Se alguém ainda duvida da importância de conhecermos o passado para construirmos o nosso futuro, então que revogue todos os conhecimentos acumulados pela humanidade até a presente data. J.U.Nassif

"A força está na serenidade do ânimo e no equilíbrio dos sentimentos."

quarta-feira, junho 30, 2010

Presidente da ANPAD morre em Curitiba



A comunidade acadêmica brasileira está em luto com o falecimento inesperado do Professor Clóvis Luiz Machado-da-Silva, Presidente da ANPAD, na madrugada do dia 26 de junho.
As palavras do Presidente da ANGRAD, Prof. Adm. Mauro Kreuz, manifestam o sentimento de toda a comunidade Angradiana no Brasil “estamos todos tristes e consternados por perdermos um amigo, um intelectual, um líder e um colega da academia como o Presidente Clóvis. É muito difícil encontrar palavras para externalizar o sentimento da dor pela sua partida. Que façamos das nossas orações um apelo a Deus pela sua nova vida, para que ele possa continuar nos iluminando com sua singular sabedoria, que nos encantou enquanto esteve aqui conosco”.
O Professor Clóvis Luiz Machado-da-Silva foi Presidente da ANPAD em diversos mandatos, tendo ainda prestado relevantes serviços à instituição em vários outros cargos. Grande incentivador da produção científica da área de Administração no Brasil, o professor Clóvis foi fundador e editor da RAC – Revista de Administração Contemporânea e da BAR – Brazilian Administration Review, além de servir no Conselho Editorial de diversas revistas científicas nacionais e internacionais. Era pesquisador I-A do CNPq, tendo recebido diversos prêmios científicos, Conselheiro no Advisory Board da University of Birmingham (Inglaterra) e Vice-Presidente da Iberoamerican Academy of Management. Exercia suas atividades acadêmicas como Professor Titular da Universidade Federal do Paraná e da Universidade Positivo, onde era Coordenador do Programa de Mestrado e Doutorado em Administração.
Dedicou-se por mais de três décadas ao ensino e à pesquisa nas áreas de Estudos Organizacionais e de Estratégia em Organizações, com ênfase na perspectiva institucional de análise. Suas investigações mais recentes endereçavam a questão da reciprocidade entre estruturas e ações sociais e sua simultaneidade no contexto da prática, mediante o uso de metodologias diversas, com destaque para a interpretação intersubjetiva dos atores sociais.
Em sua brilhante trajetória na academia brasileira, o professor Clóvis serviu de exemplo a toda uma geração de professores e pesquisadores e contribuiu de maneira fundamental para o aprimoramento da área de Administração no Brasil.
O professor Clóvis deixa sua esposa, duas filhas e netos.

domingo, junho 27, 2010

NATALINO CABRINI

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 26 de junho de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
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Foto by J.U.Nassif
ENTREVISTADO: NATALINO CABRINI
O leiteiro deixava o litro de leite na porta da casa e ninguém roubava. O padeiro deixava o pão, na nossa região era a famosa “bengala”, ainda não havia pãozinho francês. Havia famílias grandes que compravam mais de um litro e assim existiam cestinhas de metal para dois, quatro e seis litros. O pão era deixado embrulhado nos famosos "papel de pão" ou saquinhos de papel pardo que depois eram usados para escorrer a gordura das frituras caseiras. Ninguém pegava não. À noite, após o jantar, era hora de colocar o litro lavado no portão, que durante a madrugada seria trocado por outro, cheio. Um tempo romântico, em que as lanchonetes não ficavam abertas pela madrugada afora, poderia até acontecer de alguns jovens ao saírem de um baile, com fome e sem nenhuma opção tomassem o desjejum da madrugada com o leite e o pão alheio. Uma peraltice que o guarda civil, armado de um apito, poderia flagrar e levar o autor até a delegacia, onde o “malfeitor” seria devidamente esculachado pela autoridade de plantão. Algumas casas tinham um armário de aço, embutido na parede, com divisões e as inscrições “pão”, “leite”, “jornal”, cada uma com sua respectiva chave. O entregador abria, colocava o produto no devido compartimento, o morador retirava mais tarde pelo lado de dentro da casa. A mudança de hábitos da população é muito mais dinâmica do que foi no passado. O leite consumido pela população era in natura, quando surgiu o leite pasteurizado, além de mudar o habito de consumo, os interesses econômicos promoveram debates das qualidades dos dois produtos. A pessoa que consome o leite in natura (sem pasteurização) corre sérios riscos de contrair graves doenças como brucelose, tuberculose, listeriose. Foram feitos pronunciamentos apaixonados de pessoas bem intencionadas, discursos e artigos inflamados dos eternos políticos e oportunistas que pegam carona na falsa defesa do interesse popular, muitas vezes sem conhecimento de causa. Nesse clima Natalino Cabrini, aos 21 anos, assumiu a direção dos Laticínios Piracicaba.

O senhor é piracicabano?

Nasci em 25 de dezembro de 1924 na localidade de São Lourenço do Turvo, região de Araraquara. Sou filho de Sperendio Cabrini e Isabel Augusta Palmieri Cabrini, tinha nove irmãos. Meu pai era fazendeiro, sócio da Pasteurização Mariliense Limitada. A usina de leite tinha diversas fazendas, entre elas a Santa Hermínia, Recreio. Passei minha infância na fazenda situada no bairro Tiberão, era uma época de recursos limitados, não havia a pratica da medicina como hoje, muitas doenças eram tratadas com as tradicionais benzedeiras. Meu pai era céptico com relação a esses tratamentos domésticos. Levantávamos muito cedo, percorria a fazenda, tocava os bezerros para poder tirar leite, eu aprendi a ordenhar ainda muito novo, devia ter seis ou sete anos de idade. Tínhamos uma vaca cor castanha, chamada Favorita, era muito brava, investia em quem entrasse no pasto. Minha mãe de longe gritava: “Favorita!” Ela então parava. A iluminação a noite era a da lamparina, aos domingos jogávamos bola. Uma das minhas defesas no gol custou-me um dente! As festas de São João, Santo Antonio e São Pedro eram muito animadas. A semana santa era respeitada, na sexta-feira maior não se permitia cantar, comer carne. Eu tinha uns nove anos quando minha família adquiriu uma padaria em Padre Nóbrega, depois outra em Oriente, isso foi em 1937.

O senhor aprendeu a fazer pão?

Quem fazia era o padeiro, eu aprendi como enrolar o pão, fazíamos aquelas bolinhas de massa e depois abríamos a massa, para fazer pão d água, pão corneta, pão doce, bengala, sovado. As entregas eram feitas com carrinho de tração animal, havia um cavalo, o Alazão, que era “meio de lua”, de vez em quando disparava e corria até a cocheirinha dele. Era um cavalo bravo, forte, muito bonito. Quando acabávamos de trabalhar na padaria íamos á fazenda para transportar café da roça até a sede, colocávamos seis burros na carroça e trazíamos quinze, dezesseis sacos de uns sessenta quilos de café. Mudamos para Marília, meu pai tornou-se sócio da Pasteurização Mariliense, que fabricava os produtos Iporã. Comecei a trabalhar na usina de leite limpando o chão, todo serviço difícil o gerente Cavalini me mandava fazer. Um dia resolvi não aceitar mais as ordens dele, como meu pai não admitia que qualquer filho permanecesse sem trabalhar busquei outro emprego. Meu irmão mais velho, o Abílio, convenceu-me a retornar ao trabalho na usina de leite.
Houve uma mudança na direção da Pasteurização Mariliense?
Com a concordância do meu pai, Estevam Romera Júnior adquiriu as cotas de outros dois membros da sociedade, ele tinha sido telegrafista da Companhia Paulista de Estradas de Ferro em Piracicaba. Isso foi em 1942. O Romera assumiu a gerencia da usina, realizou mudanças no sistema operacional. Passei a ser o encarregado dentro da usina, fui mandado á rua para fiscalizar as entregas, que eram feitas em carrinho de tração animal. Os litros usavam inicialmente tampas de madeira, depois de metal, até passarem a utilizar tampas de alumínio. Em 1945 a empresa adquiriu os Laticínios Piracicaba.
Essa aquisição que o trouxe á Piracicaba?
A usina de Piracicaba estava em uma situação difícil, os desmandos administrativos abalaram sua estrutura. Fiquei muito surpreso quando o Romera disse que me mandaria para cá, pois meus irmãos mais velhos do que eu poderiam perfeitamente ocupar o cargo. Questionado pelo meu pai, o Romera disse que tinha que ser o Natalino mesmo. Dois dias depois eu estava no trem, vim até Bauru, no dia seguinte tomei o trem até Rio Claro, chegando lá o Romera alugou um carro que nos trouxe até Piracicaba.
Qual foi a primeira impressão de Piracicaba?
Foi de ser uma boa cidade, mais antiga, e o povo um pouco fechado. Fomos até a casa de José Barbosa de Mattos, situada á Rua Tiradentes, de lá seguimos á usina. No caminho fui verificando a possibilidade de me hospedar em algum hotel. O Hotel Central não era viável para mim, pelo seu custo. O Hotel Regina não dispunha de vagas, o mesmo acontecendo com o Hotel Jardineira. A usina ficava quase na esquina da Rua São João com a Rua XV de Novembro, na esquina propriamente dita havia uma casa de propriedade da família Stolf. Essa casa existe até hoje, onde por muitos anos funcionou ali a Clinica Dentaria Marcelino Serrano.
E a sua impressão quanto à usina?
Percebi de imediato que poderia melhorar as operações ali realizadas.
Ainda muito jovem, o senhor não provocou olhares de espanto por parte dos funcionários?
Senti certa hostilidade de determinados funcionários, como meu irmão tinha estado nessa usina uns dias antes para consertar uma máquina, ele havia observado o comportamento descuidado por parte de alguns funcionários, e tinha me dito a respeito. Após vistoriar a empresa, documentos, terminado o expediente, dirigi-me até o Hotel Jardineira. O proprietário era o Amilcar Orsini, disse-lhe que deveria permanecer em Piracicaba e que queria ficar no seu hotel, como não havia vaga acabei dormindo no escritório do hotel. Era um hotel com muita procura. As acomodações dos quartos não eram muito boas, mas a comida era excelente. A família Orsini morava no hotel, assim como vários estudantes da ESALQ, muitos viajantes se hospedavam lá. Havia um determinado viajante que quando se hospedava, ninguém conseguia dormir, o ronco do homem era muito forte, mesmo de portas fechadas incomodava a todos.
E o banheiro como era?
Péssimo! Era um banheiro só para o hotel inteiro. Arrumava-se uma hora em que ninguém usava o banheiro ou entrava-se na fila!
Quais clubes sociais o senhor freqüentava?
Fiquei sócio do Cristovão Colombo, do Coronel Barbosa, do XV de Novembro. O Cristovão ficava na Rua Governador esquina com a Rua São José, no andar superior de um prédio que hoje abriga uma relojoaria. Naquele tempo o presidente era o dentista Dr. Bruno Ferraioli, que gostava muito de mim, por ser assíduo nos eventos realizados pelo clube. Certa vez ele pediu-me para trabalhar na eleição da rainha do clube. Tinha que escolher as candidatas, cuidar das vendas de votos, na apuração do resultado da eleição. Trabalhei por muitos anos nessa atividade, o Álvaro Azevedo Ribeiro me ajudou.
As pretensas candidatas, sem as qualificações necessárias aborreciam?
Tinha umas que vinham atrás da gente como o rato corre atrás do queijo! Eu trabalhava e me divertia! Naquele tempo as coisas eram diferentes, as moças permaneciam sentadas nas cadeiras e os rapazes escolhiam com quem iria dançar.
E a famosa “tábua”?
Às vezes acontecia! Era a recusa da moça em dançar com o rapaz que a convidara. Ele tratava de disfarçar e sair logo da presença dela.
Lembra-se das marchinhas de carnaval?
Lembro-me sim! Algumas delas, como Bandeira Branca, Cachaça Não é Água, A Jardineira, Aurora. (Natalino põe-se a cantarolar com perfeito domínio sobre as letras).
O senhor casou-se em Piracicaba?
Casei-me na catedral em 1953, com Maria Dirce Sbravatti Cabrini. Tivemos cinco filhos: Heloisa Maria Cabrini, Claudete Aparecida, Mauro Antonio, Roberto Cabrini, Marcos Cabrini. Todos com formação universitária, sendo o Roberto mais conhecido pelo seu trabalho na televisão brasileira.
A queda do Comurba mobilizou muita gente em Piracicaba, o senhor cooperou também?
Fiz a doação de cinqüenta litros de leite, fornecidos diariamente para as equipes que fizeram as retiradas de sobreviventes e corpos dos escombros.
A Catedral de Santo Antonio foi construída como?
Foi construída uma igreja maior, preservando a antiga igreja dentro. Terminada a construção da igreja nova a velha foi demolida. Fui um dos muitos que colaboraram para a construção da nova igreja matriz. Ajudei muito o XV de Novembro de Piracicaba.
                                      Dirce e Natalino. Ao fundo Norma e Armando Dedini
                     
                                                     Natalino com o filho Roberto ao colo                                                                          
A implantação de semáforos em Piracicaba teve a sua ajuda?
A prefeitura passava por uma situação financeira delicada, o prefeito era Luiz Dias Gonzaga. O artista plástico Archimedes Dutra tinha um irmão, João Dutra, que morava encostado á usina de leite, em determinado dia o Archimedes pediu-me para colaborar com a implantação de semáforos, o que de fato fiz.
Havia outros vizinhos famosos?
Fortunato Losso e Eugenio Losso eram donos de uma propriedade junto à usina.
O senhor os conheceu?
Muito bem! Eles foram proprietários do Jornal de Piracicaba, que criticava a usina de leite. Naquele tempo o povo era contra o leite pasteurizado, achavam que era adicionada água, maisena, no leite. A divergência com o Jornal de Piracicaba era comercial, nunca pessoal.
O consumidor queria o leite in natura?
Eles queriam o chamado leite puro, leite cru. O leite pasteurizado dizia-se que sofria todo tipo de alteração. E é exatamente ao contrario, a pasteurização é a higienização do produto, é um processo que fiscaliza a origem do produto, seu transporte, o processamento, até a entrega ao consumidor.
Fatos inusitados ocorreram com o leite fornecido ao laticínio?
Em uma ocasião foi encontrado um peixe no leite vindo do fornecedor. Era um pequeno lambari. O engenheiro agrônomo Dr. Afonso Pecorari Neto, era o chefe da fiscalização, pedi-lhe que fizesse um exame de teloscopia, que é uma analise mais demorada. O resultado apontou que o leite não continha água. Pode ter sido alguém que fez algum tipo de brincadeira com o fornecedor, ou ainda esse latão de leite era utilizado também para pegar água do rio e o peixe tenha ficado no fundo do recipiente. Havia leite que chegava ao laticínio com água adicionada ao produto. O leite pasteurizado é um leite padronizado, a fiscalização sobre o produto é muito rigorosa.
Até que ano o senhor permaneceu à frente dos Laticínios Piracicaba Ltda.?
Iniciei em 7 de janeiro de 1947, permaneci até a usina ser vendida em 1965, para a Vigor.
Qual foi a sua próxima atividade profissional?
Adquiri de Antonio Sallun uma loja de roupas na Rua Governador Pedro de Toledo, próxima a Casas Bahia. Inovei, coloquei roupas prontas, implantei o sistema de crediário, vendia no atacado. Quase toda a semana ia para São Paulo para fazer compras. .
Como foi a mudança de leite para roupas?
Na época de fato houve quem achasse que eu não me sairia bem com a loja. A minha esposa teve uma atuação fundamental, ela tem muita habilidade para tratar com modas e suas tendências.

terça-feira, junho 22, 2010

HELIO DOS SANTOS MÓDICA



JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista

joaonassif@gmail.com

Sábado 19 de junhode 2010

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana

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Foto by J.U.Nassif
Hélio, tendo ao fundo as casas da então Colônia da Paulista 

ENTREVISTADO: HELIO DOS SANTOS MÓDICA

Por muitas décadas a porta principal de Piracicaba foi a Estação da Paulista. Pessoas do mais alto nível social e cultural utilizavam o trem como meio de transporte. As estradas de rodagem eram precárias e os veículos não ofereciam o conforto e segurança do trem. A cidade era abastecida por vagões de carga, assim como despachava frutos da sua riqueza pelos mesmos. A Companhia Paulista de Estradas de Ferro ficou conhecida pelo seu alto padrão de qualidade no atendimento ao público, ainda hoje a Companhia Paulista de Estradas de Ferro é lembrada com orgulho e saudade. Afinal, desde os seus primórdios, foi reconhecida como sendo uma ferrovia exemplar e símbolo de excelência. A preocupação com a pontualidade era tão grande que as pessoas diziam que acertavam os relógios na chegada dos trens. A ferrovia foi idealizada, em 1864, por um grupo de fazendeiros, negociantes e capitalistas que necessitavam de um meio de escoar o café cultivado no interior do estado de São Paulo. Pretendiam que a São Paulo Railway, a "Inglesa" ou "Santos-Jundiaí", levasse seus trilhos até a então São João do Rio Claro (atual Rio Claro), já que detinha a concessão para tal. A decisão de fundar a "Companhia Paulista" surgiu após a São Paulo Railway declarar que não seria possível prolongar a ferrovia adiante, nem sequer até a cidade de Campinas, devido às perdas com a Guerra do Paraguai. Os trilhos da São Paulo Railway chegaram só até Jundiaí. Nesta cidade começou-se a construir os trilhos da Companhia Paulista rumo ao interior de São Paulo. O presidente da província ( governador do estado) de São Paulo na época, Joaquim Saldanha Marinho, teve atuação fundamental na fundação da Companhia Paulista, aglutinando no mesmo ideal os capitalistas e fazendeiros que se digladiavam por interesses políticos naquele momento. A Companhia Paulista foi fundada no dia 30 de janeiro de 1868, sob a presidência de Clemente Falcão de Sousa Filho, porém as obras de construção da linha iniciaram-se mais de um ano após essa data, com as aprovações dos estatutos da Companhia Paulista pelo Governo Imperial. Finalmente, no dia 11 de agosto de 1872, com uma bitola de 1,60 metros, chamada "bitola larga", foi inaugurado o primeiro trecho, entre Jundiaí e Campinas. A estação da Paulista em Piracicaba foi aberta a 9 de setembro de 1922 depois de mais de vinte anos de espera e promessas de chegada do ramal da Cia. Paulista à cidade. O terreno foi doado por João Baptista da Rocha Conceição, dono da fazenda Algodoal, O nome da estação tinha a terminação "Paulista" para diferenciá-la da estação da Sorocabana, situada no centro da cidade. As linhas da Paulista e da Sorocabana não se encontravam, apenas se cruzavam (a da CP passando em um viaduto sobre a linha da EFS, existente até hoje, ao lado da Avenida 31 de Março). Em 20 de fevereiro de 1976, os trens de passageiros foram suspensos. Alguns trens de passageiros especiais para Piracicaba e Santa Barbara D'Oeste existiram nos anos 1980 e começo dos anos 1990, bastante raros. Cargas seguiram pelo ramal até 1995. Quando se questiona o porquê do fim das ferrovias, surgem diversas respostas, entre elas o entusiasmo do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira pelo transporte rodoviário. Há aqueles que afirmam ser a estatização da Companhia Paulista o fator responsável pelo declínio, os cargos de diretoria e presidência eram exercidos por indicação política, sendo ocupado algumas vezes por pessoas com total despreparo.

Helio dos Santos Módica é um dos ex-funcionários da Companhia Paulista, morou por muitos anos na “Colônia da Paulista”, pouco mais de duas dezenas de casas destinadas á residência de funcionários da empresa. Sua narrativa às vezes é tomada por emoção, lembrando-se do orgulho que todos sentiam em fazer parte dessa verdadeira família chamada Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Helio, você é natural de qual cidade?

Nasci em São Paulo, no bairro Pinheiros, em 2 de novembro de 1945, sou o filho mais velho de cinco irmãos, meus pais são Manoel Módica e Páschoa Broglio Módica, quando eu tinha oito anos de idade mudamos para Piracicaba, terra da família da minha mãe. Inicialmente fomos morar no bairro Saibreiro, hoje Jardim Elite. Depois mudamos para a Paulicéia, onde estudei na escola Prof Antonio Mello Cotrim, o Prof. Heitor Pompermayer era o diretor da escola.

Com que idade você começou a trabalhar?

Comecei a trabalhar aos sete anos na firma de consertos de enceradeiras do Belardi, eu fazia entregas. Aos doze anos fui trabalhar na Casa Asta, propriedade de Santo Pavanelli, lá tomava conta da loja, ajudava na limpeza, transportava canos de ferro. Saí para trabalhar como ajudante de pedreiro. Fizemos os muros que cercam a Santa Casa. Em seguida fui trabalhar na Padaria Inca, situada na Rua Governador Pedro de Toledo, propriedade da Dona Augusta. Eu fazia as entregas em restaurantes com uma espécie de bicicleta de três rodas, havia um baú na frente onde levava os pães do tipo bengala, filãozinho. Entrava para trabalhar ás cinco horas da manhã, fazia entrega no Hotel Central, Café Senadinho, Hotel Jardineira, Hotel Regina.

Na época a Paulicéia era bairro de gente valente?

Em todos os bairros havia pessoas dispostas a brigar. Se o pessoal da Paulicéia entrasse na Paulista o pessoal de lá nos batia. A mesma coisa acontecia se o pessoal da Paulicéia entrasse na Vila Rezende. O mesmo acontecia no Bairro Verde. Nas imediações onde está à igreja da Paulicéia era o chamado Bairro da Coréia.

Após a padaria onde foi seu próximo emprego?

Permaneci por dois anos na Inca, em seguida fui trabalhar em uma fabrica de urnas mortuárias, propriedade de Darcy Soffner, vizinha a serraria do Chico Carretel. Eu aplainava madeira, fazia enfeites do caixão, na época as urnas eram forradas com tecido. Eu ia despachar os caixões na Estação da Paulista. Existiam quatro fábricas de urnas mortuárias na cidade: do Sbrissa, do Darcy, outra na Rua Joaquim André. Na Vila Boyes também havia uma fabrica de caixão funerário.

O Chico Carretel tinha fabrica do que?

Ele fabricava principalmente carrocerias de caminhões.

Você freqüentava cinema?

Ia ao Politeama, Broadway, São José, Colonial, Palácio, Cine Paulistinha cujas poltronas eram de madeira, sem estofamento, o proprietário era o Cassano No tempo de festas juninas ao lado da Igreja dos Frades havia as quermesses, onde funcionavam barracas com diversas atrações. Era o local onde os jovens “paqueravam”. Saíamos dali e íamos dar uns “rolês” na Praça José Bonifácio, centro da cidade. Voltávamos de bonde. Eu sempre gostei muito de jogar snooker, joguei com Ary Pedroso, Rubens de Oliveira Bissom. Jogava no Snooker Bola 7 que ficava na Rua São José esquina com Rua Governador Pedro de Toledo, hoje há um edifício no local. Joguei no Snooker Bola 13 que ficava na Rua Treze de Maio entre a Rua do Rosário e Rua Alferes José Caetano.

Saindo da fábrica de urnas, você trabalhou em que empresa?

Eu tinha feito curso de desenho e torno no SENAI, ingressei em uma empresa de implementos agrícolas que ficava em frente ao barracão de carga e descarga da Paulista. Em seguida fui trabalhar com a empresa Irmãos Rosa, que prestava serviços a Companhia Paulista. Houve um concurso para a admissão de funcionários na Cia. Paulista, prestei e ingressei, isso em 1965. Vim morar na casa número 17 onde permaneci até fevereiro de 1996, quando me aposentei.

Qual era a sua função inicial na Paulista?

Era Trabalhador de Estação, transportava mercadorias com carrinho, transportava geladeira, fogão, sabão, lâmpadas, uma infinidade de itens. O chefe da estação era Ivo Pizza. Trabalhei com Polizel, Zé de Barros, João Fraceto, Lovadini, irmãos Rodrigues, Zé Paulicéia, José Paulino. Alguns motoristas que trabalharam com os caminhões da Cia. Paulista foram o Neuri, Passarim Paulo Gambaro, Oscarzinho Lacerda, que jogou no XV de Novembro.

As locomotivas eram a vapor ou a diesel?

Na minha época era todas maquinas diesel. As maquinas a vapor eram apenas utilizadas para transporte de pessoal que inspecionava trilhos, dormentes.

Na estação em Piracicaba, quantas chaves de mudança de linha havia?

Acredito que havia aproximadamente umas vinte chaves. Existia um girador de locomotivas. No barracão onde funciona o salão da terceira idade era feita manutenção de vagões. Trocavam-se rodeiros que estavam gastos, com a utilização de macacos hidráulicos.

Ao descarregar gado o trem atravessava a Rua do Rosário?

Não só atravessava como às vezes permanecia sobre a rua, impedindo a passagem de veículos, isso podia demorar algum tempo às vezes. Quem tinha que passar não tinha outra coisa a fazer senão esperar o trem movimentar-se. Nós cortávamos a composição, os vagões permaneciam descarregando, sendo movimentados na medida em que descarregavam. Havia o que chamávamos de seringa, um local por onde o gado descia do vagão para a mangueira, e mais tarde voltariam para subir em um caminhão de transporte que os levaria até o frigorífico.

Em quais ocasiões eram utilizados os vagões dormitórios?

Para viagens de longo percurso apenas, que não era o caso de Piracicaba.

Havia muita gente que vinha ver a chegada do trem?

Puxa vida, se vinha! Uns vinham para esperar parentes, conhecidos. Outros vinham para “paquerar”! Na época existiam os carros DKW, o pessoal sentava na pracinha em frente à estação, principalmente no tempo do calor. O bonde circulava, logo adiante existia a Adega do Vitório. Na primeira quadra da Rua Alferes José Caetano havia a Padaria São João, de propriedade de João Rossi. Na esquina da mesma rua com a Avenida Dr. Paulo de Moraes tinha o armazém do Roque Signhoretti. Na Rua Boa Morte esquina com a Rua Joaquim André existia a Pensão Paulista

O trem apitava quando saía?

Eram dados dois apitos, o primeiro e o segundo. Quando chega à estação vinha dando vários apitos contínuos, eram apitos para liberar a plataforma. O trem saia de São Paulo as 06h45min e chegava a Piracicaba as10h20min.

As compras para o consumo pessoal dos funcionários e suas famílias eram feitas onde?

Antigamente uma composição vinha e permanecia no pátio da estação, onde as compras eram feitas. Depois passou para a central em Campinas, tinha que ir comprar lá. Mais tarde mandaram comprar em supermercado, depois descontavam no hollerith.

Você trabalhou em outras localidades além de Piracicaba?

Permaneci por 30 anos na Companhia Paulista, em Piracicaba trabalhei por uns 18 anos, o resto do tempo prestei serviços em Campinas, Americana, Santa Barbara D`Oeste, Limeira, sempre no serviço de faturamento. Era mandado para substituir alguém, isso implicava em dobrar o meu salário pelo fato de estar em outra localidade.

As casas da Colônia da Paulista eram confortáveis?

Eram casas boas, eu gostava. A minha tinha cozinha, sala, três quartos, e o banheiro no lado de fora da casa.

Quais empresas deram origem a FEPASA na unificação das ferrovias paulista?

Foi Companhia Paulista, Sorocabana, Araraquarense, Mogiana e São Paulo-Minas. Sendo bitolas (distancia entre trilhos) diferentes, há como composições percorrerem trechos de outras de outras companhias?

É possível sim, com o auxilio de um terceiro trilho.

Você fazia entregas em Piracicaba com um caminhão da Cia Paulista?

Eram utilizados caminhões marca Ford, F-600, azul e branco. Cada caminhão atendia a um bairro. Para o centro era comum ir dois caminhões, a carroceria era aberta. A cidade inteira nos conhecia e gostava de nós. Fazíamos entrega e coleta de mercadorias. Na Boyes carregávamos tecido, no Dedini carregávamos pregos, correntes, parafusos, porcas.

Havia despacho de carga viva?

Era comum mandar principalmente para São Paulo, porcos, frangos, cabritos, todos vivos, iam dentro de um engradado individual de madeira. Cobras coletadas na região eram remetidas vivas para o Instituto Butantã em São Paulo. Colocava-se água, comida para serem ingeridos pelos animais durante a viagem.

Conheceu Dr. Jacob Diehl Neto?

Quando o conheci ele já era idoso. A casa dele hoje é um restaurante de massas, na Avenida Dr. Paulo de Moraes, em frente ao barracão de cargas da Paulista.

Conheceu alguém que criava pombo correio na Colônia da Paulista?

Antonio Barbosa era um criador de pombo correio, ele os levava aos mais diversos locais para soltá-los, ia a Santa Barbara D Oeste, Limeira, Rio Claro, Araras. Levava uma caixa cheia de pombos, soltava-os e eles voltavam á Piracicaba.








sexta-feira, junho 18, 2010

Antonio (Toninho) Marchini


PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
JOÃO UMBERTO NASSIF
Jornalista e Radialista
joaonassif@gmail.com
Sábado 12 de JUNHO de 2010
Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana
As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:
http://blognassif.blogspot.com/
ENTREVISTADO: Antonio (Toninho) Marchini
O inesquecível professor de Cálculo Integral e Diferencial Justino Castilho dizia que os números são a forma com a qual a natureza fala com os homens. Muitos profissionais que trabalham com cálculos matemáticos revelam-se grandes poetas, cantores, pintores, expressam de alguma forma o seu dom artístico. Antonio Marchini, ou Toninho Marchini, é muito conhecido em Piracicaba, por ter nascido na Água Branca, dedicado sua vida profissional por quarenta anos a uma empresa que foi orgulho para Piracicaba. Em seus momentos de folga Toninho exerceu seus dotes artísticos, embalando os sonhos de muitos casais e convidados em casamentos realizados nas igrejas de Piracicaba. Com uma voz extremamente semelhante a do cantor Nelson Gonçalves, parece invocar a presença do mesmo quando canta. Vale ressaltar que não é uma imitação do cantor, mas uma notável coincidência de timbre vocal. Com esse talento, passou muitas madrugadas cantando embaixo de janelas, acompanhado por alguns músicos com seus instrumentos, fazendo as tão românticas serenatas. É interessante observar que essas serenatas eram encomendadas por algum Romeu apaixonado, mas que não tinha talento ou coragem de dizer tudo o que sentia pela sua Julieta. Lá ia Toninho cantar e encantar com sua voz e seu conjunto musical. Um hábito quase secreto, muitas pessoas do seu circulo familiar ou pessoal nem imaginavam que aquele compenetrado contador era também um expressivo cantor. Por décadas Toninho foi muito mais do que contador da empresa Alvarco, formada pelos sócios: Marcos Contarini, Ricardo Alvarez Viñuela e Jorge Cesar de Vargas. Toninho Marchini era o quarto ponto de apoio dessa empresa que abasteceu o mercado nacional com produtos fabricados em nossa cidade, sendo os mais conhecidos as rodas de caminhão e peças para o sistema de freio.

Sua veia musical tem sua origem onde?

Acho que começou com o Jornal de Piracicaba. Meu pai vinha até a banca do João Elias, que ficava na Rua Benjamin Constant, esquina com Dr. Paulo de Moraes, comprava o Jornal de Piracicaba, onde eram impressas marchinhas de carnaval. Minhas irmãs me ensinavam a cantar, eu tinha sete anos, a mais nova tinha dezesseis anos, com isso passei a cantar inclusive na igreja da Água Branca, as pessoas achavam engraçado um menino pequeno cantando de forma afinada. Meu irmão mais velho chegou a ir para São Paulo com a finalidade de seguir a carreira artística, só que logo a saudade de casa trouxe-o de volta á Piracicaba. Eu sou barítono, ele era tenor.


Em que ano você casou-se?
Foi em 1964, ano da revolução, todo mundo dizia: “-Você é louco! Vai casar em ano de revolução!”. Casei-me com Ana Maria Calegaris, na capela do Colégio Dom Bosco de Americana, ela é natural de lá. Namoramos por cinco anos e meio, ia namorar viajando pelo ônibus da AVA, Auto Viação Americana. Nasci em 4 de julho de 1942, no bairro da Água Branca, Piracicaba, sou filho de Micheli Marchini, conhecido como Ângelo Marchini, nascido na Itália, e de Maria Mazzucato, nascida no Brasil. O primário fiz na escola do Bairro do Chicó, o preparatório e primeiro ano ginasial fiz no Colégio Dom Bosco. Em seguida fui estudar como seminarista salesiano na cidade de Lavrinhas em Minas Gerais. Quando deveria vir para Pindamonhangaba para fazer o noviciado desisti de seguir a carreira religiosa.

A sua vocação para sacerdote foi descoberta como?

O Padre Baron foi um dos precursores do Colégio Dom Bosco de Piracicaba, ele tinha um irmão, Seu Santo Baron, que trabalhou inicialmente na lavoura também no bairro Água Branca, onde meu pai tinha uma olaria, que vendeu e doou muito tijolo para a construção do colégio. A amizade entre o meu pai e Santo Baron, acabou aproximando meu pai do Padre Baron. Entusiasta da carreira religiosa, esse padre buscava despertar a vocação dos jovens para o sacerdócio, sendo o responsável pelo encaminhamento de muitos jovens para Lavrinhas, onde aqueles que tinham vocação poderiam prosseguir nos estudos até tornarem-se padres. Para mim foi ótimo ir para lá, havia mais de 120 pessoas no seminário, eu e outro seminarista por dois anos fomos os encarregados de lavar a louça da cozinha. Ganhei uma impressionante prática em lavar pratos! Minha ocupação principal era cuidar do teatro, foi construída uma nova igreja e o teatro do seminário passou a ocupar o local da antiga igreja. Realizamos as obras necessárias, aprendi como fazer instalações elétricas, conhecimentos que utilizei mais tarde, posso dizer que conheço bem o assunto. Trabalhei na iluminação de palco, efeitos especiais, fiz algumas participações em encenações de peças.


Você costuma lavar os pratos em casa?

Não!

Qual era o meio de transporte utilizado no tempo em que estudou no Colégio Dom Bosco de Piracicaba?

Eu e Irineu Razera vínhamos de bicicleta. Nos dias de chuva tomávamos chuva, ás vezes meu pai nos levava de charrete, era um tempo diferente, do bairro Taquaral chegava um carroção tracionado por dois ou três burros, com vários estudantes do colégio. O Nozella que foi gerente do Banco Mercantil vinha a cavalo; Osmar e Pedro Furlan vinham de charrete do bairro rural Chicó.

Após o período no seminário em Lavrinhas qual foi o próximo passo?

Estudei por um período no Dom Bosco, em seguida fui estudar o curso Técnico em Contabilidade no Colégio Piracicabano. Em 1974 na Unicamp fiz os cursos de Custo Industrial, Administração Financeira, Marketing e Planejamento e Controle de Produção.

Antes de entrar na Alvarco trabalhava onde?

Na empresa Implementos Agrícola Antonio Dedini, situada em frente ao barracão de cargas e descargas da Estação da Paulista, onde hoje se joga boliche. Ao lado havia a fabrica de vassouras Canta Galo, de propriedade de Giovanni Ferrazzo que gostava muito de cantar e tocar violão. Lembro-me de que ás vezes ia até a cidade de Matão, buscar peças, dirigindo um caminhão Opel, cambio seco. Um dia passei em frente ao local onde foi a Alvarco, estavam mexendo em uns fios, tudo indicava que uma nova empresa estava surgindo. Disseram-me que o contador, João de Oliveira Dorta, era a pessoa indicada para conversar. Na época eu fazia a contabilidade com escrita manual, e ele ia me ensinar a fazer a contabilidade mecanizada. Pensei que era uma oportunidade caída do céu. Além de contabilidade passei a mexer com almoxarifado, fiz um curso a respeito, aprendi a fazer fichas pelo sistema cardex.

Como era a Alvarco quando você passou a ser funcionário da empresa?

Existiam dois barracões, uma balança e um pequeno escritório com frente para a Avenida Dr. João Conceição. Anteriormente tinha pertencido a empresa Amaral Machado. Foi instalado um forno e a empresa passou a funcionar. Em seguida, no piso superior, foram construídas as instalações administrativas da empresa e os apartamentos dos proprietários da Alvarco.

Os proprietários Marcos e Ricardo se conheceram em São Paulo?

Eles trabalhavam em uma empresa chamada Omega. Fazia exatamente o que a Alvarco iniciou fazendo aqui: tambores de freio e peças para chassi de caminhão. O Sr. João Contarini, pai do Sr. Marcos Contarini, foi funcionário, por longos anos até a aposentadoria, do Sr. Paschoal D’Abronzo. Foi um funcionário padrão e por gratidão o Sr. Paschoal D’Abronzo, lhe fez uma promessa: “-Quando seu filho Marcos Contarini terminar o curso de torneiro mecânico na escola SENAI, eu monto uma oficina mecânica para ele”. O Sr. Marcos Contarini, trabalhava nas Indústrias Dedini, moço com a cabeça cheia de ideais foi exercer seu ofício em São Paulo, na empresa Omega. Lá conheceu um espanhol recém chegado ao Brasil, chamado Ricardo Alvarez Viñuela, ferramenteiro, com quem de imediato fez grande amizade e confidenciou a proposta que o pai tinha recebido do Sr. Paschoal D’Abronzo. Nesse meio tempo, o Sr. Paschoal D’Abronzo veio a falecer. No dia do velório do Sr. Paschoal D’Abronzo, o Sr. Jorge Cesar de Vargas, sabendo da promessa, confidenciou ao Sr. João Contarini: “-Eu cumpro a promessa do meu sogro Sr. Paschoal D’ Abronzo e no dia em que seu filho quiser voltar à Piracicaba eu monto uma oficina mecânica para ele”. Marcos Contarini e seu amigo Ricardo Alvarez Viñuela, já tinham exercido várias atividades dentro da empresa Omega, desde a área de engenharia, fundição, mecânica. Resolveram vir à Piracicaba e conversar com o Jorge Cesar de Vargas e assim montaram em 1954 as INDÚSTRIAS MECÂNICAS ALVARCO LTDA. De propriedade de Jorge Cesar de Vargas, Marcos Contarini e Ricardo Alvarez Viñuela, em partes iguais, 100% financiada por Jorge Cesar de Vargas. A junção dos nomes dos três formou a marca ALVARCO, AL(varez)VAR(gas)CO(ntarini), forte em todo território nacional. A empresa passou a funcionar em um prédio alugado na Vila Rezende, o Ricardo dormia no prédio.

Qual foi a sua participação nas obras das Alvarco na Rua do Rosário esquina com a Avenida João Conceição?

Tive participação efetiva, entre algumas realizações fiz a administração de materiais para a obra, lembro-me que aos fins de semana, na ausência dos proprietários, cheguei a molhar as lajes de concreto. Tinha por habito ir ao escritório aos domingos, olhava algumas coisas.

Você foi um dos primeiros funcionários administrativos contratado pela Alvarco?

Quando fui contratado havia um funcionário morador de Rio das Pedras, o Flauri, que estava saindo da empresa O Robertinho Franhani era contínuo, o Sr. Luis Antonio Luis Santos de Almeida já trabalhava lá.

Como você assumiu a contabilidade da Alvarco?

O João de Oliveira Dorta, Ciro Mendes e Araripe Castilho montaram uma empresa de móveis tubular, com a saída do João fui convencido a assumir a contabilidade da empresa. A Alvarco evoluiu muito rapidamente, com a importação de algumas máquinas da Alemanha ela deslanchou. O Seu Ricardo construiu uma maquina de granalha que dava uma excelente apresentação ás peças produzida. O fato de chamar indústrias, no plural, era pelas múltiplas atividades sem terceirizar etapas, a cadeia produtiva da Alvarco era muito grande. Foi uma empresa que contribuiu muito para Piracicaba, para o Estado.

Quantos funcionários trabalhavam na empresa?

No bairro da Paulista, em 10.000 metros quadrados chegamos a ter 350 funcionários.

Ao lado da Alvarco existiam os trilhos da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, com instalações próprias para carga e descarga de gado vivo. Você chegou a presenciar essa movimentação de animais?

Vi sim! Cheguei a ir á Campinas com o Deputado Dr. Jairo Ribeiro de Mattos, para solicitar a permissão de fazer uma parceria com a Companhia Paulista e trazer ferro gusa e carvão coque. Não conseguimos.

A área da Cia. Paulista, que hoje está cercada e com um portão de ferro ao lado do Restaurante Frios Paulista, ia até onde?

Passava ao lado da Alvarco, saia na Rua Campinas, tinha um bico que fechava a Rua Campinas. Vinha confrontando com as casas existentes até a Rua do Rosário. Havia um pequeno lote de terras que não deixava a área chegar até a Avenida Nove de Julho. Os trilhos estavam assentados no nível da Rua do Rosário, a terra que existia até então foi retirada, era um terreno bem alto.

Da sua janela dava para ver a Estação da Paulista?

Conseguia ver muito bem a estação. Logo a minha frente havia um virador de locomotivas a vapor. Via a lavagens dos vagões com água quente, saia uma fumaça desse processo de higienização, os carros de passageiros saiam com o encosto de cabeça branquinho. A Companhia Paulista era um brinco.

Onde é hoje um posto Petrobras de combustíveis havia um posto e um restaurante, na esquina da Avenida Dr. Paulo de Moraes com a Rua do Rosário?

Era o Posto Canta Galo, que tinha anexo um Bar e Restaurante, o proprietário era Giovanni Ferrazzo, cheguei a cantar com ele. Pedro Chiquito trabalhava nesse posto como lavador de carros. Pedro Chiquito, um grande cantador de cururu, uma sumidade, deveriam falar “doutor” para ele. Ele cantava ao lado da Igreja dos Frades, nós íamos assistir suas apresentações, quando a trova era sobre a bíblia ninguém ganhava dele. A história de Piracicaba ele começava desde as origens em Itu, vinha descrevendo as famílias que deram origem a cidade. Quando eu era criança, Pedro Chiquito trabalhava em construções, meu irmão levava tijolo para as obras e eu ia junto, na hora do almoço enquanto os demais trabalhadores descansavam ele ficava lendo um pedaço de papel. Curioso como toda criança é, fiquei sabendo que ele estava memorizando um trecho da bíblia ou de um jornal que tinha algum assunto para depois ser cantado no cururu.

Você sempre foi muito meticuloso?

Sergio Defavari trabalhou muitos anos comigo, ele dizia que tinha orgulho de entrar na Alvarco com a luz apagada e pegar a pasta que fosse necessária, sem acender a luz. Eu tinha rascunhado o escritório da Alvarco quando foi construído, fiz um layout para cada armário fiz o seu desenho correspondente, marcava lado direito e esquerdo, para cada prateleira tinha escrito no papel lado direito 1, 2, 3 assim sucessivamente, o mesmo fazendo para o lado esquerdo, no papel estava relacionado o conteúdo de cada armário, ninguém se atrevia a colocar nada fora do lugar. Eu era muito exigente com relação a essa ordem. Um dia recebi a visita de um fiscal de Piracicaba, ele começou a solicitar documentos, passei-lhe a pasta que tinha o desenho dos armários, repartição com os documentos correspondentes e disse-lhe: “-O que o senhor precisar é só olhar na pasta onde encontrará exatamente a localização do documento que julgar necessário”. Ele ficou abismado. Um dia ele me ligou, queria levar uma pessoa para conhecer o escritório da Alvarco. Era o encarregado de organizar todos os postos estaduais do Estado de São Paulo. Recebi o visitante e dei-lhe a pasta que servia de índice para achar determinado documento. Na escrivaninha de cada funcionário tinha uma tabua retrátil, geralmente usada como apoio,eu exigia que fosse colocado um papel, do qual eu tinha uma cópia, discriminando o conteúdo de cada gaveta. Naquele tempo não existia computador, era tudo feito no papel.









quarta-feira, junho 09, 2010

Francisco Corrêa Garcia

PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS

JOÃO UMBERTO NASSIF

Jornalista e Radialista

joaonassif@gmail.com

Sábado 04 de junho de 2010

Entrevista: Publicada aos sábados no caderno de domingo da Tribuna Piracicabana

As entrevistas também podem ser acessadas através dos seguintes endereços eletrônicos:

http://blognassif.blogspot.com/

http://www.tribunatp.com.br/

http://www.teleresponde.com.br/

 

ENTREVISTADO: Francisco Corrêa Garcia

No próximo dia 20 de setembro Francisco Corrêa Garcia, mais conhecido como Chiquinho Correia, estará completando 96 anos. Parou de dirigir faz pouco tempo, mas ainda monta a cavalo, “desde que seja um cavalo manso” reforça. Uma história de vida em que os desafios sempre foram constantes e aos quais sempre enfrentou com muita coragem, determinação e retidão de caráter. Portador de acentuada miopia desde a infância só usou óculos após passar por consulta com o Dr. Penido Burnier na cidade de Campinas. A deficiência visual já tinha provocado graves transtornos na vida do jovem Chiquinho. Descendente de espanhóis, foi agricultor de alho em larga escala, produzindo mais do que o mercado consumia, mandava alho para Americana, São Paulo. Duas paixões tomavam conta do seu tempo de lazer: cururu e truco. O jogo de truco, ou truque, era na base do “leite de pato”, ou no máximo jogava-se valendo “uma janta” que a dupla perdedora pagaria. Sempre com todos os jogadores desfrutando do jantar e da companhia. O jogo de truco, ou truque, ao que consta é um jogo praticado inicialmente por imigrantes italianos, caiu no gosto popular e foi adotado em muitos lugares do interior de São Paulo. É um jogo onde as cartas do baralho fazem parte, mas requerem extrema vivacidade e malícia dos jogadores, o blefe é uma das artimanhas mais utilizadas, saber quando ocorre é essencial para ganhar-se o jogo. É comum os jogadores levantarem o tom da voz gritando: “-Truco!” O adversário pode retrucar “-Seis” e assim por diante. Quem nunca assistiu a um jogo de truco pode achar que os jogadores estão brigando, tamanha a algazarra que é feita!

O senhor é nascido em Piracicaba?

Nasci no Bairro do Pau D`Alhinho, Município de Piracicaba, em 20 de setembro de 1914, sou filho de Francisco Corrêa Rodrigues e Gracia Garcia Moral Munhoz. Meu pai veio da Espanha com oito anos e a minha mãe com vinte anos, vierem em épocas diferentes. Inicialmente meu pai morou na Fazenda Pau D`Alho, depois mudou-se para um sítio no Bangé, adquirido pela família. Ele foi vender laranja na Fazenda Pau D`Alho, quando conheceu a minha mãe. Casaram-se, permanecendo um ano no sítio do meu avô, comprou então um sítio no Pau D`Alhinho, que foi o lugar onde nasci.

Lembra-se do antigo Mercado Municipal?

Conheci o Mercado Municipal no tempo em que em frente era terra nua, não havia calçamento. Para vender os nossos produtos estendíamos um encerado no chão para colacar os produtos em cima. Eu era ainda menino quando comecei a vir ao Mercado para vender verduras. O prédio era pequeno, depois foi aumentando. Lá, aos 24 anos de idade, conheci a minha esposa Isaura Lopes, ela tinha 15 anos. Namoramos por três anos e nos casamos em 1941, na Igreja Sagrado Coração de Jesus, mais conhecida como Igreja dos Frades. Um casamento que permaneceu por mais de 67 anos, Em 1998 minha esposa ficou doente, perdeu 88% da memória, faleceu em 29 de outubro 2008, tivemos três filhos: Francisco, José e Manoel. Ainda solteira, ela morava na Rua do Rosário, na Paulista, era uma rua sem asfalto naquela época. Sou cunhado do Isidoro (Nenê) Lopes, do Antonio Lopes, moradores da Rua do Rosário. Quando me casei tinha vinte e sete anos e minha esposa dezenove anos. Fui á luta, fui trabalhar no sitio levando apenas uma enxada na mão.

Com que condução o senhor vinha vender seus produtos em Piracicaba?

Vinha com carrinho de tração animal, demorava uma hora e meia para chegar, fazia esse percurso uma vez por semana. Trazia verduras, repolho, pimentão, berinjela, alho. No Mercado Municipal não tinha comprador para toda a quantidade de alho que eu produzia. Os viajantes de Americana, São Paulo chegavam ao Mercado e falavam com os corretores que sabiam que eu tinha alho. Iam até o meu sítio e efetuavam a compra. Levavam o alho com caminhão.

O senhor fazia réstia de alho?

Fazia réstia! O alho era todo trançado, com 50 cabeças de alho, o milheiro de cabeças de alho era composto por 20 réstias. Nós fazíamos réstias com 52 cabeças de alho, com duas cabeças a mais.

Quanto tempo o senhor levava para fazer uma réstia?

Eu fazia por noite de 20 a 25 réstias. Passava o mês inteiro trançando alho, ia deitar lá pela meia noite, uma hora da madrugada, minha mulher trabalhava comigo. Levantávamos cedo, ás cinco horas já estávamos em pé, ia para a roça no clarear do dia. Eu tinha uma várzea muito boa onde plantava arroz. Ás vezes o Rio Piracicaba enchia muito, as águas entravam pelo Ribeirão do Garcia e inundavam a várzea, perdia todo arroz.

O senhor caçava?

Nunca peguei uma espingarda para caçar!

E pescar?

Meu pai tinha um sítio que tinha quatrocentos metros de barranca de rio, nunca armamos uma rede, nunca pescamos. Só trabalhávamos. Nós víamos os pescadores a cada 100 metros pegavam um dourado, a Ilha das Flechas ficava em frente a propriedade do meu pai.

Qual era a alimentação básica?

Comíamos arroz e feijão, verduras, leite, de vez em quando um franguinho, ovos, batata frita. Quando vinha ao Mercado comprava sardinha. No período em que trançava alho, ás 10 horas da noite minha esposa fazia uma espécie de polenta, bem feita e colocava açúcar, nós comamos e ferrávamos de novo a trançar o alho.

E a famosa miga?

No tempo da minha mãe nós comíamos. Minha esposa sabia muito bem fazer a miga. É uma comida que dá muito trabalho, tem saber fazer. Existem dois tipos de migas. Uma é feita com fubá, farinha de trigo, e muita banha de porco. Tem que ser bem cozida e mexer muito bem para ficar miudinha. Outra forma de fazer é a “miga em tortilla”, feita só com trigo e banha, é muito gostosa, dá muito trabalho para fazer. Meu pai contratava camaradas para trabalhar no seu sítio, isso na época em que o mato crescia junto ás plantações, era necessário cortar. Esses camaradas diziam: “Dona Gracia que comida a senhora vai fazer hoje?” Ela respondia: “-Vou fazer arroz e feijão.” Eles retrucavam: “Não Dona Gracia, faz uma miga!”. Não eram espanhóis ou descendentes, eram negros. Quando se come um prato de miga irá estar o dia todo sustentado, é uma comida forte.

Que tipo de lavoura era a sua?

Plantava de tudo, menos cana-de-açúcar. Plantei alho em grande quantidade, algodão, cereal. Cheguei a plantar três sacos de sementes de alho, adquiri um sitio, e fui lutando muito. O pouco que tenho agradeço á Nosso Senhor Jesus Cristo, á Virgem Maria e á minha mulher.
O senhor continuou a levar produtos para serem vendidos no Mercado Municipal?

O Mercado foi melhorando, passou a ter maior área coberta, tinha mesas para as mercadorias á venda serem expostas, no começo, quando eu ia com o meu pai.

Aos noventa e cinco anos, o senhor ainda monta a cavalo?

Só em animal muito manso!

 

Quantos quilômetros o senhor andava a cavalo do seu sítio no Bairro do Garcia até outro sítio onde tinha gado no Tanquã?

A distância de um lugar ao outro é de 50 quilômetros, por uns sete anos eu ia e voltava uma vez por semana. Saía ás três horas da madrugada, olhava o gado e voltava á noite, onze horas, meia noite, percorrendo na ida e na volta o total de cem quilômetros. Tinha um cavalo muito bem cuidado, atravessava por um atalho, a noite bambeava a rédea do cavalo e ele fazia o trajeto de forma correta. Praticamente era ele quem nos guiava. Chamava-se Alazão. (Chiquinho se emociona ao lembrar-se do animal). É difícil achar um cavalo como aquele!

Quando o senhor mudou-se do sítio para a cidade de Piracicaba?

Foi em 1957, vim morar na Rua Campinas, aqui conheci muitos amigos, José Nassif foi um dos meus grandes amigos, que tinha em sua companhia dois filhos, um deles chamado Marco, que ás vezes passava em casa, sempre lá pelas três horas da tarde e dizia: “Seu Chico, papai quer que o senhor vá jogar um truquinho lá”. Com meu parceiro Zé Birolo, subíamos até a casa do José Nassif, divertíamos até as dez horas da noite, em uma harmonia como se fosse da família. Depois o Marco ficou mocinho, veio o filho dele chamado João que dizia: “-Seu Chiquinho! Papai falou para o senhor ir jogar uma trucada!” Isso aconteceu por muitos anos, nunca tivemos um descontentamento. José Nassif tinha um irmão médico, o coronel João Nassif, toda vez que ele vinha de Curitiba á Piracicaba visitar a família eu era convidado para jogar truco. Sempre gostei muito de cururu e jogo de truco. Aos sábados eu dizia: “Seu Zé! Dez horas vou ao cururu!”. Ele não queria que eu fosse, mas eu ia. Isso no tempo dos cururueiros Bastião Roque, João Davi, Zico Moreira, Pedro Chiquito, Nhô Serra, eram todos meus amigos. No truco joguei muitas jantas (jantares), só consegui ganhar amigos. Nunca tive um descontentamento com os parceiros de truco, quando iam a minha casa, na hora de nos despedirmos, nós nos abraçávamos. Na casa do meu amigo Zé Nassif apareceu muitos jogadores afamados, nós sentávamos para jogar, eles ganhavam, após algumas partidas percebíamos que o jogo não estava certo, quando era descoberta a marca do baralho eles levantavam e iam embora. Alguns jogadores de truco levavam um baralho novo, com suas próprias marcas. Ganhei muitos amigos no jogo do truco.

As jantas, ou jantares, onde eram feitas?

Joguei varias jantas no Porto João Alfredo (Artemis), era feita em um bar que também servia a comida, era quatro jogadores daqui contra quatro jogadores de lá, meu parceiro era o Juvenal. A outra dupla era formada por Juca Jordão e Chico Penha. No Pau Queimado quem fazia a janta era o José Alonso. Jogamos valendo janta na Bassororoca, na casa do Chico Gomes, no então bairro rural São Jorge (hoje urbanizado), na Rua do Rosário. Em muitos lugares as esposas dos jogadores faziam a janta. Na Rua do Rosário, havia um bar cujo dono era um japonês onde joguei um torneio com o parceiro Lupércio Ferraz, havia umas cinco duplas participando, Lupércio e eu ganhamos o torneio. Ás vezes acabava “perdoando” o adversário perdedor e dividíamos as despesas da janta!

A sua casa da Rua Campinas foi construída pelo senhor?

Eu comprei a casa pronta, no quarteirão em que eu morava, Rua Campinas entre a Rua Edgar Conceição e Avenida do Café, havia várias casas, do Fiori Novello, Francisco Moraes, José Grella, no quarteirão em frente não havia nenhuma. Mais tarde Alfredinho Casarim e outros construíram suas casas ali.

O senhor conheceu o Dr. Francisco Salgot Castilon?

Conheci, devo obrigação á ele. No Tanquã existia um senhor com 110 anos, chamava-se Benedito, não tinha ninguém que olhasse por ele. Dois amigos meus, Aristides Pires e Manoel Martins, disseram que o Seu Benedito estava muito doente, havia a necessidade de internação. Com o meu jipe trouxe-o até a Santa Casa, onde me disseram que não havia vaga para interná-lo. O médico Dr. Omir Dias de Moraes, a quem devo essa obrigação, morava próximo ao mercado, ao procurá-lo contei-lhe o ocorrido. Voltei a Santa Casa com um bilhete do Dr. Omir. Imediatamente arrumaram acomodações ao Seu Benedito. Após permanecer por 30 dias internado, com o auxilio do Dr. Salgot, conseguimos levá-lo para o Lar dos Velhinhos, onde terminou o resto dos seus dias. O pessoal da Santa Casa foi até Serra Negra, hoje Ibitiruna, onde levantaram a data de nascimento do Seu Benedito, estava escrito na uma ficha do paciente, na cabeceira da cama, idade: 110 anos!

O senhor conheceu Vitório Fornazier?

Muito! Ele tinha venda no Pau D`Alhinho, adquiriu de João Sabino Barbosa a esquina da Rua do Rosário com Avenida Dona Jane Conceição, hoje Super Mercado Balan. João Sabino, outro grande amigo, morou no Bangé ainda criança, éramos amigos desde aquela época teve barbearia na Rua do Porto, na Rua do Rosário, colocou uma máquina de beneficiar arroz e uma venda tinha uma grande freguesia.

Onde atualmente é a Padaria Takaki, na Praça Takaki existia uma venda?

Era de propriedade de Antonio Lucas.

Conheceu algum frangueiro?

Conheci vários. Silvério Correa, Bepe Molina, Antonio Granal, Zé Patrício, Mathias, Regolim, Antonio Angelocci, levavam de tudo, pão, miudeza, linhas, agulhas, trocavam com ovos, frangos.










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