HOMENAGEM POSTUMA AO AMIGO,
Francisco de Assis Ferraz de Mello
Todo mundo me quer bem”
em 02/05/2010
O entrevistado do jornalista João
Umberto Nassif de hoje é o professor Francisco
de Assis Ferraz de Mello, que conta um pouco sobre sua memória na Esalq e da
Piracicaba antiga.
Francisco de Assis Ferraz de Mello
Todo mundo me quer bem”
em 02/05/2010
O entrevistado do jornalista João
Umberto Nassif de hoje é o professor Francisco
de Assis Ferraz de Mello, que conta um pouco sobre sua memória na Esalq e da
Piracicaba antiga.
Foto: Daniel Damasceno - Professor Francisco de Assis Ferraz de Mello: “Sou
normalmente chamado por Chico”
Francisco de Assis Ferraz de Mello conserva a alma de um menino. Nascido em
Piracicaba em 31 de maio de 1928, estará completando 82 anos de idade no
próximo dia 31. Com seu jeito simples, sem o deslumbre dos que conquistam seu
lugar ao sol, Chico Mello, como é carinhosamente chamado pela maioria de seus
amigos, ilustra muito bem o poder da vontade e determinação do ser humano. É a
testemunha viva da evolução de Piracicaba, desde os tempos em que a Avenida
Carlos Botelho era apenas uma via em terra nua, cortando as chácaras existentes
onde hoje é uma área nobre de Piracicaba. A Esalq ficava “afastada” da cidade.
O calouro Chico Mello, para fugir dos trotes dados pelos veteranos, muitas
vezes “cortou caminho” pelas chácaras existentes até chegar à sua casa próxima
ao Rio Piracicaba. Duas presenças constantes em sua vida são o Rio Piracicaba e
a Esalq. Em sua casa hospedou por muitos anos Felix do Amaral Mello Bonilha, o
folclórico Nhô Lica. Chico Mello é professor titular aposentado pela Esalq,
escritor, poeta, diretor do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba,
membro da Academia Piracicabana de Letras cujo patrono é Nelson Camponês do
Brasil, do Clube dos Escritores. Uma característica muito própria de Chico
Mello é ver sempre o lado positivo do ser humano, ele não se deixa levar pelos
rótulos dados a determinada pessoa. O alcance da sua visão vai além, prefere
ver as boas qualidades do indivíduo, de uma forma extremamente natural,
equilibrada.
Quantos filhos seus pais
tiveram?
Meus pais Alcindo Almeida Mello
e Zoraide Ferraz de Mello tiveram seis filhos, eu sou o segundo filho. O mais
velho é o Dirceu, eu, Oroty, Ibraim, conhecido na cidade como Susso, Zenaide e
Alfredo José. Meu pai era funcionário público estadual, trabalhava como Fiscal
de Algodão. Ele visitava as áreas de cultivo de algodão, fiscalizava as
fabricas que descaroçavam, desfibravam o algodão, na época havia diversas em
Piracicaba. Ele era muito brincalhão, tinha um bom coração.
Você tem apelido?
Sou normalmente chamado por Chico. Quando criança tinha o apelido de Nacho.
Seus estudos foram feitos onde?
Estudei no Grupo Escolar Moraes Barros, fiz parte do ginásio no Externato São
José, que funcionava no prédio onde mais tarde funcionou a Faculdade de
Odontologia, outra parte do ginásio eu estudei no Colégio Piracicabano. Na
Escola Normal Oficial, hoje Sud Mennucci, estudei o colegial.
Você foi aluno do Frei Paulo de Sorocaba?
Fui aluno de desenho, não cheguei a pintar. Isso foi em 1940. Nós íamos ao
Seminário Seráfico São Fidélis.
Qual era a sua forma de lazer?
Era o lazer da criançada pobre.
Nunca viajei, jogava bolinha de vidro, virava pião, jogava futebol, tinha nosso
timinho, era o Infantil Brasil. Não tínhamos uniforme, nem chuteiras. Apenas a
bola! Jogávamos perto da cadeia, hoje Primeiro Distrito Policial. Em frente à
cadeia moravam os soldados, os carcereiros. Eu morava ali, na esquina da Rua
Vergueiro com a Rua São José. Apesar de reformada, a casa existe até hoje. Meu
pai gostava de pescar. A minha infância passei junto ao Rio Piracicaba. Pescava
no Vai-E-Vem, trecho do Rio Piracicaba entre a Rua São José e a Treze de Maio,
uma extensão de uns duzentos metros, lá havia um bosque, que deu lugar a
avenida.
Você nadava no Rio Piracicaba?
Não, meu pai nunca deixou. Duas coisas que nunca fiz na minha infância: andar
de bicicleta e nadar. Já adulto, comprei bicicleta para meus filhos, foi quando
aprendi a andar de bicicleta!
Vocês observavam a chegada de
presos pela polícia?
O soldado descia a pé com a pessoa que estava sendo presa, e eu não me recordo
de ter visto algum preso chegando algemado, eles acompanhavam a autoridade sem
rebeldia.
Aos 22 anos de idade, estudante
da Esalq, você passou a ser arrimo de família?
Minha mãe teve que assumir sozinha a responsabilidade de criar os filhos, só
que por motivos de saúde ela tinha muitas limitações. Eu não tinha nem trajes
apresentáveis para ir à escola. Não tinha o material necessário para estudar,
nem mesmo o básico exigido. Um professor de matemática vinha de São Paulo para
lecionar na Esalq, exigia que os alunos usassem paletó e gravata, além de
possuírem instrumentos como régua, esquadro, compasso, compatíveis com seu
nível de ensino. Eu possuía esquadro, compasso, iguais aos utilizados nas
escolas primárias, de pouca precisão. Fui proibido por ele de frequentar as
suas aulas, quer pela minha vestimenta, quer pela falta de material adequado
para acompanhar as suas aulas. Na época não havia a obrigatoriedade de frequentar
as aulas. Eu realizei as provas desse professor, passei conquistando as notas
necessárias, a nota média como dizíamos, sem ter que prestar os exames finais.
Algumas pessoas da Esalq
perceberam suas dificuldades e o ajudaram?
Um dia eu estava descendo do bonde na Esalq, um dos diretores do Centro
Acadêmico, conhecido como Maia, disse-me: “Chico, o Centro Acadêmico vai dar
uma bolsa de quinhentos cruzeiros por mês, se inscreva, mande uma cartinha que
você ganha a bolsa”. Acho que eles já tinham conversado a respeito, meus
colegas sabiam das minhas dificuldades. Ganhei a bolsa! É o que eu falo de vez
em quando, o pessoal participa de concurso de beleza, concurso disso, daquilo.
Eu entrei em concurso de pobreza e ganhei! Mais tarde Louis Clement, Diretor
Presidente da Fabrica Arethuzina Boyes me deu uma bolsa, já de mil cruzeiros.
Fui até o Centro Acadêmico e comuniquei que havia ganhado outra bolsa, passando
a que eu recebia para alguém mais necessitado. Com a bolsa de estudo vivíamos
eu e a minha família, na época meu irmão Susso já trabalhava. Em períodos de
exames eu reunia a minha roupa e praticamente morava por 15 a 20 dias em um dos
dois apartamentos situados no fundo da garagem, onde era a casa do diretor da
Esalq. José de Mello Moraes, o Melinho, que foi diretor da Esalq por 25 anos.
Eu era muito amigo do seu filho, José de Mello Moraes Filho.
Em que ano você formou-se?
Foi em 1953. O próprio Melinho, através do seu filho, me convidou para
trabalhar com ele. Fui trabalhar no departamento de Química Agrícola, que
funcionava no prédio existente até hoje. Isso foi em 1954. Ali fiz doutorado,
livre docência. A Universidade se reestruturou, havia muitas cadeiras afins,
que foram agrupadas, formando os departamentos existentes atualmente. Passamos
a integrar o Departamento de Solos e Geologia, o primeiro chefe foi Eduardo
Salgado, depois foi Guido Ranzanni. Em seguida Moacir Camponês foi o chefe do
departamento, em seguida eu assumi a chefia, em seguida veio André Martin Louis
Neptune, nascido no Haiti.
Você é religioso?
Não sigo nenhuma religião. Minha mãe era católica, meu pai era espírita.
Qual é o seu sentimento com
relação a Esalq?
Tenho uma profunda gratidão, foi onde tive a possibilidade de estudar, e eu
sempre gostei de estudar.
Quais são os seus títulos na
escola?
Todos da carreira universitária: doutorado, livre docência, que é o concurso
mais difícil da universidade, são três a quatro dias de provas. Enquanto você é
doutor não pode dar aulas teóricas, apenas aulas práticas. O professor livre
docente pode dar aulas teóricas. Não é todo mundo que gosta de dar aulas
teóricas. O professor que é livre docente adquire a independência para
pesquisa, sem tutela. Fui catedrático substituto. Cheguei à posição de
professor titular. Os cargos de diretor de escola, reitor, envolvem fatores
diversos, que vão além da carreira de professor. Tem que ter vocação especial
para ocupar essas posições.
Você gosta de poesias?
Gosto muito. Tenho três livros de poesias publicados. Depois que me aposentei
publiquei sete livros.
Quem era Nhô Lica?
Sei que ele era parente do meu pai, não sei precisar em que grau de parentesco.
Minha mãe contava que três meses após ela e meu pai casarem-se, Nhô Lica
apareceu em casa. Sentou, começou a bater um papo, como ele não ia embora
arrumaram um lugarzinho para ele ficar, nunca mais ele saiu de casa!
Como era a convivência com o Nhô
Lica?
Ele conversava bem, só que os assuntos dele giravam em torno de pedras
preciosas, diamantes, às vezes ele falava trechos em francês.
Esse comportamento dele é fruto de alguma desilusão?
Eu acho que ele nasceu assim. Tem algumas teorias. Recentemente me contaram uma
delas, que ele tinha algum dinheiro, um viajante chegou a cidade, fez amizade
com ele, e disse-lhe: “Você me dá esse seu dinheiro, vou para Minas Gerais e
vou comprar pedras preciosas, trago, vendemos e ficaremos ricos”. Nhô Lica
teria cedido o dinheiro para ele que nunca mais voltou. Isso não está escrito No meu livro sobre Nhô Lica.
Na construção da Catedral de Piracicaba foram colocadas pedras arrecadadas por
Nhô Lica?
Eu acho que ninguém sabe se foi. Quem poderia dizer alguma coisa a respeito
seria o Padre Rosa, que já é falecido. Nhô Lica levava muitas pedras ao Padre
Rosa, que talvez para não jogar fora ia colocando em algum canto. E deveria
existir um funcionário que foi amontoando aquelas pedras. Durante a construção
da Catedral falaram para pegar as pedras que o Nhô Lica trouxera e colocar
junto ao concreto. Isso eu não sei se é verdade.
Você chegou a frequentar o Teatro Santo Estevão?
Frequentei sim. Era simples, mas bonito. As cadeiras não eram almofadadas.
Eugênio Nardim dizia que a acústica era espetacular, ele tocava violino.
Para você todas as pessoas são
boas?
Eu nunca briguei na minha vida! Por que vou brigar? Nunca ninguém me ofendeu,
sempre respeitei a todos. Todo mundo me quer bem, na escola sempre fui muito
bem quisto. Um professor, já falecido, referia-se ao ambiente acadêmico como
“aquele serpentário”.
Você acessa a internet?
Estou aguardando um dos meus dois filhos me ensinarem.
Você lê bastante?
Leio jornais, revistas.
E livros clássicos?
Já li muito.
Qual o gênero de música que você
prefere?
Gosto muito de música popular. As músicas compostas pelo pessoal dos morros
cariocas são filosóficas. Veja a música de Cartola, “As Rosas Não Falam”:
“Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão, enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar para mim
Queixo-me às rosas, mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhava meus sonhos
Por fim”
Você vê muita poesia nessa
simplicidade?
Na letra da música Cartola diz: “Que bobagem falar com as rosas, elas não
falam”.
De cururu você gosta?
Gosto, eu assisti muito cururu
no Teatro Santo Estevão mesmo. Meu pai gostava de cururu e me levava junto,
ficávamos até as três, quatro horas da manhã.
Comício político em praça
pública era um programa comum naquela época.
Assisti muito e gostava. Cheguei a ver comício de Adhemar de Barros. Lembro-me
que durante o comício havia um enorme balão de ar com propaganda dele, e
alguém, provavelmente com uma espingarda Winchester atirou, esvaziando-a. Na
sua próxima vinda a Piracicaba, Adhemar se lamentava: “Furaram meu balão!”.
Adhemar de Barros dizia: “Sou barranqueiro do Rio Piracicaba”.
Você ainda criança frequentava
as margens do Piracicaba?
Íamos para a Rua do Porto, havia
muitas chácaras onde apanhávamos frutas e comíamos. Havia as olarias. Era tudo
chão de terra, não havia asfalto.
A Esalq, na época era afastada
da cidade?
Não existia Jardim Europa, Cidade Jardim, nenhum dos outros bairros que existem
hoje próximos à escola. Havia até uma olaria, por sinal de uma prima, da
família Fessel. Meu tio, Luiz Dias Ferraz, tinha uma chácara onde hoje só
existem residências. Na época em que eu fui calouro, fugia do trote dos
veteranos, pulava as cercas das chácaras e ia sair na Vila Boyes. O trote era
bravo, uma das tarefas era levar o calouro para fazer faxina nas repúblicas. Eu
tomei pouco trote, corria muito bem! Ninguém me pegava. A Avenida Carlos
Botelho era toda de terra. A noite não havia iluminação nenhuma. A Avenida
Torquato Leitão era um caminho de terra entre as chácaras.
Viajou de trem pela Companhia
Paulista?
Fui com meu pai, quando ele viajava a negócios. São Paulo não era a loucura que
é hoje. Foi lá que pela primeira vez vi camarão. Eu tinha uns 15 anos de idade.
Qual foi o seu primeiro carro?
Em toda a minha vida eu só tive três carros. O primeiro foi um Fusca, que mais
tarde vendi e permanece em bom estado até hoje.