WALTER NAIME
A barba e suas intenções
A barba nunca foi só pelo no queixo. Barba é aviso
prévio. É legenda da cara. É currículo sem papel timbrado. Antes do homem
inventar a escrita, a barba já estava lá dizendo: “esse aqui já apanhou da
vida” ou “esse ainda tá em fase de teste”. Lá na idade das cavernas não existia
barbeiro nem espelho. O sujeito acordava barbudo porque estava vivo. Se tentasse
tirar, era na base da pedra, do fogo ou da coragem. Quem tinha barba grande inspirava respeito; quem não tinha,
inspirava dúvida… ou piada. Com o tempo, a barba virou instrumento de
comunicação. No Egito Antigo, o faraó não confiava nem no próprio pelo:
colocava barba postiça pra parecer mais deus que gente. Não era vaidade, era
marketing divino. Na Grécia, filósofo sem barba parecia aluno perdido. Em Roma,
raspar a barba virou sinal de progresso, higiene e civilização. Moral da
história: a barba nunca mandou em nada, sempre foi mandada.Na Idade Média, ela
cresceu sem pedir desculpa. Rei barbudo mandava mais. Cavaleiro barbudo metia
medo. Monge barbudo inspirava pecado e perdão ao mesmo tempo. Frederico I ficou
com ecido como Barbarossa por causa da barba ruiva, que virou símbolo de poder.
Séculos depois, o nome apareceu na Operação Barbarossa, provando que até barba
acaba envolvida em guerra. Barba sempre foi coisa séria… ou perigosa. A barba é
natural do homem, mas os sentidos mudaram. Surgiram barbas com personalidade
própria: Barba do sábio, quanto maior, mais ninguém discute. Barba do
revolucionário, não corta por princípio.Barba do esleixado, não corta por
preguiça. Barba do vaidoso, cuida mais da barba que da alma. Barba da
autoridade, respeita que eu mando. Barba da religiosidade, tenha fé. Barba
da virilidade exagerada, olha o macho aqui. Cada barba conta uma história,
mesmo quando o dono não tem nada a dizer. Quando chegaram as lâminas, os
sabões, a Gillette e a água pós-barba, o sofrimento virou ritual. Antes era dor
e sangue; depois virou espuma e propaganda. No século 21, a barba virou moda,
identidade e até desculpa. Barba bem feita passa confiança. Barba mal feita
passa abandono. A mesma barba pode fazer o sujeito parecer intelectual,
perigoso, moderno ou simplesmente atrasado, tudo depende do ângulo e da
iluminação.Na política atual, no Brasil e no mundo, a barba continua falando
mais que discurso. Tem barba que tenta parecer do povo, barba que quer impor
autoridade, barba revolucionária de foto em preto e branco e barba totalmente
domada pelo marketing. Já teve tempo em que "barba, cabelo e
bigode", viravam critério de competição, como se estética fosse
medalha e caráter fosse acessório. Antigamente, um fio de bigode valia mais que
assinatura em cartório. Era promessa, contrato e palavra de honra. Hoje, sobrou
o bigode… a honra anda sumida. A barba também
serve de máscara: esconde intenções, disfarça insegurança e cria personagem. E
continua sendo atrativo feminino, seja por parecer proteção, maturidade ou
aquele instinto ancestral que não passa recibo. Hoje a barba recebe mais
cuidado que muita consciência. Óleo, creme, pente, salão exclusivo. Narciso
olha no espelho, se apaixona pela própria barba e esquece o resto. A moral da
história é simples: quando a barba vira só vaidade, vira vazio. Quando vira
identidade e contestação, vira linguagem. No século 21, o importante não é ter
barba. É saber por que ela está ali. Porque barba sempre fala. O problema é
quando ela fala bonito… e o dono não sustenta o discurso. Aonde você está
escondido? 12/01/2026
Walter Naime
Arquiteto-urbanista
Empresário.
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