O BAILÃO DA HISTÓRIA
06/07/2026
Primeiro de Agosto. Tem cidade
que comemora aniversário com bolo. Piracicaba prefere baile. A Noiva da Colina
veste sua melhor roupa, reúne seus cerca de 420 mil convidados e entra no salão
com a elegância de quem já viu muita música boa... e muito maestro desafinar. Em
259 anos, dançou valsa, samba, moda de viola e até ritmos que ninguém conseguiu
entender. Recebeu aplausos, flores e alguns "pisões"
daqueles. Mas cidade forte faz assim: sacode a poeira, ajeita o vestido e volta
para a pista. Nada no universo fica parado. A Terra gira, o Sol marca as horas,
o Rio Piracicaba segue seu caminho e as paineiras mudam de roupa conforme a
estação. Quem para perde o ompasso. Cidade também. Administração que enrola
acaba dançando, e quem paga a banda é sempre o povo. Lá no canto tem o time do
Nhô Quim, há um cochicho entre:
Cáxara de Fórfe, Cúspere de
Grilo, Bícaro de Pato, Ásara de Barata, Nhéque de Portêra, Suvaco de Cobra, Sem
Óio de Bréque, Ócúlos de Raiban...O Cáxara de Fórfe pergunta:
— Cumpadi... ocê viu o home?
— Vi.
— Prometeu balé... tá pareceno casamento de siri.
O Cáxara sorri:
— Pior é nóis pagá a banda...
E todos caem na risada. O humor piracicabano sempre soube
criticar sem perder a leveza.
E o sotaque faz parte da festa.
— Vamo armoçá?
— Pega o tarco.
— Óia a arface!
Nesse embalo entra em cena o XV de Novembro. Nem toda
partida termina em goleada, como nem toda administração termina em aplausos.
Tradição ajuda, mas não resolve. É preciso planejamento, organização, união e
trabalho. Cidade nenhuma conquista o campeonato do desenvolvimento apenas no
grito da torcida. Quem é de fora estranha. Quem é daqui reconhece um pedaço da
própria história. Enquanto isso, o Rio Piracicaba continua correndo. Já viu
tropeiros, usineiros, pescadores, estudantes, artistas, prefeitos, vereadores e
candidatos. Nunca interrompeu seu curso por causa da política. Apenas ensina
que água parada cria lodo; cidade parada cria atraso.
O Ásara de Barata pergunta:
— Cumpadi... será que agora o baile engrena?
O Suvaco de Cobra responde:
— Música bonita inté que tem. Quero vê num desafiná
depois da primeira dança...
Promessa de campanha é igual música de baile: algumas
ficam na memória; outras acabam
antes do refrão.Piracicaba cresceu porque muita gente
acertou o passo: governantes que deixaram boas marcas, trabalhadores,
empresários, agricultores, professores, artistas e famílias que construíram, geração
após geração, uma cidade admirada. Agora surge uma ideia diferente: pensar
Piracicaba não apenas para a próxima eleição, mas para os próximos vinte anos.
Há quem ache exagero.
— Vinte ano? Num consiguimo arrumá a rua da esquina!
A piada diverte, mas também alerta. Quem vive apagando
incêndio nunca planta árvore. E
quem não planta hoje sentirá falta da sombra amanhã.
Planejar não significa esquecer saúde, educação,
segurança, moradia, trânsito ou enchentes. Significa resolver o presente sem
abandonar o futuro. Administrar uma cidade é reger uma orquestra. O prefeito
levanta a batuta, os secretários afinam os instrumentos, os servidores fazem a
música acontecer e a população compra o ingresso mais caro de todos: os
impostos.
Quem paga não quer ensaio.
Quer transparência.
Quer respeito.
Quer resultado.
Na época das eleições, o salão se enche de novos
dançarinos. Uns mostram equilíbrio. Outros
tropeçam antes da primeira música. O tempo, porém, é o
único jurado que nunca erra a nota.
Se olhar vinte anos à frente
for um compromisso verdadeiro, vale apostar. Quem planta um jequitibá sabe que
talvez não aproveite sua sombra, mas planta pelos filhos, pelos netos e por
quem ainda vai nascer. É assim que administrações viram legado.
Mas planejamento sem trabalho é baile sem música. E
discurso sem resultado é sanfona sem fole.
No fim da festa, o Cúspere de Grilo pergunta:
— Cumpadi... a Noiva da Colina já levô um mundaréu de
pisão, né?
O Nhêque de Portera sorri:
— Levô... mais nunca saiu da pista. É por isso que
continua bunita.
Os governantes passam. Os partidos trocam de par. As
eleições terminam. Mas a Noiva da
Colina continua dançando.
Que Piracicaba celebre seus 259
anos com alegria e sabedoria. Que os quot;pisões"
da política sejam menores que os passos do desenvolvimento. Que a transparência
seja a partitura, o respeito seja o compasso e o bem comum seja a música.E que,
quando chegar o aniversário de 279 anos, o Rio Piracicaba continue correndo e
possa dizer à Noiva da Colina:
— Dançou bonito... porque nunca parou de aprender.
Walter Naime
Arquiteto-urbanista
Empresário.
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