Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

terça-feira, agosto 04, 2009

MARIO ANTONIO CAVICCHIOLI (MARITO)





PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com

Sábado 01 de agosto de 2009
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
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http://blognassif.blogspot.com/

ENTREVISTADO: MARIO ANTONIO CAVICCHIOLI (MARITO)

As obras do artista plástico Mario Antonio Cavicchioli surpreendem pelo seu caráter inovador. Com sua habilidade de transformar materiais e criar ambientes, Mario revela um potencial já observado e reverenciado por um nome emblemático: Tarsila do Amaral. Entre suas inúmera intervenções e criações, Mario projetou a Praça Plínio Salgado, que fica no final da Rua Torta em Rio das Pedras. Uma praça que foge do lugar comum, onde o artista usou os desníveis do terreno criando um efeito visual lúdico. Executou a primeira escultura em cimento e argila, em tamanho natural, de São Francisco de Assis, exposto no jardim do Hospital São Vicente de Paulo (N.J. Alguns autores denominam São Vicente de Paula). Pintura e afresco do Altar Mor da Igreja Matriz de Rio das Pedras. Estabeleceu fortes laços de amizade com Noemia Mourão, viúva de Di Cavalcanti, onde aprendeu técnicas de pinturas e desenho. De 1996 a 2002 no espaço Agro-Castanheiras, Avenida Cidade Jardim, São Paulo, foi muito requisitado para decorações natalinas de empresas como Hoechst do Brasil Química Farmacêutica S/A, Rede Vida de Televisão, Silvio Brito, Ana Maria Braga, American Airlines, Parmalat, Bradesco, Igreja Cruz Torta (N.J. Uma das igrejas mais disputadas para casamentos em São Paulo), Igreja Nossa Senhora de Fátima, no Sumaré, Hotel Renaissance, Terraço Itália, Biblioteca Alceu Moroso Lima. Aluno do lendário professor Kislansky em São Paulo,conheceu Willian Hering bisneto do Barão de Serra Negra. É autor da escultura em tamanho natural de São Francisco de Assis instalada no Instituto Filosófico Provida em Piracicaba. Um dos seus trabalhos mais recentes é simplesmente impressionante. Mario realizou obras de grande porte, na escola Centro Educacional Natureza e Cultura, fez em argamassa esculturas de troncos com até cinco metros de altura, com perfeição absoluta a ponto de alguns vizinhos receitarem venenos para cupim próprios da madeira....Em tamanho natural moldou girafas, tucano, macaca, pombas, coruja. Construiu fontes realizou as pinturas com motivos infantis, jardinagem, tudo com o objetivo de encantar o público infantil. Com o apoio dos proprietários da escola Marito ousou, inovou, criou, deu asas a sua imaginação, utilizando material de baixo custo e colocando Rio das Pedras em destaque mundial na concepção de estabelecimentos de ensino voltados á criança. Além de dedicar-se a arte Mario Antonio Cavicchioli trabalhou em cinco empresas aéreas: Varig, Royal Air Maroc, Ladeco, Canadian Airlines, Air Canadá.
Marito, ou Marito Cavicchioli nasceu no município de Mombuca no dia 18 de agosto de 1949. Mora em Rio das Pedras, onde realizou o sonho de grande parte da humanidade, criou seu Jardim do Édem. O grande patrimônio de Marito é a sua criatividade. Funcionário de companhias aéreas percorreu inúmeros países, conheceu as mais diversas culturas. Hoje Marito em seu quintal, com pouco mais de duzentos metros quadrados traduz em cada detalhe, sutilmente, a experiência adquirida em suas incontáveis viagens, ele é uma própria usina de criatividade artística. A arte sempre esteve presente na vida de Marito. Seu pai foi músico e também maestro. Seu tio Antonio Otávio Cavicchiolo, o Néca, foi escultor em argila, madeira, além de ter sido também músico. Aos sete anos de idade Mario começou a realizar pinturas em aquarela, guache, lápis e presépio modulado em argila. Aos oito anos de idade teve vários contatos com Tarsila do Amaral, que freqüentava o atelier de costura da Tia Olga, isso em 1957 em Mombuca. A obra de Tarsila do Amaral denominada “As Costureiras” hoje no Palácio do Governo em Campos de Jordão nada mais é do que o atelier da Tia Olga.
Mario qual é o nome dos seus pais?
Mario Maria Cavicchioli e Isabel (Dona Belita) Gomes de Andrade Cavicchioli. Nós tínhamos uma olaria em Mombuca, denominada Irmãos Cavicchioli. Faziamos tijolos, telhas, que têm o nome Cavicchioli E Filhos impresso nas telhas e tijolos, eu ainda conservo algumas unidades. Meu tio fazia potes, esculturas em argila, estatuetas. Ele chegou a fazer um presépio para Tarsila do Amaral. A minha tinha Olga morava em Mombuca e era costureira da família da Tarsila do Amaral.
Como era a Tarsila do Amaral com relação a confecção das suas roupas?
Ela trazia os modelos de São Paulo, Paris e determinava o modelo que desejava A minha tia confeccionava.
Qual era a sua atividade na olaria?
Eu era um freqüentador da olaria. Quem trabalhava eram os meus pais, meus tios, meu avô Aristides Isaias Cavicchioli e sua esposa Maria Brandeileiro Cavicchioli, eram italianos, vieram de Veneto em 1892, desceram no porto de Santos, foram transportados pelo navio Arno. Essas informações eu obtive na Casa do Imigrante situada no Brás, em São Paulo. Quando meu avô veio da Itália dirigiu-se para a fazenda Cabras, próxima a Campinas, era de propriedade da família Mesquita de São Paulo. Meu avô tinha estudado no Liceu ainda na Itália, isso permitiu que ele não trabalhasse em serviço braçal. A família Mesquita colocou-o para trabalhar junto a parte administrativa da fazenda. O meu nono (N.J. avô em italiano), falava francês, lia muito, inclusive ele foi Juiz de Paz em Mombuca por muito tempo. Ele tinha um nível cultural e de educação muito elevado para a época. Quando montou a olaria, ele praticamente cuidava da parte administrativa enquanto os filhos trabalhavam na linha de produção. Essa olaria existia até pouco tempo, ficava bem no centro de Mombuca, após o falecimento do meu nono ela foi decaindo até desaparecer. A minha noção de arte iniciou-se pela influência do meu tio Néca.
Você lembra-se do seu primeiro trabalho artístico?
O poder aquisitivo naquela época era muito baixo, além da dificuldade em encontrar produtos para compra. No período de Natal eu queria comprar um presépio, meu tio Néca disse: “-Por que você não faz de barro?”. Fiz as pecinhas do presépio em barro, meu tio cozinhou no forno (N.J. Neste momento a emoção toma conta de Mário). E assim fiz o presépio de barro. Devo ter ainda algumas pecinhas que sobraram do presépio.
Você colocou esse presépio na sala da sua casa?
Coloquei na sala de casa, isso foi quando eu tinha sete anos de idade. A família achou aquilo fantástico, uma criança realizar um trabalho daqueles.
A partir daquele momento você achou que o seu rumo era o mundo da arte?
Eu sempre gostei de arte, tanto que quando conheci Tarsila do Amaral no ateliê da minha tia eu estava desenhando. Eu passava o tempo inteiro desenhando. Em uma dessas oportunidades, Tarsila me pegou desenhando em um papel. Ela me perguntou se eu gostava de arte, de desenhar. Disse-me então que ela era uma pintora, e que iria pintar um quadrinho para mim. Ela pediu que eu arrumasse um azulejo branco. Uma senhora que era a cozinheira da nossa fazenda levou o azulejo, e Tarsila pintou esse azulejo para mim. É a única obra de Tarsila do Amaral, pintada em azulejo, e que permanece ainda como minha propriedade. É um anjo da guarda. Com isso estabeleceu-se uma relação muito agradável entre ela e eu. Em todas vezes em que ela vinha até o atelier da minha tia Olga ela conversava comigo, era uma pessoa muito calma, ponderada. Como criança eu não tinha noção da grandeza daqueles momentos, só mais tarde, recordando aquelas passagens é que fui compondo uma visão mais ampla de tudo que ela tinha feito por mim. Sempre que ela ia á fazenda, gostava de levar argila, ela pedia para que meu tio separasse uma porção de argila para ela levar. Ela também gostava de modelar.
Seus pais tiveram quantos filhos?
Dois filhos: minha irmã Ana Maria e eu.
Você começou a estudar em Mombuca?
Estudei no Grupo Escolar Bispo Dom Mateus. Essa escola foi derrubada, não existe mais. Papai veio para Rio das Pedras como maestro da banda, e assim mudamos para Rio das Pedras.
O seu pai além de trabalhar na olaria era músico?
Eles trabalhavam na olaria, só que a família toda era composta por músicos. Tios, sobrinhos. Os sobrinhos tiveram a “Jazz Band Mombuca”. Era o costume da época, animavam os bailes, as festas. O meu pai veio para Rio das Pedras para ser maestro da banda em Rio das Pedras, contratado pelo prefeito da época. Além de ser maestro da banda ele trabalhava na prefeitura. O meu nono Aristides era agrimensor, meu pai adquiriu conhecimento de agrimensura com ele. A maior parte da rede de esgoto de Rio das Pedras foi traçada pelo meu pai. Mesmo depois de aposentado, o pessoal da prefeitura o procurava em sua casa para obter informações relativas á rede de esgoto. Isso foi em 1960. Meu pai permaneceu por 26 anos como maestro da banda de Rio das Pedras, a Corporação Musical Santa Cecília.
Você toca algum instrumento?
Sempre gostei de música mais nunca aprendi a tocar nenhum instrumento. A minha arte foi na pintura e na escultura. Em Rio das Pedras estudei no Grupo Escolar Barão de Serra Negra e depois no Manoel da Costa Neves. Em Piracicaba estudei no Sud Mennucci, no Colégio Piracicabano, entrei na Unimep fazendo parte da primeira turma de formandos em Letras. Literatura Portuguesa e Inglesa. Isso foi ainda no prédio situado á Rua Boa Morte, o reitor era o Dr. Senn.
Você estudava e trabalhava?
Estudava em Piracicaba e era contínuo no Banco Moreira Salles em Rio das Pedras. Entrei com 18 anos no banco, aos 21 anos de idade me formei em letras. Decidi ir para a Inglaterra fazer aperfeiçoamento em inglês. Viajei pela companhia aérea Britsh Caledonian, fui morar em um bairro de Londres chamado Woak Wood, morava em uma casa de família.
Você foi sozinho de Rio das Pedras á Londres?
Era para viajar com um amigo também de Rio das Pedras. Por motivos profissionais ele acabou retardando a sua ida, com isso fui sozinho, falando o inglês aprendido em faculdade. Foi uma experiência inédita. Sempre fui muito comunicativo. Ainda aqui no aeroporto conheci uma pessoa que ia fazer o mesmo curso. Isso foi em 31 de dezembro de 1970.
Teve festa a bordo do avião?
Teve, com champanhe, aeronave enfeitada internamente. Foi um reveillon no ar.
Hábitos tidos por nós como corriqueiros como eram lá?
Estávamos em plena crise do petróleo. A casa em que morávamos tinha um regime muito rigoroso, só podíamos tomar banho duas vezes por semana. A proprietária da casa onde ficamos era muito severa. Como jovem, sempre havia uma forma de contornar essa situação. Tomávamos banho por partes, na própria pia do banheiro, de tal forma que passassem despercebidos “os banhos extras”. Quando comentei que gostávamos de comer feijão, ela foi muito gentil, serviu feijão ás sete horas da manhã, juntamente com o café da manhã!
Você visitou todos os pontos turísticos de Londres. Por acaso chegou a realizar a famosa arte característica dos brasileiros, de fazer o sisudo guarda real sorrir?
Éramos moleques! Coloquei a mão na frente dele, fiz o possível para tirá-lo de sua concentração. Ele permaneceu extremamente sério. É muito interessante a disciplina e o controle desses soldados ingleses. Em Londres tivemos a oportunidade de freqüentar teatros com peças famosas, cinemas, pubs.
Quantos idiomas você fala?
Inglês, francês, espanhol, italiano, alemão e um pouco de árabe.
Você conheceu na Alemanha um padre muito famoso?
Conheci em Münster, o Padre Antonio Maria, ele era ainda postulante, é um artista plástico com obras maravilhosas.
O que você achou da obra Mona Lisa?
A principio achei uma obra maravilhosa. Também é decepcionante, principalmente porque fomos orientados a imaginar um quadro de grandes proporções, quando na verdade é um quadro de proporções pequenas (N.J. mede apenas 77 por 53 centímetros).
Como artista qual é a sua analise pessoal sobre o quadro Mona Lisa?
Eu pesquisei bastante. Além de ver o quadro, há a curiosidade em saber o que existe sob o aspecto histórico da obra. Ela passa mistério. Existem teorias de que a Mona Lisa não era uma mulher e sim um homem. A explicação é de que o pintor tinha um caso com um pastor de ovelhas, e que ele retratou esse pastor no quadro Mona Lisa. É interessante observar que ela não tem traços femininos. Ela tem linhas mais masculinas do que femininas. Visitei a Mona Lisa do Louvre e a Mona Lisa que existe no Museu do Prado em Madrid, existe uma disputa entre as duas Monas Lisas. Cada museu acha que a sua é a original. O que diferencia uma da outra é o fundo do quadro. Uma tem o fundo com ciprestes, outra tem um fundo escuro, próprio de estúdio.
Você é o responsável pelas palmeiras existentes na entrada da cidade de Rio das Pedras?
Na época eu ocupava uma função pública, Rio das Pedras fez oitenta anos, eu plantei oitenta palmeiras imperiais na entrada da cidade. Fui até Limeira buscar as mudas. Nem todas sobreviveram, algumas foram derrubadas por acidentes de veículos.

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