiados para cá, imigraram por questão política. Tinham tradição no cultivo do algodão e haviam perdido uma guerra interna, há uma curiosidade, eles ocuparam Americana, Santa Bárbara D`Oeste, Capivari, basicamente esse núcleo. Sob a minha ótica toda a região tem influência deles. Estamos falando por volta de 1870. Eles trouxeram a semente do algodão e ferramentas agrícolas como, por exemplo, o arado. Em 1860, a Guerra da Secessão nos Estados Unidos, paralisou em parte a exportação da fibra deste país à Europa. Este fato desencadeou um novo impulso algodoeiro no Brasil, que durou pouco mais de 10 anos. No Brasil se cultivava o algodão arbóreo, de ciclo perene. No século XIX, foi introduzido o algodão herbáceo, de ciclo anual e fibra curta. Imigrantes norte-americanos que se estabeleceram em Santa Bárbara, orientaram os agricultores brasileiros que não tinham experiência com a nova planta. Com isso ajudaram muito Americana, a primeira indústria metalúrgica em Americana, foi a Indústrias Nardini, fundada em 1908, fazia implementos agrícolas, quem falava em máquinas operatrizes? A fábrica da Nardini era atrás da Igreja Matriz de Santo Antonio, ocupava um quarteirão todo, os arados produzidos como não cabiam na fábrica, muitas vezes ficavam na calçada. Disso eu me lembro. Teve uma época em que eles passaram a fabricar teares, a vocação de Americana passou a ser a de ter muitas indústrias têxteis. Havia outras fábricas de teares como a Teares Andrighetti, a Rebelo a Alva. Eram excelentes máquinas na época. A Nardini passou a fazer teares, só que eles não evoluíram, o maquinário ficou obsoleto. Eles já estavam na área de máquinas operatrizes, torno, fresa, estavam começando a abrirem as escolas SENAI no Brasil e a indústria automobilística. Eles forneciam muito.
Você conheceu alguém da família Nardini?
Conheci o Sr. Afredo Nardini, que foi da segunda geração dos Nardini, até onde sei o fundador foi o Sr. Fortunato Nardini que teve vários filhos, o mais velho era Bruno Nardini, conforme a tradição italiana, o filho mais velho tinha que ser um padre, e foi o Monsenhor Bruno. Quem conduzia a empresa era o Seu Alfredo e o Seu Fortunato, irmão dele. O seu Alfredo viajava o Brasil inteiro vendendo as máquinas.
Americana já tinha a linha de trem?
Tinha, era da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, era uma linha eletrificada, um espetáculo. O Trem Azul que era o trem de luxo fazia toda a região de Araraquara, Alta Paulista, tinha outro ramal que ia até Jales, esse trem tinha vagão restaurante, dormitório, era o que a Europa tem hoje. Ele saia da Estação da Luz, passava em Jundiaí, Campinas onde tinha uma derivação para a Mogiana, depois seguia até a primeira parada grande que era em Rio Claro, onde passava por uma inspeção completa, nos compressores, material rodante, olhavam tudo. Lembro-me que de Itirapina saia um ramal que ia até Barretos, e outro que seguia em frente e passava por Brotas, Torrinha, Dois Córregos, Jaú, Bauru e ia embora. O Trem Azul era o chamado trem de luxo, os funcionários uniformizados, com gravata, quepe, muito formal. Assentos almofadados, Os passageiros também viajavam com roupas sociais, os homens usavam terno. Havia o carro de passageiros de primeira classe e de segunda classe, ambos almofadados, os carros de segunda classe tinham os bancos em um material semelhante ao plástico, mais simples. Os de primeira classe eram de tecido apropriado, lembrava muito banco de avião. Alguns horários, em algumas composições, havia o carro Pullman. Era uma composição de passageiros, com cinco a seis carros de segunda classe, três de primeira classe e um carro Pullman, nesse carro havia uma pequena mesa, em torno dela sentavam quatro pessoas, as cadeiras giravam, havia o vagão restaurante e algumas composições tinham o carro dormitório também. O restaurante não era com glamour, mas era feito com cuidados especiais. Havia o Trem de Aço, que era um trem marrom, feito com chapas pintadas de marrom. Havia os trens com vagões de madeira. Eram trens mais simples. Todos os carros possuiam lustres. Não havia banco rasgado, vidro quebrado. As peças eram todas em bronze.
O ensino primário você estudou em qual escola?
Estudei na escola mais tradicional de Americana: Grupo Escolar Dr. Heitor Penteado, onde atualmente funciona a Biblioteca Púbica Municipal. É onde faço trabalho voluntário mais de uma vez por semana estou lá. Subo as escadas e penso: aqui estudei o terceiro ano, aqui o primeiro. Onde fiz o Jardim de Infância não existe mais porque derrubaram. Ao lado existe até hoje a Igreja Matriz de Santo Antonio. Fui descobrir que o Apfelstrudel (folhado de maçã) era feito de maçã quando eu já tinha uns 15 anos. Isso porque naquele tempo onde morávamos não existia maçã. A minha avó fazia strudel de banana!
Você lembra-se da FIDAM ?
Lembro-me da 1ª. FIDAM. Em uma área total que estimo ser de uns 10.000 metros quadrados, no centro dessa área a igreja em formato de cruz estava em construção, ao lado existiam dois terrenos vazios, usado como canteiro de obras. Alguém teve a idéia de organizar a 1ª. FIDAM – Feira Industrial de Americana. Ela começou no salão sob a igreja, com espaços delimitados por divisórias de Duratex, e cada empresa ia lá e colocava o seu nome, as peças de tecidos dependuradas, nessa época já tínhamos a indústria, só que da primeira FIDAM não participamos.
Como foi o ingresso da família na produção têxtil?
No período pós-guerra existia uma empresa de origem norte americana, Tecelagem de Fitas Dr. Hans Schwartz, até hoje existe o prédio em Carioba. Meu tio Enzo começou trabalhando lá. Através do tio do meu tio Enzo ele passou a trabalhar em um quartinho, era muito comum na época, colocava-se dois teares e tinha-se uma tecelagem! Tio Enzo e papai tomaram gosto pela coisa, a fábrica começou em 1946, a primeira folha, do primeiro livro de empregados da Indústria Irmãos Jurgensen tem o Dr.Jessir Bianco foi o primeiro contra-mestre, em uma analogia a construção civil é o mestre de obras.
Que tipo de tecido era produzido nessa indústria?
O mais simples possível! Muito forro, muito algodãozinho que ia ganhar estampinha, desse algodãozinho fazia camisa, vestido, toalha. Um tear mecânico da época conseguia fabricar no máximo 800 metros por mês. Antigamente não se vendia um caminhão de tecido, vendia-se uma peça. Vender cortes era uma coisa habitual. Cresci com a minha mãe guardando em casa, pontinhas de peças, quando precisava de uma camisa levava na costureira e fazia com aquele corte. Ou então fazia em casa, a maioria sabia costurar em casa. Tecelagem, confecção e malharia são coisas distintas. Americana não tinha vocação para malharia, as confecções em grande parte concentravam-se no Bairro Bom Retiro, em São Paulo. A Rua 25 de Março em São Paulo era em sua maioria lojas de tecidos.
O seu pai estudava a noite em Campinas?
Ele estudava contabilidade a noite, em Campinas, voltava no trem que acho que chegava a meia noite em Americana, ele não tinha como abrir a fábrica de manhã. Quem abria a fábrica era o Dr. Jessir. Quando meu pai concluiu os três anos de Escola São Luiz, o Dr. Jessir prestou vestibular na primeira turma da PUC para Direito. Em 1952 Dr. Jessir e Diógenes Gobbo, juntos com o Mantovani, fundaram o jornal “O Liberal”. É até hoje o jornal mais importante da cidade. De contramestre o Dr. Jessire passou a ser o advogado da empresa. Os acertos de demissão de empregado eram acertados no escritório. Tinha que haver um motivo muito forte pêra o funcionário sair da empresa. Era uma relação muito equilibrada entre a empresa e o funcionário. Americana prosperou muito, todo mundo ganhou dinheiro. Ruas asfaltadas com toda infra-estrutura. Para instalar uma empresa, entrava na prefeitura com um papel e saia com a empresa autorizada a funcionar. Meu pai começou a construir um prédio, onde hoje funciona uma delegacia de policia, na região central, na Rua Dr. Candido Cruz, eu morava com a minha avó, meu pai não tinha casa para morar. Ele construiu o prédio da fábrica para poder por os teares. Meu pai construiu a cozinha, o quartinho, do lado do escritório, no meio da fábrica, para você sair do escritório e ir para a sala de panos passava pelo meio da casa. Vendedores, clientes que vinham de fora, almoçavam em casa. Não sei como a minha mãe fazia ela tinha que se virar. Minha mãe era operária. Ela começou a trabalhar na tecelagem, foi a sorte do meu pai. Ela aprendeu a ser urditriz, que fazia os rolos de urdume, A máquina que realiza esse processo chama-se urdideira. Urdume são os fios no comprimento do tecido. Um grande carretel, até hoje chamados de rolos. Com diversos comprimentos: 500, 600, 1000 metros. A trama é feita com os fios da largura, que é feita com a lançadeira.
Você tem em sua casa muitas peças feitas com tecidos  fabricadas pela sua empresa, qual é a sensação de estar utilizando algo feito por você desde o inicio?
Eu sou também Técnico Têxtil formado pelo SENAI juntamente com a minha esposa Valdeci Borsato Jurgensen, o pai dela trabalhou na empresa Dierberger no setor de frutas do Mercado Municipal de São Paulo. O meu sogro veio para Limeira com a função de construir um viveiro de mudas para o Dierberger, a Fazenda Moinho Azul era de propriedade de um senhor chamado Fisher, cliente do Dierberger, um dia ele convidou o meu sogro para tomar conta da sua fazenda. A distância da fazenda até Americana era de 12 quilômetros, estudamos Valdeci e eu, na mesma escola, Instituto de Educação Presidente Kennedy, a Valdeci formou-se e passou a trabalhar na própria escola como professora. O meu sogro permaneceu na fazenda, mas não por muito tempo. Veio uma pessoa chamada Dr. Waldemar Clemente com sua esposa Lita Clemente. O Waldemar juntou com a Lita e constituíram a Walita. O Dr. Waldemar era filho de um fazendeiro de Monte Mor, ele estudou engenharia no Mackenzie em São Paulo e especialização na Alemanha, onde conheceu Dona Lita, casaram-se e vieram para o Brasil. Na época todo industrial tinha que ter uma fazenda, ele adquiriu a fazenda do Fischer, uma área de 540 alqueires as margens da Rodovia Anhanguera.  A Walita começou na Vila Mariana, em São Paulo, conheci pessoas que trabalharam lá. O Dr. Waldemar criou dentro da Walita uma divisão fabricando alternadores de carros, a Wapsa. O crescimento da Wapsa incomodou a Bosch, que adquiriu a Wapsa.
Voltando para a tecelagem Indústria Irmãos Jurgensen, qual foi a próxima etapa?
Meu pai foi àquela pessoa que gostava de aproveitar todos os cursos que surgiam, logo depois que ele formou-se em Campinas, em Americana surgiu a primeira escola para formar professores, a Escola Normal. Quem veio para dirigir a escola foi a  Professora Aparecida Paioli. Era uma senhora solteira, advogada, que sabia dirigir uma escola como ninguém. Ele formou-se na primeira turma, como professor, lecionou por um período como professor do Estado.
Como era a fábrica?
Ainda criança eu andava pela fábrica toda, mexia na espuladeira, fazia os tubetes de trama, espula é o tubete com fio.
Quantos cones cabem em um tear?
Depende do tamanho da gaiola da urdideira. Gaiola é uma armação de ferro com pinos, tinha uma metalúrgica,a Denadai, que construía, faziam de tudo, vários equipamentos de teares, tudo era feito em Americana. O cliente encomendava: “- Preciso de uma gaiola com 800 fusos”. Fusos são os pinos onde são colocados os cones com a linha para ser tecida.
Os motores funcionavam com energia elétrica?
A transmissão era feita por um sistema de correias, a energia elétrica tinha a vontade em Americana, já havia a Usina do Salto Grande. Foi um período em que tudo favoreceu, os tecidos eram despachados pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro. A primeira transportadora rodoviária “Americana” começou com um caminhãozinho.
A AVA já existia?
A AVA- Auto Viação Americana era um modelo de transporte urbano. A linha mais longa dela era Campinas, Santa Bárbara D`Oeste, Piracicaba. Era uma epopéia sair de Campinas e vir até Piracicaba. A AVA foi incorporada pela Viação Piracicabana. Estudei na Escola de Engenharia de Piracicaba, onde me formei, vinha pela AVA, descia em frente a ESALQ, ali conseguia uma carona até a Escola de Engenharia. Isso no tempo da “Estrada Velha”, vinha por Tupy, Caiuby, a SP-304 não estava pronta ainda. De Americana à Piracicaba era uma hora de viagem.
Em que ano você entrou para a Escola de Engenharia de Piracicaba?
Fiz ginásio e colégio do Estado em Americana, depois um ano de cursinho no Anglo Latino em São Paulo, situado a Rua Tamandaré. Fui para São Paulo com 17 anos, pelo fato de ter jogado basquete pelo Rio Branco e praticado natação para o mesmo, já tinha a carteira de identidade..

Waldir você foi fazer o curso preparatório no Anglo Latino, em São Paulo, para ingressar na Escola de Engenharia.
Fui fazer a matrícula no cursinho, situado a Rua Tamandaré, com meu tio Enzo e minha mãe, fomos de Kombi, ele ia fazer uma entrega em São Paulo. O terceiro ano do Curso Científico fiz no Colégio Metodista de São Paulo, na Liberdade, a entrada era pela Rua Fagundes. O meu pai tinha uma tia, Corina Durante, que morava na Rua Barão de Iguape, juntamente com uma filha e um filho, o Roberto, com quem passei a dividir o quarto. Posso afirmar que a tia Corina foi a minha mãe por um ano. Ia a pé para o cursinho, as aulas começam às sete horas da manhã, quando fechavam o portão, eu andava um pouquinho mais de meia hora até chegar. As aulas do cursinho terminavam, a uma hora da tarde chegava em casa e passava a tarde estudando. Os exames simulados eram domingo pela manhã, só restava o domingo a tarde para descansar. Vinha à Piracicaba uma ou duas vezes ao mês. Isso era no tempo do MAPOFEI - foi um vestibular criado em 1969 para a área de Exatas nas universidades Instituto Mauá de Tecnologia (MA), Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (PO) e Faculdade de Engenharia Industrial (FEI). Ao fazer o vestibular tinha que colocar a ordem da escola que você queria. Entrei em Barretos, onde morei por dois anos, fiz o Tiro de Guerra lá, morava em república. O Tiro de Guerra ficava ao lado da faculdade. Às cinco horas da manhã estava no Tiro de Guerra, recebia as instruções, voltava para casa, trocava a farda e ia para a faculdade. Estava no segundo ano da faculdade, insatisfeito, pela distância, eram 300 quilômetros, eu desconhecia a existência de uma faculdade de engenharia em Piracicaba, encontrei um amigo, o Marton, que disse estar estudando na Escola de Engenharia de Piracicaba. Um dos professores que dava aula em Barretos, também lecionava em Piracicaba, o professor de Calculo I, Justino Castilho.  Fui falar com o secretário da escola, Luiz Romanelli. O Professor Justino morava em Limeira, meu pai conseguiu entrar em contato com ele. O Professor Justino de uma atenção muito grande. Coincidiu de no próximo sábado haver uma prova de seleção para alunos que desejavam a transferência. A prova foi aplicada pelo Professor Sady Previtalli, em um sábado a tarde, no período de férias escolares. Deu uma questão só, teve gente que pegou, olhou, devolveu. Fiquei lá, acredito que fui o último a entregar. No dia marcado, fui até a secretaria o Luiz Romanelli mandou trazer uma relação de documentos. Fui buscar a documentação em Barretos. A primeira aula de estatística que fui assistir na Escola de Engenharia de Piracicaba já era prova, o tramite dos documentos me impediram de ingressar antes. Tinha perdido três semanas de aulas. Em 1977 me formei em engenharia civil.
Você teve aula com o professor João Chaddad?
Tive. Na época ele estava construindo o Edifício Orsini. Ele construiu 18 edifícios em Piracicaba. Vivi três anos para a escola, não fiz outra coisa a não ser estudar.
Depois de formado você foi trabalhar em qual empresa?
Fiz algumas prospecções e acabei indo para o Rio de Janeiro. Em uma das maiores construtoras do país recebi a proposta para ir trabalhar em Tucurui, no Pará. Na época era uma localização inóspita. Sei que mandei muitos currículos, montei meu escritório, fazia pequenos projetos, acompanhava obras. Tinha outros dois sócios. Um deles prestou concurso e entrou em uma autarquia. Outro sócio decidiu ir acompanhar a empresa que a família tinha em outro ramo. A essa altura, meu tio Enzo já tinha se aposentado, meu pai ainda não. Foi quando fui convidado por ele para ir trabalhar na fábrica de tecidos. Quando percebi já estava envolvido no processo. Meu tio Enzo e meu pai fizeram um acerto financeiro, e a fábrica passou a ser propriedade do meu pai. Foi um período bom, final dos anos 70, começo dos anos 80, Americana estava muito bem. A nossa situação era difícil, isso porque não éramos pequenos, em contrapartida havia as grandes indústrias, a melhor época para a tecelagem em Americana foi em 1985, época em que o Sarney era o Presidente da República. Ele criou uma coisa na economia, que até hoje ninguém sabe o que aconteceu, a prefeitura de Americana tinha dinheiro sobrando, contratou a empresa Camargo Correia para fazer um canal no centro da cidade, foi construída a Rodoviária, o Teatro Municipal. Lembro-me que o Mario, nosso contador, no inicio do ano seguinte disse: “Waldir ! Esse foi o ano em que vocês mais pagaram imposto!”. Todo mundo ganhava dinheiro, você via o empregado contente, o contramestre nosso, que era a pessoa que tocava a fábrica, compramos uma casa em frente a fábrica e demos para ele morar, para não ter nem a preocupação de vir para a fábrica.
Vocês tinham clientes no Brasil todo?
Tínhamos. Quando alguém ia começar uma tecelagem, fazia o pano mais simples que existia que era o forro. Os famosos “forros de manga”, feitos com fio de acetato, a pessoa enfia o braço ele desliza; O meu pai passou a fazer forros para alfaiataria, os vestidos eram forrados, tudo era forrado. Em todas as indústrias sobravam restos de fios, eram juntados e vendidos como sucata, meu pai descobriu que se criasse uma linha inferior de forro com os restos dos fios, dava para vender forros para funerárias, não tinha quem quisesse fazer isso, meu pai com restos de fio ia fazendo, as funerárias do Brasil inteiro compravam. Uma, duas, pecinhas, mandávamos. Da Du Pont nós só comprávamos um tipo de fio chamado nylon cordura. Era um fio grosso, da chamada linha industrial, essa foi a linha mais evoluída que nós tivemos em termos de tecnologia. Tecido industrial vai na lona de pneus, lona de correia, tênis, mochilas. Vendemos muito para a MAGGION PNEUS e CORREIAS. A CINASA usava também para impermeabilização de viga-calha, tínhamos que cortar tudo em rolos estreitinhos para mandar para eles. A Correias Universal de Várzea Paulista comprou muito conosco. Houve um período em que fornecemos muito para Franca, para sapatos de lona. O grosso dessa linha industrial era para Curitiba e Rio Grande do Sul. Você não imagina a quantidade de fábrica de malas que havia em Curitiba. Americana era sinônimo de prosperidade, não pelos metros que eram feitos, mas sim pelo quanto de estoque existia, Isso em todos os segmentos, havia uma marcenaria pequena, mas o estoque de madeira que ela possuía era imenso.
Vocês só tinham a tecelagem?
Basicamente sim, tínhamos algumas máquinas para fazer preparação com fios, não tínhamos a parte de tingimento e estamparia. O nosso sonho era ter uma tinturaria. As vezes colocávamos um tecido em uma tinturaria ficava dois meses para ser tingido. Imagine o estoque que você tinha que ter. Era antieconômico. Não existe teoria de economia que explique ficar com um giro desse parado. Além disso, a anilina utilizada, conforme a qualidade influencia na qualidade do tecido, quando ele chega da tinturaria é praticamente impossível saber qual a qualidade da anilina utilizada, só com o uso é que o consumidor ficará sabendo. As ramas eram todas iguais, a água, fixadores, muitas vezes pagava-se por um serviço que não havia certeza da qualidade. Decidimos montar uma tinturaria, Fiz o projeto, com todas as especificações técnicas. A prefeitura não aprovou. Americana não tinha mais condições de oferecer água para novas indústrias. Quando aconteceu esse fato fui até a Associação das Indústrias, por um período de tempo ela tinha cotas de água destinadas à industria, na época não adquirimos nenhuma, não pensávamos ainda em colocar a tinturaria. As cotas tinham acabado apenas o prefeito poderia liberar. Fomos falar com o prefeito, um médico, Dr. Waldemar Tebaldi, tinha aversão a empresários, ele que expandiu a parte iurbana de Americana, até ele entrar não se construia em terreno com cinco metros de frente, Dr. Tebaldi liberou a construção em terrenos de cinco metros de frente. Acabou todo urbanismo da cidade. A partir do memomento que ele liberou os terrenos as ruas passaram a ter 12 metros e não mais 14 metros, esses bairros não tem qualidade de vida. O morador faz a garagem, as guias são todas rebaixadas, se você chegar de carro vai parar aonde? Se tiver um evento, um aniversário como é que faz?Vai parar aonde? Há bairros inteiros assim. Fui contra isso. Diseram-me que na Europa tem. Só que a realidade é outra. Americana não precisava disso. Imagine a rede de água para atender aquela quantidade de casas? O sonho dele era fazer um hospital. De fato existe um hospital que leva o nome dele, só que hoje vejo que é uma das razões que afundou Americana, não tem orçamento que consegue bancar um hospital. O diretor clinico do hospital era o Dr. Helio, que foi prefeito de Campinas. O sonho do Dr. Tebaldi era fazer um hospital para atender gratuitamente. Infelizmente perderam o controle, o hospital passou a atender pacientes de cidades vizinhas, e Americana arcando com os custos. Na minha visão hospital tem que estar sob a responsabilidade do Estado ou da União.
E vocês como resolveram o problema da água?
Adquirimos um terreno no municipio vizinho de Nova Odessa, ao lado da represa, com água a vontade. A tinturaria foi para lá. A Toyobo de Americana fazia o melhor fio de algodão do mundo. Era a perfeição. Não sobrava, era muito dificil conseguir uma cota para comprar deles, exportavam tudo. A Toyobo começou com a fiação, depois no Alto de São Domingos montou uma tecelagem grande, alta produção. Ao lado da tecelagem montaram uma confecção a Grand Smash, o resto de algodão, o que sobrava eles montaram uma fábrica de meias, faziam nylon, como nós fazíamos, faziam malharia, tudo que era da área espoprtiva.
Existe ainda a Toyobo?
Infelizmente fiquei sabendo que a empresa está fechando, foi no dia em o nosso presidente estava no Japão convidando as empresas japonesas a investirem no Brasil. A fibra acabou, a Polienka multinacional holandesa acabou, faliu.
Voce ainda mantém a empresa?
Não, fui sócio com os meus irmãos por 16 a 17 anos, de 1978 até o dia do Plano Real, em 1994. Nesse dia comecei a minha empresa, parei  agora em 2011. Esperei o ultimo empregado conseguir um emprego.
Como a música entrou em sua vida?
Meu pai na sua juventude tocou na primeira orquestra que teve em Americana. O Colégio Piracicabano tinha um orfeão o regente chamava-se Germano Benencase. Italiano, nascido a Vietri-sul Mare a 9 de abril de 1897, morava em Americana e era sogro do meu tio Enzo. Lembro-me até hoje quando Villa Lobos esteve no Colégio Piracicabano. O maestro Benencase era compositor, professor de violino, regente auto didata. Fez músicas conhecidas, editadas. Não tinha ainda  a Escola de Música  Piracicaba. O Maestro Benencase dava aulas também no Educandário Divino Salvador de Americana. Era um professor de música que ensinava solfejo, canto e instrumento. Meu pai tinha aulas de violino com ele. O filho dele era violinista e regente, montou uma orquestra em Americana, meu pai tocou nessa orquestra. Que eu sei foi a primeira orquestra de Americana: “Orquestra de Cordas de Americana” tenho as partituras guardadas até hoje.
Você perguntou como eu entrei na música
O violino ficava em cima do guarda-roupa em casa, eu nem me atrevia a chegar perto dele porque tocar violino era coisa de gênio. O maestro italiano, o músico italiano, só ele tinha o conhecimento, não podia se falar em frente a ele. Música era Verdi ! No máximo um Villa Lobos! O clima era esse. Eu estudava piano, nunca toquei nada para ele. Não me atrevia a chegar lá e tocar.
Quem dava aulas de piano para você?
As professoras da cidade, entre elas Elisete de Camargo Neves. Comecei a tocar com cinco a seis anos, entrei no Jardim da Infancia não sabia escrever o nome mas já tinha o caderninho de música. Era moda: toda casa tinha um piano!  Mulheres praticamente só tocavam piano. Não eram vistas com bons olhos as que tocavam violão. Violino não era um instrumento, era um troféu! Eu fiz uns 4 ou 5 anos de piano, eu sabia ler do meu jeito: clave de sol; clave de fá; tirava a música mas demorava. O Jardim da Infancia era uma coisa em que contava-se uma historia para o aluno desenvolver, não ia direto na fórmula, na lousa. As aulas de piano eram assim. A Elisete puxava a partitura e mandava tocar essa frase. A segunda vez eu não olhava a partitura isso é aprender a tocar de ouvido. É valido? Sim!O compositor parte dai para escrever. Resultado: anos 60, você ligava unm rádio, ouvia Jovem Guarda.
E Bossa Nova?
Lembro-me de que as primeiras coisas que ouvi de Bossa Nova questionei-me: “-Espere um pouco. Essa música é diferente!”. Lembro-me da primeira vez que ouvi “Garota de Ipanema”. Eu era garoto, sentava ao piano e tocava.  Ouvia-se muito rádio. Em Americana só tinha uma: Rádio Clube de Americana,AM, o gerente era Geraldo Pianhanelli, a rádio era dos irmãos Duarte. Saiu um disco dos Beatles, alguém tinha, nós não tinhamos dinheiro para comprar, eu estava em uma calçada de um barzinho, conversando, quando chegou de São Paulo o Castro dizendo: “-Gente, olha o que eu comprei!”. Era um disco de vinil, compacto, não me lembro se era uma ou duas musicas de cada lado do disco do Sgt. Pepper's. Beatles. não tocava na rádio, demorava para chegar. Iamos a casa de algum colega para escutar. Fazíamos a festinha americana, cada um levava um prato com alguma coisa, colocavamos a música tocando e nos reuniamos, garotos e garotas. Toda casa tinha piano, nas festas de aniversário, sobrava para mim a tarefa de tocar. Foi inaugurada a piscina, a quadra de futebol de salão, a quadra de basquete, a quadra de hoquei,  do Clube Rio Branco, na decada de 60, e tinha o Salão de Baile que todos os sábados tinha soirée, com 14 anos podia ir. O Clube Rio Branco fez o maior sucesso, pegou uma diretoria espetacular. Com o ginásio do Rio Branco , larguei o piano, minha mãe não gostou quando troquei o piano pelo esporte. Passava o dia inteiro no Rio Branco. O Ginásio Estadual Presidente Kennedy ficava ao lado do Clube Rio Branco, a tarde quando terminava as aulas ia pegar uma piscina. Naquela época quem estudava no Kennedy usava paletó e gravata, trocava de roupa, punha o “calção” saia da piscina, colocava o uniforme de novo e ia embora. Foram anos assim. A parte de esportes do Rio Branco desenvolveu-se muito,  Americana teve um time de Hoquei de Patins que era excelente, vinha a Portuguesa de Desportes jogar em Americana.
O hoquei é um esporte de elite?
O equipamento era caro. É um esporte violento porém bonito de se ver.
Como você tornou-se um violinista?
Um dia eu estava na fábrica, apareceu uma pessoa o Sr.Agostinho Campaner Paparotti, eu o conhecia, ele tinha uma marcenaria, queria falar com o meu pai. Eu ouvi de longe os dois conversarem, o Agostinho dizendo ao meu pai “- Porque você não volta?” Passaram-se uns dias, tocou o telefone novamente, a fábrica tinha só um telefone, o número era 1871, ficava na minha mesa, não tinha ramal. Era o Seu Agostinho procurando pelo meu pai. Meu pai não gostava de dirigir, ele disse-me: “- Você precisa me levar na marcenaria do Agostinho”. Quando cheguei encontrei um local com um grande número de peças de violino, arco de violino, violoncelo,tinha até uma harpa. O homem era um luthier! Do outro lado havia uma banca com um senhor italiano, já idoso, trabalhando, escavando as madeiras. O Seu Agostinho era um músico amador, que nunca tinha abandonado a profissão. Era um músico amador que depois passou a ser profissional integrante da Orquestra Sinfonica de Americana, tocava junto com o musico de renome internacional, Paulo Celso Guimarães de Souza. Eu freqüentava os concertos, gostava muito de ir também para os concertos da Orquestra Sinfônica de Campinas.
O seu pai teve uma atuação marcante junto a comunidade em Americana?
Ele trabalhou por mais de 30 anos para a Igreja Santo Antonio, era da comissão das festas do mês de junho, a Igreja Católica fundou uma orquestra em uma creche em Americana, a “Creche Irmã Doracina Saraiva”.
Como era o Seu Agostinho?
Era muito hospitaleiro, tinha tempo para tudo, dizia: “- Venha aí na hora em que você quiser!”. Lembro-me que voltei um dia, ele tinha umas ferramentas que eu nunca tinha visto na vida, goivas, entalhamento de madeira, consertava uma harpa, aqueles chaveamentos, aquilo encanta. Um sábado fui até lá, Seu Agostinho disse-me que estava cansado de convidar o meu pai para voltar a tocar, perguntou-me se eu não tocava nenhum instrumento, disse-lhe que tocava piano. Ele disse-me: “Vem ai! Eu te ensino alguma coisa de violino!” Resultado: comecei a fazer aulas com ele, do zero! O tempinho que sobrava aos sábados, lá pelas três horas da tarde eu ia para lá. Um sábado o Agostinho disse-me: “-Waldir! Eu preciso ir para Salto tocar! Vai ter um concerto! Você quer ir comigo?” Ele não falou com todas as letras, mas era para que eu fosse dirigindo o automóvel. Teve um domingo que ele me disse: “- Waldir, eu preciso ir para São Paulo, preciso fazer aula com Altea Alimonda”. Uma noite Seu Agostinho disse-me: “ Esta começando uma orquestra em Piracicaba, você não quer me levar?”. Viemos, foi na casa do Seu Waldir Belluco, estava presente Justo Moretti Filho. Foi ele quem nos orientou em um episódio em que a carteira do CREA veio incompleta, Ele era professor da ESALQ e Conselheiro do CREA. Ele me convidou para participar da orquestra. Lembro-me da primeira vez em que pisei em um palco, no Teatro Dr.. Losso Netto. Eu pisei no palco tremendo. Tudo é experiência na vida.  Seu Justo Moretti me incentivou a ter aulas com o Seu Waldir Belluco. Fiz aulas com ele por seis ou sete anos, tivemos um regente que um dia disse: “-O Lar dos Velhinhos vai fazer 95 anos, vou levar o coral para lá e preciso levar a orquestra também”. Domingo de manhã, quando entrei, vi aquela igreja, o lago, pensei: “-Mas que lugar!” Piracicaba tem um lugar desses!”. Depois de um mês meu sogro estava morando no Lar dos Velhinhos  de Piracicaba. Ele saiu bem mal de Americana, a Irmã Hilda que cuidava dele, ela não é uma Irmã, é uma Santa. Ele sarou, tivemos que comprar roupas novas, ele engordou, nada mais servia. Passou a ter qualidade de vida, andava para todos os lugares. Cheguei um dia no Lar, perguntei pelo meu sogro: “ Cadê Seu Alcides?”.Responderam-me que ele tinha saído. Retruquei: “ –Mas não está autorizada a saída dele sozinho!” . A pessoa  disse-me: “ Ele saiu com o Dr. Jairo Ribeiro de Mattos!” então presidente do Lar dos Velhinhos.  Dali a pouco apareceram os dois, Dr. Jairo descobriu que ele tinha trabalhado a vida toda na Fazenda Dierberger, ficaram grandes amigos.



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