Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

segunda-feira, novembro 10, 2008

Noedy Perecin
Foto by J.U.Nassif


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS

A Tribuna Piracicabana
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Entrevista: Publicada no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
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Entrevistado: NOEDY PERECIN


Utilizando a madeira como matéria prima, Noedy Perecin realiza verdadeiras obras de arte. Por muitos anos teve sua indústria trabalhando em larga escala, fabricando móveis, e peças que exigiam qualificação técnica na sua produção. Após aposentar-se, mostrou a sua verdadeira veia artística, realizando inclusive importantes obras de restauro em objetos de madeira. Em suas mãos a madeira torna-se dócil ao seu espírito criativo. Constituiu sua família, casando-se com a professora, pesquisadora e historiadora Dra. Marly Therezinha Germano Perecin com quem teve filhos. Noedy Perecin nasceu no dia primeiro de abril de 1934, estando hoje com 74 anos. Filho de Augusto Perecin, nascido em Rafard e Laudicéia Ferreira Perecin, natural de Itu.
O senhor é natural de Piracicaba?
Sou piracicabano. Nasci na Rua do Rosário, em frente á Escola Industrial. Aos seis anos de idade mudei-me para a Rua 13 de Maio, onde hoje está o prédio construído por Luciano Guidotti. Depois mudei para a Rua Voluntários de Piracicaba. Na época as ruas aqui eram ainda sem qualquer tipo de calçamento. Chão de terra. Tempo em que passava o bonde, havia o trem que ia para São Pedro, Santa Maria da Serra. Tomávamos o trem na estaçãozinha velha e ia até a Vila Rezende. Onde hoje é a Avenida Armando Salles, corria a céu aberto o Ribeirão Itapeva. Nós dávamos um pulinho lá para nadar, bebíamos a água do Itapeva! Para atravessar o córrego havia diversas pontes: nas ruas: Voluntários, 13 de Maio, Prudente de Moraes, Moraes Barros. Quando o Stolf montou a fábrica de cerveja foi construída a ponte da Rua XV de Novembro.
O senhor realizou seus estudos em que escola?
O grupo escolar eu fiz no Moraes Barros. Depois estudei no Colégio Piracicabano.
Em frente ao Grupo Escolar Moraes Barros havia uma fábrica de refrigerantes, o senhor a conheceu?
Conheci! Nós íamos até lá para assistir as garrafas estourarem! Na esquina das Ruas do Rosário e Voluntários havia uma vendinha onde tinha puxa-puxa, rapadura com coco, rapadura com amendoim coisinhas do tempo antigo. Era a vendinha do Bento Chulé.
Além do senhor seus pais tiveram mais filhos?
Tenho mais duas irmãs, Dionete Ferreira Perecin de Magalhães Gomes e Vera Lúcia Perecin Galesi.
Inicialmente onde a família do senhor estabeleceu as atividades comerciais?
Na Rua 13 de Maio, José Pinto de Almeida e Avenida Armando Salles de Oliveira. O nome da empresa era Irmãos Perecin, era constituída por quatro irmãos: meu pai e meus tios Afonso Perecin, Heitor Perecin, Ângelo Perecin. Meu tio Dionísio Perecin participou por um período muito breve, logo em seguida montou uma fábrica de rapadura no Bairro Areião. A fábrica Irmãos Perecin trabalhava com carpintaria e marcenaria, principalmente portas, janelas, carrocerias de caminhão. Eu entrei para a empresa como sócio, na época eu tinha 18 anos de idade. Com o tempo comprei a parte do meu pai. Um dos meus grandes clientes foi o Rizzolo da Coopersucar. Acabei conhecendo o Sr. Luiz Cantamessa, ele era sócio com o Sr. Antonio Girão em uma fábrica de cadeiras. O local onde ele tinha a sua fábrica havia sido vendido. Ele então passou a trabalhar junto a nossa indústria, que tinha uma área de terreno disponível, permanecendo por quatro anos. Nesse período montei uma serraria de toras. Comprava mato, derrubava as toras vinham para cá e eram processadas.
Quantos funcionários o senhor chegou a ter?
Contando todos inclusive aqueles que ficavam derrubando a madeira no mato, cheguei a ter 81 funcionários. Todos registrados. Isso eu digo com voz grossa. O empregado entrava, era registrado.
Em que local era retirada a madeira?
Derrubei toda a mata que formou a Barra Bonita. Foram 3 anos, havia 60 homens trabalhando. Eu ganhei a concorrência do governo para derrubar aquela área.
Que tipos de madeiras havia lá?
De tudo! Cedro, ipê, caviúna, cabriúva. Quando acabou a madeira, sobraram muitos galhos. O Vitório Polizel comprou tudo para fazer carvão. Ele fez carvão por mais de três anos.
Que tipo de carroceria de caminhão o senhor fazia?
Todos os tipos. O Walter Hans recebia um chassi Mercedes Bens por semana, vinha comigo fazia a carroceria, colocava uma segunda em cima, e ia para Brasília, onde vendia rapidamente tanto o caminhão completo como também a carroceria avulsa que ia em cima. Ele foi um grande cliente meu.
Aquele trabalho de entalhes na madeira da carroceria era um trabalho artesanal?
Era feito tudo com máquinas! Eu tinha 60 máquinas. Desengrossadeira de quatro faces, desengrossadeira simples, desempenadeira de comprimento de dois metros e oitenta centímetros, serras de fita de todos os tipos, respingadeira, tupias que fazem molduras, tinha uma serra Tissot que dava início á serra da tora. Comprei de Pedro Cobra uma serra francesa que tinha 10 laminas de alta rotação. Era como cortar um pão. Entrava o toco certinho e saiam treze tábuas, a maioria da madeira serrada nessa máquina era jequitibá. Passei a fabricar um outro tipo de porta, compensado com colméias dentro. O compensado vinha de uma empresa chamada Wagner de Joinville. Eu tinha prensa e montava essas portas. A colméia interna era feita com sobras de madeira.
Havia cupim nessa época?
Muito pouco. Quando era serrado ipê, não ficava um cupim no quarteirão! Isso ocorre com o ipê roxo. O ipê amarelo é bom para fazer o assoalho da carroceria. Depois eu passei a comprar o pinho de Pato Branco. Vinham aquelas carretas feitas com madeira: o caminhão, a tabua de pinho sobre quatro rodas. Vinha de FNM, o grande caminhão que corria até 50 quilômetros por hora! Dirigi bastante FNM. Em uma ocasião comprei um caminhão Leyland. Vendi para a Usina Costa Pinto, no tempo em que o Arnaldo Ricciardi era diretor. Trabalhei bastante para a usina, fiz muitos serviços lá. Construí muitos tonéis aproveitando o jequitibá, que é uma madeira muito boa para fazer tonel.
O senhor conheceu os tonéis do Del Nero?
Conheci! Ele era um amigão meu. Era o maior artista em tonel. Ele inclusive passou a fazer tonel para ser assentado em carroceria de caminhão. Para fazer um tonel não é necessário utilizar uma gota de cola. O Del Nero fez uma série de tonéis de canela-sassafrás (Ocotea odorífera), foi uma maravilha aquilo, tinha um aroma maravilhoso!
O senhor estudou no Dom Bosco?
Muitos anos depois de sair do colégio fui estudar química no Dom Bosco.
O senhor freqüentava cinema?
Freqüentava o Colonial, São José, Broadway, Politeama e depois veio o Palácio.
Na época era comum quadrar jardim?
Eu não quadrava, mas ficava em frente ao cinema Politeama. Freqüentava muito os bailinhos, que havia em diversos lugares. Na Sociedade Italiana era um dos locais onde eram realizados esses bailinhos. Foi lá que eu conheci a Marly.
Como foi a primeira impressão que o senhor teve dela?
Despertou a minha atenção quando vi aquela morena bonita, delicada. Veio o Edson Rochelle com o correio elegante. Eu então escrevi á ela, algo do tipo “Podemos nos conhecer?”. Era música ao vivo, daqueles bailinhos de formatura. Assim começou. No fim dos dias passei a freqüentar a Escola Normal onde ela estudava. Eu ia até lá só para acompanhá-la na saída das aulas.
Como o senhor e a Dra. Marly resolveram casar-se?
Foi assim, foi indo, até que um dia andando na Rua Governador Pedro de Toledo eu disse-lhe: “-Vamos casar?”. Ela respondeu: “-Vamos sim!” Só que tínhamos que ficar noivo primeiro. Na hora entramos na relojoaria Gatti e compramos essa aliança aqui. Descemos até a casa da Marly que ficava na Rua Moraes Barros, e dissemos ao pai e á mãe dela: “ Ficamos noivos e vamos casar.” Na hora pensei: “Estou morto!”. O meu sogro, Nestor Soares Germano era dentista e fiscal do governo, uma grande pessoa, mas muito bravo. Minha sogra era a Dona Djanira Ribeiro Germano.
O eles disseram na hora?
Nada. Nem responderam. Na época eu tinha 24 anos de idade, e a Marly 22. Ela já era professora, estava estudando na PUC em Campinas fazendo a faculdade. Depois de um bom tempo, seu Nestor chegou do cinema com a esposa, falamos: “Seu Nestor, no mês que vamos casar!”. Fiz os convites e dentro de um mês casamos. É uma recordação muito boa. Fomos passar a lua de mel em Santos. Eu só tinha conduções próprias para o trabalho, caminhões, caminhonetas. Não tinha automóvel. Alugamos um carro de praça. Lembro-me muito bem que levei sete mil cruzeiros e ainda sobrou dinheiro! Ficamos hospedados no Hotel Atlântico, permanecemos uns 10 dias, na época existia ainda o Parque Balneário.
A indústria do senhor passou a crescer?
Eu comprei a fábrica de cadeiras do Cantamessa, a produção passou de 20 cadeiras fabricadas por dia, para 200 cadeiras. E ainda uma carroceria de caminhão era fabricada todos os dias. Até propaganda no cinema passei a fazer! Mostrava como funcionava uma indústria no cinema. Cheguei a construir umas 20 rodas d'água.
Qual é o segredo para construir uma boa roda d'água?
Tem que ser feito um projeto antes de passar a produzi-la. Cheguei a fazer um curso de desenhista projetista na Escola Megatec. Um berço de água depende da rotação que for necessária. Eu tinha uma tabela que ganhei do Emílio Adamoli, ele construía lancha e mandava para Santos. Para a Boyes eu fiz muitas lançadeiras para tear. Para a Fábrica de Papéis São Paulo fiz carretéis compridos para enrolar papéis. Para o Virgilio Fagundes dono da fábrica de corda eu fiz uns rolos para enrolar corda de sisal. Quem fez as janelas do Edifício Rita Holland fui eu. Eu tinha a máquina que fazia o montante e em frente havia uma empresa que fazia o resto. O Luciano Guidotti encomendou todas as janelas e portas do prédio dele na Rua Treze de Maio.
O senhor chegou a construir botes?
Fiz uns 30. Fiz os barcos do Divino quando Nélio Ferraz era prefeito.
O senhor tem uma habilidade muito grande com a madeira?
Tenho. Eu pego um pedaço de madeira e consigo visualizar uma peça desse pedaço da madeira.
Para que serve o nó da madeira?
Só serve para fazer cachimbo, e requer uma máquina específica para esse fim. Uma madeira leve serve para fazer aeromodelos. Cheguei a fazer alguns. O embiruçu é metade do peso da madeira balsa. O pau d’álho por exemplo era uma madeira muita procurada. A madeira mais dura é a caviúna, para trabalhar com ela tem usar serrinha de serrar ferro. Não tem jeito de quebrar.
Como começou a paixão do senhor por avião?
Conheci um amigo por acaso: Lídio Duarte. Ele era professor de pilotagem de avião. O Aeroporto Morganti estava abandonado, com dois aviões velhos. Reunimos alguns amigos e fizemos uma diretoria. A proposta foi levada ao DAC. O Lino Morganti que era dono da área passou a escritura para o Aeroclube de Piracicaba. Até então o Aeroclube de Piracicaba funcionava em frente á Esalq. Fui a São Carlos com outro diretor e encontramos dois aviões arrebentados. O Lídio foi junto. Não havia gabarito para reconstruir os aviões. Conseguimos com o Aeroclube de Campinas o Gabarito para aqueles aviões. O nosso intermediário entre o Aeroclube e o DAC era o Tito Bottene, piloto do Dedini. Ele levou um dos aviões para o inspetor de São Paulo chamado Ercy César vistoriar, e o avião foi aprovado. Colocamos a Escola de Piloto para funcionar com um avião, era um Paulistinha. Reformamos o segundo. O Dedini deu todo o linho
Especial, para encapar o avião todo. A Mausa deu o Dope. Eram dadas 10 mãos de dope para impermeabilizar e afixar o revestimento do avião. Antonio Romano retificou cinco motores de aviões para nós, graciosamente. Com isso depois ele acabou retificando mais de 150 motores de outras cidades.


Geraldo de Andrade Ribeiro Júnior Foto by J.U.Nassif

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS

A Tribuna Piracicabana
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Entrevista: Publicada no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
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Entrevistado: Geraldo de Andrade Ribeiro Júnior


Piracicaba é uma cidade em condições privilegiadas. Detém tecnologia de ponta no setor sucroalcooleiro. Além das empresas gigantes que operam na área mecânica e metalúrgica, voltadas á esse setor, existe inúmeras empresas de médio e pequeno porte, que se espalham pelo município gerando recursos para a cidade e região. Um grande leque de diversificado de atividades está se abrindo, com isso a cidade oferece uma gama enorme de produtos e serviços nos mais variados campos.
Essa abrangência permitirá com que a cidade futuramente não seja dependente de oscilações externas de um único segmento de mercado. O município tem reconhecidas características para fazer do turismo uma fonte de receita significativa. Está engatinhando nesse setor. Se a renda gerada pelo turismo é atraente, o nível do serviço prestado não admite nenhuma falha. Isso requer um alto grau de profissionalização, uma firme determinação nesse sentido. Se o turismo de massa ás vezes parece atraente, ao mesmo tempo pode ser de baixo retorno financeiro ao município, além de exigir uma infra-estrutura de grande porte. O turismo qualificado traz um número menor de pessoas, porém com maior disponibilidade financeira para usufruir o que a cidade oferece. Gastam mais enquanto permanecem na cidade. A chave para atrair esse turista chama-se cultura, que traz como subproduto a possibilidade do cidadão piracicabano ter acesso á um grau maior de conhecimento intelectual. São exemplos disso: a comemoração dos 100 anos da imigração japonesa, realizada na Estação da Paulista, onde o afluxo de turistas com bom poder aquisitivo foi enorme. A Paixão de Cristo é outro exemplo. Este ano houve lançamentos de livros, trazendo inclusive pessoas de outros estados brasileiros. Até um bispo do nordeste! Quando a Festa das Nações começou a ganhar características de mega evento, sabiamente foi repensada e voltou a sua origem. O Salão de Humor é outro magnífico exemplo de turismo cultural qualificado. Graças á iniciativa do Clube Filatélico e Numismático de Piracicaba, do Teatro Municipal através da sua diretoria, com o apoio dos Correios, além de muitos abnegados que anonimamente trabalharam para que esse evento ocorresse, Piracicaba passou a ser referência em mais uma área. Realizou a Primeira Exposição da América do Sul com selos de 1 Quadro. Para compreendermos melhor o que isso significa, entrevistamos o especialista no assunto, o juiz internacional, Prof. Dr. Geraldo de Andrade Ribeiro Júnior.
O senhor é natural de qual localidade?
Nasci na cidade de Franca, em 19 de julho de 1952. Resido há mais de trinta anos em São Paulo. Sou engenheiro civil. Sou Presidente da Federação Paulista que reúne 20 Clubes do Estado de São Paulo, Presidente da Associação Brasileira de Filatelia Temática.
Quando despertou o seu interesse pela filatelia?
Meu pai era filatelista, desde pequeno já tive contato com a filatelia. Há uma idéia pré-concebida de que o filho de filatelista não seja filatelista. Isso porque o pai impõe certas restrições ao acesso da criança aos selos. Um zelo para que o selo não seja estragado pela criança. Com isso o filho acaba pegando uma bronca daquilo. No meu caso meu pai permitia o meu acesso aos seus selos, com isso fui pegando o gosto pela área. No ano de 2009 estarei fazendo 50 anos de filatelia! A minha primeira exposição foi em 1959, esta aqui que estamos realizando em Piracicaba é a minha 138ª participação.
Como era a reação da mãe do senhor com relação ao fato do pai do senhor ser filatelista?
Toda mulher, não só na filatelia, mas em qualquer hobby, ela acha que o homem se dedica mais ao hobby dele do que á outras atividade. A mulher de uma forma geral tem ciúmes da atenção que o marido dá ao seu hobby. Qualquer coleção que é feita com paixão, qualidade, dedicação requer tempo, e o dia tem24 horas somente! Esse tempo é tirado do tempo de convívio com a família. Não é praticado no tempo em que o indivíduo está trabalhando. As mulheres têm um ciúme terrível desse tempo que dedicamos ao hobby. Elas devem entender que não estamos fazendo coisas erradas, estamos trabalhando com uma atividade cultural, salutar, e tudo isso dentro da nossa casa!
Qual é a importância da exposição realizada em Piracicaba?
Piracicaba tem uma longa tradição, mais de um século em filatelia. E já teve uma exposição nacional em 1967. Agora, 41 anos depois volta a ter uma exposição nacional Essa exposição é muito importante por abrir um novo espaço em filatelia. Essas coleções de 1 Quadro é uma nova porta de entrada para a filatelia.
O que é uma exposição de 1 Quadro?
Por regras pré-estabelecidas, uma coleção de selos tem que ter no mínimo 80 páginas no tamanho A-4, para que seja enquadrada como coleção. São no mínimo 5 painéis. Essa é a definição universal. Só que muita gente não conseguia montar os 5 painéis. Com isso ficava adiando a montagem por meses, anos. A exposição realizada em Piracicaba está abrindo a possibilidade de que o expositor participe com apenas 1 Quadro. É a Primeira Exposição Nacional de 1 Quadro realizada no Brasil.
Quantos expositores vieram com seu material para Piracicaba?
São 58 expositores, representando 8 estados brasileiros. Temos a participação de filatelistas do Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, Distrito Federal, Ceará, Pernambuco e outros estados.
Essa exposição há uma carta de mais de quinhentos anos?
É uma carta do século XVI. Ela está em uma exposição de 1 Quadro de Cartas pré-filatélicas. A filatelia começou em 1840, quando a Inglaterra lançou o primeiro selo. Antes de 1840 é chamada de pré-filatelia. Desde que o mundo existe, o homem se comunica, quando inventaram o papel a comunicação passou a ser feita pelo papel. Já na Idade Média havia correio organizado, havia cartas.
No Brasil o correio começou a funcionar quando?
Simbolicamente a carta de Pero Vaz de Caminha é primeira carta escrita no Brasil. Como éramos colônia, as regras do correio de Portugal valiam para o Brasil. Em 1750, 1760, é que se tem correio organizado em Ouro Preto, Rio de Janeiro, São Paulo. Só no final do século XVIII que se teve uma organização de correio.
Qual é o primeiro selo oficial do Brasil?
É o famoso olho-de-boi. Ele é famoso por ser o primeiro, e recebe esse nome por parecer um olho de boi. Não é o mais caro, nem tão raro, mais é o mais famoso.
O que motiva a pessoa a ser filatelista?
Os psiquiatras afirmam categoricamente que colecionar é normal, salutar. Quem não coleciona alguma coisa tem algum problema! Isso são eles que dizem, eu apenas repito!
As mulheres, embora neguem peremptoriamente colecionam sapatos, roupas. O ato de colecionismo é normal, salutar. Os grandes acervos do mundo inteiro começaram com ajuntamento de coleções de pessoas. Todo grande museu começou com coleção que vieram de pessoas.
Existe o risco de ser compulsivo?
Toda a atividade humana pode oferecer esse risco. Existe o indivíduo compulsivo por sexo, o jogador compulsivo. Isso é uma condição do ser humano. Seja no colecionismo, no jogo, isso é uma característica própria do indivíduo. A filatelia não está imune a isso.
Existem casos quase folclóricos de colecionadores que realizam peripécias para conseguir o objeto do seu desejo?
Há pessoas que vende bens de sua propriedade para conseguir comprar determinado selo, envelope com um carimbo de uma cidade. Há outras pessoas que restringem suas despesas pessoais para adquirir determinada peça. Existe muito folclore também. Como pessoas que possuem uma pequena coleção de selos, freqüentam o meio filatélico, acham que aquela sua coleção tem um valor extraordinário. Dizem para a esposa que aquela coleção vale uma fortuna. Ele um dia falece, a viúva vai vender e descobre que a tão comentada coleção não vale mais do que 50 ou 100 reais! Na realidade o falecido vivia em uma ilusão de que a sua coleção valia uma fortuna, que ele era proprietário de uma magnífica amostra de peças raras. O colecionista, isso em todas as áreas, tem o habito de supervalorizar seus objetos de coleção. Sempre o nosso filho é o mais bonito!
O senhor exerce a função de juiz nas exposições, julgar coleções de amigos é uma situação bastante delicada?
Comecei muito cedo atuando como juiz, foi aos 26 anos de idade. Essa é a minha qüinquagésima exposição. Para ser jurado tem que ter conhecimento sobre o tipo de coleção que irá julgar, participa de um júri como jurado observador, aprovado pelos colegas, realiza provas. Sou jurado da Federação Paulista, Brasileira e Internacional. Vou julgar na Europa, Argentina, ou seja, onde houver necessidade.
Como é o colecionador europeu?
Colecionador é colecionador em qualquer parte do mundo. Na Europa há mais disciplina, mais profissionalismo. Há um calendário muito organizado. Aqui no Brasil não sabemos o calendário do ano que vem. Não é porque não queremos, mas é porque dependemos dos painéis do Correio. O grande apoio que o Correio nos dá são os painéis. O resto é por nossa conta. Com isso não sabemos se poderemos marcar exposição para março ou para agosto, isso por que não sabemos se o Correio emprestou para alguém nesse mês. Temos grandes dificuldades em ter a nossa organização aqui no Brasil.
Existe alguma subvenção para o colecionador na Europa?
Na Europa os correios subvencionam as federações. Por exemplo, a Federação Portuguesa tem um contrato de digamos 100 mil euros. Eles têm a obrigação de realizarem as exposições. Com esse dinheiro eles adquiriram um pequeno caminhão, compram os painéis, e saem fazendo exposições itinerantes. Em um ano realizam dezenas de exposições. Isso proporciona o desenvolvimento da filatelia. No Brasil, para marcarmos uma reunião com o Correio visando realizar uma exposição pode demandar meses para que essa reunião ocorra. Já fui julgar exposições na Rússia. Eles estão emergindo agora. Até o período em vigorava o regime anterior eles só podiam fazer coleções com selos da União Soviética. Não podiam realizar a troca de selos com outros países, era considerada uma corrupção ideológica. A China tem muitos colecionadores e está desenvolvendo e incentivando muito.
A filatelia é um bom negócio para o Correio?
O Correio paga frações de centavos para emitir um selo. Ao colocar á venda no balcão, o filatelista adquire aquele selo e o leva para casa. O correio está simplesmente vedo um papel estampado. Nesse caso ele não presta serviço. Se um cliente adquirir esse mesmo selo e postar uma carta para o interior do Amazonas, essa carta será manipulada em Piracicaba, irá para o centro de distribuição de Piracicaba, para o centro de triagem de Piracicaba. Seguirá em um caminhão com destino á São Paulo. Em São Paulo passará pela triagem e embarcada em um caminhão com destino ao aeroporto de Guarulhos. Colocada em um avião será entregue em Manaus, onde passará por uma triagem. Colocada em um barco, dali a uma semana será entregue ao destinatário no interior do Amazonas. Quanto custa isso para o correio? Muito mais do que o valor do selo! Incentivar em vender esse “papel” pintado chamado selo é uma atividade feita pelo Uruguai, Paraguai. O Brasil não incentiva essa atividade. O correio dá lucro em todos os países. N Brasil o lucro do Correio era cinco por cento do faturamento global. Um valor altamente significativo. Hoje é de um por cento, ou até menos. O Correio parou de investir na filatelia.
Com o advento da internet surgiu o e-mail, isso motivou a diminuição de correspondências?
A correspondência pessoal diminuiu. A comercial muitas vezes implica na remessa de documentos, que exige a remessa física dos mesmos. Por outro lado, a internet proporcionou o aumento das vendas pelo meio eletrônico, essas encomendas são enviadas pelo correio. Isso compensou, e muito. Os namorados mandam e-mails. Mas quando o namorado envia um presente isso é feito pelo correio.
Existe um caso famoso de um país que vivia da emissão de selos?
Não há limites para a picaretagem. Um indivíduo montou uma plataforma no oceano, utilizando metais e madeira. Lá ele criou uma “República”. Hasteou uma bandeira, e emitiu selos. Ele ia pouco á “República” dele. Os selos foram impressos por uma gráfica norte-americana. Após a emissão dos selos ele os vendeu em lojas especializadas. Isso foi em 1960, na ocasião surgiram muitos países novos na África. Não havia a internet, portanto era factível achar que o selo daquele “país” que ficava em uma plataforma em mar aberto, também pudesse ser um novo país! Com isso o criador dessa nação fictícia vendeu muito selo no mundo todo. O mais interessante, é que quando o Presidente Kennedy tomou posse o dono do “país-plataforma” mandou uma correspondência, em papel timbrado da sua “nação”. A Casa Branca recebeu milhares de cartas congratulando a posse do presidente. O protocolo enviou resposta a cada um agradecendo. Ao receber a carta de Washington, o proprietário do “país” a colocou em uma moldura e passou a afirmar que se os Estados Unidos o reconhecia como nação, quem iria ser contra a decisão da grande potencia? Institucionalizou-se a picaretagem!
Há também grupos de comerciantes de selos europeus que criam países fictícios na Ásia, determinadas ilhas. Eles colocam esses selos á venda em bancas de jornal. Desovam milhões de selos. Isso não é filatelia. Tem que ser selo emitido por um país reconhecido pela ONU.

PRÊMIO ESSO DE JORNALISMO 1962

Foto by Erno Schneider

O PRESIDENTE JÂNIO QUADROS NA CIDADE DE URUGUAIANA (RS) SURPREENDIDO POR UM RUÍDO SE VIRA NA DIREÇÃO DO MESMO. OS PÉS TOMAM UMA POSIÇÃO INUSITADA.





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Jornal da Tarde 05 de novembro de 2008




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