segunda-feira, março 16, 2026

 

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS

Jornalista e Radialista João Umberto Nassif

11 de novembro de 2025

 

 

Entrevistada: Profa. Dra. MARLY THEREZINHA GERMANO PERECIN

Profa. Dra. Marly Therezinha Germano Perecin, a senhora nasceu em Piracicaba?

É meio complicado dizer que eu não sou Piracicabana! Porque eu nasci em Taquaritinga! Eu nasci em Taquaritinga, região da Araraquarense. Isso porque os meus pais começaram a carreira fora de Piracicaba. A minha mãe é da família Silva Prado de Jundiaí e meu pai é da família Germano de Piracicaba. Ambas famílias muito antigas, a família Silva Prado é família ligada ao tropeirismo da capitania de São Paulo, as descobertas de mineração do Anhanguera, em Goiás, as invernadas que iam até a Serra do Japi e as ligações entre o mar e o interior. Meu bisavô Silvestre Honorato da Silva Prado foi o último tropeiro da família.

Do lado do meu pai, a família Germano tem origem em Piracicaba a partir de 1816, quando o meu tetravô Manoel Dias Ribeiro foi chamado pelo Senador Vergueiro, de Itu para Piracicaba, pra construir a primeira ponte sobre o Rio Piracicaba. A partir de 1816 ele e família passaram a residir na beira do Rio Piracicaba, justamente a partir do local onde foi construída a primeira ponte, na continuação da Rua Prudente de Moraes, chamada Rua da Ponte Velha. A sua filha Mariana se casou com um francês, Jean German, cidadão de Lyon, que veio para Itu para uma aventura ao Amazonas, mandada pelo Barão Langsdorff a serviço do Czar da Rússia. Ele perdeu a expedição e veio conhecer o fim do mundo, que era Piracicaba! O casamento se deu em 1827. O nome do noivo foi aportuguesado para João Germano de França, invés de Jean German. Daí a família German tornou-se piracicabana desde 1827, moradores da Rua do Porto, quando Piracicaba era praticamente recém-nascida, com grade amor ao Rio Piracicaba, as coisas do rio, a família Germano foi aos poucos se expandindo, minha tetravó, minha trisavó, minha bisavó, minha avó, meu pai, chegamos a minha geração e aos meus filhos. Todos muito bairristas e apegados a Piracicaba. Eu nasci em Taquaritinga, isso porque o meu pai conheceu a minha mãe lá. Casaram-se lá, mas a pressa era de voltar para Piracicaba! Aqui cheguei aos quatro anos de idade, estudei, me formei, quando fazia a faculdade fora, quer em Campinas, quer em São Paulo, estava sempre viajando, voltava para a minha casa, para o meu lar. Para as minhas coisas muito caipiracicabanas! Uma delas a Bandeira do Divino! Eu sou a última neta da Família Germano, como brinco sempre: “fim de raça” e herdei esse gosto das minhas ancestrais, o apego à Bandeira do Divino! As minhas primas, já falecidas, não tiveram esse apego embora frequentassem desde criança as festas. Mas a herança coube para mim! Eu pensei em uma maneira em honrar essa tradição, pesquisando alguma coisa, lendo, desenvolvendo algo na área desconhecida. É por isso que tive a oportunidade de fazer alguma pesquisa, na área do teatro e descobrir que a Festa do Divino tem 25 séculos de tempo! Isso mesmo, 2.500 anos!

Era uma festa pagã e que se tornou uma festa cristã!

Uma transformação milenar, uma transformação que nos chegou até hoje!

O tema dessa busca é o apego ao sagrado! A vivência de uma festividade urbana-rural, de uma festividade sagrada-profana, que caracteriza aquilo que modernamente chamamos em Piracicaba de Festa do Divino.

Então entra aqui o aspecto histórico. Mas esse aspecto histórico envolve a teatralidade. Se busca na Civilização Helênica, no quinto século A.C. (Antes de Cristo), século de Péricles, nas tragédias produzidas por Sófocles, o maior de todos os trágicos! Ele deu o modelo da narrativa dramática e trágica. Suas peças constam geralmente de três atos: o prólogo, a sequência episódica e o êxodo. Esses três atos estão presentes na Festa do Divino, inclusive na Rua do Porto! Explico como. Em qualquer lugar do mundo, os atores são uma criação pagã, como o culto era uma criação pagã do Templo do Deus Dionísio. Dionísio na Grécia era um Deus com uma singularidade: era um Deus que morreu e ressuscitou. O seu templo era muito procurado, o seu culto era muito popular e após as cerimônias havia representações fora do Templo, a céu aberto, onde personagens caracterizados de figuras antigas, representavam, dançavam e cantavam! Aí a origem do teatro: as representações primitivas! Essas representações primitivas passaram a ser feitas em teatros muito antigos, muito simplesinhos e depois uniram-se a arquitetura que existe nas encostas da Acrópole até hoje: O Teatro de Dionísio, o Teatro Odeon e o Teatro de Arena , tornaram-se o modelo dos teatros atuais no mundo todo. Esses teatros constam das seguintes coisas eternas: a cene (skene) que é o palco, o proscênio que é o cenário; os replicantes ou os hipócritas que são os atores; os coreutas que são os dançarinos e cantores; o teatro, que são as arquibancadas com as pessoas que assistem. Todo teatro no mundo consta de todos esses elementos! Porque ali existe o teatro! Que na Grécia era a universidade do povo! Onde se contavam as histórias tristes do passado, os mitos, os sofrimentos dos heróis e uma coisa muito impressionante: descoberta dos Deuses. Por que o homem sofre? Por que a humanidade sofre? Por causa das limitações humanas! Os cristãos diriam: “Por que é pecador! ”. O homem é dono das suas escolhas, mas não é dono do seu destino! E o que é o destino? O destino é um emaranhado de forças subjetivas. Forças sobrenaturais! Um emaranhado semelhante a uma teia a qual estamos presos. E ninguém escapa! Aí diremos: “A Força do Destino”; quando o sofrimento bate: para o Herói, para o Deus, para o Rei, para Princesa, para um Herói Especial chamado Jesus Cristo, Ele aceita o sofrimento sem perguntar a causa. Pode ser inocente como foi Édipo, como foi Antígona, como foi Jocasta, como foi Jesus! Aceita o sofrimento, sofre inocentemente e revela o seu melhor caráter! Isso tudo transforma a paixão intensa no médico sírio chamado Lucas, conhecido por Lucas Evangelista! Tornou-se Lucas Evangelista! Mas era um médico da Síria! E se apaixonou pela doutrina do Paulo, e por amor a doutrina universalista de Paulo ele se fez escravo por amor. E acompanhou Paulo em suas andanças. Paulo era um homem medíocre, tinha limitações. Lucas se fazendo de escravo, escrevia as cartas para Paulo. Lucas se fazendo de escravo podia penetrar nas prisões de Cesárea e de Roma, onde Paulo esteve confinado sofrendo torturas, todo tipo de sofrimento. Quando ouviu as confissões de Paulo absorveu a doutrina universalista dele. Isso ele colocou um dia, passados todos esses trâmites, em um texto chamado Relato! Esse texto ele dedicou ao mais importante grego da época, Teófilo. Esse texto era uma coisa extraordinária, ele copiou exatamente a narrativa helênica, racional, copiou a tragédia grega “ipsis literis”, Sófocles contando sobre o herói chamado Jesus! Jesus é o herói de Lucas e ele conta o Prólogo, onde entram os atores, a Anunciação, o Batismo, a Seleção Episódica, todos os momentos de Jesus, os Seus Ensinos, até o Calvário. Mas não acaba aí. A tragédia só acaba no Êxodos. O Calvário, final da Semana Santa, é outra interpretação do teatro, não termina aí, ele escreveu posteriormente outro texto Ato dos Apóstolos, onde ele dá a sequência e onde ele insere o Êxodos. Como é essa parte? É o momento do Pentecostes judaico, onde os apóstolos recebem o Espírito Santo, é todo vazado na medição, na intervenção do Espírito Santo e espantam o mundo ao falar as diversas línguas, que seriam o instrumento da sua obra missionária. Espantam as pessoas e Pedro é obrigado a dizer: “ Eles não estão ébrios, eles estão inspirados pelo Espírito Santo “e tem início a missão.

Essa transmutação da dor da Semana Santa, do Calvário. Na alegria festiva da descida do Espírito Santo deu origem a chamada “Festa Comemorativa da Chegada do Divino Espírito Santo”. Então é a festa da alegria cristã.

Isto aí, posto em texto, exerceu uma influência muito grande sobre todas as culturas da Bacia do Mediterrâneo, e sobre outros evangelistas pôsteres. Deu origem a grandes interpretações no Império Romano e no final do Império Romano e começo da Idade Média, que é o domínio da Igreja por excelência. Como o sincretismo religioso na Itália era muito forte, as tradições pagãs transformadas em práticas cristãs, passaram a comemorar com grande ênfase a festa da alegria cristã.

Isso durante toda a Idade média teve uma evolução singular na Itália. E no século XIII foi levada para Portugal pelos monges franciscanos. Recebeu a adesão da Rainha Isabel de Portugal que criou todo um trabalho em torno da celebração e festividades do Espírito Santo. Criou a Igreja de Alenquer, facilitou as ordens e de repente a festa se espalhou por toda Portugal, pelas Ilhas Atlânticas, chegou com os descobrimentos marítimos a África, as Américas e a Ásia. Chegou no Brasil!

Acontece que o Brasil teve uma evolução colonial especial. Pelo Nordeste mais próximo da Europa, mais açucareiro, e o Sul sempre mais abandonado. Uma capitania em particular passou séculos por isolamento. A Capitania de São Paulo! Nesta capitania, o Vale Médio do Tietê, sofreu maiores isolamentos do que o Vale do Paraíba. São duas áreas chamadas de Cultura Caipira. O Vale Médio do Tietê é a área caipira por excelência, porque ficou mais afastada e desenvolveu um dialeto próprio, com base no Inhangatu e nessa tradição indígena, nessas tradições jesuíticas, nessas tradições de sincretismo religioso, havia um conteúdo de sofrimento muito grande, não só pelo isolamento, como pelo afastamento das autoridades portuguesas, como na própria perseguição que os paulistas sofriam durante toda a sua história. Primeiro como sertanistas que descobriram as minas, todo ouro foi parar nos cofres do Rei! Todos sabemos que depois tomou o caminho da Inglaterra. Mas saía do chão através dos paulistas. Para São Paulo ficava realmente muito pouco. O Rei preocupou-se muito com o perigo dos paulistas um dia se tornarem poderosos e fortes. Tirou das mãos dos paulistas todas as varas de perfuração, todo o chão de maior valor, e um dia extinguiu a Capitania de São Paulo! São Paulo foi reduzido a um território do Rio de Janeiro. E o isolamento tornou-se maior ainda. O abandono maior ainda. Esse é o chamado século XVIII da fase colonial paulista, que é o século de grande sofrimento. O Vale Médio do Tietê estava sujeito a grandes chuvas, as grandes inundações, e após as inundações as doenças perigosas: tifo, maleita, febre amarela. As epidemias que grassavam com força, que roubavam a vida de centenas de pessoas. Às vezes famílias inteiras eram encontradas mortas, dizia-se que o interior de São Paulo era uma terra sem lei, sem rei e sem fé, e não havia a quem socorrer! Ninguém olhava pelo interior paulista! Até que um dia subiu a Serra do Mar e chegou a Bandeira Milagrosa do Divino Espírito Santo! A mesma que era cultivada em Portugal, a mesma que foi cultivada por todo o Brasil. Caracterizava-se por ter todos os símbolos da cristandade. Essa bandeira era trazida na frente pelos penitentes, pelos fiéis, nas procissões e pelos romeiros, que desciam o Rio Tietê fazendo o bem, trazendo nas barcas, remédios, comida, consolo, enfim, esperança para as populações abandonadas a beira d’água. Muitas vezes acendia-se uma fogueira, fazia-se umas trabucadas, umas rezas e a bandeira passava por cima dos doentes, andava por todos os cômodos da casa, abençoava e seguia em frente! A Bandeira era consoladora, a Bandeira era milagrosa, e quem sobrevivia agradeceria um dia pelas graças alcançadas. Aí era a hora de pagar as promessas. Então no dia festivo todo mundo comparecia, para a celebração. Isto penetrou forte na personalidade dos paulistas! Todas as cidades da chamada Geografia Sagrada no Vale Médio do Tietê: Santana do Parnaíba, Itu, Porto Feliz, Conchas, Anhembi, Tietê e chegou a Piracicaba!

Em Piracicaba o fenômeno foi mais curioso ainda! Porque os Irmãos do rio acima desciam o rio para encontrar-se com os Irmãos que subiam de rio abaixo. Como não havia igreja na margem esquerda, onde a população havia sido transplantada, a única igreja que existia era na margem direita, ambas as Marinhas do Divino se encontravam na primeira curva do Rio Piracicaba, ou a última de quem sobe o rio. Em frente aonde havia a capelinha em ruinas. Subiam a barranca e vinha para a igreja, para o festejo. Demorou-se para que construíssem uma igreja na margem esquerda do Rio Piracicaba. Mas até 1816, 1818, se fazia esse trajeto. A descida dos Irmãos do rio acima e a subida dos Irmãos do rio abaixo, o encontro e a subida para a capelinha da margem direita. Esse encontro permanece até hoje. E as pessoas se esqueceram porque é justamente naquele lugar. Era o lugar da antiga capelinha, quando Piracicaba ainda era freguesia de Santo Antonio de Piracicaba. Nunca de Nossa Senhora dos Prazeres. Sempre Santo Antonio de Piracicaba. Isso tudo faz parte do histórico. O importante é reconhecer a alta dramaticidade da Festa do Divino. Se transportarmos para o presente, questionarmos o porquê do sofrimento, olhando para o massacre dos inocentes do Sudão, na cidade de Gaza, na Ucrânia, não adianta ficarmos perguntando o porquê, a razão. Existem homens maus, que são pecadores. Sim, sabemos! Adianta? Não adianta! A tragédia se consuma. A tragédia está presente nos seus três atos. O início: quem procurou essas guerras? Quem procurou o massacre dos inocentes? Como é que aconteceu isso? Quais foram os episódios que aconteceram em Gaza que a televisão mostrou fartamente? Ou na Ucrânia, que até hoje assistimos os drones matando crianças em escolinhas? Ou no massacre dos inocentes no Sudão, onde se cortam braços e pernas de crianças? Não adianta, o mal está me consumindo! O que adianta é a força do caráter! E a busca da paz pela Graça, e quando essa Graça chegar, agradecer a Graça e festejar a paz. A paz é muito difícil de acontecer! Mas ela acontecerá! E nesse dia haveremos de festejar no mundo inteiro as bênçãos alcançadas! Então é o terceiro momento, então se completam os três atos da tragédia. O começo, com os questionamentos, as mortes pavorosas com os bombardeios e os fuzilamentos, e a busca da paz, seja por tratado, seja por intercessão divina, seja por fracasso das forças humanas, pela Graça ela virá um dia! Então se festejará fartamente em todo o Universo. É isso que desejamos!

E todo o fim de uma desgraça, todo o fim de uma tragédia, precisa ser festivo, como ensinaram os cristãos! Portanto, a Festa do Divino é o fim de um sofrimento! Talvez começo de outro! Nós não sabemos o que acontecerá no futuro. Mas enquanto estamos vivos, vamos agradecer e vamos festejar. Dentro da dramaticidade de Sófocles, dentro do gênio de Lucas e dentro da sabedoria do Divino Espírito Santo.

Quando o eu falo em Festa do Divino, eu gosto de lembrar essas coisas. E guardo com muito carinho a Bandeira do Divino. A Bandeira do Divino tem as suas cores, o vermelho e o branco, o vermelho é a cor do cordeiro, a cor sagrada dos reis, a cor das chamas que foram vistas em cima da cabeça dos apóstolos, falando todas as línguas, o branco, a pureza da pomba, que lembra o batismo de Jesus, e os raios dourados, que lembram os sete dons do Espírito Santo. Nosso Senhor Jesus disse: “ – Eu vos deixo o Paráclito! ” (O Paráclito é o Espírito Santo), “ – Eu Vos deixo o Consolador”, o Consolador que nos ensina através dos sete dons: Sabedoria, Entendimento, Ciência, Conselho, Fortaleza, Piedade e Temor de Deus”. A Bandeira até hoje arrasta multidões! Seja nos salões eruditos da ESALQ, como nas últimas Festas do Divino, Catedráticos e gente da classe “A” se persignando ante a Bandeira do Divino, por força da tradição e gente humilde do povo, se ajoelhando também na barranca do rio, nas Águas Sagradas do Rio Piracicaba recebendo a Bandeira. Essa é a força de Piracicaba. Só Piracicaba oferece esse cenário maravilhoso da Rua do Porto! A navegação no ocaso, de tarde o Sol morrendo no Ocidente, o reflexo batendo sobre o Salto e as barcas singrando as Águas Sagradas do Piracicaba sob o comando da Marinha, do Divino Espírito Santo. Só Piracicaba!

Dra. Marly, sua abordagem espontânea, rica em informações e detalhes, é uma refinada palestra! Ao contrário do que alguns apregoam, a Festa do Divino não está acabando!

Ela está se transformando! Para melhor! Acompanhando o progresso! A tecnologia invade todos os setores! Nossos descendentes haverão de ter Festas do Divino totalmente transformadas!

A senhora tem uma Bandeira do Divino em sua casa?

Tenho!

Dra. Marly, a senhora casou-se?

Sim! Casei-me com Noedi Perecin, tivemos três filhos: O filho mais velho, Gil, Nélia, a filha do meio e Theo o filho caçula. Tenho 5 netos!

A senhora além do amor aos livros, preserva objetos que pertenceram a sua família, de grande valor afetivo!

São coisas das bisavós, das avós, como a bacia e o gomil (jarro), onde a minha mãe, quando ainda bebê, tomou banho, meus tios avós tomaram banho! É de louça inglesa, que os tropeiros traziam de Santos para São Paulo! Eram louças que se encontravam à venda em qualquer lugar. O Brasil não tinha indústrias. As louças inglesas eram as que se usavam na cozinha, louça da Companhia das Índias, era comum o uso na cozinha, não tinha outra procedência! Eu conservo algumas que escaparam, que se salvaram com o tempo!

Quantos livros a senhora já lançou?

Foram 10 livros! São 10 filhos! Fora os artigos. Fora os artigos científicos em revistas, textos avulsos, sem contar palestras, conferências e aulas. Já perdi o número de palestras, nem conto mais!

A senhora é uma palestrante requisitada! Acabou de fazer uma maravilhosa palestra com a qual muito nos honrou, é um privilégio ter uma palestra praticamente exclusiva, com a qual iremos brindar os leitores. A própria origem da Festa do Divino!

A origem da Festa do Divino no imaginário popular, pode ser que imaginem ter surgido recentemente, na Rua do Porto, em Piracicaba, no entanto ela surgiu há 25 séculos, é uma festa de origem pagã!

Um estilo musical que praticamente desapareceu em Piracicaba, com raras exceções, é o cururu.

O cururu é criação de africanos. É uma dança e ao mesmo tempo é um desafio. Se transformou ao longo do tempo. Tivemos grandes cantadores, grandes poetas, que se saíam bem nas rimas as “carreiras” do “ão”, do “in” O Parafuso era um dos melhores, eu o conheci, era amigo do meu pai. Havia outros famosos como Pedro Chiquito, Nhô Serra, entre eles. Não só Piracicaba tinha bons cantadores, como também as cidades vizinhas. As danças paulistas mesmo são a catira ou cateretê, que não se dança mais em Piracicaba, eu acho uma pena. É uma dança masculina, onde os tropeiros, os cavaleiros, dançavam com esporas, alguns tinham botas com esporas, outros dançavam descalços, mas com esporas e guizos. Então na medida em que pateavam, nos estrados de madeira, o barulho que ritmava com a dança, eram seguidos dos guizos, produziam um som muito interessante. Embalavam as danças noite afora! Era a catira ou cateretê. Hoje existem outras danças, como samba de roda, samba de lenço. Não sei até que ponto são aculturações, de outras danças de origem portuguesa. Geralmente é lencinho pra cá, lencinho pra lá! Outras também estilo quadrilha, são introduções portuguesas. Mas o cururu é legitimo africano e catira legitimamente caboclo. Herança indígena, aculturada pelos primeiros mestiços da cultura paulista. Povoamento paulista. Danças de homens, mulheres não entravam nessas danças.

O cururu está praticamente sumido.

Pois é! A música sertaneja invadiu lá, e tornou-se o momento. Nem tudo é desprezível, porque tem umas músicas que são realmente bonitas. São transformações!

Tem muita música sertaneja que visa o aspecto comercial.

Pois é! O que a gente vê na Festa do Divino é um pouco de tudo! Só falta Funk! A Festa do Divino é uma festa de Tradição de Cultura Paulista! Interessante que é uma festa familiar, é engraçado, nas grandes aglomerações, movimentos de massa, a gente observa atitudes indesejáveis, uma certa violência, como no caso do futebol, do carnaval, mas na Festa do Divino há um respeito imenso, é uma festa familiar, de um público restrito, embora numeroso. Onde estão as famílias locais com as suas descendências. A Rua do Porto era a Piracicaba verdadeira, quando a cidade se mudou da margem direita para a margem esquerda, o núcleo residual era a Rua do Porto, a Rua do Porto com três a quatro quarteirões podia abrigar quantas famílias? No máximo 10! Por mais que essas famílias criassem e procriassem elas não davam conta da população que se transformou nos dias de hoje! As famílias subiram as ruas. O símbolo da ascensão social era subir a Rua Moraes Barros! Como para os imigrantes o símbolo a ascensão social era atravessar a ponte e vir morar na cidade! Os imigrantes italianos fizeram isso: os Alleoni, os D`Abronzo, os Ometto, os Dedini . Era o símbolo da ascensão social: atravessar a ponte e vir morar na cidade! Para os caboclos da Rua do Porto, subir a Rua Moraes Barros e morar no centro.

As famílias de origem, descem, em redor da festa do Divino. É uma festa numerosa, de família, onde se reza muito, toma-se o seu chopinho, come-se à vontade, a orgia culinária com leitoas pururucas, cuscuzes, é outra festa à parte, o leilão é interessantíssimo, cheio de fogos e prendas; mesmo o comércio das barracas, tudo faz parte!

É o Dionizio!

Exatamente! São as representações, a porta do Deus Dionizio! A tragédia que Lucas transformou na tragédia cristã! O seu herói era Nosso Senhor Jesus Cristo! As festas em homenagem da felicidade de ter Jesus Ressurreto, e os apóstolos, prontos para falarem as línguas do Universo, e fazerem a sua missão apostólica, isso é a festa que deve ser comemorada! Com muita alegria!

A Igreja teve alguns elementos que não viam a Festa do Divino com bons olhos?

Saiu da própria Igreja! Na Itália foi a Igreja que sincretizou a festa pagã e cristã! Mas, no Brasil houve época em que a Igreja não aprovava essas coisas, em Piracicaba tivemos suspensão de 7 anos da Festa do Divino Espírito Santo!

Mas, o Bispo de Mogi das Cruzes tem uma frase interessantíssima que salvou a festa, ele disse: “A Igreja não é dona do Espírito Santo! Cabe a Igreja aceitar as tradições, orientar a fé e participar das homenagens”! Então Mogi das Cruzes é onde se realiza a maior Festa do Divino de São Paulo. É uma festa que dura uma semana, com grandes procissões, com enormes representações e com a comilança característica da Festa do Divino. A comilança se chama “Bodo”. Porque o Bodo era a distribuição e comilança de carne nas festas em comemoração ao Divino lá em Portugal. O bodo era distribuído no pátio das igrejas. No Brasil também. Em Mogi das Cruzes o bodo é tradicional.

Na procissão, após o bodo, entram os carros dos palmitos, as figuras vestidas a caráter, os desfiles de Cavaleiros, os desfiles dos Impérios, Império é a Capela montada lá, com a Bandeira, são muitos Impérios! Imperador é o Festeiro do Divino, o cortejo das figuras icônicas do Divino. Em Campinas e em Itu se realizavam grandes festas no tempo dos Barões. Em Itu ficou a lembrança do cortejo do Rei, da Rainha, dos pajens, dos Príncipes, Princesas, a Igreja fornecia os Homens da Opa, a banda, a procissão. Todos participavam do Império na casa do Engenheiro Jair Oliveira. Há pouco tempo o pároco da Igreja Nossa Senhora Candelária suspendeu esse cerimonial e a festa correu o risco de desaparecer. Mas o espírito da tradição, da preservação é tão forte que ela renasceu na forma de um desfile muito interessante. Nas ruas do centro ituano! Patrocinado pelos adeptos do Divino e pelo Museu da Música de Itu! “A Festa do Divino não morre, ela se transforma”.

Aproveitando o inesgotável conhecimento da senhora, na Rua Prudente de Moraes, ao lado do Banco Safra, há uma pequena construção católica, muita gente nem imagina o que é, muitos passam apressadamente e nem se dão conta, parece um local ignorado por aqueles que tem a obrigação legal ou espiritual do que se trata.

Dra. Marly, com o tom de voz vibrante, explica:

O último Passo da Paixão! E o único do Brasil! Cada cidade tinha diversos Passos da Paixão. Na Procissão de Trevas na Semana Santa se faziam as palavras nos Passos da Paixão! Em Itu existe ainda esse costume da procissão e da Verônica. E em Piracicaba o último passo é esse, guardado pelo Banco Safra, que restaurou o pequeno Passo. Ele deve ter sido feito por volta de 1850. É a tradição ituana. Piracicaba reproduz os modelos ituanos. Piracicaba é filha de Itu, Piracicaba era o último bairro rural de Itu. Os nossos modelos são os legítimos modelos ituanos. Por isso que me perguntam o porquê de eu ser tão interessada na História de Itu? A História de Itu é a História de Piracicaba, Itu é a cidade-mãe! Nós copiamos todos os modelos! Os bons modelos e os erros também! A politiquice, a politicagem, as coisas mesquinhas, da política. Isso foi muito próprio de Piracicaba, terra de coronéis, como Itu, terra de coronéis, terra de Barões, isso tudo ficou, em Itu isso é muito forte. É uma das causas de aborrecimento e prejuízos materiais e civilizatórios da própria cidade! Piracicaba sofreu e ainda sofre muito disso! São os modelos coloniais. O Brasil ainda sofre do ranço colonial!

Dra. Marly, o seu conhecimento, a sua didática, hipnotizam o ouvinte, com sua didática que magnetiza a nossa atenção. Suas lembranças tão nítidas, trazem o passado para o presente, como se tudo tivesse acontecido ontem!

Eu me lembro bem, isso começou aos 4 anos de idade, quando cheguei em Piracicaba, e fiquei pasma com o Salto! Aquelas águas! E depois eu ia brincar ao rés da água, recolhia conchas às margens do Rio Piracicaba, era um rio puro, piscoso, maravilhoso, cheio de vida, eu brinquei muito com a molecada da Rua do Porto, inclusive um molecão bem mais velho do que eu, o Tote, funcionário da MAUSA e quem mais salvou vidas no Rio Piracicaba. Ele era o ajudante dos bombeiros quando ocorriam os afogamentos. Era quem mais conhecia o Rio Piracicaba por dentro do que por fora! Quantas vidas ele salvou, quantos corpos ele tirou! Quantas coisas ele sabia do Rio Piracicaba! Ele era molecão boníssimo, a mãe dele era a Dona Antonia Malagueta.

O meu pai era amigo de todo mundo na Rua do Porto, ele tinha um barco chamado “Jurema”! E de vez em quando eu descia com ele o Rio Piracicaba, era o Nirvana! Se via o céu azul, a água deslizando, a mata verde, aquela placidez, aquela flutuação maravilhosa. O Rio conquistou a minha alma. Brincar na Rua do Porto, Tote me ensinava a jogar pedrinhas na água ricochetando! Depois nos encontramos já adultos, ele casado com Vitalina, sua casa era bem no Largos dos Pescadores, era o ponto de chegada de todo mundo: ministros, presidentes, prefeitos, mendigo, todos os segmentos da sociedade, ele tinha lá uma saleta, Tala tinha um fogão que servia torresmo, cuscuz, e a gente conversava! E ele era um grande poeta!

Qual era o nome de Tote?

Chamava-se Antonio de Pádua Tote (Chegou a ter uma rua em seu nome). Ele ficou guardião das manifestações folclóricas da Rua do Porto. Foi ele que me deu a Bandeira do Divino. Uma bandeira que andou pelo Rio Piracicaba no começo do século XX. Um dia no pouso do Divino pegou fogo. Só escaparam a pombinha, a peanha (pequeno pedestal), e o arco de metal. Entregaram para ele os destroços da bandeira, fizeram outra, ele guardou em um cômodo externo a casa, por 20 anos.

Um dia o Tote disse-me: “Vem cá Marly! O seu marido tem a fama de saber consertar tudo, tá aqui a bandeira, um dia vou morrer e não sei para quem eu vou deixar! Leve para você! ”. Noedi restaurou a bandeira, reformamos a bandeira. Pedi para uma pintora pintar a bandeira, como deveria ser. Arrumei bonitinho no pedestal, Ela tornou-se a bandeira que me acompanhava para baixo e para cima. Depois arrumei uma outra bandeira, a bandeira verdadeira eu passei para a Maestrina Cintia Pinotti, que é a minha herdeira nas festividades do Divino. Ela foi nomeada Alferes do Divino, a única mulher que é Alferes! Alferes é um cargo de Cavalaria, um cargo militar. É aquele que carrega a Bandeira na batalha! Ele morre segurando a bandeira, não pode derrubar a bandeira, é ela que sinaliza o batalhão e a posição da cavalaria durante o combate. É ela que está fazendo as Festas do Divino na ESALQ. Foi um outro salto: do popular passou para o erudito! A Festa do Divino é considerada um bem imaterial tombada pelo IPHAN, conforme a Constituição Brasileira de 1988. A Festa do Divino não vai morrer, vai se transformar. Um dia vai ser ópera e balé! Como são as grandes solenidades da Europa! As melodias de Mozart são sinfonias!

Tchaikovsky, dancinha russa que de repente se tornava um grande ballet! Bolshoi, O popular quando se repete e se transforma, se eterniza! O Lago dos Cisnes o que que é? É uma historinha meio chatinha, é uma história de disputa, o cisne branco e o cisne preto disputando o príncipe! Dois amores disputando o mesmo homem, é uma história do tempo da carochinha, que hoje é um grande ballet! Multidões vão assistir, batem palmas, acham uma maravilha! E é mesmo!

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ABAIXO, Dra. Marly realizando palestra no Museu Republicano de Itu no amo 2025

 

Jarra e bacia de banho para bebê – Usada para banhar sua mãe e tios, isso a mais de 100 anos.

 

 ENTREVISTADA: MARLY DE CAMPOS CRISPINIANO

GILBERTO E MARLY

Gilberto e Marly foram vizinhos de condomínio por treze anos. Durante todo esse tempo, a vida seguia paralela, até que descobriram — já na maturidade — que eram almas gêmeas. Um acidente doméstico, inesperado, tornou-se o ponto de virada que os aproximou definitivamente. Juntos, aprenderam que o amor verdadeiro não tem pressa e que os relacionamentos mais profundos nascem quando os corações finalmente se encontram.

Marly de Campos Crispiniano é daquelas pessoas raras, que deixam marcas profundas por onde passam. Dona de uma personalidade firme e determinada, alia segurança a uma acolhida sincera: sabe ouvir com atenção e oferecer as palavras exatas no momento certo. Sua doçura é natural e envolvente.

Disciplinada e forte por formação e essência, Marly sempre soube o que queria e jamais abriu mão de lutar por seus ideais. Mesmo diante das adversidades, quando a caminhada se torna árdua e desafiadora, ela segue adiante sem esmorecer, guiada pela coragem e pela convicção.

Aos 88 anos de idade, impressiona por seu dinamismo, vitalidade e memória admirável. Recorda números, siglas e detalhes do passado e do presente com absoluta lucidez. É o retrato vivo de alguém que cumpriu sua missão com dignidade e hoje assume a vida com alegria, leveza e disposição.

Marly de Campos Crispiniano é, acima de tudo, uma pessoa excepcional — um ser humano especial, cuja trajetória inspira, ensina e emociona.

 

A senhora é natural de Piracicaba?

Não, eu nasci em Araçatuba, Estado de São Paulo. Nasci a 24 de outubro de 1938. Meu pai chamava-se Maximiano Crispiniano e a minha mãe Edna de Campos Crispiniano.

Qual era a atividade profissional do pai da senhora?

O meu pai foi comerciante. Ele foi sócio em uma grande empresa que trabalhava no ramo de secos e molhados de Araçatuba. Ele veio do Nordeste. Ele era um homem de muita fibra, muita determinação. Quando veio do Nordeste, seguiu o mesmo caminho de muitos nordestinos que era muito comum na época: “sentou praça”: entrou para a Polícia Militar. Ele foi lutar na Revolução de 1932. Frente de batalha ele levou um tiro em uma perna. Em 1935 meus pais se casaram, eu nasci em 1938. Sou a filha única deles.

A senhora foi muito mimada como filha única?

Me criaram como uma princesa! Porém a minha mãe sempre me dizia: “- Você é filha única, não estamos criando você para mim ou para o seu pai, estamos criando-a para você conviver com o mundo! Saber viver com todas as pessoas! É isso que eu quero de você!”. Portanto eu não fui mimada, fui sim muito querida! Tinha a hora do carinho, tinha a hora da palmada! Naquele tempo tinha a abençoada palmada!

O pai da senhora ficou por quanto tempo na então Força Pública do Estado de São Paulo que em 9 de abril de 1970 passou a se chamar Polícia Militar do Estado de São Paulo?

Ele deu baixa, tinha ficado com sequela em função do tiro que levou na Revolução. Ele deu baixa logo que eu nasci. Lembro-me de que ele contava ter sido ferido lá pelos lados de Lorena, Caçapava. Meu pai conversava bastante comigo, e eu gostava de ouvir suas histórias.

Essa opção de trabalhar no comercio foi tomada ao acaso?

Eu acredito que ele já planejava tomar essa direção, porque quando ele veio do Nordeste já ajudava um padrinho dele, isso em Pedra do Buique, hoje emancipada de Buique, é um município com cerca de 20.000 habitantes, É uma região de grande beleza natural, com afluxo de muitos turistas. Era uma daquelas vendinhas de antigamente, o padrinho concentrava esses esforços nas terras que possuía, a vendinha era um complemento, e meu pai tomava conta para ele.

Ele conheceu Lampião?

Meu contava que Lampião chegou na vendinha onde ele trabalhava, em Pedra do Buique. Meu pai tinha saído para almoçar e quando voltou encontrou a turma de Lampião, um deitado no balcão, outros sentados em rolos de corda, tinham se acomodado onde queriam.

Como o seu pai reagiu quando viu Lampião?

Meu pai na calma dele, não falou nada, apenas escutou. Lampião convidou-o para sair para fora da venda, Daí Lampião perguntou quantos “cabras” (policiais) tinha na cidade. Meu pai respondeu-lhe: “-Tem três.”. Não houve mais grandes conversas e Lampião foi embora.

O pai da senhora chegou a conhecer a Maria Bonita?

Não! Nesse grupo ela não estava. O grupo era de cinco a seis homens.

O pai da senhora tinha boa memória!

O meu pai era muito culto, lia muito. Diariamente lia três jornais. Levava para o trabalho, lia a noite. Isso já em Araçatuba, ele lia: “O Diário de São Paulo”, o “Estadão”, o “Diário Oficial” e o jornal da cidade. Eu já era bem grande, por isso que eu sei. Eu já estava com sete anos de idade. Meu faleceu com 80 anos, sempre leu muito. Ele era uma pessoa que tinha bastante cultura. Em Araçatuba eu terminei o curso primário, só que fiquei como interna, porque o meu pai como comerciante evoluiu, da vendinha ele passou a ser sócio em uma empresa muito grande. Ele foi para uma unidade da empresa em Dourados, Mato Grosso. Na época era sertão, não tinha escola para que eu continuasse os estudos.

A senhora lembra-se do nome da empresa em que o seu pai era um dos sócios?

Era a Irmãos Nocera e Companhia Ltda., que era o meu pai. Eram os irmãos, um cunhado deles e o meu pai. O irmão caçula, Antonio Nocera, ele que era o cabeça da firma, quando expandiu a firma o meu pai foi para Dourados.

O pai da senhora ficou quanto tempo em Dourados?

Eu estava no colégio, interna, comecei a reclamar, a choramingar, saudade de casa que eu tinha. Eu reclamava do colégio, mas não era o colégio! O colégio era um espetáculo! Essa firma tinha em São Paulo um outro segmento de mercado, eles compravam no atacado e distribuíam para outras lojas deles. Transferiram o meu pai para São Paulo, no bairro Barra funda. Mudamos para São Paulo. Minha mãe era paulistana. Com isso fui estudar em São Paulo!

A senhora estudou aonde?

Em São Paulo estudei na Escola Prudente de Moraes. Era na Avenida Angélica. Eu morava em Santana, tomava o bonde em Santana e descia na Avenida Angélica! Em Santana morei na Rua Amaral Gama, travessa da Rua Voluntários da Pátria. Nesse período eu me formei, na época era o Curso Normal, o Magistério. Desde criança minha paixão era dar aulas para as bonecas! Portanto, quando me formei eu quis lecionar, o meu pai ficou muito apavorado. Eu tinha a minha madrinha que era de Araçatuba, ela já tinha falecido, mas tinha o meu padrinho, a filha que foi criada junto comigo, eu disse que iria ficar por lá e arrumar um modo de trabalhar, vou lutar! Na época existia o cargo de substituta efetiva. Só ganhava o dia em que trabalhava. E eu trabalhei antes de me formar, uns dois anos, na Prefeitura de São Paulo. Fui escriturária, auxiliar de escritório.

A Prefeitura na época era em que local?

Essa seção que eu trabalhava começou na Rua Boa Vista, havia várias seções espalhadas em diversos locais de São Paulo, dai fomos concentrados no Ibirapuera!

A senhora inaugurou o prédio da Prefeitura no Parque Ibirapuera!

Sim! Pavilhão das Nações! Foi ali que eu trabalhei!

Na época aquilo era um sonho!

Embaixo era a Secretaria da Educação. Eu trabalhava no piso superior. Era ali que eram distribuídos os funcionários da prefeitura. Foi na época que começou o computador, tinha a sala só das pessoas que trabalhavam com computador.

Quem era o prefeito de São Paulo na época?

Era Ademar de Barros! (Nascido em Piracicaba em uma casa situada na Rua Boa Morte esquina com a Rua Ipiranga, que foi demolida para dar lugar a um terreno que por muitos anos ficou vazio!).

A senhora chegou a conhecer Ademar de Barros?

Eu conheci o Ademar! Conheci como um amigo, o meu pai não era político, mas um tio meu era bem político, ele conhecia o Ademar de Barros do tempo em que eles moravam em São Manoel, quando a minha prima casou-se, o Ademar foi padrinho com sua esposa Dona Leonor Mendes de Barros.

A senhora conheceu Dona Leonor?

Conheci! Um doce de pessoa! Eu conheci de forma mais próxima a Dona Leonor porque a minha prima trabalhava na Liga das Senhoras Católicas. Era normal a Dona Leonor quando fazia aniversário, comemorava com os funcionários em Campos do Jordão. Eles tinham uma mansão lá. Quando a minha prima esteve nessa festa ela me levou, foi ali que conheci Dona Leonor bem de perto, ela fazia um trabalho maravilhoso, vi isso concretamente, nesse dia estávamos chegando em Campos do Jordão e as pessoas vinham voltando, moravam nos arredores, alguns mais longe, trazendo cobertores que ela dava para as pessoas, para as famílias, ela dava na missa do aniversário, as pessoas já sabiam. Ela distribuía os cobertores porque era época de frio. O aniversário de Dona Leonor era junho ou julho. Fomos a essa mansão, onde tudo era tão simples, e a festa era só para os funcionários dela, eu fui porque a minha prima era funcionária. Dona Leonor misturava-se com todo mundo, conversava, ria, era extremamente simpática. É a lembrança que eu tenho dela.

Quanto tempo a senhora morou em São Paulo?

Fiquei bastante tempo lá. Daí fui lecionar, o meu pai estava no Mato Grosso. Ele vinha todo mês nos visitar. Ficamos minha mãe e eu em São Paulo. Tinha a minha avó, os parentes do meu pai. Eu disse ao meu pai que quando vinha nos ver ele passava por Araçatuba, que ficava na metade do caminho, Ele vinha de trem. Fiz a proposta de ir trabalhar em Araçatuba. Apesar de ter algumas ressalvas, achava que eu não iria deslanchar na minha carreira lá, mas ele acabou concordando. Saí da Prefeitura de São Paulo e fui para Araçatuba. Amei! Até hoje tenho saudade! Lá eu era substituta efetiva. Para mim estava pouco, eu queria mais. Fui conhecendo pessoas, uma colega da escola dava aula no sítio, eu disse-lhe: “No dia em que arrumar um lugar lá para mim, você me avisa!”. Não demorou muito ela mandou me avisar. Era até época de carnaval, aquelas festinhas de carnaval. Ela mandou-me um recado: Marly! Segunda feira você precisa estar em Nova Lusitânia que tem um lugar para você”. Fiquei tão feliz que nem liguei mais para carnaval, tinha que levantar muito cedo. Foi ali que comecei a receber dinheiro, com uma classe vaga, parque faltava professor. Fiquei por quatro anos ali. Morava na pensão de Dona Alexandrina! Pessoa maravilhosa! Minha mãe ficou em Araçatuba, o meu pai vinha com mais frequência, porque era mais perto de Dourados.

E a senhora ficou com a Dona Alexandrina?

Dona Alexandrina e colegas maravilhosas, que tenho amizade até hoje! Sou amiga intima da Vilma Barreto, filha da Dona Alexandrina!

Lá a senhora ficou até quando?

Eu já tinha feito concurso para me efetivar no Estado. Esses concursos maravilhosos! Fiquei cinco anos esperando! Foram os cinco anos que fiquei aí nesse lugar! Todo ano tinha um lugar para mim lá! Quando não teve, eu fui mais para frente!

A senhora foi para onde?

Fui para a Fazenda São Francisco do Córrego da Canjarana! Ficava sete quilômetros para frente de Nova Lusitânia! Sobrou aquele lugar porque ninguém quis! O ingresso de novos professores estava atrasado, eu estava esperando para ingressar, só que a turma anterior ainda não tinha ingressado.

Como era a escola da Fazenda São Francisco do Córrego da Canjarana?

Era uma escola rural em uma fazenda que tinha sido dividida, cada filho ficou com um pedaço, tudo gente muito simples, muito pobre.

Como a senhora ficou hospedada ali?

Como vieram outras professoras, elas pegaram perua para viajar, dividíamos as despesas, elas faziam faculdade, com isso fiz parte do grupo. Tinha que entrar as 12:30 na escola, a perua me pegava as 11:00 horas, depois ia pegando todas as outras professoras, eu era a primeira que pegava e a última que descia! Elas tinham que ir para a faculdade, tinham mais pressa do que eu. Eu fiz faculdade, mas depois.

A senhora fez faculdade em que área?

Fiz Pedagogia, em Santos! Finalmente quando saiu o resultado do concurso que eu havia prestado, fui para Mauá, próximo a São Paulo. Deus é tão maravilhoso, que o meu pai já estava aposentado, sem eu saber eles mudaram para Santos! Eu lecionava em Mauá mas morava em Santo André, na época em Mauá não tinha aonde morar. Em Mauá era um lugar bom, a escola era ótima, conheci pessoas maravilhosas. Chegou o dia da remoção, eu escolhi Vicente de Carvalho. Lá tinha bastante vaga, conheci muitas professoras do interior de São Paulo. Escola bem simples, grande. Fiquei lá até na época em que apareceu uma oportunidade e me removi para a Base Aérea de Santos. Era escola da Base Aérea, o nome era ALA 435, mas gerenciada pelo Estado. O diretor era militar. Ele que comandava a escola, era linha dura! Quando chegamos lá, eu e mais cinco, todas removidas, tinha lugar para todas. Assim que chegamos ele já deu uma preleção, já chamou o social, no Estado era completamente diferente. Ele nos deu a linha de trabalho, uma de nós, talvez eu, disse-lhe: “-Não se preocupe! Nós somos de trabalho! Eu conhecia as meninas, nós trabalhamos juntas nessa escola de Vicente de Carvalho. E ele só ficou feliz com a gente, com o tempo ele foi vendo que nós fomos para lá para trabalhar mesmo!

A senhora permaneceu até quando na escola da Base Aérea?

O meu pai, que lia diariamente três jornais, leu no Diário Oficial que tinha um concurso para Coordenadora Pedagógica. Nesse período eu fiz o curso de Coordenação Pedagógica, Orientação Educacional, fiz diversos cursos. Era o primeiro grupo de Coordenador Pedagógico, hoje já não é mais assim. Eu não queria, estava tão bem lá! Trabalhava quatro horas, a noite ia para a faculdade, meu pai insistiu muito, até que falou: “-Você quer ser soldado a vida inteira!”. Eu argumentei que tinha que procurar um diretor, nem sei qual diretor vai querer , seria só para as escolas carentes. Eu tomava a barca para ir até a Base Aérea. Encontrei com um colega de faculdade, o Edmur, que disse-me: “ Você não quer se inscrever para Coordenadora Pedagógica? O diretor de tal escola está precisando!”. No outro dia fui lá, Isso tudo para prestar o concurso e precisava ter essa apresentação de um diretor de uma escola carente! Fui, prestei o concurso, logo saiu o resultado. Daí fui mais para frente: Jardim Praiano! Fica na altura da Praia da Enseada, no Morro da Vila Baiana. Não gostei muito do ambiente, e eu só poderia sair de lá quando tivesse concurso, tive que permanecer por dois anos, os professores eram mais difíceis de lidar, o diretor era muito sem vontade de trabalhar, era outro esquema! Aconteceu que teve uma época de remoção, achei uma vaga no Morro do Saboó m Santos. O diretor estava precisando, a que estava lá tinha trocado. Eu fiquei no lugar dela, até me aposentar.

Não era complicado a senhora ir até o Morro do Saboó?

Eu não precisava ir até lá, era no sopé! Eu pegava um ônibus só para ir até a escola!

A senhora morava em que bairro?

Lá em Santos eu morei no Boqueirão, ali no canal 3, Rua Alexandre Herculano com a Avenida Washington Luís, ali próximo da Basílica Santo Antonio do Embaré, que é lindíssima! Depois de tudo isso meus pais faleceram ali, meu pai faleceu com 84 anos e a minha mãe com 88 anos. Fiquei um tempo lá só, como eu queria ficar beirando a praia, vendi o apartamento lá e comprei outro perto da Igreja do Embaré.

A senhora mudou se para Piracicaba há quantos anos?

Eu vim para cá em 2000, conheci o Gilberto em 2013, nos conhecemos por acaso e esse por acaso foi rápido, daí ele fraturou a perna, eu afirmo que nós fomos casados no Hospital dos Plantadores de Cana, nós éramos vizinhos de parede em um condomínio fechado, era um sábado ou um feriado, eu escutei o meu nome, aproximei-me, abri a porta, era ele que estava com a perna quebrada. Entrei, vi aquela situação, chamei a ambulância, fui com ele dentro da ambulância, fiquei lá, foram feitos os procedimentos médicos, permanecia no hospital, ele operou a perna, após uma semana quando ele saiu, quem nos conhecia sabia que estávamos iniciando um namoro, só que ele teve voltar ao hospital em decorrência de uma infecção, depois de um período em que foi tratado ele ficou bem. Hoje já temos cerca de 15 anos de vida em comum, amigos em comum, temos que procurarmos ser felizes e fazer os outros felizes também.

Vocês formam um casal com uma vitalidade e bom humor contagiante, uma característica da senhora que fica evidente é o seu amor e cuidado com suas lindas plantas!

Desde o tempo em que morava em Araçatuba, sempre tive minhas plantas, mesmo morando em apartamento, pelo menos um vasinho eu sempre tive!

Quando a senhora morava em São Paulo, no bairro Santana, a senhora chegou a usar o trem da Cantareira?

Era o trenzinho da Cantareira! Andei nesse trenzinho para ir passear na Cantareira que era um lugar muito gostoso. Eu tinha as minhas amigas, nós íamos, fazíamos piquenique, esse trem ficou imortalizado pela música de Adoniran Barbosa em “Trem Das Onze”. Eu me lembro desse trenzinho, as minhas tias trabalhavam nas Indústrias Matarazzo no bairro Água Branca, elas tomavam esse trenzinho de madrugada! Era uma vida sacrificada, mas eu não via ninguém triste. Minhas tias saiam para trabalhar ainda estava escuro, quando voltavam já era noite. Sempre alegres, contentes. Na época eu tinha uns seis anos, vinha nas férias.

A implantação do metrô em Santana a senhora chegou a ver?

Sim, cheguei a ver a implantação da primeira linha do Metrô de São Paulo, a Linha Azul! Nessa época eu já morava em Santos, mas eu vinha visitar nossos parentes em Jaçanã, eu vinha com a minha mãe, tomava o metrô até Santana, lá tomava o ônibus até Jaçanã.

De Santos a senhora lembra-se do Mercado de Pescados?

Agora está maravilhoso! Mas teve um período que não era tão organizado.

A senhora é do tempo que tinha conchinhas na praia?

Cheguei a pegar conchinhas! Isso quando eu tinha uns sete anos e vinha na casa das minhas tias. Nessa época eu morava em Araçatuba!

Uma característica que era muito marcante era o habito de cantar o Hino Nacional nas escolas?

Desde a escola rural de São Francisco do Córrego da Canjarana até a escola da Base da Aeronáutica ALA 435 os alunos cantavam diariamente o Hino Nacional!

Hoje esse espírito cívico faz falta?

Completamente! Já faz tempo que falta o espírito e a consciência de amor à Pátria. Quem tem uma sementinha nunca esquece. O meu pai era muito patriota. Meu pai era autodidata, tudo que você conversava com ele era interessante, ele lia, conhecia, orientava, concordava ou não, mas não discutia, cada um com a sua opinião.

Como a senhora vê a juventude atual?

Tem um lado da juventude que eu acho muito lindo! Apesar de eles verem tanta coisa errada, eles venceram essa parte, estão cuidando da vida, trabalhando e seguindo em frente. É a parte que eu realço! Aquela outra parte, um dia irão sentir a diferença! Já deu para eles perceberem! Agora se eles quiserem tem tempo, mas vai ser mais difícil!

A senhora vivenciou uma época em que surgiram movimentos jovens como os beatniks, hippies e outras manifestações de contracultura nas décadas de 69, 70. O que a seu ver isso influenciou na nossa juventude?

Eu nem posso falar nada, trabalhava tanto que não tinha contato com essas pessoas, nem mesmo meus alunos não imaginavam que isso existisse. Onde eu trabalhava nem energia elétrica existia, era luz de lamparina! Mesmo porque eram crianças, não tinham interesse, os que podiam já iam com os pais trabalhar na roça! Já sabiam o que era o trabalho, não tinham tempo para essas coisas. Brincavam na rua com o que dispunham, criavam brincadeiras com o que tinham. A vida deles era maravilhosa! Depois surgiu o rádio de pilha, a televisão. Mas até então isso não fez falta, pelo menos nessa época, eu saí de lá em 1970.

A senhora gosta de viajar?

Gostamos sim! Dentro do nosso limite! Eu já estou com 88 anos!

A sua disposição física, agilidade física e mental, sua memória fantástica, todos esses fatores conjugados, são dignos de estudos científicos! Sua voz firme, clara, para quem não sabe estimarão sua idade bem menor.

Eu acho que é tudo a forma como fui criada! Meus pais me criaram muito bem, sempre me deram uma boa alimentação, cheguei a tomar leite de cabra, hoje usam leite em pó! Isso é apenas um exemplo de como o fator alimentação mudou muito!

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