Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

sábado, setembro 25, 2010

EVANGELINA (EVA) DE BARROS BELLA

JOÃO UMBERTO NASSIF 
Jornalista e Radialista 
joaonassif@gmail.com
Sábado 25 de setembro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana 
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.teleresponde.com.br/ 
ENTREVISTADA: EVANGELINA (EVA) DE BARROS BELLA

O casarão onde se localiza o Museu Histórico Sorocabano foi construído pelos escravos de João de Almeida Pedroso em 1780. Passaram pelo casarão oito moradores, o último deles foi Joaquim Eugenio Monteiro de Barros, o “Quinzinho de Barros”, de cujos filhos a Prefeitura de Sorocaba conseguiu o patrimônio que dá nome ao Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros. Em 1842 o casarão recebeu a visita mais importante de toda a sua existência, a Marquesa de Santos, que vivia com o Coronel Rafael Tobias de Aguiar, e que por causa da Revolução Liberal ocorrida naquele ano, ali se asilou, pois na casa de Tobias, na cidade, era grande o movimento dos revolucionários. 
Uma das netas de Quinzinho de Barros, filha de Milburges Prestes de Barros Bella e Vicente de Paula Bella é Evangelina (Eva) de Barros Bella, nascida na Rua Dona Inácia Uchoa, Vila Mariana, São Paulo, em 12 de julho de 1939. Ela relata a sua infância transcorrida no Jardim Paulistano, para onde a família havia mudado. Lembra-se dos casarões da Avenida Paulista, da suntuosa mansão do Conde Francisco Matarazzo, situada na mesma avenida que veio a ser
demolida e o terreno transformado em estacionamento.
                                Belvedere existente onde hoje é o MASP




Fotos da Mansão Mattarazzo


                                        
Mansão Mattarazo sendo demolida, anos 80
Tem na lembrança a figura de um ilustre passageiro que embarcava no bonde, Washington Luís Pereira de Sousa, o décimo terceiro presidente do Brasil, deposto e exilado, viveu muitos anos nos Estados Unidos e posteriormente na Europa. Regressou ao Brasil em 1947 e faleceu em São Paulo a 4 de agosto de 1957.
                                  Famoso bonde "camarão"

Bonde na Avenida Paulista em 1966

   
                      
 
 
                                                                 Washington Luiz
                                                   

Casou-se com Carlos Maria, homem de grande cultura, célebres amizades, um dos precursores da Rádio Eldorado, pertencente ao Jornal O Estado de São Paulo. Ela conserva até hoje um belo exemplar de livro com tiragem limitada, com a dedicatória do autor, Vinicius de Moraes.

Livro com dedicatória de Vinicius de Moraes para Carlos Maria

       Carlos Maria de Araujo
                                                           
Desde menina, Eva transitou por um ambiente de muita cultura, em uma época em que o romantismo dominava, poetas eram pessoas aclamadas, intelectuais incensados, havia glamour, sofisticação. Atualmente Eva reside em companhia de seus cães em uma agradável residência no Lar dos Velhinhos de Piracicaba. Sempre sorridente busca na memória as lembranças tão queridas, com a alegria de quem soube muito bem o que desejava da vida. Foi uma mulher arrojada para a sua época sem, contudo transigir com seus valores e princípios. Eva casou-se com Carlos Maria de Araujo, poeta português nascido em Lisboa em 9 de abril de 1921, ele em 1949 foi morar na Suíça, passando por uma breve temporada na Inglaterra veio morar no Brasil, iniciou sua colaboração no Jornal O Estado de São Paulo e na Rádio Eldorado, colaborou com artigos para diversos jornais brasileiros, publicações britânicas e americanas. Assinou por longos anos a crônica satírica “Aos Domingos”, publicada no jornal “O Estado de São Paulo”. Em 20 de agosto de 1962, a caminho da Inglaterra, faleceu na queda do avião na Baia da Guanabara.  A obra de Carlos Maria de Araújo é composta por quase uma centena de poemas, reunidos em quatro livros, que cobrem pouco mais de uma década de produção poética, de 1950 a 1962, é um poeta injustamente esquecido, tanto no Brasil como em Portugal, com obras reconhecidas por críticos como Sergio Millet e Jorge de Sena. As universidades brasileiras estão redescobrindo a obra de Carlos Maria de Araújo. 
O seu avô paterno tinha amizades importantes?
Ele fazia parte de uma minoria alfabetizada, foi amigo de Júlio César Ribeiro Vaughan, conhecido popularmente como Julio Ribeiro, que entre outras coisas criou da bandeira do Estado de São Paulo, escritor famoso por suas obras, como o romance “A Carne”, publicado em 1888. Julio Ribeiro ficou muito doente, com tuberculose, e foi tratar-se em Santos, deixando sua mãe aos cuidados do meu avô, ela não queria sair de Sorocaba. Julio Ribeiro tinha uma vida muito interessante, era filho de um trapezista americano de circo e de uma mineira. Sorocaba tornou-se um marco obrigatório para os tropeiros devido a sua posição estratégica, eixo econômico entre as regiões Norte, Nordeste e Sul. Com o fluxo de tropeiros, o povoado ganhou uma feira onde os brasileiros de todos os Estados reuniam-se para comercializar animais, tornando-se uma localidade muito importante, isso nos séculos XVIII e XIX.
A família da senhora tem fortes laços com a cidade de Sorocaba?
Tanto pelo lado materno como também do paterno a origem é Sorocaba. São famílias de longa tradição na cidade, sendo que os meus pais fazem parte dos poucos que saíram para morar em outra cidade. Tiveram oito filhos, o mais velho Vicente de Paula, foi diretor da Acesita, o segundo filho Cezar de Barros Bella era aviador, na época da Segunda Guerra ele fez o curso de piloto militar nos Estados Unidos, assim que tirou o brevê acabou a guerra. Voltou ao Brasil e passou a trabalhar na aviação comercial, o primeiro emprego foi na REAL - Redes Estaduais Aéreas Ltda., transferiu-se para a VASP, onde se aposentou. Em seguida nasceu a minha irmã, Maria Cecília, nutricionista, outro filho era o Celso de Barros Bella, que entrou na Varig, como aviador, onde se aposentou. A quinta filha é nutricionista, a Joana. O sexto filho era advogado e jornalista, José Joaquim, fazia a coluna de teatro na Folha de São Paulo. Depois veio o Ivan, jornalista, que fez o primeiro curso de publicidade que houve no Brasil, no Museu de Arte Moderno, ainda na Rua Sete de Abril. Ele fez carreira até trabalhar no jornal Estado de São Paulo. Eu sou a filha mais nova.
A senhora era estudante quando a sua família mudou-se da Vila Mariana para outro bairro?
Fomos morar no Jardim Paulista, na Rua José Clemente, 255, é uma rua paralela a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, começa na Rua Estados Unidos e termina quase na Avenida Brasil. Quando mudamos para lá eu fiquei muito encantada com o lugar, havia jardim em frente as casas, na esquina morava a família Arens que era parente do Washington Luiz, ele andava no bonde com a gente, isso foi depois que ele voltou do exílio. Na época o bonde era uma condução muito utilizada por todos, e o bonde Jardim Paulista era famoso, havia o fechado que por ser vermelho era denominado “camarão”, e existia também o aberto. Nós não tínhamos as condições financeiras das pessoas que moravam na Avenida Paulista, mas culturalmente estávamos no mesmo nível, o meu pai sempre cuidou muito da nossa formação, acredito que fui um dos casos raríssimos que na época usou aparelho ortodôntico. Só quando adulta é que fui me aperceber que fomos criados em um sistema onde o que importava era os valores da nossa família, que sempre priorizou os estudos e a moral, isso dentro de uma liberdade incomum para a época.
O pai da senhora trabalhou no SENAI?
Meu pai era professor, foi diretor de ensino, foi secretário do ensino profissional, quando o suíço Roberto Mange criou o SENAI ele convidou o meu pai para ir trabalhar com ele, comissionado junto ao SENAI. Papai falava fluentemente o francês, tendo facilidade de comunicação com o suíço.
Como era o Jardim Paulista na época?
Existiam casas enormes, com pessoas famosas, lembro-me do Campos, um dos primeiros publicitários de São Paulo, foi de sua autoria o lançamento da publicidade do Toddy  o garoto Toddy era irmão dele!  Outra vizinha era Dora Ferreira da Silva, poeta e tradutora de Rilke  A Avenida Paulista era linda, eu adorava aquelas casas. Tomava o bonde em frente a casa do Matarazzo, que ocupava m quarteirão. Conheci a família Suplicy, minha prima Renata Borges casou-se com o Anésio, irmão mais velho do hoje senador Suplicy, eles tinham uma casa enorme na Alameda Santos, quase esquina com o Parque Siqueira Campos. Eu era “vela” (uma criança pequena que acompanhava os namorados para relatar depois aos pais se alguma coisa acontecera de errado) da minha prima Renata.
A senhora chegou a ver a construção do MASP na Avenida Paulista?
Senti muito quando foi construído o MASP, antes era um parque com um belvedere, de onde se avistava São Paulo inteira de lá, eram realizados bailes no local. Era muito lindo, tinha um ar europeu. Sou contra o modernismo acabar com o que existe de bonito. Lembro-me da Maria Anna Olga Luiza Bonomi, escultora, pintora, neta de Giuseppe Martinelli, construtor do primeiro arranha-céu da América Latina, ela muito amiga do meu irmão, ela era casada com o Antunes Filho, famoso diretor de teatro.
Conheceu uma costureira muito famosa, estabelecida na Avenida Paulista?
Era a Madame Rosita! Tive um desfile especial,  foi feito para mim e para meu marido,   eu casei-me aos dezenove anos com Antonio Maria de Araujo. (A Maison Madame Rosita ficava no número 2.295 da Avenida Paulista, num casarão que possuía frigorífico especial para as suas peles). È interessante, mas eu estava sempre onde estavam acontecendo às coisas.
Como foi o seu ingresso na Rádio Eldorado?
Meu irmão José Joaquim, queria que eu trabalhasse, eu não queria, ele tinha muitos amigos na Radio Eldorado, inclusive o ator Rubens de Falco que era locutor, a rádio que estava iniciando suas atividades. Fui levada até a rádio quase a força, eu fiz o teste com o Carlos Vergueiro, ele era ator do TBC, no tempo da Cacilda Becker. O Vergueiro me perguntou: “-Você sabe inglês?”, respondi: “-Não!”, ele perguntou: “- Você sabe datilografar?”, respondi: “-Não!”, ele então me disse: “-Está empregada!”. A rádio só tinha o Promusica era vendido para empresas. (Não havia a FM doméstica e a música ambiente entrou em moda. A Eldorado criou um canal em FM transmitindo música ambiente e instalava um receptor da Telefunkem marca FREMO, a válvulas, com sistema de amplificação e alto falantes, cobrando uma taxa pelo serviço). A Eldorado ficava na Major Quedinho,  no sétimo andar, o correspondente em Paris comprava os discos lançados na Europa. Fui trabalhar na discoteca, fazia o fichário e a cronometragem dos discos, não vinha estampado o tempo de duração de cada musica. A rádio era um ponto divertidíssimo, com um auditório muito moderno, acústica perfeita, o engenheiro técnico era o Dr. Macedo. O maestro Diogo Pacheco fazia programa de música latino-americana.
Como você conheceu Carlos Maria Pereira Pinto de Araujo?
Ele trabalhava na Eldorado, era redator de programas de música americana, entendia muito de jazz, fazia programas de canções de todo mundo, trabalhava das 9 ao meio dia na rádio e depois ia para o jornal Estado de São de São Paulo, onde era redator da seção internacional, ele era fluente em seis idiomas. Casamo-nos na Bolívia, ele tinha 36 anos, era desquitado. Eu o conheci em 1957, em 1962 ele faleceu. Aos 23 anos fiquei viúva com uma filha de 2 meses. Fui fazer Ciências Sócias na USP á noite e trabalhava em revistas técnicas, como redatora. Teve um período em que tive que parar de estudar, tinha entrado para a faculdade em 1967, em 1968 eu estava na Rua Maria Antonia, onde fazia o curso de Ciências Sociais, no primeiro dia de aula já havia uma greve na escola, não houve aula, no dia seguinte ao chegar ao trabalho meu colega comentou: “-Você começou bem!” e mostrou-me a primeira pagina do Jornal da Tarde, onde havia uma fotografia do pessoal em greve, e eu aparecia nela! Naquela época era um perigo, o Dops já fichava, os meus antecedentes familiares eram suspeitos aos olhos do regime da época, meu marido tinha se indisposto com o regime salazarista, meu tio Emerenciano Prestes de Barros que foi deputado federal, prefeito de Sorocaba, foi cassado como comunista, meu irmão era presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa do Sindicato dos Jornalistas. Fui convidada a participar do grêmio estudantil. O Celso Ming estava formando-se na época, como sociólogo. Fiquei na comissão de imprensa do CEUPES - Centro Universitário de Pesquisas e Estudos Sociais - Centro Acadêmico de Ciências Sociais – USP.
A senhora participou da quebradeira que houve na faculdade?
Em 1968 fecharam a faculdade, o CCC, Comando de Caça aos Comunistas tinha ligações com os estudantes do Mackenzie, que ficava em frente a nossa faculdade, na Rua Maria Antonia. Eles eram da extrema direita. Nunca foi falado isso? Tenho a minha obrigação de falar. Se pudéssemos falar quem são muitos dos nossos políticos! Nós estávamos fazendo prova de antropologia, as luzes apagaram de repente, ficamos em frente ao prédio esperando a energia retornar, o pessoal do Mackenzie passou a nos provocar, atirando ovos em nós. Voltamos pacificamente á classe. Existe uma passagem subterrânea que atravessava da Rua Maria Antonia até a Rua Dr. Vila Nova, onde havia a faculdade de economia da USP. Eu estava em casa quando a faculdade foi fechada.
A senhora foi procurada por alguma autoridade da época?
Apesar de ter ligações perigosas, não fui procurada por ninguém, nunca fui fanática por nada, acho que todos os fanatismos se assemelham.

sexta-feira, setembro 17, 2010

CLOTILDES FERNANDES PETERS

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 18 de Setembro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
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                    ENTREVISTADA: CLOTILDES FERNANDES PETERS
A constante aquisição de novos conhecimentos é uma característica do Homo sapiens, motivado pela necessidade, curiosidade ou simples acaso. O processo de evolução cientifico é exponencial, a velocidade de novas conquistas é cada dia maior. Absorver novos conhecimentos, acompanhar a enorme carga de informações sem atropelar principios básicos do individuo, tem sido objeto de grandes estudos. Uma das maiores beneficiarias dessa corrida tecnologica é a área de saúde, e a odontologia tem um histórico que impressiona a qualquer um que analise sua evolução. As novas gerações frequentam o consultorio dentário com naturalidade, algo impossível de imaginar até algumas décadas, quando ir ao dentista era no conceito do paciente quase a ida a um ritual da inquisição. Novos materiais, novas técnicas, o dominio da situação com muita psicologia aplicada por parte do profissional, fizeram mudanças radicais em curto espaço de tempo. É grande o número de pacientes que fazem o tratamento preventivo, atualmente o objetivo maior é tratar e não extrair um dente, sabe-se que há uma estreita relação entre a saúde bucal e o estado de saúde do individuo. Dra. Clotildes Fernandes Peters, é um dos nomes que protagonizaram enormes mudanças na área odontológica em Piracicaba. Uma trajetória brilhante, superou as dificuldades ocorridas na família, advindas da mudança de uma vida abastada no sítio para uma luta enorme pela sobrevivência na cidade, com muita garra e determinação formou-se em odontologia, onde transformou os conhecimentos científicos adquiridos em beneficios para os seus pacientes e pacientes de outros profissionais orientados por ela. A sua paixão pela profissão é tão intensa que ela emociona-se ainda ao discorrer sobre o seu trabalho. Dedicou-se a vida acadêmica, aposentando-se na Faculdade de Odontologia de Piaracicaba, FOP, que é integrante da Universidade de Campinas, Unicamp. É doutora em ciências com enfase em odontopediatria, cadeira da qual foi professora titular. A Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas - Regional de Piracicaba, indicou a Dra. Clotildes para receber o título de Cirurgiã Dentista de 2010.
A senhora passou sua infância em Piracicaba?

Sou natural de São Pedro, os meus pais José Fernandes e Thereza Carone tinham uma propriedade rural no municipio, era um lugar lindo com muita fartura, lembro-me das brincadeiras de infância, tinha contato com animais, subia em árvores, uma vida típica de quem morava em zona rural, juntamente com meus irmãos Jorge e Natalia. Ingressei na Escola Mista do Bairro do Limoeiro, onde tive como professora Dona Irene Valério. Meus irmãos e eu íamos todos juntos para a escola, o caminho era feito a pé. Lembro-me que a escola era muito longe, passávamos por uma fazenda que tinha muito gado, existia uma espécie de corredor feito com arame farpado, que era por onde caminhavamos. Faziamos esse caminho com sol ou chuva, um trajeto que hoje vemos quanto perigo oferecia nos dias chuvosos, quando a intensidade da chuva aumentava, de forma inocente, abrigávamos as vezes sob a copa de árvores.

Quantos anos a senhora tinha quando a sua família trocou o sítio pela cidade?

Tinha 10 anos quando mudamos para Piracicaba, vindo residir na Rua Saldanha Marinho, proximo á Rua do Rosário, era rua de terra, a casa existe até hoje. Meu pai foi trabalhar com caminhão e minha mãe passou a fazer bordados, ela bordava ponto cruz. Concluí o estudo primário no Grupo Moraes Barros, indo fazer o ginásio na Escola Industrial, no período da manhã eram as aulas normais do curso ginasial, e a tarde eram de trabalhos manuais, aprendi a bordar, a cozinhar, bordei cada coisa! Foi uma escola que sempre me estimulou, eu gostava de jogar tenis de mesa, adorava jogar basquete.Sempre gostei de atividades manuais. O curso científico fiz no Instituto Piracicabano, tive aula de química com o célebre Prof. Demosthenes Santos Correa, francês com Josaphat de Araújo Lopes. O cursinho para prestar vestibular na faculdade de odontologia eu fiz no próprio Instituto Piracicabano, havia alunos da faculdade de odontologia que davam aulas á noite.

Como era o seu lazer?

Na época os pais não ofereciam tanta liberdade como existe hoje. Íamos aos cinemas da cidade nas sessões de matinê nos cines Broadway, São José, eu ia muito ao Politeama. Ao carnaval fui após ter ingressado na faculdade.

A mãe da senhora teve um estabelecimento comercial nessa época?

Para dar suporte financeiro á família ela montou um salão de cabeleireiro na Rua Alfredo Guedes, eu passei a ajudar nas horas em que não estava estudando. Fui cabeleireira, no tempo em que o pessoal gostava daqueles penteados “armados”, tempo em que se usava o laquê, a cerveja no cabelo, tinha gente que fazia questão de passar cerveja no cabelo, algumas traziam de casa, era utilizada diluída em água e aplicada na hora de enrolar o cabelo, antes de secar no secador.

O que a levou a fazer a opção para a odontologia?

No salão, quando eu fazia um penteado, sentia que estava fazendo algo interessante, estava dedicando-me ás pessoas, a torná-las mais bonitas. Eu tinha como vocação alguma atividade ligada a saúde, as opções eram a enfermagem, a odontologia ou a medicina. Cheguei a visitar a escola de enfermagem em Campinas, e senti que estaria um pouco limitada em meu interesse por estudos mais abrangentes. O curso de medicina tinha alguns aspectos que me eram desfavoráveis. Odontologia por tudo que se apresentava era a minha melhor opção.

Na época a FOP funcionava em que local?

Era no prédio da Rua D.Pedro II, 627, sou da quarta turma formada pela FOP em 1963, na época não havia aqui especialização, nem mestrado.

Ainda estudante de odontologia a senhora já trabalhava na faculdade?

Trabalhei na disciplina de patologia, eu tinha jeitinho para desenho, examinava na microspia eletrônica as lâminas e desenhava os objetos de pesquisas, participei da revista Biologia Oral.

Após concluir o curso qual foi a próxima etapa da senhora?

Inicialmente trabalhei como voluntária, depois como assistente, permaneci algum tempo na patologia e depois fui para a odontopediatria, que era a área que eu queria, o titular da cadeira era o Prof. Dr. Moyses Friedman. No final de 1964 comecei a dar aulas, lecionando na disciplina de odontopediatria.

A odontologia nessa época era muito diferente da que existe atualmente?

Entrei em uma época em que deu-se a formação de novos departamentos. A odontologia existente até então era muito extracionista, o departamento de cirurgia era muito movimentado, e o próprio povo ja tinha a opinião formada de que era necessário extrair os dentes quando surgisse algum problema. A área em que comecei a trabalhar visava a prevenção da saude bucal, com o passar dos anos queriamos reabilitar a dentição e ensinar quais eram os cuidados necessários á prevenção.

Houve uma mudança de cultura com relação a saúde bucal?

A odontologia hoje é completamente diferente daquela existente quando comecei, quer seja pela forma como era vista pela população, ou pela tecnologia que sofreu uma imensa evolução. A prevenção contra a carie iniciou com o fluor, vieram os selantes, que ao nascer os dentes, após uma limpeza dos sulcos, prepara-se aquele esmalte para receber o selante. O selante é uma substância bem transparente, fininha, que fica dentro do sulco e impede a agressão da bactéria. É aplicado na criança a cada seis meses, ou um ano, período em que se marca o retorno dela em função das épocas em que o dente irá nascer, para protege-lo.

Houve uma época em que no imaginário de uma parcela da população, ir ao dentista significava quase submeter-se a uma sessão de tortura?

É verdade. Talvez o fato da pessoa ir ao dentista quando ela já estava com dor, já dirigia-se ao dentista com ansiedade, alguns mesmo sem dor ainda tem um pouco de ansiedade. Eu tinha crianças que queriam vir até o dentista.

Além das aulas que a senhora lecionava, mantinha também o seu consultório?

Comecei a lecionar em tempo parcial, por seis horas permanecia na faculdade e o resto do tempo ia para o consultório, após uns cinco anos passei a dedicação exclusiva á orientação e pesquisa, e ao ensino. Ao aposentar-me pela FOP, em 1992 passei a trabalhar em meu consultório, onde permaneci por mais dezoito anos. Tive que me preparar emocionalmente por uns dois anos, para deixar de trabalhar, estava muito ligada à odontologia. Eu amava a faculdade, sofri para deixá-la, depois sofri para sair do meu consultório. (Nesse momento Clotildes fica muito emocionada).



Em sua formação profissional a senhora participou de muitos cursos e congressos?

Até chegar a ser professor titular tem que ser composto um currículo de realizações é tarefa árdua, a seqüência é doutorado, livre docência, adjunto e titular, tudo feito através de provas públicas junto a comissão examinadora. Tem que ser feito um trabalho de pesquisa experimental, fazer o memorial, ministrar aulas. Atingi o meu objetivo, que era de ser professora titular de odontopediatria.

Dos seus filhos, alguém seguiu a odontologia como profissão?

Não, apenas o meu genro. Minha família sempre acompanhou a minha agenda bastante carregada, eu ia para congressos, dei cursos em outras faculdades, cheguei a dar cursos até no Mato Grosso.

Quando a senhora conheceu o seu marido?

Com uns dezessete anos trabalhei como balconista na Padaria Central que pertencia a meus pais, e na época o rapaz que veio a ser meu marido, Ricardo Peters Filho, morava na mesma rua, a Boa Morte, em frente ao Colégio Assunção. Eu estudava no Piracicabano, nós ficamos flertando por muitos anos, até que ele me pediu em namoro. Casamos, tivemos três filhos, Priscila, Sofia e Ricardo.

A senhora tem fama de tirar o medo do paciente ir ao dentista, não só de crianças, mas também de adultos. Qual é o segredo?

Sou muito tranqüila, basta conversar com o paciente, transmitir confiança, sempre o deixei bem à vontade. Um pouco antes de encerrar as minhas atividades no consultório tive um paciente com dezoito anos, meu professor de dança, que tinha verdadeiro pavor de ir ao dentista, aos poucos ele foi percebendo que o seu temor não tinha sentido de existir. Hoje ele diz que não se sente mais temeroso em ir ao dentista.

Em Piracicaba a senhora é a pioneira em odontopediatria?

Na cidade com o titulo de doutor fui a primeira odontopediatra. O professor Renê Guerrini, sobrinho de Leandro Guerrini, fotografou muitos casos que atendi na faculdade. No inicio os odontopediatras eram o professores Antonio Carlos Usberti, José (Tico) Rensi, o Renê e eu. Tinhamos muitos alunos, a contratação de mais professores era dificil, orientavamos os mestrados, doutorados, alunos do CNPq, Capes, FAPESP. Quando começamos com o curso de pós-graduação a Cecilia Gatti Guirado após concluir o curso foi contratada como asistente. Hoje a Regina Maria Pupin Rontani é titular da cadeira, tenho o orgulho dela ter sida iniciada comigo, eu a orientava em pesquisas.
Como foi ser pioneira no tratamento de crianças, em uma época em que adultos se apavoravam com tratamento dentário?
Existem crianças dificeis de serem tratadas, as vezes a criança ainda é um bebê com menos de um ano e já tem cárie rampante ou cárie de mamadeira, a prevenção deve ser feita com limpeza após as principais mamadas, tem mães que são excelentes, cuidam muito bem da saúde bucal do bebê. A criança com cárie não mama, não se alimenta, porque aquilo dói muito.

Esse tipo de informação chega a todas as mães de recém nascidos?

Eu não estou nessa área de saúde pública, mas acredito que há gente trabalhando para que essas informações sejam transmitidas á população. A divulgação dos cuidados necessários para a prevenção é feita junto a escolas, entidades assistenciais. Equipes de alunos de odontologia, acompanhados por seus professores, vão até as escolas, onde orientam as crianças, como proceder na escovação dentária. São ações que passaram a existir com excelentes resultados, o que existia anteriormente era a extração do dente assim que o paciente sentisse dor, sendo que é só tirar a cárie e colocar o cimento.

O tratamento de bebês era feito como?

No consultório a mãe sentava-se na cadeira do paciente com a criança no seu colo, após a preparação necessária, o tratamento era feito com a maior rapidez possível, sempre com uma assistente muito bem qualificada, eu trabalhava em pé. As condições clínicas do pequeno paciente eram avaliadas previamente pelo seu pediatra.

Como é feito o tratamento á pacientes especiais?

No caso do paciente agressivo o atendimento é feito em hospital, com a intervenção sendo assistida por médicos, não há outra forma de serem tratados.

A mãe deve preocupar-se com a saúde bucal da criança a partir de quando?

No período da gestação a futura mamãe tem que ter uma boa orientação médica, se há necessidade de algum tipo de suplementação alimentar. Do odontopediatra ela tem que ter informações de como irá atuar quando o nenê nascer. A partir do terceiro mês de nascimento ela pode levar a criança ao odontopediatra, há crianças que já no terceiro mês apresentam algum sinal de dentição. A higiene bucal é fundamental, todo excesso do leite deve ser retirado do dentinho da criança, principalmente à noite, período em que a criança dorme mais, é quando o ph da saliva é mais baixo e pode atacar o esmalte. Após a erupção dos dentes a mãe pode aplicar a pasta dental, apropriada para recém nascidos, isenta de flúor, a pasta com flúor deve ser usada com a criança já treinada a não engolir a pasta dental, isso ocorre geralmente a partir de cinco anos.

Os cuidados com a saúde bucal do recém nascido estão restrito ás famílias com maior poder aquisitivo?

Essas orientações de higiene ela poderá receber de um profissional que esteja em um posto de saúde, e são perfeitamente viáveis ás mães. Cheguei a fazer palestras para gestantes orientando-as nesse sentido. Quando a criança já tem a dentição completa ao ser levada para fazer as revisões, é aplicado um evidenciador de placas de bactérias, para saber se a criança está com seus dentes bem escovados ou não. Há mães que realizam uma boa escovação, outras não. Isso pode suceder-se por anos, você evidencia as placas e torna a encontrá-las, não é um fio de abacaxi ou de carne, visíveis a primeira vista.

O dentista experiente consegue ter informações sobre os hábitos de higiene bucal do paciente?

É perfeitamente possível obter-se várias informações a respeito. No consultório sempre busquei a prevenção, salientando a importância da escovação. Se o paciente ao retornar após um ano voltasse a apresentar placas de bactérias tinha que aprender de novo a escovar os dentes. Eu fazia isso até com paciente adulto, pois havia adultos medrosos que freqüentavam o consultório de odontopediatra, ou ainda aqueles que atendidos ainda crianças, ao crescerem queriam continuar a serem tratados lá mesmo.





sexta-feira, setembro 10, 2010

THAIS DE ALMEIDA DIAS

JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
Sábado 11de setembro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/
                                    



                                       ENTREVISTADA: THAIS DE ALMEIDA DIAS

A voz clara, com a entonação perfeita, é inconfundível, trata-se da locutora e apresentadora Thais de Almeida Dias. Professora em instituições de ensino, como USP, FIAM, ocupou importantes cargos em diversos veículos de comunicação, entre eles a direção da Rádio MEC no Rio de Janeiro, cuja origem é a primeira estação de rádio brasileira a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada em 20 de abril de 1923 por Edgard Roquete Pinto e Henry Morize. Roquette Pinto ao doar ao Ministério da Educação a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, exigiu que a emissora sempre mantivesse sua missão educativo-cultural.
                                Os pioneiros da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro
                                 (Fotos do arquivo da Rádio MEC)
A Rádio MEC nasceu em 7 de setembro de 1936. Thais de Almeida Dias teve grande influência na Fundação Padre Anchieta, que engloba a TV Cultura e Radio Cultura AM e FM. Foi diretora da Rádio Cultura FM. Conviveu com celebridades do rádio e da televisão, sofreu com a tragédia abatida sobre o colega Vladimir Herzog, que tinha sido nomeado para dirigir o jornalismo da TV Cultura. Foi jurada de televisão, onde novos talentos se apresentavam buscando um lugar no meio artístico. Criou o programa “Viola, Minha Viola” no ar até hoje. Com licenciatura em História pela USP, mestrado de jornalismo, cursou jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thais de Almeida Dias é eloqüente, cheia de novas idéias, daquelas pessoas que sempre estão criando, incentivando, pavimentando estradas para os talentos que surgem. Recentemente decidiu adquirir um chalé, que é na verdade uma casa confortável, decorada com muito bom gosto, situada na Primeira Cidade Geriátrica do Brasil, o Lar dos Velhinhos. Mal abriu as malas e já está pensando em instalar uma rádio comunitária nessa verdadeira cidade encravada na área central de Piracicaba. Natural de Assis, onde nasceu em 14 de outubro de 1935, com um ano de vida Thais de Almeida Dias passou a morar em Itu, cidade que adotou como se fosse a sua terra natal. È filha de Zeni de Almeida Dias, musicista, organista da igreja e de Euclides de Marins e Dias, poeta, escritor, radialista, que tinha o pseudônimo de Humberto de Mattos. Estudou na Escola Regente Feijó, onde cursou o primário e a escola normal, na época no interior não havia faculdades como existem atualmente.
Após a conclusão do curso normal, onde a senhora foi lecionar?                                            
Como professora primária, fui lecionar na região da barranca do Rio Paraná, na divisa com o Mato Grosso. Entrei em um programa desenvolvido pela Universidade de São Paulo que mandava professores para o Norte e o Nordeste do país. Trabalhei dois anos em São Luiz no Maranhão, onde voltei a fazer rádio, na Rádio Educadora Rural, de São Luiz. Voltando para São Paulo fui convidada para trabalhar na Rádio Cultura de São Paulo, isso foi no final da década de 60, o diretor era Antonio Augusto Soares Amora, mais conhecido como Professor Amora, o presidente era José Bonifácio Coutinho Nogueira, ficava na Rua Carlos Spera, 179. Eu fazia a produção de programas educativos, como “Encontro com a História”, “Saúde Para Todos” e assumi um programa sertanejo-educativo que levava mensagens para o agricultor, chamava-se “Almanaque Rural”, levei ao ar este programa por nove anos, era o programa que abria a emissora. Eu vinha do folclore, fui assistente do Prof. Rossini Tavares de Lima, já tinha uma formação para a música caipira, não a música sertaneja e sim a caipira.
(Da esquerda para a direita: Cid Moreira, Sérgio Chapelin, Haroldo Costa, Ricardo Cravo Albin)
Qual é a diferença entre musica sertaneja e musica caipira?
A caipira é a música realmente folclórica, criada espontaneamente, com aceitação coletiva, que foram as primeiras músicas gravadas por Cornélio Pires, inclusive com a turma de Piracicaba. A mídia apropriou dessa música caipira e foi-se transformando na música sertaneja seguindo os modismos até chegar hoje no famoso sertanejo universitário.

O que é sertanejo universitário?

Na verdade, estou tentando entender.
                                                Fachada recente da Rádio MEC
                                                (Fotos do arquivo da Rádio MEC)
Na Cultura a senhora permaneceu por quantos anos?

Trabalhei lá por 25 anos, mas nesse período estive no Rio de Janeiro, eles me emprestaram para dirigir a Rádio Ministério da Educação e Cultura do Rio de Janeiro, era uma rádio muito gostosa para trabalhar, com mais de 200 profissionais, como Artur da Távola (pseudônimo de Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros), Sérgio Vieira Chapelin, Cid Moreira, Maestro Isaac Karabitchevsk, Miguel Proença, Ricardo Cravo Albin, Haroldo Costa, um time de primeira. A Rádio Cultura ficava no centro, quase em frente à Central do Brasil, na Praça da Republica, 141. Foi a primeira rádio criada no Brasil, pelo Roquette Pinto, em 1936 ela foi doada para governo, na época era Getulio Vargas, sob duas condições: a sede deveria ser sempre no Rio de Janeiro e a rádio deveria ser sempre educativa. Vargas mandou um telegrama á Roquette Pinto agradecendo pela doação da rádio, ao que ele respondeu: “-Não estou doando ao governo, mas ao povo brasileiro”.
                                                               Arquivo LPs
                                                           (Fotos do arquivo da Rádio MEC)
Após um período no Rio de Janeiro a senhora voltou á São Paulo?
Permaneci no Rio de Janeiro por dois anos, voltei para a Cultura, onde passei por um período na Televisão Cultura, quando criei e produzi por dois anos o programa “Viola, Minha Viola”, que permanece no ar até hoje, na TV Record eu era jurada do programa “Canta Viola” do Geraldo Meirelles.

Após aposentar-me, por 14 anos morei na cidade de Treze Tílias, em Santa Catarina, lá há a Rádio Tropical FM, que apesar de ser uma rádio pequena, faz um bom trabalho. Eu assessorava essa rádio.
Em Piracicaba a senhora já está atuando em alguma rádio?
A senhora sente falta do seu trabalho em rádio?
Faz apenas um mês que estou em Piracicaba, ainda não deu tempo!
A senhora tem seus planos para essa área?

Tenho!

Na Rádio Cultura a senhora criou diversos programas?

Após voltar do Rio de Janeiro, passei a fazer na Rádio Cultura AM o programa “Canto da Terra”, que era líder de audiência da AM, e fui chamada a dirigir a Rádio Cultura FM que só toca musica erudita, eu trabalhava com os dois pólos, a música clássica e a música sertaneja.

Qual é o público da Rádio Cultura?

Eu fazia pesquisa de audiência, quando fui diretora da Rádio Cultura FM era editado um boletim por assinatura, com toda a programação da rádio, na época chegamos a ter nove mil assinantes, se projetarmos significa muito mais em audiência, quando eu queria fazer a pesquisa mandava dentro desse boletim para os assinantes, não era nem frete pago, mas eles iam até o correio, me enviavam, faziam questão de responder o questionário. Tudo isso era tabulado, sabíamos quais eram os horários em que ouviam a programação da rádio, as preferências do ouvinte, e o tipo de público. Em São Paulo oitenta por cento do público da Radio Cultura FM tinha escolaridade de nível superior, é interessante observar que os arquitetos e engenheiros davam preferência á nossa rádio, seguidos pelos professores, músicos, tínhamos também um público menos escolarizado, pois a cultura independe da escolaridade, era formado por pessoas que também aprenderam a gostar de música clássica.
A rádio comercial faz uma programação voltada a atingir o seu público e dar o melhor retorno financeiro. A emissora com respaldo governamental pode definir a programação voltada para a educação e cultura. Há possibilidades de a rádio comercial voltar-se também para a cultura e educação, sem prejuízo financeiro?
Perfeitamente! É só começar, não precisa ser no horário inteiro. Tenho a certeza de que se uma rádio comercial lançar uma vez ao dia um programa de uma hora ou duas horas que seja a transmissão de uma música mais elaborada, com letras melhores, um programa bem cuidado, programa com entrevistas bem cuidadas e interessantes, naturalmente que irá ter audiência. A Rádio Tropical de Treze Tílias começou a fazer isso, lançando os programas opcionais aos domingos, ela passou a ter uma enorme audiência. Você pode fazer um programa cultural com música sertaneja, fui amiga do Pedro Chiquito, Parafuso, Nhô Serra, Horacio Neto, convivi com todo esse pessoal. A minha tese de mestrado em jornalismo foi sobre a informação através da música sertaneja. Essas músicas mais antigas contam sempre uma história. “O Menino da Porteira” é um jornal! É um jornal policial, mas é um jornal! A música “Disco Voador” em sua letra conta: “Tem gente que não acredita. Acha que é fita os mistérios profundos Quem tem um filho pode ter mais filhos. O Senhor também pode ter outros mundos.” Com isso muita gente que não acredita em disco voador, passa a acreditar, porque ela transfere a informação no nível do entendimento do público. Usa a linguagem para fazer a interpretação da notícia para ele.
É uma forma de levar cultura sem impor uma linguagem?

Quando você dá uma noticia no rádio, cada um interpreta de acordo com sua capacidade de entendimento. Mesmo que você faça um programa sertanejo e coloque esse tipo de letra, analise essa letra, o ouvinte irá entender. Essas músicas mais atuais, que chamamos de “música urbaneja” onde aborda temas como “de dia a gente briga, á noite a gente beija” (Leandro e Leonardo: E se de dia a gente briga. À noite a gente se ama.), isso mostra um aspecto violento da periferia. Se você analisar a letras dessas brigas todas irá analisar a periferia, a violência dela. Você tem como interpretar através da própria musica sertaneja a violência.

A senhora nunca se imaginou fora do rádio?

Quando eu fazia o programa “Viola, Minha Viola” na TV Cultura, em uma ocasião eles me disseram que eu estava acumulando rádio e TV, que deveria escolher um ou outro veículo de comunicação, a minha resposta foi de que se tivesse que me definir iria escolher o rádio. Acho o rádio muito mais criativo, mais interessante de se fazer, desde que seja o rádio em que você possa realmente colocar uma produção programada, não o “vitrolão”!

O que a senhora denomina de “vitrolão”?

É colocar uma música para tocar e dizer uma bobagenzinha qualquer, colocar o ouvinte ao telefone, com aquela conversa boba. O ouvinte pode participar pelo telefone, com alguma coisa mais interessante.

As rádios dos grandes centros estão passando por um período de transformações?

Rádio atualmente deve ser voltado para a comunidade, deve pensar muito nos problemas da comunidade, daquela sua audiência e fazer os programas dirigidos para ela, é muito importante a participação da comunidade.

Há uma clara definição de ouvintes de rádios do interior e rádios da cidade de São Paulo?

A rádio do interior tem um público bem variado e programas diversificados, para várias camadas sociais, vários horários. As rádios paulistanas são segmentadas. Há rádios para público sertanejo, erudito, para público entre 30 e 40 anos, para público mais jovem, para mais antigos, aquelas que têm som ambiente, as rádios que fazem mais jornalismo, outras se dedicam mais aos esportes. O jornalismo está em alta, temos a Jovem Pan, Bandeirantes, CBN, Eldorado. São exemplos de rádios que estão se dedicando muito ao jornalismo. É mais fácil atingir ao público para o qual ela está dirigida, ela vai direto aquele segmento. Não conheço muito bem a estrutura das rádios do interior, mas acredito que estão voltando-se mais para o “vitrolão”, que é mais fácil tocar música, colocar um comercial e pronto. A mão de obra necessária é encontrada mais facilmente. A rádio de Treze Tílias ganhou um grande público com o jornalismo, embora seja uma cidade com apenas cinco mil habitantes, ficava em um ponto estratégico, entre outras cidades do seu tamanho e também próxima a grandes cidades. As festividades existentes na região ela cobria, fez um acordo com as câmaras municipais para noticiar o que acontecia nessas cidades, com isso pegou uma audiência muito grande com excelente resultado financeiro. Outras rádios pequenas da região não faziam esse tipo de trabalho.

O seu ingresso em rádio deu-se em que cidade?

Foi como locutora da Rádio Emissora Convenção de Itu - AM - Prefixo ZYE-3. Abria o programa agradecendo a audiência, ao microfone fulano de tal, aquela coisa meio antiga que hoje não se usa mais, era tudo ao vivo, comerciais, de vez em quando rádio-teatro, se tivesse vontade de tossir tinha uma chavinha que desligava o microfone, tossia voltava a ligar. Qualquer erro saia no ar, não havia outro jeito. Em rádio-teatro as folhas ao serem lidas tinham que ser viradas com o máximo cuidado para o ruído não ser transmitido pelo microfone. Muitas vezes ao virar uma folha acabava virando-se duas, o narrador se perdia e todos que o acompanhavam perdiam-se juntos. Tinha que voltar a folha, todos ficavam inventando alguma coisa para ir ao ar até regularizar a leitura. A sonoplastia era feita ao vivo, aconteceram em várias emissoras, diversos erros clássicos. Na Radio Cultura quando fazíamos as séries educativas elas eram dramatizadas, falar ao ouvinte questões de saúde apenas como uma leitura ou uma entrevista ficava chato, inventava-se uma historinha para chegar ao núcleo do assunto tratado. O produtor recebia o texto seco e árido em linguagem médica, ele tinha que inventar uma historinha para colocar uma historinha agradável ao ouvinte.

A senhora tem músicas de sua autoria que foram, gravadas?

Sou a letrista de “Campos e Manhãs”, gravadas por Chico Rei e Paraná, “Vaqueiro Velho”, com Carlos Cesar e Cristiano, “Tapete de Couro” com Brazão e Brazãozinho, há também uma gravada por uma cantora portuguesa.

Quem apresenta programa sertanejo deve utilizar um sotaque apropriado?

Acho que o apresentador deve ser autêntico, não há a necessidade de forçar um sotaque. Lembro-me que o meu pai até brincava dizendo: “Barbina, muié do sordado, de sarto arto na carçada”.

Como à senhora vê a relação da internet com o rádio?

O pessoal tem baixado muita música pela internet, temo mais pelo futuro das gravações em mídias como disco, CD, ou DVD.

Algumas noticias veiculadas pela internet, muitas vezes são lidas para o ouvinte, qual sua visão a respeito?

É uma nova versão do Gillette-Press! (Os chefes de reportagem liam os jornais da manhã e recortavam as notícias com lamina de barbear). Ainda existe um grande público que não está acessando a internet naquele momento, o seu trabalho não inclui acesso ao computador, porém está com o radinho ligado.




sábado, setembro 04, 2010

MARIA MAGALI GUIDOLIN E JOSÉ ADROALDO GUIDOLIN

JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 04 de setembro de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
http://www.tribunatp.com.br/
http://www.teleresponde.com.br/

                                                                       Magali e José
ENTREVISTADOS: MARIA MAGALI GUIDOLIN E JOSÉ ADROALDO GUIDOLIN
A Avenida 31 de Março em Piracicaba é hoje uma das mais movimentadas artérias que cortam a cidade, com seus enormes galpões abrigando estabelecimentos comerciais que atuam nas mais diversas áreas. Onde hoje é o Bairro Higienópolis até algumas décadas era uma região de muitas chácaras, com as características próprias de imóveis de zona rural, animais de grande porte, água de poço, criação de aves, caprinos, suínos, plantas frutíferas. Rancho Alegre é um nome que permanece na lembrança dos piracicabanos nascidos há 50 anos ou mais. Um confeiteiro húngaro, Luiz Acs, deixou seus país, veio para o Brasil, foi encaminhado para a lavoura de café, onde suas mãos de artista adaptaram-se ao trabalho pesado. Após algum tempo saiu do campo e foi para São Paulo onde acabou indo trabalhar no Fasano, templo gastronômico que até hoje aguça o refinado paladar de clientes portadores de carteiras bem recheadas, a elegância e a mística do Fasano sempre acompanhou a evolução da cidade de São Paulo, em mais um século de existência ocupou diversos endereços em uma clara demonstração de sintonia com sua clientela. Nesse ambiente de muito glamour Luiz Acs exerceu o ofício de confeiteiro, aprendido em sua pátria. Determinado dia, acompanhado de seu pai, veio até Piracicaba, provavelmente em prospecções de novas oportunidades, e acabou permanecendo em Piracicaba. A cidade de São Pedro é conhecida no Brasil e em outros países pela qualidade e beleza dos seus bordados.
Museu Gustavo Teixeira - São Pedro
O inicio dessa atividade que veio a ser um cartão de visita de São Pedro, foi pelas mãos de Joana de Barros Furlani, que em 1929 começou a ministrar aulas de bordado a dezenas de alunas, os famosos trabalhos em ponto cruz, que requer habilidade e muita paciência de quem se propõem a bordar.
                                    Ponto-cruz: um bordado típico de Dona Joana
Quando dona Joaninha mudou-se da cidade, uma de suas alunas, Ana Hermelinda Baltieri prosseguiu seu trabalho, que teve, a partir de 1940, reconhecimento público. A partir dessa época, o bordado produzido em São Pedro tornou-se um importante ramo de negócio devido às muitas compras feitas por turistas. O Museu Gustavo Teixeira guarda trabalhos e objetos de uso pessoal de Dona Joana uma alusão ao “Museu do Bordado Joana de Barros Furlani”. Dona Joana casou-se em São Pedro. Contraiu segundas núpcias em Piracicaba, com Luiz Acs, ambos construíram o Rancho Alegre, que fabricava doces e salgados, tinha amplas instalações para festas sociais, além de um restaurante freqüentado por muitos piracicabanos ilustres. As coxinhas, empadinhas, croquetes, bom bocados, folhados, caçarola italiana bolos com decoração artística minuciosa, assados muito comuns na época, leitoas, patos, cabritos, o famoso frango com polenta. Em 25 de maio de 2008, o prefeito Barjas Negri esteve no Jardim Higienópolis onde junto à comunidade e, demais autoridades entregou oficialmente o novo centro de lazer do bairro denominado “Joana de Barros Furlani” com área de 2.575 metros quadrados, totalmente gramada, um campo de areia cercado por alambrado, brinquedos, bancos de madeira, iluminação, lixeiras, calçadas e pista de caminhada, mesa de jogos, bebedouro e total iluminação. Nesta entrevista sua filha mais nova, Maria Magali Guidolin nascida em Piracicaba a 25 de março de 1943, juntamente com seu marido o engenheiro agrônomo José Adroaldo Guidolin nascido em Piracicaba a 26 de novembro de 1940 ajudam a resgatar lembranças do Rancho Alegre.                                                         
A mãe da senhora é muito conhecida na cidade de São Pedro?
Minha mãe, Joana de Barros Furlani, nasceu em 24 de junho de 1914 e faleceu em 20 de março de 1996, foi ela quem levou o bordado para São Pedro, atualmente tem seus trabalhos em bordados no “Museu do Bordado Joana de Barros Furlani”, de São Pedro, há até a cadeirinha utilizada por ela para bordar quando ainda era interna do Lar, foi doada pelas irmãs para o Museu do Bordado. Minha avó faleceu quando minha mãe era ainda criança, o meu avô ficou viúvo com os filhos para criar e educar, naquela época a melhor opção foi encaminhá-la para o Lar Escola Maria Nossa Mãe. Ela foi criada e educada pelas freiras, recebendo a sua formação e inclusive aprendendo a bordar. Saindo do Lar, ela foi morar em São Pedro com uma família, e foi onde também se casou. Em São Pedro ela passou a ensinar as pessoas a bordar, na rua, nas calçadas, na praça. Á tardezinha as pessoas se aproximavam dela e com ela aprenderam a bordar. Essa história foi pesquisada e publicada pelo jornal O Estado de São Paulo.
Ela mudou-se para Piracicaba?
Juntamente com meus três irmãos, frutos do seu primeiro casamento, ela passou a morar na Rua São José em Piracicaba, bordando, fazendo doces e salgados para manter a casa. Após algum tempo ela conheceu o meu pai, Luiz Acs.
O pai da senhora nasceu onde?
Meu pai, Luiz Acs, veio da Hungria, imigrou com seus pais, ao chegar ao Brasil foi trabalhar na lavoura de café em São Manoel, mesmo tendo feito o curso de confeiteiro na Hungria, ele dizia que quando começou a trabalhar na lavoura “pegava no guatambu”! Conforme melhorou a situação foi morar em um sítio adquirido pela sua família em Mogi das Cruzes. O meu avô paterno faleceu em Piracicaba em 1956. Antes de vir morar em Piracicaba meu pai foi confeiteiro no Fasano em São Paulo, isso em uma época em que tinha que ter muito conhecimento para ser confeiteiro. Em Piracicaba ele trabalhou entre outros lugares, como gerente na Fábrica de Massas Cacique, de propriedade de Augusta Maigton, que fabricava macarrão, bolachas. (José Aldroaldo lembra-se de que entre os doces feitos pelo seu sogro, a elite piracicabana da época consumia muito o bolo folhado, e o Apfelstrudel que é um folhado de maçã).
                                              Livro de receitas de Luiz Acs
A senhora realizou seus estudos onde?
A Pré-Escola eu estudei no Externato São José, o primeiro ano no Sud Mennucci, depois no Instituto Piracicabano, e o curso técnico na Escola Cristovão Colombo a Escola do Zanin. Morávamos na Rua São José, quando em 1948 mudamos para a chácara que passou a ser o Rancho Alegre. Lembro-me que eu e minha irmã íamos para a Escola Sud Mennucci caminhando pela linha do trem da Sorocabana. Era uma verdadeira viagem! De manhãzinha caminhávamos em direção da escola quando víamos o trem da Companhia Paulista passar, indo para São Paulo.
O Rancho Alegre surgiu como?
Lembro-me que antes de ser adquirida a área da chácara, havia a opção de comprar uma casa muito grande, localizada a Rua Voluntários de Piracicaba, entre a Rua Governador Pedro de Toledo e a Rua Santo Antonio, outra opção que surgiu na época era adquirir a Padaria Jacareí, que existe até hoje com esse mesmo nome. Meus pais decidiram por adquirir área da chácara. Passamos a fazer doces e salgados, como folhados, empadas, coxinhas, croquetes, torta de banana, mil folhas, sonhos que eram entregues em vários colégios de Piracicaba como no Dom Bosco, Piracicabano, Colégio Assunção e outras escolas, eram levados, em um tabuleiro, por carrinho de tração animal. Eu estudava na Escola Zanin, levava meu lanche, meus colegas queriam também, com isso passei a levar uma bolsa com material de escola e outra com doces e salgados. Passava uma listinha onde meus colegas escreviam quais doces ou salgados iriam querer que eu levasse. Eu ia a pé, caso chovesse tinha levar um par de calçados para trocar.
                                                           Festa de casamento no Rancho Alegre
José Adroaldo algumas pessoas vendiam os doces e salgados produzidos no Rancho Alegre, de porta em porta?
Lembro-me de Dona Justina, com seu avental impecável, uma cesta grande, vendia bom-bocado, creme, empada. Era uma das pessoas, e ficou na história da cidade que ela percorria, eu era um garoto de uns 10 anos.
                                                                      Apfelstrudel            
O acesso ao Rancho Alegre era por onde?
Pela Rua Benjamin Constant, até a Avenida Dr. João Conceição, continuando até a Avenida Bairro Verde, nesses trechos as ruas eram calçadas com pedregulhos, a Rua Benjamin Constant era utilizada nos dois sentidos de direção. Caminhando pelos trilhos atingíamos a Avenida Independência, algumas vezes sentíamos medo de alguém desconhecido, e dávamos uma volta, indo sair na mesma Avenida Independia, só que na altura da Santa Casa, uma volta enorme. Era uma área formada por chácaras, muitas com mangueiras, as ruas existentes hoje não havia na época. A própria Avenida Independência era apedregulhada, não era asfaltada. Onde hoje é o Teatro Municipal Dr. Losso Neto era o campo de futebol do Ipiranguinha. Na Avenida Independência as construções existentes eram a Santa Casa e o Seminário Seráfico São Fidélis, muitas casas foram construídas depois. No começo da Avenida Luciano Guidotti havia uma vilinha de casas, ainda há alguns vestígios dessas casas. Na esquina da Rua Riachuelo com a Avenida Independência surgiu uma das primeiras construções, um sobrado que ficava do lado esquerdo da Riachuelo.
José Aldroaldo, em que ano o senhor começou a namorar a sua esposa Magali?
Foi em 1960, eu morava na Rua Moraes Barros, 1410, tomava o ônibus que subia a Moraes Barros, da Auto Viação Marchiori, descia no ponto em frente a Santa Casa e de lá vinha cortando o caminho para chegar até o Rancho Alegre.
Magali, a senhora lembra se ao mudar para a chácara que veio a ser denominada de Rancho Alegre, havia alguma construção?
Tinha que ter uma casa, porque se nós estávamos mudando da Rua São José para uma chácara, éramos sete pessoas, meu pai, minha mãe, meus três irmãos, minha irmã e eu, a casa existente deveria ser o suficientemente grande para comportar todos nós. As melhorias foram sendo feitas, até que se resolveu fazer esse rancho enorme, ai passou a ser uma atividade industrial, onde tudo era dimensionado para atender uma grande demanda. O movimento maior era aos fins de semana. No período em que o Comendador Antonio Romano presidiu o XV de Novembro, os jogadores tomavam suas refeições no Rancho Alegre. Muitos casamentos celebrados em Piracicaba tinham suas festas feitas no Rancho Alegre. Pode-se dizer que era o que hoje chamamos de buffet, contratávamos garçons para o serviço, a capacidade era para atender até duzentas pessoas, com toda estrutura necessária, as louças eram brancas, talheres de inox. O fogão era enorme, a lenha, com uma característica interessante, ele não ficava em um canto como encontramos sempre os fogões a lenha, foi construído de forma que permitisse o acesso por ambos os lados. Lembro-me que ainda criança, colocava um caixote de madeira para alcançar as panelas.
Qual foi o período de atividades do Rancho Alegre?
O inicio foi em 1948, época em que não havia nem energia elétrica, permaneceu com a família toda trabalhando até 1965. Não houve continuidade por parte dos filhos, meu pai ainda permaneceu trabalhando por mais alguns anos, minha irmã foi lecionar em São Sebastião, no litoral norte, a minha mãe dividia-se entre São Sebastião e Piracicaba. Meu pai fazia muitos salgados para a Célia Perches, ele ia entregar a pé. Os salgados servidos no Clube de Campo de Piracicaba eram feitos por ele. As festas finas de Piracicaba eram abastecidas com salgados, doces, bolos confeccionados pelo meu pai. Além de atender a encomendas de varias partes da cidade, tivemos duas casas de lanches, uma na Rua XV de Novembro e outra na Rua Moraes Barros, funcionando ao mesmo tempo.
No Rancho Alegre eram criados animais para serem abatidos e servidos aos clientes?
Criávamos muitos perus, cabritos, carneiros, porcos. Havia uma horta, era uma chácara muito grande. Meu tio João e minha tia Gertrudes Garcia moravam na chácara, os animais eram cuidados por ele. O Nestor foi uma das pessoas que trabalhou por muitos anos conosco, mais tarde ele trabalhou na Tutti Bonna Massa.
Como surgiu o nome Rancho Alegre?
Minha mãe que deu esse nome, ela gostava de muita gente reunida. Aos sábados e domingos eram realizados os almoços freqüentados por muitas famílias. Nós tínhamos uma nascente de água maravilhosa na nossa chácara, meu pai servia muitos professores da ESALQ, que vinham almoçar no Rancho Alegre, a água da nascente em analise feita por eles foi considerada potável. Telefones só existiam o da Paróquia Imaculado Coração de Maria (Igreja da Paulicéia) e o nosso, que era o número Rural 20, servia a todos os moradores vizinhos.
Há quem ainda se lembre dos doces e salgados feitos no Rancho Alegre?
Até hoje me procuram, querem que eu faça um daqueles bolos que meu pai fazia, infelizmente não posso atender.
A senhora gosta de futebol?
Gosto muito, eu ia assistir aos jogos no Estádio Roberto Gomes Pedrosa, a famosa “Panela de Pressão”, tinha a minha carteirinha de associada do XV de Novembro.

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